quinta-feira, 28 de agosto de 2014

18 pontos, seis milhões de euros, honra e prestígio

Quatro coisas pelas quais o FC Porto vai ter que lutar na fase de grupos da Liga dos Campeões: 18 pontos, 6 milhões de euros, restaurar o prestígio e recuperar a honra depois da péssima Champions de 2013-14 e de uma despedida desoladora da Liga Europa, em Sevilha.

Ninguém poderá afirmar que o sorteio foi o pior possível, pois o FC Porto não apanhou o adversário mais forte de nenhum pote, mas isso não é garantia de nada. A Champions está carregada de PSVs, Petrzalkas e APOELs prodigiosos em surpresas. E se nas últimas duas bolas do sorteio respirámos de alívio por calhar o BATE e não a Roma, vamos recordar que este é o BATE que deu um banho de bola na Bielorrússia ao Bayern de Munique, em 2012-13.

Mas reconhecer as dificuldades, nesta casa, não diminui a ambição, aumenta-a. Os oitavos-de-final são claramente uma meta a atingir. Contra o Shakhtar poderá haver a vantagem de jogar em campo neutro (e há que verificar as malas antes da viagem de regresso, não vá o Bernard enfiar-se lá à socapa), começamos por jogar em casa contra a equipa teoricamente mais fraca do grupo e Lopetegui certamente conhece melhor que ninguém os bascos de Bilbao.

Em suma, as dificuldades que o grupo tiver para oferecer vamos aceitá-las todas de bom grado. O FC Porto não construiu um bom 11, construiu um bom plantel, que ainda poderá receber uma ou duas caras novas até segunda-feira. Não vamos secundarizar campeonato ou Europa, pois há um plantel que com uma boa rotação, feita por quem sabe lidar com egos e super-egos, pode garantir um FC Porto competitivo nas duas provas. Não esquecendo as Taças, claro.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Primeiros objectivos da época cumpridos: estamos onde tínhamos que estar!

Missão cumprida
Ao FC Porto de Lopetegui pedia-se, como primeiro objectivo, o apuramento para a Liga dos Campeões e vitórias nas duas primeiras jornadas do campeonato. Está feito! Percurso imaculado nos primeiros 4 jogos da época, sem sofrer golos, uma marca notável tendo em conta que no espaço de meio ano o FC Porto perdeu Helton, Otamendi, Mangala e Fernando. E apesar da fase precoce da época, o consulado de Lopetegui permitiu desde já que jogadores como Danilo, Maicon, Alex Sandro e Jackson recuperassem a melhor forma e que nomes como Indi, Brahimi e Óliver comecem já a dar cartas como reforços. Era difícil pedir mais em tão pouco tempo.

Para completar o primeiro ciclo da época, antes das paragens para as selecções, resta vencer o Moreirense, equipa bem organizada, bem treinada e que ainda não sofreu golos. Defensivamente o FC Porto está forte, mas é preciso mais ideias na saída de bola, maior caudal ofensivo, colocar mais bolas em zona de finalização  (bastou Brahimi lá meter uma para Jackson marcar!) e rematar mais. A evolução será natural e progressiva, porque a matéria prima é de qualidade. E quem a conseguiu reunir também saberá certamente tirar o melhor partido dela.





Porto seguro (+) - Maicon afirmou-se como a voz de comando da defesa e continua a fazer um excelente início de época. Está mais rápido na antecipação e mais forte na impulsão. Danilo está a cobrir melhor o flanco e também melhorou no desarme, enquanto Alex Sandro está mais acutilante e agressivo nas subidas pelo flanco. Reyes, desta vez, não tremeu, mesmo a entrar a frio, e Martins Indi adaptou-se com facilidade à posição de lateral e está a revelar grande entendimento com Maicon. Por mim, aqui não se mexeria mais.

Brahimi (+) - Um belo golo de livre e uma assistência no seu primeiro jogo europeu no Dragão. Tem um drible em espaço curto muito acima da média, e apesar de ter a capacidade de desequilíbrio de um extremo sabe pensar e passar como um médio. Já ganhou a empatia dos adeptos, o que num match-winner pode fazer toda a diferença. E se a assistência para Jackson mereceu destaque, a finalização do Cha Cha Cha foi soberba e não está ao alcance de qualquer um.

Evandro e saber mexer (+) - Lopetegui sabe responder às necessidades do jogo e resiste, e bem, à tentação de fazer substituições só para agradar à plateia. A entrada de Evandro foi decisiva para a vitória do FC Porto. Foi dos pés dele que nasceu o lance do 2-0 e reequilibrou e deu qualidade de passe ao meio-campo. Herrera é incansável na pressão e na luta, mas Evandro começa a pedir a titularidade, até porque Rúben Neves é o único médio a ter sido titular em todos os jogos e não deixa de ter que ser um caso gerido com o devido cuidado e paciência.





Objectivação (-) - O FC Porto é forte na circulação, pressão e recuperação da posse de bola. Falta espremer melhor esta supremacia. Há que tentar fazer a circulação em zonas mais adiantadas do terreno, pois muitas vezes o FC Porto demora demasiado a sair do seu meio-campo. Quanto mais tempo demorar, mais condições o adversário terá para se reorganizar. Isto é algo que surgirá com o tempo, mas é preciso criar mais situações de finalização e rematar mais (o guarda-redes do Lille chegou ao intervalo sem fazer uma defesa). O FC Porto de Lopetegui é uma equipa dominadora e controladora, não trituradora, mas ao longo da época será preciso mais ofensivamente.

«FC Quaresma» (-) - Triste, triste figura dos adeptos do «FC Quaresma» no momento em que Ricardo, um miúdo de 20 anos, se preparava para desfrutar do sonho de disputar um jogo de Champions com a família a assistir. Quando é esta cambada de acéfalos que se diz portista que parece querer comprar uma guerra entre Quaresma e Lopetegui (questionaram, a 5 minutos de nos apurarmos sem espinhas para a Champions, uma decisão do treinador com assobios), que moralidade para dizer que os rivais e a imprensa é que querem criar divisão e polémica? Há portistas (?) piores. Ou espécimes que se dizem portistas. Antes de Quaresma, como era? E depois de Quaresma, como vai ser? Neste caso, o problema não foi Quaresma, mas sim quem estava na bancada.





Descubra as diferenças - «Simeone fue castigado ayer por cuatro acciones distintas: dos partidos por las protestas, cuatro por las collejas al cuarto árbitro, uno por el aplauso después de su expulsión y uno más por permanecer en la grada.» Ora, em Espanha os treinadores não podem ficar na bancada a dar instruções aos jogadores. Já em Portugal, tudo bem, podem ficar na bancada, falar com os jogadores que se preparam para entrar e até ter um ângulo mais privilegiado de visão. E aqueles que têm cadastro limpinho, sem agressões a agentes de recinto ou adversários, até vêm os porreiraços do CD da FPF resolverem com celeridade o processo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

«Se tiver que morrer em campo por este clube, morrerei» - E se for fora de campo?

«(...) Mas a Quaresma importa deixar o aviso: não pode, doravante, «ir para o balneário normalmente», como ele disse que o fez após não ter ido aplaudir os adeptos em Lille. Como capitão do FC Porto, jogue bem ao mal, muito ou pouco, tem sempre que liderar os agradecimentos aos adeptos. Ser digno da braçadeira não é uma questão de titularidade, mas de atitude. E não pode haver dias em que a atitude fica no banco ou na bancada. Que Quaresma tenha aprendido a lição, tal como vai aprender que o «eu» já não existe neste FC Porto. Quaresma tem 9 dias para decidir se está pronto para isso. Ou talvez a decisão já esteja tomada.»

Fazer mea culpa
não chega
Quaresma, o autor da frase que dá título a este post, é um caso muito particular de amor ao clube. Diria que Quaresma não aprendeu a amar o FC Porto entre 2004 e 2008, quando representou o clube, mas sim após ter saído. Algures entre Istambul, onde foi ídolo, e os Emirados, onde se entregou ao esquecimento, Quaresma percebeu que nunca foi tão feliz como no FC Porto. E chamou a isso a amor ao clube.

Um amor com asteriscos. Quaresma, amas o clube ou amas aquilo que conseguiste no clube? Foste titularíssimo, ídolo, mágico, acarinhado. Torceste os rins ao Argel, ao Nélson e ao David Luiz. Mandaste o Petr Cech ir lá buscá-la um dia depois dos ingleses te terem perguntado o que era uma trivela.  Calaste Istambul no último minuto, calaste os próprios adeptos que te assobiavam no último minuto contra o Aves. Marcaste em Alvalade, esqueceste os anos que lá passaste e bateste com a mão no peito antes de saltares para o colo do Baía, o teu mais emblemático festejo.

O que amas, Quaresma? O FC Porto ou aquilo que foste no FC Porto? Tiveste tempo para reflectir e rapidamente percebeste que o que tens aqui não voltarás a ter em lado nenhum. Mas sabes quantos extremos com 30 anos foram titulares indiscutíveis no FC Porto? É preciso mergulhar nos arquivos para descobrir a resposta.

As palavras podem sair da boca de qualquer um. Não importa quantas juras de amor voltarás a fazer, Quaresma. Importa é que tenhas consciência de que a braçadeira e a camisola que vestes são mais importantes do que o «eu». E que quem se preocupar com o «eu», não será feliz no FC Porto de Lopetegui. O mercado até pode fechar na próxima semana, mas as regras duram a época toda. Prepara-te, porque vais ficar muitas vezes no banco, algumas até na bancada. Não tens que te conformar com isso, mas tens que ser o primeiro a aplaudir os que estão no teu lugar. E tens que entrar com a mesma determinação em todos os jogos, seja em 90 minutos de um clássico, seja num minuto na Taça da Liga. Porque a camisola que vestes é sempre a mesma. E o símbolo na frente será sempre mais importante que o nome atrás.

Lembras-te onde estava o Baía quando o abraçavas em 2006-07? No banco. E lembras-te o que aconteceu ao Baía com Mourinho? Baía é um dos símbolos do FC Porto e nunca foi mais do que os outros. Não és tu que o serás, Quaresma. E se o FC Porto é a tua casa, isto é uma lição que já não precisas de aprender, mas sim que tens que ensinar, pela responsabilidade e honra que é ser capitão. Se não estás preparado, podes ficar connosco, mas não serás um de nós.

Silvestre Varela, o negócio possível

Obrigado, Varela
Não há muito mais a acrescentar sobre a saída de Varela em relação ao que já tinha sido escrito aqui. Infelizmente, contra as expectativas da própria SAD, não houve propostas concretas que agradassem a clube e jogador e o empréstimo ao WBA, um clube com pouca expressão em Inglaterra, foi uma solução de recurso.

Nunca será um mau negócio, pois chegou a custo zero ao FC Porto, resolveu diversos jogos, ajudou a ganhar títulos e conseguiu ser um titular indiscutível com 5 treinadores completamente diferentes. Infelizmente, se em 2013 havia propostas mas não havia condições para abdicar do jogador (após o falhanço Bernard), agora em 2014 há condições para abdicar dele mas não há propostas. 

Um desfecho cruel para um jogador que dizia, em 2012, que jamais trocaria o FC Porto pelo Atlético de Madrid. Como as coisas mudam. Varela tem um palmarés respeitável, marcou no Euro 2012 e Mundial 2014, foi tricampeão pelo FC Porto e ganhou uma Liga Europa. Tem todas as condições para brilhar na Premier League e, com muita sorte à mistura, no final da época poder render uma verba mais condizente com o seu valor. Ao jogador as melhores felicidades, que bem as merece!

domingo, 24 de agosto de 2014

Aboubakar é dragão, mas quem está obrigado a ser campeão é o Benfica (um exercício de rigor)

Nada como esperar para ver. Era o joelho que estava pior que o do Mantorras, era o jogador que fez novas exigências (mesmo já tendo assinado o pré-acordo antes de viajar para o Porto), sabe-se lá que mais terá nascido da criatividade dos que argumentam com base no «pelos vistos». Ainda estou para descobrir que «vistos» são esses.

Aboubakar à Fabiano
Aboubakar é dragão até 2018, a troco de 3 milhões por 30% do passe. Uma estratégia adequeada e que salvaguarda todos os interesses da SAD. O FC Porto já não fazia um negócio assim desde Luís Fabiano, há 10 anos, quando comprou 25% por 1,87 milhões e 75% ficaram na GSI. Com Aboubakar, o FC Porto periodicamente também poderá comprar mais percentagem do passe (esperemos que não fuga muito à referência de 10 milhões), à medida que o jogador for rendendo e dando provas de que pode ser o sucessor de Jackson. Embora a percentagem do passe seja menor, o FC Porto já tinha usado esta estratégia com Licá, Herrera ou Quintero há um ano.

O FC Porto não está a investir sem paralelo, está a investir com disciplina. Está a formar (já formou!) um grande plantel, sabendo trabalhar com todas as condicionantes. É por isso que há três jogadores por empréstimo, contratações com recurso a alienações antecipadas, quatro contratações a custo zero. E é tão verdade que o FC Porto pagou 11 milhões de euros por Adrián (o investimento que mais comichão faz a muita gente, mas que será melhor compreendido quando sair o R&C do primeiro trimestre) como o Benfica recebeu 8,6 milhões pelo Roberto. 

No caso de Aboubakar, é melhor investir com alguma inflação num jogador que já sabemos que é bom (os 13,4 milhões por 40% de Hulk foram pornográficos, mas valiam cada cêntimo) do que investir 10 milhões de euros, num momento de aperto financeiro, num suplente. Se Jackson vai ficar, não faria sentido Aboubakar ser desde já mais caro do que ele para passar grande parte de um ano no banco.

Missão cumprida: temos um grande plantel, com dois excelentes jogadores por posição, e com um líder competente não só no plano técnico-táctico como na gestão do clube. Aboubakar é forte fisicamente, ágil, tecnicista, finaliza bem com os dois pés, mas tem que ser trabalhado para jogar mais vezes de costas para a baliza, uma vez que no Lorient tinha luz verde para virar e rematar. Até o consegue fazer de forma mais espontânea do que Jackson, mas há trabalhinho pela frente, Buba!

E agora sobra um pequeno problema: a Champions

Não há mais espaço
na Champions
Na lista de 17 jogadores formados fora do país, para entrar Aboubakar outro terá que sair. As opções são: Fabiano, Andrés, Danilo, Alex Sandro, José Ángel, Maicon, Indi, Reyes, Casemiro, Herrera, Óliver, Evandro, Brahimi, Quintero, Tello, Adrián e Jackson. E lembremos que nesta lista não estão Helton, Opare, Marcano e Carlos Eduardo. Se entrar mais um médio, possibilidade ainda não descartada, outro terá que sair. E face à polivalência nos defesas disponíveis, alguém terá que ser sacrificado neste sector, que ainda pode fazer correr tinta.

Quanto aos jogadores formados no país, para a lista A, só há quatro no FC Porto: Ricardo Nunes, Ricardo Pereira, Quaresma e Sami. Caso algum destes seja dispensado, não poderá ser inscrito ninguém no lugar deles. Entre os formados no clube, o FC Porto só inscreveu David Bruno, o único disponível.

Na lista B estão: Kadu, Andorinha, Caio, Rafa, Verdasca, Tomás Mota, Rui Silva, Mikel, Francisco Ramos, Graças, Tomás, Rui Moreira, Belinha, Clever, Leandro Silva, Macedo, Kelvin, Gonçalo, André Silva, Fréderic, Mata, Sérgio Ribeiro, Ivo, Bruno Costa e Rúben Neves.

Mas vamos regressar ao tema inicial, o investimento do FC Porto para 2014-15. Já aqui tínhamos analisado, há um mês, o pânico desprovido de coerência: colunistas, comentadores e adeptos rivais estão em pânico com o investimento do FC Porto, que dizem ser um «all in». Facilmente desmitificámos isso, pois há um ano o Benfica apresentou o maior orçamento da história do futebol português e pagou 49,3 milhões em reforços. E este ano, será que o FC Porto terá o maior investimento? Pois... não.

Benfica é quem mais investe para esta época

O SL Benfica é o clube que, neste momento, mais gastou em reforços para 2014-15. E se já lemos e ouvimos comentadores defenderem que «o FC Porto, pelo que está a gastar, está obrigado a ser campeão», então aguardamos a mesma coerência: se o Benfica é quem gasta mais, então está obrigado a ser bicampeão. Vamos às contas de merceeiro.

Indi, um dos reforços
O FC Porto contratou Adrián (11M), Indi (7,7), Brahimi (1,5 com alienação), Tello (2M por empréstimo), Andrés (1,6), Casemiro (emp.), Óliver (emp.), Evandro (1), Marcano (2), Ángel, Opare, Sami e Ricardo Nunes (custo zero) e agora Aboubakar (3). Contas feitas, e ignorando as tranches de pagamento que vão além de 2015, são 29,3 milhões de euros. Curiosamente, apenas mais um milhão do que o investimento do FC Porto na época passada (a diferença entre investir muito e investir bem, pois o plantel deste ano é incomparável ao da última época).

Já o rival Benfica, investiu, até ao momento, em Samaris (10M), Talisca (4), Benito (3), César (3), Bebé (3), Derley (2,5), Dawidowicz (2), Djavan (1,5) e Eliseu (1,5), excluindo aqui as contratações a custo zero e as que terão despesas por litígio. Contas feitas, são 30,5 milhões de euros em reforços, sabendo-se ainda que o Benfica procura mais um avançado.

Claro que sobra a questão: e os salários? Pois bem, a não ser que alguém conheça o contrato de cada reforço, é impossível debater esta questão com rigor. Mas que Aboubakar, Brahimi ou Indi ganhem mais do que Luisão, Gaitán ou Salvio tenho dúvidas. De qualquer forma, guiando-nos pelos últimos números oficiais, o Benfica gastou uma média mensal de 4,735 milhões de euros em 2013-14, enquanto o FC Porto gastou 4,376 milhões.

Portanto, aguardamos um mínimo de rigor e critério com as expectativas para esta época. Afinal, o clube que mais investe é o Benfica e é o clube que está sob maior pressão para ser campeão, seguindo a lógica dos que profetizam a desgraça caso o FC Porto não chegue ao título.

sábado, 23 de agosto de 2014

Vitória suada no intervalo da Champions. E o exemplo de Rui Pedro

Lopetegui começa
com 3 vitórias
Depois de no último campeonato o FC Porto só ter vencido 6 vezes fora de casa, era essencial começar com o pé direito na condição de visitante. A vitória por 1x0 em Paços de Ferreira foi a menos brilhante da época, mas no intervalo de uma eliminatória europeia, com 4 estreias na equipa titular e diante de uma equipa bem organizada e bem preparada. Missão cumprida, apesar da infeliz lesão de Tello, que não é grave, já depois de Danilo se ter lesionado antes da convocatória.

O facto de Lopetegui estar a promover rotação logo desde o início da época vai implicar que a ausência de um 11 base se reflita em alguma falta de entrosamento entre alguns colegas, como se notou um pouco com Evandro e Adrián durante alguns momentos do jogo. Mas se é certo que isto pode abrandar o entrosamento entre os jogadores, tem o lado benéfico de todos os jogadores ambientarem-se mais cedo à matriz de jogo e às ideias do treinador. Lopetegui não quer apenas um A, B e C forte, quer também um D, E e F pronto para entrar na equipa sem que esta perca a identidade e as rotinas.

Três vitórias em três jogos no arranque de época, tempo de pensar no importantíssimo jogo da próxima terça-feira, que decide o acesso à Champions.

Bonés:

Cha Cha Cha (+) - Novamente decisivo, mas hoje fez mais do que o golo. A imagem de Jackson a fazer um pique de 20 metros, um carrinho a desarmar um adversário e lançar um contra-ataque diz tudo da sua devoção ao clube. A equipa não está a conseguir servi-lo na grande área, pois falta caudal ofensivo, mas Jackson está a ser importantíssimo a aguentar a bola, jogar de costas para a baliza, distribuir perante a pressão dos centrais e a ser o único jogador do meio-campo para a frente que ganha lances no jogo aéreo. 

Jackson volta
a decidir
Líder na defesa (+) - O Maicon da segunda metade de 2011-12 parece estar de volta. Sem o fantasma das lesões, é o líder da defesa, está mais leve e rápido, e embora ainda falhe bastante no lançamento longo hoje já se notaram algumas melhorias nesse aspecto. E a equipa continua sem sofrer golos, um registo excelente depois de ter perdido, em meio ano, Otamendi, Mangala e Fernando!

Outros destaques (+) - Evandro enquadrou-se bem no meio-campo, onde Rúben Neves voltou a mostrar-se em novas funções e está cada vez mais desinibido, embora prefira vê-lo mais recuado. Casemiro agarrou o seu lugar no meio-campo e foi o melhor do FC Porto, sendo que entradas de Herrera e Óliver foram decisivas: o primeiro pela capacidade de pressão, o segundo por ter a bola colada ao pé e saber distribuí-la com critério durante uma fase de grande pressão do Paços. Quintero entrou bem e fez uma soberba assistência, mas na segunda parte desapareceu e só se via um rasgo seu quando a bola ia ter com ele. Nota ainda para Adrián, pouco envolvido nas rotinas da equipa, mas sempre à procura do um-para-um e a subir de rendimento na segunda parte. Nota-se que precisa de um golo, que virá com mais tempo de jogo.

Machados:

Faltou ligação (-) - Não fosse a grande capacidade de Jackson a baixar no terreno e a falta de ligação entre o meio-campo e o ataque podia ter sido fatal. O FC Porto nunca conseguiu, sobretudo na primeira parte, entrar a construir no meio-campo do Paços. A equipa era quase sempre forçada a tentar o passe longo. Muito mérito para o Paços, mas como diz Lopetegui, há que encontrar soluções para todas as situações de jogo. E isso hoje não foi feito da melhor forma.

Falta matar (-) - Três vitórias em três jogos, mas em todos eles o FC Porto chegou ao minuto 90 a vencer por 1-0 e sob alguma ameaça. É certo que Fabiano só fez uma defesa em todo o jogo, mas o FC Porto cria poucas ocasiões de golo e não vai poder contar sempre com o golo da praxe de Jackson. É preciso não só colocar mais gente em zonas de finalização como criar mais oportunidades para finalizar.

Outras notas:

Nesta reflexão sobre a formação do FC Porto, o Tribunal do Dragão defendeu que os jogadores só têm a ganhar se jogarem num escalão acima do da sua idade (os que revelem maturidade para isso, claro). Rúben Neves já ganhou com isso na equipa A, nos sub-19 surge mais um excelente exemplo.

Rui Pedro, o melhor avançado português sub-17, fez um hat-trick numa goleada por 5-0 à UD Oliveirense. A oportunidade surge por circunstância, pois Idrisa está lesionado e Tony Djim (irmão de Celéstin Djim, da equipa B) e o reforço colombiano Leonardo Ruiz ainda não podem jogar por problemas burocráticos, mas Rui Pedro só teve aquilo de que muitos necessitam: uma oportunidade.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Problemas de português e o «caso» Quaresma

No mesmo dia, o JN escreve, a propósito de um fictício interesse do AC Milan, que a cláusula de rescisão de Jackson Martínez é de 40 milhões de euros, valores até junho. Já o jornal A Bola, no seu site e a propósito do ainda perigoso interesse do Valência, escreve que a cláusula de rescisão é de 35 milhões de euros.

Que na silly season a criatividade abunda não é surpresa. Mas tantas dificuldades em perceber o que é dito em bom português já é mais do que criatividade, é burrice e má fé. Vamos lá aprender (a partir dos 03.17):



Se a palavra do presidente de nada vale, ao esclarecer que Jackson Martínez não tem cláusula de rescisão até ao verão de 2015, então quem redigiu os contratos sabe menos do quem aponta Jackson a outros clubes. Só pode.

Quem é capitão
deve sê-lo sempre
Entretanto, Quaresma pediu para não «fazerem filmes», mas o salto do banco para a bancada já convida a que os criativos comecem a desenhar um fosso entre o capitão e o treinador. De pouco importa que regresse já à titularidade contra o Lille, a brecha vai desde logo ser aproveitada. Mas onde outros querem ver ou criar a polémica, só vejo o desafio que o treinador pediu:

«Lopetegui disse em todas as suas conferências de imprensa que quer jogadores que queiram ser protagonistas. Então eu pergunto: conhecem algum jogador do plantel do FC Porto que queira ser mais protagonista do que o Quaresma? Aqui não há um problema: há o desafio que Lopetegui pediu.»

Mas a Quaresma importa deixar o aviso: não pode, doravante, «ir para o balneário normalmente», como ele disse que o fez após não ter ido aplaudir os adeptos em Lille. Como capitão do FC Porto, jogue bem ao mal, muito ou pouco, tem sempre que liderar os agradecimentos aos adeptos. Ser digno da braçadeira não é uma questão de titularidade, mas de atitude. E não pode haver dias em que a atitude fica no banco ou na bancada. Que Quaresma tenha aprendido a lição, tal como vai aprender que o «eu» já não existe neste FC Porto. Quaresma tem 9 dias para decidir se está pronto para isso. Ou talvez a decisão já esteja tomada.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Uma exibição de Champions e mais um passo de qualidade

Num estádio que afinal era um pavilhão gigante, diante de uma equipa que mantém toda a base da época passada (que só foi batida pelos milionários PSG e Mónaco no último campeonato francês) e no sempre difícil contexto de jogar fora numa eliminatória europeia, com uma equipa extremamente jovem (média de idades de 23): uma categórica vitória por 1x0 frente ao Lille, que foi quase anulado na íntegra por uma equipa com um novo treinador, novos jogadores e uma nova ideia de jogo.

Tello desequilibrou,
Herrera marcou
Excelente trabalho desenvolvido pela equipa e por Lopetegui, que soube anular na perfeição o ponto forte do Lille: o jogo interior. Lopetegui usou fogo contra fogo, ao colocar o FC Porto a explorar o jogo interior, com uma rede de 5 médios, uma estratégia para a qual usou os melhores jogadores à disposição. Os bons treinadores adaptam as suas ideias de jogo aos jogadores; e os excelentes treinadores conseguem adaptar os jogadores às suas ideias. Lopetegui, hoje, conseguiu fazê-lo. 

Faltam 90 minutos para chegar à Liga dos Campeões e a estrada que nos conduz até lá está a ser precorrida com competência e promessas de uma evolução contínua. 

Bonés:

A tal valorização (+) - Houve quem se manifestasse contra o empréstimo de Óliver Torres, porque não queriam «andar a valorizar jogadores para os outros». Ora, a única coisa que se vê até hoje é Óliver a valorizar o FC Porto. Este pirralho tem mais do que um talento inato para jogar futebol, é uma verdadeira carraça, excelente na reação à perda de bola, agressivo na disputa de todos os lances e que consegue meter a bola onde quer. É reforço.

Óliver é jogador
para o presente
Elogio repartido (+) - Elogiar Rúben Neves já é redundante. Hoje vimos que pode brilhar numa zona mais adiantada do meio-campo e acabaram as dúvidas: é jogador do plantel principal, ponto, e uma das maiores promessas do futebol europeu. E com isto o elogio tem que ser encaminhado para Lopetegui, pois se não fosse ele Rúben Neves estava hoje a jogar pelos sub-19 (posição para a qual o FC Porto acaba de contratar Fidelis, um trinco nigeriano que Luís Castro diz ser de enorme futuro - e se os miúdos da formação raramente têm contratos superiores a 2 anos, Fidelis teve direito até 2018, pelo que estamos nitidamente perante uma enorme promessa), em vez de estar a brilhar na maior prova de clubes do mundo. E muitos nem saberiam quem era, nem que estivesse debaixo do nariz.

Lacunas corrigidas (+) - Era uma das preocupações para esta época: o espaço oferecido por jogar com a linha defensiva muito subida. Hoje Danilo, Maicon, Indi e Alex Sandro estiveram quase perfeitos. Maicon secou quase tudo à volta dele e foi excelente nas dobras, digno de se assumir como patrão da defesa. Os laterais mostraram que são de selecção brasileira. E Indi tem que melhorar no jogo aéreo, em termos de posicionamento e impulsão, mas pelo chão está imperial. A defesa parece estar óptima e adequada, mas...

Machados:

Não esquecer o essencial (-) - José Maria Pedroto foi o primeiro treinador português a usar a chamada transição em posse. Aquela coisa a que os catalães chamaram «tiki taka» uns anos mais tarde. Portanto foi com agrado que vi a circulação e a posse de hoje do FC Porto. Mas é preciso mais acutilância e mais objectividade na procura da baliza. E há que tentar mais vezes o remate, pois o carrossel não precisa de ir de uma baliza à outra.

Mais critério (-) - Sim, Jackson Martínez é soberbo no domínio de bola. Mas usar e abusar do jogo directo para o ponta-de-lança não é bom. Os defesas arriscaram muitas vezes no jogo directo e Jackson estava visivelmente desgastado por estar sempre a baixar para vir aguentar a bola contra uma equipa de caceteiros. E quando não podiam bombear para Jackson, tentavam Óliver ou Brahimi, que não conseguem segurar estas bolas. Os médios têm que dar mais apoio na saída de bola.

Outras notas:

- Lopetegui disse em todas as suas conferências de imprensa que quer jogadores que queiram ser protagonistas. Então eu pergunto: conhecem algum jogador do plantel do FC Porto que queira ser mais protagonista do que o Quaresma? Aqui não há um problema: há o desafio que Lopetegui pediu. 

- Bonita, bonita atitude de Casemiro, um jogador que está no FC Porto por empréstimo e que chegou há um mês, ao dedicar a vitória ao senhor Salvador.

- O repórter Vítor Pinto falhou na flash interview. Esqueceu-se de perguntar como é que estava o Adrián por não ter saído do banco. E o Ricardo. E o Andrés. E o Reyes. E o Quintero e o José Ángel, que ficaram na bancada. E o Marcano, o Sami e o Kelvin, que ficaram no Porto. E o Carlos Eduardo, que nem inscrito foi. Só o Quaresma interessava, era isso?

- Se já ninguém admitia falhar a Liga dos Campeões, depois desta vitória muito menos. Um passo decisivo para toda a época e para o que resta de mercado.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Do projecto Visão 611 a Pablo Sanz Iniesta

Como se avalia o sucesso de um projecto? Perguntando aos protagonistas que benefícios dele tiraram. Não os que criaram o projecto, mas aqueles para os quais o projecto foi destinado. Uma pergunta: quantos miúdos da formação do FC Porto gabaram o projecto Visão 611? Alguma vez se ouviu algum elogio ou reconhecimento de intervenientes? Quantos disseram «o projecto Visão 611 foi muito bom para mim»?

Do projecto Visão 611 muito se falou e pouco se soube concretamente. Acima de tudo, era um projecto de formação. E pensar que nesse período não houve um único jogador da formação a afirmar-se na equipa principal (Castro foi quem mais perto esteve disso) é automaticamente condenar o projecto ao insucesso. Mas houve mais além disso.
Falta qualidade ou
não há aproveitamento?

O projecto Visão 611 trouxe treinadores estrangeiros, da escola holandesa, e assumiu que tinha como objectivo a especialização nos processos de treino. Não treinar apenas um plantel, mas treinar defesas, treinar médios, treinar avançados, potenciando individualmente as características de cada um. Aos poucos, os holandeses foram-se evaporando. Pepijn Ljnders foi o último a sair.

«Rendimento, desenvolvimento e recrutamento» foram as 3 palavras-chave. Rendimento e desenvolvimento é praticamente o mesmo, pois só rende quem desenvolve. Quanto ao recrutamento, com o projecto Visão 611 o FC Porto abriu portas a um maior número de jovens estrangeiros para os quadros da formação. Abdoulaye e Atsu talvez tenham sido os mais bem sucedidos - e se não o foram, é mesmo uma prova de que não houve sucesso adjacente a esta aposta.

Em 2009, as equipas de sub-13 e sub-14 eram apresentadas como a primeira grande aposta no Vitalis Park. Da equipa de sub-13, não resta nenhum jogador nos quadros do FC Porto. Da restante, resistem Andorinha, Verdasca (que ainda passou pelo Boavista), Rui Moreira, Cléver e Macedo. Se os alicerces já começaram a falhar, o projecto dificilmente resistiria. Qual o problema? Qualidade insuficiente ou qualidade que não foi aproveitada no tempo devido?

Em termos de logística, o projecto Visão 611 trouxe algumas melhorias. Foram melhoradas infraestruturas, a ponte escola-FC Porto foi facilitada (na última época, cinco jogadores da equipa B entraram no ensino superior). Não há muito mais a destacar. Luís Castro, sem qualquer currículo ou ligação ao FC Porto que o recomendasse para a função, foi o escolhido para liderar o projecto, que foi um fracasso não assumido por ninguém. 

Que trouxe Luís
Castro ao FC Porto?
Antero Henrique idealizou o projecto: correu tão bem que depois até admitiu que não poderíamos abdicar de ter a melhor equipa para ter a melhor formação, quando a única coisa que se pedia era um equilíbrio. O FC Porto perspectivava que, em 2011, teria 6 jogadores formados no clube na equipa principal. Hoje não temos nenhum, apenas o menino Rúben Neves, que só está na equipa principal porque Lopetegui viu o que quem coordena a formação nunca conseguiu ver (já lá vamos).

Podem dizer, e com certa razão, que não é com o Hugo Ventura, o Ukra, o Vieirinha, o André Pinto, o Rui Pedro ou o Hélder Barbosa que o FC Porto ia ter uma equipa digna de Champions. Tudo bem, mas a crítica não é essa. A critica passa pelo investimento que foi feito em punhados de estrangeiros, desde a criação do projecto Visão 611, que não eram em parte nenhuma melhor do que estes nomes referidos. Não há crítica nenhuma à contratação de estrangeiros, mas há que seguir um princípio: se vem de fora, tem que ser melhor do que os que já cá estão. Esta lei tem sido ignorada no FC Porto, que não olha para o que tem dentro de casa antes de ir buscar lá fora.

Não há um antes e um depois no FC Porto com o projecto Visão 611, e esta é a maior prova de que foram cinco anos de muita teoria e expectativa mas de pouco proveito.

Desde 2011, silêncio total. O projecto Visão 611 tornou-se um tabu. Foi apresentado com pompa e circunstância, abriu portas até a reportagens de imprensa estrangeira, mas na hora do balanço nada foi apresentado. Nos últimos 3 anos, nada se ouviu. Até que um tipo espanhol, de 47 anos, sem qualquer ligação ao FC Porto até há dois pares de meses, decidiu aparecer e dizer: vamos mudar a formação do FC Porto. Vamos reestruturá-la e aproveitá-la.

O clube com a melhor formação

Qual é o clube português com a melhor formação? Esta pergunta tende a ser respondida com influência clubística, mas por norma o Sporting é a resposta mais dominante. E pergunto: porque é que é o Sporting a ter a melhor formação?

A qualidade de uma formação pode ser distinguida com dois princípios: ou uma equipa jovem a ganhar sucessivamente nos respectivos escalões, ou a lançar jogadores para a equipa principal, ajudando-a a conseguir os seus objectivos.

Um bom exemplo
No que toca aos resultados desportivos, o FC Porto é o clube português com mais títulos na formação, entre juniores A, B e C, os 3 principais escalões. O FC Porto tem 54 títulos, o Benfica 47 e o Sporting 38. Então vamos ao outro lado da balança: lançar jogadores da formação na equipa A.

Diz-se que a Academia de Alcochete é uma das melhores do mundo. Um tanto ousado, tendo em conta que desde que foi inaugurada o Sporting não foi uma única vez campeão e até deu para estar 6 anos fora da Liga dos Campeões. Nenhum clube tem uma formação de sucesso se essa formação não ajuda a equipa A a chegar a títulos. Nani foi o único jogador a ser vendido acima de 20 milhões de euros, e era um extremo. O FC Porto fez mais com 2 centrais (Bruno Alves e Ricardo Carvalho).

O Sporting é quem mais jogadores lança na equipa A, mas não ganha mais títulos do que o FC Porto nos escalões jovens; não vende os jogadores da Academia a preços mais altos do que o FC Porto; e não ganha títulos recorrendo aos miúdos da formação.

Portanto, se o FC Porto não é reconhecido como o clube com a melhor formação em Portugal, não é por o Sporting ser superior em parte alguma. É sim porque a matéria prima não está a ser espremida, aproveitada, potenciada. No último fim-de-semana vimos Kayembé, um extremo, jogar a lateral-esquerdo, deixando no banco o melhor lateral do Europeu de sub-19 (Rafa). Se temos um dos melhores laterais jovens europeus, que sentido faz jogar com um extremo adaptado? É preciso nortear a formação, e em boa hora Lopetegui apareceu.

A escolha de Lopetegui

Não há clube nenhum na Europa que tenha como responsável/coordenador da formação o mesmo treinador de uma equipa secundária. O FC Porto, com Luís Castro, era o único. Felizmente, surgiu a boa notícia de que o FC Porto vai passar a ter um responsável por coordenar toda a formação, dos benjamins aos sub-17. De Pablo Sanz Iniesta sabe-se o essencial: é um homem de confiança de Lopetegui.

Lopetegui não chegou ao FC Porto apenas com um plano para ser campeão em 2014-15, chegou sobretudo com um projecto para as próximas três épocas. Lopetegui fez vários pedidos de ataque ao mercado, mas dá provas de que também é um treinador para apostar na formação: não só ao lançar Rúben Neves como ao reprovar que não houvesse um profissional 100% dedicado a coordenar a formação.

Pablo Sanz Iniesta
tenta inverter o rumo
Luís Castro não é, nunca foi e dificilmente virá a ser um homem da formação. Pinto da Costa decidiu dar-lhe um contrato válido por três épocas, onde ia acumular a equipa B com a coordenação dos escalões jovens. Três meses depois, Pinto da Costa passa a pasta da coordenação da formação a um desconhecido. O efeito Lopetegui explica esta grande mudança e alerta Luís Castro: está sujeito exclusivamente ao seu trabalho na B, como esteve Rui Gomes.

No ano passado conseguiu estar na luta pelo título na segunda liga, mas contava com o importante apoio de jogadores da equipa A. Este ano, a equipa B vai ser praticamente uma formação de sub-20. Isto implica que é preciso algum tempo e paciência, mas quem vê Rafa no banco em detrimento de Kayembé tem toda a legitimidade para encolher os ombros e estender os braços.

E com isto chegamos a Rúben Neves: não foi nos últimos 2 meses que aprendeu a jogar futebol. Nos sub-17 já se destacava e comprovava estar num nível superior. Então, como justificar que Rúben Neves não tenha tido uma única oportunidade para jogar nos juniores ou na equipa B no último ano?

Há quem defenda que «os jogadores têm que ir queimado etapas, com calma». Mas qual queimar etapas!? Não há maior estímulo competitivo do que ser testado num nível superior! O que valeu de mais a Rúben Neves? O jogo contra o Marítimo ou 10 jogos nos sub-19 a jogar contra carradas de miúdos que nunca chegarão a profissionais? Os jogadores não evoluem num meio onde já são os melhores, mas sim rodeados de adversários com mais estatuto e rodagem do que eles. Os sub-17 têm que jogar, sem medo, nos sub-19; e os sub-19, mesmo de primeiro ano, podem e devem jogar na B, sobretudo tendo em conta que este ano vão cumprir mais de 50 jogos; e a equipa principal pode e deve, sobretudo na Taça da Liga, lançar os outros Rúbens Neves que tem no plantel.

Sim, porque há mais na formação do FC Porto. Pena é que para cada Rúben Neves da formação não tenha havido um Lopetegui antes. O futuro, felizmente, parece querer mudar para mejor.

Gracias, Lopetegui.

sábado, 16 de agosto de 2014

O abominável Rúben das Neves num início promissor

Casemiro, Adrián e Tello são 3 jogadores que em condições normais são titularíssimos em qualquer equipa portuguesa. Hoje estiveram no banco, o que diz muito da qualidade do plantel que Lopetegui tem à disposição. Mas colocar o talento individual em harmonia colectiva não é fácil. Hoje foi dado o primeiro passo para isso, com uma vitória justíssima frente ao Marítimo (2x0).

Golo na estreia
A identidade já está definida, os jogadores jogam segundo os seus princípios, mas qualquer equipa que troca de treinador e perde 8 jogadores essenciais no espaço de um ano (Helton, Otamendi, Mangala, Fernando, Lucho, Moutinho, Varela e James) precisa de tempo. E da última coisa que precisa é de assobios quando ainda está a tentar perceber como sair com bola quando é apertada aguerridamente como o Marítimo o fez na 2ª parte.

O campeonato não vai ser um passeio para o FC Porto, nem todas jornadas vão ser cumpridas ao ritmo de goleadas. Vai ser uma corrida a 3, longa, difícil, lembrando que Sporting e Benfica têm plantéis melhores do que 15 das 18 equipas do campeonato e uma grande vantagem: o Sporting, para já, mantém a base do ano passado e um treinador familiarizado com o futebol português; no Benfica, o treinador e a dinâmica de jogo são as mesmas. Já no FC Porto, quase tudo muda. Muda para melhor, mas cada mudança precisa do seu tempo.

Lopetegui quer que os jogadores sejam protagonistas, aos adeptos cabe serem os melhores actores secundários possível. Com ambição e paciência: uma coisa que os adeptos se habituaram a ter a mais e outra a menos. Ah: e o Lille tem exactamente a mesma equipa da última época, onde só ficou atrás dos milionários PSG e Mónaco no campeonato.

Bonés:

Brahimi afirma-se
Em cheio (+) - No simples gesto de dar a titularidade a Rúben Neves, Lopetegui conquista tanta coisa: deixa o recado de que para ele não há idade, nacionalidade ou proveniência; não joga o estatuto nem o preço (Ádrian nem saiu do banco); os miúdos da formação podem voltar a sonhar com uma oportunidade na equipa principal; e não é um treinador a pensar apenas no que precisa de ganhar hoje, mas também no que pode construir amanhã. Sobre Rúben Neves, uma exibição bem conseguida numa noite de sonho para ele. Cada adepto quando olha para ti, miúdo, recorda-se que em tempos já foi uma criança que sonhava jogar no clube do coração. Vive e aproveita esse sonho por todos nós!

A base já cá está (+) - O princípio de jogo de Lopetegui não é diferente do de Vítor Pereira: posse e circulação, mas com muitos mais passes largos e variações de flanco. Óliver mete a bola onde quer e ajuda neste modelo, que ainda precisa de afinações, como é natural, uma vez que saíram alguns passes falhados por os jogadores ainda não anteciparem da melhor formas as movimentações dos colegas.

Outros destaques (+) - A rotação de Brahimi sobre a bola é algo notável. Alex Sandro está a querer regressar à sua velha boa forma. A velocidade de Tello vai ser preciosa para quebrar a monotonia própria de um modelo assente em posse de bola. Bom ver que Lopetegui respondeu às necessidades do jogo e não da expetativa por uma goleada (os adeptos queriam Ádrian ou Tello em vez de Evandro, mas o jogo pedia o brasileiro).

Machados:

Jackson só teve
uma bola
Alimentem o predador (-) - Se a memória não falha, só nos descontos Jackson teve uma bola nos pés para marcar. E não falhou, mesmo que à segunda. Jackson precisa de ser mais e melhor servido para marcar com continuidade, mas esta não é a maior preocupação: falta gente na grande área. Muitas vezes, Quaresma e Brahimi já estavam prontos para cruzar e não havia ninguém na grande área. Os 2 médios mais adiantados têm que aparecer na zona de finalização, sobretudo Herrera. E se Jackson tem que baixar para apoiar, a área ainda mais deserta fica. A rever.

Procurar mais soluções (-) - Faz parte do processo evolutivo, mas sobretudo a jogar em casa muitas vezes o FC Porto não vai poder perder 30 segundos só a trocar a bola entre a linha defensiva. Lopetegui quer fazer as coisas com calma, mas trocar a bola entre os defesas e o médio-defensivo, com o objectivo de chamar o adversário, muitas vezes não vai funcionar, porque no Dragão quase todas as equipas vão jogar atrás da linha da bola e limitadas a defender. Nos momentos em que pressionam, como o Marítimo fez bem em algum tempo da segunda parte, a bola não pode queimar tanto nos pés. E mesmo que Lopetegui queira circulação, quando for preciso mandar um bico, manda-se. Mais vale jogar feio e resolver do que cometer um erro ao tentar jogar bonito.


Um já está. Próximo!

PS1: Sondagem aberta para distinguir o melhor em campo frente ao Marítimo. Participem!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A saída de Defour. E a transferência de Mangala foi (ainda!) melhor do que o esperado!

Defour não foi uma má contratação do FC Porto, foi uma contratação que não funcionou. 6 milhões de euros por um médio internacional belga, capitão do Standard, que era uma paixão antiga de Alex Ferguson e que já se perfilava como sucessor de Moutinho. Tinha tudo para dar certo. Na altura, não há-de ter havido muita gente insatisfeita com o negócio, uma vez que a transferência até saiu mais barata do que o expectável, fruto de ser negociada nos mesmos moldes e ao mesmo tempo que Mangala.

A melhor solução
Jogou a médio defensivo, a 8 e a extremo, mas sem nunca passar o campo da utilidade. Infelizmente, não era tão bom jogador como os adeptos esperavam. Nem é tão bom jogador como ele próprio pensa, motivo pelo qual sempre reagiu mal ao estatuto de suplente (na cabeça dele, uma coisa seria ser suplente de um dos melhores médios do mundo, Moutinho, outra seria ser suplente de um ex-Estoril ou ex-Paços de Ferreira). Esteve para sair em janeiro, mas ficou devido à saída de Lucho. Acaba por sair na altura necessária, no negócio possível.

Os 6 milhões de euros comunicados à CMVM dizem respeito à totalidade do negócio. A SAD só tinha 56,67% do passe, sendo que já tinha recebido 2,35 milhões por uma alienação de 33%. Há também 10% da receita líquida que tinham sido atribuídos à Robi Plus há 3 anos - situação ainda aplicável? Será que sim? Vamos aguardar.

Resta desejar boa sorte a Defour, cuja saída é também uma boa notícia para a folha salarial (pesava excessivamente na relação custo/rendimento) e para a harmonia num plantel onde vários internacionais vão ter que saber (também) conviver com o banco. Defour mostrou que, para ele, o «eu» é mais importante que o «nós». Jogadores assim dificilmente serão felizes no FC Porto e, sobretudo, recordados.

Jackson Martínez e a escolha de palavras

Luiz Henrique Pompeo vai receber «5% do valor líquido resultante da transferência a título definitivo dos direitos de inscrição desportiva» de Jackson Martínez. Foi este o comunicado do FC Porto à CMVM. Repare-se que não fala de «uma futura transferência», nem de «uma eventual transferência». Referem-se diretamente ao valor líquido «da transferência».

Jogador de cabeça
lavada. E o resto?
O empresário brasileiro apresentou-se no início do ano como representante de Jackson, substituindo Luís Manuel Manso. Não arranjou propostas para transferências (só Atlético e Valência se chegaram à frente e não foi através dele) e agora... lucra. Que mais jogadores agencia ele? 

Os 5% não advêm da renovação, mas sim da transferência. Se a parcela a receber de 5% fosse parte do acordo de renovação, teria certamente que ser anunciada assim que a renovação de Jackson tivesse sido comunicada à CMVM. Não é o caso, portanto é já a pensar «na» transferência, esperando-se apenas que este valor seja deduzido dos encargos quando o negócio se concretizar - outra coisa não seria aceitável por um jogador que tinha contrato.

Infelizmente, é uma péssima escolha de palavras (se é que foi apenas isso) da SAD, ao atribuir 5% «da transferência» de Jackson (novamente, não de uma possível, nem de uma eventual, mas sim «da transferência»), dar um negócio como certo numa altura em que o jogador renovou e está motivadíssimo para a nova época, com a braçadeira e no topo da folha salarial do clube. Para já, há uma época inteira para lutar por 5 objectivos colectivos, sendo Jackson parte essencial desse plano. Depois de tantos pedidos para que o jogador se focasse no que se passa dentro de campo e deixasse de pensar numa transferência, seria bom que quem rodeia Jackson também começasse a pensar mais no jogador e menos no activo.

Mangala, a maior notícia de todas

Subitamente, fez-se luz na imprensa desportiva, generalista e económica. Já é sabido há meses que o passe de Mangala era dado como garantia num empréstimo bancário do BES, tanto que abordámos esse tema há dois meses e também no mês passado. Nunca nenhum jornal se lembrou de pegar no tema, mas de repente publicações que nem sabem a diferença entre transferências e mais-valias falam fluentemente sobre o BES e o FC Porto.

Mangala, a cada dia
um negócio melhor
Porque o BES está na ordem do dia, talvez seja altura de trocar de protagonista, para variar. Dá um certo jeito, sobretudo quando a crise do BES vai ser novamente invocada para a saída de mais um para o Valência. Mesmo ignorando por completo a hipótese de renegociação. Mas então esperem lá: não é que o negócio do Mangala foi ainda melhor do que pensávamos!?

Quem diz que os 30 milhões de Mangala foram direitinhos para o BES consegue fazer do negócio ainda melhor do que já era: então o Manchester City pagou 30 milhões a pronto a um clube português??? É inédito em toda a história do futebol nacional. 30 milhões a entrarem de uma vez numa SAD de um clube português!? Oh amigos, a verdadeira notícia está aqui!

Afinal, o negócio ainda é melhor do que pensava: 30 milhões (ou 30,5, para ser mais claro) a bater de uma só vez na SAD. Uma vez mais, o FC Porto consolida o estatuto de clube que melhor vende em todo o mundo. E desta vez, não foi ninguém do FC Porto a dizê-lo, mas sim os inúmeros jornais e comentadores que «anunciaram» que o City pagou Mangala a pronto. Obrigado, porque desta não sabia!

PS1: Confirma-se que David Bruno foi inscrito na Liga dos Campeões, conforme tinha sido especulado aqui. Está no FC Porto desde os 9 anos e só esteve uma época emprestado ao Trofense. Tendo em conta que Victor Garcia não pertence ao FC Porto, pode vir a ser um lateral-revelação ou servirá apenas para fazer número?

PS2: «Casemiro é bom, mas não é 6». «Clasie é bom, mas não é 6». «[Inserir nome de jogador apontado ao FC Porto] é bom, mas não é um 6». Uma ideia: quando chegam à conclusão que se não é 6, é porque Lopetegui não quer um 6?

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A inspiração para quem fica de fora da UEFA. E mais um pouco de Mangala

O FC Porto já entregou a lista de inscritos para o playoff da Liga dos Campeões. Os nomes ainda não são conhecidos publicamente, mas à partida Helton, Opare, Marcano, Carlos Eduardo e Defour são os excluídos. A confirmar.

Carlos Eduardo
Os nomes excluídos da lista para a UEFA podem muito bem coincidir com as dispensas definitivas de Lopetegui, sendo que há duas exclusões forçadas por problemas físicos, outra por ser um recém-chegado e outra por estar no mercado, mas é bom lembrar a lista de pré-inscritos para a Liga Europa de 2010-11.

Um tal de James Rodríguez, que em 2013 custou 45 milhões ao Mónaco e em 2014 foi o melhor jogador do Mundial e custou 80 milhões de euros ao Real Madrid, ficou de fora da pré-convocatória de Villas-Boas para o playoff da Liga Europa. Hoje é unanimemente considerado um dos melhores jogadores do mundo.

Portanto, quem ficar de fora não recebe um atestado de falta de qualidade, mas sim um desafio que tem que superar. Como James Rodríguez o fez.

PS1: A criatividade para explicar o negócio Mangala, em diversos espaços na internet, surpreende. O FC Porto, de modo a evitar um Garay v2.0 como no primeiro comunicado do Benfica à CMVM (ainda recordo os fervorosos que vendiam a mãe para provar que o negócio foi de 15 milhões de euros), explicou de imediato que os 30,5 milhões de euros correspondiam a 56,67% do passe. Mas há quem até o português explícito consiga contrariar.

Como é natural, o FC Porto vai ter encargos sobre os 30,5 milhões de euros. Há a comissão a Jorge Mendes, que ronda sempre os 10%, o prémio de fidelidade ao jogador e o mecanismo de solidariedade. O que meia dúzia de iluminados não compreendem, ou não querem compreender, é que o que o faz de Mangala um grande negócio é que o FC Porto não vai ter que pagar as intermediações sobre os 22,6 milhões de euros inicialmente previstos, que era o que «temia», mas sim sobre os 30,5 milhões, verba acrescida em quase 8 milhões após as complexas negociações com a 3.ª parte.

Sim, é um enorme negócio. Como a única entidade a receber é a FC Porto SAD, deixemos os demais entreterem-se com a matemática e a criatividade para tentar não aceitar aquilo que até o jornal Record consegue perceber.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Mangala, um dos melhores negócios de sempre. E quanto fica o FC Porto a dever ao BES

«A alienação à DS liberta a venda de Mangala para o City, sendo que os valores podem vir a ser uma grande e boa surpresa - não a verba paga pelos ingleses na totalidade do negócio, mas sim aquela que vai caber ao FC Porto. Lembrem-se que, à partida, seriam apenas 56,67%...», O Tribunal do Dragão, 24 de julho de 2014.

A surpresa confirmou-se. 30,5 milhões de euros por 56,67% do passe. Mangala, que não jogou um único minuto no Mundial 2014, torna-se o central mais caro da história da liga portuguesa numa venda. Rende, por exemplo, 12 vezes mais do que Garay, e sete vezes mais do que alguma vez Rojo poderá render, dois defesas dos rivais Benfica e Sporting e que fizeram um grande Mundial.

Mangala, o defesa mais
caro de sempre em PT
O Manchester City não pagou 53,8 milhões de euros por Mangala. Podia ter pago, porque as cláusulas de rescisão só são válidas quando são pagas a pronto e quando são invocadas unilateralmente por uma das partes envolvidas no contrato. Quer isto dizer que não podia ser o City a pagar a cláusula de rescisão, mas sim Mangala a solicitar a rescisão unilateral, tendo assim que ser o jogador a pagar a cláusula, com uma transferência de verbas do City à ordem do atleta. Um pormenor que importa esclarecer, mas que neste caso não tem relevância, porque não se trata de uma transferência acima da cláusula, mas sim de 40 milhões de euros.

Então, porque é que o FC Porto não recebeu apenas os 22,6 milhões de euros que estavam previstos? Recuemos até 2011, quando a Doyen Sports comprou 33,33% do passe por 2,647 milhões (a Robi Plus ficou com 10%). Quer isto dizer que com a transferência por 40 milhões, o fundo tinha a receber 13,332 milhões de euros, o que significaria cerca de 500% do investimento inicial. Melhor que os juros do BES, certamente. Não há-de ter havido muitos fundos a lucrarem tanto face ao investimento inicial - talvez só o FPFPF, que comprou 35% de Cristiano Ronaldo por 627 mil euros ao Sporting e depois recebeu 737,32% do investimento inicial.

A Doyen Sports tinha em mãos uma valorização extraordinária, mas que só aconteceria se o FC Porto deixasse Mangala ir para o City. Como a Doyen Sports é um fundo que reúne diversos investidores espalhados pelo mundo, desde empresários a ex-dirigentes de futebol, é natural que quem participou no investimento de Mangala há 3 anos salivava por uma valorização que superava todas as expectativas. Mas Pinto da Costa e a SAD mantiveram sempre a fasquia alta quanto à verba a receber por Mangala: «Se querem que ele vá para o City, têm que nos ceder parte da vossa parte». Há quem seja refém de fundos, há quem os aperte a ponto de terem que ceder 8 milhões de euros (basicamente, tanto quanto o encaixe líquido de Garay e Rojo)! É esta a diferença entre o FC Porto e os demais.

Negociação exemplar
A Doyen Sports consegue dobrar o investimento inicial, num negócio que só o futebol oferece, e o FC Porto faz de Mangala o central mais caro de sempre. Além disso, a Doyen Sports foi decisiva para a vinda de Brahimi (alienação de 80% do passe por 5 milhões de euros, e sem esta alienação Brahimi não seria hipótese), tendo também participado nas vindas de Casemiro e José Ángel. O FC Porto saca 7,9 milhões de euros a mais do que teria a receber e ainda consegue apoio para contratar 3 jogadores que melhoram o plantel. Uma chapada de luva branca.

E porque os fundos estão envolvidos, insisto na questão: não concordo com a proibição, porque sem fundos o FC Porto nunca teria Mangala, mas defendo a regulação. O princípio é muito simples: cada alienação deveria incluir uma cláusula de recompra pré-definida e o valor deve ser declarado. Tal resolveria em grande parte o problema de falta de transparência em algumas transacções, sendo que o ideal até seria que a cláusula de recompra não permitisse que os investidores ultrapassassem determinada percentagem de valorização. De qualquer forma, este é um momento para elogiar a SAD por toda a gestão do dossiê Mangala, por saber trabalhar com a pressão dos fundos e com a necessidade de um encaixe, fechando assim uma das melhores transferências da história do FC Porto, mesmo que Jorge Mendes cobre a habitual comissão de 10%.

A Mangala, boa sorte! Será sempre recordado como um dos nossos e oxalá, no final da época, esteja com Fernando a fazer o que melhor sabe: festejar títulos de azul.

As contas do BES

Numa altura em que a ligação do BES aos clubes portugueses está na ordem do dia, um ponto de situação do FC Porto. A verba para a transferência de Mangala, segundo uma cláusula prevista no último R&C, é destinada à liquidação do maior empréstimo do FC Porto junto do BES: 30 milhões de euros. Ou liquidava 23 milhões em julho e 7 em outubro, ou pagava tudo de uma vez no momento da venda de Mangala. Ou seja, enquanto uns têm que vender meio plantel para cumprir as suas obrigações, ao FC Porto basta vender um jogador.

Ainda que no R&C conste que o FC Porto teria a pagar os 30 milhões de euros ao BES no momento da venda de Mangala ou Jackson Martínez, dificilmente terá sido o caso - certamente não o foi. Nenhum clube português abate de forma tão bruta o passivo de uma só vez. A renegociação deverá ter sido tratada em julho, mês em vencia a primeira prestação, mas é algo que só será possível de conferir no R&C do primeiro trimestre 2014-15. Certo é que a nível bancário, o FC Porto tem os seus compromissos mais do que controlados.

Com o referido empréstimo vencido, o FC Porto terá que pagar ao BES:
- 2,1 milhões de euros em abril de 2015; 
- 1,75 milhões de euros até janeiro de 2016 (prestações semestrais de 437,5 mil euros).
- 17 milhões de euros até setembro de 2016 (5,5 milhões em setembro de 2014, 5,5 milhões em setembro de 2015 e 6 milhões em setembro de 2016).

São estes os últimos compromissos do FC Porto com o BES, que neste momento tem o crédito cortado junto dos clubes portugueses. São 20,85 milhões de euros, verba que o FC Porto faria facilmente vendendo um titular. Não meia dúzia, apenas um.

BEStial, FC Porto. 

domingo, 10 de agosto de 2014

Raúl Jiménez, um erro a não repetir

Que nem um relâmpago, o Atlético de Madrid apresentou nas últimas horas uma proposta superior à do FC Porto por Raúl Jiménez. A transferência para Madrid já é dada como certa. O pai do jogador afirmou que a oferta do Atlético superou as expectativas do America e que amanhã, segunda-feira, a transferência deve ficar fechada.

Uma novela que mostra que o Atlético de Madrid aprendeu com os melhores e que as declarações de Pinto da Costa a um jornal mexicano, a confirmar o interesse em Jiménez, foram das coisas mais inexplicáveis que o presidente fez nos últimos tempos.

Atlético antecipou-se
Vamos por partes. Em 2011 o Atlético perdeu Aguero, a sua grande estrela. Solução? Falcao, o matador do FC Porto. Foi a contratação mais cara da história do clube e valeu cada cêntimo. Entretanto, o FC Porto esqueceu Falcao com Jackson Martínez. O Atlético já não tem Falcao, despediu-se de Diego Costa e Villa. Há Mandzukic, mas falta um ponta-de-lança.

Que fez o Atlético? Avançou por Jackson Martínez, com uma proposta de 25 milhões e variáveis para inglês ver. Afinal, quem melhor do que o ponta-de-lança que fez esquecer Falcao no FC Porto? Mas Pinto da Costa rejeitou de pronto a oferta.

O Atlético, esperto, teve uma excelente ideia: «Já que não podemos ir buscar o Jackson, vamos buscar o tipo que o FC Porto quer para suceder ao Jackson daqui a uns tempos». Bravo, Atlético. Podem oferecer mais ao America e ao jogador, por isso é sem surpresa que superam o FC Porto nesta corrida. E é bom que não passe pela cabeça da SAD tentar chegar aos oito dígitos que o Atlético apresentou, pois o FC Porto não pode pagar pelo suplente de Jackson mais do que pagou pelo próprio Jackson. Se três jogadores chegaram por empréstimo e Brahimi veio com a maior alienação desde Luís Fabiano, não é por se respirar saúde financeira. E, é bom lembrar, já temos dois dos mais promissores pontas-de-lança europeus com idade sénior.

Jimenéz está perdido, mas o FC Porto só se pode queixar de si próprio. O que terá levado Pinto da Costa a assumir publicamente o interesse do jogador? Erro que nem parece próprio do presidente que, com uma declaração do género, começou assim a operação para trazer João Moutinho, na altura capitão do Sporting, para o FC Porto.

Que pretendia Pinto da Costa com aquela declaração? Jiménez já estava mais do que convencido em vir para o FC Porto. Reyes e Herrera já se tinham encarregado disso. Faltava era convencer o America. Era com um interesse publicamente assumido que o America iria ceder? Claro que não. Pelo contrário, aquilo que Pinto da Costa fez foi dar um sinal a todo o mercado.


Os clubes europeus já sabem: «Se o FC Porto o quer, então é porque é bom». O Atlético de Madrid aproveitou, e bem, e agora o FC Porto tem que procurar alternativa. Não é grave, pois no próprio México há tão bom ou melhor e até bem mais barato. Resta saber se Pinto da Costa pode voltar a surpreender e se este erro não terá sido, afinal, algo pensado num plano maior, a envolver o próprio Atlético. A conferir no futuro.

Ghilas foi dispensado, Adrián López não rende a 9 (e até ver nem na ala), Sami deve ser dispensado. Há Gonçalo Paciência e André Silva, mas a ideia passa por atacar o mercado. Gonçalo já se mostrou a Lopetegui, André ainda não, mas consta que o treinador gostou do que viu no Europeu. Mas é bom que o contrato de André Silva seja renovado antes de pensarem nele para a equipa A, pois a partir de janeiro pode assinar por outro clube. Há vontade de todas as partes para renovar, mas nada como tratar dos assuntos atempadamente, até porque com Raúl Jiménez surge mais um caso de que esperar, por vezes, corre mal.

PS1: Luís Castro assumiu, no Porto Canal, que André Silva e Gonçalo Paciência podem jogar juntos no 4-3-3. Gonçalo é ponta-de-lança dos pés à cabeça, André Silva tem todas as características para ser um matador de eleição. Mas na verdade, quando André Silva chegou ao FC Porto era médio-ofensivo, e nos sub-19 chegou a jogar pela ala, com o bem menos talentoso Jonathan no meio. Podem coexistir no 4-3-3? Ou será preferível a que um deles fique no banco?