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sábado, 31 de janeiro de 2015

Cartão de visita

Nas várias análises já aqui partilhadas sobre o projecto Visão 611, os pontos positivos resumiram-se essencialmente a duas coisas: logística (a ponte escola-clube foi facilitada e a formação deixou de ser meramente futebolística) e especialização técnica com recurso à escola holandesa. A propósito deste segundo ponto, o jornal O Jogo publicou sábado um interessante trabalho, que tem como base a filosofia do holandês Pepijn Lijnders.

Podia, sei lá, ter sido publicado em 2007, ano da sua criação. Ou em 2008. Ou em 2011, quando o projecto Visão 611 foi encerrado e careceu de um balanço. Mas só agora, em 2015, é que se lembraram de partilhar isto, quatro anos após o projecto Visão 611 ter sido enterrado e já depois de Pepijn sair do FC Porto.

O timing é interessante e não é inocente. Surge numa altura em que Rúben Neves e Gonçalo Paciência dão que falar, Sérgio Oliveira é o primeiro reforço para a próxima época e há outra mão cheia de miúdos que só precisam de uma oportunidade. Lembraram-se que o FC Porto tinha, e tem, uma formação que projecta grande potencial. E então surge a vinculação da afirmação de Gonçalo Paciência a um trabalho desenvolvido há anos a nível da formação. Uma boa maneira de atribuir louros aos bastidores, mas são o resultado ou a excepção?

Apesar da criação do DCAPI, uma secção no FC Porto que visava trabalhar a técnica individual dos miúdos, isto nunca foi tema de domínio público nos últimos 8 anos. O Projecto Jogador de Elite foi uma filosofia apresentado pelo Pepijn. Um teórico da bola. Mas um teórico que apesar de abusar do lirismo sabe passar da teoria à prática (e já agora, o único que apresentou um balanço do projecto, numa tese escrita pelo próprio que podem ler aqui).

Pepijn tinha duas coisas essenciais para um treinador a nível da formação: 1) os jogadores gostavam dele; 2) os jogadores tinham razões para gostar dele. Era competente e minucioso no que fazia. Apaixonado pelo treino e pelo desenvolvimento dos jogadores. Não pensava em mais nada. E foi também uma lufada de ar fresco para um primeiro fracasso. Começou por ser contratado um holandês, Chris Kronshorst, recomendado por Co Adriaanse, que quis aplicar o método Coerver. As ideias estavam lá, faltava o resto.

Os jovens da formação respondem melhor a um treinador que parece um irmão mais velho porreiro do que um avô. Pepijn tinha 24 anos quando chegou ao FC Porto, precisamente para substituir Kronshorst. E seguiu a mesma linha metódica, a de Coerver. Mas a recepção foi muito superior por parte dos miúdos, porque mais importante do que os ensinamentos é a abordagem com que queremos transmitir esses mesmos ensinamentos. Isto é precisamente algo que Pepijn diria.

Rúben Neves
O trabalho publicado é giro e tranquiliza quem quer ver reconhecimento da formação, nem que entre pela janela, mas não responde à questão mais importante de todas: e agora que Pepijn está no Liverpool, quem trabalha a técnica individual dos jogadores no FC Porto? Quem faz o trabalho que era feito por Pepijn? Teria sido interessante responder a isso. Porque sem essa resposta, não me parece que isto seja um trabalho sobre a formação do FC Porto, mas sim sobre o currículo e os métodos de Pepijn. Um treinador competente que não precisava de cartão de visita. Este trabalho não é sobre o trabalho do FC Porto com os jogadores, é sobre o trabalho de Pepijn com os jogadores. A metodologia seguida pode ser a mesma, mas regressamos ao início: mais importante do que os ensinamentos é a abordagem com que queremos transmitir esses mesmos ensinamentos.

Pepijn já é passado, mas a formação do FC Porto é o futuro. E com isto chegamos à frase mais importante: «Os portistas não imaginam os talentos que estão para chegar». E lá confessa que recomendou Rúben Neves, o seu jogador favorito, ao Liverpool. Por isso, não é de admirar que Rúben Neves já faça correr tinta em Inglaterra, que André Silva tenha recebido sondagens de Inglaterra e que o FC Porto tenha sido convidado a participar na Internacional Cup... em Inglaterra, onde pode mostrar in loco os talentos da sua formação.

A formação do FC Porto vai dar muitos frutos. Oxalá não sejamos dos últimos a descobrir isso. É tempo de colheitas.





PS: Pepjin elogiou o trabalho de outros dois treinadores a nível da formação do FC Porto: Vítor Pereira e Capucho. Não se lembrou de mais ninguém ou não havia mais ninguém para lembrar?

PS2: Tendo em conta que Gonçalo Paciência já não deve sair, a convocatória de Lopetegui diz uma única coisa que no fundo todos sabiam: Gonçalo não era a alternativa a Jackson. Era a alternativa a Aboubakar. Tendo em conta que se trata do treinador que mostrou ao país aquilo que o Liverpool soube antes de muitos portistas sobre Rúben Neves (craque), merece crédito e compreensão pela forma como entende ser melhor gerir Gonçalo Paciência.

PS3: Fernando treinou mais do que uma vez com Rúben Neves o ano passado (sim, porque Paulo Fonseca chamou-o a alguns treinos, tal como Vítor Pereira chamou Gonçalo Paciência quando tinha 16 anos - mas é preciso coragem, estofo e acima de tudo condições para ir mais além), mas diz que não o conhecia. Ou estava muito esquecido quando deu a entrevista à RTP, ou isto diz muito da confraternização e união que havia no balneário há um ano. Nada acontece por acaso. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Renovar, uma questão de (im)paciência

Hoje já todos percebem, ou vão começando a perceber, porque é que quem acompanha a formação do FC Porto elogia e espera tanto de Gonçalo Paciência. Entendo que fosse difícil de compreender. Pelas lesões, por pertencer à formação do FC Porto (o que na última década não foi propriamente ter vida facilitada para chegar à equipa A) e por não fazer capas de jornais como um tal de Nélson Oliveira, que nunca foi melhor do que Gonçalo, mesmo sendo 3 anos mais velho.

Tem 20 anos e um potencial tremendo, mas já com qualidade a acrescentar no presente. Mas não é um miúdo que caiu cá de pára-quedas. Está cada desde os 6 anos e ser filho de Domingos Paciência, por incrível que possa parecer, foi um fardo maior do que um atalho para a equipa principal. Numa das poucas entrevistas que deu, diz até que por ser filho do Domingos «tenho que mostrar mais do que os outros». E nunca se coibiu disso. 

E agora se disséssemos que, há exactamente um ano, Gonçalo Paciência podia ter ido à sua vidinha e assinado por qualquer outro clube a custo zero? Foi assim entre Janeiro e Abril, até finalmente ter recebido proposta de renovação por... mais 2 anos. Um contrato de 2 anos para o mais promissor avançado português. Quase que nem é mau, tendo em conta que Gonçalo Paciência acaba 2012-13 não em final de contrato, mas sim sem contrato. 

Um mini-Gonçalo com um ano de idade
Só o amor ao clube levou Gonçalo Paciência a andar assim, na corda bamba contratual, época após época. Tem contrato por mais ano e meio. A renovação devia ser para ontem. Nada justifica que um dos maiores talentos da formação do FC Porto seja alimentado com contratos de curta duração. Sobretudo quando o tratamento não é padrão para todos no clube, tendo em conta que miúdos desconhecidos que chegam de África, e até jogadores seniores contratados que todos sabem que nunca vão ser titulares no FC Porto, conseguem ter contratos de 4 a 5 épocas de duração, mesmo sem que cheguem à equipa A. Não vale a pena citar nomes, pois os jogadores não têm culpa de terem contratos mais vantajosos que os colegas e não os ajuda em nada a criação de um estigma. Culpa, ou responsabilidade, tem quem distribui os contratos não em função da qualidade do jogador, mas de outros factores.

Se compilarmos um vídeo dos melhores lances do Gonçalo Paciência e colocarmos no Youtube com o título «Gonzalo Pazienzia - El Nuevo Ibrahimovic», haveria muita gente a perder a cabeça e já muitos começavam a fazer contas. Neste caso não há contas a fazer. Este é nosso. Tem sangue azul. Provas dadas de amor ao clube, nem sempre retribuído em termos contratuais. Como é que um estrangeiro sem escola chega ao FC Porto e tem contratos de 4 anos à sua espera e um talento puro, português, portista e já nosso tem apenas de 2?

Gonçalo a festejar um golo na bancada, no meio dos adeptos
O que está em causa não é a nacionalidade. É o jogador em questão, a sua história, o seu potencial, a sua qualidade. Há uma tendência extraordinária para valorizarmos excessivamente o mercado e desvalorizarmos o que já é nosso. Estamos tão habituados, sobretudo nos últimos 8/9 anos, a valorizar o mercado e quem vem de fora que nos esquecemos de valorizar quem já cá está dentro. Investir no mercado é importante, mas investir em quem já cá está, sobretudo com provas dadas, é igualmente - ou ainda mais - importante.

Outro pormenor importante: os próprios jogadores do FC Porto, nos últimos anos, sabiam que dificilmente chegariam ao plantel principal. Por isso renovar por poucos anos era até um mecanismo de defesa para os jogadores. Mas para quem sabe que não chegará à equipa A, não há mecanismo melhor do que ir à sua vida. Aconteceu com André Gomes, por exemplo, um jogador hoje em dia numa das melhores ligas do mundo e que um dia até poderá contar numa auto-biografia que tipo de proposta de renovação teve no FC Porto. É normal que se cometam erros e se dispensem alguns jogadores que mais tarde se afirmam, porque não podemos acertar nos jogadores todos e muitas vezes são os próprios atletas a ter culpa pela sua não afirmação. Mas no caso de Gonçalo Paciência, há muito que podia ter ido para outro lado, ganhar muito mais e chegar mais rapidamente à equipa A, mas não quis. E dentro do FC Porto todos sabiam que era um talento muito acima da média - perguntem a qualquer treinador que tenha trabalhado com ele. Felizmente, Lopetegui abriu-lhe as portas, tal como fez a Rúben Neves e a Ivo Rodrigues. Já fez mais pela formação do que muitos projectos de três dígitos.

Passado... e presente/futuro
Não vale a pena esconder que é imperativo, para a saúde financeira da SAD, vender Jackson Martínez no fim da época. Aboubakar foi contratado com vista a um processo de sucessão. Para já custou 3 milhões por 30% do passe. A cada 20 jogos que ele fizer, podemos comprar mais 10 a 20% por 1 a 2 milhões de euros. O investimento pode chegar aos 12M,2€, que era o valor inicialmente acordado por 92,5%.

Além do investimento caro em Aboubakar (que pode vir a justificar na perfeição, sobretudo tendo em conta que na próxima época não há CAN - e não deve haver Jackson), há 16M€ investidos em Walter (para esquecer), Caballero (tem que evoluir muito para sequer ser considerado solução), Kléber (a ter uma segunda vida no Estoril, mas no mercado) e ainda Ghilas (pouco para número 1, inconformado para ser número 2).

Investimos muito em pontas-de-lança nos últimos anos, No próximo ano, mesmo saindo Jackson, não há motivos para investir em mais para o plantel principal. Aliás, há um nome no qual vale a pena investir: Gonçalo Paciência. Renovar, para ontem, meus senhores. Renovar e blindá-lo como se se tratasse de um talento sul-americano. Pelo que é e pelo que pode vir a ser. De certeza que as suas exigências, se é que existem, não serão mais irrazoáveis do que qualquer novato que chega com idade de júnior ou quase destinado a saltar de empréstimo em empréstimo.

PS: Já falámos de Gonçalo Paciência, que com o regresso de Aboubakar da CAN leva à discussão, em comunhão com Lopetegui, sobre que futuro para a segunda metade da época. Há André Silva, que com a promoção de Gonçalo pode ganhar mais espaço na equipa B. Já falámos também de Rui Pedro, juvenil mas já a trabalhar com os Sub-19 e até já se estreou pela B, aos 16 anos (é assim que deve ser, os melhores devem jogar nos escalões acima). Então anotem lá mais um nome: Vasco, dos Sub-15. O nome não diz nada? Então vejam e memorizem o apelido do miúdo. Vai valer a pena.

Presente e futuro

As opções de Lopetegui, sobretudo a maneira como recorreu ao banco no Rio Ave x FC Porto, mostraram desde o primeiro jogo que a Taça da Liga era para ganhar. Mas mesmo tendo feito uma fase de grupos quase irrepreensível e conseguido o apuramento para as meias-finais, mostrou sobretudo como se gere um plantel: geriu o esforço dos jogadores nucleares, deu espaço às segundas linhas para se mostrarem e ainda mostrou um pouco daquilo que a formação tem para oferecer. Uma boa gestão na Taça da Liga, que nos vai levar a um campo onde temos que corrigir a imagem deixada há bem poucos dias.

A Académica é uma equipa frágil, e não havia outro remédio que não vencer tranquilamente, mas a primeira e última meia hora mostraram a profundidade, potencial e qualidade que há no plantel. Um meio-campo forte na circulação, um ataque nem sempre eficaz mas constantemente perigoso, e um banco a oferecer soluções e dores de cabeça a Lopetegui.

Afinal, a Taça da Liga não é assim tão inútil. Já tínhamos concordado com isto em Braga, mas não capitalizámos essa revolta na Madeira. Mas vale a pena insistir, não é assim tão inútil: ver os golos do Jackson e do Gonçalo já valeu bem a pena.





O mestre e o aprendiz (+) - É o melhor marcador da história do Dragão, e conseguiu esse feito em apenas 2 anos e meio. Comecem a contar os anos, pois há-de faltar muito tempo até que alguém o supere. No primeiro golo é oportunista e eficaz, no segundo marca um golo à Ibrahimovic. Qual Ibra, marca é um golo à Jackson! Ponta-de-lança de eleição, que há-de deixar muitas saudades, com 23 golos em 27 jogos esta época.

E depois de Jackson Martínez, Gonçalo Paciência. Quando O Tribunal do Dragão foi criado descrevia-o como o melhor avançado português sub-21 e o futuro titular da selecção A. E ele não precisou de muito tempo para mostrar porquê. Questionam como é que um miúdo tem a ousadia de fazer uma finta daquelas na estreia no Dragão. Ele explicou no final: «Estou cá há 14 anos». Não são 14 dias, são 14 anos. Está cá desde os 6 anos e não conhece outro clube que não o FC Porto, nunca teve outra vida que não a de um portista. É um avançado completo a todos os níveis, que se estivesse no estrangeiro já era considerado o novo Ibrahimovic. Tem tudo para ser o nosso 9. Ou quase tudo, pois falta-lhe uma coisa importante: oportunidade. Lopetegui já começou a inverter o rumo, para alegria nossa. Já agora: um golo de canto!!!!!!!!

Meio-campo (+) - O nosso espaço interior vinha servindo como um meio (distribuir para os corredores) e não como um fim (construir na zona central). Hoje inverteu-se essa tendência. Rúben Neves continua a ter uma evolução impressionante e percebe-se o porquê de Lopetegui também querer soltá-lo para 8 - é um médio completo em todos os momentos do jogo, com presença física, orientação e passe exímios. E hoje fez a melhor exibição ao lado de Campaña, que vive uma intranquilidade maior que os colegas - não só tem que lutar para ganhar o lugar no 11 como tem que lutar para ganhar um contrato no FC Porto; uma coisa é um emprestado jogar sabendo que tem uma «almofada» chamada Real Madrid ou Barcelona, outra é ter a Sampdoria. Do pouco que vimos, vai surpreendendo. E Evandro, mais uma vez a mostrar que é um grande complemento ao meio-campo e com veia goleadora: 4 golos nos últimos 5 jogos. 3 golos de penalty, é certo, mas cá no burgo isto quase que soa a proeza.

Cabeça levantada (+) - Há uma lacuna no modelo de Lopetegui, que é a dificuldade em encontrar um gajo que pegue na bola entre os médios e a linha defensiva adversária, encare a grande área e decida para onde vai sair o último passe. É por isso que dizem tanto que falta jogo interior ao FC Porto e que estamos tão dependentes das investidas pelos flancos - como os médios não assumem esse espaço entre-linhas, quase que são meros intermediários para mandar as bolas para os flancos Hoje Quintero entrou. E consegue uma, duas, três, quatro e cinco vezes receber a bola, virar-se para a grande área e meter os colegas na cara do golo. Uma jogatana do miúdo, finalmente com oportunidade para jogar como 3º médio - faz sentido no Dragão, sobretudo contra as Académicas que jogam para o ponto. Uma solução que merece mais tempo em campo, mas Quintero também tem que fazer por o merecer. Hoje fê-lo, e bem.

Outros destaques (+) - Marcano. É o nosso central mais forte no passe longo, consegue acelerar o jogo em 3 ou 4 metros e não sendo muito rápido tem grande sentido posicional e impulsão. Dizem que não pode jogar sempre com Indi, por haver 2 centrais canhotos. Continuo sem perceber como é que 2 destros podem jogar juntos, mas quando há 2 canhotos já é um problema. Rotinas, meus caros, tudo depende de rotinas e de tanto Indi como Marcano saberem como se devem posicionar para receber e para onde distribuir. Somou pontos para a titularidade, mesmo que no próximo jogo Indi não vá jogar.

Ricardo, desta vez a extremo. Raçudo, rápido, com alguma dificuldade em chutar ou cruzar de primeira mas com enorme disponibilidade. Mais prático que Tello e Quaresma a decidir, apesar de ser claro que lhe falta tempo de jogo na posição e maior imprevisibilidade no 1 para 1. José Ángel ia borrando a pintura em 2 lances (baixou muito o rendimento na segunda parte), mas na primeira parte superou o que temos visto de Alex Sandro em velocidade, profundidade, passe interior e cruzamentos. Temos dois bons laterais esquerdos. Um que tem mais potencial, estatuto e valor do que outro; e outro que apesar de ser underdog tem rendido mais e mostrado mais vontade. Não é preciso dizer quem. Reyes fez um jogo competente, resta saber nos próximos dias se o último.





Um ataque, um golo (-) - Quinto jogo consecutivo a sofrer golos. E não é nenhum acidente. Pode acontecer uma ou duas vezes e dizer que é azar. Agora, jogo após jogo ver adversários que só precisam de ir uma ou duas vezes à nossa baliza para fazer golo já não é azar, é desconcentração e displicência defensiva. Pior ainda, estamos habituados a sofrer pelo menos um golo contra equipas que passam o jogo todo à defesa. Então imagine-se quando será quando apanharmos uma equipa que queira jogar no nosso meio-campo. Nem todos os dias serão dias de São Helton...

Dois meses a seco (-) - No período em que precisávamos do melhor Tello, pela ausência de Brahimi, torna-se cada vez mais difícil perceber quem é este rapaz que veio de La Masia e que no início da época esperávamos ser o extremo match-winner que Paulo Fonseca nunca teve. Uma, duas, três, quatro vezes na cara do colo e mostra imaturidade, precipitação e displicência a finalizar. Tello é um avançado interior, que procura a baliza em vez da linha. Isso devia implicar que tivesse um mínimo de eficácia, mas isso não tem acontecido. Tello e até Quaresma, sendo os extremos titulares do FC Porto, fazem muito poucos golos. Isso acresce a responsabilidade de Jackson e força o meio-campo a ser produtivo (e daqui até se chega à crítica habitual a Herrera, excelente a aparecer no espaço mas pouco eficaz a finalizar). Comparem quantos golos marcam os extremos de Benfica e Sporting ao número de golos marcados pelos do FC Porto. Está há 2 meses sem fazer uma grande exibição pelo FC Porto. Só o estatuto e a crença de que possa vale algo mais é que lhe têm dado a titularidade.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sorte e azar, competência e incompetência

Não passámos do orgulho à vergonha, porque um portista não sente vergonha. Tristeza, sim. Desilusão, também. Porque a determinada altura os ses acumulam-se e já nem esses ses servem de desculpa ou consolação.

Jackson e pouco mais
E se o remate do Tello tabelasse para dentro? E se o homónimo do Rúben não aparecesse para salvar um golo certo? E se em vez do Salin jogasse o guarda-redes que sofreu 4 do Benfica? São demasiados ses, e de se em se a desvantagem para o Benfica vai-se tornando cada vez maior. E de nada adianta aguardar que o rival passe por uma fase de incompetência se nós próprios não formos primeiro competentes.

Há uma diferença entre um campeonato de colinho e um campeonato onde entregamos pontos de bandeja. No Dragão o Lima foi duas vezes à baliza e fez dois golos. Hoje bastou o Marítimo ir uma vez à baliza e lá se foram mais 3 pontos. Em ambos os jogos o FC Porto foi muito superior e foi por manifesta falta de eficácia que perdeu. Num jogo podemos falar de sorte ou azar. Quando se repetem, já é uma questão de eficácia ou ineficácia. O mesmo é dizer, de competência ou incompetência.

Isto jamais será meramente o campeonato do colinho se o FC Porto não fizer a sua parte. Se não fizer, é um campeonato onde não fomos competentes. Tal como 2004-05 não foi Estoril Gate nenhum, foi um campeonato onde o FC Porto não foi competente e só ganhou 17 vezes nas 34 jornadas. Se nós próprimos falharmos na nossa parte, sem o reconhecer, não há factores externos que o possam justificar.

Perder onde o rival há uma semana espetou 4 é difícil. Mas o pior é que estamos na fase onde o Benfica, mesmo a jogar mal, consegue ganhar os seus jogos. Mas já ao FC Porto, mesmo jogando bem e sendo superior a todas as equipas, basta irem uma ou duas vezes às balizas e lá se vão mais 3 pontos. Uma vez é azar, duas muito azar, a partir daí é culpa nossa.

Má preparação,
pior reação
Vencendo Benfica e Marítimo estaríamos no 1º lugar. Podemos dizer que o Benfica, não fosse determinados erros de arbitragem, não teria a pontuação que tem hoje. Verdade. Mas contra Benfica e Marítimo perdemos bem e sem poder apontar o dedo ao árbitro. Ou seja, não fizemos a nossa parte. E a maior crítica ao jogo de hoje: o Capela hoje esteve melhor do que nós.

Tempo de reflectir. Para mim um projecto não se esgota numa competição, nem num ano. Mas o presente tem que dar mais sinais de que o futuro pode ser promissor. É difícil ser campeão numa época com 15 jogadores novos, novo treinador, logo após a pior época em 30 anos e sobretudo contra um rival que tem há anos o mesmo treinador, a mesma estrutura e que nos momentos em que parecia ir vacilar teve um empurrãozinho. Mas nos momentos-chaves quem está a falhar somos nós.

16 jornadas, 48 pontos. Precisamos da garra que mostrámos em Braga e da eficácia que não tivemos hoje. Será difícil voltar a justificar um jogo assim, porque hoje não perdemos nem pelo árbitro, nem pelo tempo, nem por factores externos. Já ganhámos e perdemos jogos em que tivéssemos feito menos que hoje, mas acima de tudo perdemos porque não fomos competentes e eficazes como o devíamos ter sido.





Um pouco de Quaresma (+/-) - Irritei-me com Quaresma, uma, duas, três vezes. Adorna o que tem que fazer simples, não consegue perceber que ajudar a equipa não significa que tenha que ser ele a fazer tudo, tem dois lances onde tenta o remate quando pode assistir, não dá uma para a caixa nas bolas paradas, colectivamente a dinâmica nunca passa por ele... E no meio disto tudo foi quem mais tentou remar contra a maré, assumiu o jogo, nunca se escondeu, tentou desequilibrar... No meio de tão pouco, difícil implicar com isto.

Jackson, sempre ele (+) - Temos um dos melhores finalizadores do futebol europeu. E em vez de potenciarmos estas características, como o jogo aéreo e a presença na grande área, Jackson é obrigado a andar a baixar para dar ao meio-campo aquilo que o meio-campo não lhe consegue dar a ele. A partir dos 60 minutos, pior ainda. Lutou como ninguém e é simplesmente impossível que o obriguem a dar apoio ao meio-campo e nos flancos e que ainda esperem que seja ele a aparecer na grande área. Merecia mais. Palavra para a grande entrada de Rúben Neves, claramente a merecer a titularidade, e para uma estreia destemida de Gonçalo Paciência no campeonato (difícil esperar muito quando um jovem entra num jogo em que estamos a perder e a jogar num esquema táctico sem rotinas). Aquele lance de Óliver à Zidane devida ser perpetuado em GIF, mas há pouco para lembrar deste jogo.





Aos papéis (-) - «Quintero começa no flanco. Vamos lá mudar, vai o Óliver para o flanco e o Quintero para o meio. Porra, assim não, sai Quintero e vai Tello para o flanco. Calma que assim não dá, sai Herrera, Gonçalo vai para a frente e Jackson baixa mais. 3 minutos e nada? Sai daí Indi, vai Casemiro, ficamos com 3 defesas. É melhor não, baixa lá Casemiro. Assim também não dá, sobe um bocado Casemiro e Jackson vai mais para a frente. Vai pela esquerda. Não dá? Pela direita. Não dá? Tenta outra vez pela esquerda. Não dá? Direita.» Em fast-forward, foi este o caos táctico que o FC Porto mostrou hoje. Em vez de ter um esquema preparado para ganhar o jogo, experimentou 5 ou 6 à espera que o resultado lá aparecesse. Muito mal hoje, mister. É verdade que mesmo assim tivemos ocasiões de sobra para marcar, e bastava que duas delas entrassem para se ter um discurso diferente (é sempre assim, o que os adeptos querem é resultados), mas nada disfarça a desorganização e má preparação para este jogo.

Nem meio Miro (-) - Impossível culpar (totalmente) Maicon no golo do Marítimo. Não é o central que tem que fazer o acompanhamento ao médio. Casemiro estava a dormir no lance do golo. Maicon não abordou bem o lance, e o próprio Indi esteve em muitas dificuldades contra Maazou, mas o erro vem de trás. E se O Jogo, a Marca, o AS ou um jornal qualquer te elogiam amanhã, rapaz, deixo de ver futebol, porque é um sinal definitivo de que não percebo nada disto. Hoje nem Casemiro, nem Miro, nem meio Miro. O potencial está todo lá, o rendimento está todo em parte nenhuma. Rúben e o próprio Campaña já mereciam um terço das oportunidades. O factor Doyen não pode justificar tudo - já não justifica é nada.

Preciso mais
e melhor
Muito pouco (-) - Fisicamente, Danilo é sempre de enorme disponibilidade. Mas já vimos mais acerto no passe e no cruzamento. Maicon não consegue ter acerto no início de construção e num dia mau de Indi tudo fica mais complicado. Alex Sandro faz duas grandes aberturas, mas continua a léguas do que já mostrou com Vítor Pereira. Herrera fez um dos piores jogos desde que chegou ao FC Porto. E exactamente com a mesma crítica: é excelente a chegar a zonas de finalização, mas muito pouco eficaz. Nas transições hoje foi inexistente. Quintero tem o talento, mas não a atitude. Continua chateado com o mundo e assim é difícil singrar no FC Porto. Mas é justo dizer que a posição não o ajuda: Danilo também gosta de fazer diagonais, tal como Quintero, e assim perde-se a profundidade no flanco direito. E se no esquerdo Quaresma demora N segundos a soltar a bola, perde-se muito. E aqui entra o trabalho do treinador...

Já não há paciência (...) - ... para as bolas paradas. Devemos ser a equipa que pior aproveita os lances de bola parada na liga. E será que estão mesmo a ser trabalhados? Apenas 3 golos de canto em toda a época. Tendo em conta que já fizemos 30 jogos oficiais e ganhamos uma média de 8 a 12 cantos por jogo, quase o mesmo é dizer que precisamos de 100 pontapés de canto para fazer um golo. Pior que isso, não há soluções para bater os livres descaídos para o flanco e não há lances estudados na grande área. É bola bombeada e quem quiser que a apanhe... Porventura a maior crítica a fazer a Lopetegui, as bolas paradas, porque não se nota trabalho nenhum neste campo.

Uma última nota:


sábado, 24 de janeiro de 2015

(Em)préstimos que valem a pena

Óliver Torres foi uma das melhores coisas que aconteceu este ano ao FC Porto. Não só pelo que faz em campo, mas sobretudo pela maneira como contribuiu para que (quase) todos os portistas chegassem à conclusão que ter jogadores por empréstimo talvez não seja assim tão má ideia.
Óliver ajuda à mudança

Sobretudo desde a conquista da Champions enraizou-se a ideia de que o FC Porto tem que comprar-valorizar-vender. Conseguimos cumprir este ciclo durante 10 anos com grande sucesso e foi um modelo que funcionou, pelo menos tendo em conta aquilo que eram os seus objectivos - rendeu desportivamente, mas financeiramente manteve a SAD sempre ali pertinho do risco vermelho.

Tendo em conta que este modelo não é auto-sustentável, claro que a SAD vai ter que continuar a procurar vender jogadores. O que está aqui em causa é o pensamento errado de que, por termos que vender jogadores, não podemos beneficiar com outro tipo de negócios.

No início da época, muitos adeptos não queriam Óliver Torres porque defendiam que «o FC Porto não é barriga de aluguer para ninguém». Meus caros, é exactamente isso que o FC Porto é há anos. Cada época é um período de gestação. O FC Porto valoriza, o jogador sai, e o ciclo repete-se. A diferença é que estamos habituamos a que esta barriga seja alugada a troco de muito dinheiro. Mas há outras formas de se ser lucrativo.

Óliver Torres, por exemplo, está a valorizar o FC Porto, desportivamente. E é possível conjugar as duas vertentes. O FC Porto pode perfeitamente ter jogadores para valorizar com vista a uma transferência e simultaneamente ter outros jogadores que ajudam desportivamente.
Para render em campo,
não na SAD

Lucho González, quando regressou ao FC Porto, era exactamente com o mesmo propósito de Óliver Torres: valorizar a equipa desportivamente, sem pensar no modelo compra-venda. Claro que há os casos em que as duas vertentes se conjugam, com Jackson Martínez à cabeça - seja desportivamente, seja financeiramente, vai render sempre. Mas nem sempre é possível que essas coisas coexistam.

O FC Porto nunca tem, nem nunca teve, 11 titulares para vender. Da equipa que ganhou a Champions, em 2004, o FC Porto teve vários jogadores que saíram sem que houvesse preocupação em que não rendessem muito financeiramente. Casos de Nuno Valente, Costinha (ainda que num pacote com Maniche), Alenichev ou até McCarthy. Muito abaixo dos jogadores que saíram para manter a máquina a funcionar - Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Deco, Maniche ou Derlei.

Da equipa que ganhou a Liga Europa em 2011, o FC Porto livrou-se de Sapunaru, Varela, Belluschi e até Rolando (um caso algo à parte), e também quase ficava sem Fernando a custo zero. Álvaro Pereira, Otamendi e Guarín deixaram verbas que cobriram perfeitamente o investimento, mas vendidos à pressão. Quem manteve a máquina à funcionar? Essencialmente Moutinho, James Rodríguez, Falcao e Hulk. Quatro nomes numa equipa que ganhou uma competição europeia.

Tudo isto para dizer que o FC Porto dificilmente tem mais do que 5 ou 6 jogadores no plantel que possam ser candidatos às tais transferências que mantêm a máquina a funcionar. Então qual é o problema de haver 4 ou 5 emprestados num plantel de 24 jogadores? Todos os anos há jogadores que são contratados por uma quantia considerável, mas que depois não rendem. Meus caros, o problema é este, não é quem está emprestado.

É perfeitamente possível e admissível que o FC Porto passe a ter mais jogadores emprestados. Casemiro e Tello, por exemplo, têm sido algo criticados pela sua irregularidade no FC Porto. Imaginem que o FC Porto já tinha batido 18 milhões de euros pelos dois, que em conjunto custam mais de 5 milhões/época em salários? O empréstimo destes dois jogadores foi um grande mecanismo de defesa para o FC Porto.

Ádrian, caso para refletir
E agora pensemos em Ádrian López. Independentemente do faseamento do pagamento da transferência defender o FC Porto, algo só ao alcance num pacote M&M, Mendes e Madrid (pausa para ver se por acaso há M&M's em casa; bingo!), se calhar hoje em dia todos os portistas preferiam que Ádrian López estivesse nos mesmos moldes de Casemiro e Tello: emprestado. Claro que dificilmente o Atlético emprestava um avançado de 26 anos, que de certeza que não veio para o rectângulo à beira-mar ganhar dois pires de tremoços, mas isto apenas para exemplificar que os empréstimos podem mesmo defender o FC Porto.

Podem até defender bem mais do que por exemplo os fundos de transferências. É uma utopia dizer que há partilha de risco. Não há. A única coisa que os fundos podem ajudar é através do financiamento da transferência a curto prazo, como por exemplo com Brahimi (e em boa hora, neste caso). Mas se o negócio corre mal, o fundo não fica a arder com prejuízo. Há mecanismos que defendem os fundos, e que muitas vezes obrigam a que coisas assim aconteçam. Claro que os Granadas não emprestam Brahimis ao FC Porto, mas isto apenas para exemplificar.

Para reforçar que podemos e devemos aceitar maiores números de empréstimos no plantel, qual é a diferença entre ter um plantel com emprestados e ter um plantel com jogadores que recebem contratos de 4 ou 5 anos, não passam da primeira época e depois têm que andar ao pontapé pelas Turquias do futebol à espera que alguém lhes pegue ou pague parte do salário? Com os emprestados, se ao fim de um ano não se gosta, adeuzinho. Nos restantes casos, olá e adeus; olá e adeus; olá e adeus; poça, ainda cá estás?

O importante, claro, é tentar salvaguardar a possibilidade de ficar com o jogador em caso de empréstimo. Opções de compra, percentagens do passe, direito de preferência em caso de dispensa futura, há várias maneiras de tirar proveitos de empréstimos. Não vamos ter todos os anos 5 ou 6 jogadores emprestados, claro que não, mas devemos ultrapassar o preconceito de ter jogadores cedidos e aceitar este modelo como uma mais valia para o FC Porto. Não há propriamente um mar de Ólivers à nossa espera, mas vale a pena o mergulho, apesar das águas de Janeiro serem sempre mais frias.

PS: Vale a pena ler esta entrevista a uma velha raposa do futebol europeu.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Trânsito nos dois sentidos

Já lá vão três semanas de mercado. Opare (Besiktas) e Kelvin (Palmeiras) já saíram. Ricardo, o guarda-redes, vai pelo mesmo sentido. Da equipa B Candé, Djim (Freamunde), Tiago Rodrigues (Nacional) e Kayembe (Arouca) também foram à procura de tempo de jogo noutros patamares. Janeiro vinha sendo aproveitado para emagrecer o plantel, mas o trânsito vai acabar por surgir nos dois sentidos.

O FC Porto já perdeu 4 das soluções que tinha para jogar nas alas. Como? Óliver Torres afirmou-se no miolo. Ricardo Pereira passa de vez a lateral com o empréstimo de Opare. Kelvin saiu por empréstimo. E Ádrian López vai estar afastado dos relvados pelo menos até Março.

Ádrian só em Março
Brahimi e Aboubakar vão estar na CAN até ao início de Fevereiro, na melhor das hipóteses. Quem sobra para as alas? Cristian Tello e Quaresma. Há Quintero, que pode jogar a partir dessa posição (a partir de, não em, que são coisas diferentes), e Otávio é uma aposta de futuro da SAD e dificilmente de presente para Lopetegui.

Sobra a equipa B. Ivo Rodrigues e Gonçalo Paciência já deram um primeiro passo para subir de patamar. E Gonçalo é mesmo, neste momento, a única alternativa a Jackson Martínez. Da mesma forma que Ivo, que até está lesionado, é a única alternativa de raiz a Tello e Quaresma nesta altura. A alternativa chama-se Ricardo Pereira, motivo pelo qual Victor Garcia passou a trabalhar com o plantel principal, para ser alternativa a Danilo e soltar Ricardo no corredor.

A lesão de Ádrian López foi um revés. Não pelo que o jogador era, mas por aquilo que poderia passar a ser. Com a paragem até Março, Ricardo Pereira, Ivo Rodrigues e Gonçalo Paciência (há André Silva, mas precisa da titularidade na B primeiro), além de Quintero, são forçosamente as alternativas ao 11. Não é de todo uma coisa má, pelo contrário. Um misto de circunstâncias desfavoráveis, mas que permitem e bem que jovens valores se revelem. De qualquer forma, abriu-se a porta para a SAD contratar mais um atacante no mercado até ao fim do mês.

Tendo em conta que no mercado de Inverno a ideia é melhorar de imediato a equipa, não faz sentido apostar na contratação de jovens valores que necessitam de tempo de adaptação e evolução. Um Adriano, um Janko, até mesmo um Izmaylov (sem problemas físicos), jogadores que possem chegar e jogar. A dicotomia é perceber se será possível encontrar um nome que possa, simultaneamente, acrescentar qualidade no curto prazo à equipa e que possa dar algo mais do que os jovens que estão na sombra. O princípio básico da equipa B devia ser ocupar as vagas da equipa A.

Mas importa lembrar que os bês vão ter mais 23 jornadas da segunda liga, com vários jogos à quarta-feira, além da International Cup. Seria bom apostar na promoção dos Sub-19, mas com o início da segunda fase faz sentido que Folha mantenha os melhores jogadores às suas ordens, ainda de olho num brilharete na Champions de juniores. O cobertor fica curto.

Apela-se por isso ao tal toque de midas nesta janela de mercado, onde além da contratação de um atacante há mais uma incógnita para resolver: a situação de Reyes. Em Braga tinha a oportunidade para ganhar o lugar, mas mais rapidamente assinou a dispensa.
Não será Reyes a
ser substituído

De recordar que Reyes foi contratado em Dezembro de 2012, dois meses depois de anunciado um prejuízo de 35,7 milhões de euros na época anterior. Negociar com um euro no bolso é uma arte, empurrar com a barriga nem tanto. No caso de Reyes houve uma grande aposta de futuro por parte da SAD, até porque na altura tínhamos como centrais Maicon, Otamendi, Mangala, Rolando e até Abdoulaye e Sereno. Não havia carência nos quadros.

Foi uma jogada de antecipação, tanto que antes de vir já estava alienado, com 47,5% à muito falada e pouco conhecida Gol Football Luxembourg, por 3,5 milhões de euros. Metade do preço de Reyes, que custou 7 milhões de euros por 95% (se quiserem dizer 9, então passem a incluir as comissões/encargos/prémios de assinaturas em todos os jogadores, para não haver incoerência). Como a partilha de risco é um mito e caso os negócios corram mal os fundos têm que ser indemnizados, não há apenas pressão desportiva sobre Reyes. Há também financeira.

Continuo a confiar no potencial do jogador. A questão é que nos últimos 18 meses pouco ou nada evoluiu, mas também porque poucas oportunidades teve para ter continuidade no 11. Mas há o paradoxo: Reyes comete erros porque não joga mais ou não joga mais porque comete erros? O empréstimo é a solução ideal para o jogador.

Então chegando à altura de empresar Reyes, é necessário ir ao mercado contratar um central? Se é por causa de Reyes... não. Ao emprestar Reyes, o FC Porto estará a ceder o seu 4º central. Então continuaria a ter Maicon, Indi e Marcano, além de Lichnovsky promovido a 4º central. O problema estava resolvido, não fosse a equipa B ficar com carência entre os seus centrais. Por outro lado, são poucas as oportunidades em que o 4º central tem oportunidade de jogar (Reyes que o diga), por isso Lich continuaria maioritariamente a jogar pela B.

Por isso, se a possível saída de Reyes implica uma ida ao mercado, não significa que Lopetegui está insatisfeito com Reyes. Significa sim que não está satisfeito com o rendimento de Maicon e/ou Marcano nas duplas com Martins Indi e que prefere melhorar já a dupla de centrais titulares. Mas então surge de imediato o problema anterior: haverá possibilidades no mercado para contratar um central para chegar e pegar logo na equipa, quando o central de 7 milhões ainda não serve?

O mercado fecha a 2 de Fevereiro. E como manda a tradição, tem tudo para começarmos a estar atentos ao F5. Falta saber com que necessidade e a que preço.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Hoje o orgulho, amanhã a revolta

Imbuídos de um espírito Ulrichiano: ai aguenta, aguenta! Aguentou tanto que no final rebentou. Treinador, jogador e dirigentes do FC Porto só tinham uma palavra no final: orgulho. Orgulho é o que devemos sentir hoje. Revolta é o que devemos sentir até ao fim da época.

Fotos: Catarina Morais
Digo há anos que devíamos deixar a Taça da Liga para a equipa B (antes disso, para os sub-19, como chegou a fazer Jesualdo Ferreira) e as segundas linhas. Reafirmeio-o no início da época, outra vez após ganhar ao Rio Ave, novamente depois de ganhar ao União. E hoje pela primeira vez digo o contrário: eu quero aquele pedaço de chapa que mais parece uma peça de ludo no museu. Eu quero a Taça da Liga. Esta Taça da Liga.

Quero a Taça da Liga no museu, para que possamos olhar para ela e recordar este dia em Braga. Como nos recordamos do Derlei, completamente rebentado, a fazer sprints nos prolongamentos contra o Celtic e o Panathinaikos; como recordamos o Pedro Emanuel, com uma cãibra, a entrar pela baliza do Baía dentro para evitar mais um golo do Inter; o João Pinto, acompanhado pelo Baía, o Secretário e (quem diria) o Rui Jorge, a levarem com garrafas no Jamor; o Lisandro Lopéz a correr 70 metros para ir roubar uma bola ao Rodríguez quando o Benfica, de Chalana, ficou contente por perder apenas por 2-0; o Fernando com tentáculos que mais pareciam oriundos de um filme de porno japonês contra o Zenit; o Pedro Mendes a gritar, aos 91 minutos em Gelsenkirchen, para o Jorge Costa: «Oh bicho, eu nem acredito!».

Tantos momentos que simbolizam a mística portista. Hoje temos mais uns quantos. O Helton a fazer a vénia aos adeptos enquanto bate com a mão no peito; o Rúben Neves completamente rebentado ao fim de 90 minutos, após lesão; o Campaña com olhos esbugalhados de serial killer; o Ángel numa corrida que já não se via desde o sprint do Cissokho em Braga; o Marcano a levar à frente um, dois, três e a recuperar com mais um sprint à maluca. Raça de dragão como há muito não víamos, como pensávamos que não veríamos num plantel com tanta gente nova.

Falta de mística o tanas. Vimos empenho, garra, esforço mútuo, inconformismo e vontade insaciável de vencer. Se isto não é ser Porto, o que será? Um jogo à Porto, que pode muito bem marcar um ponto de viragem. Mas temos que ser nós a inverter a situação, e não esperar que ela mude por si mesma. Porque todas as ameaças aqui ontem enumeradas mantêm-se. O orgulho não chega. Não se não tiver a revolta como amiga íntima.

Quero esta Taça para que olhemos para ela e nos recordemos de Cosme Machado. Isso mesmo. Para que nos recordemos que nem assim nos conseguiram tirá-la. Quero esta, este ano. E quero o campeonato pelas mesmas razões.





Helton (+) - Mea culpa, Helton. Fui um dos primeiros a lamentar que após a lesão dificilmente o veríamos ao mais alto nível outra vez. Como estava errado. Na mesma exibição consegue parecer guarda-redes de futebol, andebol e hóquei em patins. Um gigante, como tinha sido Fabiano em Nápoles, como Andrés ainda não pôde ser, como Ricardo nunca poderá ser. Se isto não lhe dá a titularidade, nada dará. Como merece jogar nos Barreiros.

Rúben Neves e Campaña (+) - Pensar que Rúben Neves podia estar por esta altura a cumprir o primeiro ano de júnior é assustador. Deixem de perseguir os Minalas desta vida, pois os 17 anos de Rúben Neves é que merecem todas as suspeitas. Um patrão no meio-campo, mesmo a coxear, certinho no passe mesmo faltando 2 jogadores em campo e com uma raça interminável. E que grande parceria fez com Campaña. Na primeira parte temi que não acabasse o jogo, mas não só acabou como fez 45 minutos de altíssimo nível. Uma bela resposta à contratação de Sérgio Oliveira.

José Ángel (+) - Alex Sandro tem um problema. A 18 meses do final de contrato, continua a ser um grande lateral esquerdo, de craveira internacional e com grande potencial. Mas não consegue uma regularidade que leve a oferecer um salário dos mais altos do plantel, como Danilo já (quase) pode reclamar, nem que faça um clube europeu perder a cabeça por ele. Não sabemos como a SAD decidirá, mas estou descansado: Ángel tem tudo para ser titular no FC Porto. Fartou-se de fazer cortes, anular jogadas de dois para um e ainda foi desequilibrar no ataque. Exibição que pede mais jogos. Nota para Ricardo, também em bom plano.

Adeptos (+) - Absolutamente irrepreensíveis, em especial na segunda parte, e a contagiar a equipa como nunca. As atitudes de Lopetegui e Pinto da Costa no final do jogo foram mais do que merecidas. O comportamento dos ultras hoje merece todo o reconhecimento pela forma como empurraram uma equipa que, ao fim da primeira parte, estava destinada a uma derrota. Mudaram o jogo.

Outros destaques (+) - Sou fã de Herrera e este é um dos jogos que mostram porquê. Entra com uma imensa disponibilidade, agressividade, verticalidade e sem nunca deixar que o Braga ganhasse espaço na rectaguarda. Ricardo fez um bom jogo defensivamente, o que se pedia, Marcano fica mal na foto nos descontos mas Helton safou-o e passa com nota positiva. E por fim, Gonçalo Paciência. Tal como Ivo, teve uma estreia ingrata. Mas enquanto esteve em campo lutou no corpo-a-corpo, baixou, ficou perto do golo, arrancou um penalty e ainda foi fechar o corredor esquerdo. Para um avançado em estreia que funciona numa equipa que assume a posse de bola e que hoje teve tudo menos isso, foi bom. Com Ádrian lesionado, dos convocados já ninguém te tira. E ainda bem.





Anjinhos (-) - Reyes faz estes disparates porque não joga mais ou não joga mais porque faz estes disparates? O empréstimo só lhe fará bem. O problema é a dicotomia de emprestar um central de 7 milhões para ir investir noutro que, supostamente, tem que ser melhor do que os que já cá estão. Precisa de jogar, com regularidade, e de preferência que seja emprestado a uma equipa que assume predominante o jogo e que joga com a linha defensiva subida; se for para emprestá-lo a uma equipa de linha defensiva recuada não vale a pena. E Evandro, Evandro... Com a equipa reduzida a 10, é preciso evitar expor-se a situações de risco. Foi o que aconteceu e podia ter custado um jogo. Lembro-me de 2 expulsões no Estoril que também foram um disparate. Que a lição tenha sido aprendida.

À 3.ª tem que entrar (-) - Achei que se tínhamos alguma hipótese de ganhar o jogo era com uma bola para a corrida do Tello. E assim foi, a oportunidade apareceu, mas faltou força para finalizar bem e a pressão do Tiago Gomes (o tal que já devia ter sido expulso antes) impediu-o de rematar como devia ser. Dito isto, recuso-me a acreditar que um jogador com esta capacidade de explosão não aprenda a ser mais incisivo, ter mais critério a definir no último terço e a saber jogar em espaço mais curto. Em Alvalade falhou, hoje também. Na próxima tem que entrar. Vai entrar.

Cosme (-) - Havia uma razão muito forte para eu chamar a esta secção os «Machados». Agora há duas.

PS: O Helton merece um espacinho no mesmo corredor que o Guttmann. Afinal, já conseguiu fazer aquilo que outros tentam fazer há mais de 50 anos sem o treinador húngaro: meter as mãos numa taça europeia. Por isso, vamos lá ser solidários com esta causa. A votação MVP, como já repararam, está aldrabada. Mas quem não concordar que é o MVP é que seria o maior aldrabão.

PS1: Lopetegui e Pinto da Costa, impecáveis na reacção a um momento de orgulho nos jogadores e nos adeptos. Após o jogo era um momento para sentir orgulho. A partir do treino de amanhã será um momento para sentir revolta. E ainda aguardemos para conhecer os castigos que Evandro e Antero Henrique vão ter.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Pior que o colinho, só o assobiar para o lado

Diria que 95% dos árbitros ou auxiliares não agradam a nenhum adepto. Todos se lembram de pelo menos um lance em que o seu clube foi prejudicado, e agarram-se a ele até os árbitros encostarem o apito. Por isso é que discutir arbitragem torna-se cada vez mais inútil, redundante, até incoerente e desprovido de sentido. N'O Tribunal do Dragão, são raras as vezes em que a arbitragem é tema. Por isso tem que ter acontecido algo de extraordinário para hoje ocorrer o contrário.

Benfica com Capela:
11 jogos, 0 golos sofridos
E aconteceu. Na 18ª jornada da liga, o Benfica vai sentir o que é ser um felizardo nos 5%. Tudo saiu bem nas nomeações. Bruno Paixão no Paços de Ferreira x Benfica (onde Urreta não vai jogar, por ter provocado o 5º cartão amarelo na jornada anterior - já leram isto em algum outro lado?), João Capela no Marítimo x FC Porto. Tendo em conta que daqui a 3 jornadas o Benfica vai a Alvalade, num dos jogos onde haverá mais possibilidades de perder pontos, a almofada dos 6 pontos (na prática 7) teve uma bela companhia.

Mas o que mais incomoda grande parte dos adeptos do FC Porto não é as nomeações, mas sim a passividade com que o FC Porto, nomeadamente os seus dirigentes, tem assistido a isto. «Porque é que ninguém diz nada?», perguntam muitos. A resposta é simples. O FC Porto, nos últimos 30 anos, falou quase sempre a uma só voz. Três grandes excepções: Pedroto, José Mourinho e Jesualdo Ferreira, que atacavam e contra-atacavam todas as semanas, fizeram uma acérrima defesa ao clube nas suas intervenções públicas. Quase não era necessário Pinto da Costa acrescentar mais nada.

Ora nos últimos 3/4 anos Pinto da Costa deixou de ser interventivo como em tempos o foi. O papel do presidente do FC Porto foi mais ao encontro de três pilares: mediação, supervisão e delegação de tarefas. Em suma, Pinto da Costa estava a ensinar o FC Porto a gerir o dia-a-dia sem ele. Algo que o levou a dizer em 2012 «está na altura do clube ganhar sem mim». O presidente resguardou-se cada vez mais, as aparições públicas são menos frequentes, as entrevistas também. Para ler uma bicada, só ocasionalmente na Revista Dragões. Actualmente Pinto da Costa já admite avançar para o 14º mandato e no último verão teve um papel activo na reconstrução do papel e nas mudanças na SAD. Mas quanto à postura pública permaneceu tudo na mesma linha: silêncio. Como o FC Porto sempre falou a uma só voz, não estamos habituados a reagir se não for o presidente a fazê-lo, excepção feita aos comunicados no site (alguns bem lançados, como a necessidade de varrer a porcaria, outros absurdos, como a estátua Cosme Damião). Se Pinto da Costa não fala, quem falará? Antero Henrique? Adelino Caldeira? Urge rever a estratégia de intervenção e aparição pública.

E voltamos a Bruno Paixão. Nos últimos 6 jogos com Paixão, o Benfica ganhou 5 e empatou 1. E empatou esse jogo porque Cardozo conseguiu falhar um penalty no último minuto contra o Gil Vicente. Não podemos tirar directamente a ilação que esses jogos foram ganhos por causa do árbitro. Só quero é compreender que tipo de Conselho de Arbitragem mantém um árbitro que é excelente para apitar o Benfica, mas não serve para apitar o FC Porto. Como?

FC Porto sem paixão há 3 anos;
Benfica invicto desde então
Nos últimos 3 anos, desde o assalto à mão-armada em Barcelos que deu a única derrota a Vítor Pereira, Bruno Paixão não apitou nenhuma vez o FC Porto. E apitou 6 o Benfica. Há mais: nos últimos 2 anos, também não arbitrou nenhuma vez o Sporting. De que serve ter um árbitro que só serve para arbitrar 1 dos 3 grandes? Eu sei para o que serve: serve os interesses do único clube grande que apita.

E com isto vamos a João Capela, o árbitro com quem o Benfica nunca sofreu golos (em 11 jogos!). Já conseguiu manter a baliza mais vezes a zeros do que o Roberto! Quanto ao FC Porto, nos últimos 5 jogos com João Capela... ganhou um. Sim, apenas um, em Setúbal. De resto derrotas contra Braga, Nacional, Académica e um empate contra o... Marítimo, nos Barreiros.

Depois de olhar aos números de Bruno Paixão e João Capela, uma questão difícil de colocar: porque é que o Sporting tem a capacidade de vetar os árbitros que considera benfiquistas, mas o FC Porto não?

Há um ano, no jornal do Sporting, foi dito que o clube recusava 4 opções para arbitrar o derby com o Benfica: Duarte Gomes, Manuel Mota, João Capela e Bruno Paixão. O Sporting disse que se tratavam de árbitros «reconhecidamente benfiquistas» e que «sistematicamente prejudicam os seus rivais». Nenhum dos árbitros, nem sequer a APAF ou o CA, decidiu usar o direito de resposta. Por isso, se uma afirmação grave como foi a do Sporting era mentira, só restava desmentir. Como não foi desmentido, assumamos que é verdade.


Dito isto, depois do Sporting ter rejeitado estes 4 árbitros...

Quantas vezes João Capela voltou a arbitrar o Sporting? Zero.
Quatas vezes Bruno Paixão voltou a arbitrar o Sporting? Zero.
Quantas vezes Manuel Mota voltou a arbitrar o Sporting? Zero.
Quantas vezes Duarte Gomes voltou a arbitrar o Sporting? Uma.

O Benfica tem a capacidade de ter toda a sorte nas nomeações e pertencer aos felizardos 5%. O Sporting, pelos vistos, tem a capacidade de expor publicamente as cores clubísticas dos árbitros e com isso praticamente evitar todos eles durante um ano inteiro. E o FC Porto, no meio de tudo isto, como fica? Calado na Capela, com memórias de como Pedroto se insurgia aos roubos de igreja há 30 anos.

Não podemos evitar que este seja o campeonato do colinho. Mas podemos e devemos evitar que este seja o campeonato em que o FC Porto ficou a assobiar para o lado, à espera que Lopetegui e os jogadores recuperem daquilo que não podem controlar. Os adeptos já deram o seu grito de revolta. Lopetegui e os jogadores estão a crescer e a vencer. Falta o resto, FC Porto.

Reestruturar com a prata da casa

A redução de custos é uma necessidade no FC Porto. A SAD apostou num orçamento reforçado para esta época, depois de uma temporada em que não conseguimos competir com o Benfica, mas que vai ter os seus custos. Custos esses que implicam, como já foi dito, mais 40 milhões de euros em mais-valias até ao final de Junho - se não for feito, o exercício vai voltar a transitar com prejuízo, à imagem do que já foi feito na temporada anterior.

Angelino Ferreira era o dirigente que mais alertava para a necessidade de apertar o cinto, tanto que acabou por implicar o fim de uma ligação de 23 anos de um dos mais competentes, íntegros, versáteis e importantes dirigentes que o FC Porto já teve. A entrevista que deu ao JN vale a leitura.

O seu sucessor, Fernando Gomes, também admitiu ao Porto Canal que vai ser necessário reduzir os custos. Como, ainda não se sabe. Angelino Ferreira apresentou um bom e sustentado projecto de 5 anos para redução de custos, do downsizing ao ajustamento das despesas para números equiparados às receitas, mas saiu ao fim de um ano.

Não se sabe ainda de que forma o cinto irá apertar. Mas é obrigatório que a partir desta temporada a redução passe a ser progressiva, sobretudo depois da operação Euroantas. A Euroantas que Angelino Ferreira ajudou a erguer, uma sociedade irrepreensível no cumprimento das suas responsabilidades. Um mero apontamento, e exemplo.

Uma das vias para essa redução de custos terá que ser forçosamente recuperar o toque de midas. Muitos defendem que é melhor comprar um jogador caro do que três razoáveis, e por essa perspectiva sou obrigado a concordar. Se a questão é comprar Danilo ou um pacote com Tomás Costa+Prediger+Stepanov, a resposta é simples. Mas a equação nem tanto. Devemos, cada vez mais, olhar para o plantel, identificar lacunas e então preenche-las.

Uma dessas lacunas é o jogador português. Temos 4 inscritos na UEFA: Ricardo Nunes, Quaresma, Ricardo Pereira e Rúben Neves. E nenhum deles é formado no clube (Rúben Neves ainda não tem idade para ser considerado formado no clube), o que nos leva a perder 4 vagas na Champions. Uma situação que o projecto V611 visava resolver, mas que ficou perdida na gaveta. 

Mas não vale a pena contratar por contratar, inscrever por inscrever. É preciso qualidade. E agora olhemos para a posição de médio-defensivo. Temos o projecto de futuro chamado Rúben Neves, da responsabilidade de Lopetegui. Tem perfeitas condições para ser o nosso 6 de presente e futuro. Depois há duas alternativas. Ambas por empréstimo: Casemiro e Campaña.

Não vamos discutir a valia dos jogadores. Discutamos o preço. Casemiro custa 10 milhões de euros e recebe, no contrato com o Real Madrid, 2,5 milhões de euros brutos/ano. É internacional brasileiro, tem potencial, mas ainda não rendeu perto desse valor. Salvo negociação com o Real Madrid, é impossível accionar essa cláusula de compra. Sobretudo quando anda por aí um pirralho a obrigar-nos a imaginar todo o tipo de ginástica financeira.

Sobre Campaña, nunca nenhuma das partes disse que há cláusula de compra. O Record diz que sim, de 3 milhões de euros. Ainda não teve grande tempo de jogo e se por acaso ficar no FC Porto será mais pela crença de Lopetegui nele do que pelo que há-de mostrar dentro de campo (tendo em conta que não haverá muitas oportunidades). 3 milhões não são trocos, não para uma sociedade em falência técnica (mesmo que seja corrigida no próximo semestre).

Temos que encontrar o equilíbrio entre preço, qualidade, potencial e preenchimento de lacunas. E com isto chegamos a um nome: Sérgio Oliveira, o menino dos 30 milhões. Era assim que o conheciam, antes de quem tomava as rédeas da formação lhe dar duas opções de carreira péssimas (empréstimo ao Beira-Mar quando ainda era sub-19, e depois uma curta passagem pela Bélgica). 

Fez mais uma época no FC Porto B e seguiu-se o Paços de Ferreira. Cresceu, sobretudo agora com Paulo Fonseca. Tornou-se um 6 completo, que equilibra a equipa, constrói, sabe ser agressivo (à imagem de Casemiro, por vezes até demasiado), já é jogador de 90 minutos... E é português. Formado no clube. Familiarizado com o campeonato português, e com esta casa.

Sérgio Oliveira custa 1 milhão de euros e de uma assentada preenche uma série de lacunas. Não se trata de promover de imediato Mikel ou Podstawski, jogadores que não têm rodagem de primeira liga. Sérgio Oliveira já tem cerca de 50 jogos do alto escalão, inclusive na Europa, Já foi o melhor jogador jovem do mês, já foi pré-convocado por Fernando Santos e tem algo também importante: vontade intrínseca de representar o FC Porto (é sócio desde que nasceu).

Muitos adeptos temem que o FC Porto regresse, com todo o respeito, ao tempo dos Licás. Contratar em Portugal não significa contratar mal. Há que avaliar as características dos jogadores em questão. Licá jogava numa equipa de contra-ataque, de transições rápidas, antes de chegar ao FC Porto. Não tinha características para vingar aqui. Sérgio Oliveira tem um perfil diferente e o Paços de Fonseca joga futebol, não joga apenas para o ponto. É um médio com características para vingar por cá. O cinto das calças agradece.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Os campeões fazem-se a comer relva (ou lama). E o pobre Urreta numa sopa de coincidências.

Maestro no batatal
Aquele batatal de Penafiel é tão fértil que se lançarem lá algumas sementes acabam com a fome mundial. Era o típico jogo onde para ganhar era preciso comer a relva (ou a lama, neste caso). Para ver a importância desta vitória, basta lembrar que perdemos a liderança no dilúvio frente ao Boavista. E desde então o Benfica não voltou a sair do poleiro. 

Três pontos importantes, 6ª vitória consecutiva e provas de um crescimento sustentado da equipa. Não relativamente ao seu modelo de jogo habitual, que ontem não se viu (nem se podia ver), mas sim na perspectiva de vestir o fato-macaco, ser pragmática e adaptar-se às circunstâncias para ganhar. Segue-se uma difícil série de jogos até ao fim de Janeiro. Hora de sacudir a lama e guardar bem guardado o fato-macaco, que certamente voltará a ser necessário.





O Capitão (+) - Já não é apenas Jackson, o goleador. É também Jackson, o capitão, o líder, o exemplo. Um jogaço, tão bom que parecia estar a jogar em relva curta e verdinha. A forma como inventa as jogadas do primeiro e do terceiro golo resolveram qualquer problema de falta de criatividade. Depois voltou a estar na hora certa para picar o ponto. Lutou no meio-campo, aguentou porrada, empurrou a equipa para a frente. No jogo com piores condições para se jogar futebol, fez o melhor jogo da época.

Goleador e líder
Óliver (+) - Foi eleito o MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão 3 vezes nos últimos 4 jogos. Volta a candidatar-se novamente. É um dos mais puros talentos do futebol mundial, de recorte técnico muito acima da média, mas foi perfeito a adaptar-se às dificuldades que o jogo tinha para oferecer. Lutou, assistiu, marcou e provou uma vez mais que joga em qualquer campo, em qualquer equipa (ouviste, Simeone?). Infelizmente para nós, num talento destes, e a jogar a este nível, o futuro nunca se resumirá apenas à questão «Atlético ou FC Porto?».

A entrada de Marcano (+) - Perdoa-lhes, Lopetegui. Falo daqueles que acham que podem ver ópera ou tiki-taka quando é preciso calçar barbatanas ou os botins. Quaresma não ultrapassou um único jogador em velocidade, adornava quando era preciso jogar simples e o FC Porto tinha perdido o controlo do jogo. A entrada de Marcano foi decisiva, pois o Penafiel não voltou a criar perigo. O meio-campo ficou fechado e Óliver pôde subir para zonas mais aditadas (surgindo depois o 3-1). Ganhar um jogo com uma substituição, nota máxima para Lopetegui ontem. De destacar ainda as exibições incansáveis de Alex Sandro e Herrera e as duas assistências de Casemiro (ainda assim com várias falhas defensivas, na variação de flanco e em boa hora substituído).





Bolas paradas (-) - O que será preciso para voltar a ver um golo na sequência de uma bola parada? Apenas 3 golos nasceram de pontapés de canto esta época. Já sofremos mais golos do que os que marcámos desta forma. Os lances estudados parecem sempre mal estudados, raramente ganhamos uma bola ao primeiro poste e quando o marcador a tenta meter no segundo sai um balázio para a linha de fundo. Na Liga dos Campeões e nos jogos de maior dificuldade não podemos ser tão perdulários nestes lances.

Medo (-) - Não é que Tello tenha jogado mal. Tentou aparecer, reclamou protagonismo, teve algumas diagonais perigosas, arrastou marcações e esteve perto do golo. Esteve bem melhor do que Quaresma, por exemplo. Mas a forma como em dois lances se encolhe, com medo de ir ao choque, personifica tudo aquilo o que não é um jogador à Porto. Medo de quê, Tello? Não sei o que te ensinaram na Catalunha, mas aqui jogas num clube onde se corta a ponta da chuteira e se pinta a meia para poder jogar com um dedo do pé partido. O medo é uma cena que não pode assistir ninguém aqui.

Jornal OJOGO, 18-01-2015
Três ex-árbitros internacionais, e não há acordo relativamente a nenhum lance. Se aqui não há acordo, algum dia haveria em conversas entre adeptos em que cada um defende a sua causa? O erro faz parte do futebol. Neste caso não há erro, há dúvidas nos 2 primeiros golos, pois a pespectiva da imagem ilude (o que levou o comentador Luís Freitas Lobo, que tinha garantido que o primeiro golo era «claramente» em fora-de-jogo, a fazer mea culpa no final e a dizer que estava em linha, após ter visto uma nova imagem). Mas aceito que foi claramente uma arbitragem polémica. E porquê? Porque há posição duvidosa nos 2 primeiros golos. Mas se há dúvidas, então beneficia-se quem ataca. E morre assim a polémica.

PS: Uma extrema coincidência que Urreta tenha acabado de se envolver num sururu com Marçal, no Paços de Ferreira x Nacional, para ver cartão amarelo. Numa sopa de coincidências, é o 5º cartão amarelo e o próximo jogo do Paços é contra o... Benfica, clube que tem opção de recompra de Urreta. É preciso ter muito azar, Urreta.