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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Estratégia, jantares e a honra do visado

A SportingLeaks começou a publicar documentos a 29 de setembro. Se há algo que Bruno de Carvalho faz bem é chamar a si as atenções e arranjar centros mediáticos alternativos. Então, era necessário algo forte para abafar um pouco o boom da SportingLeaks. Que fez ele? Foi ao prolongamento, da TVI24, para uma peixeirada com Fernando Santos e para entreter o povo. E já não se fala de outra coisa.

«Diz que disse»
É, infelizmente, mais uma injeção de populismo barato e inconsequente. A palavra de Bruno de Carvalho no futebol português já não tem valor, nem credibilidade, sobretudo após a forma como a CII da Liga geriu o desfecho do dossiê Liga Aliança. Bruno de Carvalho fez acusações, o Benfica manteve-se em silêncio, as instâncias disciplinares convidaram Bruno de Carvalho a apresentar provas... E o presidente do Sporting disse que não as tinha. Tiro no pé.

Ora o mais provável é que aconteça exatamente o mesmo nesta história dos 250 mil euros em jantares/prendas/incentivos para árbitros. Reparem na subtileza de Bruno de Carvalho: diz que foi uma história que lhe transmitiram «de forma anónima». Hilariante. O dirigente da verdade desportiva e transparência, que preza pelo rigor, num tema em que poderia estar patente o aliciamento a equipas de arbitragem, resume tudo isto a um diz que disse. E nem sabe quem disse, foi anónimo. E logo num programa onde qualquer comentador pode dizer qualquer baboseira ileso de consequências.

E agora, Bruno de Carvalho terá provas dos jantares de 500 ou 600 euros [se calhar é por isto que o Carrillo não quis renovar, porque ninguém lhe oferecia um manjar deste valor]? Claro que não. E quando, ou se, as instâncias de inquérito lhe convidarem a apresentar provas, vai dizer que não as tem, que foi simplesmente o que lhe transmitiram. Absurdo.

Que faz o Benfica? Vai ficar calado, certamente. Bruno de Carvalho não iria fazer uma afirmação daquelas sem ter o mínimo de conhecimento, o que é um facto, mas falta provar os valores em causa e as ofertas que transcendam os limites dos estatutos de anti-corrupção da UEFA. O Benfica não vai apresentar queixa nenhuma na PJ porque sabe que se ficar calado ninguém lhe tocará. Mais, se por acaso a CII abrir um inquérito, o que vão fazer não é questionar o Benfica: vão é pedir a Bruno de Carvalho para fundamentar as suas acusações. Como Bruno de Carvalho não o conseguirá fazer, colocam um segundo ponto: o da honra do visado. Perguntará ao Benfica se se sentem ofendidos com as acusações e se querem reagir judicialmente. O Benfica, que já aprendeu com o caso Liga Aliança, já sabe que só tem que ficar caladinho e deixar Bruno de Carvalho enterrar-se mais uma vez. Não deveria ser assim, mas é assim que provavelmente será.

Independentemente do mais que esperado desenrolar o caso, só é admissível que as instâncias oficiais peçam e apurem todas as responsabilidades. Alguém tem que ser punido desta vez. Ou o Benfica por práticas potencialmente ilícitas, ou Bruno de Carvalho por difamação e afirmações infundamentadas que colocam em causa a verdade desportiva. Não há que ser ingénuos, presentes a árbitros é uma prática com vários anos, possivelmente tocável a todos os clubes. O Sporting até homenageou Pedro Proença, já depois do fim da sua carreira, coisa nunca vista em Portugal: homenagem declarada de um clube a um árbitro, com direito lembrança e tudo.

Mas o que está em causa é a questão do valor máximo admissível. Já todos estão a propagar as recomendações da UEFA, os tais 183 euros (que eram sensivelmente 120 euros quando o estatuto foi criado, mas o câmbio fez o valor disparar). Mas cá vai uma lembrançinha: o Conselho de Arbitragem pertence à FPF. E a posição da FPF face a este tema difere da da UEFA.

A FPF enviou em 2008 um comunicado a explicar aos árbitros que ofertas podem ou não aceitar. A FPF esclareceu que os árbitros só podiam aceitar recordações dos clubes «sem valor comercial». Ou seja, não se referiu a nenhum limite de 200 francos ou equivalente. Aliás, nem sequer fala na possibilidade de jantares. A FPF fala em «emblemas, galhardetes, miniaturas de camisolas, medalhas comemorativas ou lembranças regionais», e avisou que todas deveriam ser declaradas à FPF.

E não está?
Ora, os árbitros declararam as ofertas que receberam do Benfica? Mais importante: o Benfica fez alguma oferta antes do jogo (os regulamentos só o permitem após as partidas)? E os valores dos presentes praticados, quais foram? Houve valor comercial nas ofertas envolvidas? Este é o tipo de questões cujas respostas deveriam ser apuradas num futebol sério.

Por outro lado, o historial dos presentes a árbitos a envolver o Benfica é de impunidade. Todos gostam de falar do Apito Dourado, mas por uma ou outra razão esquecem-se convenientemente da parte que lhes toca. Recordemos o caso do cristal. Em 2008, Rui Silva foi inquirido a propósito de ofertas que terá recebido antes de jogos a envolver o Gondomar... e o Benfica. E disse o seguinte: «As mais valiosas foram um fio de ouro e um cristal que me deram no Estádio da Luz, uma vez que foi a primeira vez que apitei um grande.» Aprígio Santos, na altura presidente da Naval, disse que «no melhor pano cai a nódoa» e que «há muita gente que fala, mas devia estar calada». O alvo era Luís Filipe Vieira e o Benfica, que davam tudo para o Apito Dourado acabar em Leiria e afundar o FC Porto. A CD ficou de apurar o caso. Vale a pena dizer o resultado da investigação?

Mas o caso mais célebre foi quando António Ribeiro, o ourives que passou a fabricar as peças em ouro para oferecer aos clubes, explicou que a relação comercial que mantinha começou num Benfica x Gondomar, em 2002, e que entre as peças solicitadas pediram-lhe para gravar dois nomes (ambos negaram-lo): António Taia, árbitro que foi afastado da primeira liga logo na época de estreia, em 2002-03, após ter estado no Benfica x Gondomar, e Nuno Almeida, o curioso árbitro que só era chamado para arbitrar no Estádio da Luz. Os seus 10 primeiros jogos a envolver o Benfica foram todos na Luz. Ao 11º... foi para campo neutro, o Arouca x Benfica, em Aveiro. Quando comparamos com o historial de João Capela (nos últimos 12 jogos com o FC Porto, 11 foram fora do Dragão), dá que pensar.

Agora o mais importante para as instâncias do futebol português será certamente ter a certeza de que a honra do visado não foi atingida. Em 2011, pelo jantar de Pinto da Costa com o árbitro do Villarreal x FC Porto negado pelo presidente, até a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar o sucedido, mesmo sendo uma prova da UEFA (pois, não seria muito moralizador para o Benfica, caso eliminasse o SC Braga, encontrar o FC Porto dos 5x0, da festa às escuras na Luz e da reviravolta na Taça - havia que tentar). Isto por causa de um alegado jantar que o próprio Pinto da Costa desmentiu prontamente. 

E agora, a propósito de «28 jantares por jogo», «40 jantares por época», com «quatro árbitros, dois  delegados e observador», a envolver custos de «500 a 600 euros», na maior competição nacional e com o Benfica em silêncio e quietinho à espera que a chuva passe? Alô, PGR?

PS: A conta @imbulagiannelli no Twitter é falsa e não pertence a Imbula. Se possível ajudem a denunciar.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Um «wonderboy» apropriado para Maxi Pereira

«O FC Porto não quer dar palpites sobre as nomeações, porque não é assunto que nos diga respeito, mas o FC Porto quer gente competente a tratar das nomeações. Vítor Pereira só tem um caminho, que é apresentar a demissão e dar o lugar a quem faça as nomeações de forma competente e isenta».

Experiência: 0
O FC Porto reagiu assim, no Dragões Diário, à carta enviada por Vítor Pereira a Pedro Proença, depois de este ganhar as eleições para a LPFP, dizendo que queria «debater o processo de nomeações e os respetivos critérios». Faz sentido que o FC Porto não queira debater soluções com quem não é competente para o cargo que ocupa. Mas enquanto isso, Vítor Pereira ri-se e abre o campeonato 2015-2016 com uma nomeação feita com o vizinho do indicador e do anelar bem levantado. 

Fábio Veríssimo vai apitar o FC Porto vs. Vitória de Guimarães. Quem é Fábio Veríssimo? Um jovem árbitro de 32 anos que nunca apitou nenhum jogo de FC Porto, Benfica, Sporting, nem sequer do Sporting de Braga. Não surpreende, tendo em conta que em novembro estava a arbitrar nos distritais. Mas tal como Tiago Martins (o jovem prodígio que vai apitar o jogo do Benfica), foi promovido a internacional sem experiência e contra as diretrizes da FIFA. 

Vítor Pereira destaca os seus dois meninos de ouro para abrirem a época a apitar os jogos do 1º e 2º classificados da época passada. Mas calma, desta vez Vítor Pereira teve «critério» na nomeação. Uma das grandes expectativas para a nova época será ver quantos cartões verá Maxi Pereira e estabelecer o paralelismo com os tempos em que jogou no Benfica. Então qual é o presentinho de Vítor Pereira para a 1º jornada? O árbitro que mais cartões mostra em Portugal: Fábio Veríssimo.

Fábio Veríssimo mostrou, na última época, 232 cartões, o recorde em Portugal. Mostrou uma média de 6,5 cartões por jogo e em 48% dos seus jogos houve pelo menos uma expulsão. Um árbitro que, fruto da sua tamanha inexperiência e juventude, não tem estaleca para segurar jogos intensos, desata a mostrar cartões sem nexo e não consegue manter um jogo sob controlo. Extremamente apropriado para segurar um FC Porto vs. Vitória de Guimarães, sem dúvida.

O FC Porto ainda não começou o campeonato, mas o campeonato já começou. Com os mesmos ingredientes que ajudaram a que o Benfica fosse bicampeão em 2014-2015. 

terça-feira, 31 de março de 2015

No te calles nunca, Lopetegui

O rescaldo que iria ser feito à boa entrevista de Julen Lopetegui ao Porto Canal (em boa hora, pois notem que o treinador bicampeão Vítor Pereira saiu do FC Porto sem dar uma única entrevista - e este tipo de conversas são essenciais para criar a empatia treinador-adepto e explicar várias questões) tem forçosamente que mudar de ângulo de abordagem. Isto depois das inacreditáveis declarações de José Fontelas Gomes, que com as afirmações que presta hoje acaba de mostrar que não tem o mínimo de competência para presidir à APAF.

Lopetegui e as arbitragens, as arbitragens e Lopetegui. Criou-se a ideia que o treinador do FC Porto fala muito sobre os árbitros. E Lopetegui deu na entrevista ao Porto Canal uma categórica resposta a isso mesmo. Lopetegui não ataca arbitragens; limita-se a responder a questões que lhe colocam.

Isto é atacar os árbitros
Reparem: em todas as conferências de imprensa, aparecem jornalistas (a maioria de títulos lisboetas) a perguntar pelas arbitragens. Querem saber se o treinador do FC Porto acha que tem sido prejudicado e se o Benfica tem tido mais sorte com as arbitragens. Ele diz o que qualquer crítico que não um assumido benfiquista concorda: sim, o Benfica tem sido mais feliz nas arbitragens. Prova disso é que é o único clube do campeonato que não perdeu um único ponto com erros de arbitragem.

Ora agora uma perguntinha aos iluminados: porque é que nunca perguntaram a Jorge Jesus se ele acha que o Benfica tem sido mais prejudicado e o FC Porto beneficiado? Nem A Bola, nem sequer o CM fizeram esta pergunta ao treinador do Benfica. Contrariamente, já a fizeram diversas vezes a Lopetegui. E porquê? Porque todos sabem como este campeão tem sido forjado e sabem que o Benfica tem sido beneficiado - com ou sem intenção, a balança tomba para o lado encarnado. Como não querem admitir isso, «puxam» por Lopetegui para lhe meter palavras na boca.

Mas há uma verdade incontornável: Lopetegui nunca disse que um árbitro quis prejudicar o FC Porto, nem disse que quis beneficiar o Benfica. Não fez o que fez João Gabriel, que acusou numa entrevista os árbitros de incompetência e de fazerem do FC Porto campeão (onde estava a APAF quando estas declarações foram feitas?). Ah, veio o Gustavo Sousa dizer que estavam a «analisar as declarações». Punições? Nada. Limitaram-se a «analisá-las». Já sobre Lopetegui, que não fez nenhuma acusação, a APAF diz que tem que ter «pena pesada». Sr. José Fontelas Gomes, nem que bata à porta de todas as farmácias, encontre lá um bocadinho de vergonha.

Lopetegui sempre se apoiou em factos. Muitas vezes até de forma algo falaciosa (o número de expulsões a favorecer o Benfica não interessa, o que interessa é se foram bem ou mal aplicadas), mas a verdade é que nunca deixou o campo dos factos. De resto, falou em «sorte e azar» com as arbitragens. Nunca fez uma declaração a atacar os árbitros por iniciativa própria. Ao contrário, por exemplo, do que Jorge Jesus de forma hilariante fez com Luisão, um jogador bem expulso no último jogo do Benfica, como toda a gente viu. Aquilo que Lopetegui faz, e sempre fez, foi responder a perguntas que lhe colocam. Se lhe colocam estas perguntas, por alguma razão há-de ser.

Lopetegui diz que os árbitros não podem decidir campeonatos. Claro que não podem. Mas o sr. João Gabriel acha que sim, pois acusou os árbitros de fazerem do FC Porto campeão. E reparem que Lopetegui diz que não acredita que os árbitros tenham alguma vez prejudicado o FC Porto ou beneficiado o Benfica com intenção. Nunca disse isso, ao contrário do sr. João Gabriel ou do sr. Rui Gomes da Silva, só para citar as duas personagens que mais gostam de falar no universo encarnado.

Julen Lopetegui tem sido justo, coerente e cordial desde o primeiro dia. Quer mais competência das arbitragens, como querem todos os adeptos do futebol português - todos menos uma boa dose de benfiquistas, que este ano estão satisfeitos. Lopetegui nunca condenou um árbitro publicamente. Nunca disse «este árbitro quis prejudicar-nos». Nunca disse «se o Benfica for campeão será um tributo dos árbitros».

Esta reação da APAF é um novo ataque ao treinador do FC Porto, que tem sido alvo semanalmente. E mais uma vez, é Julen Lopetegui quem vem a público defender o FC Porto, apelar à verdade de uma competição comprometida com a Liga Aliança (a APAF não tem nada a dizer sobre isto? É que dizem que dá para alternar campeonatos numa competição que é arbitrada pelos vossos...) e desejar que todos os agentes do futebol português sejam competentes.

Se Lopetegui trabalha todos os dias para ser um treinador mais competente e fazer do FC Porto uma melhor equipa, tem o direito de o exigir a todos os agentes. Mais: em maio de 2012, Jorge Jesus disse que «se não fossem as arbitragens, o Benfica teria sido campeão». Não se apoiou em números factuais, como Lopetegui o faz. Aliás, mesmo no que toca às expulsões, Lopetegui nunca disse que o Benfica beneficiou de expulsões erradas. Só se limitou a dizer que jogam mais vezes em superioridade numérica do que os outros. É verdade.

O FC Porto tem o direito e o dever de reagir oficialmente a mais um ataque ao seu treinador. Lopetegui tem defendido esta casa desde o primeiro dia. Reparem na diferença entre a entrevista de Lopetegui ao Porto Canal e as duas últimas entrevistas do próprio presidente, que foram quase dedicadas a atacar Fernando Gomes (foi na entrevista de Janeiro, a acusá-lo de matar a liga, foi no editorial da Dragões, volta a ser na entrevista dos 33 anos da sua obra - quantas mais vezes vamos continuar nisto?). 

Lopetegui tem-se fartado de defender o FC Porto. É hora do FC Porto também defender Lopetegui.