A SportingLeaks começou a publicar documentos a 29 de setembro. Se há algo que Bruno de Carvalho faz bem é chamar a si as atenções e arranjar centros mediáticos alternativos. Então, era necessário algo forte para abafar um pouco o boom da SportingLeaks. Que fez ele? Foi ao prolongamento, da TVI24, para uma peixeirada com Fernando Santos e para entreter o povo. E já não se fala de outra coisa.
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| «Diz que disse» |
É, infelizmente, mais uma injeção de populismo barato e inconsequente. A palavra de Bruno de Carvalho no futebol português já não tem valor, nem credibilidade, sobretudo após a forma como a CII da Liga geriu o desfecho do dossiê Liga Aliança. Bruno de Carvalho fez acusações, o Benfica manteve-se em silêncio, as instâncias disciplinares convidaram Bruno de Carvalho a apresentar provas... E o presidente do Sporting disse que não as tinha. Tiro no pé.
Ora o mais provável é que aconteça exatamente o mesmo nesta história dos 250 mil euros em jantares/prendas/incentivos para árbitros. Reparem na subtileza de Bruno de Carvalho: diz que foi uma história que lhe transmitiram «de forma anónima». Hilariante. O dirigente da verdade desportiva e transparência, que preza pelo rigor, num tema em que poderia estar patente o aliciamento a equipas de arbitragem, resume tudo isto a um diz que disse. E nem sabe quem disse, foi anónimo. E logo num programa onde qualquer comentador pode dizer qualquer baboseira ileso de consequências.
E agora, Bruno de Carvalho terá provas dos jantares de 500 ou 600 euros [se calhar é por isto que o Carrillo não quis renovar, porque ninguém lhe oferecia um manjar deste valor]? Claro que não. E quando, ou se, as instâncias de inquérito lhe convidarem a apresentar provas, vai dizer que não as tem, que foi simplesmente o que lhe transmitiram. Absurdo.
Que faz o Benfica? Vai ficar calado, certamente. Bruno de Carvalho não iria fazer uma afirmação daquelas sem ter o mínimo de conhecimento, o que é um facto, mas falta provar os valores em causa e as ofertas que transcendam os limites dos estatutos de anti-corrupção da UEFA. O Benfica não vai apresentar queixa nenhuma na PJ porque sabe que se ficar calado ninguém lhe tocará. Mais, se por acaso a CII abrir um inquérito, o que vão fazer não é questionar o Benfica: vão é pedir a Bruno de Carvalho para fundamentar as suas acusações. Como Bruno de Carvalho não o conseguirá fazer, colocam um segundo ponto: o da honra do visado. Perguntará ao Benfica se se sentem ofendidos com as acusações e se querem reagir judicialmente. O Benfica, que já aprendeu com o caso Liga Aliança, já sabe que só tem que ficar caladinho e deixar Bruno de Carvalho enterrar-se mais uma vez. Não deveria ser assim, mas é assim que provavelmente será.
Independentemente do mais que esperado desenrolar o caso, só é admissível que as instâncias oficiais peçam e apurem todas as responsabilidades. Alguém tem que ser punido desta vez. Ou o Benfica por práticas potencialmente ilícitas, ou Bruno de Carvalho por difamação e afirmações infundamentadas que colocam em causa a verdade desportiva. Não há que ser ingénuos, presentes a árbitros é uma prática com vários anos, possivelmente tocável a todos os clubes. O Sporting até homenageou Pedro Proença, já depois do fim da sua carreira, coisa nunca vista em Portugal: homenagem declarada de um clube a um árbitro, com direito lembrança e tudo.
Mas o que está em causa é a questão do valor máximo admissível. Já todos estão a propagar as recomendações da UEFA, os tais 183 euros (que eram sensivelmente 120 euros quando o estatuto foi criado, mas o câmbio fez o valor disparar). Mas cá vai uma lembrançinha: o Conselho de Arbitragem pertence à FPF. E a posição da FPF face a este tema difere da da UEFA.
A FPF enviou em 2008 um comunicado a explicar aos árbitros que ofertas podem ou não aceitar. A FPF esclareceu que os árbitros só podiam aceitar recordações dos clubes «sem valor comercial». Ou seja, não se referiu a nenhum limite de 200 francos ou equivalente. Aliás, nem sequer fala na possibilidade de jantares. A FPF fala em «emblemas, galhardetes, miniaturas de camisolas, medalhas comemorativas ou lembranças regionais», e avisou que todas deveriam ser declaradas à FPF.
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| E não está? |
Ora, os árbitros declararam as ofertas que receberam do Benfica? Mais importante: o Benfica fez alguma oferta antes do jogo (os regulamentos só o permitem após as partidas)? E os valores dos presentes praticados, quais foram? Houve valor comercial nas ofertas envolvidas? Este é o tipo de questões cujas respostas deveriam ser apuradas num futebol sério.
Por outro lado, o historial dos presentes a árbitos a envolver o Benfica é de impunidade. Todos gostam de falar do Apito Dourado, mas por uma ou outra razão esquecem-se convenientemente da parte que lhes toca. Recordemos o caso do cristal. Em 2008, Rui Silva foi inquirido a propósito de ofertas que terá recebido antes de jogos a envolver o Gondomar... e o Benfica. E disse o seguinte: «As mais valiosas foram um fio de ouro e um cristal que me deram no Estádio da Luz, uma vez que foi a primeira vez que apitei um grande.» Aprígio Santos, na altura presidente da Naval, disse que «no melhor pano cai a nódoa» e que «há muita gente que fala, mas devia estar calada». O alvo era Luís Filipe Vieira e o Benfica, que davam tudo para o Apito Dourado acabar em Leiria e afundar o FC Porto. A CD ficou de apurar o caso. Vale a pena dizer o resultado da investigação?
Mas o caso mais célebre foi quando António Ribeiro, o ourives que passou a fabricar as peças em ouro para oferecer aos clubes, explicou que a relação comercial que mantinha começou num Benfica x Gondomar, em 2002, e que entre as peças solicitadas pediram-lhe para gravar dois nomes (ambos negaram-lo): António Taia, árbitro que foi afastado da primeira liga logo na época de estreia, em 2002-03, após ter estado no Benfica x Gondomar, e Nuno Almeida, o curioso árbitro que só era chamado para arbitrar no Estádio da Luz. Os seus 10 primeiros jogos a envolver o Benfica foram todos na Luz. Ao 11º... foi para campo neutro, o Arouca x Benfica, em Aveiro. Quando comparamos com o historial de João Capela (nos últimos 12 jogos com o FC Porto, 11 foram fora do Dragão), dá que pensar.
Agora o mais importante para as instâncias do futebol português será certamente ter a certeza de que a honra do visado não foi atingida. Em 2011, pelo jantar de Pinto da Costa com o árbitro do Villarreal x FC Porto negado pelo presidente, até a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar o sucedido, mesmo sendo uma prova da UEFA (pois, não seria muito moralizador para o Benfica, caso eliminasse o SC Braga, encontrar o FC Porto dos 5x0, da festa às escuras na Luz e da reviravolta na Taça - havia que tentar). Isto por causa de um alegado jantar que o próprio Pinto da Costa desmentiu prontamente.
E agora, a propósito de «28 jantares por jogo», «40 jantares por época», com «quatro árbitros, dois delegados e observador», a envolver custos de «500 a 600 euros», na maior competição nacional e com o Benfica em silêncio e quietinho à espera que a chuva passe? Alô, PGR?
PS: A conta @imbulagiannelli no Twitter é falsa e não pertence a Imbula. Se possível ajudem a denunciar.
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