Faltam duas semanas para o fecho do mercado. E uma das frases mais interessantes de Lopetegui enquanto técnico do FC Porto foi que só olha para o mercado «para melhorar a equipa», nunca para a deixar mais frágil. Num clube assumidamente vendedor como o FC Porto, é curioso o treinador assumir esta postura.
O plantel ainda vai forçosamente emagrecer, pois não haverá lugar para todos, mas a questão das entradas ainda não está sentenciada. Há quem peça um central, há quem deseje um extremo, mas o pedido que tem recolhido maior unanimidade é o do tal médio criativo para fechar o meio-campo, o jogador capaz de driblar em zona interior, distribuir jogo, fazer o último passe, ele próprio aparecer em zonas de finalização e sem nunca comprometer no processo defensivo.
| 9,5M€ por colocar |
A lógica diria que esse médio está nos quadros do clube: Quintero. Estão quase 10M€ investidos num jogador que está a dois anos de terminar contrato e que ainda nem tem clube para jogar em 2015-16. O FC Porto nunca se enganou quanto ao seu talento. Quintero tem um excelente pé esquerdo, faz bem o último passe, tem bom remate, bate bem as bolas paradas, tem capacidade de drible curto acima da média... Só lhe falta uma coisa: saber jogar futebol. Ou duas: aprender a ser futebolista. O talento está lá, mas as componentes físicas e psicológicas estão abaixo dos exigível. Lopetegui deu-lhe alguma continuidade de jogos em 2014-15, e Quintero chegou a parecer que ia engatar, mas não aguentou.
Entende-se que Lopetegui não veja em Quintero o tal médio que falta ao plantel, mas importa não esquecer uma coisa: Quintero não é mercadoria que já podemos dar como descartável. Primeiro, porque estão 10M€ investidos num jogador que foi contratado em 2013-14, sem intervenção de Paulo Fonseca na altura, numa época negra a nível financeiro. Segundo, porque sabemos que tem talento. Não é um caso perdido. É um caso que a SAD não pode nunca dar como perdido, seja desportiva, seja financeiramente. Por diversos motivos Quintero pouco ou nada evoluiu em dois anos, e grande parte desse motivos são de responsabilidades imputadas ao jogador, mas o FC Porto não pode desistir dele, pois foi uma grande aposta do clube. E mesmo que não seja aposta no clube, exige-se máximo empenho na reabilitação e evolução do jogador. Ao clube e ao atleta.
De volta ao ponto inicial. Lopetegui, logo na 1ª jornada, já deu uma excelente resposta à carência no plantel. Ao envolver tanto os laterais no processo ofensivo, permitir aos extremos explorar o espaço interior e ganhar através de Herrera e Imbula grande verticalidade no meio-campo e capacidade em aparecer em zonas de finalização, o FC Porto disfarçou muito bem a falta do tal médio. Mas há uma pergunta que se impõe, e que deve ser feita ao treinador: o plantel está preparado para jogar sempre assim e não receber o tal médio? Lopetegui dirá, certamente, que não, pois um treinador que fala do mercado como Lopetegui o fez é um treinador que sente que ainda falta algo.
E com isto recuamos até 2013, a lembrar o caso Bernard. Há quem recorde que o FC Porto errou ao deitar todas as fichas em Bernard, dando o jogador por garantido, e depois já não teve capacidade para encontrar uma alternativa quando apareceu o Shakhtar. Nada mais falso, pois Bernard assinou pelo Shakhtar na primeira semana de agosto. Havia tempo de sobra para contratar uma alternativa. Não havia era outra coisa.
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| Plano B, precisa-se |
O prejuízo apresentado no final da época justificou tudo: o FC Porto não teve condições financeiras para contratar mais ninguém. Acreditou-se em Licá e os resultados ficaram à vista. Bernard era um jogador com preço de mercado de 20M€, mas isso não significa que o FC Porto tinha capacidade para contratar um jogador desse preço. Era simplesmente o que a Doyen tinha para oferecer.
Dois anos depois, situação idêntica com Lucas Lima. Os grandes investimentos em Casillas e Maxi Pereira, já para não falar em Imbula, alimentaram a crença de que o FC Porto quase podia chegar a qualquer jogador no mercado. Mas o efeito está mais próximo do contrário: depois dum esforço tão grande em trazer 3 ou 4 jogadores mais experientes para a equipa titular, não restou grande margem para mais investimentos.
Porque é que não se vislumbra, para já, alternativa a Lucas Lima? Porque Lucas Lima é o que a Doyen tem para oferecer. O FC Porto só teve um grande investimento esta época, Imbula, e também envolveu a Doyen. Caso contrário, todas as contratações do FC Porto estariam feitas ou a custo zero (que implica normalmente maiores comissões, prémios e salários), ou no mercado nacional. O FC Porto está a investir (e muito bem) com extrema disciplina. Sobretudo se tivermos em conta a situação de alguns ativos.
É um balanço que poderá ser aprofundado depois, mas entre os emprestados do FC Porto estão investidos mais de 25M€. Ora isto é quase tanto como o valor contabilizado para compras de passes em 2015-16. Isto significa que houve uma série de investimentos que ou foram maus, ou precisam de mais tempo, ou simplesmente falharam. Depois, há um jogador de 9,5M€ para colocar (Quintero), um central de 7,7M€ que ainda não é titular (Indi) e dois ativos caros (Alex Sandro e Herrera), de mais de 17M€, que estão entre a renovação e a lei do mercado. Isto para não falar em Adrián López, que já se sabe que vai sair mas não em que moldes, e jogadores caros ainda sem o futuro resolvido, como Quiñones ou Rolando.
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| Investimento para 2015-16 |
Além disso, o FC Porto já tem uma lista de potenciais compras para 2015-16. Como por exemplo Aboubakar, de quem a SAD só tem 30% e cada parcela de 10% custa entre 1 a 2 milhões; Brahimi, de quem a SAD ainda pode resgatar mais 25% (até ver pagou 5,3M€ por 50%); Tello, emprestado pelo Barcelona, que tem opção de compra que só poderá ser exercida com grande ginástica financeira. Estes 3 ativos são candidatos às tais grandes vendas que permitem à SAD (sobre)viver acima das suas possibilidades operacionais todos os anos. Mas ainda vão custar mais do que já custaram. E tendo em conta que é cada vez mais raro ver um jogador com 100% do passe nas mãos do FC Porto, a percentagem de receita tem tendência a diminuir. Além disso, ainda em 2015-16, há a contar uma folha salarial que possivelmente será a maior da história da SAD e a própria liquidação de reforços já contratados, como Imbula e qualquer outra possibilidade que a Doyen possa ter. Uma venda, é certo, poderia dar mais alguma liquidez para o curto prazo e reduzir a necessidade de mais-valias para o 2º semestre. Mas apenas Alex Sandro tem mercado para isso neste momento. Portanto, ou a Juventus abre de facto os cordões à bolsa, ou Pinto da Costa terá que explicar como é que recusou 30M€; e se quiser explicar que os 30M€ não eram cash, então talvez tenha que explicar como se prescindiu da oportunidade de ter Óliver Torres pelo menos mais um ano. Como o presidente que todos conhecemos não é homem de ficar de mãos atadas na hora de negociar jogadores, aguardemos.
Tendo em conta que é quase impossível fugir a um défice operacional sempre acima dos 30 milhões de euros, aliado a todos os gastos previstos/possíveis para 2015-16, entende-se que a margem para investir ainda mais no plantel está reduzida. Daí tanta espera por Lucas Lima e pela Doyen, como há dois anos houve esperança e crença em Bernard e na Doyen. E em 2013-14, Licá e o bom início de época disfarçaram muita coisa. Daí a importância de agora avaliar a situação com o máximo pragmatismo: o plantel que Lopetegui tem em mãos dá mesmo as garantias necessárias para cumprir os objetivos do FC Porto?
Se sim, força, vamos para a guerra com o que temos, e quem achar que é suficiente no final estará sempre sujeito à eventualidade de explicar por que é que afinal não era suficiente. Se não, então mais que nunca o FC Porto terá que recuperar o toque de midas e procurar soluções baratas, com um euro no bolso - e esse euro não precisa de ser de um fundo. Lopetegui, enquanto treinador do FC Porto, também tem que ter a capacidade de sugerir nomes low cost para reforçar o plantel, como o fez tão bem com Óliver, Marcano e até Varela ou Rúben Neves, em diferentes circunstâncias e moldes negociais, e não tão bem com Campaña ou Andrés Fernández.
Largos dias têm duas semanas. É o tempo de acabar de compôr o plantel e de aprender com os erros cometidos em 2013-14.

























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