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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vinho de tasca

Sérgio Conceição falou numa exibição de «vinho de tasca». E assim foi, com as uvinhas uma vez mais espremidas ao máximo. É a antecâmara de uma época na qual a maioria verá sempre qualidade e opções de sobra sempre que o FC Porto vencer, mas ao primeiro mau resultado (re)surgirão de pronto os alertas do óbvio: de que faltam soluções, sobretudo no ataque, num plantel que praticamente não foi reforçado com idas ao mercado.


Saíram Ricardo, Marcano e Reyes (além de Diogo Dalot), entraram João Pedro, Mbemba e Militão. E tendo em conta que nenhum deles, por diferentes razões, entrou ainda na equipa titular, não podemos afirmar que este elenco seja mais forte do que o da temporada passada.

E é agora que é importante repetir e reafirmar isto, pois no final da próxima semana, com o mercado fechado, já será inútil dizê-lo. No Jamor tivemos a felicidade que faltou na época passada nos jogos contra Aves ou Moreirense, por exemplo, e valeu a raridade que é ver uma equipa de arbitragem manter o critério nas suas decisões. Mas que vai ser preciso muito mais nas próximas deslocações, vai, embora este Belenenses tenha mostrado no passado recente ser uma das equipas que melhor se organiza frente aos grandes.




Alex Telles (+) - Ganhou e bateu o livre do 1x0 e decidiu, ele próprio, o jogo com a marcação irrepreensível de um penálti capaz de fazer tremer qualquer sangue frio. O lateral brasileiro acabou por se destacar nos cruzamentos (acertou 5 em 8) e nos duelos disputados (4/5), além de ter criado três situações de finalização. Num jogo em que o FC Porto teve muitas dificuldades na bola corrida, a fórmula Alex/bolas paradas voltou a fazer a diferença.

Héctor Herrera (+) - O Belenenses tomou conta do meio-campo durante parte significativa do jogo, mas o mexicano sempre remou contra a maré. Foi o elemento com mais ações com bola (63), ganhou 11 dos 14 duelos que disputou e criou duas situações de golo, tendo ainda atirado uma bola ao ferro. Fartou-se de fazer quilómetros e tentou redobrar-se em todo o campo, tentando muitas vezes lançar ataques aos quais as unidades da frente não deram sequência.


Iker Casillas (+) - Um calafrio com um atraso de Felipe, mas acabou por somar um par de defesas importantíssimas na segunda parte, que evitaram (melhor, adiaram) o empate do Belenenses.




Falta de controlo (-) - O Belenenses terminou o jogo com mais posse de bola, mais passes e nunca perdeu o controlo do meio-campo em toda a partida. Há que reconhecer que se tratou de um adversário com boa organização, cujas marcações nunca foram baralhadas pelos avançados do FC Porto e que raramente cedeu espaço nos últimos 25 metros. O FC Porto não conseguiu construir jogo e os golos acabam por nascer em lances à margem das dinâmicas da equipa - duas bolas paradas e um erro de um adversário. Comparando o caudal ofensivo e a qualidade demonstrada pelo FC Porto na 1ª jornada, foi do 80 ao 8 - o primeiro remate da equipa à baliza surgiu já a meio da primeira parte, e Muriel fez tantas defesas como Casillas.

Minuto 58 (-) - Como diriam os treinadores da velha guarda, «esta nem nos infantis». Uma bola batida diretamente pelo guarda-redes do Belenenses, Muriel, é dominada por Fredy (Sérgio Oliveira a dormir neste lance) à entrada da grande área do FC Porto. Isto não existe a este nível: com um simples passe de 80 metros, o adversário fica na cara do golo. O avançado do Belenenses (que tantas dores de cabeça deu a Felipe) tocou para Licá e Casillas acabou por evitar o golo, mas este é o tipo de jogada capaz de fazer qualquer treinador arrancar cabelos. 

Não esperemos o mau resultado (-) - Sérgio Conceição valoriza muito o trabalho nos treinos. É certamente por isso que André Pereira ganhou o lugar neste arranque de época - por isso e pela falta de uma solução/reforço de maior qualidade. É um jovem avançado fisicamente interessante, que tenta trabalhar para a equipa, mas cuja aposta neste momento não está a funcionar da melhor forma. Volta a ser o primeiro a ser substituído e pouco conseguiu produzir em campo - apenas 8 passes completos, falhou os 2 dribles que tentou, tentou o remate apenas uma vez e perdeu 10 dos 17 duelos que tentou. É certo que o companheiro de ataque, Aboubakar, esteve em modo amorfo, mas André Pereira não terá ainda a estaleca que possa fazer dele uma solução de 11 inicial para o curto prazo. 

Mas dirão: e soluções? Adrián? Marius? Marega? Com Soares lesionado e sem mais soluções para o ataque, a verdade é que provavelmente André Pereira não deixa de ser aquele que mais tem lutado e feito por merecer um lugar no ataque do FC Porto aos olhos de Sérgio Conceição. E assim sendo não é possível censurar as opções do treinador, que dificilmente terá intenções de abdicar do esquema de dois avançados neste arranque de época. Sérgio Conceição tem que «rentabilizar os que tem», dizem, mas não se queixem se o que tem se revelar insuficiente a breve trecho. Vinho de tasca pode desenrascar numa refeição mas não vai matar a sede nos dias de maior calor. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise 2017-18: os laterais

Já transferido
Ricardo Pereira - Talvez o melhor/mais consistente jogador português da I Liga 2017-18. Semana após semana, estivesse o FC Porto num momento mais ou menos positivo, Ricardo manteve uma regularidade e disponibilidade física notáveis ao longo da época. O saldo de golos (2 na Liga) e assistências (5 na Liga, duas na Champions) acaba por ser modesto face à sua influência no ataque. Foi o defesa com mais dribles eficazes da Liga (48 - mais do que qualquer jogador, inclusive os avançados, do Benfica), o 3º jogador com mais desarmes da época (99) e criou 35 ocasiões de golo na Liga, com destaque para o facto de 14 delas terem sido flagrantes (o 2º mais influente no FC Porto). Além disso, foi o jogador do FC Porto com mais ações em campo ao longo da época, com uma média de 79 por partida. Vai deixar saudades, sobretudo tendo em conta que só tivemos Ricardo como lateral-direito praticamente uma época. Mais sobre a saída de Ricardo para o Leicester.

Em final de contrato
Maxi Pereira - Aos 34 anos, o lateral uruguaio conviveu mais do que nunca com o banco na sua carreira e entrou, naturalmente, na parte terminal da mesma. 11 titularidades no Campeonato e duas na Champions representam uma contribuição curta para um jogador com o seu peso salarial. A experiência de Maxi continua a ser apreciada e útil no balneário, e Sérgio Conceição confiou nela em alguns momentos importantes da época, mas numa equipa que depende tanto da profundidade e dos quilómetros dos laterais, o uruguaio, em final de contrato, não parece oferecer condições para «dar» mais uma época inteira como titular. A renovação está a ser discutida como hipótese perante uma baixa no salário, e Maxi tem a seu favor o facto de, com 34 anos, nunca ter tido uma lesão grave e continuar a treinar bem. Mas condições para aguentar uma época do mais alto nível? Dificilmente.

Contrato até 2021
Alex Telles - Quatro golos e 20 assistências para um dos jogadores mais aplaudidos do último ano. Alex Telles teve tudo: evolução, dedicação, capacidade de superação e regularidade, tendo ainda recuperado de uma lesão dura num momento crucial da época. Defensivamente Alex Telles, embora com contribuições mais modestas do que Ricardo, soube sempre cumprir, mas todos sabem que foi no ataque que mais se destacou: foi o recordista de ocasiões de golo criadas na Liga, com 95, que se traduziram em 13 assistências, embora a maior fatia tenha sido em bolas paradas. Foi o jogador com mais cruzamentos eficazes na Liga (41) e disciplinarmente esteve irrepreensível - apenas dois cartões em 30 jornadas. Tem mercado, é o jogador que pode valer mais dinheiro no plantel, mas é intenção do FC Porto segurá-lo. E bem. 

Já transferido
Diogo Dalot - Começou a época na II Liga, foi jogando na Premier League Internacional Cup e na Youth League e em outubro já se tinha estreado na Taça de Portugal, com uma assistência. Curiosamente, foi como lateral-esquerdo que acabou por ter mais espaço, devido à indisponibilidade de Alex Telles, e nunca destoou: assinou duas assistências em seis jornadas da I Liga e esteve à altura no decisivo clássico frente ao Sporting, apesar dos 18 anos. Jogou sempre com uma maturidade acima da média e foi dando provas de que o futuro do FC Porto poderia passar por ele. Entretanto, e como já sabem, Diogo Dalot já fez as malas e foi vendido ao Manchester United, após uma década ao serviço do FC Porto. A sua estadia no plantel principal acabou por saber a pouco, pois havia condições para muito mais. Em tempo e qualidade. Mais sobre a saída de Dalot para o Man. United.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Campeões e recordistas

Não há maior testemunho da reabilitação competitiva que Sérgio Conceição injetou no FC Porto: ainda adeptos, jogadores e clube estavam na «ressaca» da conquista do Campeonato e já o treinador se tinha proposto ao recorde de pontos num Campeonato a 34 jornadas. Ninguém entrou em campo em Guimarães já a festejar, com cara e cabelo pintados e meramente para cumprir calendário. Não, havia um recorde a alcançar.

E o FC Porto tornou-se a equipa com maior pontuação de sempre num Campeonato a 34 jornadas (não confundir com aproveitamento máximo de pontos - essa marca foi estabelecida em 2010-11, com 93,3% de pontos conquistados). O Benfica também fez 88 pontos em 2015-16, certo, mas com uma vantagem de apenas dois pontos sobre o segundo classificado. Logo, os 88 pontos do FC Porto ganham especial relevância por terem deixado o Benfica a um Celta de Vigo de distância, leia-se, a sete pontos. 

Concluiu-se assim uma época que pode ser resumida numa palavra: superação. Sérgio Conceição não teve pudor em assumi-lo: não tinha o melhor plantel, não tinha os melhores jogadores, não teve reforços no mercado de verão. Não passou a ter um plantel vasto e completo no decorrer da 
época. Mas construiu uma equipa, que jogou até ao limite. É certo que a qualidade exibicional do FC Porto decresceu bastante desde o final de fevereiro - desde então, a esmagadora maioria das vitórias foram conseguidas pela margem mínima -, mas isso não retirou os estatutos de melhor ataque e melhor defesa ao plantel. Nem de melhor futebol.

Campeões nacionais com 7 pontos de avanço, objetivos cumpridos na Liga dos Campeões, e as finais da Taça da Portugal e da Taça da Liga ficaram à distância de um pouco mais de felicidade nas grandes penalidades. Plantel valorizado em várias unidades e comunhão absoluta entre adeptos e equipa. Segue-se um merecido descanso, com a garantia de que na próxima época será muito, muito difícil fazer melhor; mas que ninguém duvide que a meta de Sérgio Conceição será precisamente essa - mais e melhor.




Iván Marcano (+) - Na sua mais do que provável despedida do FC Porto, assinou o golo da vitória e entrou para a lista dos 10 defesas mais goleadores da história do clube. Exibição muito sóbria na defesa, com os atacantes do Vitória a não darem muito trabalho, por isso foi na grande área adversária que Marcano mais se distinguiu, tendo ainda criado uma ocasião de golo. A caminho de completar 31 anos, está no pico de maturidade e experiência, e arrisca deixar um vazio que o plantel, neste momento, não tem condições para preencher.


Alex Telles (+) - Fechou a época com a 14ª assistência no Campeonato, 20ª na época, e termina a temporada como o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a época - 95 no total. É certo que o brasileiro bate as bolas paradas, algo que ajuda a reforçar os números, mas é mais do que Brahimi (50 ocasiões) e Herrera (40), o 2º e 3º mais influentes, juntos. Certinho na defesa, disponível no ataque, voltou a estar na génese das principais jogadas de perigo dos dragões. Termina a época como uma das tentações do mercado de verão... e um forte candidato a ver o seu estatuto reforçado no Dragão em 2018-19.

Héctor Herrera (+) - Nem parecia que estava na ressaca de uma semana de festa e relaxamento. Foi de longe o jogador com mais ações com bola (90), ganhou 9 dos 14 duelos que disputou, criou uma ocasião de golo e esteve surpreendentemente bem no passe longo, ao acertar 6 das suas 7 tentativas. Encheu o meio-campo e acumulou um total de 16 intervenções na defesa, entre cortes, desarmes e recuperações de bola. Um jogo de pulmão cheio.

O regresso de Fabiano (+) - Um pouco à margem do jogo, mas é um momento que merece ser assinalado. Para quem não se recorda, Fabiano foi o guarda-redes menos batido das Ligas europeias em 2014-15. Uma prova de que o futebol e as balizas podem ser mundos tão complexos que o mais difícil - não sofrer golos - pode não ser de todo suficiente para encher as medidas a treinadores e adeptos. Perdeu a titularidade e o lugar no clube depois dos 6x1 de Munique. O mesmo jogo onde também estiveram jogadores como Marcano, Herrera ou Brahimi, agora «heróis» da época 2016-17.

Fabiano foi dispensado e emprestado ao Fenerbahçe, depois de Casillas ter sido contratado (ao contrário do que chegou a dizer Pinto da Costa ao El País, tendo afirmado que a hipótese Casillas só surgiu depois de Fabiano ter ido para a Turquia). O brasileiro dificilmente teria muito espaço para jogar no Fenerbahçe, pois Demirel é quase intocável para o clube e adeptos. Esteve duas épocas no Fenerbahçe, mas sofreu uma lesão grave. Voltou a Portugal e ao FC Porto meramente para tratar da lesão, mas Sérgio Conceição decidiu incluí-lo no plantel como sendo jogador da equipa A. Um ano depois da grave lesão, voltou a jogar, para ser campeão. A emoção no final não é indiferente a nenhum adepto: ver um jogador superar tamanho calvário, até à emoção de voltar a ser campeão no FC Porto, chega a ser simbólico e algo no qual cada adepto se pode rever. 

Terminou a época 2017-18, que será sempre recordada com orgulho e satisfação. A época do «Mar Azul».

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Cinco antes dos seis milhões

Uma viagem curta aos números. 79 pontos em 31 jornadas. Melhor, em toda a história do FC Porto, só em 1995/96, com Robson, também essa a única época em que os dragões tinham mais golos do que agora (80 contra 78). São bons predicados antes de um dos jogos mais importantes da história recente do FC Porto, a visita ao Marítimo. 

Nos Barreiros, onde o FC Porto não conseguiu vencer nas suas últimas seis visitas, não vão jogar apenas Marítimo e FC Porto: vai jogar também o Benfica, e tudo aquilo que isso implica. É o jogo mais difícil do ano. Aquele em que menos poderemos errar, aquele em que mais teremos que nos dedicar. 

Um Marítimo de qualidade, que joga uma cartada europeia, forte em casa, que faz poucos golos mas amarra bem o jogo e que perdeu apenas dois jogos em 20 nesta temporada. Um Marítimo que vai, certamente, apresentar mais dificuldades do que o Belenenses no Restelo ou o Paços de Ferreira no Capital do Móvel. Cabe ao FC Porto mudar a história. Com inteligência, eficácia, capacidade de sacrifício e o pragmatismo que for necessário. A forma como o Benfica vai entrar em Alvalade dependerá muito da forma como o FC Porto sair da Madeira. 

É só e apenas um jogo determinante na luta pelo título de campeão nacional e na defesa do estatuto de único pentacampeão do futebol português. É apenas a oportunidade que querem e pela qual lutam há cinco anos. É apenas o tipo de jogo em que William Shankly pensou quando criou a sua mais célebre frase.




Alex Telles (+) - Certinho a distribuir (93% de passe), aguerrido e produtivo  a atacar (4 ocasiões de golo), fechou com chave de ouro uma boa exibição com um livre direto daqueles que parecem ser uma raridade no Dragão. Passou a maior parte do jogo a jogar sobre o meio-campo adversário e esteve na génese de mais dois golos do FC Porto. Quando pensamos num jogador que merece ser banhado de aplausos lá para maio, Alex Telles encabeça a lista. 

Ricardo Pereira (+) - Rebentou na segunda parte, ele que vinha sendo talvez o jogador mais incansável dos últimos jogos. Não subiu tanto como Alex Telles, mas foi eficaz quando o fez: assistiu Corona para o 4x1 e ganhou 12 dos 16 duelos que disputou. Cumpriu defensivamente, num jogo também seguro da dupla Felipe-Marcano.

Marega (+) - Um jogo... à Marega. Abriu o marcador com oportunismo e, aos 16 minutos, aguentou toda a pressão da defesa do Vit. Setúbal até conseguir o passe atrasado para Brahimi faturar. Foram os pontos altos de uma exibição em que o maliano voltou a alternar a eficácia com a displicência, tendo perdido 9 dos 12 duelos que disputou e desaparecido da manobra coletiva da equipa após o 3x0, algo explicado por problemas físicos e que levou posteriormente à sua substituição. 

A sua presença física e velocidade continuam a ser determinantes para ajudar o FC Porto a esticar o jogo e a ter profundidade, algo que curiosamente joga muitas vezes contra Marega - acabou o jogo com 4 faltas cometidas e nenhuma sofrida; mas, tem que ser dito, qualquer outro jogador provavelmente teria ido ao chão, para ganhar a falta, antes do lance do 3x0. Marega continuou e já participou em 26 golos na Liga. Falha mais do que os outros, mas também não há ninguém a acertar mais do que ele. 


Segue-se o Marítimo. Vamos facilitar a palestra pré-jogo de Sérgio Conceição: é só colar isto nos balneários. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Pentas: Fevereiro de 2018

Foi com um registo imaculado a nível interno que o FC Porto fechou o mês de fevereiro. As vitórias contra SC Braga, Chaves, Rio Ave, Estoril e Portimonense mantiveram a equipa destacada na liderança da I Liga, invicta com os estatutos de melhor ataque e melhor defesa intactos, mesmo perante um ciclo de semanas adverso para Sérgio Conceição, jornada após jornada privado de vários titulares por lesão. Na Taça de Portugal, o FC Porto ganhou vantagem na luta por um lugar no Jamor, ao vencer o Sporting por 1-0, no mesmo mês em que sofreu a maior derrota da história do clube a jogar em casa. Outra realidade, pois nas provas internas tudo decorre com predicados de qualidade. Estes foram os melhores de fevereiro:

5. Maxi Pereira

Com o uruguaio em campo, o FC Porto ainda não perdeu nenhum jogo esta época e leva 10 vitórias consecutivas, para as quais o lateral tem contribuído com segurança defensiva e preponderância ofensiva. Perante a lesão de Ricardo Pereira, o uruguaio, embora já com menos pernas e pulmões para aguentar todo o corredor, não ficou a dever nada ao rendimento do português - Maxi fez três assistências na Liga no último mês, tantas quanto Ricardo Pereira desde o início da época. A sua experiência tem tido uma importância inquestionável nas últimas semanas.

4. Moussa Marega

Um mês de opostos para o maliano, que começou fevereiro com um desempenho desastroso frente ao SC Braga e acabou a fazer o seu melhor jogo da época em Portimão. Marega continua a alternar o sofrível com a utilidade, nomeadamente na respeitável média de golos que continua a manter a nível interno - cinco golos e duas assistências no último mês. Pode não ter dimensão para os grandes palcos (0 golos em 11 jogos entre Champions e clássicos), mas mantém a média de intervenção direta num golo por jornada e já é o melhor marcador do FC Porto num Campeonato desde Jackson Martínez. 

3. Sérgio Oliveira

O melhor mês da sua carreira futebolística. A sua titularidade começou por ser circunstancial, mas ganhou o lugar com exibições equilibradas, seguro no meio-campo e a conseguir desequilibrar no ataque - três golos e duas assistências em fevereiro. Ganhou dimensão física e o problema da falta de intensidade já não se coloca. É verdade que falha mais passes do que Herrera, mas acrescentou à equipa capacidade de cruzar em zonas mais interiores. E mesmo nos momentos em que surge mais escondido do jogo, tem sido essencial para o equilíbrio do meio-campo. Afinal, não é fácil encontrar uma fórmula para substituir Danilo.

2. Alex Telles

Autor de cinco assistências e um golo em fevereiro, Alex Telles já teve intervenção em nada mais, nada menos do que em 20 dos golos marcados pelo FC Porto nesta temporada. A lesão chegou numa altura em que o lateral brasileiro vinha sendo, provavelmente, o mais consistente jogador do 11 portista. Cumpre defensivamente, desequilibra no ataque e é essencial para que Brahimi possa jogar em zonas mais interiores, pois sabe que terá sempre o Expresso Telles a dar profundidade. Lesionou-se numa altura em que, nas Ligas europeias, só De Bruyne e Messi criavam mais situações de finalização. 

1. Tiquinho Soares

A estreia n'Os Pentas e logo no topo das escolhas, fruto da autoria de oito golos e duas assistências, igualando o melhor mês de Aboubakar. Esteve perto de sair em janeiro, mas ficou no plantel para ser alvo de uma profunda reabilitação nos planos do treinador. Oportuno, foram várias as vezes em que estava no sítio certo na grande área para finalizar, com presença e eficácia no jogo aéreo. Teve combinações interessantes com Marega nas últimas semanas e melhorou na capacidade de fazer diagonais e pressionar a linha defensiva. Uma lesão impediu-o de iniciar março da mesma forma que terminou fevereiro, mas Soares mostrou que uma saída abortada pode, muitas vezes, revelar-se um reforço. 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Os Pentas: Janeiro de 2018

Quatro vitórias, dois empates e um sabor agridoce ao cair do pano. O mês de janeiro ficou marcado pelo afastamento da Taça da Liga, que pôs fim a uma série de 10 vitórias consecutivas, e pelo comprometedor empate na visita ao Moreirense - uma igualdade já entretanto redimida no arranque de fevereiro, com o regresso à liderança isolada da I Liga e agora com vantagem reforçada. Para já, ficam os melhores do último mês. 

5. Héctor Herrera

MVP dos quartos-de-final da Taça de Portugal, Héctor Herrera continua longe de ter os melhores números nas zonas de decisão (fez apenas um golo no último mês), mas isso não retira mérito ao seu papel na equipa. Por exemplo, já criou 26 ocasiões de golo no Campeonato, apenas superado por Brahimi e Alex Telles no plantel, e está a apenas dois passes para finalização do seu máximo da época passada. Ainda assim, é no papel de recuperador que mais se destaca, ele que é o jogador do FC Porto com maior média de desarmes e recuperações de posse por 90' no Campeonato. E a eficácia de 86% no passe continua a colocá-lo muito acima da displicência que, muitas vezes, e algumas por culpa do próprio, lhe teimam em associar. 

4. Felipe

É caso para dizer: o mês de dezembro passado no banco fez-lhe muito, muito bem. Depois da enchurrada de erros que vinha cometendo jogo após jogo, e que lhe custou a perda da titularidade para Diego Reyes, Felipe acordou e entrou finalmente numa sequência de boas exibições. Autoritário, forte no jogo aéreo e a inventar menos na retaguarda, assinou a vitória na visita ao Feirense (ainda que tivesse sido expulso - não voltou a ver cartões desde então) e passou a ser o central com mais duelos aéreo defensivos ganhos na Liga (80, à frente dos 76 de Marcano), além de ser o 2º com mais interceções (50). O que lhe falta na saída de bola e na cobertura compensa no jogo aéreo, nas dobras e na forma como se limita, muitas vezes, a afastar o perigo para longe. 

3. Ricardo Pereira

Fez apenas uma assistência para golo em janeiro, mas a sua consistência é notável, seja na defesa ou a jogar mais adiantado no corredor. Não é um lateral possante fisicamente, mas compensa com a forma aguerrida como disputa cada lance. Comparativamente com Alex Telles, embora não seja tão forte a cruzar, assume bastante mais os lances de 1x1 (59% de acerto), tem maior eficácia de desarmes pelo chão (54%) e tem uma interessante média de 53% de eficácia no jogo aéreo, o que não deixa de ser notável para um jogador que é algo leve. Nas últimas semanas Ricardo tem apostado mais nas diagonais quando chega ao último terço e subiu para 75% de acerto em remates enquadrados com a baliza. Falta-lhe melhor colocação no remate. 

2. Alex Telles

Não surpreenderia ninguém se vencesse «Os Pentas» de Janeiro, mas a verdade é que Alex Telles não foi eleito MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em nenhum dos jogos do último mês, algo que acabou por ter peso nas contas finais. O que não significa que a sua influência não seja evidente. O brasileiro somou mais três assistências no último mês e, neste momento, já leva 15 passes/cruzamentos para golo entre todas as competições. É o 5º jogador das Ligas europeias que mais passes para finalização fabrica e está entre os 8 que mais assistências assinaram. Há ainda a destacar o facto de conseguir jogar de forma limpa e agressiva ao mesmo tempo: ainda só viu um cartão amarelo na Liga. 

1. Yacine Brahimi

O mago argelino regressa ao topo d'Os Pentas, muito graças à forma fulgurante como arrancou o mês de janeiro. Eleito MVP nas vitórias contra V. Guimarães e Feirense, o terceiro melhor driblador das Ligas europeias (111 dribles eficazes, apenas atrás de Neymar e Messi) já teve intervenção direta em 17 golos esta época. Defensivamente, Brahimi também continua a destacar-se (só Danilo e Herrera recuperam mais bolas por jogo do que ele). Se é certo que a fechar o mês lhe faltou algum fulgor, também não deixa de ser verdade que há um denominador comum: quando Brahimi não está no seu melhor, toda a equipa sofre o mesmo. Sem Brahimi, o FC Porto é muitas vezes uma equipa previsível, de bola na frente e limitada nas ideias no último terço. Por isso, mesmo quando não está no seu melhor, Brahimi é absolutamente essencial e continua a nivelar por cima o nível da equipa. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Expresso Telles dá-te asas

«Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal

O post anterior d'O Tribunal do Dragão terminava desta forma. E aí está: bastou uma jornada para tudo mudar novamente, agora para o bem. Se na jornada anterior o FC Porto perdeu 2 pontos em relação ao Sporting, agora ganhou 3 e recuperou a liderança isolada do Campeonato, sabendo que se vencer o Estoril pode ganhar uma vantagem de 5 pontos sobre os rivais. A derrota do Sporting não deixa de ser um aviso para o quão difíceis serão os 45 minutos frente ao Estoril, mas o FC Porto, em termos pontuais, está melhor do que estava antes de defrontar o Moreirense. Quem diria?


Três cruzamentos de Alex Telles, três cabeçadas, três pontos. A mesma fórmula funcionou três vezes e foi o suficiente para assinar uma vitória difícil mas merecida, apesar das condicionantes provocadas pelas ausências de Marcano e Danilo, o desgaste físico em vários jogadores-chave e o ciclo complicado que se antevê no calendário. 

O SC Braga foi ao Dragão rematar muito mais vezes do que é normal (14 - como termo de comparação, note-se que o Benfica rematou 7 vezes quando foi à Invicta, e o Sporting, na totalidade dos 2 clássicos já disputados esta época, também disparou apenas 7 vezes), José Sá teve o dobro do trabalho que tem sido hábito, mas o FC Porto soube ser superior e inteligente frente ao SC Braga. 





Alex Telles (+) - Vamos uma rodada de números para se perceber a influência que o lateral-esquerdo tem no FC Porto. Alex Telles é, neste momento, o 5º jogador com mais passes para finalização das Ligas europeias, com 64, só atrás de De Bruyne (78), Özil (70), Fàbregas e Payet (67). Mas claro, aqui estamos a falar de médio ofensivos. Considerando apenas os laterais, a diferença é abismal na Europa: os mais próximos de Alex são Kolarov (53) e Kimmich (42), que também podem jogar no meio-campo, ao contrário do lateral do FC Porto. 

É claro que o facto de Alex Telles bater as bolas paradas ajuda-o nesta estatística (tal como ajudou Layún a ser o maior assistente da Europa em 2015-16), mas a verdade é que o brasileiro também se encontra entre os 8 maiores assistentes das Ligas Europeias, com 9 passes para golo, a par de Messi e Pogba e a apenas dois passes decisivos de Neymar e De Bruyne (11 cada). 

Se aliarmos tudo isto à competência defensiva de Alex Telles e à incansável forma como percorre o corredor durante os 90 minutos, conclui-se que estamos perante um lateral de calibre europeu e que dá continuidade à linhagem de grandes laterais-esquerdos no FC Porto, muito bem secundado pelo sempre competente Ricardo Pereira no flanco oposto.


José Sá (+) - Desde que assumiu a titularidade no FC Porto, José Sá vem tendo uma vida relativamente tranquila nas balizas do Campeonato, praticamente exposto à média de apenas uma defesa por jornada. Claro que há outras variáveis a ter em conta, como as saídas a cruzamentos e a reposição da bola em jogo, mas José Sá tem sido sempre um guarda-redes com relativo pouco trabalho (tem um total de 16 defesas, 8 delas a remates de fora da grande área). Certo é que ontem fez duas excelentes defesas, que ajudaram o FC Porto a manter-se na frente em momentos importantes. Ter pouco trabalho, mas dizer «presente» no pouco que tiver: nunca se pedirá muito mais a um guarda-redes.

Sérgio Oliveira (+) - Pela primeira vez desde a vitória no Mónaco, o FC Porto venceu com Sérgio Oliveira no 11, e com o médio a fazer uma das suas melhores exibições com esta camisola. Dividiu as despesas do meio-campo com Herrera e foi o jogador mais influente na bola corrida, com 72 ações com bola e uma interessante média de 23 duelos disputados (14 ganhos), mais do que é hábito no meio-campo do FC Porto. Falhou alguns passes (78% de acerto), mas fez dois passes para finalização, acertou todos os dribles que tentou (4/4), teve 9 ações defensivas e conseguiu um golo, tornando a sua exibição no equilíbrio perfeito - bem na recuperação, mas também a fazer a diferença no ataque. Provavelmente ganhou a titularidade para o próximo jogo. 




Escolha facilitada (-) - Ainda no jogo passado se questionava como é possível Marega fazer sucessivamente os 90 minutos (e já lá iremos outra vez), mas admitindo que as alternativas para a asa direita - Hernâni e Corona - quase ajudavam a compreender e aceitar essa opção. E voltou a ser o caso com o extremo mexicano. Se há plantel em que Jesús Corona deveria conquistar a titularidade no FC Porto, era este. E não será muito audaz dizê-lo: se é não é titular consistentemente este ano, então provavelmente nunca o será. E assim torna-se bem mais difícil para Sérgio Conceição escolher. Ou então mais fácil, pois Corona não ganha o lugar num plantel em que os seus concorrentes faziam parte da lista de dispensas do FC Porto.

Corona parece ser atraído sempre pela hipótese mais complicada - Brahimi também nem sempre escolhe o melhor caminho, mas sabe proteger e colar a bola ao pé, enquanto Corona a perde com maior facilidade. O mexicano criou apenas uma jogada de algum perigo, conseguiu apenas um cruzamento e perdeu a maioria dos duelos que disputou (6/11). O facto de Ricardo estar sempre a subir também deveria ajudar Corona a criar desequilíbrios no corredor, mas voltou a não ser o caso. 

Alternativa, por favor? (-) - Há noites, exibições, em que os números falam por si próprio e nem aquelas variáveis que não são calculadas (o empenho, a garra, a vontade) servem de atenuante. Passando a enumerá-los:

- 0 remates enquadrados com a baliza;
- 0 dribles eficazes;
- 0 passes para finalização;
- 0 cruzamentos;
- 9 passes certos (o pior dos 22 titulares);
- 7 duelos perdidos;
- 1 ocasião flagrante falhada;
- 4 maus controlos de bola;
- 5 faltas cometidas, 2 sofridas;
- 1 corte sobre a linha de baliza;
- 90 minutos em campo. 

Agora a sério. Dá para experimentar dar soluções à equipa sem Marega no ataque? Mister? Corona? Hernâni? Alguém, por favor?

Segue-se a Taça de Portugal e uma difícil receção ao Sporting, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal. E como já se percebeu, basta um jogo para mudar ou inverter a disposição dos dois clubes. No entanto, após 270 minutos de clássicos sem sair do 0x0, e agora recuperada a liderança isolada da I Liga, é a oportunidade para uma afirmação de força e personalidade.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Guardiola, VAR, 54 remates e um golo

Este post começa com algo diferente: a análise a um golo do... Manchester City, mais concretamente o golo que foi apontado pela equipa de Guardiola aos 90+5 minutos de um jogo frente ao Southampton.


Quem tiver oportunidade que observe os últimos 40 segundos do jogo. Último minuto, Southampton a defender com 11 atrás da linha da bola. E o que faz o City? Passes curtos, circulação, tabelas, desmarcação. Mesmo perante a pressão do relógio e do resultado, uma equipa que se manteve fiel aos seus princípios de jogo até ao último instante. O remate de Sterling podia até ter ido para a bancada, mas vimos uma equipa que tinha um plano e agarrou-se a ele até ao último instante.

A determinada altura, aquilo que vimos no Moreirense x FC Porto foi um caos tático total. O chamado «tudo ao molho e fé em Deus». Jogadores fora de posição, tudo em pânico a tentar meter a bola na grande área. E o mais irónico de tudo isto é que podia perfeitamente ter funcionado, pois o FC Porto acaba por chegar ao golo no último minuto.

E muito do que se passou acaba por se resumir a esse lance. É absolutamente inaceitável que, em plena época de implementação do VAR, as equipas de arbitragem continuem a ignorar o apoio desse sistema. É muito simples: o auxiliar Paulo Miranda não tem um ângulo de visão favorável no momento em que Ricardo vai ganhar a bola de cabeça e devolvê-la para a zona central, onde aparecem Soares (este sim, em posição irregular) e Waris (o único a participar na jogada e sem que ninguém, em perfeita honestidade, possa garantir que está em posição de fora-de-jogo).

Paulo Miranda, naquele lance, deveria ter a sensibilidade de deixar correr a jogada. O FC Porto marcava, o FC Porto festejava. Depois, se houvesse posição irregular, então certamente o VAR informaria a equipa de arbitragem de que o lance teria sido ilegal. O que não foi o caso. É um lance em que não é possível escrutinar qualquer fora-de-jogo a Waris. É um lance de dúvida. Já estão todos fartos de ouvir que «em caso de dúvida beneficiasse quem ataca». Não, não é preciso: em caso de dúvida usem a porra do VAR!

Mais. Este foi o quarto empate do FC Porto na I Liga. E tal como aconteceu na receção ao Benfica e na visita ao Desp. Aves, há mais uma grande penalidade flagrante a ficar por assinalar, desta vez com o guarda-redes a socar Felipe em cheio. O VAR deveria, precisamente, acabar com a existência deste tipo de lances: aquele que podem passar despercebidos aos olhos da equipa de arbitragem no relvado, mas que nas imagens televisivas não deixam margem para dúvidas.

Os erros de arbitragem não desculpam mais uma exibição em que o FC Porto joga a meio-gás, mas devem ser sempre assinalados. Dos oito pontos que o FC Porto não conseguiu somar neste Campeonato, seis deles tiveram forte influência de erros de arbitragem. Poderíamos estar a falar de uma equipa com 18 vitórias em 19 jornadas.

Depois da péssima preparação para esta época, chegar ao início de fevereiro a depender de si próprio para se manter na liderança do Campeonato, a um (grande) passo do Jamor e com os objetivos na Champions cumpridos já é, por si só, um milagre que tem como base o trabalho de Sérgio Conceição e do plantel. Mas ver sistematicamente o campo inclinado a cada perda de pontos torna esta missão impossível algo ainda bem mais difícil de alcançar.





Laboratório (+/-) - Um lance que poderia estar neste momento a correr o mundo: aquele livre de Alex Telles, à futebol de praia, foi uma das mais brilhantes jogadas estudadas que já vimos no FC Porto. Imprevisível, a todos os níveis, com uma execução perfeita no plano: colocar Brahimi na cara do golo. A má finalização de Brahimi manchou uma jogada que mostra trabalho de casa. Por outro lado, há que realçar: uma equipa que trabalha tão bem este tipo de lances, de bola parada, não consegue arranjar outra alternativa que não seja despejar bolas na frente à espera que alguém apanhe uma? Infelizmente, este lance provavelmente não voltará a funcionar na I Liga, pois a colocação de Alex Telles já «denunciará» se vai voltar a tentar bater desta forma. Que foi perfeito, foi. Ou quase.

Os laterais (+) - Inconformismo puro. Juntos, Ricardo e Alex Telles foram responsáveis por 187 ações com bola e tentaram 17 cruzamentos, além de terem passado os 90 minutos a fazer piscinas defesa-ataque/ataque-defesa. Fartaram-se de correr e de tentar dar largura a corredores que encontraram os muito desinspirados Marega e Brahimi. Nem sempre tomaram a melhor decisão (o remate de meia distância de Alex Telles, já em tempo de compensação, foi um disparate e um exemplo de quem já não tinha um plano de jogo a seguir), mas ninguém lhes pode apontar o dedo por falta de garra e empenho.

Zonas de ação de Alex Telles e Ricardo Pereira
Felipe (+) - Ainda deve estar a tentar compreender como é que aquela bola não entrou. E, diga-se, Felipe tinha que meter aquela bola lá dentro. Um jogador com a sua dimensão física, com uma entrada mais determinada, teria levado tudo à frente naquele lance: entrava bola, entrava jogador, entrava tudo. Foi a mancha numa exibição que esteve bem perto de ser irrepreensível. Ganhou 9 dos 12 lances de cabeça que disputou, foi o mais rematador do FC Porto (3 tentativas, as mesmas de Soares) e ganhou todos os lances pelo chão (3/3). O Moreirense não fez um único remate na direção da baliza de José Sá e, perante a falta de Marcano, Felipe assumiu-se como o patrão da defesa, numa das melhores exibições da época. Faltou, literalmente, apenas o golo. 





Circulação de bola (-) - O minuto 34 sintetiza um pouco daquilo que foi a incapacidade do FC Porto para circular a bola (ainda que o relvado, de facto, não estivesse nas melhores condições). Sem qualquer oposição, e com o Moreirense com as linhas bem recuadas, Felipe e Reyes deixam escapar a bola pela linha lateral no início de construção. Foi o exemplo de uma equipa que parecia estar a jogar junta pela primeira vez, sem saber muito bem como começar a construir.

De facto, este era um novo meio-campo. Herrera mais recuado, perante a ausência de Danilo, Óliver mais à frente e Paulinho, em estreia, a jogar a partir da direita. Mas é incompreensível a incapacidade do FC Porto em fazer tabelas, em jogar curto nos últimos 30 metros, em procurar o espaço entre linhas. Este Moreirense sofria golos há 17 jogos consecutivos. Bombear a bola para as costas da defesa, num campo curto e com uma equipa com a linha defensiva baixa, não funciona.

Eficácia (-) - Os golos anulados frente a Sporting e Moreirense foram lances de manifesta infelicidade (será a palavra correcta?) para o FC Porto. Mas quando olhamos para os resultados que ficam para a história, nos últimos 315 minutos de jogo o FC Porto fez um golo - e teve que ser um defesa do Tondela a oferecê-lo. O FC Porto já perdeu o estatuto de melhor ataque da Liga e tem tido, de facto, imensas dificuldades para chegar ao golo.

Durante este ciclo de 315 minutos, o FC Porto rematou 54 vezes, das quais apenas 19 à baliza. E entre todas estas ocasiões, os dragões tiveram 12 oportunidades flagrantes de golo (isto é, sem um opositor entre o rematador e a baliza para além do guarda-redes) - falharam 11 e só mesmo Marega acertou frente ao Tondela.

Na I Liga, o FC Porto tem uma média de um golo a cada 7,32 remates. Logo, se nos últimos 54 remates só um acabou em golo, não é preciso muito mais para se concluir que há um problema de eficácia neste momento no ataque. Estávamos felizes por 2018 não ter CAN em janeiro/fevereiro, mas a verdade é que pouco se viu dos atacantes africanos do FC Porto em Moreira de Cónegos e nas últimas semanas. Se todos os jogadores que estavam a garantir golos se apagam... Waris e Paciência terão mesmo que ser «reforços».

Lugar cativo? (-) - É difícil comentar este tema, e é difícil apontar seja o que for a Sérgio Conceição, que fez milagres até aqui. Mas se com a saída de Iker Casillas do 11 habitual o treinador provou que não havia lugares cativos, o que dizer quando vemos um jogador não dar uma para a caixa em 90 minutos e continuar em campo? As coisas não correram bem a Brahimi, e não é difícil perceber porquê: está completamente esgotado fisicamente. O mesmo era visível em jogadores como Alex Telles, Herrera, Aboubakar, e o próprio Marega.

Paulinho, que esteve nas três jogadas de perigo na primeira parte, foi o primeiro a sair, para dar lugar a Soares, protagonista de três ocasiões desperdiçadas no ataque. Waris substituiu Aboubakar (um remate, um bom passe na primeira parte e pouco mais) e até poderia ter sido o herói no último instante, mas nota-se claramente que ainda se está a adaptar a uma nova realidade e não está entrosado com os colegas.

Sérgio Oliveira entrou já numa fase de desespero. Começa mal, ao falhar dois passes, mas depois colocou duas vezes a bola em zona de finalização, cumprindo a sua missão para os instantes finais - meter a bola na grande área.

Ok, só dava para tirar três. E se Corona não corresponde nos treinos - e nos jogos -, torna-se difícil condenar Sérgio Conceição por não o lançar mais vezes, mas a falta de alternativas é demasiado gritante. Herrera, que começa por substituir Danilo, acaba o jogo a jogar com Marega na frente. Brahimi criou apenas uma ocasião de golo em toda a partida, o cruzamento para Soares.

Mas o mais preocupante é que, no último jogo antes do fecho do mercado, não se vislumbrou outra alternativa que não seja manter Marega em campo 90 minutos, mesmo sem o maliano dar uma para caixa. Exceção a um passe para Paulinho, Marega não conseguiu fazer nada em campo. Fez apenas um remate, aos 90', sem perigo; acertou apenas 3 passes dos 13 que tentou; falhou as suas 2 tentativas de drible; não cruzou nenhuma vez. Foi provavelmente o seu pior jogo nas competições nacionais esta época. 

Desde que Marega entrou no 11 titular, o avançado falhou apenas 16 minutos de jogo por vontade do treinador - em ambos os casos, foi substituído para a ovação, em dois jogos em que conseguiu bisar. De resto, é Marega e mais 10. O maliano luta muito, tem a interessante média de contribuição de quase um golo por jornada, mas não podemos estar dependentes de um jogador que erra muito mais do que acerta. Pode até regressar aos golos já diante do SC Braga, mas chega a parecer que o FC Porto versão 2017-18 não pode prescindir em instante algum de Marega. Nem Madjer, Deco ou Hulk tinham utilização tão cativa na equipa. 

É Marega que é assim tão bom? Ou é o FC Porto que está tão curto em soluções? Só há algo pior do que ver Sérgio Conceição confiar sistematicamente em Marega para fazer 90 minutos: é que se calhar não sobram mesmo assim tantas soluções. E entre o talento intermitente/molengão de Corona ou até Otávio, e um Hernâni que só tem servido para fazer número (mais até na bancada do que na ficha de jogo), o treinador prefere o empenho e a capacidade física de Marega. É penoso ver o maliano nestas situações em campo. Mas chegámos a um pouco em que parece que resta aceitar isso. 

Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O mesmo filme x3

Terceiro clássico da época. Terceira vez em que o FC Porto é muito superior ao rival. Terceira vez que não sofre golos. Terceira vez em que também não os marca. As grandes penalidades castigaram uma equipa que tem sabido ser melhor, que tem sabido manter a baliza trancada, mas à qual tem faltado muita clarividência nos grandes jogos para acertar na baliza.

Não se trata apenas dos clássicos, pois já tínhamos notado esse fenómeno na Liga dos Campeões. Antes da goleada ao AS Mónaco, em 10 golos, sete foram de bola parada, e os restantes divididos entre um contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada de insistência com vários ressaltos. 

Falta golo ao FC Porto nos grandes jogos. 270 minutos sem golos em clássicos - ainda que Aboubakar tenha marcado um golo limpo ao Benfica e que o golo anulado a Soares ao Sporting deixe muitas dúvidas; dúvidas essas que recomendariam que se deixasse o lance seguir - é algo para merecer a nossa preocupação, sobretudo sabendo que vêm aí mais quatro clássicos, que podem valer o Jamor ou até mesmo a liderança isolada/reforçada da I Liga. 

Exibicionalmente o FC Porto não se diminui. É mais forte, ataca mais, chega mais vezes ao último terço e tem sabido reduzir os rivais a escassíssimas oportunidades. Mas lá está: o FC Porto tem jogado sempre averso ao 0x0 inicial, é a equipa que mais luta para se desfazer dele, mas não tem sido feliz nesse aspecto. 

No que toca à Taça da Liga, houve diversas adversidades, desde o efeito psicológico de quebra por celebrar quase durante um minuto um golo que não valeu, a lesão de Danilo Pereira, a necessidade de remodelar um meio-campo que nunca tinha sido utilizado e a dureza imprópria neste jogo - FC Porto e Sporting têm uma média de 14 a 16 faltas cometidas e sofridas na I Liga, mas neste clássico cometeram 28 cada. 

E se já não bastava a maldita Taça da Liga, sobraram os malditos penáltis, onde o FC Porto tem sido imensamente infeliz. Benfica, Chaves, Braga, agora Sporting, não esquecendo os antecessores que vão desde o Fátima ao Schalke 04, o FC Porto tem perdido a esmagadora maioria de desempates por grandes penalidades nos últimos anos. Rui Patrício é forte nas grandes penalidades, mas acabou por defender tantos remates como Iker Casillas. Curiosamente, no último desempate com o Sporting o FC Porto tinha vencido, numa ronda em que só João Moutinho falhou. Desta vez saiu ao contrário. 

Aboubakar e Héctor Herrera (que até já tinha marcado desta forma a Rui Patrício num FC Porto x Sporting) nunca falharam uma grande penalidade em tempo regulamentar, mas desta vez erraram. O mesmo para Brahimi, que só tinha falhado 2 penaltys em toda a carreira e tinha uma eficácia de 80% na marca dos 11 metros, mas desta vez acertou no ferro. Correu quase tudo o que podia correr mal, enquanto o Sporting, inofensivo durante 90 minutos (a bola mais perigosa - a única - na direção de Iker Casillas foi-lhe endereçada pelo poste), teve a sorte grande nos penaltys. As meias-finais da Taça de Portugal já eram importantes, agora muito mais. 





Ricardo Pereira (+) - O melhor do lado do FC Porto, mesmo num jogo de dimensão física muito acima daquilo a que o lateral está habituado. Coentrão, Acuña ou Rúben Ribeiro não fizeram nada pelo seu corredor e Ricardo não se inibiu de ir ao ataque, com destaque para a grande jogada em diagonal que terminou com um remate para defesa de Rui Patrício. Fez quilómetros pelo corredor, deu sempre a zona central a Marega (poucos efeitos práticos, mas fartou-se de lutar) e mostrou uma condição física impressionante.


Alex Telles (+) - Certinho a defender, rápido a sair para o ataque. Não pôde chegar tantas vezes ao último terço como é habitual, mas tal como Ricardo fez um jogo irrepreensível na antecipação e na cobertura aos flancos. O Sporting não pôde utilizar os flancos para servir Bas Dost e isso deveu-se à boa exibição dos laterais do FC Porto, também sempre a saírem por cima nos lances de 1x1.

Reação à perda de Danilo (+) - Não há alternativa a Danilo no plantel do FC Porto. Isso já é um problema. Então perder Danilo nos primeiros minutos de um clássico, ainda pior. O FC Porto teve que reorganizar por completo a sua estratégia, com novas funções para Herrera e Sérgio Oliveira, Óliver a entrar a frio e o risco de ter a retaguarda mais exposta. Resultado? A partir dos 15 minutos, o FC Porto foi sempre superior ao rival e, na dimensão defensiva, não se sentiu a falta de Danilo. Ese também houve mais faltas do que o habitual, foi também porque foi necessário ser mais «rijo» perante a falta de Danilo. Grande resposta coletiva da equipa.





A definição (-) - Espaço para rematar? Mais um passe. Espaço para avançar? Vai remate daqui. Um colega ao segundo poste? Vai bola para o lado oposto. É um problema: o FC Porto chega sempre bem ao último terço, mas tem falhado bastante no momento de definição. Invariavelmente vimos Herrera, Sérgio Oliveira ou Marega chegarem com perigo à grande área, mas depois longe de tomarem a melhor decisão. Tendo em conta que o Sporting, em 180 minutos de clássico frente ao FC Porto, fez 2 remates à baliza, bastava aproveitar uma ou duas oportunidades das muitas criadas para ser feliz. 

Será a melhor fórmula? (-) - No Mónaco, Sérgio Conceição surpreendeu com a aposta em Sérgio Oliveira, num meio-campo reforçado. O FC Porto ganhou. Desde então, voltou a repetir isso mesmo em mais cinco jogos considerados «grandes». O FC Porto não ganhou nenhum deles. Talvez seja hora de repensar se esta estratégia funciona assim tão bem nos jogos de maior exigência. Sim, o FC Porto foi sempre melhor do que Benfica e Sporting, mas poderá Sérgio Oliveira ser o tal fator diferencial que vai aproximar o FC Porto da vitória? Não tem sido.

Além disso, há que colocar a questão: quantos clubes, em todo o Mundo, têm um jogador que só utilizam nos grandes jogos? Que tipo de jogador especial será Sérgio Oliveira que só jogou 26 minutos esta época em jogos de menor exigência, mas depois aparece 3 vezes como titular na Champions e 3 vezes em clássicos? Questionável, sobretudo quando há quase um espaçamento de dois meses desde a última aparição a titular. Uma vitória em seis jogos não é o melhor saldo para atestar a eficiência de uma fórmula para os grandes jogos. 

Os clássicos e o desenrolar da época mostram uma coisa: o FC Porto é melhor do que Benfica e Sporting. Mas aqui ninguém quer vitórias ou satisfações morais, mas sim resultados. A bola vai ter que entrar na próxima oportunidade. Para já o Moreirense. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um desajeitado com jeito para o golo

O FC Porto vai terminar 2017 na liderança da I Liga, com o melhor ataque, a melhor defesa, o apuramento para os 1/8 da Champions no bolso e a dois passos do Jamor. Não interessa como começa - ou como vai a meio -, mas sim como acaba, já o diz o treinador. Mas não poderia estar a correr melhor. 


A equipa sofreu uma nova transformação nas últimas semanas e encontrou o equilíbrio entre controlar o jogo com bola enquanto produz volume ofensivo suficiente para marcar um, dois, três golos. E fá-lo com apenas dois médios declarados, algo que parecia impossível de se atingir no início da época, enquanto reabilita jogadores/ativos que vão desde Reyes a Herrera, de Marega a Aboubakar. Um prova de superação de Sérgio Conceição e dos seus jogadores.




Marega (+) - O título desta crónica descreve o maliano: um desajeitado com jeito para o golo. Porque é isso que Marega está a garantir: golos. Não chega para uma dimensão europeia, mas tem sobrado e feito a diferença em contexto nacional. Dois golos de pé esquerdo - até aqui só tinha feito um dessa forma - que dispensaram técnica, colocação e a tentativa de defesa do guarda-redes. Em 14 jornadas, Marega soma intervenção direta em 15 golos, 12 dos quais da sua própria autoria, desta vez com o mérito de saber ler na perfeição a desmarcação de Brahimi - algo que demonstra, inclusive, a melhoria de Marega na leitura de jogo, pois no início da época estava sempre a cair em fora-de-jogo e agora é raro fazê-lo. Continuam a faltar-lhe muitas coisas, coisas que Marega talvez nunca terá, mas não lhe falta o mais importante: golos. Marega e golos na mesma frase. Estranho, mas já não é uma surpresa.


Alex Telles (+) - Chegou às 10 assistências nesta temporada, novamente de bola parada, mas voltou sobretudo a destacar-se na forma como ataca o corredor e municia a grande área. Só falhou um passe em meio-campo adversário, fez 7 passes para finalização, meteu 17 bolas na grande área e permitiu que Brahimi se dedicasse sobretudo à zona interior, pois o corredor era todo do brasileiro. Alex, brasileiro e lateral-esquerdo tem sido um perfil bem satisfatório no FC Porto. 

Brahimi, por dentro (+) - Visão perfeita do espaço e da desmarcação de Marega para os dois golos do avançado, com dois passes a rasgar a defesa do Marítimo. E é também um exemplo de que, para meter os avançados nas costas da defesa, não é preciso meter Marcano ou Felipe a fazerem passes de 50 metros. Brahimi progrediu, leu o espaço e fez o passe com força e colocação suficientes para enquadrar Marega com a baliza. Duas belas assistências e um exemplo de que os atalhos para a baliza não precisam de ser bicadas para o ataque. 

Outros destaques (+) - Estreia de Reyes a marcar com a camisola do FC Porto e a dar boas indicações nas primeiras aparições ao lado de Marcano. Sérgio Conceição aguentou Felipe no 11 tanto quanto possível, mas o brasileiro estava a cometer demasiados erros e as suas exibições já «pediam» banco. Faltava saber se Reyes estava preparado, mas para já não tem destoado. Aposta inteligente de Conceição - quando chegarmos a fevereiro, talvez Reyes não vá jogar contra o Liverpool por Felipe estar castigado, mas sim pelo mexicano já ser o dono do lugar. Por muito questionável que seja ter uma dupla de centrais em final de contrato e a poder assinar por qualquer outro clube dentro de duas semanas. Palavra para Marcano, que ganhou 10 dos 11 lances pelo ar que disputou. 

Ricardo Pereira voltou a dar boas indicações à frente de Maxi Pereira e Héctor Herrera encheu novamente o campo, tendo melhorado particularmente na forma como controla o ritmo do meio-campo - teve um total de 116 ações com bola. E como tem sido hábito, mais um jogo quase irrepreensível de Danilo, impecável no jogo aéreo e na cobertura do meio-campo, ainda que tenha falhado algumas saídas de bola.




Apostar mais pelo meio (-) - O FC Porto criou 15 ocasiões de golo durante a partida. Doze delas surgiram a partir dos flancos. Três em zona interior - e dessas três, duas deram golo. Além dos dois passes de Brahimi para os golos de Marega, só Marcano fez um passe em zona interior para uma zona de finalização. Tendo em conta o quão perigosas foram as poucas incursões do FC Porto pelo meio, a exibição só peca por não ter sido mais bem aproveitada neste capítulo.

Agora resta esperar que o Pai Natal seja generoso com Sérgio Conceição. Isso ou tentar esticar os milagres até maio. Convém não arriscar.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

E assim se fez a omelete (im)possível

Uma qualificação notável. O FC Porto reforçou o estatuto de mais forte equipa portuguesa no panorama europeu, ao garantir a qualificação para os 1/8 da Liga dos Campeões, com mais pontos e golos marcados do que Benfica e Sporting juntos. Era um objetivo declarado, mesmo sem que alguma vez tenham dado ao treinador as melhores condições para o cumprir, e o FC Porto conseguiu-o com mérito e a pulso, num grupo que era verdadeiramente traiçoeiro.


Na antevisão a esta Champions, foi comentado que neste grupo qualquer equipa era simultâneamente candidata à qualificação e ao último lugar. Ironicamente, o Besiktas, teoricamente a equipa mais frágil, venceu o grupo invicto, enquanto o Mónaco, para muitos a equipa mais forte, sai da Champions sem uma única vitória. Ilustrativo. 

O FC Porto foi inferior ao Besiktas neste agrupamento, foi do 8 ao 80 contra o Leipzig e carimbou a qualificação com duas excelentes exibições frente ao Mónaco. É certo que na última jornada as circunstâncias voltaram a ser favoráveis - à imagem da última época, quando o Leicester se apresentou no Dragão com uma equipa alternativa e também levou cinco -, e não deixa de ser atípico que até este jogo o FC Porto tenha construído a sua pontuação basicamente às custas de bolas paradas e com inconsistência defensiva (só o Sevilha se apurou com mais golos sofridos), mas nas contas finais os objetivos foram cumpridos e merecidos.

A Champions está feita no que às metas financeiras e desportivas dizem respeito. O sorteio dos oitavos-de-final não vai oferecer nenhum adversário simpático, nem diante do qual se possa reclamar favoritismo, mas a pressão já lá vai. Agora é tempo de centrar atenções no Campeonato, no qual até fevereiro muita coisa poderá mudar. Ou então a Champions continua, mas no Bonfim. 




Aboubakar (+) - Importa começar por recordar que o FC Porto não pôde contar com ele na primeira jornada, e que o camaronês terá ferido muitas suscetibilidades por ter ido ao balneário do Besiktas. Mas o que se seguiu foi isto: 5 golos e duas assistências em 5 jogos, com intervenção direta num golo a cada 60 minutos. No que a este aspeto diz respeito, estamos a falar do jogador mais produtivo da história do FC Porto na Champions, superando Rabah Madjer. 

No primeiro golo foi oportuno, no segundo determinado e inteligente a procurar o espaço para a finalização. Mas o melhor veio depois, com um passe absolutamente fantástico para Brahimi matar o jogo. Muito bem a aguentar a bola no eixo central, a vir dar apoio atrás e a distribuir o jogo, num dos seus melhores jogos da temporada. Levou o FC Porto às costas nesta fase de grupos. É caso para afirmar: ainda bem que não há CAN em 2018.


Yacine Brahimi (+) - O segundo melhor driblador da fase de grupos da Liga dos Campeões (só atrás de Neymar), a fechar a fase de grupos com chave de ouro, com mais uma assistência e a estreia a marcar. Foi o jogo em que teve maior influência direta na lista de marcadores, ainda que ao longo da fase de grupos tenha sido o denominador comum na criatividade da equipa. Conseguiu completar mais dribles do que todos os colegas juntos nesta fase de grupos. A prova de uma dimensão à parte e a repetição de um alívio: ainda bem que não há CAN em 2018.

Laterais (+) - Com Danilo e Alex Sandro, o FC Porto tinha uma dupla de laterais de classe europeia. Hoje, só resta dizer que ninguém sente a sua falta, graças a Alex Telles e Ricardo Pereira. Juntos, foram responsáveis por 25 das ocasiões de golo criadas pelo FC Porto nesta fase de grupos e voltaram a ter interferência direta. Alex Telles fez um bonito e merecido golo e Ricardo assistiu Soares com precisão para o 5x2 final. Eficazes a defender, desequilibradores a atacar.

Danilo Pereira (+) - Um daqueles jogos em que a sua presença pode não ter sido muito notada, mas foi decisiva. Fez os passes para os golos de Aboubakar (o segundo) e Alex Telles e empurrou várias vezes a equipa para o meio-campo adversário na saída de bola, tendo falhado apenas um passe no seu meio-campo. Não teve que ter muitas ações defensivas (apenas um tackle, nenhuma bola de cabeça ganha e nenhuma interceção, algo atípico no seu rendimento), mas assegurou sempre o equilíbrio da equipa no momento da perda.

Héctor Herrera (+) - Encheu o meio-campo e fez talvez a sua melhor exibição nesta fase de grupos. Teve um total de 103 ações com bola, mais do que os médios-centro do Mónaco juntos, com 91% de eficácia de passe, criou duas ocasiões de golo e acertou os dois cruzamentos que tentou, além de ter recuperado 15 vezes a posse de bola. E não menos importante, desta vez soube temporizar mais a velocidade do meio-campo, jogar curto e não querer que cada posse de bola fosse uma tentativa de a meter o mais depressa possível na frente. Resultado? O FC Porto teve 65% de posse de bola e esteve quase sempre no controlo do jogo, mesmo com uma unidade a menos no meio-campo. A prova de que não é preciso pressas para golear, mesmo tendo sido sonegadas duas grandes penalidades favoráveis ao FC Porto que, com VAR, seriam certamente assinaladas. Pois, ou então não. 





Deitar o crédito a perder (-) - Não é caso para dizer que Felipe teve meramente um descuido, que cometeu apenas um erro e que tem estado bem nos últimos jogos. Não tem. Podemos recuperar o Machado do jogo com o Aves: «Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances.»

Não podemos confundir o que é ter raça e vontade com o cair na ratoeira/tentativa de entrar numa picardia com um adversário e sujeitar-se à expulsão. Felipe não tinha nada que meter as mãos ao adversário ou responder a provocações, sobretudo sabendo que tinha a oportunidade de mostrar serviço para ir à seleção do Brasil. O FC Porto estava a vencer por 2x0, tinha o jogo controlado, mas as circunstâncias da expulsão poderiam ter sido bem mais penalizadoras. Quem não se lembra de outra expulsão disparatada no Dragão, de Herrera, frente ao Zenit, que custou bem mais caro?

Felipe conquistou o seu lugar no 11 com mérito, mesmo nunca estando ao nível de Marcano, mas de há várias semanas para cá tem sido das unidades de menor rendimento na equipa principal, com vários erros de concentração, posicionamento e de abordagem aos lances. O jogo nem estava a correr mal a Felipe, apesar de já ter falhado 5 passes longos, mas um jogador que estivesse concentrado e com a cabeça no sítio não cometeria o erro que Felipe cometeu. Já se penitenciou por isso, mas para já temos a garantia de que teremos que mexer na dupla de centrais e que Diego Reyes provavelmente terá que entrar no 11 nos oitavos-de-final. E será pela expulsão que Sérgio Conceição terá que mexer na dupla de centrais, mas se fosse pelas últimas exibições de Felipe também não poderia deixar ninguém escandalizado.

Acertar os passes longos (-) - Numa retrospetiva a esta fase de grupos, sobra a questão: quantos golos conseguiu o FC Porto através de bolas longas despejadas pelos centrais na frente? Sobretudo durante os primeiros 10 minutos, o FC Porto repetiu a fórmula de meter bolas longas na frente, à espera que Aboubakar ou Marega apanhassem alguma coisa nas costas da defesa. As melhoras jogadas nasceram de circulação de bola, do meio para os flancos, e da procura do espaço para colocar os jogadores em situação de finalização, em vez de bater logo a bola longa na frente. O melhor FC Porto desta época, exceção feita à visita ao Mónaco, foi sempre aquele que quis ter bola e assumir o jogo, em vez de trocar a elaboração da construção de jogo por passes longos de Felipe ou Marcano. Algo a reter para o que aí vem.

Palavra, logicamente, para Sérgio Conceição, que na sua época de estreia na Champions garante o apuramento para os 1/8, sem um único reforço e estando longe de ser consensual em muitas das opções que foi tomando. A verdade é que não falhou na hora H e o FC Porto revelou/reabilitou vários ativos na montra europeia. Não foi a época em que o FC Porto melhor jogou na fase de grupos, mas foi um dos apuramentos obtidos com menos recursos. Uma omelete difícil de cozinhar, mas os ovos foram aproveitados da melhor forma.