Sérgio Conceição falou numa exibição de «vinho de tasca». E assim foi, com as uvinhas uma vez mais espremidas ao máximo. É a antecâmara de uma época na qual a maioria verá sempre qualidade e opções de sobra sempre que o FC Porto vencer, mas ao primeiro mau resultado (re)surgirão de pronto os alertas do óbvio: de que faltam soluções, sobretudo no ataque, num plantel que praticamente não foi reforçado com idas ao mercado.
Saíram Ricardo, Marcano e Reyes (além de Diogo Dalot), entraram João Pedro, Mbemba e Militão. E tendo em conta que nenhum deles, por diferentes razões, entrou ainda na equipa titular, não podemos afirmar que este elenco seja mais forte do que o da temporada passada.
E é agora que é importante repetir e reafirmar isto, pois no final da próxima semana, com o mercado fechado, já será inútil dizê-lo. No Jamor tivemos a felicidade que faltou na época passada nos jogos contra Aves ou Moreirense, por exemplo, e valeu a raridade que é ver uma equipa de arbitragem manter o critério nas suas decisões. Mas que vai ser preciso muito mais nas próximas deslocações, vai, embora este Belenenses tenha mostrado no passado recente ser uma das equipas que melhor se organiza frente aos grandes.
Alex Telles (+) - Ganhou e bateu o livre do 1x0 e decidiu, ele próprio, o jogo com a marcação irrepreensível de um penálti capaz de fazer tremer qualquer sangue frio. O lateral brasileiro acabou por se destacar nos cruzamentos (acertou 5 em 8) e nos duelos disputados (4/5), além de ter criado três situações de finalização. Num jogo em que o FC Porto teve muitas dificuldades na bola corrida, a fórmula Alex/bolas paradas voltou a fazer a diferença.
Héctor Herrera (+) - O Belenenses tomou conta do meio-campo durante parte significativa do jogo, mas o mexicano sempre remou contra a maré. Foi o elemento com mais ações com bola (63), ganhou 11 dos 14 duelos que disputou e criou duas situações de golo, tendo ainda atirado uma bola ao ferro. Fartou-se de fazer quilómetros e tentou redobrar-se em todo o campo, tentando muitas vezes lançar ataques aos quais as unidades da frente não deram sequência.
Iker Casillas (+) - Um calafrio com um atraso de Felipe, mas acabou por somar um par de defesas importantíssimas na segunda parte, que evitaram (melhor, adiaram) o empate do Belenenses.
Falta de controlo (-) - O Belenenses terminou o jogo com mais posse de bola, mais passes e nunca perdeu o controlo do meio-campo em toda a partida. Há que reconhecer que se tratou de um adversário com boa organização, cujas marcações nunca foram baralhadas pelos avançados do FC Porto e que raramente cedeu espaço nos últimos 25 metros. O FC Porto não conseguiu construir jogo e os golos acabam por nascer em lances à margem das dinâmicas da equipa - duas bolas paradas e um erro de um adversário. Comparando o caudal ofensivo e a qualidade demonstrada pelo FC Porto na 1ª jornada, foi do 80 ao 8 - o primeiro remate da equipa à baliza surgiu já a meio da primeira parte, e Muriel fez tantas defesas como Casillas.
Minuto 58 (-) - Como diriam os treinadores da velha guarda, «esta nem nos infantis». Uma bola batida diretamente pelo guarda-redes do Belenenses, Muriel, é dominada por Fredy (Sérgio Oliveira a dormir neste lance) à entrada da grande área do FC Porto. Isto não existe a este nível: com um simples passe de 80 metros, o adversário fica na cara do golo. O avançado do Belenenses (que tantas dores de cabeça deu a Felipe) tocou para Licá e Casillas acabou por evitar o golo, mas este é o tipo de jogada capaz de fazer qualquer treinador arrancar cabelos.
Não esperemos o mau resultado (-) - Sérgio Conceição valoriza muito o trabalho nos treinos. É certamente por isso que André Pereira ganhou o lugar neste arranque de época - por isso e pela falta de uma solução/reforço de maior qualidade. É um jovem avançado fisicamente interessante, que tenta trabalhar para a equipa, mas cuja aposta neste momento não está a funcionar da melhor forma. Volta a ser o primeiro a ser substituído e pouco conseguiu produzir em campo - apenas 8 passes completos, falhou os 2 dribles que tentou, tentou o remate apenas uma vez e perdeu 10 dos 17 duelos que tentou. É certo que o companheiro de ataque, Aboubakar, esteve em modo amorfo, mas André Pereira não terá ainda a estaleca que possa fazer dele uma solução de 11 inicial para o curto prazo.
Mas dirão: e soluções? Adrián? Marius? Marega? Com Soares lesionado e sem mais soluções para o ataque, a verdade é que provavelmente André Pereira não deixa de ser aquele que mais tem lutado e feito por merecer um lugar no ataque do FC Porto aos olhos de Sérgio Conceição. E assim sendo não é possível censurar as opções do treinador, que dificilmente terá intenções de abdicar do esquema de dois avançados neste arranque de época. Sérgio Conceição tem que «rentabilizar os que tem», dizem, mas não se queixem se o que tem se revelar insuficiente a breve trecho. Vinho de tasca pode desenrascar numa refeição mas não vai matar a sede nos dias de maior calor.









