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segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma conversa entre Mística e Cifrão

Mística - Um dia triste para o Futebol Clube do Porto...

Cifrão - Calma, Mística, que eu tenho uma coisa para te animar: vendemos um suplente por cerca de 18 milhões de euros! Não é incrível?

Mística - Essa é a tua alegria, Cifrão? O menino que deliciava os adeptos aos 17 anos, que carregou a braçadeira de capitão aos 18 e que foi apresentado pelo próprio presidente como o sucessor de João Pinto, é descrito por ti como o «suplente»? Isso leva-me a pensar em todos os outros grandes negócios que perdemos por não termos vendido suplentes como João Pinto, Jaime Magalhães ou Domingos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. O Rúben Neves estava há 3 anos a trabalhar com o plantel principal. Só se revelou com Lopetegui, e mesmo assim, assim que Casemiro esteve pronto, Lopetegui não mais prescindiu dele. De resto, Rúben Neves nunca esteve perto de ser um titular indiscutível...

Mística - É esse o problema dos talentos precoces. Tu, Cifrão, e tantos outros esquecem-se que esta foi a primeira época de sénior de Rúben Neves. A primeira!

Cifrão - E então? Diz-me lá: achas que Rúben Neves foi mais importante na posição 6 do que foram Paredes, Costinha, Paulo Assunção ou Fernando? Não brinques, Mística, há que ser pragmático: o Rúben Neves sai por mais dinheiro do que todos estes juntos, sem ter feito um terço do que esses fizeram!

Mística - Curioso que fales desses nomes, Cifrão. Rúben Neves tem 20 anos feitos em março. A mesma idade com a qual Paredes era suplente do Olimpia e Paulo Assunção do Palmeiras. Costinha estava no Oriental. Fernando chegava do Brasil para ser emprestado ao Estrela da Amadora. Por alguma razão, muitos esperavam que Rúben Neves fizesse o que poucos fizeram no FC Porto: ser titularíssimo aos 20 anos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. Com a saída do Rúben Neves, é possível segurar o Danilo Pereira! E tens que concordar que, neste momento, o Danilo não só é o melhor 6 do futebol português como assenta que nem uma luva na descrição de jogador à Porto! O que é melhor: sair o Rúben ou o Danilo?

Mística - É aí que erras, Cifrão. Noutros tempos, o FC Porto pensaria no Rúben Neves como o sucessor de Danilo, em vez de estar a pensar em vender o Rúben Neves para segurar o Danilo. O que vemos é Rúben Neves a pagar a fatura dos erros da administração da SAD do FC Porto, cujo responsável financeiro dá passadas largas para meter os tempos áureos do Sporting de Godinho Lopes no bolso. 

Cifrão - Sê realista, isto é negócio! Imagina que o Rúben passava mais uns meses no banco, ou que se lesionava? Já não havia negócio para ninguém!

Mística - Bem, nesse caso é melhor vender já todo o plantel, não vá alguém lesionar-se na pré-temporada. Após tanto termos condenado a teia da qual a formação do Benfica e Jorge Mendes fazem parte, queres rejubilar com esta venda do Rúben Neves, que sai por pouco mais do que um tal de Hélder Costa?

Cifrão - E então? Imagina lá o que devem preferir os benfiquistas: ter um plantel com Bernardo Silva, João Cancelo e Hélder Costa ou serem tetracampeões? Queremos jogadores ou títulos?

Mística - Não é uma questão de jogadores vs. títulos, pois estás a comparar meios com fins. Rúben Neves é o tipo de jogador que ajudaria o FC Porto a ganhar troféus. Neste caso, sai muito antes de poder meter as mãos num caneco. Outrora, os jogadores cumpriam o ciclo de valorização, que coincidia com a conquista de títulos, antes da saída; agora saem antes de conquistar títulos e muito antes de atingirem o seu pico de valorização. Não é por acaso que o FC Porto nunca se preocupou em vender Fernando, Paulo Assunção ou Costinha num pico de valorização: eram jogadores que interessavam mais desportivamente do que financeiramente.

Cifrão - Mas talvez nunca nenhum desses jogadores tenha tido a proposta que teve Rúben Neves, senão também teriam saído. Insisto, o Rúben Neves está a sair por mais dinheiro que todos os grandes médios defensivos que tivemos, e não teve metade da importância que cada um desses teve! Como pode isto ser um mau negócio?

Mística - É um mau negócio não pelo rendimento que Rúben Neves teve na equipa principal, mas por aquele que já não o vão deixar ter. Não estamos a falar de um jogador com talento que podia resultar ou não, de um sul-americano que precisa de um longo período de adaptação ou de um jogador a precisar de evoluir taticamente. Rúben Neves estava pronto e preparado para render mais. Poderia até haver compatibilidade com Danilo no meio-campo.

Cifrão - E quem deixava de jogar? Temos variadas opções para o meio-campo, desde Óliver a Herrera...

Mística - O mesmo Herrera por quem rejeitaram 30 milhões de euros para agora estar a vender Rúben Neves por pouco mais de metade? Questiono esta lógica de gestão. Rejeitam 60 milhões por André Silva para depois o vender por 38. Rejeitam 30 pelo Herrera para depois vender Rúben Neves por cerca de 18. 

Cifrão - Sabes, o FC Porto não comanda todo o mercado... Pode haver uns meses em que uns clubes estão a oferecer mais, outros em que oferece menos. Infelizmente, a SAD tem que decidir no momento, enquanto os adeptos têm a facilidade de poderem mudar de opinião de um mês para o outro, dependendo do momento de forma de cada jogador. 

Mística - Mas o que decide a SAD? Até agora, a única coisa que se viu foi Jorge Mendes a levar dois dos seus jogadores, Rúben Neves e André Silva, e Sérgio Conceição com zero reforços. Que fez a SAD no meio destas operações? Já sei. Deu 10% do passe de André Silva (ou 10% da mais-valia - os jogadores da formação geram sempre mais valias mais elevadas, por não haver direitos de formação a pagar a outros clubes) a António Teixeira, quando a Promosport nem o representava. E sobre Rúben Neves? Deu 5% ao irmão de Adelino Caldeira, além de lhe ter pago 225 mil euros só pela renovação e uma soma de 100 mil euros por 20 jogos disputados. Sendo que José Caldeira podia ganhar mais 5% dependendo da concretização de uma proposta. A isto junta agora as comissões que Jorge Mendes vai receber das duas vendas. De facto, isto tem sido uma trabalheira para a SAD. 

Cifrão - Eh pah, outra vez a falar nisso? Preocupa-te é com os e-mails e com os esquemas de corrupção a envolver o Benfica. Temos que apontar as armas para fora, não é para dentro!

Mística - Sabes, Cifrão, por mais graves que as práticas do Benfica sejam, isso não vai resolver os problemas do FC Porto internamente. Continuamos a ter graves problemas financeiros, continuamos a ter o fair-play financeiro à perna, continuamos com problemas na gestão de ativos do plantel. Nada, nada dos problemas internos do FC Porto mudou com a divulgação dos e-mails. A não ser que a Gmail seja apresentada como reforço e que garanta 30 golos esta época, desportivamente, não te iludas: isto não muda nada no FC Porto, apenas condiciona o modus operandi do Benfica dos últimos 4 anos. Se acham que a única forma de fortalecer o FC Porto é enfraquecendo o Benfica, isso constata que se preocupam mais com a casa dos outros do que com a nossa. Não me parece o caminho correto.

Cifrão - Inacreditável. Repara, com as saídas de André Silva e Rúben Neves, devemos garantir uma mais-valia acima dos 40/45 milhões de euros com dois jogadores que não estavam a ser, sequer, titulares indiscutíveis! Num passado bem recente, era normal o FC Porto vender dois ou até três titulares por época. E a máquina funcionava! Já vendemos melhores por bem menos! Neste caso, não sai nenhum titular verdadeiramente indiscutível, e ainda assim queixam-se?

Mística - Sim, pois estas vendas são consequências de erros gravíssimos de questão. A forma como têm relativizado o falhanço do fair-play financeiro é altamente preocupante. Eu ainda me lembro de ouvir Fernando Gomes dizer, no início de 2016, que o contrato com a PT ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falavam? Desde então, o que fizeram? Apresentaram o maior prejuízo da história da SAD, de quase 60 milhões de euros; falharam o FPF; venderam Rúben Neves e André Silva em saldos (atenção, não digo que os 38 milhões tenham sido maus, não foram - mas se o presidente diz que antes rejeitou 60 milhões por ele, então não foi o melhor negócio possível), e já cometeram a proeza de antecipar 57 milhões de euros do contrato com a PT, que só devia começar em junho de 2018. São pelo menos 12,5% já utilizados de um contrato que só arrancava dentro de um ano. Os treinadores vão saltando e os responsáveis por este caos seguem imaculados. 

Cifrão - Não te desvies do essencial, Mística. Para a história, fica que vendemos um suplente por 18 milhões de euros. O mais próximo disso ter acontecido foram as vendas do Imbula e do Iturbe, que não permitiram grandes mais-valias mas cujo bolo total foi bem apetecível. A venda de Rúben Neves foi ainda melhor. Concluo, o FC Porto está mais rico.

Mística - Não, Cifrão. O portismo está mais pobre. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

André Silva por 60 milhões de euros

«André Silva foi, afinal, alvo de duas ofertas milionárias durante o último defeso: uma antes da renovação e outra depois. A revelação foi realizada por Pinto da Costa durante a intervenção final na assembleia geral do clube efetuada na noite de quinta-feira, no Dragão. "O André Silva, que na altura valia 25 milhões de euros, neste momento vale 60, porque é a sua cláusula de rescisão, para a qual, se quiséssemos, já o teríamos vendido", esclareceu o presidente do FC Porto». Jornal O Jogo, 05-11-2016

Quando temos a palavra do presidente, não há muito mais a acrescentar. André Silva fez alguma coisa para que o seu passe desvalorizasse um terço? Duvidemos. A não ser que a parceria com Cristiano Ronaldo esteja a ser nociva ao seu crescimento, o que dificilmente será o caso. 

Assim sendo sobra a questão: quem diz que rejeita 60 milhões de euros por André Silva vai agora deixá-lo sair por 40? Com que lógica? O que poderá ter feito André Silva para desvalorizar 20 milhões de euros?

É bom realçar que isto não é um recado para o mercado, como a história do euro que metia para chegar aos 40 milhões de euros da cláusula de Ricardo Quaresma. Isto foi uma afirmação dita em Assembleia Geral, na cara dos associados do FC Porto.

Assim sendo, na iminência da saída de André Silva para o Milan (clube pelo qual já podia ter assinado quando tinha 15 anos, mas o próprio André Silva recusou), será particularmente interessante ouvir o que Pinto da Costa terá para dizer sobre este negócio, tanto quanto apurar se António Teixeira vai conseguir a proeza de encaixar cerca de 4 milhões de euros por um jogador que nem sequer agencia. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Do 2 para o X2

É a principal consequência do empate em Braga: o Benfica já pode rever os seus planos para Alvalade. Se o FC Porto fizesse a sua parte, não haveria alternativa para o Benfica: teria que jogar para ganhar ao Sporting, riscando a estratégia defensiva e de contenção que Rui Vitória já abraçou em outros clássicos. Mas com a igualdade em Braga, tudo mudou: o Benfica pode agora jogar para dois resultados no clássico. Uma mudança no totobola que certamente vão apreciar. 

O título ainda é possível, mas não para a equipa que esteve em campo diante do SC Braga, sobretudo na primeira parte. As gírias são muitas vezes vazias e pouco sustentadas, mas neste caso assenta que nem uma luva: uma equipa que não joga nada. Bem sabemos que o talento individual dos jogadores - leia-se Brahimi - e as bolas paradas (ninguém marca mais do que o FC Porto desta forma no Campeonato) têm os seus limites para aguentar o barco, mas uma equipa que quer ser campeã, por mérito próprio, não joga desta forma. 

Isso, tal como na época 2014-15, não pode invalidar ou abafar o que se vai passando ao som do apito. Foi mau de mais. O Braga bateu o recorde de faltas cometidas em Portugal (32!) e, ainda assim, conseguiu a proeza de acabar o jogo com menos cartões do que o FC Porto e com 11 jogadores em campo. As arbitragens inclinaram nitidamente o campo em desfavor do FC Porto esta época. Isso é algo de que Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm culpa. Mas o passado recente, nomeadamente há duas épocas, mostrou bem que os adeptos (a maioria) preferem vaticinar o demérito para a ausência de títulos do que culpabilizar as péssimas arbitragens. Tem que haver um equilíbrio, claro. 

Em 2014-15 fizemos 82 pontos, e não chegou para o título por um fenómeno chamado colinho. Neste momento, na melhor das hipóteses, o FC Porto pode chegar aos 83 pontos, sendo certo que já tem mais golos sofridos do que na totalidade da referida temporada, o que também vai deteriorando o mérito possível no futebol praticado esta época: o bom trabalho defensivo. 

Estar, neste momento, ainda na luta pelo título continua a ser um grande superar de expetativas, tendo em conta a forma como foi preparada a pré-época. Mas após meses e meses de adversidades que, de maneira mais ou menos ortodoxa, a equipa ia conseguindo superar, é desolador testemunhar a apatia, falta de ideias e o caos táticos que se passeou em Braga. Eram capazes de mais. Deviam ser capazes de mais. 

E agora? Resta torcer pelo Sporting, esperar que consigam vencer o Benfica. E caso esse milagre aconteça, nos restantes 5 jogos pode não ser necessário apenas vencer, mas sim também golear. E isso não se consegue a jogar como em Braga.




Brahimi (+) - Não poderemos contar com ele frente ao Feirense, por ter dito algo em francês que, rezam as crónicas, o quarto árbitro não percebeu. Ou então sim: se foi de facto isto que aconteceu, o FC Porto tem que se socorrer de todas as vias necessárias para anular a expulsão. É ridículo de mais para ser verdade. Sapunaru, um dos nossos, divertia-se a mandar os árbitros irem para as couves em romeno. Aparentemente, os árbitros percebiam o que ele dizia, pois se não percebessem, segundo o mesmo critério, teria sido mandado muitas vezes para a rua. Absurdo.


Futebolisticamente falando, é um oásis no futebol do FC Porto: à sua volta, só se vê um deserto, um deserto de ideias coletivas. Brahimi recebe invariavelmente a bola em zonas demasiado distantes da baliza. Consegue sempre deixar um ou dois para trás, mas depois não aparecem soluções em zonas mais interiores. Está a rematar mais (foi o mais rematador da equipa), mas sobretudo por não encontrar alternativas. Vai remando contra a maré com inconformismo, irreverência e uma revolta nítida de quem quer que as coisas saiam melhor. A ele e à equipa. 

Alex Telles (+/-) - Somou mais uma assistência para golo e foi o jogador que conseguiu forçar mais vezes a entrada na grande área adversária (mais do que Brahimi ou até Soares e André Silva, o que mostra bem o resultado de encostar André Silva ao flanco - já lá vamos). Só perdeu um lance de 1x1 e criou mais duas situações de golo, infelizmente desperdiçadas, e cometeu o erro num momento crítico: o cruzamento do qual saiu o 1x0. Ainda assim, soube reagir ao erro. 

O livre dos 85' (+/-) - Isto não nasce da inspiração do momento: é um tipo de lance que se trabalha nos treinos, e que tem que ser repetido muitas vezes até sair bem. E saiu (quase, quase...) bem. Minuto 85, livre em zona frontal, e o reflexo de qualquer equipa pode ser o de tentar o remate direto ou a bola bombeada para a grande área. Mas ali houve calma, cabeça e inteligência para surpreender o adversário e tentar um novo tipo de bola parada: bola curta no livre, cruzamento para a grande área e Danilo a aparecer na perfeição na zona de finalização. Mas não apenas Danilo: o próprio Felipe aparece solto de marcação mesmo ao lado, pronto para encostar. Infelizmente, Danilo falhou uma grande oportunidade, naquela que foi uma das melhores jogadas do FC Porto 2016-17 - e só foi preciso três toques para a criar. Tivesse a bola entrado e poderia ter sido uma jogada a marcar a época. Mas, pelo menos, viu-se trabalho de casa dos treinos. Não o suficiente para passar no exame, infelizmente. 




André Silva à direita (-) - Não há palavras simpáticas para o descrever: André Silva está a ser uma nulidade encostado à faixa direita. E isso não tem a ver com a qualidade do jogador, mas sim por não ter caraterísticas para jogar naquela posição, naquelas funções. Vale para André Silva como valeria para Soares: temos dois pontas-de-lanças feitos para jogar na grande área, não encostados na faixa para servir de apoio a um ataque que pouco produz. 

André Silva jogou várias vezes com grande amplitude e liberdade na primeira metade da época, mas sempre tendo o eixo como referência. Sabia que tinha que aparecer na grande área, os movimentos que tinha que fazer, quando devia descair nos flancos para dar apoio. E quando André Silva começou a jogar mais por dentro em Braga, fazia-o bastante distante da grande área. O resultado foi este: André Silva tocou duas vezes na bola na grande área, perdeu 16 vezes a posse e só conseguiu ganhar um lance de 1x1. Sofrível, o equivalente a se algum dia um treinador tivesse a ideia de colocar Fernando Gomes, Jardel ou Falcao no flanco. 

Não foi André Silva que desaprendeu. Simplesmente André Silva não pode desempenhar o papel que NES idealiza para aquela função. Nem ele nem Soares. Cabe a NES decidir: ou muda o sistema, ou então terá que rever os seus planos para aquela posição e quiçá jogar com apenas Soares ou André Silva. É certo que os dois juntos já revelaram sintonia e produtividade, mas com o puxão de André Silva para o flanco direito jogar com um ou dois não está a fazer diferença. 

O vazio de ideias (-) - Bola longa, bola longa, bola longa. Patada para a frente, patada para o flanco, quem quiser quem a apanhe. É sofrível chegar a esta fase da época e ver o FC Porto jogar assim, sem a capacidade de sair em apoio, encontrar soluções entre linhas, jogar no pé em vez de procurar sempre o espaço. Não há ideias: a partir do momento em que a equipa adversária fecha os flancos, o FC Porto não tem outra alternativa senão dar a bola a Brahimi ou atirá-la em profundidade, à procura do espaço que não existe.

Este é um dos Bragas mais caóticos dos últimos tempos, e mesmo assim o FC Porto foi incapaz de aproveitar as limitações de uma equipa que a cada dois passes falhava um. Sim, o SC Braga teve apenas 55% de passes certos na segunda parte. Ou seja, a cada 10 passos que fazia, praticamente falhava metade. Diz isto que o FC Porto é capaz de recuperar a bola ou perturbar a circulação do adversário. Isso sim. O problema vem depois: não sabe o que fazer com ela. E sem a bola parada ou a inspiração individual dos jogadores, nada feito. 

E no meio de todas estas limitações e dificuldades, o FC Porto chega à 30ª jornada ainda com esperanças na luta pelo título. O equivalente a percorrer uma maratona com cãibras, muitas vezes a mancar, uma técnica de corrida questionável, mas ainda sim ter a meta à vista e apenas um gajo à frente a correr, também ele a arrastar-se de bengala para chegar à meta. Há esperanças de que sofra uma rasteira e que fique caído. Mas com corridas como a de Braga não vamos lá. 


PS: Muitos leitores notaram e questionaram uma redução no número de publicações d'O Tribunal do Dragão nas últimas semanas, algo que chegaram a chamar de «silêncio». Não se trata de silêncio ou ausência de temas que merecem comentário, mas indisponibilidade profissional e pessoal para corresponder ao número de posts desejado. As crónicas de jogo serão sempre publicadas (mesmo com atrasos, como aconteceu neste caso), mas não tem havido o tempo desejado para explorar outros conteúdos.

Ainda assim, há o reconhecimento que deve ser dado ao trabalho que está a ser realizado no Porto Canal, em particular no programa Universo Porto. O Tribunal do Dragão escreveu, um dia, numa reação a uma pequena polémica que muitos recordarão, isto: «O Tribunal do Dragão faz o que gostaria que fosse o clube a fazer. O que provavelmente todos os leitores deste espaço gostariam que fosse o clube a fazer.» E é mesmo isso que o Porto Canal, em particular nas intervenções de Bernardino Barros e Franciso J. Marques, está a fazer: uma defesa sustentada do FC Porto nos bastidores e meandros do futebol português. Pertinente, incisiva, perspicaz. O Tribunal do Dragão terá sempre o seu cantinho na bluegosfera, mas é bom ver o FC Porto, finalmente, servir-se das suas vias oficiais para fazer o tipo de trabalho que os leitores se habituaram a apreciar neste espaço. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Tondela não merecia isto

As críticas foram bem audíveis nos últimos dias. E trata-se, de facto, de uma grande injustiça. O Tondela, na visita ao estádio de um grande do futebol português, perdeu por 4-0. Mas o problema não esteve apenas no resultado final, mas em dois lances nos quais o Tondela foi claramente prejudicado.

Falamos de um penalty e de uma expulsão, imerecidas e injustificadas, que acabaram por prejudicar o Tondela no jogo em causa. Jogar no estádio de um grande do futebol português já é, por si só, complicado. Mas quando a equipa da casa beneficia de um penalty mal assinalado, e vê um jogador do Tondela ser mal expulso, só se pode lamentar o tratamento de que o Tondela foi alvo.

Passando às imagens, o lance em causa é este:


Neste lance, André Almeida não sofre qualquer falta de Pica na grande área. Não havia grande penalidade a favorecer o Benfica, nem o Tondela ficaria sem um dos seus defesas. O Benfica acabou por vencer por 4-0. Venceria de qualquer maneira? Certamente. Mas custa sempre ver um clube modesto, como o Tondela, ser assim prejudicado pela arbitragem em casa de um grande. Felizmente, Gilberto Coimbra, presidente do Tondela, reagiu de pronto a esta injustiça...

Hmm, afinal não. Criticou o Sporting e o Jorge Jesus depois de ir a Alvalade e queixou-se imenso da arbitragem agora que o Tondela perdeu com o FC Porto, também por 4-0. Contra o Benfica, por incrível que possa parecer, Gilberto Coimbra não se lembrou de condenar a arbitragem.

De certeza que não terá nada a ver com isto.


No que diz respeito ao FC Porto, uma vitória sem sobressaltos, ainda que não há-de ser sempre que, no espaço de 3 minutos, a equipa beneficie de um penalty e uma expulsão, momentos que certamente ajudaram a que, na segunda parte, o 4x0 até tenha sido pouco para todas as ocasiões que a equipa construiu. 

53 pontos em 22 jornadas, um saldo bastante positivo e acima das expetativas, sobretudo tendo em conta que, nas últimas 12 épocas, só por 3 vezes o FC Porto tinha mais pontos nesta fase: no segundo ano com Jesualdo Ferreira, na época com Villas-Boas e na segunda época com Vítor Pereira. Três épocas que acabaram em festa nos Aliados. Se há momento para acreditar é este, independentemente do que se passar na eliminatória com a Juventus.




Rúben Neves (+) - Tem que haver algo de extraordinário para Rúben Neves não ser titular no FC Porto. E há: chama-se Danilo Pereira, imprescindível pelo que acrescenta à equipa. Mas Rúben Neves tem a capacidade de dar ao meio-campo do FC Porto uma qualidade de circulação de bola, de amplitude de jogo e de cabecinha a construir (sem Óliver em campo, a sua importância neste aspeto foi ainda maior) incomuns.

Um exemplo. Nos últimos 4 jogos, Danilo Pereira fez 36 passes no meio-campo adversário. Rúben Neves, que joga na mesma posição, fez mais contra o Tondela. 

Rúben Neves vs. Tondela
São jogadores de caraterísticas muito diferentes, o que ajuda a explicar a diferença. Mas Rúben Neves tem essa capacidade: de empurrar a equipa para os últimos 45 metros. O facto do Tondela ter jogado com 10, e ter deixado de pressionar tanto, ajudou a essa subida, claramente, mas é uma capacidade intrínseca no futebol de Rúben Neves: obriga todas as linhas a subir, pela forma como circula a bola. Defensivamente, também não esteve longe do rendimento habitual de Danilo, com 19 ações defensivas, entre recuperações, desarmes e intercepções. O único problema de Rúben é este: só podem jogar 11 de cada vez. Mas pode ter o que nem todos tiveram: muitos anos de FC Porto pela frente.


André André (+) - O seu melhor jogo esta época. Esteve literalmente por todo o lado, impecável no passe (93%), recuperou várias vezes a posse no meio-campo adversário e manteve, em sintonia com Rúben Neves, a equipa equilibrada no meio-campo na transição defensiva. Uma exibição a fazer lembrar o seu grande momento de forma em outubro/novembro de 2015, tamanho que foi o pulmão que foi capaz de mostrar em campo.

André André vs. Tondela
A capacidade de criar (+) - Sim, jogar em superioridade numérica, contra uma das equipas com maiores fragilidades do campeonato, ajuda. Mas foi um dos jogos em que o FC Porto mais capacidade teve de levar a bola a zonas de finalização. Foram efetuados 18 passes que deixaram um colega em situação privilegiada para atirar à baliza e fazer jogo. Foi o recorde desta época, também com grande destaque para o número de entradas na grande área do Tondela (51). Dos 24 remates, 15 foram feitos dentro da grande área do Tondela, o que mostra a facilidade para criar situações de finalização. Além disso, foram efetuados 33 cruzamentos, ainda que desses só 8 tenham tido seguimento direto na grande área. Quando se cria oportunidades desta forma, ninguém terminará o jogo a lamentar a ineficácia: no meio de tantos lances, pelo menos um há-de entrar.

Outros destaques (+) - Mais dois golos para a dupla André Silva/Soares, a revelar um bom entendimento - Soares mais fixo no eixo central, André Silva sempre mais recuado e a cair muitas vezes nas faixas. O golo de Soares foi uma delícia de finalização, a colocar a bola onde quis. Já leva 4 jogos em 3 jogos, uma excelente média - os «dois pares de golos» que se pediam para ajudar o FC Porto na luta pelo título podem já estar feitos -, embora haja ainda muita coisa para melhorar quando é forçado a ir para o 1x1 (foi o único, a par de Rúben Neves, que não fez nenhum drible - não que tenha precisado para marcar) e na forma como tem que perceber as movimentações dos colegas (algo que o levou a ser o jogador com mais perdas de bola em campo). 

Há ainda a destacar que, dos 10 remates que André Silva e Soares fizeram, nove foram efetuados dentro da grande área. Ou seja, a bola está a chegar à grande área e aos pontas-de-lança. Quando assim é, tudo é mais fácil. Palavra ainda para um bom jogo de Corona.




A rever (-) - Os golos e a superioridade numérica na segunda parte ajudam a que isso se «esqueça», mas no primeiro tempo foi nítido, uma vez mais, o fosso que é criado entre o meio-campo e a linha avançada. Faltava muitas vezes alguém para ir receber a bola entre linhas e uma referência no eixo central. André André tinha limites para subir, pois só sobraria Rúben Neves no meio-campo, e Otávio aparecia poucas vezes em zonas interiores. Jogar com apenas dois médios obriga a uma disciplina e versatilidade na dinâmica da equipa que o FC Porto, com estas unidades, ainda não revelou da forma desejada. Isto provocou, algumas vezes, um desequilíbrio na zona central, algo que poderia ter sido muito perigoso - aos 30 minutos já tínhamos os centrais e o médio defensivo amarelados.

Quando se criam muitas oportunidades, a bola acaba por entrar. Mas a forma como foram desperdiçadas várias ocasiões, com André Silva, Soares e Otávio à cabeça, não é coisa para se repetir. Foram ocasiões que, falhadas noutro jogo qualquer, poderiam ter custado caro. Como por exemplo contra a Juventus.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

A «quebra» de André Silva

«Dois jogos de Francisco Soares de dragão ao peito, três golos do avançado brasileiro e, no mesmo período, nem um remate de André Silva para a estatística (...) Será que a parceria com Tiquinho está a limitar o futebol de André Silva? Nuno Espírito Santo identifica alguma quebra no internacional português? 'Não concordo com essa ideia. O André não está em quebra'». MaisFutebol

Vamos, então, avaliar essa famosa quebra de André Silva nos últimos dois jogos.

FC Porto x Sporting, minuto 6. Iker Casillas manda um dos muitos balões do FC Porto para a frente nesse jogo. Uma bola longa foi muitas vezes sinónimo de uma bola entregue ao Sporting. O que diferenciou este lance? É André Silva quem, de cabeça, consegue ganhar o lance e amortecer a bola para que Corona pudesse avançar para o 1x1.


O que acontece neste lance? Os dois centrais do Sporting, e também os 2 mais fortes no jogo aéreo, estão ambos preocupados com o raio de ação de André Silva. O que isso permite? Permite que Soares se solte da marcação de um central e que fique apenas com João Palhinha por perto. Golo. 


No lance do 2x0, todos apreciámos o grande passe de Danilo e a arrancada de Soares. Mas o que acontece antes? Minuto 39, o Sporting tem todas as suas torres na grande área adversária. Matheus Pereira recebe a bola junto à linha e tem como missão colocar a bola na grande área - é bom recordar que as duas maiores oportunidades de golo do Sporting nasceram de dois cruzamentos e dois cabeceamentos de Coates. Mas Matheus não consegue cruzar. Porquê? André Silva foi lá fazer o corte.


O lance prossegue com lançamento para o Sporting, nova bola para Matheus Pereira e nova oportunidade para cruzar para a grande área. Mas Matheus não conseguiu cruzar. Porquê? André Silva estava lá novamente a ganhar o lance. O resto já se conhece: contra-ataque, depois de uma bola dividida a envolver Brahimi, e golo.


Agora Guimarães. O que se pode constatar depois do toque de Herrera na grande área? O V. Guimarães tem 4 jogadores. Toda a gente está concentrada em André Silva e na bola. O que isso permite? Que Soares fique completamente sozinho, nas costas da defesa, e possa depois emendar o toque de André Silva para o 1x0.


Agora observemos as movimentações de André Silva contra o Sporting. 


Pois é: passou quase todo o jogo à saída do meio-campo, a trabalhar defensivamente, longe da zona em que pudesse fazer a diferença, a grande área. Passa mais tempo junto aos flancos, a procurar dar apoio aos laterais para a tabela ou a receber a bola em lançamentos, em vez de estar na grande área à espera do cruzamento. Jogo seguinte:


Contra o V. Guimarães, já pôde estar mais vezes perto da grande área adversária (teve lá três ações, e de uma delas saiu o golo de Soares). Ainda assim, esteve novamente a maior parte do tempo recuado, mais perto do meio-campo, a procurar dar sempre linhas de apoio aos médios. 

E agora, se repararmos nas zonas em que André Silva conseguiu fazer golos esta época...


... pois é: todos os golos de André Silva foram obtidos dentro da grande área, nunca com remates de longe. Se André Silva anda sempre longe da grande área, como esperam exatamente que faça golos com maior regularidade? Vale com qualquer grande ponta-de-lança que o FC Porto tenha tido. Se tivessem metido Jardel ou Fernando Gomes a fazer o que André Silva está neste momento a fazer, não teriam marcado metade dos golos. 

Não é Soares quem está a ofuscar André Silva: é André Silva que está a contribuir para que Soares possa brilhar logo nos seus primeiros jogos ao serviço do FC Porto, jogando sempre em apoio à equipa, mais perto do meio-campo, e longe da zona onde pode de facto ser letal e conseguir mais golos. 

E se isto é uma «quebra», então é uma quebra bastante apreciável, pois André Silva conseguiu ter intervenção direta em todos os momentos que permitiram ao FC Porto vencer dois jogos importantíssimos. Venham mais contra o Tondela (duas notas: não pensem na Juventus antes do Tondela; e não pensem que o Tondela é a Juventus. Seguindo essas duas regras, a vitória acontecerá com naturalidade). 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Obrigado, Senegal e Tunísia

Começando por um curto agradecimento a Senegal e Tunísia, equipas que venceram a Argélia na CAN. Em boa hora nos mandaram Brahimi mais cedo para cá. É um agradecimento egoísta, mas sem Brahimi provavelmente o FC Porto teria saído da Amoreira com perspetivas menos animadoras no Campeonato.

Voltando a reconhecer: em termos de resultados, o FC Porto de Nuno Espírito Santo está acima das expetativas. 44 pontos em 19 jornadas, não sendo nada de extraordinário (o líder tinha mais pontos em qualquer uma das últimas sete épocas...), é uma marca assinalável face àquilo que foi a preparação da pré-época e que nos mantém com condições na luta pelo título, além do objetivo Champions ter sido cumprido. 

Mas os resultados, como se sabe, têm o poder de disfarçar limitações que, mais tarde ou mais cedo, se revelam. Não, o problema do FC Porto não foi ter entrado em campo com 4 médios e sem extremos. Percebeu-se a intenção de NES: projetar Maxi e Alex Telles para nunca perder a profundidade pelos flancos e recuar Danilo para assegurar sempre uma linha defensiva de pelo menos 3 elementos. Se funcionasse, isso resolveria o problema de se jogar com 4 médios e sem extremos.


O FC Porto ganhou em Gelsenkirchen sem extremos e com 4 médios. Isso não é o problema. O problema é a dinâmica e as unidades em campo. Alex Telles (um pouco melhor) e Maxi Pereira recebiam quase sempre a bola quando ainda tinham 30 metros pela frente, ou seja, o problema da profundidade mantinha-se, pois o FC Porto tinha o campo encurtado pelos flancos; no meio-campo, o FC Porto não tinha nenhum médio que faça habitualmente a diferença num lance individual ou perto da grande área; o Estoril queria o que o FC Porto fez: uma equipa que se fechasse a si própria e que nunca alargasse o jogo. 

Uma vez mais, foi uma bola parada a desbloquear tudo e a livrar-nos de um grande problema. Mas calma, que há copo meio-cheio: «Grande NES! Mudou o jogo com as suas substituições! Percebeu que o FC Porto precisava de meter extremos em campo para ganhar o jogo, então meteu e o FC Porto ganhou! Foi com o dedo do mister!». Não é brincadeira: há-de haver quem pense assim. Mas o problema é mesmo esse: é só se ter apercebido do que era preciso para ganhar o jogo já depois de ter dado 45 minutos de avanço ao adversário, quando isso já era algo para ter percebido antes de entrar em campo.




André Silva (+) - A namorada de André Silva começa a ter motivos para se queixar do FC Porto: o rapaz não deve ter vontade para nada quando chega a casa, tamanho o desgaste a que se expõe jogo após jogo. São já 17 golos na sua época de estreia numa equipa principal (tem intervenção direta em 40,5% dos golos do FC Porto na Liga), mas o que mais surpreende é as piscinas e toda a pancada que leva jogo após jogo.

André Silva não tem a maior capacidade de decisão no 1x1, mas é obrigado a isso: vai receber nos lançamentos, vai atrás, ganha no ar, mete o corpo perante os centrais e no meio de tudo isto ainda tem que encontrar frieza e frescura para ser o matador na grande área. Ganhou o penalty com grande ratice e assistiu Corona para o 2x0. Que mais querem? Um conselho: aproveitem e desfrutem agora, porque por este andar vai deixar saudades no fim da época.


As entradas de Brahimi e Corona (+) - É verdade que Brahimi esteve na CAN, e é verdade que Corona tem rendido muito mais quando sai do banco do que quando é titular. Não é por aí que se pode censurar a decisão de NES em que começassem no banco - se os extremos não estão nas melhores condições, difícil seria jogar com extremos. Mas a verdade é que este FC Porto está a depender de dois fatores: ou a bola parada, ou o talento individual dos jogadores. Porque coletivamente, na dinâmica tática e ofensiva da equipa, este FC Porto está a revelar muito pouco. 

Brahimi entrou e agitou de pronto o ataque do FC Porto. Com Brahimi em campo, há sempre uma via para atacar. Brahimi arrasta sempre 2 jogadores com ele, sabe guardar a bola perto da grande área e obriga a defesa adversária a recuar. Corona entrou muitíssimo bem: não só fez um excelente golo, em que mostrou o que muito lhe tem faltado (critério na decisão), como deu largura ao FC Porto e obrigou a defesa do Estoril a abrir. Mas é verdade que Corona não se pode queixar de falta de oportunidades, e com Otávio de regresso vai ter que se mostrar mais vezes a este nível. 

Este ano, o FC Porto aparenta ter um balneário fantástico, um grupo unido. E o que ainda dá esperanças na luta pelo título é isso: o grupo unido e o talento individual dos jogadores. Corona e Brahimi serão por isso essenciais na segunda volta.

Outros destaques (+) - Não fez três assistências, mas no jogo jogado Alex Telles esteve bem melhor do que na última partida: conseguiu, dentro dos possíveis, manter profundidade pelo flanco, forçou várias vezes a subida, fez os poucos bons cruzamentos da equipa e foi o jogador mais solicitado em toda a partida, o que mostra bem a necessidade do FC Porto procurar gente nos flancos, mesmo quando Alex Telles ainda estava à saída do meio-campo. 

Herrera foi o melhor dos médios em campo. Apesar de ter saído aos 65 minutos, foi quem mais acerto teve no passe (86,7%, bem acima de André André, com 74,3%, e Óliver, ontem muito mal, com irreconhecíveis 69,2%), fez o único passe de situação flagrante de golo, recuperou 13 vezes a posse de bola e ainda fez 5 cruzamentos (mais que toda a equipa junta, exceção a Alex Telles), num jogo em que teve dificuldades pela ausência de Maxi (não fez um único cruzamento) pelo corredor. Nota ainda para mais um bom jogo de Marcano e a entrada desinibida de Rui Pedro - fez um golo (estando ou não em fora de jogo, foi uma excelente finalização naquele momento), esteve perto de outro e ajudou a baralhar a defesa do Estoril.




Mais do mesmo (-) - Uma primeira parte à imagem das demais. O FC Porto chega ao intervalo sem um único remate à baliza do Estoril e com um notório défice de criatividade no meio-campo. O FC Porto pode jogar com 4 médios, mas não pode jogar com estes 4 médios. Faltará sempre criatividade e rasgo individual nesta equipa. André Silva e Diogo Jota, apesar de serem razoáveis no 1x1, não são os jogadores ideais para sair de cabines telefónicas e abrirem espaço com bola. Óliver baixa muitas vezes para pegar no jogo, André André atingiu há muito os seus limites no que pode oferecer ao FC Porto (no vídeo que se tornou viral, o sprint de Danilo não é a única coisa impressionante - a forma como André André é batido por todos em velocidade e quase desiste do lance não condiz com a sua descrição de jogador à Porto) e Herrera destacou-se mais nas missões defensivas do que no último terço.

É curioso. Nuno Espírito Santo decidiu, agora, experimentar jogar com 4 médios. Então o que fez o FC Porto no mercado de inverno? Mandou 2 médios embora (Sérgio Oliveira e Evandro) e não contratou nenhum. Onde fica o médio mais criativo? No banco (João Carlos). E o que melhor circula a bola? Na bancada, no meio dos Super Dragões (Rúben Neves). Não é preciso ser-se um génio tático para perceber que algo não bate certo nesta gestão de recursos. 

Nuno percebeu o seu erro e lançou Brahimi ainda na primeira parte. E aqui é que as coisas surpreendem ainda mais: saiu Jota, que de facto não estava bem, e Brahimi entra... para jogar em zona central! Brahimi colocou-se em zona central, e os seus primeiros 3 minutos em campo foram preocupantes, tamanho o número de vezes que olhava para o banco a tentar perceber as instruções do treinador. Nuno pretendia que a profundidade de Alex Telles permitisse que Brahimi se colocasse em zonas mais interiores, mas chegarmos ao final de janeiro, com este tipo de dinâmicas por definir, é muito preocupante.   

Os aliados do Estoril (-) - O que faz uma equipa inferior que quer segurar a vantagem ou o empate? Queima tempo. Um jogador atira-se para o chão, o ritmo de jogo baixa e os jogadores respiram mais tranquilamente. Mas ontem os jogadores do Estoril quase não precisaram de o fazer, pois tiveram a ajuda de meia dúzia de energúmenos que estavam misturados na zona dos adeptos do FC Porto, e que decidiram atirar material pirotécnico para a grande área do Estoril.

Não há palavras para descrever a burrice desses cidadãos - não vamos usar o termos adeptos -, que prejudicaram o FC Porto nesse momento. Ao lançarem o referido material, permitiram que o jogo fosse interrompido numa altura em que o FC Porto estava a apertar o adversário. Isso deu tempo ao Estoril e ia custando muito caro ao FC Porto.

O que acontece logo após o jogo ter sido reatado? O Estoril ataca e Marcano acaba por conseguir um corte salvador, evitando o que podia ter sido o 1x0. O FC Porto passou 10 minutos de menor fulgor, acusando a quebra de ritmo, e só voltou a criar perigo quando Brahimi desmarcou André Silva, que ganhou o penalty e fez o resto. Parabéns aos referidos cidadãos, que se revelaram muito úteis para o Estoril e quase prejudicaram diretamente o FC Porto.

Não estamos na Palestina: é bom que se acabe com esta palhaçada de petardos. É bom recordar que o FC Porto associou-se aos Super Dragões na comemoração do seu 30º aniversário. Nessa mesma semana, o FC Porto foi multado em 20,5 mil euros frente ao Braga. Porquê? Por causa dos muitos petardos que foram rebentado durante a partida. Em semana de aniversário, celebrado nas instalações do clube, tomem lá uma multinha de 20,5 mil euros. As claques não precisam de lições de clubismo, pois são elas que viajam com a equipa para todo o lado e não compram pipocas à entrada do estádio, mas o FC Porto também não precisa destas estranhas demonstrações explosivas de afeto, que só prejudicam o clube durante os momentos mais importantes: os 90 minutos em que estão em campo.

E por falar em 90 minutos: à partida, vai ser esta a duração do clássico contra o Sporting. Se der para evitar dar-lhes 45 minutos de avanço, a malta é capaz de agradecer. O próprio treinador o afirmou no final da partida: «Os jogos têm 90 minutos». Então porquê esta insistência de deitar tanto desse tempo fora?

domingo, 22 de janeiro de 2017

Uma vitória com muita cabeça


O FC Porto venceu o Rio Ave porque teve cabeça. Mas não é a expressão idiomática à qual a língua portuguesa está habituada: teve cabeça nas bolas paradas, mas não no futebol corrido, onde houve enormes dificuldades para fazer frente a um Rio Ave que quis assumir jogo no Dragão e, não raras vezes, se organizou melhor a meio-campo. Três livres de Alex Telles e quatro golos de cabeça foram a fórmula para conseguir três importantes pontos, com o FC Porto a aproveitar da melhor forma o terrível momento do Sporting antes do clássico. 

O resultados não espelham tudo o que se passa em campo, mas há a assinalar o mérito do FC Porto já ter mais pontos do que nas últimas três épocas. Não há a consistência, o fio de jogo e a clarividência desejadas, nem em quantidade nem em qualidade no plantel, mas quanto a resultados no campeonato o FC Porto está melhor. Atacar a segunda volta em condições de lutar pelo título é excelente, mas é necessário o reconhecimento do plantel, de Nuno Espírito Santo e SAD de que uma primeira volta igual à primeira não chegará para o título. 

Nem uma exibição como ontem, a não ser que possamos sempre contar com Alex Telles de bandeja e com muita, muita cabeça.




Danilo Pereira (+) - Sabemos que fez uma exibição monstruosa quando não precisamos de falar do golo para a destacar. Foi o melhor jogador do FC Porto na época passada e, decorrida meia volta desta época, revalida esse estatuto. Estamos a falar do jogador em campo com mais remates (a par de Jota), recuperações, interceções, desarmes, faltas sofridas e que ganhou 88% dos lances que disputou. Muitas vezes forçado a cair mais sobre o lado direito, encheu o meio-campo, empurrou a equipa e fez um sprint do mais extraordinário que o Dragão já viu desde que Lisandro López mordeu a língua, galgou meio campo e secou Cristian Rodríguez nos tempos em que Cebolla ainda vestia um bocado mal. Se se chamasse Cristiano Ronaldo e estivesse em Espanha, já andavam a fazer cálculos para descobrir a velocidade daquele sprint. Mas não, chama-se Danilo Pereira e representa tudo aquilo que queremos ver num jogador do FC Porto. Que continue assim, e por cá, por longos anos!

Alex Telles (+/-) - Como dizia Jaime Pacheco, uma exibição com uma faca de dois legumes. Fez três assistências, sempre da mesma forma, e não fosse os seus cruzamentos e o FC Porto podia ter terminado o jogo em apuros. Já se tornou o melhor assistente da equipa, com sete passes para golo, a par de Otávio. Mas voltou a ter a tarefa inglória de ter quase todo o corredor esquerdo para ele, muitas vezes sem ninguém por perto para combinar naquela zona, e isso fez com que acabasse por ter entregado a posse de bola ao adversário 24 vezes, quer em perdas de bola, quer em cruzamentos ou passes mal medidos. Nada que três assistências não tenham compensado, mas Alex Telles foi o espelho da exibição do FC Porto: fantástico nas bolas paradas, pouco mais em todo o resto. 


Iván Marcano (+) - Elogiar Marcano é também elogiar a excelente dupla que formou com Felipe, pois ninguém pode falar da qualidade de um central sem lembrar quem joga ao lado. Mas a forma serena e calma, sem deixar de ser determinada e agressiva, com que Marcano se apresenta sempre em campo é notável. Tem uma média de faltas de 0,7/jogo no campeonato, com o pormenor de ainda só ter visto um cartão, e mostra que não é preciso criar hashtags e bater com as mãos no peito para os adeptos não terem dúvidas do seu empenho em representação do FC Porto. Nunca o ouviram reclamar ou manifestar-se negativamente, nem quando muitos o criticavam e achavam que não tinha nível para o FC Porto. Não só tem como o eleva. 


Primeira parte (-) - A primeira parte não foi má: foi terrível. O Rio Ave jogou à FC Porto (na medida em que tentou assumir o jogo e foi mais organizado) e o FC Porto jogou como deveria jogar uma equipa menos forte que visita o Dragão. Menos posse de bola, mais passes falhados, um só pontapé de canto, apenas 10 entradas na grande área adversária e duas únicas situações de perigo (uma delas podia ter dado o 2x0, mas Jota finalizou mal). Foram 45 minutos constrangedores e não sabemos o quão poderiam ter sido prolongados se não tivesse havido tanta eficácia nas bolas paradas. Primeiras partes a este nível nestas circunstâncias, nesta fase da época, não são aceitáveis. 

Outra vez, a equipa coxa (-) - Brahimi está na CAN, Otávio ainda não recuperou totalmente, por isso não havia alternativa para o lado esquerdo. Nuno prefere Corona à direita e não será choque nenhum se Kelvin nunca chegar a ser uma verdadeira opção para NES. Por isso, já se previa que o FC Porto ia tentar jogar novamente de forma híbrida, com Óliver e Jota a variem no aparecimento pelo lado esquerdo. Mas essa fórmula, uma vez mais, não funcionou. O FC Porto perdeu muita profundidade pelo lado esquerdo, raramente foi à linha de fundo (daí ter havido poucos cruzamentos e cantos) e só tinha lado esquerdo quando Alex Telles conseguia subir. Jota só começou a render quando passou para o meio e, uma vez mais, as limitações do plantel não facilitaram a tarefa de Nuno Espírito Santo: ou desviava um jogador de posição ou tinha que reorganizar a equipa taticamente. Seja como for, ter que fazê-lo em pleno mês de janeiro, com o mercado aberto, só pode ser visto como negativo.

Um dia mau x 3 (-) - Parecendo que não, Layún só fez 2 jogos a titular desde outubro. E acusou claramente a paragem de 6 semanas por lesão. Desconcentrado, a cometer várias falhas, pode agradecer aos céus por não ter sido expulso e por NES o ter tirado de campo a tempo. Foi um dia mau de Layún, como todos os jogadores têm direito a ter. Sobretudo quem, como ele, é sempre mais vezes solução do que problema. O dia também não foi memorável para André Silva, que só se destacou sem bola: na forma como procurou sempre correr, abrir espaços e pressionar os defesas. Mas com bola mal se viu, não criou desequilíbrios e valeu-lhe apenas a intervenção na jogada do último jogo (bom trabalho de JCT). E porque não há duas sem três, aquela bola é, tem que ser, de Casillas. Um dia mau para três dos jogadores mais importantes. Que tenha sido isso mesmo: apenas um dia mau. E se voltarem a tê-lo, que venha num dia em que as bolas paradas sejam tão proveitosas.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O que faz falta

Terminou a primeira volta do campeonato. Se o jogo com o Benfica tivesse terminado aos 90'+1 minutos, ou se tivéssemos vencido em Paços de Ferreira, contra o Belenenses ou no Bonfim, o FC Porto estaria neste momento a depender de si próprio para ser campeão. São muitos ses, que não vale a pena lamentar agora. 

Mas numa época em que o FC Porto não ganhou praticamente metade dos jogos que disputou (46,7%), tem reforços que não rendem, problemas no ataque, limitações no plantel, más arbitragens, um treinador muitas vezes ainda à procura de acertar a fórmula para a equipa e uma tensão inegável entre grande parte da massa associativa e a direção do clube, chegar a esta fase a 4 pontos do Benfica não é, de todo, algo que possa desmoralizar a equipa. Basta um deslize do rival, devidamente aproveitado pelo FC Porto, e a possibilidade matemática de lutar pelo título regressa. 

Defensivamente o FC Porto tem sido competente (7 golos sofridos em 17 jornadas), mas o ataque é, sem dúvida, o grande problema desta equipa. E isto não diz respeito apenas aos avançados, mas a todos os jogadores que são envolvidos no momento de remate ou finalização. 

O FC Porto tem 31 golos marcados, mas o maior problema não é o número total: foram aqueles 0x0 contra Belenenses, V. Setúbal ou Paços de Ferreira. Bastava um remate certeiro em cada um destes 3 jogos para estarmos numa posição altamente favorável no campeonato. Os golos não apareceram, por isso, para a segunda volta, é importante perceber onde foram cometidos erros e como se pode melhorar. Atentos ao quadro abaixo.


O que mais salta à vista: ofensivamente, o FC Porto é muito mais perdulário do que Benfica ou Sporting, ao converter apenas 37,8% das ocasiões flagrantes de golo de que dispôs. Ao longo de 17 jornadas, o FC Porto falhou 26 destas ocasiões. Benfica e Sporting, juntos, falharam 25.

Há um nome incontornável nesta estatística, André Silva. É o jogador com mais remates, mais remates dentro da grande área e mais ocasiões flagrantes do Campeonato. E é também o jogador que mais ocasiões flagrantes falhou. É o responsável pela ineficácia do FC Porto? Claro que não. Não é o problema: o problema é ser a única solução.

André Silva tem 11 golos no campeonato, 2 de penalty. Tem mais golos do que todos os restantes atacantes do plantel juntos. Os homens que se seguem são Diogo Jota, com quatro golos (três no mesmo jogo), Brahimi, com três (está na CAN e passou muito tempo fora das opções), e Marcano, que é central, também com três. Só mais um jogador marcou por mais do que uma vez, Óliver. 

O líder, o Benfica, não tem nenhum jogador a marcar mais golos do que André Silva. O melhor marcador do Benfica, Mitroglou, precisa de mais tempo para marcar do que André Silva, por exemplo. Mas o rival tem mais gente a fazer golos, tem soluções mais variadas para o ataque. 

No FC Porto, André Silva carrega praticamente sozinho o peso dos golos, ele que tem 21 anos recentemente feitos e está a cumprir a sua primeira época completa na equipa principal. Surpresa não é que falhe alguns golos: é estar já a carregar todo este peso nas suas costas. E isso tem um problema adjacente: todos os jogadores que estavam no plantel na época passada estão a fazer menos golos

Corona tem apenas um golo. Há um ano já tinha oito. Brahimi tinha 4, agora tem menos um. Herrera tinha cinco, agora apenas um. Danilo levava três, esta época tem um. Layún, André André e Varela tinham marcado, este ano estão em branco. Só neste pequeno grupo de jogadores há um total de menos 18 golos marcados em relação à época passada. O futebol nunca será tão assim tão simples, mas bastava que um deles tivesse caído na baliza do Belenenses, do Paços de Ferreira ou do Setúbal para dependermos de nós próprios na luta pelo título.

Só um jogador marca mais do que há um ano: Marcano, que tem três golos, mais dois do que há um ano. O FC Porto ganhou novos marcadores no campeonato (Jota, Óliver, Alex Telles, Felipe, Rui Pedro e Depoitre), mas entre os jogadores que transitaram face à última época o rendimento tem decrescido. Dirão, e bem, que a função destes jogadores não é a mesma do ponta-de-lança (não se pode julgar um defesa ou um médio pelo número de golos), mas lá está: quando André Silva falha, não está a aparecer aquela alternativa que muitos avisaram que faria falta no início da época. Ou seria mais jogadores capazes de aparecer na grande área e marcar, ou seria o tal ponta-de-lança experiente que alguns acharam que seria Depoitre. 

Pecados de pré-época
E é de facto incontornável falar de Depoitre. Contra o Chaves, entrou na segunda parte, marcou e mostrou o seu primeiro momento de utilidade no FC Porto. Um jogador da sua envergadura física, quando colocado na grande área e apesar de todas as suas limitações, vai sempre ter uma oportunidade para meter a bola na baliza, chame-se Depoitre, Hassan ou Tiago Caeiro. Mas desde então, não voltou a jogar no Campeonato, e nas duas jornadas seguintes Nuno preferiu apostar em Rui Pedro: em Paços para tentar ganhar o jogo, contra o Moreirense para gerir o resultado. 

No início da época, quando Depoitre chegou, Nuno pretendia jogar em 4x3x3. Neste momento, joga de forma diferente, mais próximo de um 4x1x3x2. Os planos que podiam ser vistos para Depoitre num esquema de um ponta-de-lança são totalmente diferentes de uma estratégia com dois avançados. E é por isso que Nuno aposta incansavelmente em Jota e André Silva: pois não vê neste momento mais nenhum avançado no plantel que possa fazer aquelas duas posições.

O mercado está aberto. E é preciso o mesmo que no início da época: um avançado experiente, capaz de garantir golos, mas desta vez mais capaz de oferecer outro tipo de mobilidade ao ataque. Não é um acaso algum que os dois últimos reforços de inverno que tiveram grande impacto imediato no FC Porto se chamavam Lucho González e Ricardo Quaresma: ambos já eram não só muitos experientes como conheciam o clube, estavam habituados a um futebol de equipa grande, autoritário, à pressão dos resultados e dispensavam qualquer período de adaptação.

Janeiro não é momento para disparates como aquelas que foram as contratações de Suk e Marega, jogadores que não eram melhores do que quem já cá estava e que rapidamente passaram ao atestado de dispensa (por norma um empréstimo para a Turquia ou uma equipa do nosso campeonato). Não é momento para trazermos um avançado para lhe permitir subir um degrau na carreira: é o momento para trazer um avançado que faça o FC Porto subir um degrau. Ter a capacidade de estar lá para resolver no dia em que André Silva - que deve continuar a ser o nosso matador de eleição, com todo o mérito - não acertar. Era preciso no início da época e é preciso agora.

Guimarães não é o FC Porto
As contas de merceeiro são muito fáceis de fazer. Mas o FC Porto investiu mais de 12M€ em dois jogadores - Boly e Depoitre - que pouco utiliza e que não serão nunca opções prioritárias para Nuno Espírito Santo (é essencial dar-lhe um avançado neste defeso, sobretudo após a mudança de esquema tático; para se segurar um treinador é preciso arranjar matéria prima para as suas ideias, acredite-se ou não que seja a melhor opção para o lugar). 

O que se faria com 12 milhões de euros? Por menos o FC Porto comprou Jackson Martínez. Ou Lisandro. Ou Falcao. Ou outros jogadores que, não sendo pontas-de-lanças, garantiam golos, como Hulk, James ou até Lucho. Jogadores que não só tinham uma qualidade excecional como até permitiam à SAD fazer parcerias para partilhas de passe, tão apreciadas. Maregas? Não serão nunca solução. Como se diferencia os Maregas dos Falcoes, é essa a questão, pois erros de casting há em todo o lado. Mas é, ou devia ser, por isso que os sócios reelegeram esta direção, por isso é que há 28 mil adeptos num treino, por isso é que temos um departamento de scouting: para apresentarem serviço, trabalho de qualidade. Hoje, não memórias do trabalho passado. 

Nenhum adepto poderá aceitar que se invistam (ou que se percam) mais de 12 milhões em Depoitre e Boly, que não jogam, e que neste momento não haja uma alternativa sólida para o ataque. É essencial trazer um avançado neste defeso. Se há dinheiro para um central suplente, tem que haver para um avançado titular. E a SAD não se pode dar ao luxo de cometer muitos mais erros de casting quando o tema é a posição 9. 

Entre Aboubakar, Depoitre, Adrián, Walter, Marega, Ghilas e Suk (a estratégia de contratar avançados do nosso campeonato tem falhado redondamente - todos gostam de se lembrar de Derlei, mas é bom lembrar que já lá vão mais de 13 anos), só nestes 7 nomes, o FC Porto tem metidos quase 40 milhões de euros. O problema não é só o imenso prejuízo que as contratações estão/vão dar: é que qualquer um destes jogadores foi contratado com a missão de fazer golos pelo FC Porto, e nenhum deles o está a fazer (Aboubakar teria sido uma boa solução para se manter no plantel, mas o clube assim não o entendeu - e ainda não trouxe ninguém melhor do que ele). 

A SAD tem a responsabilidade de encontrar uma solução para o ataque; todos os jogadores do plantel têm que procurar melhorar as suas marcas pessoais e aparecerem mais vezes na lista de marcadores; e NES tem que tentar tirar o máximo proveito de todas as unidades que estão à sua disposição. Se estes pilares falharem, não será em 2017 que o FC Porto vai voltar a celebrar um título. Até Soares, Mário Soares, um dia disse: «Não se fazem omeletes sem ovos». 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Outro paralelismo


Tal como no post anterior, vamos começar com um paralelismo. Em Paços de Ferreira, no empate 0x0, o FC Porto rematou 23 vezes, 7 à baliza. Contra o Moreirense, rematou 22, 7 à baliza. Em Paços de Ferreira criou 14 ocasiões de perigo (5 na primeira parte). Contra o Moreirense, 16 (7 na primeira parte). Em Paços de Ferreira, o FC Porto entrou na grande área 59 vezes e ganhou 14 cantos. Contra o Moreirense, entrou 62 vezes e ganhou 11 pontapés de canto. 

Que quer isto dizer? No que diz respeito ao volume ofensivo, o FC Porto produziu praticamente o mesmo. A mesma equipa, a mesma produção, com a diferença do FC Porto ter jogado contra 10 na segunda parte (algo que acabou por não surtir efeito no resultado). Ainda assim, os mesmos adeptos que ficaram minimamente satisfeitos com a vitória frente ao Moreirense são os mesmos que ficaram insatisfeitos com o empate em Paços de Ferreira.

A diferença? A eficácia. É isto que tem diferenciado o FC Porto que faz os adeptos acreditar do FC Porto que não parece ter estofo para o título. A equipa joga sempre dentro da mesma linha, o que faz a diferença é a bola que bate no poste, a que sofre um ressalto e entra, a que o guarda-redes deixa escapar ou não.

A equipa é a mesma, o rendimento é o mesmo. Suficiente? Não, ainda não. Mas este não é um FC Porto de duas caras. Tem apenas uma. E essa cara só sorrirá no final da época se tiver eficácia a acompanhá-la. 




Héctor Herrera (+) - Um case study. Herrera foi o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a jornada (6). Fez 6 desarmes e 14 recuperações de bola, tendo só sido ultrapassado neste aspeto por Danilo na reta final do jogo. Do meio-campo para a frente, foi o mais eficaz no passe, com 86%. Preencheu toda a meia direita, foi à linha, fartou-se de apoiar Maxi Pereira quer no ataque quer na defesa, também ajudou no miolo e durante grande parte da partida foi o único jogador a preencher o buraco de 30 metros entre a linha média e os avançados do FC Porto. Fez tudo isto, mas ainda há-de haver quem acha que jogou mal. É obra.

Iván Marcano (+) - Quando o Tribunal do Dragão considerava Marcano o melhor central do FC Porto, muitos entendiam isso como uma crítica ao nível dos centrais no clube, essencialmente desde 2014-15. Hoje, já ninguém pode duvidar de que afirmar isso não é mais do que enaltecer a qualidade de Marcano. Um central que marca um golo e faz uma assistência será sempre motivo de destaque, mas uma vez mais, Marcano assume-se como o patrão de uma defesa que sofre poucos golos e que nunca será a causa para um FC Porto sem títulos. A renovação já não é tabu, e não será nunca uma má opção.


Óliver Torres (+) - Não sabe jogar mal - e o FC Porto não sabe, pelo menos da mesma maneira, jogar sem ele. Mas há de facto algo que falta ao futebol de Óliver: intervenção direta em golos. Se é verdade que mostrou isso com Lopetegui, com NES Óliver não ter tido tanta influência direta perto da grande área. As coisas começam a mudar: em dezembro fez a primeira assistência, agora contribuiu com um belo golo, num remate que pode parecer fácil mas que não está ao alcance de todos - a capacidade de perceber exatamente onde e como tem que colocar a bola, em vez de chutar com ansiedade. Não é que seja essencial Óliver marcar mais golos - por exemplo, Sergio Ramos tem mais golos na carreira do que Iniesta, que não deixa de ser dos melhores médios de sempre -, mas será sempre importante para que se afirme como um dos melhores médios da Europa. E porque não cansa insistir: Óliver tem que jogar na zona central. Não na esquerda, não a partir da esquerda: na zona central. É ali que está a virtude de Óliver - e, com ele, do FC Porto.

Avançados (+) - Diogo Jota foi sempre o jogador capaz de agitar o ataque e de acrescentar velocidade às transições. Tem grande mérito na jogada do 2º golo e foi o complemento perfeito a André Silva e à ausência de uma referência clara à esquerda - palavra para Alex Telles, que teve que fazer praticamente o corredor todo durante parte do jogo. Desequilibrou e voltou às boas exibições, depois de um período em que perdeu um pouco de fulgor. André Silva fez um golo à ponta-de-lança, perdeu oportunidades para bisar, mas o que mais há a destacar na sua exibição foi a forma como caiu nos flancos, segurou a bola, esperou apoios e deixou de apostar naqueles 1x1 que eram quase sempre inconsequentes. Ah, já agora: de todos os jogadores que passaram pelo FC Porto e estão no ativo, só dois tiveram melhor média de golos do que ele: uns tais de Falcao e Jackson Martínez. Tem 21 anos e um ano de equipa principal. Só mesmo para lembrar.




A pontaria (-) - Muitas vezes discute-se a mera eficácia ou ineficácia, mas há algo a ter em conta: a quantidade de remates que saem entre os postes. De nada vale haver queixas da eficácia se o que o FC Porto fez foi fazer pontaria à bancada, em vez de dar muito trabalho ao guarda-redes. Neste caso, em 45 minutos, a jogar contra 10, o FC Porto fez apenas 4 disparos entre os postes - dois deles de André Silva na mesma jogada. É muito pouco para uma equipa que se afirma candidata ao título, que joga em casa e que joga contra 10. A determinada altura, a bancada parece que tinha íman nos remates. É preciso afinar a pontaria. Só dão golo os remates que levarem a direção da baliza. Sim, uma descoberta tão chocante quanto ver que a bola é redonda, mas que tem sido algo em que o FC Porto tem falhado (contra o Paços de Ferreira, também apenas 4 remates à baliza na segunda parte).

Coxos contra 10 (-) - Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com 10 tenta fazer? Encurtar o campo. Reduzir os espaço, tentar que o jogo não alargue para não ficar desequilibrada. Qual é a primeira coisa que uma equipa que joga com mais um tem que fazer? Abrir o jogo, ganhar profundidade e largura, porque assim é impossível uma equipa com 10 permanecer equilibrada na altura de variar o flanco.

Mas aquilo que vimos, durante grande parte da segunda parte, foi o FC Porto jogar coxo do lado esquerdo, sem ninguém que assegurasse largura constante naquele flanco. Quando Alex Telles não subia, o FC Porto perdia um espaço de 10 a 15 metros na largura do campo que podiam ter ajudado a criar muitas mais ocasiões de golo. Não foi coincidência alguma que a melhor ocasião de golo da segunda parte tenha aparecido quando Diogo Jota - dividido entre a faixa e o apoio a André Silva - conseguiu romper por aquele lado e ir à linha cruzar. O FC Porto nunca preencheu declaradamente aquela zona, e com isso ajudou a que o Moreirense, apesar de jogar com 10, não tenha sofrido um único golo de bola corrida, e o único que o FC Porto tenha conseguido marcar contra 10 tenha sido na sequência de um canto. Contra 10, exigia-se outro tipo de clarividência e produtividade. 

Ficam os 3 importantes pontos, numa jornada em que o FC Porto ganhou em 3 campos. Na época passada, o FC Porto na segunda volta fez menos 7 pontos do que na primeira. A ambição tem que passar por, desta vez, melhorar. Venham já mais 3 no sábado.