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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O regresso de Kelvin e as apostas reforçadas

Kelvin vai regressar ao FC Porto, garante o Jornal de Notícias. O seu contrato com o São Paulo vai terminar, por isso o passo lógico é regressar à base, restando saber se é para reintegrar os quadros do clube ou continuar de empréstimo em empréstimo. Segundo o JN, vai ser para regressar ao plantel.

E aqui começam as novidades: «A decisão foi tomada pelo presidente Pinto da Costa e pelo novo diretor-geral do clube, Luís Gonçalves». Então, a decisão é tomada por duas pessoas e nenhuma delas é o treinador? A reintegração ou não de Kelvin deve passar pelas opções de Nuno Espírito Santo. Brahimi em janeiro irá para a CAN e faz todo o sentido tentar, antes de tudo, aproveitar as soluções da casa, mas integrar Kelvin sem que faça parte dos planos de Nuno Espírito Santo seria repetir um erro de 2013.

Em 2013, Paulo Fonseca não contava com Kelvin. Mas Kelvin teve que ficar no plantel - por um lado porque seria mal visto pelos adeptos que o herói do título saísse (seria algo atirado ao treinador ao primeiro mau resultado), por outro porque havia o espaço K para inaugurar, e era necessária a presença de Kelvin (não faria sentido inaugurar um espaço em homenagem a um jogador emprestado a outro clube). 

Contrato até 2018
Os últimos três anos da carreira de Kelvin foram tempo deitado fora, inclusive os dois empréstimos ao Brasil, onde Kelvin não teve treinadores que o ajudassem a conseguir as noções básicas para um extremo no futebol europeu, sobretudo no processo defensivo, na objetividade e no jogo sem bola. No Palmeiras, passou praticamente um ano a aquecer o banco.  No São Paulo está a ter tempo de jogo, mas em 31 jogos fez apenas 2 golos e 2 assistências, além de que já teve 3 treinadores diferentes no último ano. Para um jogador com o potencial que Kelvin tem, mas que pouquíssimo evoluiu desde que se vinculou ao FC Porto, este não é um meio favorável para ele. Situação há muito prevista.

Se Nuno Espírito Santo estiver disposto a dar uma oportunidade a Kelvin, muito bem. Mas possivelmente terá que ser a última. O contrato de Kelvin termina em 2018. Que não se faça a asneira que se fez com Quintero: renovar o contrato por 4 anos para depois se decidir que não vai fazer parte do plantel. Com Kelvin, se renovar, que seja para ficar no plantel; se não houver perspetivas de ficar no plantel, e após 3 anos em que o FC Porto pouco se preocupou em fazer evoluir o jogador, não restam grandes justificações para defender o ativo. 

Como curiosidade, uma retrospetiva. Em março de 2011, Kelvin já era oficialmente jogador do FC Porto, contratado ao Paraná, por 3 milhões de euros, por 90% do passe.

Por isso foi com grande curiosidade que foi visto o contrato que o FC Porto fez com Mohammed Afzal para a compra do jogador. Os serviços prestados pelo conhecido agente eram os tradicionais, que justificam os contratos de todos os clubes:


O FC Porto pagou 150 mil euros a Afzal e reservou-lhe 15% de uma futura transferência (o FC Porto obrigou-se a vender Kelvin por 10M€, ou a comprar a percentagem do empresário caso tivesse uma proposta desse valor pela quantia proporcional).  O mais curioso foi ver a data da assinatura do contrato entre o empresário e a SAD: 2 de julho de 2011.

Ou seja, o FC Porto fez um contrato com o empresário Afzal em julho pelo aconselhamento na contratação de um jogador que já estava comprado em março? Poderia estar em causa o facto de Kelvin só ter feito 18 anos a 1 de junho. Mas este contrato foi celebrado um mês depois, e o FC Porto especificava no documento que o clube «pretende celebrar um contrato» com Kelvin, numa altura em que já estava comprado e no mapa de ativos da SAD. Mas lá está. O FC Porto tinha acabado de ganhar a Liga Europa. Os adeptos estavam felizes, ninguém ou poucos se preocupavam com a situação financeira da SAD. Quando os maus resultados aparecerem, muitos acordam. A frase «nós só queremos o Porto campeão» define qual o fim que pretendemos, mas não pode justificar e desculpar todos os meios - sobretudo em campos paralelos.

É importante transmistir a imagem de que Luís Gonçalves já trabalha ativamente no clube (na SAD, tendo em conta que Antero Henrique comunicou a sua demissão no início de setembro, a mesma só terá efeito a partir do final do próximo mês, seguindo o que está previsto em todas as empresas cotadas em bolsa), mas há mais duas curiosidades escritas pelo JN.

Primeiro, a de que «será reforçada a aposta na matéria-prima do clube», dizendo que a equipa B terá um papel muito importante. Se a aposta será reforçada não sabemos, mas pior não vai ser de certeza, tendo em conta que nenhuns dos campeões da Segunda Liga foram promovidos à equipa A (André Silva e Chidozie já estavam a trabalhar com o plantel principal na época passada).

Outro destaque é o de que a equipa de juniores vai passar a centrar-se mais na contratação de jogadores portugueses. Ótimo. Mas repare-se neste pormenor do JN: «A exemplo do que continuará a acontecer com a equipa B, a prioridade dos responsáveis portistas é trabalhar a todo o vapor com matéria-prima do clube». Assim sendo, os estrangeiros que chegam à equipa B vão deixar de vir na sua maioria por empréstimo, com cláusulas de compra altas? Tome-se o exemplo de Ismael Díaz. Já podia e devia ter sido comprado, mas foi emprestado pelo segundo ano consecutivo ao FC Porto, com uma cláusula de compra altíssima. Ou seja, o FC Porto está a valorizar e a fazer evoluir um jogador (do Panamá!) que ainda nem está nos quadros do clube, pelo segundo ano consecutivo. Neste caso, não há apostas a reforçar, mas sim grandes mudanças para fazer. Esperemos que Luís Gonçalves contribua nesse sentido. 

Os discursos de inauguração de Pinto da Costa em casas do FC Porto eram, em tempos, um regalo de se ouvir. Que seja o caso em Marco de Canaveses, aproveitando obviamente para galvanizar os portistas (há um jogo importante já no sábado), mas sem sacudir culpas ou levantar areia. 

PS: Antero Henrique precisou de sair do FC Porto para se insurgir publicamente contra um artigo do jornal A Bola? Por que é que nunca o fez enquanto estava em funções na SAD? Certamente que teria sido muito mais útil ao FC Porto que Antero Henrique tivesse quebrado o silêncio enquanto estava na SAD, não depois de sair. Agora já não é um assunto que diga respeito ao FC Porto, pelo que pode fazer a título pessoal o que bem entender. Em defesa do FC Porto, que fale agora o presidente (ou outro membro do Conselho de Administração). De preferência não apenas depois de vitórias. 

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Colheita de 2013

«Como clube trabalhamos com um plano de 15 anos, mas com os jogadores marcamos um ciclo de três anos.» Foi desta forma que Antero Henrique descreveu o modus operandi do FC Porto, numa entrevista à Marca em 2013, naquela que foi a sua penúltima entrevista como dirigente do FC Porto - a última foi esta, em 2013, na altura como promoção ao Museu do FC Porto. Depois, acabaram os títulos, acabaram as entrevistas de Antero Henrique, na eterna relação causa-efeito ou efeito-causa.

Nunca se percebeu muito bem a questão do plano de 15 anos, pois os dirigentes são eleitos para mandatos de 3 a 4 anos, mas os ciclos de três anos para os jogadores eram compreendidos, no plano do recrutamento-desenvolvimento-rendimento. E com isso vemos, com curiosidade, como ficou a colheita de 2013, precisamente o último ano em que o FC Porto conseguiu o título.

As chegadas para 2013-14
Foram mais de 35M€ investidos em Reyes, Tiago Rodrigues, Ricardo, Josué, Carlos Eduardo, Licá, Herrera, Ghilas, Quintero e Bolat. Nenhum destes jogadores saiu para cumprir o tal ciclo de valorização a três anos. E o único jogador que conseguiu ter uma sequência de rendimento e influência na equipa titular foi Héctor Herrera, que até é um mal-amado para muitos adeptos do FC Porto. Se assim é, isso diz muito sobre o sucesso da colheita de 2013. E foi este o ano em que tudo começou a falhar - Vítor Pereira conseguiu adiar os problemas durante dois anos. 

Mas lá está, a culpa era de Paulo Fonseca, não era? Quando um treinador não é capaz de ter um reforço que cause um impacto considerável na equipa A, é difícil pedir o quer que seja. Ter chegado a janeiro na liderança do campeonato já foi bem mais significativo do que se possa pensar. Na altura, era sem dúvida fácil criticar e questionar porque é que Quintero ou Ghilas não jogavam mais. O tempo, como costuma ser habitual, dá razão aos treinadores do FC Porto (Nuno Espírito Santo, esperemos, já merecerá outra sensibilidade por parte de crítica e adeptos). E Quintero é o caso mais flagrante. 

A questão já tinha sido aqui debatida. Paulo Fonseca tentou puxar por Quintero, mas Quintero não quis saber. Lopetegui tentou puxar por Quintero, mas Quintero não quis saber. E Nuno Espírito Santo entendeu, ainda antes do início da época, que não valia a pena tentar puxar por Quintero.

O talento está lá, o resto não. O mercado fechou e Quintero nem sequer encontrou um clube europeu onde jogar. Todos vimos, a espaços desde 2013, talento naquele pé esquerdo. Não deve ter havido muitos portistas a torcer o nariz à sua contratação em 2013, que até foi das mais celebradas no defeso. Mas a verdade é que havia uma grande razão para nenhum clube italiano o ter ido buscar ao Pescara, e para o facto de o FC Porto não ter tido grande concorrência na hora de o contratar.

Resultado de imagem para quintero
Contrato até 2021
Em agosto de 2013, Pinto da Costa disse isto: «Já o acompanhávamos na Colômbia, desde muito jovem. Na época passada foi observado no Pescara e sabíamos como era o seu modo de vida e a sua forma de estar dentro e fora do futebol. Sabíamos tudo sobre o Quintero». Um tiro completamente ao lado, pois ou Quintero mudou por completo desde que aterrou no Porto, ou é precisamente o «seu modo de vida e a sua forma de estar dentro e fora do futebol» que o impedem de ser um grande futebolista.

Não há nada a prender o FC Porto. Quintero já foi pago e a SAD tem 100% do passe. Mas não há justificação alguma para Quintero ter renovado por mais 4 anos em Janeiro, até 2021, para depois nem sequer entrar nas contas para 2016-17. Quem decidiu que Quintero ia renovar se o FC Porto não ia contar com ele para a próxima época? Em 2013, o presidente disse que o FC Porto sabia tudo sobre Quintero. Não sabia. Houve um erro de casting, acontece, todos os clubes os cometem. Mas em 2016 já tinha obrigação de saber. 

A não ser que o FC Porto consiga as tais royalties com todos os CDs de reggaeton que Quintero lançar até 2021 - imaginem o single Quintero ft. Dani Stone «Joder el Oporto (A culpa no es nuestra)» -, é um caso perdido. O mínimo seria ter arranjado um clube para suportar o empréstimo por um ano, mas nem isso. Aparentemente, para o próprio Ricardo Calleri, foi bem mais fácil tratar da renovação de contrato do que arranjar um clube para o jogador. É para isto que se pagam centenas de milhares a empresários?

Contrato até 2018
Além de Quintero, há a alarmante situação de Kayembé, o tal que tinha que dar craque. Não deu, confirmando o erro que foi comprar Kayembé nos moldes em causa. Um jogador que tinha acabado o contrato de formação com o Standard Liège acaba por custar 2,6 milhões de euros. Não foi exceção, mas regra, envolvendo novamente a Danubio, empresa ligada a Luciano D'Onofrio que tem feito vários negócios questionáveis com o FC Porto. Ainda se tentou arranjar um lugar para Kayembé como lateral da equipa B (com isso encostando Rafa!), passou por Arouca e Rio Ave, mas não ter clube para Kayembé nesta fase chama à responsabilidade quem avançou para a sua compra em 2014. 

No R&C do primeiro semestre, o FC Porto ainda devia 957 mil euros a esta empresa, não sendo claro em relação a que jogador, mas significa que ainda há investimentos que estão a ser pagos e que não estão a ser rentabilizados. Proteger e rentabilizar os ativos da SAD é o mínimo que se exige a qualquer administração. Os dispensados para o FC Porto são, por norma, jogadores muito interessantes para outros clubes (até Marega já marca em Guimarães). Então, como se justifica a ausência de colocação para Quintero ou Kayembé, dois jogadores que custaram mais de 12 milhões?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Duas saídas da administração da SAD? (Atualização)

(Post atualizado no final, com informação de última hora do FC Porto).

Luís Gonçalves é o substituto de Antero Henrique. Mas é o substituto de exatamente o quê?

É de recordar que a 10 de fevereiro, na composição do Conselho de Administração para o quadriénio 2016-2020, era esta a equipa que foi comunicada à CMVM e que seria proposta em Assembleia-Geral: Pinto da Costa, Adelino Caldeira, Reinaldo Teles e Fernando Gomes (além do não-executivo Rui Vieira de Sá).

Vinte dias depois, sem que nada o fizesse antever, Antero Henrique surge nomeado como administrador da SAD. A 7 de abril, Pinto da Costa explicou quais seriam as funções de Antero Henrique: «O futebol de formação será da sua responsabilidade».

Mais detalhadamente, o presidente anunciou uma remodelação na estrutura do FC Porto. «Dividi o clube em seis setores: o financeiro, do qual será responsável o dr. Fernando Gomes; o jurídico, que estará a cargo do dr. Adelino Caldeira; o futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique; o Património será da competência do eng.º Eduardo Valente; as casas, filais e delegações serão da competência do sr. Alípio Jorge. E introduzi um novo setor, que é o do planeamento dos novos projetos e do qual será responsável o professor Emídio Gomes, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte».

Assim sendo: Fernando Gomes, departamento financeiro; Adelino Caldeira, departamento jurídico; Antero Henrique, futebol de formação. E futebol principal? Só sobraria o administrador da SAD Reinaldo Teles e o próprio Pinto da Costa. No entanto, aquilo que o FC Porto anuncia hoje é que Luís Gonçalves substituiu Antero Henrique nas funções de «diretor-geral».

Antero Henrique era diretor para o futebol de formação, diretor-geral ou partilhava funções com Reinaldo Teles? Isso mesmo foi admitido pelo presidente a 19 de abril. «Se (Antero Henrique) propuser algo que entendermos que não está bem, não se faz. Dá-lhe até mais coesão perante o grupo que ele dirige, no futebol, visto que ele e o Reinaldo Teles é que têm os contactos.» Se Antero Henrique e Reinaldo Teles tinham os contactos, é a eles que devem atribuídas responsabilidades pelas ocorrências da pré-época? São estas coisas que Pinto da Costa deveria esclarecer.

Além disso, a 26 de maio, quando o FC Porto emitiu um comunicado a negar qualquer influência de Alexandre Pinto da Costa na SAD e a assegurar a união total do Conselho de Administração, Antero Henrique e Reinaldo Teles assinaram o documento na qualidade de administradores. Tal como aquando do envio do R&C do 3º trimestre à CMVM. 

Mas hoje, 2 de setembro, se formos ao site oficial do FC Porto...


Vemos que Antero Henrique e Reinaldo Teles não figuram no Conselho de Administração, enquanto Luís Gonçalves, o substituto de Antero Henrique, também não. Então, não entrando Luís Gonçalves no mapa de administradores da SAD, quem fica a desempenhar as funções que desempenhava Antero Henrique? Ninguém? Então o que estava Antero Henrique a desempenhar de tão extraordinário para não ter, no imediato, um substituto?

E se Antero Henrique e Reinaldo Teles tinham «os contactos», por que é que Reinaldo Teles já não está na lista do Conselho de Administração? E agora, como fica o futebol de formação? Sendo Luís Gonçalves um assumido homem de scouting, e não de contactos e empresários, a quem serão doravante imputadas responsabilidades pela abordagem do FC Porto no mercado de transferências? E se já havia notícias que apontavam Antero Henrique à saída em maio (um mês depois das eleições!), como é que se inicia uma época assim? E que garantias de união e coesão a SAD do FC Porto pode dar se, logo no arranque da primeira época do novo mandato, já cai um dos administradores? Ou caíram já dois, visto que Reinaldo Teles não está na lista? O que acontece ao projeto que foi apresentado em Abril e que visava reerguer o FC Porto? 

Há mil e uma questões que podíamos colocar. Mas não é tempo de os portistas colocarem questões. É sim tempo de Pinto da Costa dar respostas.

Atualização: depois d'O Tribunal do Dragão ter feito este post, o FC Porto acrescentou, no seu site oficial, o nome de Reinaldo Teles ao Conselho de Administração da SAD.

Cronologia

10.02.2016 - A SAD envia à CMVM a proposta de composição do Conselho de Administração para o quadriénio 2016/2020, mantendo-se inalterável. Antero Henrique não está na lista. 

03.03.2016 - Antero Henrique é nomeado administrador da SAD, depois de não ter integrado o quadro inicialmente proposto que foi comunicado oficialmente à CMVM. No espaço de 20 dias, Antero saltou para um cargo que não estava previsto para ele.

07.04.2016 - Pinto da Costa fala dos seus planos para o novo mandato: «O futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique».

19.04.2016 - Pinto da Costa, após a reeleição da SAD, explica por que Antero Henrique foi oficialmente promovido a administrador. «A entrada do Antero Henrique aconteceu para dar mais coesão à administração, para sentir mais cobertura e apoio de toda a administração. Se propuser algo que entendermos que não está bem, não se faz. Dá-lhe até mais coesão perante o grupo que ele dirige, no futebol, visto que ele e o Reinaldo Teles é que têm os contactos.»

25.05.2016 - Surgem notícias que dão conta de uma (nova) ameaça de Antero Henrique de deixar a administração da SAD, ainda antes da contratação de Nuno Espírito Santo e do ataque à redefinição do plantel da nova época.

25.06.2016 - É publicado no site do FC Porto um comunicado do Conselho de Administração, negando as «alegadas divisões na administração da FC Porto SAD». «Como sempre aconteceu, no seio da administração convivem ideias diferentes, conceções diferentes, caminhos diferentes e da discussão sempre saiu um percurso comum, que todos trilham em defesa dos interesses do FC Porto. É assim desde 1997, quando esta sociedade foi constituída. Desta vez não é diferente e do salutar confronto de ideias sairá uma política que por todos será executada sem quaisquer dúvidas ou constrangimentos.»

18.08.2016 - Novas notícias a apontarem Antero Henrique à saída do FC Porto. 

23.08.2016 - Pinto da Costa, ainda em Roma, reage a essas mesmas notícias. «Eu não reajo a notícias. Uns disseram que sim, outros não. Eu não sei se saio amanhã, nenhum de nós tem a vida nas mãos. É assunto que não é assunto. Foi uma encomenda que foi dada à TVI24. (...) Esse 24 transferências já nos transferiu tantos jogadores que cai no ridículo.»

01.09.2016 - O FC Porto informa que Antero Henrique abandona todas as funções que ocupava no clube e na SAD.

01.09.2016 - Os associados e adeptos do FC Porto aguardam explicações de Pinto da Costa e Antero Henrique sobre o sucedido. E se quiserem continuar a fingir que não há conflitos de longa data na SAD, força. Não tomem é todos os portistas por devoradores de gelados com a testa. Um líder não desmente ou ignora os conflitos. Um líder assume-os, enfrenta-os e resolve-os. E nas palavras de Pinto da Costa, «só os ratos é que fogem». Portanto, que se façam ouvir Antero Henrique e Pinto da Costa. Os motivos para a saída de um e o porquê de um Conselho de Administração (re)eleito em Abril, para um mandato de 4 anos, já estar a ser remodelado. Se os visados não se pronunciarem sobre o sucedido, não esperem que seja um blogue a fazê-lo. 

Ou então continuem a fingir que está tudo bem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rafa e o resto

A opinião d'O Tribunal do Dragão foi dada a conhecer ainda antes do futuro de Rafa ficar definido, e mantém-se - as avaliações, depois de conhecido o futuro de um jogador, podem ser sempre influenciáveis. Portanto, foi feita antecipadamente. E de todas as más notícias que o FC Porto possa ter nesta pré-época, não contratar Rafa, num potencial negócio de 20 milhões de euros, é provavelmente a última delas.

Problema seria não haver alternativa
O problema não é a não chegada de Rafa. É ter esperado, esperado, esperado por Rafa e, uma vez mais, o FC Porto ficar a arder. Aconteceu com Bernard, aconteceu com Lucas Lima, aconteceu com Rafa. António Salvador estava exigente? Partia-se para o plano B. Rafa não estava convencido em assinar pelo FC Porto? Partia-se para o plano B. Custava sequer metade de 20M€? Nem valia a pena sentarem-se à mesa, partia-se para o plano B.

A questão é: há plano B? Faz esta semana um mês que Nuno Espírito Santo, após a derrota contra o PSV, disse que todos os reforços estavam «identificados». Um mês depois, só chegou Depoitre, e nem sequer chegou a tempo do playoff, o objetivo para acelerar a sua contratação (se já estava identificado e demorou tanto tempo a ser contratado, pior ainda).

Não há Rafa, há mais jogadores. Certamente mais baratos. Mas torna-se muito difícil explicar aos adeptos que o FC Porto não está numa posição favorável financeiramente quando se contrata Felipe, Alex Telles e Depoitre por cerca de 20 milhões de euros. Voltamos à questão: o FC Porto queria um jogador com as caraterísticas do Rafa... ou queria o Rafa? Por outras palavras, às vezes pagar 5M€ pelo Manel sai «mais barato» (expressão traiçoeira) do que pagar 3M€ pelo Zé. Como assim? Tudo pode depender da modalidade de pagamento, do custo imediato, da envolvência de determinado empresário. Coisas que não combinam com total autonomia.

Torna-se impossível afirmar que não há dinheiro para cometer loucuras quando Layún, Depoitre, Felipe e Alex Telles foram todos comprados tendo como preço base os 6M€. Agora, se o FC Porto tinha dinheiro para o Rafa, nenhum adepto vai aceitar que não haja dinheiro para uma alternativa. 

Portanto, a notícia de que Rafa vai para o Benfica não é incomodativa. Rafa não valia, à data de hoje, o que custava. Importa não esquecer que a SAD tinha que fazer mais-valias superiores a 70M€ em 2015-16, e não fez. Importa não esquecer que a SAD previa entrar na Champions diretamente em 2016-17, e não entrou. Importa não esquecer que Indi, Aboubakar e Brahimi foram afastados do plantel com vista a vendas, e ainda não foram transferidos. Importa não esquecer que a SAD do FC Porto não é auto-sustentável, por isso continuarão a ser necessárias vendas em 2016-17. Importa não esquecer que vai transitar um prejuízo que pode muito bem ultrapassar os 40M€ para 2016-17. 

Importa não esquecer que vence, em setembro, um empréstimo de 17M€ que tem como garantias Herrera ou Brahimi. Importa não esquecer que o FC Porto terá, ao longo do próximo ano, 79M€ de dívida à banca para pagar/renegociar. Importa não esquecer que o FC Porto tinha previstas despesas de 36M€ com jogadores que já estavam no clube para 2015-16. Importa não esquecer que o FC Porto não acaba hoje, e que não podemos hipotecar o futuro por um presente que nem sequer é garantido

Portanto, não fico preocupado por Rafa não ter vindo para o FC Porto. Fico, isso sim, preocupado por a 19 de agosto ainda não haver «o» extremo que o mercado deveria trazer. Se o FC Porto não passar em Roma, será muito por culpa da escassez de opções disponíveis para estes jogos. Repare-se que a expressão não é escassez de contratações, mas de opções. Ter Brahimi, Aboubakar ou até Depoitre ou Gonçalo Paciência disponíveis para esse jogo já daria qualquer coisa mais.

Mas para alguns portistas, isto já não foi apenas falhar a contratação de Rafa. Isto foi perder uma batalha com o Benfica. Embora entendendo o lamento, mas afinal o que queríamos? Rafa era encarado como um reforço para o plantel ou como um braço de ferro para mostrar que o Benfica ainda não vence as batalhas todas? Sinceramente, não faz sentido encarar isto como nenhum tipo de derrota perante o Benfica. O FC Porto queria Rafa antes do Benfica. Queria-o para reforçar o plantel, não era para dizer que desviou um jogador do Benfica. Logo, ter ido para o Benfica é igual a ter ido para o Sporting, para o Zenit ou para o Agrário, onde Vítor do Poste estaria sempre atento ao limite do fora-de-jogo. 

Mas sim, há um padrão que preocupa com naturalidade os adeptos. Todos se lembram de casos que vão desde Lisandro a Falcao, Alex Sandro a Mangala, Danilo a Álvaro Pereira. Jogadores que o Benfica queria e que o FC Porto desviou - pagando mais, logicamente. Sobretudo de 2013 para cá, o FC Porto não mais desviou jogadores do Benfica (Maxi Pereira pode ser considerada a exceção). Começou a prestar mais atenção, coincidência ou não, aos alvos do Sporting (Danilo Pereira foi o único desvio realmente bem sucedido, ainda que nunca tenha estado efetivamente com um pé no Sporting). E desde 2013, o Benfica é tricampeão e o FC Porto nada vence.

Antero Henrique chegou a dizer que o FC Porto não roubava jogadores, mas sim que era «mais rápido» a agir. E era verdade. Cristian Rodríguez assinou em 5 minutos, Álvaro Pereira assinou em 4. E agora, o que é feito dessa rapidez do FC Porto? Quanto tempo terá demorado Rafa a assinar pelo Benfica? Onde está aquela sagacidade que até levava Pinto da Costa a dar gozo ao Benfica, agradecendo o trabalho dos olheiros do rival? Já agora. Se não há Rafa, onde estão as equipas sombra/virtuais do FC Porto, que permitiam identificar rapidamente uma solução no mercado? Onde está a rapidez do FC Porto na resposta às necessidades da equipa? Curiosamente, a última grande venda do FC Porto, Alex Sandro, foi dado como exemplo, numa entrevista de Antero de 2013, da eficácia das equipas sombra. 

Alguns adeptos reclamam que o FC Porto deveria ter-se pronunciado publicamente sobre o caso Rafa. Não concordo. Primeiro, porque admitir publicamente o interesse no jogador pode correr mal, como foi exemplo Raúl Jiménez em 2014. Depois, porque admitir o interesse no jogador iria criar (ainda mais) expetativas nos adeptos. O FC Porto deve sempre que possível tratar as transferências em sigilo e apresentar os jogadores quando já estão assegurados. Neste caso, não podia falar sobre Rafa, pois não sabia se ia conseguir o jogador (se havia tantos adeptos que viam em Rafa a encarnação de D. Sebastião, a desilusão podia ser maior); por outro, não podia desmenti-lo, porque estava de facto interessado. Neste caso, nada a apontar ao clube. Só esperemos que não tomem ninguém por ignorante e que agora finjam que nunca quiseram o jogador. Estamos em 2016. O FC Porto não tem que desmentir o Rafa, nem lamentar que ele não tenha vindo. Tem simplesmente que ir procurar uma alternativa igualmente boa. Ou melhor. 

O desfecho do costume
Mas agora falemos, uma vez mais, de um homem que definitivamente nunca poderá ser presidente do FC Porto: António Salvador. Porquê? Porque com ele o FC Porto nunca ganha nada. Nada, zero. Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto nunca sacou um bom jogador de Braga. Nem um! É que já nem o sentido de voto nos órgãos de decisão do futebol português é comum. 

Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto já lhes jogadores como Paulo Santos, Cândido Costa, Maciel, César Peixoto, Jorginho, Alan, Luís Aguiar, Renteria, Diogo Valente, Adriano, Ukra, Hélder Barbosa, Miguel Lopes, Beto, Emídio Rafael, Sami ou Josué. A maioria não tinha lugar no FC Porto, mas eram jogadores mais do que úteis para o SC Braga, já para não falar de antigos jogadores da formação do FC Porto, como André Pinto ou Ricardo Ferreira.

E durante estes 13 anos, o que foi buscar o FC Porto a Braga? Andrés Madrid, Kieszek e Orlando Sá. Que proveitoso tem sido tudo isto. Enquanto o FC Porto nunca consegue nada das relações com o SC Braga, Luís Filipe Vieira leva sempre a melhor junto de António Salvador. Enquanto presidente do SC Braga, certamente que faz bem o seu trabalho: vende os jogadores pelas melhores propostas e farta-se de sacar jogadores à pala no FC Porto, enquanto mantém relações privilegiadas com o Benfica e tem Jorge Mendes a ajudar a fazer a papinha. Voltar a emprestar jogadores ao SC Braga seria perto de inaceitável. Por outro lado, isso não implica que agora se vá buscar tudo o que mexe a Guimarães, ok?

Perder Rafa não é um problema. Aceitar um negócio de 20M€ por Rafa, isso sim, seria um problema. E não ter uma alternativa a Rafa, para ontem, seria o maior problema de todos. Contra o Estoril, a mesma receita do Rio Ave: é para vencer e moralizar, mas não para iludir. E se a SAD não reagir, as ilusões não chegam ao final do mês.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ilusão 611 e a mala da hipocrisia

O FC Porto não personalizou a resposta às críticas, mas sentiu-as. Assim se explica a reação após Rui Moreira ter criticado o projeto Visão 611, cinco anos após o mesmo ter sido enterrado, e ter visado Antero Henrique. 

Críticas do baú
Para começar, saúde-se o facto do FC Porto ter, cinco anos depois, apresentado uma espécie de balanço do Visão 611. O pequeno Thumber saiu defraudado na filosofia que deu a conhecer ao mundo, mas basicamente a SAD emitiu um pequeno comunicado a defender que o projeto foi um sucesso.

Rui Moreira, face ao cargo que ocupa na cidade, faz com que as suas críticas tenham um mediatismo superior. Mas há que enquadrá-las. Quantos dos problemas do FC Porto se podem relacionar com o falhanço do Visão 611? Faz sentido lamentar agora um projeto enterrado há 5 anos? Na essência, parece claro que o FC Porto falhou por completo nos pressupostos do projeto, que visavam aumentar a quantidade de jogadores da formação na equipa A; contrariamente, desde o encerramento do projeto os gastos com contratações dispararam, nasceu a moda dos contratos de scouting, os erros de casting acumularem-se e a eficácia de contratações tem deixado muito a desejar, além da crescente influência/dependência dos fundos nas movimentações do FC Porto no mercado.

O que mais surpreende é que, há 15 dias, Rui Moreira votou na reeleição de Pinto da Costa para a presidência do FC Porto, tendo deixado uma mensagem de confiança. Mas não sabemos se não riscou o nome de Antero Henrique do boletim. Se o fez, estas críticas já fariam mais sentido - até porque há uma grande facção de adeptos que dizem confiar em Pinto da Costa, mas não nos seus parceiros do Conselho de Administração. Algo que não faz muito sentido, diga-se: como é que podemos confiar em alguém se esse alguém vai confiar nas pessoas erradas?

De qualquer forma, bastou Rui Moreira falar no Visão 611 para meter o seu balanço em discussão. O FC Porto nunca fez um balanço a propósito do projeto, e este comunicado na SAD ignora aquilo que eram as bases do projeto.

Nas análises já aqui feitas ao Visão 611, foi destacada a eficiência de o clube ter facilitado a ponte clube-escola, a modernização do modus operandi (mesmo que em muitos casos isto sejam planos teóricos que não produzem efeitos na prática) e a aposta especializada nos treinos (não treinar apenas um plantel: treinar defesas, treinar médios, treinar avançados). Isto foram os pontos positivos do Visão 611. Mas naquilo que interessava, o projeto foi um falhanço completo.

A importância desconhecida
O FC Porto previa ter, a partir de 2011, 6 jogadores da formação na equipa A. Como o clube fez uma época memorável em 2010-11, ninguém se incomodou com a ausência de jogadores da formação. Mas não foi cumprida a premissa mínima de qualquer projeto de formação: meter miúdos na equipa A.

No comunicado, o FC Porto associa a conquista da Liga Europa ao sucesso do Visão 611. Um disparate. A não ser que os jogos que Ukra fez contra o Genk e o Rapid Viena (Castro jogou  21 minutos contra as duas equipas, depois foi emprestado em janeiro) tenham sido decisivos rumo a Dublin. Não parece de todo ter sido o caso. Mas na defesa ao Visão 611, há quem amplie o seu propósito a todo o mercado, e assim defenda que contratações como Sapunaru, Guarín ou James foram da responsabilidade do Visão 611. Uma tentativa de defender o seu sucesso.

O FC Porto não passou a apostar mais na formação desde o encerramento do 611. Reparem que na última época antes do início do projeto, o FC Porto utilizou Hélder Barbosa, Postiga, Bruno Alves, Ivanildo, Hugo Almeida e Ricardo Costa. 6 jogadores da formação, que era quanto o projeto visava incluir a partir de 2011. Já em 2011-12... Kadú jogou 8 minutos na Taça de Portugal. Só isto.

«O impacto do projeto Visão 611 pode ainda ser percetível nas dezenas de jogadores formados pelo FC Porto e que se encontram a disputar os campeonatos profissionais portugueses». Como disse? Mas o FC Porto criou este projeto de formação para meter jogadores na equipa A ou para andar a fornecer jogadores ao Rio Ave, ao Paços de Ferreira ou ao Vitória de Setúbal?

Em 2009, o FC Porto apresentou no Vitalis Park as duas equipas de sub-13 e sub-14 que iriam ser a bandeira para os próximos anos. Da equipa de sub-13 não sobra ninguém no clube. Na equipa de sub-14 contam-se pelos dedos os sobreviventes: Andorinha, Diogo Verdasca (se o Visão 611 tivesse sido um sucesso tão grande, se calhar tinha sido ele a jogar nestes últimos meses; aliás, o FC Porto sempre teve uma grande escola de centrais, mas nos últimos 10 anos não formou nenhum central para se afirmar na equipa A), Rui Moreira (ironicamente, um homónimo do presidente da CM Porto) e Rúben Macedo.

Entretanto, quando Rúben Neves apareceu na equipa A e Lopetegui deu alguns minutos a Gonçalo Paciência, tentou retirar-se o 611 da gaveta, ao recordar o Projeto de Jogador de Elite. Faltou só dizer que quando Pepijn Lijnders saiu para o Liverpool, o projeto morreu. É um facto que esta vertente de treino ajudou a desenvolver alguns dos nossos jogadores (Rafa, Podstawski, Rui Moreira, Graça, Leandro, Macedo, Sérgio Ribeiro, Bruno Costa, Rui Pedro, entre duas dezenas de jogadores). Falta saber se isso vai ter impacto na equipa A, que é o que interessa. Mas com a saída de Pepijn, viu-se que era mais um projeto de um homem do que um projeto de um clube. 

Revolução sem proveito
Além disso, é difícil identificar que jogadores formados do FC Porto durante o projeto Visão 611 estão a brilhar nas «principais ligas europeias». A sério, ajudem. Já para não falar que o FC Porto não fez nenhuma grande venda com jogadores da formação durante esse período. Tendo como referência as despesas inerentes a contratações/negociações de jogadores como Kayembé, Djim ou Abdoulaye, o dinheiro gerado com a venda de jogadores saídos da formação do FC Porto cobre sequer o dinheiro gasto em jogadores estrangeiros que nunca chegam a ser opção válida de equipa A?

Aquando da apresentação do projeto, Antero Henrique garantiu também a existência de uma «equipa sombra», que o FC Porto tinha como referência antes de cada ataque ao mercado. Neste momento, alguém acredita na existência, ou utilização, dessa «equipa sombra»? E quais são os custos da elaboração de uma equipa sombra? Implicam contratos de scouting?

Como grande curiosidade, este texto da «revolução chamada Visão 611», muito elogioso para com o FC Porto e publicado em 2009, é da autoria de Francisco J. Marques, agora mais conhecido entre os portistas pelos textos do Dragões Diário, e na altura explicava que o projeto ia muito além da formação, pois também estava implicado no modelo de compra-valorização-venda. Mas há a destacar este excerto: «Em 2006 houve uma mudança radical na forma de trabalhar e os resultados só devem começar a surgir na plenitude dentro de seis, sete anos». Se tomarmos como referência os sete anos, desde 2013 o FC Porto não voltou a ganhar títulos e desde então atravessa uma das maiores crises desportivas da sua história.

Concluindo, e pegando nas críticas de Rui Moreira: é tudo culpa do projeto Visão 611? Não, certamente não. Mas se o Visão 611 visava ser solução para alguma coisa, deixa muito a desejar. 

PS: As malas é que estão a dar. De todo este barulho que não leva a lado algum, Carlos Pereira, presidente do Marítimo, deixou uma afirmação muito sugestiva: «Isto pode virar-se contra o Benfica». Ele sabe porque é que afirmou isso. O Benfica também. E o Sporting também. O Benfica sabe porque é que tanto questionou o choro do Arnold. E sabe porque é que mandatou Pedro Guerra para falar das malas para o Vitória de Guimarães: porque não há vergonhosa, escrúpulos e reina a hipocrisia para os lados da Luz. E o Sporting também sabe porque é que pode estar tranquilo neste assunto: porque do outro lado não há moral para falar. 

E com isto, na óptica do FC Porto para a época 2015-16, os adeptos questionam: o que é possível fazer com vista a punir os eventuais incentivos oferecidos por Benfica e Sporting para perderem pontos contra os respetivos adversários?

Se estivéssemos a falar de uma competição sob tutela da FPF, haveria matérias para as duas equipas perderem pontos:


Mas o que acontece numa competição que é da responsabilidade da Liga?


Eis a nossa liga. No campeonato português, o máximo que pode acontecer a um clube que oferece ilícitos a clubes terceiros é pagar uma multazita. Não perdem pontos, não são suspensos, não são desqualificados. Nada. O máximo que acontece é pagarem uma multa. Quem tem dinheiro para meter por baixo da mesa para motivar os adversários, também tem dinheiro para pagar multas de 25 mil euros. Peaners. Aliás, reparem bem: Pedro Guerra disse que foram oferecidos 350 mil euros ao Vitória de Guimarães (o Sporting não ajudou o José Pina a descobrir quanto oferece o Benfica? Então, Bruno?). A multa máxima prevista nos regulamentos é de 25,5 mil euros. Ou seja, pagar a multa por oferecer incentivos é quase 14 vezes mais barato do que o próprio incentivo do Sporting. Sai mais barato do que pagar IVA. Eis o nosso futebol.

Por isso, isto é uma discussão de manifesta inutilidade, porque o próprio Regulamento Disciplinar da Liga não oferece consequências graves a quem recorrer ao jogo da mala. Irão Pedro Proença, presidente da Liga, José Fontelas Gomes, novo presidente do CA, e José Manuel Meirim, o novo presidente do CD, propor alterações a este nível? Esperem deitados, porque sentados causaria dores no cóccix. O futebol português não tem interesse em punir as equipas que oferecem e aceitem incentivos. Vá-se lá saber porquê. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Com vista a 2020

Presidente reeleito, entrevista pós-eleições dada, tempo de análise. A começar pela afluência às urnas, sem dúvida uma notícia que se saúda: o facto de o número de votantes quase ter dobrado, apesar de continuar a haver lista única. Quando o FC Porto passar a ser um clube minimamente modernizado e globalizado no processo eleitoral, abrindo espaço para votar online e nas casas do FC Porto espalhadas pelo país, o número de votantes vai certamente disparar - algo que deve ser uma realidade (no máximo) já para 2020.

Pinto da Costa pareceu estar sempre mais satisfeito com o aumento do número do votantes do que preocupado com a grande quantidade de votos nulos. Embora admitindo que possa ter havido quem votou em 2013 mas não votou em 2016, de umas eleições para as outras houve 1145 «novos» votantes. Ora e desses «novos» votantes, há mais portistas a votarem em Pinto da Costa do que contra: 494 fizeram votos nulos, mas 651 votaram a favor.

Ou seja, mais portistas às urnas significou mais votos para Pinto da Costa. Nessa perspetiva, é natural que o presidente esteja satisfeito e desvalorize os votos contra. Mas uma coisa é o número de votos, outra é a percentagem. E 21% de votos nulos, equivalente a 505 votantes, é um número muito elevado e que serve claramente de alerta.

Vejamos. Nos cinco atos eleitorais do séc. XXI que antecederam este último, Pinto da Costa foi sempre reeleito, com as seguintes percentagens:

2013: 99,13%; 1258 votos (11 nulos)
Um sócio a votar
2010: 98%; nº de votos não divulgado
2007: 98,6%; 3820 votos (51 nulos)
2004: 99,3%; 1068 votos (8 nulos)
2001: 98,8%; 1258 votos (12 nulos)

Embora em 2010 não tenha sido divulgado o número de votantes (fica a ressalva), entre 2001 e 2013 foram contabilizados 82 votos nulos. Ou seja, no simples ato eleitoral de 2016, os votos nulos aumentaram 6 vezes mais do que no espaço espaço de 12 anos. Não é possível minorizar a quantidade de votos nulos, de todo, pois foi francamente elevada quando avaliada por este prisma. E confirma sinais já dados antes, como uma AG que não teve espaço na sala para todos os sócios (mais de 300, quando anteriormente marcavam presença 20 a 40); e a própria lista de apoio à recandidatura de Pinto da Costa, desta vez, recolheu apenas 10 mil assinaturas, ao contrário das 20 mil do passado recente (neste caso não se pode tirar ilações definitivas, pois não se sabe se quantas pessoas a Comissão de Apoio à Recandidatura abordou para assinarem). 

Mas logo no anúncio dos resultados foi dito que a percentagem de votos nulos devia-se ao facto de muitos adeptos terem escrito mensagens de apoio a Pinto da Costa, e que por isso os seus votos foram inutilizados. De facto, houve movimentos de apelo ao voto nulo em alguns espaços da internet, e um grupo de associados fez questão de fazê-lo no próprio dia e imediações do Dragão - o «Acorda Porto». Dezenas de adeptos pelos mais diversos espaços ligados ao FC Porto na internet afirmam que fizeram votos nulos, e vários até tiraram fotos para as publicarem (não o deveriam fazer, pois o voto é secreto, mas o procedimento também pouco teve de secreto). 

O que se desconhecia, de todo, é que alguns adeptos tenham optado por votos nulos para apoiar Pinto da Costa. Não só são visionários como, esses sim, estão de parabéns: cumpriram na íntegra o artigo 3 do Regulamento Eleitoral, ao votarem com o maior secretismo. Não criaram sites, não tiraram fotos aos seus boletins, não fizeram cartazes; chegaram, escreveram «Força Porto» e «Força Presidente», inutilizaram os votos e está feito.

Essa foi a justificação da mesa da Assembleia Geral, e como não podemos ver os votos, ninguém a pode desmentir. Mas cá fica a reflexão: porque é que nenhum dos votantes se lembrou, entre 2001 e 2013, quando Pinto da Costa venceu sempre as eleições com mais de 98% dos votos, de escrever mensagens de apoio a Pinto da Costa nos boletins? Só se lembraram de o fazer em 2016, logo quando houve um movimento de apoio ao voto nulo como forma de protesto? Assinale-se a coincidência. A percentagem de votos nulos deve ser levada muito a sério, por todas as razões enumeradas nestes parágrafos.

Quanto à entrevista, Pinto da Costa começa por dizer que não vê nos votos nulos um «cartão amarelo». E depois segue-se uma comparação infeliz e sem qualquer espécie de sentido, ao questionar o que sentirão o Presidente da República e o primeiro-ministro. Primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa não é o maior presidente da história da República, nem sequer António Costa é o melhor primeiro-ministro de sempre; Pinto da Costa, esse sim, é o melhor presidente da história do futebol, logo comparar-se a esses dois nomes é reduzir-se a si próprio. Depois, nenhum deles concorreu sozinho para os respetivos cargos. Poderia ser apenas uma piada e uma forma de abrir uma conversa bem disposta, mas não fez qualquer espécie de sentido. 

Pinto da Costa diz que não sentiu qualquer tipo de fúria dos adeptos, inclusive quando esteve a poucos metros das mesas de café onde os sócios estavam a votar. Mas o presidente esperava ser contestado naquele local? Não, os associados foram lá para votar secretamente, não foram lá para contestar o presidente - até porque quem vai às urnas não espera encontrar lá o candidato em quem vai, ou não, votar. Outra reflexão para futuras eleições: se houver dois candidatos à presidência do clube, poderá estar um deles em amena cavaqueira ao lado dos votantes? Certamente que não seria bem visto. 

De destacar o pormenor de Pinto da Costa ter dito que «durante anos não faltam candidatos», mas a verdade é que ninguém, nos últimos 3 anos, manifestou qualquer desejo de ser já candidato - Vítor Baía deixou claro que gostaria de avançar quando Pinto da Costa saísse; já António Oliveira, a candidatar-se, será sempre também depois de Pinto da Costa sair (até lá continuará a fazer eternos elogios ao presidente; pois nas futuras eleições, provavelmente a massa associativa verá com muitos melhores olhos alguém que sempre defendeu e elogiou Pinto da Costa do que alguém que o criticou).

Diga-se que falar de sucessão um dia após Pinto da Costa ser reeleito não faz nenhum sentido. Agora que Pinto da Costa foi reeleito, só temos que nos preocupar com o trabalho do presidente a ser desenvolvido até 2020. Em 2013, Pinto da Costa disse que «quem vier a seguir só tem que não estragar». Mas se o presidente acaba de reestruturar a SAD e se o clube «bateu no fundo», então é porque há coisas que, se não estão estragadas, então têm que ser altamente melhoradas. Não há maior desafio para Pinto da Costa do que, daqui a 4 anos, continue ou não no FC Porto, poder dizer: «Quem vier a seguir só tem que não estragar».

Entrevista ao Porto Canal, a 18-04-2016
Depois, Pinto da Costa passou para uma parte bastante agradável da entrevista e motivadora para todos os adeptos do FC Porto. Diz o presidente que não gostava que os filhos ou a mulher sucedessem ao seu lugar. Muito bem Pinto da Costa, desde logo a fazer afirmações com as quais todos os portistas se podem identificar. O único filho(a) de franca utilidade ao FC Porto é André André (o exemplo mais reconhecido; há também certamente outros frutos a ter em conta, como Francisco Ramos ou Afonso Sousa). O presidente deu ainda um voto de confiança a toda a sua estrutura, dizendo inclusive que vê nela gente como capacidade para suceder ao seu lugar.

Pinto da Costa pode e deve ter influência na escolha do seu sucessor no futuro. E deve exercê-la da seguinte forma: chegando ao dia das eleições e votando. Qualquer outra ação, como disse e bem, seria um atestado de mediocridade à capacidade dos sócios. Quando Pinto da Costa sair, e tendo em conta que foi através do presidente que (quase) todos os administradores chegaram ao FC Porto, mandam os princípios éticos e de serviço ao clube que acompanhem todos a sua saída. Depois, se algum deles quiser candidatar-se, então que o faça; o resto são os sócios a decidir. 

Pareceu valorizar-se excessivamente a vitória sobre o Nacional. Foi uma boa exibição, mas foi contra o Nacional, uma das piores equipas a jogar fora de casa no campeonato; e foi no Dragão, onde no passado recente todos os adversários caíam. Foi uma boa vitória, uma boa exibição, mas se a equipa não vencer em Coimbra já ninguém se lembrará deste jogo. Se calhar, daqui a um mês, quem viu este jogo só se lembra de um jogador do Nacional: do guarda-redes, o que diz muito da sua qualidade este ano. Ah, e Chidozie não jogou neste jogo. 

No que toca a contratações, as declarações de que Pinto da Costa deseja «duas ou três» contratações cirúrgicas foram importantes com vista à estabilidade no plantel. Não se pode pedir o título - ou torna-se difícil fazê-lo - quando se perdem 7 titulares de uma época para a outra (algo que foi francamente ignorado na projeção para esta época por muita gente). A questão dos eventuais regressos de ex-jogadores foi mencionada, e é natural que Pinto da Costa o vá tentar. O presidente anunciou que a equipa do próximo ano vai ser «uma equipa à Porto». E que melhor garantia disso do que fazer regressar jogadores à Porto? Veremos se se desenha alguma possibilidade de isso acontecer.

Curiosa a afirmação de que Hernâni, que aparentemente vai regressar, «está a brilhar no Olympiacos». De facto, quando Hernâni joga, deixa sempre a impressão de que merecia um pouco mais de oportunidades. Mas se não as tem, então é por algum motivo. Hernâni só foi 5 vezes titular no campeonato grego (contando apenas com os campeonatos nacionais, jogou menos do que Quintero no Rennes), mesmo com um treinador (Marco Silva) cujo modelo de jogo (contra-ataque/transição rápida/insistir pelos flancos) encaixava nas suas caraterísticas. Se a questão é Marega vs. Hernâni, nem merece discussão; que Hernâni tenha condições para se impor no FC Porto, restam muitas dúvidas. Mas essas devem ser dissipadas pela avaliação do treinador.

De qualquer forma, as afirmações de Pinto da Costa levam a crer que não se vão contratar Maregas, Hernânis ou quaisquer outros jogadores que: não tenham qualidade; não tenham caraterísticas adequadas; necessitem de grande período de adaptação; sejam com vista a melhorar o plantel mas não necessariamente o 11. Segundo o presidente, quem vier será para chegar, ver e jogar. Plano subscrito.

Pinto da Costa entrou depois num tema inesperado: o impacto que os pagamentos ao Estado têm no FC Porto. Em «Não temos que pagar as contas do Benfica», já tinha sido aqui realçado que o FC Porto é sem dúvida um dos maiores clientes do Estado, enquanto outros beneficiam de perdões, isenções e afins.  Mas a afirmação de Pinto da Costa de que o FC Porto paga 40M€ de impostos, tendo um orçamento de 150M€, merece algum enquadramento.

O presidente já tinha anunciado, em setembro, que o FC Porto pagou 31,68M€ de impostos na última época. Agora refere-se ao pagamento de 40M€ no último ano. Numa SAD que teve despesas operacionais de 110M€, e cujos custos totais com aquisições da última época ascenderam a 53,3M€, falar em 40M€ de impostos requer um melhor enquadramento. Por exemplo, há que ter em conta a dedução do IVA, e o facto da responsabilidade do IRS ser aplicável a todos os jogadores e trabalhadores do FC Porto. Que o FC Porto é um clube sem apoios, sem dúvida; mas já o era há 10, 20, 30 anos.

Pela primeira vez, Pinto da Costa revelou os números da proposta da NOS que o FC Porto teve em mãos: 320M€. Se assim foi, confirma-se, se ainda havia dúvidas, de que o negócio com a MEO foi o melhor possível para a SAD, com ou sem comissões - a acusação de Bruno de Carvalho que nunca teve resposta ou receptor. Mas falar do contrato de direitos televisivos como alternativa à falta de financiamento por parte dos bancos não faz sentido. Os bancos não dão receitas operacionais: antecipam verbas, financiam a atividade corrente da SAD, emprestam dinheiro; já as receitas televisivas sempre fizeram parte da gestão operacional da SAD. 

Pinto da Costa realçou a importância que Reinaldo Teles e Antero Henrique vão ter na gestão do futebol nos próximos 4 anos. Assim sendo, esperamos ver Reinaldo e Antero Henrique, pelo menos uma vez por época, no Porto Canal a falar sobre cada época desportiva; se temos dois dirigentes que vão ser influentes no futebol da SAD, então há que ouvi-los, para não se esgotar tudo em Pinto da Costa e no treinador. Desde que o Porto Canal foi criado, quantas pessoas responsáveis pelo futebol do FC Porto vimos dar entrevistas além de Pinto da Costa?

Sobre o treinador, por esta altura o FC Porto já tem que saber se vai ficar ou não com José Peseiro. Jesualdo Ferreira também acabou 2009-10 a ganhar 8 jornadas consecutivas e a conquistar a Taça de Portugal, mas saiu. Logo, nada do que Peseiro possa fazer neste fim de época devia mudar a decisão da SAD (Pinto da Costa admitiu, e bem, que não pode ser a Taça a decidi-lo). Se quer mantê-lo, que seja pela convicção que têm à data de hoje, e não por aquilo que forem às últimas jornadas. Pinto da Costa não podia fazer outra coisa senão reforçar a confiança de um treinador que pode ganhar a primeira Taça para o Museu do FC Porto, mas uma coisa é o discurso para fora e para o balneário, outra é a posição interna da SAD.

Depois não podia faltar o «espaço L», que parece tornar-se obrigatório em todas as entrevistas de Pinto da Costa: falar de Lopetegui. A bem da verdade, quem puxou o tema foi Miguel Guedes, que recentemente culpou Lopetegui por toda a má época do FC Porto. Mas uma vez mais, perdeu-se mais tempo a falar de Lopetegui do que do presente/futuro treinador do FC Porto. Aqui não vamos regressar a este tema: se Lopetegui sentir que deve dizer algo, que o faça, pois está no seu direito.

Direito esse de que já usufruiu Angelino Ferreira. Os adeptos do FC Porto sempre tiveram a sensibilidade de nunca misturar os assuntos pessoais e particulares de Pinto da Costa como a sua atividade no clube - e o mesmo se poderá dizer de todos os outros dirigentes, desde Reinaldo Teles a Antero Henrique -, mas foi isso que o presidente fez relativamente a Angelino Ferreira, ao falar na Gaianima. Também não seria nada bonito o ex-administrador vir agora dizer que Pinto da Costa ou Antero Henrique andam preocupados com a Operação Fénix e com as acusações do Ministério Público, ou que Reinaldo Teles esteve ocupado com o BPN. Evitável e inoportuno. Uma realidade onde nos tornamos amigos de quem nos atacava (Carlos Pereira, por exemplo) e em que nos viramos contra quem trabalhou durante vários anos na SAD e é portista é algo no qual poucos portistas se devem rever.

A entrevista termina com o tema (lançado por Júlio Magalhães, diga-se) mais ansiado pelos portistas: Pinto da Costa a manifestar apoio político ao PCP e a discutir o momento do país. Era mais interessante do que, por exemplo, debater o enquadramento do fair-play financeiro para esta época, sem dúvida.

Presidente reeleito, entrevista de lançamento (goste-se ou não) dos próximos 4 anos dada. Este foi o caminho que os associados do FC Porto, ou a sua maioria, escolheram. A confiança foi dada, agora há que correspondê-la por parte da SAD. Mãos à obra - neste caso, à reedificação da obra a que chamamos FC Porto. 

Pergunta(s): Reações à entrevista do presidente e que expetativas no lançamento do novo mandato?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Um pequeno exercício

Hoje, algo diferente. Esta semana completam-se 900 dias desde que a seguinte entrevista foi dada. O desafio é este: quantas destas frases são possíveis encaixar no contexto do FC Porto atual? Por outras palavras, se Antero Henrique desse hoje uma entrevista, quantas destas frases poderia repetir e merecer total concordância? Fica o desafio a todos os portistas.






Algumas passagens a destacar da última grande entrevista de Antero Henrique, em outubro de 2013, dois meses depois do último troféu conquistado pelo FC Porto no futebol profissional:

Pinto da Costa disse, recentemente, que “quem vier a seguir só tem de não estragar”. Como é que o FC Porto pode ser estragado?
Não faço ideia nem quero fazer. O que sei é que o trabalho que o presidente tem realizado tem sido tão importante, tão significativo, tão marcante e tão de excelência que, se se conseguir manter e perpetuar, será a garantia de que o FC Porto terá sucesso durante muito e muito tempo. Se querem tocar, com esta pergunta, no tema da sucessão, dir-vos-ei que esse tema só interessa aos adversários. Não interessa a ninguém no FC Porto. Nenhum dos adeptos está preocupado com esse assunto, zero. Os nossos adeptos vivem felizes com o que têm e como não querem estragar, não querem sequer falar no tema sucessão.

Mas o sucesso do FC Porto também não tem a ver com o facto de muitos clubes, sobretudo lá fora, não estarem de olhos abertos? Algum dia os abrirão...      
Cada um tem o seu método. Nós temos sido capazes de chegar aos melhores e de chegar mais depressa.

O FC Porto tem optado pela estratégia do silêncio. Não há alternativa?
A nossa estratégia é fazer bem, investir energias nas nossas principais preocupações e nas preocupações dos nossos adeptos: vencer, ter uma imagem positiva, internacionalizar-se, crescer. Queremos que os adeptos tenham orgulho no FC Porto e isso nós sentimos cada vez mais no dia a dia. Portanto, eu acho que a estratégia está a ser muito bem feita. Tudo o resto são fait-divers, forças que tentam ser detratoras. A comunicação negativa do FC Porto, que se confunde com o centralismo, tem a ver com a defesa de determinados mercados e interesses. Se compararmos o que tem sido o FC Porto com o que têm sido os outros, vemos que estamos num nível completamente diferente, completamente superior.

Os números do Benfica não são reais?
O Benfica, nos últimos cinco anos, teve contas negativas. Tem acumulado prejuízos consecutivamente. Em termos desportivos, o Benfica teve na época passada um ano completamente em branco, que nós, no FC Porto, já nem nos lembramos de ter. Onde é que isto está dito? Está a ser maquilhado.

Mas o Benfica não está mais perto do FC Porto?    
Mas o que é estar mais perto? Ou se ganha, ou não se ganha. Somos o clube em Portugal com mais troféus conquistados, sete deles internacionais. Isto é uma constatação. Somos o clube com maior potencial de crescimento. Tudo o que se venda a partir daí não pertence ao mundo real, é virtual. Se outros promovem o virtual, o que é que nós temos a ver com isso?

A marca da melhor formação é acessória para o FC Porto?      
Não tem a ver com isso. Não vamos deixar de ter a melhor equipa por querermos ter a melhor formação. Queremos ser o mais competitivos e ter boa formação, porque o nosso lema também é formar campeões, até do ponto de vista cultural e sociológico. Não há campeões sem jogadores robustos, e aqui não falo em jogadores que correm muito e são pesados. Queremos jogadores com determinadas características para uma equipa de elite.

Como tema complementar a esta entrevista, e numa altura em que os contratos de scouting estão na ordem do dia, uma passagem importante de uma entrevista à France Football em 2012:


Considerando especificamente jogadores que chegaram ao FC Porto com ligação à Doyen Sports: Defour, internacional belga que chegou a estar perto do Manchester United; Mangala, que antes de assinar pelo FC Porto esteve quase no Benfica; José Ángel, titular na liga espanhola e italiana; Sérgio Oliveira, jogador formado no FC Porto; Brahimi, jogador da liga espanhola; Casemiro, jogador do Real Madrid que também esteve perto do Benfica. São os casos mais mediáticos. Uma nota: é um facto que neste momento Falcao é representado pela Doyen, mas não chegou ao FC Porto pela mão da Doyen, pois Falcao foi contratado em 2009 e a Doyen só foi fundada em 2011.

Portanto entre Casemiro, Sérgio Oliveira, Defour, Mangala, Brahimi ou José Ángel, estamos a falar de jogadores já conhecidos, quem um universo de 250 olheiros detetaria com toda a facilidade. Não estamos a falar de um jogador da liga japonesa ou de um talento escondido na América do Sul, mas sim de jogadores já conhecidos na nossa Europa do futebol. O que só desperta curiosidade sobre a necessidade de serviços de scouting ligados a fundos, para observar jogadores já relativamente conhecidos, quanto temos uma rede de 250 olheiros.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Vinte dias

A 10 de fevereiro, o FC Porto comunicou à CMVM e associados a lista proposta em Assembleia-Geral para o próximo quadriénio da SAD. O Conselho de Administração, conforme se vê abaixo, manter-se-ia inalterável.


Vinte dias depois, o Conselho de Administração do FC Porto foi reeleito, mas com duas novidades: José Américo Amorim, para um cargo não-executivo, e Antero Henrique, que foi oficialmente promovido a administrador da SAD.

Apesar de tal não ter sido mais do que a oficialização, em papel, daquilo que já era uma situação de facto, pois a influência de Antero Henrique na gestão do FC Porto já é (re)conhecida há uma década, a 10 de fevereiro não havia lugar para ele no Conselho de Administração.

Não discutindo sobre os méritos ou razões que conduziram Antero Henrique a esta promoção, fica a curiosidade sobre que brilhante ato de gestão terá sido cometido no espaço de 20 dias para esta situação ter mudado. 

sexta-feira, 4 de março de 2016

Recondução e coincidência poética

Uma curta reflexão a abrir: o FC Porto (clube) detém cerca de 3/4 das ações da SAD e mantém todas as ações de categoria A, o que confere o poder de designar os elementos do Conselho de Administração da SAD.

Ora a atual direção está em final de mandato e só em abril vai ser formalmente reeleita (poderia até não ser, se houvesse uma forte lista concorrente, coisa que nunca existiu na era Pinto da Costa e que continuará a não existir). Que sentido faz uma direção em fim de mandato eleger, atempadamente, a administração da SAD para o próximo quadriénio?

Imaginem - só mesmo imaginando - que uma lista alternativa ganharia as eleições para o clube, um mês depois de o Conselho de Administração da SAD ter sido reconduzido a novo mandato. Não faz sentido. Primeiro deveriam ocorrer as eleições do clube e só depois a direção eleita deveria designar os membros da SAD. Até porque quando o clube assumiu a maioria da SAD, aquando da operação Euroantas e da absorção da parte da Somague, era suposto isso conferir maior poder de intervenção dos associados nos destinos do FC Porto. Neste caso, a administração da SAD foi reeleita ainda antes dos sócios se poderem pronunciar. E sem que tenha sido apresentado aos associados um plano para os próximos anos.

Posto isto, a entrada de Antero Henrique no Conselho de Administração da SAD acabou por ser a principal novidade na AG que reconduziu Pinto da Costa e restantes parceiros à reeleição. Antero Henrique vê, no papel, os seus poderes no FC Porto serem reforçados, o que faz com que o Conselho de Administração aumente para sete elementos, dos quais dois não executivos - José Américo Amorim junta-se a Vieira de Sá. 

Na prática, Antero Henrique passa a poder validar, diretamente, contratos ou transferências que envolvam a SAD - é sempre necessária a assinatura de dois membros do Conselho de Administração. Até aqui, só Pinto da Costa, Fernando Gomes, Adelino Caldeira e Reinaldo Teles, independentemente de conduzirem ou não os processos em causa, podiam validar esses documentos. Antero Henrique vê assim ser aumentada a sua influência na SAD, inclusive após o processo Operação Fénix, embora a sua influência no FC Porto seja patente de há 10 anos para cá, com ou sem estatuto oficioso de administrador da SAD.

Um lamento que, por clara e infeliz coincidência, o R&C do primeiro semestre tenha sido comunicado à CMVM há apenas três dias - era necessário um intervalo de cinco dias para os acionistas colocarem, atempadamente, questões à AG. Esteve representado 83,78% do capital social da SAD. A sua composição, a saber: 


A SAD foi reconduzida antes das eleições no clube, no qual Pinto da Costa também vai ser reconduzido, com mais ou menos votos. Mas seria bom apresentar o quanto antes o seu programa para o 14º mandato, de modo a que os sócios pelo menos saibam que estão a votar num projeto para os próximos quatro anos, e não apenas num currículo de três décadas. É tempo de trabalhar presente e futuro, não de reconhecer o passado - reconhecimento pelo passado é eterno e intocável, mas é isso mesmo: passado, não futuro.

Não haverá listas alternativas, pois nenhum candidato terá a coragem de concorrer contra Pinto da Costa. Quem o fizer será eternamente visto como o homem que desafiou Pinto da Costa. Basta ver que qualquer voz de contestação que se levante é imediatamente abafada por diversas vias. Nas AG também não é fácil intervir - basta ver quando, há um ano, nas alterações de estatutos, um sócio decidiu abster-se (e disse porquê) e foi imediato pressionado pelo barulho de fundo da sala, onde muitos marcam presença não para discutir o que importa mas para abafar quem ouse questionar alguma ação.

E por muito que haja cada vez mais interessados e preocupados com o rumo do clube nos últimos anos, estamos ainda a falar de uma minoria. Disse Vítor Baía, e bem, que há quem esteja a preparar-se nos bastidores para avançar, mas só o vai fazer quando Pinto da Costa decidir sair (uma ironia Vítor Baía estar a ser puxado para uma dessas mesmas jogadas, mas isso é tema para outra altura). E quando o fizer, terão que ser os sócios a escolher, não uma elite já pré-definida, que pensa que vai direitinha para o poder - ou que vai poder continuar a manter o poder quando o presidente sair. Não são eles quem vão escolher. Nem sequer Pinto da Costa. São os sócios. Quem quiser que se chegue à frente com os seus projetos, pois é o projeto que deve ser eleito, não os homens ou o seu passado.

Pinto da Costa vai estar hoje em Cantanhede e seria bom ouvir as perspetivas para o próximo quadriénio da SAD, até porque foram os acionistas a reconduzir esta administração. Uma palavra para sócios e adeptos ficaria bem, sobretudo antes de uma jornada importantíssima.

Para render até 4,425M€
Entretanto, o Football Leaks escolheu o dia seguinte à reeleição dos órgãos sociais da SAD para divulgar o contrato com as comissões da renovação de contrato de Rúben Neves. O timing é uma coincidência poética. Mas é oportuno conhecer os seus contornos e confirmar que isto vai bem além dos 5% do passe (potencialmente convertíveis a 2M€ no momento de uma transferência).

A saber, José Caldeira embolsou 225 mil euros só com a renovação do contrato de Rúben Neves, na altura quando ele ainda tinha 17 anos. Depois disto, a SAD paga 100 mil euros por 20 jogos oficiais; e mais 50 mil se chegar aos 30 jogos; e mais 50 mil por 40 jogos. Posto isto, «em consideração pelos servidos prestados pelo agente ao clube» (palavras da SAD), o irmão de Adelino Caldeira ficou com 5% do passe.

Em relação aos serviços, e embora isto seja a justificação padrão em todos os contratos da SAD (e até em todos os clubes), é curioso ver os três pontos que justificam a intervenção de José Caldeira e interpretar o que cada um deles quer realmente dizer: a) aconselhar o FC Porto na estratégia de renovação (claramente, era preciso um grande aconselhamento para o clube perceber que tinha que renovar com Rúben Neves; podia haver dúvidas); b) servir como intermediário e informar o jogador das condições que o FC Porto tem para ele (o Rúben Neves chegou há pouco tempo ao clube, passa pouco tempo nas instalações do clube e tem uma agenda muito preenchida, que o impediria de se sentar à mesa com a Administração da SAD; ainda bem que houve um pombo-correio a resolver este problema); c): convencer o jogador a aceitar o FC Porto em vez de procurar outro rumo para a sua carreira (ainda bem que José Caldeira aconselhou Rúben Neves a renovar, se não ele, um portista de berço e sangue, até era capaz de assinar pelo Benfica. Uma estátua para Caldeira, pois sem ele não havia Rúben Neves!).


Mas... Se a proposta para a transferência de Rúben Neves para outro clube for apresentada por José Caldeira, então a percentagem que o empresário tem direito passa a ser de 10%. Ou seja, potencialmente 4M€ se tivermos em conta o valor da cláusula de rescisão. Tendo em conta que José Caldeira surgiu como intermediário e que o empresário é agora Jorge Mendes, pouco leva a crer que José Caldeira tenha capacidade ou conhecimentos para apresentar uma boa proposta por Rúben Neves. 

Mas para efeitos contratuais José Caldeira pode então, na melhor das hipóteses para o empresário, ganhar 4,425M€ com a transferência de Rúben Neves, um produto da formação do FC Porto e que se calhar Caldeira nem conhecia até começar a jogar na equipa principal - ou seja, três meses antes da renovação. 

Este foi o último contrato de Rúben Neves do qual se tenha tido conhecimento. O FC Porto já disse que ele tem contrato até 2019, mas desconhece-se em que termos. O que se conhece, para já, é quanto José Caldeira pode ganhar. Infantino, ajuda lá a malta a calcular quanto é 3%.

PS: As coisas que se fazem para desestabilizar o Benfica em semana de derby!

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Cuidem da dieta dos delegados

Todo o cuidado é pouco. É tempo de supervisionar e controlar a dieta de todos os delegados que vão votar nas eleições para o novo presidente do Conselho de Arbitragem, após o anúncio da saída de Vítor Pereira. Não há-de algum deles sofrer de uma grande indisposição no dia das votações.

Isto para recordar a forma como Vítor Pereira foi eleito presidente do CA, há quatro anos. Vítor Pereira venceu contra Luís Guilherme por 42-41. Houve um voto nulo e um dos delegados faltou à votação. Tratava-se de José Albano Domingues, delegado de Viana do Castelo, que não ia votar em Vítor Pereira, mas que a meio da viagem para a sede da FPF sofreu um ataque de diarreia e faltou à reunião.

Faça-se a devida homenagem a Bocage: foi graças à merda que Vítor Pereira conseguiu fazer um trabalho de merda nos últimos quatro anos. É quase poético. Mas não há motivos para festejar a saída de Vítor Pereira, sobretudo face aos dois nomes que estão a ser lançados à sucessão: o ex-árbitro Duarte Gomes e o presidente da APAF, José Fontelas Gomes. Começando por avaliar Duarte Gomes.


Duarte Gomes é um assumido benfiquista, ainda que a competência não tenha clube. Foi, por exemplo, o único árbitro dos últimos anos a admitir ter errado num jogo contra o FC Porto (e já lá vão mais de 4 anos desde que o fez, por causa de um penalty por marcar contra o Marítimo). Na altura, causou enorme celeuma no CA, com Vítor Pereira a ficar chocado e revoltado por um dos seus árbitros vir a público admitir que errou contra o FC Porto. Desde então, mais nenhum árbitro se atreveu a fazê-lo.

Duarte Gomes esteve também em destaque na última grande aparição pública de Antero Henrique em defesa do FC Porto: quando, juntamente com Rui Cerqueira, o FC Porto apresentou 15 erros cometidos por Duarte Gomes no clássico frente ao Benfica. É de realçar que, nesse jogo, o FC Porto foi campeão na Luz, mas não deixou de se insurgir contra a má arbitragem; nos últimos tempos, em que não ganha títulos mas tem tantas ou mais queixas face à arbitragem, o FC Porto quase não reage. As pessoas são as mesmas, o clube é diferente.


O historial de Duarte Gomes, o árbitro que assinalou três penaltys em 10 minutos a favor do Benfica em 2011 (e dos quais só um não deixou quaisquer dúvidas), não fica por aqui...





Mas a última entrevista de Pinto da Costa, há um mês, abriu novas perspetivas sobre Duarte Gomes, que decidiu abandonar a arbitragem há um mês. «Duarte Gomes vai abandonar a arbitragem provavelmente a pretexto de uma lesão, mas eu creio que o Duarte Gomes, um indivíduo de grande formação, licenciado em Direito, percebeu como as coisas funcionam, e para não ser amanhã um novo Marco Ferreira decidiu abandonar a arbitragem». Desconhecíamos, no universo FC Porto, tamanha consideração por Duarte Gomes.

Curioso que Duarte Gomes tenha terminado a carreira em janeiro e que já esteja a ser associado à presidência do Conselho de Arbitragem. Faz lembrar Pedro Proença, que também saiu da arbitragem mais cedo para, meio ano depois, ser eleito presidente da Liga. Duarte Gomes já deu uma entrevista ao Expresso este mês, na qual garante que não ambiciona, para já, ser presidente do CA. Mas depois lá diz que está disponível para ceder os seus conhecimentos à arbitragem no futuro.

Curiosamente, Duarte Gomes até já fez as pazes com o... Sporting. Em fevereiro de 2014 o Jornal do Sporting escrevia que recusava este árbitro, por ser um «reconhecido benfiquista que prejudica sistematicamente os seus rivais» (a APAF estava a nanar quando um dos seus árbitros - na verdade, quatro deles - foi difamado desta maneira?). O Sporting foi sempre um clube que protestava perante Duarte Gomes, que nos últimos anos só agradava ao Benfica e a Jorge Jesus.





Mas nada é eterno: curiosamente as pazes, aparentemente, foram feitas na semana passada: 


Mais curioso ainda é que Fontelas Gomes e Duarte Gomes, apontados como os dois nomes candidatos ao CA, tenham estado juntos na mesma visita ao Sporting. Mas é de esperar que o futuro da arbitragem passe por ambos. Em 2011, Luís Guilherme e Lucílio Baptista estavam na lista concorrente contra Vítor Pereira, que foi o eleito. Então, Lucílio Baptista e Luís Guilherme acabaram por passar para a comissão de nomeações, sobre a qual nunca se pronunciam - logo, os supostos rivais de Vítor Pereira foram eleitos para um cargo no qual se abstêm de tudo o que Vítor Pereira possa decidir. Será curioso ver se Bruno de Carvalho também vai falar desta vez em «aliança».

Sobre Fontelas Gomes, foi eleito para a APAF em 2013, em lista única. Foi um árbitro da terceira categoria, mas trabalhou durante vários anos na TAP e tem negócios na restauração (está na moda, portanto). No início de novembro foi protagonista da Palhaçada Fresquinha, na qual, como tantos outros, invocou regulamentos que não se aplicavam ao caso para justificar as ofertas ilegais do Benfica aos árbitros. E José Fontelas Gomes sempre se insurgiu contra o sorteio dos árbitros: ou seja, com ele tudo continuará igual, árbitros escolhidos a dedo. 

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:



É este o cartão de visita de Fontelas Gomes, que segundo O Jogo e o DN tem apoio do FC Porto para o cargo. É uma piada? Todas as intervenções de José Fontelas Gomes enquanto presidente da APAF foram para atacar o FC Porto, sempre que havia críticas à arbitragem, e defender sempre o Benfica. E se há um ano o FC Porto lutava pelo regresso do sorteio dos árbitros, agora vai apoiar um sujeito que é contra o sorteio!? De realçar que Vítor Pereira disse isto: «Colinho e manto protetor? Estamos habituados a ser bode expiatório dos insucessos». Fontelas Gomes está na mesma linha de discurso: quando o Benfica critica as arbitragens, não reage; quando o FC Porto o faz, tenta logo silenciar o clube e culpa ou o seu treinador ou os seus jogadores.

Duarte Gomes ou José Fontelas Gomes. Um é um ex-árbitro que durante anos não mereceu nada mais do que críticas por parte do FC Porto; outro, enquanto líder da APAF nos últimos dois anos (antes tinha estado no cargo interinamente), legitimou tudo o que aconteceu no passado recente e condenou sempre toda e qualquer crítica do FC Porto.

Se o FC Porto não se demarca destas duas hipóteses, o futuro não trará nada de bom. E quem se conformar com uma destas escolhas não terá moral para contestar qualquer tipo de nomeação nas arbitragens nos próximos anos.

PS: Vários leitores discordaram por completo de que para o FC Porto fosse mais fácil ganhar em casa ao Dortmund do que ao Chelsea em Londres. No seu direito, claro, mas a história do FC Porto diz isso mesmo: em casa contra equipas alemãs, o FC Porto ganhou 10 jogos, empatou 3 e perdeu 4. Em Inglaterra, perdeu 16 e empatou 2. Claramente podem alegar que o plantel do FC Porto estava desfalcado. Mas repare-se que o Dragões Diário diz que o FC Porto jogou com «muitos remendos por causa das lesões». Não, não foi, pois o único titular lesionado era Martins Indi. O problema não eram as lesões, era sim a falta de opções num plantel mal construído e que não foi reforçado em janeiro. E José Peseiro não tem culpa da falta de peças que tem - só pode ser responsabilizado pela forma como estrutura as peças que tem, mas nunca pela falta de qualidade das mesmas. Mas tal como Paulo Fonseca em 2013-14, não tem o melhor plantel à disposição, mas podia ter tentado fazer melhor com o que tinha, pois pouco tinha a perder. 

Ninguém está em condições de exigir títulos a José Peseiro: só se exige que faça o melhor possível. Ninguém pode acreditar que contra o Dortmund tenha sido feito o melhor possível para ganhar pelo menos esse jogo, já que virar a eliminatória era uma utopia. De qualquer forma, o patamar de exigência não pode recuar ao ponto de acharmos que é pedir muito que o FC Porto tente fazer - pelo menos tentar - o que o PAOK e o Krasnodar fizeram este ano: ganharam ao Dortmund na Liga Europa. Esperemos que também não seja pedir muito ganhar ao Belenenses, que também trocou de treinador e apostou numa nova filosofia, e não repetir a vergonhosa exibição da época passada no Restelo.