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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Pinto da Costa, Herrera e os seis milhões

Saidy Janko é uma daquelas contratações que nos levam a questionar onde estava exatamente o interesse desportivo da SAD no momento do negócio. Foi comprado sem interesse do treinador, sem persetivas de ser solução de equipa A e não tardou em receber guia de marcha.

No momento em que assinou pelo FC Porto, Janko publicou no Instagram uma mensagem em que agradecia à Key Sports Management por terem ajudado a concretizar a transferência. Certo é que no Relatório e Contas da SAD não há qualquer menção de um serviço de intermediação por parte desta entidade. A imprensa desportiva, nomeadamente o jornal Record, chegou a noticiar a intervenção de Paulo Rodrigues e Alexandre Pinto da Costa no negócio, mas o R&C da SAD não esclarece qual foi ao certo o empresário/empresa a lucrar com a transferência de Janko para o FC Porto.

A SAD comprou 80% do seu passe ao Saint-Étienne por 2,25 milhões de euros. E o negócio deve ter sido tão bom para o clube francês que eles nem se terão importado de não terem recebido um cêntimo no momento da concretização do negócio - Janko foi apresentado a 27 de junho mas, segundo a rúbrica de Fornecedores, no final do mês a SAD ainda devia a totalidade da transferência ao Saint-Étienne. 

Certo é que, apesar de Janko não ter ficado no plantel, arrisca-se a ser um jogador que o FC Porto nunca quererá vender. Isto com base na surreal afirmação de Pinto da Costa na apresentação do R&C.

No momento em que Fernando Gomes respondia a perguntas, Pinto da Costa decidiu intervir, em defesa do seu administrador da SAD: «Se o tivéssemos vendido não recebíamos tudo, porque só temos parte do passe [de Herrera]». É a primeira vez que isto aparenta ser um problema. O FC Porto sempre vendeu jogadores sem ter a totalidade do passe nas suas mãos. São já quase duas décadas em que o FC Porto praticava e defendia a política da repartição de passes e da envolvência de investidores/fundos/empresários/terceiros nos negócios.

Agora, subitamente, a venda de Herrera seria um problema, porque o FC Porto não receberia tudo. Ajudem, por favor: digam em que negócio é que o FC Porto alguma vez recebeu «tudo». De A de Alexandre a Z de Zahavi, não há grande negócio feito pelo FC Porto em que não surgisse uma terceira parte a lucrar. E agora, havia problema? Mas porquê? Por serem só 80%? Ou porque os 20% iriam para o Pachuca e não para um empresário parceiro?


Pinto da Costa é capaz de comover uma sala inteira com um discurso e uma eloquência incomuns para alguém com 80 anos, cativando e inspirando uma plateia inteira de portistas em noite de gala, e logo a seguir cometer argoladas destas que não têm o menor tipo de sentido ou coerência. 

Continuando, citando palavra a palavra o presidente do FC Porto: «No caso do Herrera, se tivéssemos vendido ou vendêssemos, só temos parte do passe. Portanto, não era tudo... Se pagássemos o que ele queria para a renovação, que eram 6 milhões de euros, éramos nós que pagávamos tudo, mas se vendêssemos tínhamos que distribuir...»

É uma novidade, e salutar: pela primeira vez, aparenta haver preocupação por ter que «distribuir» o dinheiro da venda de jogadores. Já era hora. Repare-se que, neste mesmo Relatório e Contas, o FC Porto fartou-se de distribuir na venda de Ricardo Pereira ao Leicester: a sua venda foi intermediada pela PP Sports. Quem? Nada mais, nada menos que a empresa que sucedeu à Energy Soccer (mudou de nome em 2017, mas manteve a morada e o mesmo escritório), que ficou celebrizada pela participação de Alexandre Pinto da Costa na empresa e que aparecia frequentemente a intermediar negócios de jogadores que não representava no FC Porto. Além destes serviços de intermediação, o FC Porto pagou uma percentagem ao Vitória de Guimarães e outra à bem conhecida Pacheco & Teixeira. Descontando tudo, o FC Porto recebe de Ricardo Pereira bem menos do que os 80% que receberia de Herrera. Mas aqui não aparentou ter havido problema.


Depois, o valor. Seis milhões de euros. Mas o que é que significa, afinal, pedir seis milhões de euros?

1. Herrera queria 6 milhões de euros de prémio de assinatura?
2. Herrera quer passar a ganhar 6 milhões de euros por ano?
3. A extensão de mais 2 ou 3 anos de contrato custariam mais 6 milhões de euros?
4. Os seis milhões pressupõe prémio de assinatura + aumento salarial?
5. Os seis milhões constituem o prémio de assinatura mais a comissão para os seus representantes?
6. Os seis milhões implicam um novo acordo por direitos de imagem?
7. Há um contrato por objetivos que obriga o FC Porto vender Herrera ou a rever o salário mediante a recusa de X propostas?
8. Este mesmo relatório e contas mostra que a operação de renovação de contrato de Aboubakar custou 5,1 milhões de euros. Não se sentirão outros jogadores no plantel no mesmo direito de ter as mesmas (ou melhores) condições e, até neste caso, entre eles Herrera?

Não sabemos. Pinto da Costa lançou a bomba ao ar e deixou que o tema se dividisse entre adeptos e imprensa, entre discórdia e especulação. O máximo que Pinto da Costa consegue com esta afirmação é colar uma imagem de ingratidão a Herrera e de exigências incomportáveis do ponto de vista salarial. Estamos a falar do capitão do FC Porto, que está na mesma situação que Marcano ou Maxi na época passada, mas Pinto da Costa decidiu que era boa ideia meter isto cá para fora.

Se se cruzarem com qualquer jogador do FC Porto da década de 90, eles dirão isto: «Para Pinto da Costa, o balneário é um templo, é sagrado». O presidente blindava o balneário como poucos, protegia os jogadores, afastava as polémicas. Neste caso, é o próprio presidente quem decide atirar a bomba e deixar que os efeitos se alastrem. O que ganhou com isto? Está à espera que no final da época se culpe Herrera, o pesetero, em vez da administração que se gabou de rejeitar 30 milhões de euros pelo mexicano e que deixou o ativo chegar ao final de contrato? Cada adepto que tire as suas conclusões, mas quem fica a arder são os cofres da SAD.

Já agora. Por que é que só houve aquele desabafo sobre Herrera? Então e sobre Brahimi, nem uma palavrinha? Que tal esclarecer os portistas sobre a lose-lose situation em que o argelino, saia ou renove, implicará um pagamento de 6,5 milhões de euros à Doyen? Só Herrera é que interessa?


Ou então bastava não ignorar que o Relatório e Contas estava literalmente ali ao lado e que é fácil tirar conclusões sobre o porquê da ausência de renovações de contrato. O orgulho de Fernando Gomes em afirmar que a SAD cumpriu as metas da UEFA era tanto que isto quase escapava: a SAD não tinha praticamente margem para renovar contratos na época passada, uma vez que estava no limite da margem autorizada pela UEFA.

O FC Porto não poderia apresentar mais de 20 milhões de euros de prejuízo nos parâmetros definidos pela UEFA. Ficou-se pelos 17,2 milhões. Ou seja, «sobraram» 2,8 milhões de euros. As renovações com Herrera e Brahimi dificilmente ficariam, cada uma, por menos desse preço, pois estamos a falar de jogadores de 28 anos que, após várias épocas em Portugal, pensam naturalmente em contratos mais vantajosos e na possibilidade, talvez única, de jogarem em ligas mais apelativas. 

Mas atenção. Não havia dinheiro para isto, mas houve dinheiro para, em junho, comprar Janko por 2,25 milhões de euros (por 80% do passe) e metade do passe de Rafa, ao Portimonense, por 1,5 milhões de euros - e note-se que Rafa havia sido cedido ao Portimonense em janeiro. Um negócio quase tão maravilhoso como a compra de Ewerton - dispensam Rafa em janeiro para recomprá-lo em junho, mesmo sem que houvesse intenção de Sérgio Conceição em reservar um lugar para ele no plantel (nem integrou o arranque dos trabalhos de pré-época). Só aqui são quase quatro milhões de euros que não serviram o propósito de reforçar o plantel e que, numa época sem grande margem para investimentos, poderiam ter sido muito mais bem usados. Os jogadores e os seus representantes não vivem na ignorância: eles conhecem estes casos e as contas do clube. 

Repare-se que a administração poderia ter aproveitado a oportunidade de realçar a importância que teriam para Sérgio Conceição e para o ataque ao bicampeonato. «Meus senhores, são jogadores importantes para o treinador, para o ataque ao bicampeonato e para as nossas ambições europeias». Mas não. O problema é que a SAD não tem o passe todo de Herrera e que ele pediu seis milhões para renovar - seja lá o que isso signifique.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ideia ao serviço do plantel

Sem nenhuma das contratações para a nova época no 11 inicial. Sem Danilo, Marega ou Soares. E sem bicadas para a frente. Foi com uma exibição de enormíssima qualidade que o FC Porto despachou o Desportivo de Chaves e conseguiu os três primeiros pontos da época. Foram 5-0, poderiam ter sido bem mais, tamanha a qualidade de jogo que o FC Porto conseguiu apresentar e a capacidade de criar ocasiões de finalização. 


Exibições de grande qualidade a nível individual e coletivo, futebol que empolgou os adeptos e deu para terminar com a inimaginável dupla de ataque Adrián López-Marius Mouandilmadji a ser aplaudida pelo Dragão. Com esta amostra, dizer que Sérgio Conceição tem que continuar a «rentabilizar» os ativos que tem é o equivalente a dizer a um tipo no topo do Evereste que tem que continuar a escalar. E esse tipo, se se chamasse Sérgio, era capaz de esticar os braços e meter-se em bicos de pés.




Sem bicada, sem balão (+) - Pode ser «birra» cá do burgo, mas há mesmo que começar por aqui: cinco golos, cinco jogadas que dispensam a bola despejada diretamente pelos defesas na linha da frente. E o lance do 2x0 é um exemplo de que não é preciso muito espaço para colocar um jogador nas costas da defesa adversária: basta fazê-lo na altura correta, quando as circunstâncias do jogo a isso o convidam e não como jogada padrão. Num curto passe, Sérgio Oliveira rasga uma linha de 6 jogadores do Chaves e Otávio fica em posição livre para cruzar para três jogadores em zona de finalização. É refrescante e importantíssimo ver o FC Porto e Sérgio Conceição apostarem nestas bases, e é notoriamente mais vantajoso colocar esta matriz de jogo ao serviço do plantel em vez de uma matriz de jogo ao serviço de um único jogador. Depender de uma equipa para desbloquear jogos é sempre melhor do que depender de um jogador. 

Tudo na defesa (+) - Iker Casillas não deve ter sujado as luvas, tamanha que foi a eficácia defensiva da equipa, em especial para Diogo Leite e Felipe no jogo aéreo. O jovem português, no lugar de Marcano, ganhou 7 das 8 bolas disputadas pelo ar no setor defensivo e Felipe só perdeu 2 duelos em todo o jogo, não tendo cometido uma única falta, além de ter criado uma ocasião de golo. Alex Telles esteve muito acima do nível demonstrado na Supertaça, mas Maxi Pereira esteve novamente uns furos acima, ao criar quatro ocasiões de golo num jogo em que quase só teve preocupações ofensivas. 

Sérgio Oliveira (+) - Muito abaixo do nível exigível na Supertaça, Sérgio Oliveira afirmou-se agora como um dos melhores em campo e um dos principais dinamizadores da grande exibição do FC Porto. Descobriu Otávio no lance do 2x0 e esteve no golo de Marius, tendo criado 6 ocasiões de finalização, duas delas flagrantes, entre uma exibição com 93% de eficácia no passe e oito ações defensivas. Curiosamente, desta vez não arriscou no remate e só por uma vez tentou o passe longo. Reduziu a sua amplitude de jogo e jogou mais curto, mas isso não o impediu de estar em todo o lado. Curiosamente, desta vez foi Herrera quem teve a missão de abrir mais o jogo, e acabou por ter sucesso, com 7 de 9 passes longos eficazes e 92% de eficácia no passe, mas desta feita o mexicano não esteve tão forte nas bolas divididas e esteve longe das zonas de finalização, apesar de ter sido o elemento com mais ações com bola (98).

Desequilíbrio (+) - Otávio na assistência para os dois primeiros golos (o 1x0 com uma boa simulação de André Pereira - apesar da inteligência em algumas movimentações e de muita vontade, é porventura o principal candidato a 'cair' do 11 em breve), Brahimi novamente a faturar em lance individual, Corona a entrar e a marcar, Aboubakar a bisar (e a ficar a dever a si próprio bem mais noutras ocasiões), Adrián e Marius a entrarem e a terem ocasiões para marcar. Todas as unidades do setor ofensivo do FC Porto marcaram, deram a marcar ou tiveram oportunidades para o fazer, fosse em jogadas pelo corredor, no espaço interior ou através de lances individuais. 

Quando é criado um volume tão grande de ocasiões, com nove situações em que não havia opositor entre o jogador do FC Porto e o guarda-redes adversário (e falharam sete delas), não há forma de vacilar: mesmo com um punhado de grandes ocasiões desperdiçadas, o FC Porto não deixou de golear. Procurou sempre mais, praticamente dispensou a meia distância (16 dos 19 remates foram obtidos dentro da grande área) e rapidamente assimilou um futebol que resumia tudo a uma questão: a vitória é certa, falta saber por quantos. 

Tópico para reflexão, a entrada de Adrián López. Se tivesse sido Lopetegui a lançar Adrián, talvez fosse a «espanholização». Se fosse Nuno Espírito Santo, talvez fosse «um frete ao amigo Mendes». Mas como foi Sérgio Conceição a lançá-lo, então é porque o treinador se calhar pode recuperar o jogador. Isto diz tudo sobre o crédito que Sérgio Conceição ganhou no clube. E que continua a fazer por merecer. E praticamente com o mesmo plantel do meio-campo para a frente da época passada, tem um exemplo de que afinal é possível jogar bom futebol, com circulação, apoio e momentos de desequilíbrio individual e coletivo, sem que isso implique ter como jogada padrão jogadores a correr e a caírem nas costas da defesa com passes de 40 metros. Sem imprescindíveis, com uma ideia que se sobrepõe à individualidade. Não é um recado para Marega: é para todo o plantel.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (1)

Contrato até 2020
Jesús Corona - Muitos esperavam que 2017-18 fosse a época da afirmação, mas a última temporada acabou por ser a pior do extremo mexicano ao serviço do FC Porto. A sua concorrência para a posição eram, basicamente, jogadores que o FC Porto havia dispensado no passado recente, mas a inconsistência acompanhou toda a temporada de Corona, que terminou a época com apenas 3 golos e 4 assistências. Sérgio Conceição bem puxou por Corona, fazendo dele titular no início da época, mas, com exceção ao grande golo em Braga, foi um ano de pouquíssima produtividade para Corona, por certo também afetado por problemas do foro familiar que devem ser tidos em conta. Ainda assim, contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que Corona fez a diferença, e muitas as em que mal se fez notar em campo. O jogador de 25 anos custou 10,5 milhões por 70% do passe e tem apenas mais dois anos de contrato. Ou seja, aproxima-se o momento em que há que decidir se vamos renovar a aposta em Corona ou se o melhor será tentar encontrar uma saída. Tem tudo para ser, a par de Brahimi, o principal desequilibrador no plantel, mas três anos depois continuamos à espera do mesmo: que o potencial se traduza em eficiência. Ter que esperar quatro épocas até ver um match-winner se afirmar não costuma ser bom sinal.  

Contrato até 2019
Yacine Brahimi - O mais virtuoso jogador do plantel e o rei do drible. Com 12 golos e 10 assistências (ficou a uma contribuição da melhor época da carreira), Brahimi foi muitas vezes um oásis de criatividade e imprevisibilidade num futebol limitado, em grande parte da época, a jogo direto e bola na frente. Brahimi acabou a época com o maior número de dribles eficazes da Liga (167 - mais do dobro do segundo melhor da I Liga, Gelson Martins, e apenas superado por Messi nas Ligas europeias) e foi o jogador com mais duelos ganhos no Campeonato, num total de 306. Foi o jogador mais castigado dos três grandes, com 95 faltas sofridas, e teve apenas um factor particularmente negativo no seu rendimento: a ineficácia nos cruzamentos (embora a sua função fosse sempre mais o movimento interior), pois em toda a época teve apenas um cruzamento eficaz no Campeonato. 

E agora? Brahimi está a um ano do final de contrato, por isso ou renova ou sai. A questão é que Brahimi nunca será um jogador que garantirá uma grande venda ao FC Porto, pois a SAD detém apenas 50% do passe, e as opções de compra e revenda estabelecidas com a Doyen expiraram em 2017. E tendo em conta que Brahimi poderá assinar livremente por outro clube a partir de janeiro, é natural que, com o aproximar do próximo ano, fique cada vez mais difícil renovar com o argelino, pois as exigências dos jogadores e dos respetivos representantes sobem sempre a partir do momento em que começam a surgir outros clubes em carteira. Um caso para definir o quanto antes, pois Brahimi na próxima época dificilmente valerá mais do que agora, e desportivamente o FC Porto dificilmente arranja um extremo da sua qualidade pela verba que o argelino eventualmente render. Renovar será caro, muito caro, e difícil, mas desportivamente perder Brahimi seria um golpe rude para Conceição. 

Contrato até 2019
Hernâni - Ficou no plantel meramente perante a falta de alternativas e nada mudou desde que assinou pelo FC Porto: não tem qualidade para jogar a este nível. Foi apenas uma vez titular no Campeonato e foi jogando alguns minutos residuais ao longo da época, tendo contribuído com apenas um golo e uma assistência. A sua grande velocidade é uma caraterística que não é acompanhada por capacidade de decisão, eficácia no 1x1 ou perigo para as balizas adversárias. Tem apenas mais um ano de contrato, logicamente não justifica a renovação e o FC Porto deve procurar uma saída que permita o melhor encaixe financeiro possível - por outras palavras, não vale a pena renovar para andar a emprestar. O que Hernâni produziu na equipa A nesta época um extremo da equipa B não faria pior. 

Compra obrigatória
Majeed Waris - Foi o único jogador escolhido a dedo por Sérgio Conceição como reforço para o FC Porto em 2017-18, mas o ganês não conseguiu ter qualquer impacto na equipa. Além de ter chegado a um clube, país e realidade muito diferentes, Waris não trazia qualquer tipo de ritmo competitivo de França, algo que se refletiu no seu rendimento - ou falta dele. Não voltou a jogar desde que foi lançado na «piscina» de Paços de Ferreira, num jogo totalmente impróprio para as suas caraterísticas (e o treinador seria, certamente, o primeiro a saber isso), e pelo que foi o seu rendimento em 2017-18 não justificaria a continuidade. No entanto, a SAD está obrigada a ficar com Waris a título definitivo, e tudo aponta para que o avançado seja um jogador particularmente explorado por Sérgio Conceição na próxima época. Waris terá a possibilidade de começar a época de raiz, de fazer a pré-época, de trabalhar a vertente física e ser integrado nas ideias do treinador. Se Waris foi o único escolhido a dedo por Sérgio Conceição na última época, seria uma surpresa e até mau sinal se o treinador desistisse da sua aposta tão cedo. Por isso, Waris pode muito bem tornar-se um dos reforços para 2018-19.  Deve.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A obra completa de Conceição

Há três anos, numa entrevista de Pinto da Costa ao El País, uma agora célebre frase ficou marcada. «Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar». Uma declaração na altura infeliz, por desvalorizar aquilo que foi o trabalho dos últimos treinadores campeões pelo FC Porto (AVB e Vítor Pereira), mas que agora pode ser parafraseada face àquele que é o desfecho da época 2017-18.

Com Sérgio Conceição como treinador, foi o contrário: foi indiferente o plantel que lhe calhou em mãos. Não tinha um Hulk, não tinha um James, não tinha um Falcao. Herdou um grupo de jogadores sem cultura de campeão, a lista de dispensas da época passada, não teve um único reforço na pré-época e nem sequer pôde ter o requisito básico de ter dois jogadores por posição. Sérgio Conceição pegou em tudo isto... e fez uma equipa. Uma equipa que acaba de conquistar um dos títulos mais marcantes da história do FC Porto. Não por marcar o fim de um jejum ao qual as últimas gerações não estão habituadas, mas pelas circunstâncias que rodearam o futebol português nos últimos anos. 


O que acontece nas últimas jornadas tem sempre o poder de mudar a perspetiva sobre como os adeptos olham para o resto da época, mas insiste-se no que foi dito no início da época: esta não foi uma época preparada para ganhar o Campeonato. Não foi. A administração do FC Porto foi a única a ser alvo de uma punição por parte da UEFA por ter violado o fair-play financeiro em 2016-17. Logo, a prioridade ficou clara, embora nunca assumida pela administração: não havia margem para investir, havia que capitalizar os recursos já existentes e a prioridade seria cumprir com as metas da UEFA para evitar males maiores. 

E Sérgio Conceição escolheu encarar isso como o maior desafio. Não chegou ao FC Porto trazendo com ele uma ideia de jogo particularmente sedutora nos clubes por onde passou. Cumpriu objetivos por onde andou, mas sem nunca mostrar um futebol condizente com quem tem que assumir jogos e que não pode jogar para o pontinho. Mas tudo isso ficou à porta do Olival. 

O treinador olhou para o plantel a aplicou-lhe o conceito de jogo possível. Temos bons laterais? Então vamos aproveitar a sua profundidade e projeção ofensiva. Brahimi é o que mais se aproxima de um match-winner no plantel? Tudo bem, vamos metê-lo a tirar um, dois, três do caminho e a tentar o último passe. Herrera não se adapta a jogar em posse? Não faz mal, vai ser box-to-box. Corona, Hernâni ou Otávio são demasiado intermitentes para garantir um 4x3x3? Sem problema, temos avançados fortes e velozes, vamos metê-los a cair em cima da linha defensiva adversária, a massacrar os defesas e a jogar em profundidade. 

Sérgio Conceição não fez ometeles sem ovos. Fez bolos, fez o banquete inteiro. Cometeu erros? Certamente, mas teve a sensibilidade e inteligência de saber quando ou como os podia ou devia corrigir. Iker voltou à baliza; Felipe saiu do 11 quando tinha que sair e voltou quando estava bem para regressar; mudou o meio-campo e a forma de jogar em vez de tentar descobrir um novo Danilo - que não havia - no plantel; pegou em Marega, que pouco mais oferecia do que força e velocidade, e fez com que não precisasse de mais do que força e velocidade para ser o melhor marcador portista na Liga; Soares, que podia ter ido para a China em ruptura com o treinador, foi transformado no melhor «reforço» de inverno. E podíamos continuar a enumerar exemplos que só reforçam um treinador que, perante uma enxurrada de problemas, respondeu sempre com soluções. 

É um título de Sérgio Conceição, do grupo liderado por Sérgio Conceição e de constantes provas de superação. Cumpriu os objetivos na Liga dos Campeões, ficou às portas das finais da Taça de Portugal e Taça da Liga devido às grandes penalidades e garantiu matematicamente a conquista do título de campeão nacional quando ainda faltavam disputar dois jogos. E agora está a uma vitória de bater o recorde de pontos do FC Porto numa Liga a 34 jornadas. Sem exigências, sem queixas, sem desculpas, mas com muito trabalho. 

Haverá muito mais a discutir sobre a construção do plantel e sobre o trabalho de Sérgio Conceição no final da temporada, mas para já é tempo de celebrar o feito deste grande grupo de trabalho, responsável pela alegria de milhões de portistas nas últimas horas. Nem padres, nem missas, nem afins: 2017-18 será sempre a época do FC Porto de Conceição.






Yacine Brahimi (+) - Foi o responsável pelo momento alto da noite no jogo de consagração do título, ao marcar com mestria o 2x0. Além do golo, Brahimi criou mais duas situações de finalização, teve 7 dribles eficazes e totalizou 81 ações com bola. Foi o principal agitador de um jogo em que, admita-se ou não, os efeitos de uma noite de festa não poderiam deixar de se fazer sentir.


Sérgio Oliveira (+) - Jogo com grande disponibilidade para chegar à grande área adversária - apareceu cinco vezes em zonas de finalização para tentar o remate, mais do que Soares, Marega e Aboubakar juntos. Foi dessa forma que conseguiu inaugurar o marcador, numa partida em que teve 89% de acerto no passe e priveligiou uma circulação mais segura e curta. 

Ricardo Pereira (+) - Não estava a brincar quando, no meio dos festejos, alertou que no dia seguinte havia jogo. Para Ricardo, foi como se os três pontos em causa fossem determinantes para a conquista do Campeonato. Aos 90 minutos ainda andava a percorrer todo o corredor com grande fulgor, ele que contribuiu com 13 ações defensivas e reforçou o seu estatuto de jogador com melhor eficácia de desarme no Campeonato (99 em 119 tentativas). Além disso, ainda criou duas ocasiões de golo, uma delas flagrante.

Tempo de celebrar e desfrutar, mas sem esquecer que ainda há um jogo para se disputar, em Guimarães. O FC Porto está a uma vitória de se tornar o clube com melhor desempenho num Campeonato a 34 jornadas. Que a sede de ganhar seja para manter. Por outras palavras: que Sérgio Conceição seja para manter, por muitas e boas épocas!


terça-feira, 1 de maio de 2018

O (pen)último passo

A equipa que saiu do Restelo no 2º lugar, após desperdiçar uma vantagem de cinco pontos, está agora a um empate de se sagrar campeã nacional. Pode acontecer em Alvalade, pode acontecer no Dragão. Um ponto é tudo o que separa do FC Porto de um dos títulos mais marcantes da sua história - pelas circunstâncias da época desde a sua preparação, pelo passado recente, pela defesa da história do clube e, acima de tudo, por todo o trabalho desenvolvido por este grupo desde o primeiro dia. 


Entende-se a euforia pelas circunstâncias que circulam o momento atual, desde a partida para a Madeira, passando pelo golo de Marega e até à receção no Porto, mas ainda ninguém gritou que o Porto é campeão. Pelo contrário, gritam o mesmo desde o primeiro dia: «Eu quero o Porto campeão!».

E ninguém quer mais do que este grupo. Ninguém merece mais do que este grupo. Falta um ponto!




Brahimi (+) - Foi já sem o argelino em campo que o FC Porto chegou à vitória, mas ninguém procurou mais o golo do que Brahimi, de regresso às boas exibições. Conseguiu invariavelmente colar a bola ao pé, ir à linha e procurar o último passe, mas foi sempre difícil encontrar os colegas no meio da floresta de pernas da defesa do Marítimo. Ainda assim criou quatro ocasiões de golo, fartou-se de pressionar e também ajudou na recuperação, com 10 ações defensivas.

Ricardo Pereira (+) - Alex Telles contribuiu mais no ataque (assistência e quatro ocasiões de golo), mas o lateral-direito foi uma autêntica locomotiva ao longo dos 90 minutos. Inteligente a subir, aproveitou bem o espaço nas costas da defesa para, uma, duas, três vezes, aparecer em posição privilegiada para o cruzamento - ainda que tenha pecado neste aspeto. Foi o jogador com mais ações com bola em campo, ganhou 8 dos 10 duelos que disputou e cumpriu com o pouco que teve que fazer defensivamente.

Marega (+) - Marcou o golo da vitória e que deixou o FC Porto a um ponto do título, o que por si só já vale destaque. Mas a principal nota vai para o facto de Marega ter batido o recorde de dribles eficazes ao serviço do FC Porto: seis em seis tentativas. Ganhou a maior parte dos lances que disputou, 9 em 16, algo também acima da sua média habitual, e ainda criou uma ocasião de golo. Há também que reconhecer a eficiência dos números: Marega não marca nos jogos grandes, nem Champions nem clássicos, mas leva 22 golos em 27 jornadas de bola corrida (sem penáltis, Bas Dost tem 21) e arrisca-se a ficar na história como sendo o melhor marcador num dos ataques mais produtivos do FC Porto nas últimas décadas. O Tribunal do Dragão gosta muito de estatísticas, verdade, e estas são a melhor resposta de Marega.


Héctor Herrera (+) - Há algo que nunca poderemos esquecer: o FC Porto perdeu aquele que era, provavelmente, o jogador mais importante do «coletivo» a meio da época, Danilo. Não havia substituto, por isso Sérgio Conceição teve que mudar de esquema. E aí a importância de Herrera redobrou. Teve que jogar e trabalhar por dois. Ajudou a «puxar» o melhor de Sérgio Oliveira e, muitas vezes, tem que compensar/corrigir o colega. Corre, distribui, pressiona, leva cacete, chega à grande área adversária e está sempre a dar soluções aos colegas. É o pulmão esta equipa. E respira Porto. 

A denúncia anónima (+) - Obrigado. É a única coisa a dizer: obrigado. Não sabemos se a denúncia anónima a envolver o guarda-redes do Marítimo partiu do Benfica, de alguém a mando do Benfica, ou de algum benfiquista que não tinha mais nada que fazer. Mas foi essencial para que o FC Porto chegasse à vitória.

Porquê? Sejamos francos: quem é que sabia quem era Amir, o guarda-redes do Marítimo, antes deste jogo? Poucos. Amir era um guarda-redes tranquilo, sem protagonismo, e que estava bem na baliza do Marítimo - com ele, a equipa esteve 12 jogos consecutivos sem perder, e só na visita ao SC Braga sofreu a primeira derrota. O que é que a denúncia anónima fez? Focou todos os holofotes em Amir, algo a que o iraniano não estava minimamente habituado. Amir sentiu a necessidade de corresponder, de mostrar que era íntegro, que ia ajudar o Marítimo a pontuar.

E foi precisamente isso que provocou a correria ao minuto 40, na qual Amir sai da baliza, na tentativa de ser mais rápido do que o ataque do FC Porto e a defesa do Marítimo. Só um guarda-redes com sangue na guelra tenta fazer aquela saída. Só alguém que sente a pressão e que tem algo a provar. Lamentamos, Amir, que tenhas sido o prejudicado no meio disto, mas há que agradecer a quem mexeu com a tua cabeça: se não tivessem intranquilizado e, consequentemente, «expulsado» o guarda-redes do Marítimo, quiçá não estaríamos neste momento a lamentar outro resultado. 




Primeira parte (-) - A derrota do Benfica frente ao Tondela não só retirou pressão ao FC Porto como relaxou, em demasia, a equipa. Primeira parte que até começa com uma boa ocasião para marcar, mas que depois revelou uma equipa frouxa, de pouca intensidade, a criar poucas jogadas de perigo nos últimos 20 metros e pouco interessada em marcar cedo. Otávio nunca conseguiu entrar no jogo, Soares desperdiçou as ocasiões que teve (embora tenha arrancado uma expulsão). Não a jogar para o empate, mas a jogar com o empate na cabeça. Foram 45 minutos de encontro ao rendimento das últimas semanas (dificuldade em fazer golos, sobretudo em bola corrida), algo que teve meramente como exceção a primeira parte frente ao Vit. Setúbal. Não é o melhor momento da época em termos exibicionais, e há que reconhecê-lo; mas é o momento em que os pontos e o resultado valem mais do que a performance. E o título está a um ponto.

Um ponto. Ser campeão em campo é sempre mais saboroso, mas veremos o que acontece em Alvalade. 

Duas notas: faz hoje sete meses que Sérgio Conceição, depois do empate a zero em Alvalade, gritou na roda: «Nós vamos ser campeões!» E foi há uma volta atrás, frente ao Feirense, o próximo adversário no Dragão, que Brahimi, na cara de Fábio Veríssimo, bateu no peito em frente ao árbitro e deixou a promessa: «Nós vamos ganhar!» Dito isto, nomeiem Fábio Veríssimo para a receção ao Feirense. A sério. Ele merece testemunhar aquilo que lhe foi prometido há uns meses.

domingo, 4 de março de 2018

Estofo

Um pouco de contexto. Do meio-campo para a frente, a equipa do FC Porto era composta por quatro jogadores que, num passado recente, estavam dispensados/emprestados (Sérgio, Otávio, Marega e Gonçalo), o maior mal-amado desde Silvestre Varela (Herrera) e um jogador que estava afastado das opções no início da última época (Brahimi). 

Nos 11 titulares não estavam dois dos melhores laterais a nível europeu nesta época (Ricardo e Alex), o melhor médio da Liga (Danilo) e o melhor marcador do FC Porto (Aboubakar) entre todas as provas. No setor defensivo, espaço para três trintões em final de contrato e um miúdo de 18 anos a fazer a estreia em clássicos. 

O resultado foi uma demonstração de estofo, pragmatismo e superação, que aproxima o FC Porto de um sonho que o trabalho de Sérgio Conceição e do plantel pode tornar realidade. São 67 pontos em 25 jornadas. Nem José Mourinho, nem Jesualdo Ferreira, nem Vítor Pereira conseguiram mais em todas as épocas em que foram campeões, só para dar os exemplos mais recentes. Juntem a isso, a nível global, o terceiro ataque mais concretizador da Europa, só atrás de PSG e City. Uns com milhões, Cavanis, Neymares e Agüeros, outros com jogadores recuperados da lista de dispensas. 


Era essencial vencer, para arrumar o Sporting das contas do título e não permitir que o Benfica passasse a depender de si próprio, mas esta é uma ameaça que se mantém: basta escorregar numa única jornada para dar ao rival essa oportunidade. A margem de erro não é curta - é quase inexistente. Bem a postura de Sérgio Conceição nesse sentido.

O calendário pode tornar-se uma coisa muito subjetiva - vão ver, na reta final do Campeonato, equipas do fundo da tabela tirar pontos a equipas dos lugares europeus -, mas é verdade que a agenda do Benfica é teoricamente mais simpática do que a do FC Porto, que terá pela frente 7 jogos fora de casa (a contar com Liverpool e Alvalade) e apenas quatro em casa até ao final da temporada. E a onda de lesões no plantel promete não ajudar. 

A visita ao Liverpool serve apenas para cumprir calendário e tentar evitar estragos maiores na eliminatória (em 18 visitas a Inglaterra, o FC Porto perdeu 16 e empatou duas, em cima do minuto 90, em Manchester - por isso dificilmente a história mudará contra um adversário que nos deu 5 na primeira mão), mas a ida a Paços de Ferreira e a receção ao Boavista revelam-se importantíssimas antes da pausa de 15 dias para as seleções, que pode permitir a recuperação de alguns atletas. 




Estofo (+) - Não foi o melhor jogo do FC Porto desta época. E nenhum dos atletas que esteve em campo fez a sua melhor exibição da temporada. Mas os 90 minutos revelaram algo mais: estofo. Tudo começa nas condicionantes para esta partida - a ausência de vários titulares, atletas juntos a fazer o seu primeiro Clássico e a certeza de que o Sporting ia dar tudo neste jogo. O FC Porto aguentou e deu ao jogo aquilo que o jogo lhe pediu. Atacar quando o resultado o pedia, defender quando o Sporting apertava e tentar explorar as saídas rápidas quando se abria a janela de oportunidade - e aqui, uma vez mais, Sérgio Conceição muito bem a realçar que poderia ter sido feito melhor para matar o jogo.

Brahimi e Otávio passaram mais tempo a fechar o corredor do que a procurar atacar e, defensivamente, a equipa esteve quase sempre prática e limpa a afastar o perigo - tirando o lapso de Marcano, aos 20 minutos, o setor mais recuado esteve quase irrepreensível. Além disso, depois de sofrer o 1x1 a fechar a primeira parte, a equipa deu uma boa resposta com uma entrada forte e determinada em recuperar rapidamente a vantagem. O FC Porto foi forte quando tinha que ser - na procura da vantagem - e, depois, não se inibiu em defender com tudo. 

Iker Casillas (+) - Era mais ou menos expectável, mas ficámos a saber, pela voz do diretor de comunicação do FC Porto (que, tendo sido jornalista, sabe que quando não quer que algo seja tornado público convém esclarecer que se trata de uma conversa em off), que Casillas vai sair no fim da época. E, cintando, «quando o contrato terminar, vamos logo ter uma folga de alguns milhões de euros anuais». Pois vamos, mas também há um risco de se abrir um buraco na baliza, tamanha que tem sido a preponderância de Iker Casillas, sobretudo nos Clássicos. 

A defesa a remate de Montero, aos 85 minutos, é daquelas que seguram um Campeonato. Uma defesa, uma vitória. Naquele lance Casillas impede, simultaneamente, que o Sporting reentre na luta pelo título e que o Benfica passe a depender de si próprio, enquanto segurou a sexta vitória consecutiva do FC Porto. Com Casillas nas balizas nacionais o FC Porto não perde um jogo desde Agosto de 2016. Vai deixar saudades, e oxalá deixe como o campeão que merece.


Héctor Herrera (+) - Quando Rui Patrício afastou a bola e esta sobrou para Herrera, a tentação seria tentar metê-la rapidamente na grande área. Mas não. Herrera esperou, combinou com Maxi, permitiu a reorganização da equipa e cruzou num momento em que há seis jogadores do FC Porto prontos para atacar a grande área. Marcano fez o golo. Foi o ponto de alto de mais uma exibição todo-o-terreno de Herrera. Foi o jogador com mais ações com bola (57), venceu 12 dos 15 duelos que disputou, recuperou 6 vezes a bola e teve 8 ações defensivas. 

Brahimi resolveu (+/-) - É necessário realçá-lo, tantas que foram as vezes que O Tribunal do Dragão escrevia que só faltava algo a Brahimi: ser decisivo num Clássico. E ao 16º jogo contra Benfica ou Sporting, o argelino finalmente apareceu para resolver, com a calma e classe que o momento recomendava: pentear a bola antes de a colocar fora do alcance de Rui Patrício. Foi um jogo muito difícil para Brahimi - bem como para Otávio, Marega e Gonçalo (que serviu o argelino para o 2x1) -, ele que perdeu a bola antes do golo do empate, não fez nenhum passe para finalização e teve apenas um drible, mas na única ocasião que teve para rematar resolveu um Clássico. Já esteve em 14 golos na I Liga - está a uma intervenção de igualar a melhor temporada da carreira. 




Definir e resolver (-) - Sérgio Conceição admitiu-o sem problemas: o FC Porto não explorou da melhor forma alguns momentos de superioridade numérica e em que podia ter definido melhor. Isto começa no case-study de Marega, que uma vez mais esteve sempre no sítio certo para dispor das melhores ocasiões de golo. Mas nas receções a Sporting e Benfica dispôs de 7 ocasiões flagrantes de golo (isto é, apenas com o guarda-redes entre ele e a baliza ) e falhou todas, mesmo entre o azar de ver uma bola bater no poste e Ruiz ou Battaglia chegarem onde Rui Patrício já não chegaria.

Mas o dado mais negativo acabou por ser a entrada de um Corona completamente a leste, a complicar e a decidir mal. O mexicano entrou num bom momento - fresco, Sporting mais subido, com possibilidade de explorar várias situações de 1x1 e com espaço nas costas da defesa -, mas decidiu quase sempre mal. Um toque interessante de calcanhar e, de resto, uma enxurrada de más decisões e de displicência. Com a lesão de Marega pode ter a derradeira oportunidade para mostrar serviço. Corona não pode ser um André Carrillo - aquele tipo de jogador que sabemos que tem talento, mas depois chegamos à conclusão de que estamos há 5 ou 6 épocas à espera que exploda, até chegar à conclusão de que o rapaz não está mesmo para aí virado. 

Segue-se então a visita a Liverpool, para cumprir calendário e tentar evitar números mais expressivos na eliminatória - o Liverpool visita o Man. United no sábado, por isso também é possível que rode algumas unidades, ainda que deslocações a Inglaterra sejam historicamente sinónimo de derrota para o FC Porto. As atenções devem ser centradas em Paços de Ferreira e a recente visita do Benfica à capital do móvel só deve servir de aviso para as dificuldades que o adversário poderá apresentar. Não esquecendo que o FC Porto, há três meses, chegou a desperdiçar um 2x0 na Mata Real.


Terminando com aquela que pode ser a imagem mais marcante da época:

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Os Pentas: Janeiro de 2018

Quatro vitórias, dois empates e um sabor agridoce ao cair do pano. O mês de janeiro ficou marcado pelo afastamento da Taça da Liga, que pôs fim a uma série de 10 vitórias consecutivas, e pelo comprometedor empate na visita ao Moreirense - uma igualdade já entretanto redimida no arranque de fevereiro, com o regresso à liderança isolada da I Liga e agora com vantagem reforçada. Para já, ficam os melhores do último mês. 

5. Héctor Herrera

MVP dos quartos-de-final da Taça de Portugal, Héctor Herrera continua longe de ter os melhores números nas zonas de decisão (fez apenas um golo no último mês), mas isso não retira mérito ao seu papel na equipa. Por exemplo, já criou 26 ocasiões de golo no Campeonato, apenas superado por Brahimi e Alex Telles no plantel, e está a apenas dois passes para finalização do seu máximo da época passada. Ainda assim, é no papel de recuperador que mais se destaca, ele que é o jogador do FC Porto com maior média de desarmes e recuperações de posse por 90' no Campeonato. E a eficácia de 86% no passe continua a colocá-lo muito acima da displicência que, muitas vezes, e algumas por culpa do próprio, lhe teimam em associar. 

4. Felipe

É caso para dizer: o mês de dezembro passado no banco fez-lhe muito, muito bem. Depois da enchurrada de erros que vinha cometendo jogo após jogo, e que lhe custou a perda da titularidade para Diego Reyes, Felipe acordou e entrou finalmente numa sequência de boas exibições. Autoritário, forte no jogo aéreo e a inventar menos na retaguarda, assinou a vitória na visita ao Feirense (ainda que tivesse sido expulso - não voltou a ver cartões desde então) e passou a ser o central com mais duelos aéreo defensivos ganhos na Liga (80, à frente dos 76 de Marcano), além de ser o 2º com mais interceções (50). O que lhe falta na saída de bola e na cobertura compensa no jogo aéreo, nas dobras e na forma como se limita, muitas vezes, a afastar o perigo para longe. 

3. Ricardo Pereira

Fez apenas uma assistência para golo em janeiro, mas a sua consistência é notável, seja na defesa ou a jogar mais adiantado no corredor. Não é um lateral possante fisicamente, mas compensa com a forma aguerrida como disputa cada lance. Comparativamente com Alex Telles, embora não seja tão forte a cruzar, assume bastante mais os lances de 1x1 (59% de acerto), tem maior eficácia de desarmes pelo chão (54%) e tem uma interessante média de 53% de eficácia no jogo aéreo, o que não deixa de ser notável para um jogador que é algo leve. Nas últimas semanas Ricardo tem apostado mais nas diagonais quando chega ao último terço e subiu para 75% de acerto em remates enquadrados com a baliza. Falta-lhe melhor colocação no remate. 

2. Alex Telles

Não surpreenderia ninguém se vencesse «Os Pentas» de Janeiro, mas a verdade é que Alex Telles não foi eleito MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em nenhum dos jogos do último mês, algo que acabou por ter peso nas contas finais. O que não significa que a sua influência não seja evidente. O brasileiro somou mais três assistências no último mês e, neste momento, já leva 15 passes/cruzamentos para golo entre todas as competições. É o 5º jogador das Ligas europeias que mais passes para finalização fabrica e está entre os 8 que mais assistências assinaram. Há ainda a destacar o facto de conseguir jogar de forma limpa e agressiva ao mesmo tempo: ainda só viu um cartão amarelo na Liga. 

1. Yacine Brahimi

O mago argelino regressa ao topo d'Os Pentas, muito graças à forma fulgurante como arrancou o mês de janeiro. Eleito MVP nas vitórias contra V. Guimarães e Feirense, o terceiro melhor driblador das Ligas europeias (111 dribles eficazes, apenas atrás de Neymar e Messi) já teve intervenção direta em 17 golos esta época. Defensivamente, Brahimi também continua a destacar-se (só Danilo e Herrera recuperam mais bolas por jogo do que ele). Se é certo que a fechar o mês lhe faltou algum fulgor, também não deixa de ser verdade que há um denominador comum: quando Brahimi não está no seu melhor, toda a equipa sofre o mesmo. Sem Brahimi, o FC Porto é muitas vezes uma equipa previsível, de bola na frente e limitada nas ideias no último terço. Por isso, mesmo quando não está no seu melhor, Brahimi é absolutamente essencial e continua a nivelar por cima o nível da equipa. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Os Pentas: Dezembro de 2017

Oito vitórias consecutivas em jogos oficiais. Uma sequência que o FC Porto não alcançava desde a época 2010-11, mas que tem sido justificada com uma série de boas exibições, não só a nível coletivo como individual. Esta série de triunfos teve início precisamente em dezembro, o mês que agora avaliamos em retrospetiva, com os cinco jogadores que mais se destacaram ao longo das seis vitórias consecutivas nesse mês, com a importante marca de 22 golos marcados. Foi provavelmente o mês em que mais candidatos houve ao top 5 - assinale-se, desde logo, a injustiça de jogadores como Ricardo ou Alex Telles não figurarem na lista - , mas estas são as escolhas d'O Tribunal do Dragão.

5. Moussa Marega

No que toca a competições internas, Marega continua a ser garantia de um golo por jogo, seja com um remate certeiro ou uma assistência. No último mês, conseguiu cinco golos e um passe decisivo, tendo sido particularmente importante com o bis apontado diante do Marítimo (3x1), que valeu a permanência no primeiro lugar. O maliano continua a falhar muito mais do que acerta, mas continua a acertar o número suficiente de vezes para justificar a continuidade no 11. E a equipa tem ajudado, e muito, Marega a evidenciar as suas potencialidades físicas e a esconder as suas limitações técnicas, fazendo do maliano o 2º jogador que mais vezes recebe a bola na grande área para rematar na Liga.

4. Héctor Herrera

Denominador comum: a melhor fase do FC Porto desta época foi aquela em que Herrera esteve em melhor forma. Um patinho feio habilita-se sempre a que digam: «Herrera está bem porque o FC Porto está bem». Mas o mexicano reafirmou-se mesmo como essencial. Bem na ocupação do espaço, tem sido sempre o elemento com mais ações com bola (média 83/jogo), apoia bem os flancos, farta-se de correr e pressionar e é o 3º principal criador de oportunidades de golo no plantel, apenas atrás de Alex Telles e Brahimi. 

3. Danilo Pereira

Faz a diferença na retaguarda, mas já todos conhecem a sua utilidade na grande área adversária, tendo conseguido um golo e duas assistências em dezembro. Personifica tudo o que os adeptos querem ver num jogador: qualidade, inteligência, capacidade de revolta sem perder a compostura. Considerado o melhor em campo nos jogos contra Benfica e Vit. Guimarães, é o médio com maior percentagem de tackles e bolas aéreas ganhas na Liga e tornou-se o melhor passador do FC Porto na prova, com 88,2% de eficácia de passe, à frente de Herrera. Não só conseguiu adaptar-se ao 4x4x2 de Conceição  - esquema difícil para ele no arranque da época - como se tornou essencial no funcionamento dessa fórmula. 

2. Yacine Brahimi

Curiosamente, não foi eleito o MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em nenhum dos jogos disputados em dezembro (algo que influencia Os Pentas), mas ninguém duvidará da sua influência na equipa. Autor de quatro assistências e dois golos no último mês, continua a exibir-se numa dimensão à parte na I Liga, onde já leva 88 dribles eficazes, mais do dobro do segundo melhor driblador do Campeonato. Brahimi desequilibra, cria 2 situações de finalização por jogo, é quem mais bolas recupera no meio-campo adversário e não tem havido jogo em que o brilho de Brahimi se faça sentir. É o génio do plantel e, provavelmente, o mais virtuoso e talentoso jogador do Campeonato. 

1. Vincent Aboubakar

Dez golos: foi esta a modesta contribuição de Vincent Aboubakar no último mês, colaboração que faz dele o melhor jogador de dezembro. Além de ter apontado oito golos, ainda somou duas assistências (sem contar com as faltas que sofreu para grandes penalidades) e demonstra melhorias claras na hora de atirar à baliza - era o jogador com mais ocasiões flagrantes de golo falhadas na Liga, mas em dezembro aproveitou todas as de que dispôs. Aboubakar tem intervenção direta num golo a cada 70 minutos e já ultrapassou, em larga escala, o rendimento de André Silva, o melhor avançado da última época.



O Top 5 mais votado dos leitores d'O Tribunal do Dragão para Dezembro/2017:
1. Yacine Brahimi
2. Danilo Pereira
3. Héctor Herrera
4. Vincent Aboubakar
5. Alex Telles

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Novo desafio, nova superação

O FC Porto nunca tinha estado em desvantagem no marcador neste Campeonato. E se a primeira parte também não deu ares de que a reviravolta seria tarefa fácil, Artur Soares Dias voltou a dar um exemplo de que nem com os melhores árbitros deste Campeonato o FC Porto pode estar «descansado». Se o golo do Vitória é perfeitamente aceitável, por ser um lance no limite, há mais duas grandes penalidades por assinalar a juntar ao cardápio e uma expulsão poupada a Rafael Miranda. Lances que, felizmente, não fizeram falta nem colocaram em causa a justiça do desfecho do jogo, fruto de uma grande segunda parte. 

A equipa está ao nível da última época de Vítor Pereira - mesmos pontos e mesma diferença de golos - e distingue-se, neste momento, pela grande facilidade em criar situações de remate e finalização na grande área, sendo inclusive a melhor equipa do Top 6 da UEFA nesse aspecto - 11,9 remates na grande área/jogo, à frente de Bayern, PSG e Real Madrid, as únicas equipas a rematar mais de 10 vezes na grande área por partida. 

E mesmo na vertente defensiva, apesar dos 2 golos sofridos, na Europa só Man. City (6,3) e Nápoles (7,5) permitem menos remates por jogo do que o FC Porto (7,7). Um exemplo de que isto se trata de uma equipa forte a atacar e a defender, madura e equilibrada taticamente, que não ocupa o lugar que ocupa graças a místicas, raças e outros lugares comuns. O FC Porto é líder porque é uma equipa de qualidade, com cunho de Sérgio Conceição, que combina a tal luta com bom futebol.




Brahimi (+) - Se não está no seu melhor nível desde que assinou pelo FC Porto, então anda lá perto. Foi o único a exibir-se a bom nível na primeira parte, com destaque para a forma como inventou uma jogada que ninguém aproveitou aos 44', mas foi no segundo tempo que deslumbrou, ao criar e aproveitar sozinho o espaço para o 2x1, numa jogada de génio. Em toda a Europa, só Neymar e Messi têm mais dribles eficazes do que o argelino, que criou 4 ocasiões de golo, rematou 4 vezes e só falhou uma tentativa de drible. A este nível, e com o 28º aniversário à porta, o mercado pode agitar-se.


Fórmula na 2ª parte (+) - Sérgio Conceição admitiu-o, e bem: o FC Porto teve imensas dificuldades no jogo exterior até ao intervalo. Nada estava a funcionar pelos flancos, tanto que a equipa não acertou nenhum cruzamento na primeira parte. Depois, o FC Porto forçou particularmente as subidas pelo corredor direito e foi desse flanco que nasceu a vitória: três cruzamentos de três jogadores diferentes (Corona, Hernâni e Ricardo), para três boas finalizações de Aboubakar e Marega, que nem estavam a fazer um bom jogo, mas apareceram quando foi preciso para resolver.




A primeira parte (-) - O FC Porto foi a tempo de transformar um Machado num Boné, pela forma como reajustou a estratégia para a segunda parte. Mas isso não invalida o grande desacerto e desconcentração que marcaram os primeiros 45 minutos. Nada a funcionar pelos flancos, demasiados passes longos falhados, dificuldades em encontrar espaço. Corona desconcentrado e inconsequente, Danilo e Óliver sem entendimento no miolo, Aboubakar e Marega a perderem a maioria das bolas e pouca profundidade nos corredores. Valeu o despertar ao intervalo, para a oitava vitória consecutiva. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Como ele cresceu!

Ainda ninguém sabia o que eram padres, missas e e-mails, mas já se perspetivava um grande futuro a Fábio Veríssimo, o «wonderboy» que, literalmente no espaço de um mês, passou das distritais para o estatuto de árbitro internacional, com apenas um par de jogos de I Liga no currículo e atropelando as diretrizes da FIFA

É caso para dizer: como cresceu o menino! Bruno Paixão, VAR para o Feirense x FC Porto, deve ter ficado orgulhoso com o que testemunhou, recordando os seus célebres desempenhos no Campomaiorense x FC Porto (99/00) ou no Gil Vicente x FC Porto (11/12). Veríssimo honrou a herança de Paixão.

Mas de facto, há que ter a sensibilidade de discutir uma coisa: Fábio Veríssimo fez o que fez por ser um árbitro inqualificado para o cargo?; ou fê-lo por estar condicionado e sob pressão? Tudo bem, à partida, quem está condicionado e sob pressão já não pode ser qualificado para o cargo. Mas estará Fábio Veríssimo refém de que sabem enumerar nomes, moradas, famílias, matrículas e mais detalhes - alguns deles ilícitos - da vida pessoal dos árbitros? É a questão que se impõe, sabendo que o resultado acaba sempre por ser o mesmo: benefício para o Benfica, prejuízo para o FC Porto.

Sérgio Conceição e os jogadores escaparam à rasteira e, de uma jornada de Benfica x Sporting, tiraram o máximo proveito: o regresso à liderança isolada, com os registos que têm acompanhado a equipa - invencibilidade, melhor ataque e melhor defesa. Dizer que foi na raça de pouco vale, porque a raça, por si só, não ganha nada. Mas quando é acompanhada por esta inteligência e qualidade, sim, faz a diferença.

O FC Porto fez, e bem, uma exposição ao Conselho de Arbitragem, mas não pode deixar que esta tenha o mesmo resultado das anteriores. Por exemplo, já poucos se recordarão que o FC Porto fez o mesmo relativamente à arbitragem de Rui Costa na receção ao Arouca, em 2015-16, após erros que envolviam um golo mal anulado e um penálti (com consequente expulsão) perdoados. Mas se calhar a coisa de que muitos mais rapidamente se recordam foi que Maicon escorregou nesse jogo e desistiu de um lance.

Outro exemplo, o FC Porto-Chaves da época passada, que também foi alvo de uma exposição face à arbitragem de Vasco Santos. De que resultou? De nada, pois logo depois houve uma derrota com o Moreirense e empates com Feirense e Paços de Ferreira, e já ninguém quis saber de arbitragem. Aliás, só nessa época, até ao mês de dezembro o FC Porto fez não uma, nem duas, mas sim cinco exposições ao Conselho de Arbitragem. Que efeito tiveram? Zero. Benfica campeão, FC Porto prejudicado, o mesmo filme das últimas épocas. O erro não pode ser repetido. 




Brahimi (+) - Já teve intervenção direta em 16 golos nesta época, o último dos quais o 1x0 nesta visita ao Feirense. Num jogo em que foi difícil para as individualidades «aparecerem», Brahimi voltou a ser denominador comum na criatividade do FC Porto, tendo sido eficaz em todas as tentativas de drible no meio-campo adversário. Teve 65 ações com bola, por exemplo mais do que Aboubakar e Marega juntos, e fez dois dos cinco remates enquadrados do FC Porto.


Aboubakar (+) - O único à frente de Danilo Pereira a conseguir acompanhar o ritmo de Brahimi e a acrescentar coisas à equipa. Abriu o marcador, com o seu 24º golo nesta época, criou mais uma ocasião flagrante de golo e tentou sempre oferecer soluções à equipa, quase sempre longe dos últimos 25 metros. Não esteve tão assertivo no passe como seria desejável, mas acabou por revelar-se novamente decisivo num jogo muito difícil, do qual se destacaram ainda Danilo, Alex Telles e pouco mais - Felipe cometeu vários erros, mas quem acaba por fazer o golo da vitória, no único remate do FC Porto à baliza do Feirense na segunda parte, tem que merecer destaque. 

O regresso de Óliver (+) - Este mês de janeiro vai ser a oportunidade para esclarecer uma coisa: ou Óliver não contava porque o FC Porto já tinha a sua saída alinhavada para este mês, ou porque era uma opção de Sérgio Conceição. Se é opção, é sem dúvida a mais discutível decisão do treinador. Não por Herrera estar mal (pelo contrário), mas por Óliver ser, em qualquer dia da semana, melhor do que André André e Sérgio Oliveira (que, bem vistas as coisas, não conta para o esquema habitual, mas sim para quando é necessário mudar de esquema inicial). Falhou apenas um passe nos últimos 55 metros e deu calma à equipa, sobretudo após o 2x1, além de ter orientado a equipa para o ataque - André André fez apenas cinco passes para a frente no meio-campo adversário. E enquanto Óliver teve 6 ações defensivas, André André teve apenas duas, tendo perdido a maioria das jogadas que disputou. Óliver é melhor. Quem quer ser campeão tem que jogar com os melhores mais vezes. 




Já lá vão 5 dias (-) - Não custa muito lembrar: o mercado está aberto. E podemos continuar com as graçinhas de que não são precisos jogadores se todos estiverem disponíveis, ou que Messi e Ronaldo são muito caros, mas desvalorizar esta questão - coisa que certamente pelo menos Sérgio Conceição não o faz - é abusar da sorte. Para todos os efeitos, apesar das contingências provocadas pelo apito, foi apenas de bola parada que o FC Porto conseguiu rematar à baliza do Feirense na segunda parte. Uma cabeçada de Felipe, um golo. Faltam soluções, e não basta estarem todos disponíveis.

André André, Corona e Marega estavam disponíveis, mas não conseguiram boas exibições. Hernâni estava disponível, mas pouco mais serve do que para fazer número. Layún, que queriam fazer sair, teve que entrar na equipa para ajudar a segurar a vantagem. Soares, que (também prejudicado pela lesão) tem tido dificuldades em fugir à descrição de que é melhor reforço de inverno do que um jogador para médio prazo, é a única alternativa para o ataque neste momento. Não chega. Sérgio Conceição merece melhores condições, merece mais consideração. 

À 11ª jornada o FC Porto tinha 4 pontos de vantagem sobre o Sporting. Passado duas jornadas perdeu a vantagem. Neste momento voltou a isolar-se na liderança, com dois pontos de vantagem. Cabeça. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um desajeitado com jeito para o golo

O FC Porto vai terminar 2017 na liderança da I Liga, com o melhor ataque, a melhor defesa, o apuramento para os 1/8 da Champions no bolso e a dois passos do Jamor. Não interessa como começa - ou como vai a meio -, mas sim como acaba, já o diz o treinador. Mas não poderia estar a correr melhor. 


A equipa sofreu uma nova transformação nas últimas semanas e encontrou o equilíbrio entre controlar o jogo com bola enquanto produz volume ofensivo suficiente para marcar um, dois, três golos. E fá-lo com apenas dois médios declarados, algo que parecia impossível de se atingir no início da época, enquanto reabilita jogadores/ativos que vão desde Reyes a Herrera, de Marega a Aboubakar. Um prova de superação de Sérgio Conceição e dos seus jogadores.




Marega (+) - O título desta crónica descreve o maliano: um desajeitado com jeito para o golo. Porque é isso que Marega está a garantir: golos. Não chega para uma dimensão europeia, mas tem sobrado e feito a diferença em contexto nacional. Dois golos de pé esquerdo - até aqui só tinha feito um dessa forma - que dispensaram técnica, colocação e a tentativa de defesa do guarda-redes. Em 14 jornadas, Marega soma intervenção direta em 15 golos, 12 dos quais da sua própria autoria, desta vez com o mérito de saber ler na perfeição a desmarcação de Brahimi - algo que demonstra, inclusive, a melhoria de Marega na leitura de jogo, pois no início da época estava sempre a cair em fora-de-jogo e agora é raro fazê-lo. Continuam a faltar-lhe muitas coisas, coisas que Marega talvez nunca terá, mas não lhe falta o mais importante: golos. Marega e golos na mesma frase. Estranho, mas já não é uma surpresa.


Alex Telles (+) - Chegou às 10 assistências nesta temporada, novamente de bola parada, mas voltou sobretudo a destacar-se na forma como ataca o corredor e municia a grande área. Só falhou um passe em meio-campo adversário, fez 7 passes para finalização, meteu 17 bolas na grande área e permitiu que Brahimi se dedicasse sobretudo à zona interior, pois o corredor era todo do brasileiro. Alex, brasileiro e lateral-esquerdo tem sido um perfil bem satisfatório no FC Porto. 

Brahimi, por dentro (+) - Visão perfeita do espaço e da desmarcação de Marega para os dois golos do avançado, com dois passes a rasgar a defesa do Marítimo. E é também um exemplo de que, para meter os avançados nas costas da defesa, não é preciso meter Marcano ou Felipe a fazerem passes de 50 metros. Brahimi progrediu, leu o espaço e fez o passe com força e colocação suficientes para enquadrar Marega com a baliza. Duas belas assistências e um exemplo de que os atalhos para a baliza não precisam de ser bicadas para o ataque. 

Outros destaques (+) - Estreia de Reyes a marcar com a camisola do FC Porto e a dar boas indicações nas primeiras aparições ao lado de Marcano. Sérgio Conceição aguentou Felipe no 11 tanto quanto possível, mas o brasileiro estava a cometer demasiados erros e as suas exibições já «pediam» banco. Faltava saber se Reyes estava preparado, mas para já não tem destoado. Aposta inteligente de Conceição - quando chegarmos a fevereiro, talvez Reyes não vá jogar contra o Liverpool por Felipe estar castigado, mas sim pelo mexicano já ser o dono do lugar. Por muito questionável que seja ter uma dupla de centrais em final de contrato e a poder assinar por qualquer outro clube dentro de duas semanas. Palavra para Marcano, que ganhou 10 dos 11 lances pelo ar que disputou. 

Ricardo Pereira voltou a dar boas indicações à frente de Maxi Pereira e Héctor Herrera encheu novamente o campo, tendo melhorado particularmente na forma como controla o ritmo do meio-campo - teve um total de 116 ações com bola. E como tem sido hábito, mais um jogo quase irrepreensível de Danilo, impecável no jogo aéreo e na cobertura do meio-campo, ainda que tenha falhado algumas saídas de bola.




Apostar mais pelo meio (-) - O FC Porto criou 15 ocasiões de golo durante a partida. Doze delas surgiram a partir dos flancos. Três em zona interior - e dessas três, duas deram golo. Além dos dois passes de Brahimi para os golos de Marega, só Marcano fez um passe em zona interior para uma zona de finalização. Tendo em conta o quão perigosas foram as poucas incursões do FC Porto pelo meio, a exibição só peca por não ter sido mais bem aproveitada neste capítulo.

Agora resta esperar que o Pai Natal seja generoso com Sérgio Conceição. Isso ou tentar esticar os milagres até maio. Convém não arriscar.