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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Porto de Champions

Sexta vitória consecutiva, terceira na Champions e um ponto a separar o FC Porto do objetivo. Ganhar os dois jogos, com sete golos marcados, à equipa do Pote 1 do grupo não só é inédito como significa um passo de gigante para os dragões na competição, com a capacidade de saber encontrar a eficácia nos momentos-chave mesmo entre períodos em que a qualidade não se consegue revelar tanto quanto gostaríamos - ou não estivéssemos nós a falar da Liga dos Campeões.

Certo é que os últimos jogos revelaram um salto qualitativo na equipa, que encontrou novas soluções para chegar ao golo nos palcos europeus e já não depende tanto das bolas paradas para fazer a sua escalada na Champions. Como Sérgio Conceição relembrou (e bem), o FC Porto perdeu Aboubakar, que na época passada fez cinco golos na Champions. O próprio Brahimi, porventura o mais virtuoso jogador do plantel para as noites europeias, resume até à data a sua participação na Champions a uma modesta assistência. Mas tal não impede o FC Porto de ter tantos golos marcados como Lokomotiv, Schalke e Galatasaray até ao momento. 


Num grupo que se podia revelar muito perigoso e traiçoeiro, o FC Porto tem-se distinguido com todo o mérito e está muito perto de atingir todas as metas desportivas e financeiras nesta competição. Mérito total para Sérgio Conceição e o seu grupo de trabalho, naquela que tem sido uma ótima Champions: pontuar fora de casa, ganhar em casa, marcar em todos os jogos. Melhor e mais não se pode pedir. 




Héctor Herrera (+) - Voltou à titularidade, marcou e deu a marcar e já é o 4º médio com mais golos na história do FC Porto na Champions (só atrás de uns tais de Deco, Lucho e Zahovic). O FC Porto evoluiu imenso na sua capacidade de ter bola na Champions, mas o perfil box-to-box de Herrera continua a ser importantíssimo nos grandes jogos, quer na recuperação e pressão sobre os adversários, quer na ocupação de espaços.

Marega (+) - Um momento importantíssimo para o maliano, que se estreou a marcar em jogos grandes à margem de bolas paradas. Não que marcar de grande penalidade (sobretudo tendo em conta o historial recente do FC Porto na marca dos 11 metros) ou na sequência de um canto seja menos importante, mas era uma barreira que separava Marega da eficiência nos grandes jogos. Ainda assim, o melhor momento de Marega na partida nasceu logo ao minuto 2, com uma leitura perfeita na jogada do 1x0 (bem também Maxi), ao criar o espaço entre 3 jogadores do Lokomotiv antes de servir de Herrera. É também um lance que marca o distanciamento do papel dominante de Marega na época passada: desta vez é o maliano a trabalhar para a equipa, em vez de ser a equipa a despejar bolas no avançado. Evolução, de parte a parte.

Fortes nas alturas (+) - Pode parecer um destaque atípico tendo em conta a forma como o Lokomotiv fez o seu golo (já lá vamos), mas Felipe, Militão, Danilo e companhia já merecem este destaque: o FC Porto é a equipa da Champions que mais duelos aéreos vence por jogo, com uma média de 21 por partida, tantos quanto a Roma. Tendo em conta que clubes como o Man. United, o Real Madrid, o PSG ou o Barcelona não chegam aos 13 duelos ganhos por jogo (o que pode não deixar de indiciar mais bolinha pelo chão e menos pelo ar...), é bom ver o FC Porto impor-se nas alturas e ganhar mais bolas do que qualquer adversário.

Soluções (+) - Tanto Corona como Otávio são aquele tipo de jogadores que sabemos que têm muito talento, que podem resolver um jogo numa jogada, mas que também muitas vezes adormecem e alheiam-se do jogo e do seu melhor potencial. Mas o mexicano e o brasileiro voltaram a ter interferência direta no marcador e cada um já teve intervenção direta em sete golos esta época. Mesmo que o melhor 11 não contemple, para já, nenhum deles, ter armas prontas a entrar na equipa que têm golo é algo que faltava na época passada e que não foi adicionado ao plantel numa ida ao mercado. A única esperança era, por isso, que Corona e Otávio acordassem, e os sinais têm sido finalmente animadores.




Modernices (-) - É uma crítica antiga neste espaço, que transcende o FC Porto ou Sérgio Conceição. No futebol moderno, os treinadores desistiram de colocar jogadores a cobrir os postes nos pontapés de canto, em detrimento de poderem povoar mais a grande área, dividindo-se entre marcação à zona e marcação homem a homem. Mas neste caso, o povoamento da grande área não impediu um jogador de 1,78m de cabecear sem grande oposição para o golo. Nem ninguém para evitar o cabeceamento, nem ninguém a cobrir o poste. Para refletir.

sábado, 10 de março de 2018

Anfield e o balanço da Champions

Pela primeira vez na sua história, o FC Porto terminou um jogo em Inglaterra sem sofrer golos. Mesmo na anunciada despedida da Liga dos Campeões 2017-18, é um facto assinalável, tendo em conta que foram precisas 19 viagens a terras inglesas para tal acontecer nas provas europeias. É isso que se guarda da visita a Liverpool, num jogo do qual não há muito mais para contar e que certamente não perdurará nos livros de história. 


Tempo de uma apreciação à participação na prova. O FC Porto atingiu o máximo que podia atingir nesta Champions, cumprindo o difícil objetivo de alcançar os oitavos-de-final e que convida a uma reflexão para o médio prazo. O fosso competitivo entre os grandes clubes europeus e as equipas portuguesas promete aumentar e será cada vez mais difícil jogar declaradamente para os 1/8 da Champions. 

Primeiro, porque já só uma equipa terá garantido, via campeonato, um lugar na fase de grupos 2018-19. Depois, porque há que manter em retrospetiva o desempenho dos últimos anos. Por exemplo, com Jesualdo Ferreira, o FC Porto foi sempre aos oitavos-de-final da Champions, em quatro épocas consecutivas, mas nos últimos oito anos já só conseguiu essa meta por quatro vezes. Época após época, estar na elite europeia será cada vez mais complicado. 

E o FC Porto sentiu, precisamente, muitas dessas dificuldades já neste ano. Na Liga portuguesa, o FC Porto tem passeado superioridade jornada após jornada. Boas exibições, goleadas, um dos melhores ataques da história do clube e uma liderança bem vincada após 25 jornadas. Mas na Champions não houve capacidade para revelar a mesma força, com o FC Porto a mostrar, ao longo dos seus oito jogos europeus, muitas dificuldades quer a defender, quer a atacar

Na altura muitos estranharam esta apreciação na fase de grupos, mas o desfecho na prova mostra que não foi acaso. Nos primeiros cinco jogos, o FC Porto marcou 10 golos. Uma boa média num contexto europeu. Mas entre esses 10 golos, 7 foram de bola parada, um de contra-ataque, um numa bola em profundidade e outro numa jogada de insistência e ressaltos na grande área. Não vimos a diversidade ofensiva que o FC Porto apresenta na I Liga. Seguiu-se a goleada ao Mónaco, por 5-2, aí sim já com mais soluções ofensivas, mas frente a um adversário que jogava com suplentes e já arredado da prova. Contra o Liverpool, em 180 minutos, não deu para chegar ao golo. 

Entre lesões, castigos e outros condicionamentos Sérgio Conceição teve sempre as suas opções na Champions limitadas, mas há vários fatores que ajudam a explicar esta dicotomia. Primeiro, tivemos mais defesas do que avançados a marcar na Champions. Repare-se: Alex Telles, Felipe, Marcano, Layún e Maxi Pereira, contra Soares, Aboubakar e Brahimi. Marcaram ainda Danilo e Herrera. E entre todos estes jogadores, apenas Aboubakar marcou por mais do que uma vez (5 golos e 2 assistências, tendo tido influência em 50% dos golos do FC Porto na prova). 

Outro aspecto que mostra a diferença de contexto competitivo é Marega. Na Liga portuguesa, tirando os jogos de maior exigência, é um jogador capaz de garantir golos neste FC Porto, tendo já 20 no Campeonato. Mas na Champions, com exceção das duas assistências que conseguiu fazer no Mónaco, foi quase sempre o elo mais fraco jogo após jogo. As razões são óbvias: na Champions a qualidade das equipas é superior. Quer a defender, quer a atacar. E o facto de, na Liga portuguesa, o FC Porto estar habituado a jogar sempre em meio-campo adversário, contra equipas a jogar com o relógio e para o pontinho, não ajuda a criar o estímulo competitivo necessário para quando toca o hino da Champions. 

Mesmo na dimensão defensiva, houve dificuldades acrescidas. O FC Porto sofreu 15 golos em 8 jogos na UEFA - na Liga portuguesa tem apenas 13 golos consentidos em 25 jornadas. Uma vez mais, as razões são óbvias: os adversários europeus atacam mais, melhor e têm melhores atacantes do que as modestas equipas da I Liga. Mas o estilo de jogo do FC Porto implicava demasiada alergia à bola para poder conviver com a mais alta ambição europeia. Recordando, na fase de grupos: o FC Porto foi a equipa qualificada que menos tempo teve a bola em seu poder (23 minutos de tempo útil) e a 2ª pior percentagem de acerto no passe (77%). Isto prometia problemas que o Liverpool tratou de confirmar. 

Portanto, o FC Porto cumpriu os seus objetivos na Liga dos Campeões 2017-18, mesmo sem jogar um grande futebol e tendo tido diversos problemas/limitações no processo ofensivo e na dimensão defensiva. E há que ter a sensibilidade para compreender que era a primeira época de Sérgio Conceição na Champions, que a equipa mudou de sistema ao longo da prova e que, apesar de tudo, conseguiu apresentar os resultados que eram exigíveis. Os adeptos recordam e saúdam muito mais facilmente a vitória com um golo às três tabelas do que a derrota com uma grande exibição. 

E é precisamente por aqui que temos que terminar: a exigência da SAD em que a equipa marque presença nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Toda esta questão em torno do Estoril x FC Porto revelou um detalhe deveras importante. O FC Porto precisou da bilheteira do jogo com o Liverpool, no Dragão, para pagar dívidas antigas, por jogadores que já nem estão nos quadros do clube, e impedir que o clube chegasse ao final de março sujeito a nova punição por parte da UEFA. Isto já depois de a SAD ter tornado o FC Porto no único clube a ser punido por violar o fair-play financeiro na época passada.

É um tanto irónico. Sérgio Conceição a precisar de reforços e, por exemplo, Iván Marcano em final de contrato. Mas o desempenho desportivo destes profissionais a nível europeu, que permitiu mais um bom encaixe para a SAD, não servia para premiar/reforçar este plantel, mas sim para pagar por atletas que já não estão no clube. Não estamos a falar do prémio pela qualificação para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, de seis milhões de euros. Estamos a falar da receita de bilheteira, que tem sempre um peso altamente reduzido nos proveitos operacionais da SAD, sobretudo estando a falar de apenas um jogo.

O risco mantém-se época após época, mas há muito que O Tribunal do Dragão o defende: as épocas deveriam ser orçamentadas não contando com receitas da UEFA que a SAD não sabe se vai ter, sobretudo a partir desta época. Entre Benfica, Sporting ou FC Porto, dois deles não vão ter receitas da entrada na Liga dos Campeões no próximo exercício (sendo que um ainda poderá apurar-se, via pré-eliminatória e play-off). Entrar na Champions é cada vez mais difícil, quanto mais lutar por um lugar nos 1/8.

É compreensível que o FC Porto não quer perder competitividade e que o risco é a gestão da SAD há muitas épocas, mas tendo em conta que (ainda) estamos a atravessar o maior jejum de troféus das últimas décadas, sobrecarregar o plantel não é o caminho sustentável. Até porque todos concordam: desportivamente, o maior objetivo é ser campeão nacional. Mas o que dá dinheiro não é ganhar a I Liga, é a qualificação e o desempenho para as provas da UEFA. 

A necessidade financeira não pode ser maior do que a ambição desportiva. 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A culpa de Conceição e do plantel

14-02-2018: o dia da maior derrota caseira da história do FC Porto. Os 5-0 sofridos diante do Liverpool superam, em volume de resultado e desilusão, os 6-2 que tinham sido sofridos nos longínquos anos de 1943 e 1945 contra os Unidos de Lisboa e os Belenenses. O que choca é isso: a expressão do resultado, que surpreendeu o próprio Liverpool. A derrota, essa, é mais do que natural. 


Sérgio Conceição e o plantel são culpados disso mesmo: o milagre que têm feito esta época é tão vasto que fez crer os adeptos que era possível competir frente a este Liverpool. Pura ilusão, mas que é inerente ao espírito de qualquer adepto do FC Porto. Os portistas são incapazes de olhar para uma eliminatória sem pensar em superá-la. Achavam que era possível superar este jogo como pensaram que o FC Porto de Luís Castro eliminaria o Sevilha, que FC Porto de Lopetegui resistiria em Munique, que o FC Porto de Peseiro ganhava ao Dortmund e que o FC Porto de Espírito Santo bateria a Juventus. Há jogo que não pensem em ganhar? Há jogo em que não sintam que há uma certa obrigação de vencer?

A verdade é que não temos, neste momento, pedalada para o Liverpool, nem para ambicionar a mais do que a fase de grupos da Champions. Em vez de A podia jogar B, Sérgio Conceição poderia ter optado por outra estratégia, mas o Liverpool, com maior ou menor facilidade, passaria esta eliminatória. Isto não é acaso nenhum e não nos podemos esquecer que já foi com imensa felicidade que o FC Porto conseguiu passar a fase de grupos - para todos os efeitos, o objetivo traçado e que já foi cumprido. O resultado final tem o poder de maquilhar 90 minutos, mas não nos podemos esquecer do trajeto até aqui.

Quem acompanhou os jogos da fase de grupos, com olhos de ver (o que, muitas vezes, não é o mesmo que olhos de adepto), já saberia que iria ser muito difícil tirar alguma coisa deste jogo. Recordamos somente dois dados escritos n'O Tribunal do Dragão há dois meses.

«Os guarda-redes do FC Porto estão entre os que menos trabalho tiveram na fase de grupos. Casillas e José Sá, juntos, fizeram 14 defesas, a 3ª marca mais baixa entre as equipas qualificadas (menos só Juventus e Basileia). No entanto, há que ter em conta que o FC Porto sofreu 10 golos, ou seja, as equipas adversárias quase conseguem marcar um golo a cada dois remates ao alvo. »

Lá está. Os guarda-redes do FC Porto não tiveram muito trabalho na Champions, mas quando os adversários rematam, na maior parte das vezes, dá golo. Foi o que aconteceu. O Liverpool atirou 6 vezes ao alvo e marcou 5 golos. O guarda-redes do Liverpool fez mais defesas do que José Sá. Mas quando os adversários rematam de forma enquadrada com a baliza... Normalmente dá golo. Outro detalhe:

«O FC Porto foi a equipa qualificada que menos tempo teve a bola em seu poder (23 minutos de tempo útil) e a 2ª pior percentagem de acerto no passe (77%). Algo a rever para quem quer sonhar nos 1/8.»

Aí está. O FC Porto foi alérgico à bola na fase de grupos. Basta recordar que, antes da goleada aos suplentes do Mónaco, o FC Porto tinha feito 10 golos: 7 de bola parada, uma bola em profundidade, um golo de contra-ataque e uma jogada de insistência na grande área. Ou seja, não viram o FC Porto marcar um golo que fosse após circulação e ataque planeado. Nada. Ou era de bola parada ou com uma bola direta na frente. Fomos uma equipa com muitas dificuldades em relacionar-se com a bola na fase de grupos. 

O que se viu na receção ao Liverpool? Adversário com 68% de posse de bola aos 10 minutos e 74% aos 20 minutos. Pecado mortal, relacionando isto com a forma como o TdD terminava a crónica da vitória frente ao Chaves: «E certamente que, frente ao Liverpool, não poderemos dar-lhes a bola como demos ao Chaves.» Por outro lado, era assim que o FC Porto vinha jogando desde a fase de grupos; era pouco credível que fosse possível mudar completamente para uma eliminatória com o Liverpool. 

Mas foi a morte do artista. O FC Porto não corrigiu este aspecto relativamente à fase de grupos e cometeu o erro de dar a bola ao Liverpool. Com os executantes e eficácia que a equipa inglesa tem, tinha tudo para correr mal. Demos o ouro ao bandido e o adversário fez o que quis do FC Porto.

A história poderia ter sido diferente? Podia. Se Otávio tivesse feito o 1x0, se Soares tivesse aproveitado a oportunidade a fechar a primeira parte, se José Sá não tivesse falhado... Se, se, se. Quando começamos a enumerar demasiados «ses», estamos em território perdido. 

Sejamos francos. Superar a fase de grupos, tendo em conta o futebol que o FC Porto apresentou, já foi notável. Não é normal uma equipa com tantas dificuldades no jogo com bola vingar na Champions. Logo, não é acidente. O que acontece é que o Liverpool é um bocadinho melhor do que Besiktas ou Leipzig. E fizemos dois grandes resultados contra o Mónaco, mas a fase de grupos revelou que o Mónaco se calhar não era assim tão bom. Não deu para corrigir os erros - ou mudar algumas coisas - após a fase de grupos e, assim, a derrota é uma mera consequência. Sérgio Conceição tentou não mudar muito, mas infelizmente não funcionou. 

Embora a superioridade do Liverpool seja natural, há algumas coisas que têm que ser discutidas. E indo diretamente ao assunto: se querem ganhar o Campeonato, a dobradinha, metam Iker Casillas na baliza. Estas coisas pesam. José Sá é bom rapaz, fez duas boas defesas contra o SC Braga, mas a única coisa que faz melhor do que o espanhol é a reposição da bola em campo (sim, há que dar mérito a Sá - repõe melhor a bola do que Iker, embora o português jogue mais vezes curto do que o espanhol). A maioria das bolas que vão à baliza de José Sá dão golo. Certo, podia ter feito mais no lance do 1x0, mas nos outros pouco podia fazer. Mas psicologicamente, mesmo para a equipa, é desolador saber que se os defesas deixarem escapar alguma bola provavelmente vai dar golo. 

Aquilo que José Sá está, neste momento, a fazer na baliza do FC Porto fá-lo-iam Vaná ou Fabiano. Ou Beto ou Bracalli. Ou Andrés Fernández ou Ricardo Nunes. Temos Iker disponível e não faz sentido nenhum que não seja o titular. É melhor do que José Sá (das 24 bolas que foram à sua baliza na Champions, 12 deram golo). Ponto. Os melhores têm que jogar. Sejamos francos: os adeptos só aceitam, toleram, esta opção de Sérgio Conceição por o FC Porto estar a liderar o Campeonato. Imaginem que esta seria uma decisão tomada por Paulo Fonseca ou Lopetegui. Ninguém ponderaria sequer a hipótese de Sá treinar melhor do que Iker...

E agora um pouco de contexto. A Champions reúne as melhores equipas da Europa. São 32 equipas. Centenas de horas de futebol. Centenas de futebolistas que foram utilizados no decorrer da prova. E entre todos esses jogadores, há apenas um, apenas um, que perdeu a bola na maioria das vezes que tocou nela. Só mesmo para reforçar: entre toda a competição, e todo o universo de Champions, só um jogador perde a bola na maioria das vezes em que interfere no jogo. Não vale a pena dizer quem é, pois. 

Marega tem sido um bom profissional no FC Porto, trabalha muito, tenta fazer o melhor que pode. Mas ver o FC Porto depender de um jogador com tamanhas e insuperáveis limitações no ataque é absolutamente penoso. Saímos do mercado de inverno, contratámos 3 jogadores de caraterísticas ofensivas (um deles um regresso após empréstimo) e parece que continua a não haver outro plano senão ter Marega no 11. Como podemos considerar que o mercado de inverno foi um sucesso neste sentido?

Sim, sim, Marega tem 16 golos no Campeonato. Não marcou na Champions, nem contra o top 4 da Liga (basicamente em nenhum jogo de grau de dificuldade elevado, mas isso é um problema de toda a equipa), mas para todos os efeitos é o melhor marcador do FC Porto na Liga. Mas considerando a quantidade de vezes em que a equipa lhe serve a bola na grande área e o facto de ser o mais rematador do plantel (ainda que 73,8% dos seus remates tenham sido desenquadrados), acaba por ser mais consequência de tempo de utilização/contexto de jogo do que da própria valia técnica individual do jogador. Não que não haja mérito na dimensão física e, não raras vezes, no bom posicionamento que Marega consegue assumir (veja-se o exemplo do clássico do Benfica - Marega desperdiça as 3 ocasiões, mas foi sempre ele a aparecer em posições favoráveis para finalizar). Mas não chega.

Os adeptos habituaram-se a observar/reconhecer que Marega luta muito pelo corredor direito, mas objetivamente: quantas vezes viram Marega ir à linha e sacar de um cruzamento eficaz?; quantas vezes viram Marega fazer uma diagonal, enquadrar-se com a baliza e rematar? A verdade é que a esmagadora maioria das disputas de Marega acabam por ter zero efeitos práticos. Muita luta, poucas consequências. Solução? Reconhecer que Marega pode ser importante em vários momentos no Campeonato português, mas não pode ser aquele jogador que vai estar sistematicamente 90 minutos em campo à espera que saquem de um coelho da cartola.

Não pode, por exemplo, ser comparável a Brahimi, que do nada pode inventar uma jogada que ajuda a resolver um jogo. Marega não faz isso, não pode resolver nada por si próprio, logo a equipa não pode estar dependente dele. As coisas estão a correr mal? Tirem Marega do jogo, pois possivelmente será o último a resolver algo sozinho. E porquê jogar sempre quase por decreto no 11? Porque não guardar Marega para uma segunda parte e enquadrá-lo no caudal ofensivo da equipa? 

Tem que haver mais soluções. Vêm aí jogos essenciais e, embora Marega vá certamente contribuir com alguns golos no que resta do Campeonato, não poderemos dar-nos ao luxo de ter um jogador que, nos clássicos, vai matar quase todas as jogadas de ataque com más receções e domínios de bola. 

Quanto à Champions, e por mais que este resultado tenha doído, a verdade é que esta é a única competição na qual o FC Porto já cumpriu os objetivos para esta época. SAD e equipa definiram os oitavos com meta e os resultados foram atingidos. Mais do que isso, neste momento, não dá. Não se esqueçam de como começou a época: o FC Porto foi o único clube castigado pela UEFA por não cumprir o fair-play financeiro para 2017-18. Esta conquista já ninguém tira à SAD. E Sérgio Conceição, antes de dar o primeiro treino, ficou logo sem 3 jogadores na lista de inscritos para a Champions, consequência da péssima gestão financeira e desportiva da SAD do FC Porto. Exigir o quer que fosse desta época, a nível europeu, era uma utopia.

Querem voltar a elevar a fasquia? Apresentem a fatura a quem aproximou o FC Porto da ruína financeira e não a quem tem feito milagres. Sim, Sérgio Conceição e este plantel têm feito milagres. Cumpriram os objetivos na Champions, estão a um passo da final da Taça de Portugal e dependem de si próprios para continuar na liderança da Liga, num dos campeonatos mais difíceis e competitivos dos últimos anos. 

Treinador e jogadores são culpados por isso: por terem reabilitado competitivamente o FC Porto num contexto de extrema incompetência/indiferença na SAD, que não cumpre o fair-play financeiro, não renova contratos (Aboubakar sendo uma das poucas excepções), não vende jogadores por verbas significativas sem a intervenção de Jorge Mendes no verão e não dá a cara na hora da pior derrota caseira da história do FC Porto. Se os adeptos acreditam que podem ser campeões, que podem fazer a dobradinha e que podiam ser competitivos diante do Liverpool é única e exclusivamente graças a Sérgio Conceição e ao grupo por ele liderado. Por isso, assim se justifica e se subscreve o aplauso dos adeptos que ficaram no Dragão após a maior derrota da história do clube a jogar em causa. Não pelos 90 minutos que ficaram para trás, mas pelo que aí vem. 

Venha o Rio Ave e os 90 minutos mais importantes da semana. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

Quinze curiosidades e números a reter

Alguns dados colocam o FC Porto no top europeu, outros têm que ser melhorados no ataque aos oitavos-de-final. O Tribunal do Dragão compilou algumas curiosidades e estatísticas que marcaram o rendimento do FC Porto na fase de grupos da Champions. 




- Danilo Pereira foi o 2º jogador com mais assistências para golo nesta fase de grupos, pertencendo ao grupo de oito jogadores que conseguiram três passes para golo. Só James Milner, do Liverpool, fez mais (5). Marega, Ricardo e Aboubakar fizeram duas assistências cada. 

- Danilo não só foi quem mais assistiu, mas também quem mais correu no FC Porto, com um total de 54,3 quilómetros. Alex Telles (53,04) e Iván Marcano (51,21) ficaram um pouco atrás, tendo sido os únicos totalistas do FC Porto. 

- Alex Telles e Ricardo Pereira são os 2 laterais que mais passes para finalização conseguiram na fase de grupos. O brasileiro, com 13, é o 9º em termos absolutos (e também o melhor defesa), mas os 12 passes para finalização de Ricardo Pereira ganham particular relevância por, ao contrário de Alex Telles, não bater as bolas paradas. 

- Com 58 dribles, Yacine Brahimi foi o 2º jogador que mais situações de 1x1 tentou na Champions, só atrás de Neymar (68). No entanto, o argelino conseguiu ter melhor percentagem de aproveito nestas situações, com 56,9% de eficácia.

- Aboubakar fez um golo a cada 2,8 remates na Champions e teve intervenção direta em 47% dos golos, algo que faz dele um dos 6 jogadores mais influentes em prova.

- O FC Porto é a equipa com mais tackles por jogo: 22 no total. Além disso, é a 3ª equipa qualificada que mais jogadas adversárias interceta (15 por partida). 

- Não raras vezes vimos o FC Porto limitado a bolas em profundidade, à procura de Marega ou Aboubakar. No entanto, os avançados do FC Porto são os que melhor sabem fugir ao fora-de-jogo: foram assinalados apenas seis na fase de grupos, os números mais baixos da Champions. 

- Os guarda-redes do FC Porto estão entre os que menos trabalho tiveram na fase de grupos. Casillas e José Sá, juntos, fizeram 14 defesas, a 3ª marca mais baixa entre as equipas qualificadas (menos só Juventus e Basileia). No entanto, há que ter em conta que o FC Porto sofreu 10 golos, ou seja, as equipas adversárias quase conseguem marcar um golo a cada dois remates ao alvo. 

- Felipe foi o 2º jogador com mais ações defensivas da fase de grupos: 60, apenas menos uma do que Tosic. 

- Um dado atípico: o FC Porto tem o jogador com mais receções falhadas e perdas de bola (Marega), mas ainda assim consegue ser a 3ª equipa que menos receções de bola falha (74), tantas quanto Liverpool e só atrás de Bayern e Real Madrid. 

- Por outro lado, o FC Porto foi a equipa da fase de grupos que mais vezes foi desarmada pelos adversários: 86, mais uma do que o Sporting e duas do que o Mónaco. 

- O FC Porto é a equipa apurada para os 1/8 que mais lances disputa no jogo aéreo: 195, dos quais ganhou 95. Besiktas, Liverpool e Man. United ganharam mais, mas o FC Porto foi a equipa que mais golos marcou no seguimento de lances de bola parada (oito). 

- Nem tudo foi positivo: Marega terminou a fase de grupos da Champions como o jogador de campo com mais perdas de posse (48,1%) e o FC Porto foi a equipa qualificada que menos tempo teve a bola em seu poder (23 minutos de tempo útil) e a 2ª pior percentagem de acerto no passe (77%). Algo a rever para quem quer sonhar nos 1/8. 

- Embora o FC Porto tenha tido uma relação difícil com a bola, isso não impediu a equipa de ser a 2ª mais eficaz da Champions, com eficácia de 25,9% em remates à baliza. Melhor só o PSG, com 28,7%. Como termos de comparação, veja-se a eficácia de clubes como Real Madrid (19,5%), Man. United (17,1%), Barcelona (14,8%), Juventus (11,5)... ou Benfica (1,7%). 

- Na sua época de estreia na Liga dos Campeões, Sérgio Conceição chega aos oitavos-de-final: tantas vezes quanto Jorge Jesus em toda a carreira. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

E assim se fez a omelete (im)possível

Uma qualificação notável. O FC Porto reforçou o estatuto de mais forte equipa portuguesa no panorama europeu, ao garantir a qualificação para os 1/8 da Liga dos Campeões, com mais pontos e golos marcados do que Benfica e Sporting juntos. Era um objetivo declarado, mesmo sem que alguma vez tenham dado ao treinador as melhores condições para o cumprir, e o FC Porto conseguiu-o com mérito e a pulso, num grupo que era verdadeiramente traiçoeiro.


Na antevisão a esta Champions, foi comentado que neste grupo qualquer equipa era simultâneamente candidata à qualificação e ao último lugar. Ironicamente, o Besiktas, teoricamente a equipa mais frágil, venceu o grupo invicto, enquanto o Mónaco, para muitos a equipa mais forte, sai da Champions sem uma única vitória. Ilustrativo. 

O FC Porto foi inferior ao Besiktas neste agrupamento, foi do 8 ao 80 contra o Leipzig e carimbou a qualificação com duas excelentes exibições frente ao Mónaco. É certo que na última jornada as circunstâncias voltaram a ser favoráveis - à imagem da última época, quando o Leicester se apresentou no Dragão com uma equipa alternativa e também levou cinco -, e não deixa de ser atípico que até este jogo o FC Porto tenha construído a sua pontuação basicamente às custas de bolas paradas e com inconsistência defensiva (só o Sevilha se apurou com mais golos sofridos), mas nas contas finais os objetivos foram cumpridos e merecidos.

A Champions está feita no que às metas financeiras e desportivas dizem respeito. O sorteio dos oitavos-de-final não vai oferecer nenhum adversário simpático, nem diante do qual se possa reclamar favoritismo, mas a pressão já lá vai. Agora é tempo de centrar atenções no Campeonato, no qual até fevereiro muita coisa poderá mudar. Ou então a Champions continua, mas no Bonfim. 




Aboubakar (+) - Importa começar por recordar que o FC Porto não pôde contar com ele na primeira jornada, e que o camaronês terá ferido muitas suscetibilidades por ter ido ao balneário do Besiktas. Mas o que se seguiu foi isto: 5 golos e duas assistências em 5 jogos, com intervenção direta num golo a cada 60 minutos. No que a este aspeto diz respeito, estamos a falar do jogador mais produtivo da história do FC Porto na Champions, superando Rabah Madjer. 

No primeiro golo foi oportuno, no segundo determinado e inteligente a procurar o espaço para a finalização. Mas o melhor veio depois, com um passe absolutamente fantástico para Brahimi matar o jogo. Muito bem a aguentar a bola no eixo central, a vir dar apoio atrás e a distribuir o jogo, num dos seus melhores jogos da temporada. Levou o FC Porto às costas nesta fase de grupos. É caso para afirmar: ainda bem que não há CAN em 2018.


Yacine Brahimi (+) - O segundo melhor driblador da fase de grupos da Liga dos Campeões (só atrás de Neymar), a fechar a fase de grupos com chave de ouro, com mais uma assistência e a estreia a marcar. Foi o jogo em que teve maior influência direta na lista de marcadores, ainda que ao longo da fase de grupos tenha sido o denominador comum na criatividade da equipa. Conseguiu completar mais dribles do que todos os colegas juntos nesta fase de grupos. A prova de uma dimensão à parte e a repetição de um alívio: ainda bem que não há CAN em 2018.

Laterais (+) - Com Danilo e Alex Sandro, o FC Porto tinha uma dupla de laterais de classe europeia. Hoje, só resta dizer que ninguém sente a sua falta, graças a Alex Telles e Ricardo Pereira. Juntos, foram responsáveis por 25 das ocasiões de golo criadas pelo FC Porto nesta fase de grupos e voltaram a ter interferência direta. Alex Telles fez um bonito e merecido golo e Ricardo assistiu Soares com precisão para o 5x2 final. Eficazes a defender, desequilibradores a atacar.

Danilo Pereira (+) - Um daqueles jogos em que a sua presença pode não ter sido muito notada, mas foi decisiva. Fez os passes para os golos de Aboubakar (o segundo) e Alex Telles e empurrou várias vezes a equipa para o meio-campo adversário na saída de bola, tendo falhado apenas um passe no seu meio-campo. Não teve que ter muitas ações defensivas (apenas um tackle, nenhuma bola de cabeça ganha e nenhuma interceção, algo atípico no seu rendimento), mas assegurou sempre o equilíbrio da equipa no momento da perda.

Héctor Herrera (+) - Encheu o meio-campo e fez talvez a sua melhor exibição nesta fase de grupos. Teve um total de 103 ações com bola, mais do que os médios-centro do Mónaco juntos, com 91% de eficácia de passe, criou duas ocasiões de golo e acertou os dois cruzamentos que tentou, além de ter recuperado 15 vezes a posse de bola. E não menos importante, desta vez soube temporizar mais a velocidade do meio-campo, jogar curto e não querer que cada posse de bola fosse uma tentativa de a meter o mais depressa possível na frente. Resultado? O FC Porto teve 65% de posse de bola e esteve quase sempre no controlo do jogo, mesmo com uma unidade a menos no meio-campo. A prova de que não é preciso pressas para golear, mesmo tendo sido sonegadas duas grandes penalidades favoráveis ao FC Porto que, com VAR, seriam certamente assinaladas. Pois, ou então não. 





Deitar o crédito a perder (-) - Não é caso para dizer que Felipe teve meramente um descuido, que cometeu apenas um erro e que tem estado bem nos últimos jogos. Não tem. Podemos recuperar o Machado do jogo com o Aves: «Felipe bem pode agradecer que a dupla com Marcano traga crédito da época passada, e que Reyes não tenha o estofo necessário para entrar no 11, caso contrário já tinha sentado. Começam a ser demasiados erros. O problema não são os passes longos - Marcano e Felipe usam e abusam dos passos longos porque têm instruções para isso. O problema são as constantes hesitações, os maus timings sobre a bola, a falta de sentido prático a cortar os lances.»

Não podemos confundir o que é ter raça e vontade com o cair na ratoeira/tentativa de entrar numa picardia com um adversário e sujeitar-se à expulsão. Felipe não tinha nada que meter as mãos ao adversário ou responder a provocações, sobretudo sabendo que tinha a oportunidade de mostrar serviço para ir à seleção do Brasil. O FC Porto estava a vencer por 2x0, tinha o jogo controlado, mas as circunstâncias da expulsão poderiam ter sido bem mais penalizadoras. Quem não se lembra de outra expulsão disparatada no Dragão, de Herrera, frente ao Zenit, que custou bem mais caro?

Felipe conquistou o seu lugar no 11 com mérito, mesmo nunca estando ao nível de Marcano, mas de há várias semanas para cá tem sido das unidades de menor rendimento na equipa principal, com vários erros de concentração, posicionamento e de abordagem aos lances. O jogo nem estava a correr mal a Felipe, apesar de já ter falhado 5 passes longos, mas um jogador que estivesse concentrado e com a cabeça no sítio não cometeria o erro que Felipe cometeu. Já se penitenciou por isso, mas para já temos a garantia de que teremos que mexer na dupla de centrais e que Diego Reyes provavelmente terá que entrar no 11 nos oitavos-de-final. E será pela expulsão que Sérgio Conceição terá que mexer na dupla de centrais, mas se fosse pelas últimas exibições de Felipe também não poderia deixar ninguém escandalizado.

Acertar os passes longos (-) - Numa retrospetiva a esta fase de grupos, sobra a questão: quantos golos conseguiu o FC Porto através de bolas longas despejadas pelos centrais na frente? Sobretudo durante os primeiros 10 minutos, o FC Porto repetiu a fórmula de meter bolas longas na frente, à espera que Aboubakar ou Marega apanhassem alguma coisa nas costas da defesa. As melhoras jogadas nasceram de circulação de bola, do meio para os flancos, e da procura do espaço para colocar os jogadores em situação de finalização, em vez de bater logo a bola longa na frente. O melhor FC Porto desta época, exceção feita à visita ao Mónaco, foi sempre aquele que quis ter bola e assumir o jogo, em vez de trocar a elaboração da construção de jogo por passes longos de Felipe ou Marcano. Algo a reter para o que aí vem.

Palavra, logicamente, para Sérgio Conceição, que na sua época de estreia na Champions garante o apuramento para os 1/8, sem um único reforço e estando longe de ser consensual em muitas das opções que foi tomando. A verdade é que não falhou na hora H e o FC Porto revelou/reabilitou vários ativos na montra europeia. Não foi a época em que o FC Porto melhor jogou na fase de grupos, mas foi um dos apuramentos obtidos com menos recursos. Uma omelete difícil de cozinhar, mas os ovos foram aproveitados da melhor forma.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Defeito e feitio com vista para os oitavos

Sérgio Conceição resumiu tudo, sem falsas modéstias ou arrogância: «Nem o mais otimista» esperaria que o FC Porto chegasse à última jornada da fase de grupos a depender de si próprio para seguir para os 1/8 da Champions, enquanto lidera a I Liga de forma imaculada e responde com soluções a cada problema provocado por não terem dado um único reforço ao treinador. Mérito inabalável de Sérgio Conceição e do grupo por si liderado, sobretudo quando temos em conta o quão difícil tem sido para o FC Porto jogar esta Champions. 


Se era impensável que o FC Porto chegasse a esta fase com notórias hipóteses de se qualificar, também é difícil imaginar que o FC Porto tenha tanta dificuldade em tratar a bola na Champions, sendo a 2ª equipa que mais passes falha, só atrás do APOEL, e praticamente só as bolas paradas permitem à equipa estar no 2º lugar (7 dos 10 golos nesta fase de grupos foram obtidos desta forma, e os restantes divididos entre um lance de contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada com vários ressaltos). 

O FC Porto de Conceição não nega as suas limitações, convive com elas, e está a apenas uma vitória de cumprir um difícil objetivo de época. O que é muito diferente de já se poder cantar vitória, pois a receção ao Zenit de 2011-12 deve ser sempre mantida como exemplo.




A equipa a defender (+) - Este FC Porto convive mal com a bola, mas isso não retira à equipa o mérito de saber controlar o espaço e a profundidade. O Besiktas teve momentos de grande superioridade, mas o FC Porto limitou o adversário a três únicas entradas perigosas na grande área, duas por Quaresma e uma por Pepe, - além, claro, do golo, um lance que deixou Felipe mal na fotografia (a única falha numa exibição de sentido prático quase irrepreensível) e no qual Sérgio Oliveira (o melhor do meio-campo) pareceu ter parado para coçar as jóias da família em vez de fazer o acompanhamento a Tosun quando este correu para o flanco. Não tivesse ocorrido esta falha e o FC Porto teria feito um jogo perfeito defensivamente, ainda que também José Sá, na sua melhor exibição desde que chegou ao clube, tenha feito 3 defesas de elevado grau de dificuldade.

Brahimi (+) - À imagem da equipa, teve dificuldades em criar perigo objetivo para a baliza adversária (além do golo, só ficaram na retina um remate de Aboubakar e a tentativa de trivela de Ricardo), mas sempre que recebia a bola parecia que o jogo parava. Brahimi arrastava a bola, descobria zonas novas, permitia à equipa subir, partia as linhas do Besiktas que iam aparecendo e foi sempre o único escape de criatividade da equipa. Foi o elemento com maior facilidade em manter e passar a bola, mesmo jogando em zonas mais recuadas e sempre com 2 jogadores do Besiktas em cima dele.




Demasiada alergia à bola (-) - Pode ser mais feitio do que defeito, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O FC Porto divide-se demasiado entre a pressa de querer atacar rapidamente e jogadas perdulárias por querer acelerar demasiado o jogo. Sérgio Conceição pode querer isso, e a forma como monta a equipa, por exemplo jogando com Herrera em vez de Óliver, é um exemplo desse modelo, mas o FC Porto deita demasiadas vezes a perder a posse de bola gratuitamente. Estamos entre as equipas que menos controlam os jogos na Champions, ficando sempre à mercê da eficácia adversária e ficando demasiado limitados aos lances de bola parada. Apesar de o FC Porto gostar de acelerar o jogo, só fez dois golos de bola corrida dessa forma na Champions, o 0x2 no Mónaco e o 3x1 ao Leipzig. De resto, valem as bolas paradas, que são um trunfo, mas não podem significar 70% dos golos que o FC Porto marca.

Atacar as linhas (-) - Ok, o FC Porto é forte nas bolas paradas. E sai de Istambul sem um único pontapé de canto? Faltou forçar a ida à linha, obrigar o Besiktas a cortar para onde estivesse virado. O FC Porto foi forçado a 38 jogadas em que os defesas tiveram que, simplesmente, dar uma bicada ou cortar para a linha, enquanto o Besiktas esteve apenas exposto a 8 dessas situações. Alex Telles não teve a oportunidade de ir nenhuma vez à linha fazer um cruzamento, e o FC Porto conseguiu apenas cruzar 2 vezes com perigo, ambas por Ricardo. E não é por acaso que 2 das 3 jogadas de maior perigo do FC Porto nasceram por intermédio de cruzamentos de Ricardo. O Besiktas ganhou o meio-campo, mas poderia ter sido bem mais explorado pelos corredores. 

Verborreia (-) - «Às vezes não necessito de um treinador como Lopetegui. Quando tenho na equipa Hulk, Falcao e James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores, nem capacidade económica para os substituir, e o trabalho é diferente. (...) No primeiro ano esteve bem, mas no próximo [esta época] vai ser melhor. Não ganhou nada, mas estou satisfeito. Na Liga, um estudo demonstrou que o Benfica foi favorecido com sete pontos. E na Liga dos Campeões foi o Bayern de Munique que nos eliminou nos quartos de final». Pinto da Costa, julho de 2015

Ontem ficámos a descobrir que o FC Porto não foi campeão nos últimos anos não por causa do colinho, do polvo e de tudo aquilo que vem sendo denunciado e combatido no Porto Canal. Descobrimos que o FC Porto não foi campeão porque Pinto da Costa decidiu ir buscar Lopetegui em 2014, um treinador com o qual afinal não era para ganhar. Dirão alguns portistas que Pinto da Costa lembrou-se só agora de vir falar, nas vitórias. Nada mais errado, pois o FC Porto ainda não ganhou nada. E se ganhar não será por certo por enxurradas de disparates, falta de coerência e fugas à responsabilidade como estas. Deprimente. Sérgio Conceição disse recentemente que não queria o diretor de comunicação a falar em nome da equipa. O melhor mesmo é limitar essa faculdade ao treinador.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Andamento de bola parada

Líderes invictos e isolados na I Liga, com 10 bons resultados em 10 jornadas, e numa posição de apuramento para os 1/8 da Champions a 2 jornadas do final da fase de grupos? Perfeito. Se a lei da Champions diz que o apuramento se consegue com três vitórias em casa e um ponto fora, a equipa sabe o que fazer nos restantes jogos, ainda que a vitória sobre o Leipzig tenha voltado a expor o quão difícil será essa tarefa - bastou a lesão de um avançado para obrigar Sérgio Conceição a mudar o esquema de jogo. Felizmente, as bolas paradas abriram o caminho para a vitória, sendo de realçar que o FC Porto faz quatro golos dessa forma ao Leipzig, além de um tipo de golo que raramente acontece na I Liga (defesa adversária subida e espaço de 45 metros para a bola em profundidade). 

Agora o Belenenses. Istambul pode esperar. 




Danilo Pereira (+) - No seu centésimo jogo pelo FC Porto, a sua presença na grande área adversária foi decisiva. Esteve na jogada do 1x0 e fez ele próprio o 2x1, o que por si só já faz dele o homem do jogo. Defensivamente esteve quase impecável - perdeu apenas um lance de cabeça e um corte sobre Keita, sem prejuízos para a vantagem no marcador. O 4x4x2 continua a ser algo novo e difícil para um médio-defensivo que é dos melhores da Europa em 4x3x3, mas Danilo cumpriu e brilhou. Novamente.

Héctor Herrera (+) - O passe e a posse de bola é um problema para o FC Porto nesta Champions (já lá vamos), mas ninguém pensa nisso quando se pensa em Herrera. Tem jogado neste 4x4x2 por ser mais direto no seu jogo, ataca os espaços livres, pressiona, ajuda Danilo na missão defensiva e chega ele próprio várias vezes à grande área adversária. Com ou sem bola, Herrera é uma constante unidade de combate. Está novamente num bom momento e tem sido essencial no combate à inferioridade numérica no meio-campo.


Os laterais (+) - Apesar de o golo de Werner ter entrado num espaço proibido (entre o lateral e o central), Ricardo Pereira e Alex Telles voltaram a ser postos à prova e a rubricar boas exibições. Enquanto na I Liga jogam sobretudo no meio-campo adversário, na Champions têm menos liberdade para subir, mas ainda assim Ricardo e Alex chegaram várias vezes à linha de fundo e criaram seis situações de finalização. Foram os dois jogadores com mais ações com bola do lado do FC Porto. Essenciais no bloqueio do jogo exterior do Leipzig na segunda parte.

Um dia de folga (+) - Dois médios a marcar e o terceiro golo marcado por um lateral/médio-ala saído do banco. Ainda que Aboubakar tenha feito a assistência para o 3x1, é refrescante ver o FC Porto fazer golos e vencer jogos sem a marca goleadora do habitual trio africano. Não que não ver golos de Brahimi, Aboubakar ou Marega seja positivo, mas é sempre bom ver diversidade de goleadores no plantel e saber que, no dia em que os avançados falham, há mais jogadores prontos a encontrar a baliza. 




Alergia à bola (-) - Sérgio Conceição nunca escondeu que pretende impor no FC Porto um estilo de jogo mais direto, acutilante, agressivo, sempre na procura de atalhos para a baliza. E conseguiu, mas sem deixar de ser autoritário na gestão das partidas. O FC Porto é a equipa da I Liga que mais tempo joga do meio-campo para a frente, controla os jogos com bola e tenta circulá-la em toda a largura do campo. Na Champions isso não acontece. Diferentes adversários obrigam a diferentes estratégias, mas há que refletir sobre o facto de o FC Porto ser a segunda equipa que menos circula a bola na Champions (pior só o APOEL) e ser a quarta que mais passes falha (curiosamente, Mónaco e Besiktas estão no mesmo top, o que mostra que isso tem sido uma tendência neste grupo).

O FC Porto foi eficaz nas bolas paradas e soube suster as ameaças do Leipzig (José Sá só teve que fazer duas defesas), mas tem tido dificuldade em relacionar-se com a bola na Champions. Ter sido obrigado a mudar de esquema de jogo a frio não ajuda, mas permitir ao adversário ter tanto tempo a bola pode tornar-se complicado se o poderio dos adversários aumentar. E se o FC Porto tiver de facto de passar a jogar em 4x3x3, devido à ausência de Marega, não será possível jogar tantas vezes em profundidade e a tentar explorar a sua dimensão física pelo lado direito. A rever, até porque em breve haverá visita à Turquia e receções a Benfica e Mónaco. 

Do Dragão leva-se o bom resultado e o moral novamente reforçado. Agora importa vencer o Belenenses, antes da pausa para as seleções, que poderá ser útil para recuperar alguns jogadores. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Puxão à terra

Saltemos desde já todos esses exercícios de falência de criatividade que envolvam analogias entre a Red Bull e asas. Muitos concordavam, à partida para este grupo, que se tratava de um lote de equipas extremamente equilibrado, no qual qualquer clube era simultaneamente candidato à qualificação direta e ao último lugar. Mas curiosamente, os jogos têm sido tudo menos equilibrados.

O FC Porto perdeu com o Besiktas porque foi muito inferior; venceu o AS Mónaco porque foi muito superior; e perdeu com o Leipzig pois foi muito inferior. Equilíbrio não tem sido, de todo, algo presente nos jogos do FC Porto na Champions.

Vamos ao elefante na sala, a titularidade de José Sá. José Sá não tem, nunca teve, nunca revelou estofo para a titularidade do FC Porto. E passar de suplente do atual suplente do Sporting à titularidade na Champions, apenas com joguitos de Taça e pouco mais pelo meio, não é coisa que se recomende. É o mesmo que recordar a linhagem que apontava Paulo Ribeiro como sucessor de Baía ou Hugo Ventura como herdeiro de Helton. Ou Mika como futuro guarda-redes da seleção A, só porque fez um bom Mundial de sub-20. Como José Sá fez alguns bons jogos nos sub-21. 

Mas foi por causa de José Sa que o FC Porto perdeu na Alemanha? Não. Perdeu porque o Leipzig foi muito melhor. Porque o Leipzig foi melhor equipa e os seus jogadores, sobretudo do meio-campo para a frente, foram muito superiores aos do FC Porto. A derrota começou num erro de Sá? Sim, como Iker também errou no 2x1 do Besiktas, ou na época passada em Kiev. Mas o maior problema no jogo não esteve nas bolas que foram à baliza, mas em tudo aquilo que o FC Porto não foi capaz de fazer com bola. 




Aboubakar, os golos e pouco mais (+) - Houve algo de admirável na primeira parte: como o FC Porto, jogando tão pouco, ainda assim conseguiu fazer dois golos. Notável, em dois lances de bola parada muito bem trabalhados, nos quais os jogadores posicionam-se bem, ganham na marcação e conseguem trocar a bola sem deixá-la cair, até ao remate final. Aboubakar fez um bom golo e fartou-se de trabalhar, muitas vezes desapoiado e longe das zonas de decisão, tanto que tocou mais vezes na bola no meio-campo defensivo do que nos últimos 30 metros. Iván Marcano (mal no 3x1, mas a redimir-se logo a seguir) e Alex Telles também fizeram jogos razoáveis, numa noite em que quase tudo saiu mal ao FC Porto.




Zero com bola (-) - O futebol tem destas coisas. O FC Porto venceu e brilhou no Mónaco pois soube dar a posse de bola e a iniciativa de jogo ao adversário, mas sem com isso deixar de controlar o jogo. Em Leipzig, provavelmente os planos passavam pela mesma estratégia, mas tudo correu mal: o adversário soube o que fazer com bola, foi agressivo, muito forte entre linhas (Forsberg isola-se para o 2-1 no meio de seis jogadores do FC Porto!), e cedo se percebeu que o facto de o FC Porto não ter bola já não era estratégia: era incapacidade de a ter.

Há algo que ilustra todas estas dificuldades: a quantidade anormal de vezes em que o FC Porto falhou passes no seu próprio meio-campo. Falhou muito mais no seu meio-campo do que no do Leipzig.

Um festival de passes falhados
Outro grande problema foram os cruzamentos: em 19 tentativas, o FC Porto só conseguiu acertar dois, um deles num pontapé de canto e outro já no minuto 90, por Layún. Sem capacidade para ter bola no meio-campo e não sendo capaz de ter profundidade para criar perigo pelas laterais, reuniram-se condições para o FC Porto pouco ou nada conseguir fazer na Alemanha. Não é por acaso que os golos nascem de lances de bola parada: no jogo corrido, o FC Porto teve 90 minutos que roçaram o zero. 

Subrendimento geral (-) - Vamos repeti-lo pela milésima vez: sabemos que o plantel é curto. Mas não encontrar outra alternativa que não ter sucessivamente Marega a cumprir os 90 minutos, mesmo sem dar uma jogada para a caixa, é preocupante e a maior ilustração de falta de alternativas no plantel. Este dado do Goalpoint resume tudo: «Marega é o único jogador da UCL que perde a bola em mais de metade das vezes que a tem». Em 133 ações com bola, perdeu 52,6% das jogadas. Marega acertou 5 passes em todo o jogo. Cinco, três deles no próprio meio-campo. Criou zero jogadas de perigo, falhou os 2 cruzamentos que tentou, falhou o único drible que tentou e falhou seis receções de bola daquelas que se treinam todos os dias nos iniciados. 

No Mónaco foi decisivo, com duas assistências (o que não invalidou que, na maioria das jogadas, foi bola perdida), mas manter no ataque um jogador que em 90 minutos não acerta uma jogada que seja é surreal. Ainda assim, o subrendimento foi praticamente geral.

Brahimi foi dos poucos a ganhar lances de 1x1, mas foi sempre bem marcado pelo Leipzig e não conseguiu criar desequilíbros no último terço. Danilo e Sérgio Oliveira foram engolidos no meio-campo, no qual Herrera não conseguiu ser eficaz na missão de pressionar e dar velocidade ao jogo. Layún deu nas vistas pela quantidade de vezes que perdeu a bola (35, batendo os recordes de Marega), mas em quase todas as suas subidas pelo corredor não encontrava ninguém para tabelar, ninguém para abrir espaço. Layún chegou oito vezes à linha da quina da grande área, mas perante a falta de apoio, não lhe restava solução que não o cruzamento. E do banco, entre Óliver, Corona e Hernâni, não surgiu nada que mudasse o rumo do jogo. Jogou-se muito, muito pouco.

A vitória no Mónaco não abriu as portas do apuramento e a derrota na Alemanha não as fechou. Da mesma forma que o FC Porto perdeu na visita ao Leipzig, pode vencer dentro de 15 dias, no Dragão, e voltar desde logo aos lugares de apuramento para os 1/8. Mas que não vai vencer muitas vezes repetindo exibições destas, é certinho. 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A outra grandeza

Vamos lá tentar resumir isto: o FC Porto venceu por 3x0 em casa do Mónaco, campeão francês e equipa-sensação na Europa na última época, com Sérgio Oliveira no meio-campo, Marega no ataque, 90 minutos de superioridade tática e num jogo em que Herrera travou mais remates do que Iker Casillas. Agora imaginemos que nos tinham contado esta há três meses. Quantos acreditariam?


Um homem tornou isto possível: Sérgio Conceição. Prometeu que ia mostrar à Europa a grandeza do FC Porto, mas fez algo mais: reafirmou a sua grandeza enquanto treinador. Num jogo em que teve uma opção que traz à memória as noites europeias em que os treinadores parecem imaginar o que não imaginaram em nenhum outro momento na época (vidé Pitbull na frente num 5x3x2 em Milão ou Nuno André Coelho a trinco em Londres), Conceição ganha em toda a linha. E com ele todos nós.




Marega (+) - No jogo frente ao Portimonense, O Tribunal do Dragão destacou este facto sobre Marega: «Apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi». E agora, o que aconteceu no Mónaco? O mesmo que tem acontecido em quase todos os jogos: Marega voltou a ser o jogador com mais perdas de bola e mais passes errados, inclusive acima de Casillas e Benaglio. Marega completou apenas 14 passes e perdeu 42% das bolas de que dispôs. E o que é que também fez? Duas grandes assistências, primeiro ao servir na perfeição Aboubakar, depois ao ter a calma num lance de enorme confusão para entregar o 3x0 a Layún.

Sim, é o jogador de campo com mais perdas de bola entre os que já completaram a 2ª jornada da Liga dos Campeões. E já é também um dos melhores assistentes, com dois passes a régua e esquadro para o golo. E entre todas as suas gritantes anomalias técnicas, em 9 jogos oficiais já teve colaboração direta em oito golos. E este FC Porto de Sérgio Conceição, que nos entusiasma, tem um denominador comum desde o primeiro golo da época 2017-18: Marega esteve sempre em campo, não falhando um minuto. Sérgio Conceição tem as suas razões para não prescindir dele. E o homem já mostrou que percebe qualquer coisa disto. Marega até pode falhar 15 passes em Alvalade e perder 25 bolas. Mas basta uma ou duas no sítio certo. 

Yacine Brahimi (+) - Um minuto de silêncio em memória dos rins de Lemar. Brahimi voltou a estar endiabrado e a mostrar que está num dos melhores momentos de forma desde que veste a camisola do FC Porto. Esteve na jogada do 2x0, foi responsável pela esmagadora maioria dos desequilíbrios individuais, correu, defendeu, pressionou, tabelou com os colegas e garantiu sempre o rasgo de criatividade que, com este 11, pode nem sempre abundar. Brahimi gosta das noites de Champions, mas nos clássicos do futebol português ficou sempre um pouco aquém das expetativas. Será desta que a história muda?



Aboubakar (+) - 15 jogos na Champions, 11 golos. Uma média que fala por si. Voltou a mostrar uma enorme atração por carambolas/recargas no lance do 1x0, mas finalizou com enorme precisão o segundo. Teve alguma dificuldade em distribuir a bola no último terço, mas apareceu no sítio certo, em dose dupla, para colocar o FC Porto na rota dos três pontos. O seu oportunismo fez crer que, com ele em campo, talvez a história da primeira jornada pudesse ter sido diferente. Ah, uma pequena nota: daqui a três meses pode assinar livremente, a custo zero, por outro clube. E jogadores que garantem golos na Champions não costumam passar despercebidos. 

Sérgio Conceição (+) - Esta vitória começa na derrota frente ao Besiktas. Na primeira jornada, Sérgio Conceição tinha duas hipóteses: ao mantinha o esquema que estava a dar resultado no campeonato, ou reforçava o meio-campo e aproximava-se do 4x3x3. Foi fiel às suas ideias na primeira jornada e o FC Porto revelou-se insuficiente não só frente ao Besiktas, mas deixando uma imagem clara de que faltava ali pedalada para a Champions.

O treinador reviu os erros e corrigiu tudo. Literalmente tudo. Todos os erros que o FC Porto cometeu frente ao Besiktas foram corrigidos frente ao Mónaco. Sim, foram só 90 minutos, mas foi um jogo, na sua totalidade, a roçar a perfeição. O FC Porto soube entregar a iniciativa de jogo ao Mónaco sem nunca perder o controlo, foi forte no contra-ataque e no momento de transição, esteve sempre impecavelmente organizado e soube anular os pontos forte do Mónaco, a ponto de Iker Casillas só ter sido chamado a intervir duas vezes, apesar de uma bola ter ido à trave. Em noites de Champions, em que os jogos fora de casa são sempre complicados, é impossível pedir mais. 

Uma das melhores exibições do último ano e da qual ainda ficaram de fora jogadores como Maxi, Óliver e Soares e na qual Sérgio Oliveira saltou do nada para o 11 pela primeira vez com Sérgio Conceição (nem no Nantes lhe tinha dado a titularidade). Sérgio Conceição voltou a admiti-lo no fim do jogo: o plantel tem poucas soluções. Mas que ninguém duvide: temos o homem certo para aproveitá-las ao máximo ainda que, convém lembrar, estamos apenas no final de Setembro. 

Segue-se o jogo mais difícil do calendário nacional, em Alvalade. Será muito pedir mais do mesmo?

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Outra realidade

Mais do que uma derrota do FC Porto, foi uma vitória do Besiktas. Foram melhores, não por deslumbrarem, mas por taticamente terem dominado a partida durante largos minutos. A equipa foi exposta a novos desafios (um adversário a assumir mais o jogo, a marcar primeiro, a saber fechar as laterais e a ganhar o jogo interior), e com isso não houve resposta à altura de sair da estreia da Champions com um resultado positivo. Foram-se 3 pontos, há mais 15 em disputa, num grupo onde qualquer equipa é simultaneamente candidata a passar em 1º e a ficar em último lugar. 


Não é nenhum caso de I told you so, pois eles vão surgir com naturalidade ao longo da temporada. Não temos plantel que permita conciliar os esforços entre Champions e Campeonato. Ao fim de 45 minutos de Champions, na tentativa de encontrar uma solução para melhorar a equipa, Sérgio Conceição trocou Óliver por André André. Incompatível com melhorias na equipa. Ir também buscar ao banco Otávio e Hernâni, na tentativa de dar a volta a um resultado, tem as limitações que já se adivinhavam.

Soares passou 10 minutos a pedir a substituição, porque não aguentava, mas não havia alternativa. E via-se Marega lutar, lutar, lutar, mas uma vez mais a exibir-se penosamente em tudo o que não seja correr e ganhar metros em espaço livre. Culpados? Não. Sérgio Conceição reagiu bem no plano teórico, mas depois ficou entalado perante a falta de alternativas. Os jogadores? Alguns podem dar mais, mas isto não é plantel para estas andanças. Não é. 

Subitamente, discute-se que se calhar o FC Porto deve jogar com um meio-campo reforçado na Champions e nos jogos de maior dificuldade. Mas se Sérgio Conceição tivesse entrado assim na partida, abdicando do seu 4x4x2, talvez o acusassem de alterar a identidade da equipa. A verdade é que as opções são demasiado curtas para se exigir o quer que seja desta fase de grupos. 

Sofrer 3 golos no Dragão, numa noite de Champions, não acontecia desde aquela fatídica noite em que um tal de Artemedia (um clube tão mediático que já mudou 4 vezes de nome desde então) nos deu uma dor de barriga. E é também a primeira vez que uma equipa turca nos derrota. O Besiktas mereceu.

Agora as coisas vão aquecer, com quatro deslocações complicadíssimas (Vila do Conde, Mónaco, Alvalade e Leipzig) nos próximos cinco jogos, no típico ciclo de partidas que consolida ou destrói o moral clássico de um arranque de época com vitórias consecutivas. Confiantes e com vontade de vencer? Claro. Mas uma tangerina não dá um litro de sumo. 




Brahimi (+) - Vai-se tornando habitual: Brahimi pode ser o que mais dá nas vistas no ataque, mas também se destaca pelo seu trabalho defensivo. Voltou a ser o jogador que mais vezes recupera a posse de bola (11), esteve nos lances de maior perigo da equipa e só ele foi conseguindo, a espaços, ganhar situações de 1x1 diante do Besiktas. Imprescindível para a equipa neste momento.


Óliver Torres (+/-) - Não importa as voltas que tentem dar, mas a melhor versão possível deste FC Porto terá que ter sempre Óliver. Falhou alguns passes na primeira parte, mas tentou dar dinâmica e velocidade ao meio-campo, atirou uma bola ao poste e era dos poucos a tentar triangular e a «puxar» os laterais para a frente. Ficou a impressão de que, muitas vezes, tinha ideias que não eram capazes de ser executadas à sua volta. Sérgio optou por trocar o cérebro de Óliver por uma tentativa de ser mais direto e intenso com André André e Otávio no eixo. Não funcionou e, sem Óliver, este FC Porto perde muitos dos seus argumentos. 




Querem os oitavos? (-) - Ir aos oitavos-de-final não é meramente um objetivo do grupo de trabalho: é também uma meta declarada pela SAD. Com isto, olhar para as opções que estavam à disposição do treinador para este jogo é penoso. Não há milagres numa competição desta dimensão. Saca-se do banco André André, Otávio e Hernâni, que fizeram mais bons jogos no Vit. Guimarães do que no FC Porto. Podem ser úteis? Podem, claro. Mas são curtos para esta exigência.

Ver Soares, recuperado de lesão, em esforço a tentar manter-se em campo, há minutos a fazer sinal para o banco, sem que Sérgio Conceição pudesse aceder ao seu pedido, é deveras preocupante. Sérgio Conceição saltou do 4x4x2 para o 4x3x3, mas depois regressou ao plano inicial, sempre limitado pelas opções que tinha à disposição. E não foi preciso haver muitas baixas: bastou faltar Aboubakar no ataque. Não é uma onda de lesões, não é o desgaste de vários meses de temporada: foi um único jogador que não estava disponível para jogar do meio-campo para a frente.

Cobrar o quer que seja a Sérgio Conceição, com este grupo de trabalho, não é razoável. Não há memória de um treinador do FC Porto ter tão pouco em mãos: zero reforços, zero jogadores campeões no plantel (o estofo conta, e muito) e escassez de opções sequer em número. Querem milagres?

Falta talento (-) - Se um jogador como Danilo, Óliver ou Brahimi aparece em subrendimento, é normal que os adeptos lhes deem na cabeça: porque sabem que podem dar muito, muito mais. E é também essa a crítica feita à exibição de ontem de Danilo: desconcentrado, várias vezes mal posicionado e demasiado recuado no início de construção (passou mais tempo no eixo dos centrais do que no meio-campo do adversário). E Corona arrisca tornar-se aquele jogador que, lá para os 30 anos, ainda estão à espera da época de afirmação. 

Agora, criticar Marega? Não, isso não, porque está a fazer o máximo que se pode pedir: está a dar o melhor que tem. Tenta meter o corpo, tenta correr, tenta lutar. E quais são os resultados práticos disto? Metade das jogadas que vão parar aos seus pés são perdidas. Aliás, mais de metade, pois 57% das bolas nos seus pés perderam-se. Pior, em toda a 1ª jornada da Champions, só Forsberg, que vai ser adversário do FC Porto. 

Depois de ter perdido mais de 40 jogadas entre Braga e Chaves, Marega voltou a deixar ao claro as consequências de ter o ataque refém de uma tentativa de reabilitação de um jogador que não tinha lugar em qualquer equipa na história do FC Porto. É culpado? Pois claro que não. Está a ter a fazer algo que só pode merecer elogios: a dar o melhor de si próprio. Jesús Corona, por exemplo, não deu nem metade do que podia. 

Não é por isso uma crítica ao jogador, mas sim a quem compôs um plantel que faz com que os adeptos (e S. Conceição) tenham que aceitar que não há melhor do que Marega para o ataque e que é titular por mérito. É titular não por não haver melhor, mas porque simplesmente não há mais ninguém. É curto, demasiado curto, por muito que confiem em Sérgio Conceição, na garra e na mística (os lugares comuns que não podem ser substitutos da competência) para esticar o que há.

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quarta-feira, 15 de março de 2017

Vamos à décima!

Há dias em que o futebol tem lógica, e ontem foi mais um deles. No atual contexto competitivo entre as duas equipas, a Juventus provavelmente venceria oito ou nove de 10 eliminatórias contra o FC Porto. E para vencerem esta muito contribuíram as duas expulsões, que deixaram o FC Porto em inferioridade numérica em quase duas horas durante a eliminatória. Se já era difícil, assim...

É irónico que tenha sido também muito graças a isso que o FC Porto chegou à Liga dos Campeões - se duas expulsões é mau, imaginem três, como aconteceu com a Roma. Foi algo que foi sendo sempre esquecido ao longo desta época, inclusive quando muitos evocavam Roma como um exemplo de que o FC Porto poderia ser feliz em Turim. Se de facto tivessem acontecido as mesmas circunstâncias - duas expulsões para a Juventus, tipo Dani Alves e Dybala -, sim, talvez tivesse sido possível. 

Há que ser realista. Para quem não se recorda, a última vez que o FC Porto venceu num estádio de um antigo campeão europeu ou candidato à conquista da Champions foi em 2003, em Marselha. E qual foi a última vez que o FC Porto ganhou num estádio de um adversário do calibre da Juventus, da nata do futebol europeu? Provavelmente só em 1996, nos 3-2 de Milão. 

É por isso que o objetivo possível e assumido é sempre chegar aos oitavos-de-final - na fase de grupos temos mais jogos em casa, uma ou duas equipas teoricamente mais acessíveis, e isso permite ao FC Porto manter-se competitivo na Europa do futebol. Quando as equipas portuguesas são confrontadas com o patamar superior, neste momento, não há hipóteses. Muito menos numa época que muitos assumem como sendo de reconstrução para o FC Porto.

No final, o FC Porto sai da Champions com os objetivos cumpridos e de cabeça levantada. É bom lembrar que bastava a Roma não ter sofrido todas as expulsões e talvez nem teria sido possível chegar à Champions - nunca se saberá, pois são circunstâncias do jogo, às quais os adversários são sempre alheios. Mas que não podem ser esquecidas no balanço final. 

No que toca ao futebol praticado, não foi uma boa Champions. A única vitória verdadeiramente categória aconteceu contra os suplentes de um já apurado Leicester, os 5-0 no Dragão. De resto, o FC Porto teve dificuldades em impor o seu futebol, sobretudo porque na primeira metade da época a equipa não estava ao nível que vem demonstrando e consolidando nas últimas semanas. Provavelmente, hoje faríamos melhores jogos contra Brugge ou Copenhaga.

Nos jogos fora houve sempre dificuldades, inclusive em Roma antes de Layún ter feito o 2x0. Derrota em Leicester, vitória em Brugge com um penalty no último minuto, empate em Copenhaga. Mesmo em casa, empate ante o Copenhaga e vitória sofrida frente ao Brugge, já depois de um empate contra a Roma na primeira mão do play-off, desperdiçando uma hora a jogar contra 10. A exceção foram mesmo os 5-0 ao Leicester, que foi ao Dragão longe da máxima força. 

Se houve época em que o FC Porto praticou bom futebol na Europa, 2016-17 não foi uma delas, e não é a luta possível que foi dada em Turim que muda isso. Se o FC Porto quer ter mais aspirações na Europa, terá que assumir uma mudança de política desportiva.

Parabéns à Juventus, sempre melhor na eliminatória e sem nunca perder o controlo da mesma. E parabéns aos adeptos que puxaram sempre pelo moral da equipa, quer durante, quer depois do jogo. Perdemos, mas sem nunca dar nada por perdido. 

É difícil compreender como pode alguém ter aversão à receção que foi feita no aeroporto. Ninguém está ali a festejar a derrota em Turim ou o adeus à Champions: estão sim a puxar pela equipa para as 9 finais que faltam disputar esta época. O que se ouve é «Eu quero o Porto campeão». Não é sorrisos pelo aconteceu em Itália, é puxar pela equipa já a pensar no V. Setúbal. 

810 minutos e 27 pontos é o que separa o FC Porto do regresso aos títulos ou da garantia de que ninguém volta a festejar nada antes de 2018. Não há tempo para curar mágoas ou desilusões: é preciso vencer o V. Setúbal.