É muito difícil encontrar jogadores mexicanos que se afirmem em grandes clubes europeus. Há sempre algum fogo de vista, com exemplos que vão de Chicharito a Giovani dos Santos, mas são poucos os jogadores mexicanos na Europa que têm conseguido manter um nível alto ano após ano.
No FC Porto, Héctor Herrera tem sido por vezes um exemplo de alguma inconsistência, apesar de na época 2014-15 ter sido dos melhores jogadores da equipa e de estar agora, em 2016, a recuperar a boa forma e a influência na equipa. Diego Reyes não se conseguiu afirmar no FC Porto nas duas primeiras épocas. Agora está na Real Sociedad, onde recuperou a titularidade perdida no final de 2015. Jesús Corona está a ter as dificuldades de adaptação típicas de um primeiro ano no FC Porto, com troca de treinadores e modelo de jogo pelo meio. Já Layún tem sido provavelmente o jogador mexicano em melhor forma na Europa em 2015-16, talvez a par de Chicharito.
É difícil o jogador mexicano brilhar ao mais alto nível na Europa, mas o FC Porto acredita muito no seu potencial. E isso está refletido nos investimentos que foram feitos nos últimos anos. E após terem sido leakados mais pormenores do contrato de Reyes (que não eram novidade, antes confirmação) e das suspeitas (independentemente de alheias ao FC Porto) lançadas no México, oportunidade para (re)ver as condições contratuais que trouxeram os últimos mexicanos para o FC Porto.
Herrera e Reyes foram contratados no exercício de 2012-13, apesar de só terem sido reforços para 2013-14. Herrera, por 80% do passe, custou 8M€, mais 1M€ de encargos; Reyes, por 95% do passe, custou 7M€, mais 2,092M€ de encargos; a SAD procedeu de imediato à alienação de 47,5% do passe por 3,5M€ à Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi (que ganhou 6,2M€ com a compra e revenda de 35% do passe de James Rodríguez em 2013 - inicialmente o FC Porto tinha gastado 5,1M€ em 70% do passe e a GFL tinha comprado 35% por 2,55M€).
Isto é, por Reyes e Herrera existiram encargos de 3,092M€. Estes encargos podem incluir diversas coisas, como prémio de assinatura, direitos de imagem ou comissões. As quantias não são discriminadas, mas a SAD, no R&C de 2013-14, acrescentou esta informação:
Com a divulgação dos contratos de Reyes e Herrera, há vários pormenores que constituem novidade.
 |
| O negócio Herrera |
Em 2013-14, Herrera fez o número de jogos suficiente para que a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% do seu passe ao Pachuca por 1,5M€; a SAD continuou a ter 80% de Herrera. Em 2014-15, Herrera fez o número de jogos suficiente para a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% por mais 1,5M€. Ou seja, a totalidade do passe de Herrera ficaria por
11M€. Mas a SAD continua a declarar deter 80%.
Numa carta complementar ao negócio com o Pachuca, as partes acordaram que «20M€ seria um excelente preço para considerar uma venda futura», sendo que a cláusula de rescisão de Herrera era de 30M€. E aqui já é referido que a compra dos restantes 20% em relação ao Pachuca não eram obrigatórios, mas sim uma opção. O acordo terá mudado, com uma condição: se o FC Porto rejeitasse mais de 20M€ por Herrera, o FC Porto teria que pagar o valor proporcional pelos restantes 20%. Neste caso, esta mudança foi vantajosa para o FC Porto.
As comissões para a transferência de Herrera terão sido surpreendentemente baixas. Há apenas referência a um pagamento de 300 mil euros (a 4 prestações) a Nicholas Blair, tendo como referência 10% da remuneração anual de Herrera. A FIFA passou ter como referência 3% da remuneração líquida como comissão, mas nenhum clube está a seguir esta prática - que tecnicamente seria uma regra, não uma recomendação, mas a FIFA parece ter criado a regra para a meter na gaveta.
Em outubro último, aí sim, grandes novidades sobre Herrera, com o pedido de empréstimo de 5M€ à For Gool, uma empresa de Teodoro Fonseca (que controla o Portimonense e detém o passe de Gleison, que convenientemente já está a ser chamado de novo Hulk antes de o FC Porto comprar o seu passe - já tinham feito o mesmo com Ismael Díaz, e no site oficial do FC Porto está escrito que Marega «tem caraterísticas físicas e técnicas que fazem lembrar Hulk»; padrão interessante para valorizar os jogadores).
O acordo era complexo. Se Herrera, o que acabou por acontecer, ficasse no clube, a taxa de reembolso era de 5%. Bem aceitável. Se Herrera fosse vendido à margem da For Gool, subia para 9%; e se fosse a For Gool a tratar da saída, a percentagem seria de 10% da venda. Ou seja, na eventualidade de Herrera sair por 30M€ (o valor da procuração para vender o jogador), a For Goal recebia 3M€ - 60% do valor que emprestou ao FC Porto. Ter uma proposta de 30M€ por Herrera seria de facto muito bom, certamente. Jorge Mendes também cobra comissões de 10% como referência. Mas isto não é uma mera comissão: é uma taxa de empréstimo. E seria de 60%. Tendo em conta que o FC Porto paga uma taxa de juro média anual de 5,02%...
 |
| Um negócio em dupla |
Depois de Herrera, Reyes, que esteve em destaque nos últimos dias por causa das ligações que foram feitas a um cartel mexicano. É um assunto que pode não ser afeto diretamente ao FC Porto, mas
Matías Bunge, representante do Grupo Comercializador Cónclave (ligado ao cartel de Juárez), já se identificou na imprensa com sendo
empresário de Diego Reyes, Héctor Herrera e Jesús Corona. Confirmando-se quaisquer tipo de irregularidades, o FC Porto não pode voltar a negociar com este agente, nem com quaisquer parceiros afetos ao tema. Um clube só é tão transparente quanto os parceiros que escolhe para negociar. À mulher de César não basta ser...
No caso de Corona, já tinha sido noticiado que custou 1,25M€ em comissões: 500 mil euros para a Northfields Sports (ligada a Marcelo Simonian) e 750 mil euros, a três tranches, para a «Cantera Latina». O que é a Cantera Latina? Precisamente uma empresa de Matías Bunge, em Barcelona, registada junto da Federação Espanhola.
No caso de Reyes, a imprensa pegou nas informações do Football Leaks e falou numa comissão de 700 mil euros a Matías Bunge, ou seja, os 10% dos 7M€ por 95% do passe. Mas é bom lembrar que o FC Porto alienou 47,5% do passe. Entretanto Matías Bunge pode ganhar mais 200 mil euros, em caso de renovação de contrato, e mais 300 mil pela transferência para outro clube. Dá 1,2M€ no total.
Mas curiosamente, no documento de 12 de dezembro de 2012 que tinha sido divulgado, estas condições já estavam todas pré-definidas, mas estava ainda prevista uma mais-valia de 10% para o agente. Não se sabe se a mesma continua aplicável ou se terá sido rejeitada.
O mais curioso é que o Football Leaks tenha divulgado agora os pormenores relacionados com a Conclave, quando em 2015 já o tinha feito, na altura mostrando ainda um contrato com o empresário Ricardo Rivera (em representação da Northfields Sports) que carecia de assinaturas. O mesmo previa uma comissão de 500 mil euros e uma mais-valia de 10% acima dos 8M€.
Curiosamente, 500 mil euros já tinha sido quanto a Northfields Sports lucrou por Corona. E é difícil crer que a SAD se tenha disponibilizado a pagar duas comissões aos mesmos protagonistas por dois jogadores diferentes. Os tempos em que só se pagava comissões no momento da venda já vão distantes, mas pagar comissões a dobrar num só ato de compra (uma no contrato do jogador, outra no contrato entre os clubes) é um ato de audaz modernismo.
Com as suspeitas a envolver os mencionados intervenientes num esquema de lavagem de dinheiro no México, nada mais é de esperar que o FC Porto apure toda a transparência dos envolvidos. Sobretudo quando o presidente do FC Porto afirmou, em outubro, que quer continuar a apostar no mercado mexicano. E de preferência, reservar as comissões altas para o momento em que os empresários oferecem boas propostas de venda ao FC Porto, não no momento da compra, na qual qualquer sujeito pode surgir no papel de intermediário; já para arranjar propostas para vender jogadores por 30M€ ou mais, não é qualquer um que o faz. Prova disso é que ainda não vimos nenhuma boa proposta trazida por estes agentes, mas para a intermediação no momento da compra receberam confiança redobrada. É caso para dizer: têm que ser mesmo bons empresários, que vão dar muito dinheiro ao FC Porto.
PS: O Dragões Diário, o órgão independente do FC Porto que só escreve o que os superiores do FC Porto mandam (foram os próprios a admiti-lo, por mais confuso que possa parecer), deu-nos a conhecer que Vítor Baía errou numa das suas análises, ao dizer que Bruno Alves e Meireles tinham saído após Dublin. É a segunda gafe de Vítor Baía, um dos muitos comentadores em espaço televisivo, e o Dragões Diário, entre todas as
Guerras que poderia comprar, escolheu Vítor Baía. Ao segundo erro, não perdoaram, mais parecendo que Vítor Baía era tratado não como alguém que cometeu uma gralha, mas sim como um inimigo.
O rigor e os factos são importantes, e Vítor Baía errou. Que tem isso a ver com o FC Porto? Nada. Está no seu programa a título pessoal, e de certeza que não está no topo daqueles que mais disparates sobre o FC Porto dizem. Mas ao errar no espaço de um ano (Bruno Alves e Meireles saíram em 2010, não em 2011), Vítor Baía teve honras de críticas oficiais do FC Porto. É caso para dizer: cuidado, José Peseiro, que ao próximo erro estás completamente tramado. Peseiro disse que Herrera, capitão do FC Porto, está «há ano e meio no clube». Na verdade está há dois e meio, quase três. E como para o Dragões Diário não é admissível falhar num espaço temporal de um ano, à próxima falha Peseiro pode muito bem ser o próximo visado.
Felizmente, a maioria dos portistas já não se está está a rever neste registo, e são cada vez mais os que cancelam a subscrição do Dragões Diário, o que devia ser um alerta para reverem o serviço que prestam. Vai aparentando que há mais pessoas a precisar do Dragões Diário do que o FC Porto. O Dragões Diário já cometeu imensas gralhas, muito mais graves do que as de Vítor Baía; a diferença é que Baía faz o que quer a título pessoal, não está em representação oficial do FC Porto. Provavelmente nunca exercerá um cargo de grande importância no FC Porto, pois, opinião, nunca aparentou ter o perfil para isso (se quiser que prove o contrário). Mas é isso que mais surpreende: se um Vítor Baía (por mais ou menos gralhas que cometa, por melhor ou pior gestor que seja, ninguém duvida que só quer o melhor para o FC Porto e que o clube retome o rumo das vitórias) já causa tanta comichão, então há demasiada inquietação e falta de confiança no FC Porto.
PS2: A propósito dos jogadores mexicanos e da desejada compra de Layún, refira-se que o FC Porto tem até 30 de junho para comprar Layún, pagando 3M€ no momento em que exerce a opção de compra e mais 3M€ a 31 de julho. Se deixar passar estes prazos, terá que negociar a compra com o Watford, leia-se, com Giampaolo Pozzo. O FC Porto pagou 500 mil euros pelo empréstimo de um ano.