Terminou a primeira volta do campeonato. Se o jogo com o Benfica tivesse terminado aos 90'+1 minutos, ou se tivéssemos vencido em Paços de Ferreira, contra o Belenenses ou no Bonfim, o FC Porto estaria neste momento a depender de si próprio para ser campeão. São muitos ses, que não vale a pena lamentar agora.
Mas numa época em que o FC Porto não ganhou praticamente metade dos jogos que disputou (46,7%), tem reforços que não rendem, problemas no ataque, limitações no plantel, más arbitragens, um treinador muitas vezes ainda à procura de acertar a fórmula para a equipa e uma tensão inegável entre grande parte da massa associativa e a direção do clube, chegar a esta fase a 4 pontos do Benfica não é, de todo, algo que possa desmoralizar a equipa. Basta um deslize do rival, devidamente aproveitado pelo FC Porto, e a possibilidade matemática de lutar pelo título regressa.
Defensivamente o FC Porto tem sido competente (7 golos sofridos em 17 jornadas), mas o ataque é, sem dúvida, o grande problema desta equipa. E isto não diz respeito apenas aos avançados, mas a todos os jogadores que são envolvidos no momento de remate ou finalização.
O FC Porto tem 31 golos marcados, mas o maior problema não é o número total: foram aqueles 0x0 contra Belenenses, V. Setúbal ou Paços de Ferreira. Bastava um remate certeiro em cada um destes 3 jogos para estarmos numa posição altamente favorável no campeonato. Os golos não apareceram, por isso, para a segunda volta, é importante perceber onde foram cometidos erros e como se pode melhorar. Atentos ao quadro abaixo.
O que mais salta à vista: ofensivamente, o FC Porto é muito mais perdulário do que Benfica ou Sporting, ao converter apenas 37,8% das ocasiões flagrantes de golo de que dispôs. Ao longo de 17 jornadas, o FC Porto falhou 26 destas ocasiões. Benfica e Sporting, juntos, falharam 25.
Há um nome incontornável nesta estatística, André Silva. É o jogador com mais remates, mais remates dentro da grande área e mais ocasiões flagrantes do Campeonato. E é também o jogador que mais ocasiões flagrantes falhou. É o responsável pela ineficácia do FC Porto? Claro que não. Não é o problema: o problema é ser a única solução.
André Silva tem 11 golos no campeonato, 2 de penalty. Tem mais golos do que todos os restantes atacantes do plantel juntos. Os homens que se seguem são Diogo Jota, com quatro golos (três no mesmo jogo), Brahimi, com três (está na CAN e passou muito tempo fora das opções), e Marcano, que é central, também com três. Só mais um jogador marcou por mais do que uma vez, Óliver.
O líder, o Benfica, não tem nenhum jogador a marcar mais golos do que André Silva. O melhor marcador do Benfica, Mitroglou, precisa de mais tempo para marcar do que André Silva, por exemplo. Mas o rival tem mais gente a fazer golos, tem soluções mais variadas para o ataque.
No FC Porto, André Silva carrega praticamente sozinho o peso dos golos, ele que tem 21 anos recentemente feitos e está a cumprir a sua primeira época completa na equipa principal. Surpresa não é que falhe alguns golos: é estar já a carregar todo este peso nas suas costas. E isso tem um problema adjacente: todos os jogadores que estavam no plantel na época passada estão a fazer menos golos.
Corona tem apenas um golo. Há um ano já tinha oito. Brahimi tinha 4, agora tem menos um. Herrera tinha cinco, agora apenas um. Danilo levava três, esta época tem um. Layún, André André e Varela tinham marcado, este ano estão em branco. Só neste pequeno grupo de jogadores há um total de menos 18 golos marcados em relação à época passada. O futebol nunca será tão assim tão simples, mas bastava que um deles tivesse caído na baliza do Belenenses, do Paços de Ferreira ou do Setúbal para dependermos de nós próprios na luta pelo título.
Só um jogador marca mais do que há um ano: Marcano, que tem três golos, mais dois do que há um ano. O FC Porto ganhou novos marcadores no campeonato (Jota, Óliver, Alex Telles, Felipe, Rui Pedro e Depoitre), mas entre os jogadores que transitaram face à última época o rendimento tem decrescido. Dirão, e bem, que a função destes jogadores não é a mesma do ponta-de-lança (não se pode julgar um defesa ou um médio pelo número de golos), mas lá está: quando André Silva falha, não está a aparecer aquela alternativa que muitos avisaram que faria falta no início da época. Ou seria mais jogadores capazes de aparecer na grande área e marcar, ou seria o tal ponta-de-lança experiente que alguns acharam que seria Depoitre.
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| Pecados de pré-época |
No início da época, quando Depoitre chegou, Nuno pretendia jogar em 4x3x3. Neste momento, joga de forma diferente, mais próximo de um 4x1x3x2. Os planos que podiam ser vistos para Depoitre num esquema de um ponta-de-lança são totalmente diferentes de uma estratégia com dois avançados. E é por isso que Nuno aposta incansavelmente em Jota e André Silva: pois não vê neste momento mais nenhum avançado no plantel que possa fazer aquelas duas posições.
O mercado está aberto. E é preciso o mesmo que no início da época: um avançado experiente, capaz de garantir golos, mas desta vez mais capaz de oferecer outro tipo de mobilidade ao ataque. Não é um acaso algum que os dois últimos reforços de inverno que tiveram grande impacto imediato no FC Porto se chamavam Lucho González e Ricardo Quaresma: ambos já eram não só muitos experientes como conheciam o clube, estavam habituados a um futebol de equipa grande, autoritário, à pressão dos resultados e dispensavam qualquer período de adaptação.
Janeiro não é momento para disparates como aquelas que foram as contratações de Suk e Marega, jogadores que não eram melhores do que quem já cá estava e que rapidamente passaram ao atestado de dispensa (por norma um empréstimo para a Turquia ou uma equipa do nosso campeonato). Não é momento para trazermos um avançado para lhe permitir subir um degrau na carreira: é o momento para trazer um avançado que faça o FC Porto subir um degrau. Ter a capacidade de estar lá para resolver no dia em que André Silva - que deve continuar a ser o nosso matador de eleição, com todo o mérito - não acertar. Era preciso no início da época e é preciso agora.
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| Guimarães não é o FC Porto |
O que se faria com 12 milhões de euros? Por menos o FC Porto comprou Jackson Martínez. Ou Lisandro. Ou Falcao. Ou outros jogadores que, não sendo pontas-de-lanças, garantiam golos, como Hulk, James ou até Lucho. Jogadores que não só tinham uma qualidade excecional como até permitiam à SAD fazer parcerias para partilhas de passe, tão apreciadas. Maregas? Não serão nunca solução. Como se diferencia os Maregas dos Falcoes, é essa a questão, pois erros de casting há em todo o lado. Mas é, ou devia ser, por isso que os sócios reelegeram esta direção, por isso é que há 28 mil adeptos num treino, por isso é que temos um departamento de scouting: para apresentarem serviço, trabalho de qualidade. Hoje, não memórias do trabalho passado.
Nenhum adepto poderá aceitar que se invistam (ou que se percam) mais de 12 milhões em Depoitre e Boly, que não jogam, e que neste momento não haja uma alternativa sólida para o ataque. É essencial trazer um avançado neste defeso. Se há dinheiro para um central suplente, tem que haver para um avançado titular. E a SAD não se pode dar ao luxo de cometer muitos mais erros de casting quando o tema é a posição 9.
Entre Aboubakar, Depoitre, Adrián, Walter, Marega, Ghilas e Suk (a estratégia de contratar avançados do nosso campeonato tem falhado redondamente - todos gostam de se lembrar de Derlei, mas é bom lembrar que já lá vão mais de 13 anos), só nestes 7 nomes, o FC Porto tem metidos quase 40 milhões de euros. O problema não é só o imenso prejuízo que as contratações estão/vão dar: é que qualquer um destes jogadores foi contratado com a missão de fazer golos pelo FC Porto, e nenhum deles o está a fazer (Aboubakar teria sido uma boa solução para se manter no plantel, mas o clube assim não o entendeu - e ainda não trouxe ninguém melhor do que ele).
A SAD tem a responsabilidade de encontrar uma solução para o ataque; todos os jogadores do plantel têm que procurar melhorar as suas marcas pessoais e aparecerem mais vezes na lista de marcadores; e NES tem que tentar tirar o máximo proveito de todas as unidades que estão à sua disposição. Se estes pilares falharem, não será em 2017 que o FC Porto vai voltar a celebrar um título. Até Soares, Mário Soares, um dia disse: «Não se fazem omeletes sem ovos».
























