Mostrar mensagens com a etiqueta Depoitre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Depoitre. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O que faz falta

Terminou a primeira volta do campeonato. Se o jogo com o Benfica tivesse terminado aos 90'+1 minutos, ou se tivéssemos vencido em Paços de Ferreira, contra o Belenenses ou no Bonfim, o FC Porto estaria neste momento a depender de si próprio para ser campeão. São muitos ses, que não vale a pena lamentar agora. 

Mas numa época em que o FC Porto não ganhou praticamente metade dos jogos que disputou (46,7%), tem reforços que não rendem, problemas no ataque, limitações no plantel, más arbitragens, um treinador muitas vezes ainda à procura de acertar a fórmula para a equipa e uma tensão inegável entre grande parte da massa associativa e a direção do clube, chegar a esta fase a 4 pontos do Benfica não é, de todo, algo que possa desmoralizar a equipa. Basta um deslize do rival, devidamente aproveitado pelo FC Porto, e a possibilidade matemática de lutar pelo título regressa. 

Defensivamente o FC Porto tem sido competente (7 golos sofridos em 17 jornadas), mas o ataque é, sem dúvida, o grande problema desta equipa. E isto não diz respeito apenas aos avançados, mas a todos os jogadores que são envolvidos no momento de remate ou finalização. 

O FC Porto tem 31 golos marcados, mas o maior problema não é o número total: foram aqueles 0x0 contra Belenenses, V. Setúbal ou Paços de Ferreira. Bastava um remate certeiro em cada um destes 3 jogos para estarmos numa posição altamente favorável no campeonato. Os golos não apareceram, por isso, para a segunda volta, é importante perceber onde foram cometidos erros e como se pode melhorar. Atentos ao quadro abaixo.


O que mais salta à vista: ofensivamente, o FC Porto é muito mais perdulário do que Benfica ou Sporting, ao converter apenas 37,8% das ocasiões flagrantes de golo de que dispôs. Ao longo de 17 jornadas, o FC Porto falhou 26 destas ocasiões. Benfica e Sporting, juntos, falharam 25.

Há um nome incontornável nesta estatística, André Silva. É o jogador com mais remates, mais remates dentro da grande área e mais ocasiões flagrantes do Campeonato. E é também o jogador que mais ocasiões flagrantes falhou. É o responsável pela ineficácia do FC Porto? Claro que não. Não é o problema: o problema é ser a única solução.

André Silva tem 11 golos no campeonato, 2 de penalty. Tem mais golos do que todos os restantes atacantes do plantel juntos. Os homens que se seguem são Diogo Jota, com quatro golos (três no mesmo jogo), Brahimi, com três (está na CAN e passou muito tempo fora das opções), e Marcano, que é central, também com três. Só mais um jogador marcou por mais do que uma vez, Óliver. 

O líder, o Benfica, não tem nenhum jogador a marcar mais golos do que André Silva. O melhor marcador do Benfica, Mitroglou, precisa de mais tempo para marcar do que André Silva, por exemplo. Mas o rival tem mais gente a fazer golos, tem soluções mais variadas para o ataque. 

No FC Porto, André Silva carrega praticamente sozinho o peso dos golos, ele que tem 21 anos recentemente feitos e está a cumprir a sua primeira época completa na equipa principal. Surpresa não é que falhe alguns golos: é estar já a carregar todo este peso nas suas costas. E isso tem um problema adjacente: todos os jogadores que estavam no plantel na época passada estão a fazer menos golos

Corona tem apenas um golo. Há um ano já tinha oito. Brahimi tinha 4, agora tem menos um. Herrera tinha cinco, agora apenas um. Danilo levava três, esta época tem um. Layún, André André e Varela tinham marcado, este ano estão em branco. Só neste pequeno grupo de jogadores há um total de menos 18 golos marcados em relação à época passada. O futebol nunca será tão assim tão simples, mas bastava que um deles tivesse caído na baliza do Belenenses, do Paços de Ferreira ou do Setúbal para dependermos de nós próprios na luta pelo título.

Só um jogador marca mais do que há um ano: Marcano, que tem três golos, mais dois do que há um ano. O FC Porto ganhou novos marcadores no campeonato (Jota, Óliver, Alex Telles, Felipe, Rui Pedro e Depoitre), mas entre os jogadores que transitaram face à última época o rendimento tem decrescido. Dirão, e bem, que a função destes jogadores não é a mesma do ponta-de-lança (não se pode julgar um defesa ou um médio pelo número de golos), mas lá está: quando André Silva falha, não está a aparecer aquela alternativa que muitos avisaram que faria falta no início da época. Ou seria mais jogadores capazes de aparecer na grande área e marcar, ou seria o tal ponta-de-lança experiente que alguns acharam que seria Depoitre. 

Pecados de pré-época
E é de facto incontornável falar de Depoitre. Contra o Chaves, entrou na segunda parte, marcou e mostrou o seu primeiro momento de utilidade no FC Porto. Um jogador da sua envergadura física, quando colocado na grande área e apesar de todas as suas limitações, vai sempre ter uma oportunidade para meter a bola na baliza, chame-se Depoitre, Hassan ou Tiago Caeiro. Mas desde então, não voltou a jogar no Campeonato, e nas duas jornadas seguintes Nuno preferiu apostar em Rui Pedro: em Paços para tentar ganhar o jogo, contra o Moreirense para gerir o resultado. 

No início da época, quando Depoitre chegou, Nuno pretendia jogar em 4x3x3. Neste momento, joga de forma diferente, mais próximo de um 4x1x3x2. Os planos que podiam ser vistos para Depoitre num esquema de um ponta-de-lança são totalmente diferentes de uma estratégia com dois avançados. E é por isso que Nuno aposta incansavelmente em Jota e André Silva: pois não vê neste momento mais nenhum avançado no plantel que possa fazer aquelas duas posições.

O mercado está aberto. E é preciso o mesmo que no início da época: um avançado experiente, capaz de garantir golos, mas desta vez mais capaz de oferecer outro tipo de mobilidade ao ataque. Não é um acaso algum que os dois últimos reforços de inverno que tiveram grande impacto imediato no FC Porto se chamavam Lucho González e Ricardo Quaresma: ambos já eram não só muitos experientes como conheciam o clube, estavam habituados a um futebol de equipa grande, autoritário, à pressão dos resultados e dispensavam qualquer período de adaptação.

Janeiro não é momento para disparates como aquelas que foram as contratações de Suk e Marega, jogadores que não eram melhores do que quem já cá estava e que rapidamente passaram ao atestado de dispensa (por norma um empréstimo para a Turquia ou uma equipa do nosso campeonato). Não é momento para trazermos um avançado para lhe permitir subir um degrau na carreira: é o momento para trazer um avançado que faça o FC Porto subir um degrau. Ter a capacidade de estar lá para resolver no dia em que André Silva - que deve continuar a ser o nosso matador de eleição, com todo o mérito - não acertar. Era preciso no início da época e é preciso agora.

Guimarães não é o FC Porto
As contas de merceeiro são muito fáceis de fazer. Mas o FC Porto investiu mais de 12M€ em dois jogadores - Boly e Depoitre - que pouco utiliza e que não serão nunca opções prioritárias para Nuno Espírito Santo (é essencial dar-lhe um avançado neste defeso, sobretudo após a mudança de esquema tático; para se segurar um treinador é preciso arranjar matéria prima para as suas ideias, acredite-se ou não que seja a melhor opção para o lugar). 

O que se faria com 12 milhões de euros? Por menos o FC Porto comprou Jackson Martínez. Ou Lisandro. Ou Falcao. Ou outros jogadores que, não sendo pontas-de-lanças, garantiam golos, como Hulk, James ou até Lucho. Jogadores que não só tinham uma qualidade excecional como até permitiam à SAD fazer parcerias para partilhas de passe, tão apreciadas. Maregas? Não serão nunca solução. Como se diferencia os Maregas dos Falcoes, é essa a questão, pois erros de casting há em todo o lado. Mas é, ou devia ser, por isso que os sócios reelegeram esta direção, por isso é que há 28 mil adeptos num treino, por isso é que temos um departamento de scouting: para apresentarem serviço, trabalho de qualidade. Hoje, não memórias do trabalho passado. 

Nenhum adepto poderá aceitar que se invistam (ou que se percam) mais de 12 milhões em Depoitre e Boly, que não jogam, e que neste momento não haja uma alternativa sólida para o ataque. É essencial trazer um avançado neste defeso. Se há dinheiro para um central suplente, tem que haver para um avançado titular. E a SAD não se pode dar ao luxo de cometer muitos mais erros de casting quando o tema é a posição 9. 

Entre Aboubakar, Depoitre, Adrián, Walter, Marega, Ghilas e Suk (a estratégia de contratar avançados do nosso campeonato tem falhado redondamente - todos gostam de se lembrar de Derlei, mas é bom lembrar que já lá vão mais de 13 anos), só nestes 7 nomes, o FC Porto tem metidos quase 40 milhões de euros. O problema não é só o imenso prejuízo que as contratações estão/vão dar: é que qualquer um destes jogadores foi contratado com a missão de fazer golos pelo FC Porto, e nenhum deles o está a fazer (Aboubakar teria sido uma boa solução para se manter no plantel, mas o clube assim não o entendeu - e ainda não trouxe ninguém melhor do que ele). 

A SAD tem a responsabilidade de encontrar uma solução para o ataque; todos os jogadores do plantel têm que procurar melhorar as suas marcas pessoais e aparecerem mais vezes na lista de marcadores; e NES tem que tentar tirar o máximo proveito de todas as unidades que estão à sua disposição. Se estes pilares falharem, não será em 2017 que o FC Porto vai voltar a celebrar um título. Até Soares, Mário Soares, um dia disse: «Não se fazem omeletes sem ovos». 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Objetivos e promessas

Há uma grande diferença entre falhar objetivos e falhar promessas. Falhar objetivos acontece todos os anos, desde não conquistar um título a não ganhar um jogo contra um adversário inferior. Pode acontecer pelos mais diversos motivos: adversário superior, uma bola no poste, arbitragem, um dia de manifesto azar...

Acontece. Todas as equipas têm que traçar objetivos, e já sabem que não os vão cumprir todos. Com as promessas, é totalmente diferente. O FC Porto não é um clube de promessas de resultados. O próprio Pinto da Costa o disse, vários vezes, que «nunca prometi títulos». É preciso ter um estofo/confiança enorme para conseguir fazer e cumprir promessas.

Um exemplo? José Mourinho. «Em condições normais vamos ser campeões. Em condições anormais... Também vamos ser campeões!» Muita audácia, mas algo fácil de proferir: ele sabia que era o melhor, que o FC Porto tinha o melhor plantel, que era superior à concorrência e que estava num contexto favorável. Mais difícil foi ter dito, quando chegou ao FC Porto, que em 2002-03 ia ser campeão. Inteligente: tal deu-lhe margem para reduzir a pressão para o que restava de 2001-02 e motivou as tropas para algo mais que uma época que já se encaminhava para um ano sem títulos.

Bem diferentes foram, por exemplos, as promessas de Paulo Fonseca ou Lopetegui. Ao contrário do que aconteceu com Mourinho, foi em momentos difíceis, já sob muita contestação (mas nenhum deles a 7 pontos do Benfica antes de dezembro), que deixaram afirmações que podiam ser vistas como destemidas e determinadas, mas que acabaram por soar a desespero. A confiança cega de que o FC Porto ia ser campeão e a garantia, sem qualquer dúvidas, que o FC Porto ia chegar ao título. Não funcionou e ambos saíram antes do fim da época.

Nuno Espírito Santo, ao mau momento da equipa, respondeu com a promessa de que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. Falhou. Uma coisa é gerir mal uma substituição, ter um mau resultado e estar completamente descolado da política (?) assumida pelo clube em relação à arbitragem. Outra é falhar uma promessa. Nuno podia ter dito que acreditava que os golos iam aparecer, que o objetivo era ganhar, que acreditava na evolução da equipa. Podia ter dito mil e uma coisas. Mas preferiu prometer que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. A equipa falhou, o treinador falhou.

Nuno Espírito Santo já é, à 11ª jornada, o pior treinador da era Pinto da Costa no que à distância em relação a Benfica e Sporting diz respeito. Ninguém tinha expetativas realistas de que o FC Porto fosse favorito/campeão com Nuno Espírito Santo - só se pode desiludir quem primeiro se iludiu -, pois nunca fez/mostrou nada que o recomendasse como resposta para o ciclo de 3 anos sem títulos, mas os resultados estão a ser um pouco piores do que o expetável. Não necessariamente por à 11ª jornada já ter perdido 11 pontos, mas por já estar a 7 de pontos de Benfica e 2 de Sporting, já depois de ter recebido o Benfica no Dragão.

Esta não é uma época para almejar ao título (quem contrata NES e gere a pré-época/plantel da forma que o FC Porto o fez desde julho, não pode pensar em ser campeão - ou então ainda não percebeu  que acabou a era dos campeonatos em piloto-automático), mas era ponto de honra estar na luta até ao fim, tentar pelo menos a entrada direta na Champions e reabilitar o espírito Porto. O que conseguimos, depois do empate em Belém, foi deixar Nuno Espírito Santo numa posição ainda mais fragilizada. Será ele o máximo responsável se o FC Porto terminar mais uma época sem títulos? Não, de todo. Mas só uma pessoa prometeu que o FC Porto ia ganhar ao Belenenses. Se bem que os adeptos portistas já mostraram ter grande tolerância e estômago para promessas falhadas nos últimos anos.




Iván Marcano e a defesa (+) - Não é pela defesa que o FC Porto tem comprometido nas últimas semanas. Muito simples: em 10 jogos, a equipa sofreu 2 golos. Não deve haver muitas equipas com uma média similar. Os adversários não deixam de ter as suas oportunidades (o Belenenses fez mais remates à baliza do que o FC Porto), mas o facto é que o FC Porto tem sofrido pouquíssimos golos. E quando assim é, basta meter uma bola naquele cada vez mais estranho rectângulo ao FC Porto para ganhar o jogo.

Neste excelente momento defensivo, Iván Marcano merece todo o destaque. Porquê? É o denominador comum entre este bom momento na proteção da baliza e a época 2014-15, na qual o FC Porto teve a melhor defesa de toda a Europa. Marcano conseguiu-o com um low profile de quem chega, faz o seu trabalho, cumpre, vai para casa e só voltam a aperceber-se da existência dele em campo. E nem com a braçadeira no braço destoa. Se calhar só é capitão porque não há melhor e só joga porque não há melhor. Certo é que ninguém tem feito melhor do que ele. Nem no FC Porto nem pela Europa fora: 10 jogos, 2 golos sofridos, apenas um cartão amarelo e uma média de apenas uma falta a cada dois jogos. Com Marcanos, se calhar, dirão que não se ganham jogos ou campeonatos. Ou então sim, se alguém lá na frente meter a bola na porra da baliza, pois lá atrás não tem havido problema. 





Piorar (-) - Sai Jota, entra Depoitre. Sai Óliver, entra André André. Sai Otávio, entra Varela. Três alterações, todas elas com algo em comum: o jogador que saiu é superior ao que entrou, e o que entrou não está num momento de forma que lhe permita ser o 12º jogador que vai desbloquear o jogo. O BES tinha o banco mau e o banco bom. NES só tem um banco mau.

O problema tem várias raízes. Aboubakar, Bueno, Gonçalo Paciência e Suk foram dispensados para que chegasse Depoitre, que, pasmem-se, custou mais do que estes 4 juntos e não vale um terço de qualquer um deles. O jogador não tem culpa, pois a qualidade e caraterísticas dele estavam à vista de qualquer um. Quando assim é, as dúvidas não devem recair no jogador, mas sim na vista de quem o observou. Mas é curioso que todos se recordam de ouvir José Mourinho dizer que queria muito McCarthy. Jesualdo confessou que queria Falcao. Vítor Pereira afirmou que era Jackson Martínez quem queria. Já NES parece hesitar muito em afirmar que foi ele quem queria Depoitre. Diz que era um jogador que conhecia, que podia ser útil, que estava referenciado, mas tarda em afirmar com a prontidão de Pinto da Costa de que Depoitre é que era «o» 9 mais desejado. Ele lá saberá porquê.

Falta Brahimi, que já nem conta para ir ao banco. Adrián foi titular em Leicester, há dois meses, e desde então nem foi ao banco. Com isto, o ataque do FC Porto fica resumido a todos os jogadores que entraram no Restelo: Varela, Corona, Jota, Depoitre e André Silva. É manifestamente muito curto. Já chamam por Rui Pedro, um passo natural. Mas continua o fascínio por chamar Musa Yahaya ao treinos da equipa principal, mesmo sem que ele tenha jogado um único minuto na equipa B. Não deve ter nada a ver com o facto de ter vindo do Portimonense, não senhor.

O que fazer com a bola? (-) - O FC Porto de Nuno Espírito Santo é alérgico à bola. O que esta equipa mais quer é que o adversário tenha bola, para tentar recuperá-la ainda no meio-campo adversário, com uma primeira linha de pressão alta, e depois meter logo a transição rápida. Não está a funcionar. Este FC Porto constrói zero em posse, zero em progressão, zero em futebol apoiado. É uma equipa que não assume o jogo, à imagem do que NES mostrou no Rio Ave e no Valência, diga-se. Joga no erro do adversário. Mas as equipas que jogam no erro do adversário têm que ter uma coisa: a capacidade de marcar um golo em meia oportunidade. O FC Porto não o está a fazer, de todo, e já lá vão 340 minutos sem golos. 

André Silva não dá para tudo. Teve intervenção direta em 43,3% dos golos que o FC Porto marcou esta época. Mas não se pode sobrecarregar um jogador jovem que, como qualquer outro, pode ter um mau momento de forma. E está a tê-lo. Daí que fosse essencial, no início da época, contratar uma alternativa a André Silva. Essa alternativa nunca chegou. Ah, era Depoitre? Sim, Depoitre é de facto alternativa a André Silva: ao André Silva da primeira metade da época 2015-16. Aquele que não jogava na equipa A, basicamente. 

O futebol do FC Porto é pobre, previsível, facilmente anulável. Uma equipa que não tem mostrado capacidade para mudar de velocidade no seu jogo. Os extremos não rompem, os avançados têm que apoiar mais do que são apoiados, os médios poucas vezes provocam desequilíbrios na frente, os laterais estão a perder preponderância ofensiva e o FC Porto raramente aproveita bolas paradas. Nada está a ser potenciado do meio-campo para a frente no FC Porto. Os ovos não são os melhores? Talvez não. Mas pedir uma omelete a quem não sabe partir a casca de um ovo é meio caminho andado para passar fome. Mais um ano.

Do próximos 7 jogos, 6 serão disputados no Dragão e um em Santa Maria da Feira. Não dá desculpas para não abrir um ciclo de sete vitórias consecutivas. E neste caso não é preciso promessas: apenas resultados. Perder um destes jogos em casa, diante do público do Dragão, pode ser a sentença que Paulo Fonseca, Lopetegui e José Peseiro conheceram bem recentemente: no FC Porto, qualquer treinador arrisca-se a pagar a fatura dos maus resultados. A sua e a dos outros.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Chaves e Champions

A culpa não foi do Layún, nem do Depoitre, nem do André Silva. O FC Porto podia ter falhado os 5 penaltys: a explicação para uma derrota em Chaves nunca pode passar pelo desempate por grandes penalidades. Nunca. O FC Porto poderia e deveria ter garantido o apuramento muito antes. 

O FC Porto só tinha perdido uma vez na sua história em Chaves, e já lá iam quase 30 anos. Os flavienses conseguiram construir uma boa equipa, desde o Euromilhões até às ideias de um Jorge Simão promissor, mas em condições normais o FC Porto teria que ter vencido tranquilamente aquele jogo. Mas lá está: não houve condições normais.

Depois de ter mostrado o seu melhor futebol da época contra o Benfica, o FC Porto regressou ao nível habitual demonstrado desde o início da época. Uma equipa que não explora, de todo, todas as suas capacidades; limitada na procura da baliza adversária; que não recebe sinais esclarecedores a partir do banco; que demonstra falta de ambição na procura da vitória. Tudo isto não impediu que o FC Porto tivesse oportunidades para marcar e vencer o jogo. Depois, João Capela decidiu brilhar.

Nuno Espírito Santo diz que foi um penalty. O Dragões Diário e o Facebook do clube dizem que foram três. O Tribunal d'O Jogo diz que foram dois. Não é conclusivo, mas há um facto: em todos os lances de dúvida, João Capela arbitrou sempre em desfavor do FC Porto (com exceção de um penalty por marcar para o Chaves). São demasiados erros.

Há adeptos que defendem que o FC Porto tem que ganhar apesar dos erros de arbitragem, dizendo que isso faz parte do ADN do clube: vencer contra os erros de arbitragem. Entendendo o porquê dessa afirmação, não: não é normal errar tantas vezes, e sempre em desfavor do FC Porto. Foram contabilizados 12 penaltys desde o início da época. Provavelmente nem todos os lances são referentes a grande penalidade, mas lá está: em caso de dúvida, foi sempre, sempre contra o FC Porto

Recordando a época 2014-15. O Benfica não jogava bem, mas enquanto a equipa tremia, não havia um erro de arbitragem a deitá-la abaixo. Neste caso, o FC Porto também não joga bem. Mas contrariamente ao que sucedeu ao Benfica, o FC Porto não tem aquele erro de arbitragem a puxá-lo para cima nos momentos difíceis. Nenhum clube o deve ter, diga-se. Mas os critérios deveriam ser iguais para todos, e não têm sido.

Foi bom ver a reação do FC Porto à derrota em Chaves. Pinto da Costa decidiu falar (algo que se tornou uma raridade após maus resultados), e bem, mas foi de lamentar a falta de sintonia entre Nuno Espírito Santo e a comunicação do FC Porto. O treinador queixa-se de um penalty, para depois o FC Porto reclamar que são três? Se não há sintonia dentro do próprio clube nas críticas à arbitragem, nada feito. 


As críticas têm sido relativamente vorazes, mas é preciso que os seus destinatários tenham consequências. Repare-se que o Conselho de Arbitragem nem ousou abrir a boca. Ao contrário do que já fez em situações anteriores, nem sequer se deu ao trabalho de tentar defender publicamente João Capela. Por isso, das duas uma: ou ignora por completo a posição do FC Porto - que, diga-se, nunca pareceu muito incomodado quando o Benfica era beneficiado pela arbitragem, algo que indiretamente prejudicava o FC Porto -, ou quem cala consente

Tendo em conta que já é dia de Champions e que uma crónica ao jogo de Chaves já viria fora de horas, apenas algumas considerações sobre o afastamento da Taça de Portugal. Foi o adeus à competição que o FC Porto, teoricamente, mais hipóteses teria de ganhar esta época, pois era a maios curta - ainda que também seja aquela que permite menor margem de erro, mas também é a que reúne adversários mais acessíveis. Foi-se um dos objetivos.

Disseram os protagonistas, no final do jogo, que o FC Porto foi a única equipa a querer assumir o jogo e a querer resolver a questão antes dos penaltys. Meus caros, mas seria de esperar o quê? Que fosse o Chaves a mandar no jogo? Não brinquem. Em qualquer campo em Portugal, com duas ou três exceções, o FC Porto vai ser sempre a equipa a querer mandar no jogo, a querer dominar, a querer marcar. Isso não é uma valia: é uma obrigação.

Criticar Nuno Espírito Santo é algo que vai soando a repetição, pois infelizmente quase sempre que mexe na equipa durante os jogos a tendência é para piorar, mas a gestão da partida não foi bem conseguida. Aos 78 minutos, sai Otávio, o único criativo do meio-campo, e entra Depoitre, que nos últimos 2 meses só tinha jogado uma vez e que arrisca ser um dos maiores flops da história do FC Porto, sem que ninguém possa ficar surpreendido. A batata quente foi bem cedo chutada para as mãos de Nuno, mas há uma grande diferença entre não conhecer Campaña e contratá-lo meramente por empréstimo, sem comichões, e contratar Depoitre, um avançado limitadíssimo que se tornou, sem que o seu percurso ou valia desportiva o justificasse, um dos mais caros da história do FC Porto. De qualquer forma, O Tribunal do Dragão manifestou, aquando da sua contratação, o otimismo de que Depoitre talvez conseguisse fazer mais golos do que Tiago Caeiro. Para já está ela por ela: 1 golo para cada um. Confiança, vai conseguir!

Para o prolongamento, Nuno fez dupla alteração. Entrou Evandro, que não jogava há 3 meses e só tinha feito 6 minutos em Roma. E entrou Layún, para o meio-campo. Três medidas tomadas por Nuno que fogem a qualquer tipo de padrão que fosse sendo trabalhado desde o início da época. Soa a desespero. E muitas vezes, Nuno transpira insegurança a partir do banco. Olha para o banco, olha para os suplentes que estão a aquecer, conversa com o adjunto, passa as mãos na cabeça, olha para o banco e repete o ciclo. Nuno já mostrou saber preparar jogos, como o fez muito bem contra o Benfica; mas na hora de mexer no jogo e de reagir, tem sido limitadíssimo e, pior ainda, prejudica a equipa. 

Por fim, o FC Porto descobriu, mais de 2 anos depois, que Brahimi é muito mau profissional. Deve ser terrível enquanto elemento de balneário, treina muito mal e o FC Porto, por estar num excelente momento de forma, até se dá ao luxo de o levar a Chaves, só para o ter 30 minutos a aquecer e mandá-lo para o duche. Para Copenhaga é que já nem valeu a pena gastar dinheiro no bilhete de avião. Mas brincamos? Brahimi, o mais virtuoso jogador do FC Porto, não conta? Algo de muito mau devo ter feito Brahimi, só pode. Há quem diga que seria curioso cruzar uma espécie de Mendes vs. Doyen desde o início da época. Certo é que quem perde é o FC Porto. Tirem Gelson ao Sporting e Pizzi ao Benfica, e vejam o resultado. 

Agora, se Nuno não usa Brahimi porque não pode, estão a prejudicar as suas condições de trabalho. Se Nuno não usa porque não quer, está a prejudicar o seu próprio trabalho e o rendimento do plantel. Se Brahimi fez algo de errado, à partida então nem deveria ser convocado ou colocado a aquecer. As razões desconhecem-se, mas só perde o FC Porto.


Hoje, em Copenhaga, o apuramento para os 1/8 da Champions pode ficar resolvido. Na UEFA, o FC Porto poucas queixas tem tido da arbitragem. Por isso, mostrem que em Chaves o que mais pesou na balança não foi o treinador, o plantel ou a exibição, mas sim a arbitragem. Falhar na Dinamarca seria dar razão a quem acha que as arbitragens são uma desculpa para uma equipa sem estofo. Não desperdicem esta oportunidade. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Quem era a equipa de Champions em campo?

Não há nada mais normal para o FC Porto do que perder em Inglaterra. Em 17 jogos, 15 derrotas e 2 empates com golos em cima do minuto 90, de Costinha e Mariano González. 10 golos marcados, 47 sofridos. O FC Porto já foi com equipas bi, tri e tetracampeãs a Inglaterra, mas nunca conseguiu vencer. Dificilmente iria ser ontem, com uma equipa tão mal preparada e treinada, que iria conseguir.

Perder em Inglaterra é normal, mas provavelmente o FC Porto nunca terá apanhado um adversário tão fraco como este Leicester. Na Champions, o FC Porto defrontou sempre as melhores equipas inglesas: United, Liverpool, Chelsea, Arsenal, City. Este Leicester, com todo o mérito que teve na conquista da última época, é mais fraco e joga pior do que qualquer uma delas à época.

Afinal, quem é o clube de Champions aqui? O Leicester, que só ontem ouviu pela primeira vez o hino da Champions no seu estádio, e que há um ano nem sequer sonhava estar nessa posição, ou o FC Porto, que é o recordista de presenças na Liga dos Campeões e todos os anos joga declaradamente para o objetivo de ir aos oitavos-de-final?

Façam um exercício de introspecção. Quantos jogos viram de facto do Leicester esta e na época passada? Viram de facto um futebol que deslumbrava e dominava? Ou limitaram-se a absorver, através da imprensa, os ecos da grande época do Leicester? Todos sabiam dos resultados, que o Mahrez é bom, que o Vardy é um matador, que o Leicester tomou a dianteira na Liga mais competitiva do mundo. Mas quantos jogos viram de facto do Leicester?

A equipa que defrontou ontem o FC Porto estava ao nosso alcance. O Leicester quase não criou ocasiões de golo, não tem um futebol dominador, não tem cultura de campeão. Joga com o ADN de equipa pequena - o mesmo que Nuno Espírito Santo, com ou sem intenção, tem tentado implementar no FC Porto pelo futebol praticado, é certo -, muito aguerrida, juntinha, mas que não pratica um futebol que assuma o jogo, que garante muitas ocasiões de jogo e que distinga uma equipa forte em determinado momento do jogo. 

A diferença esteve no cruzamento de Mahrez para Slimani. Ah, o jeitaço que dá ter argelinos em campo! O FC Porto devia considerar em arranjar um desses. Ontem se calhar teria dado jeito. Vai na volta e se calhar havia um ali pela bancada...

O Leicester nem sequer tem um enorme treinador. Não brinquem. Até há um ano, ninguém dava dois tostões por Ranieri para ganhar o quer que seja. Ganhou a Liga Inglesa, muito bem, foi histórico, teve mérito. Mas um treinador pode fazer uma boa época em 30 anos, mas não é uma boa época em 30 anos que faz um treinador. Jaime Pacheco não passou a ser um mestre da tática quando foi campeão pelo Boavista. Não queiram fazer de Ranieri o que não é. 

O Leicester teve ontem 90 minutos para contrariar tudo isto. Pouco fez para mostrar que era um bicho-papão ou superior. Teve Slimani, essa besta filha de um casamento entre a Lei de Murphy e o efeito borboleta no dia em que Ghilas assinou pelo FC Porto. A diferença esteve aí. Este Leicester é um adversário ao alcance do FC Porto. Ponto.

Por isso, o problema de ontem do FC Porto não estava no Leicester. Estava em Inglaterra. A barreira psicológica não estava em vencer o Leicester, mas sim no historial absolutamente negro em Inglaterra. E estava também na fraca qualidade de um FC Porto que só despertou a partir dos 70 minutos e que mostra um banco onde Nuno Espírito Santo, ainda que não possa haver as maiores expetativas/exigências de grande sucesso sob a sua orientação, teima em não mostrar ponta de evolução desde o início da época.

Faltam 4 jogos, 12 pontos, e o Leicester de ontem não passa no Dragão. Isto se o FC Porto dos últimos 20 minutos de ontem lá decidir aparecer. Os oitavos-de-final continuam ao nosso alcance, mas é essencial fazer o pleno frente ao Club Brugge. 




Danilo Pereira (+) - Os elogios d'O Tribunal do Dragão à exibição de Danilo frente ao Boavista não foram consensuais. Estes têm que ser. Defensivamente, Danilo voltou a estar impecável, desta vez com atenções redobradas por o Leicester jogar com dois pontas-de-lança. No total, foram 28 ações defensivas de Danilo (precipitou-se um pouco no momento que antecede o 1x0 - já lá vamos), entre duelos aéreos, cortes e recuperações de bola, numa exibição quase irrepreensível a nível defensivo. Foi rápido a distribuir e impediu que o Leicester ganhasse caudal ofensivo na segunda parte. Apesar de não ter conseguido fazer uma pré-época adequada, é neste momento imprescindível ao FC Porto. É a única garantia de equilíbrio numa equipa sem fio de jogo.

As entradas em campo (+) - Nos últimos 20 minutos, vimos um bom FC Porto. Pressionante, rápido a chegar ao último terço, a meter gente na grande área e a criar algumas situações de remate. Foi curto, mas foi uma reação saída do banco. André André (dificilmente manterá a titularidade depois deste jogo - André André será sempre uma alternativa útil no plantel, mas nunca será um jogador à volta do qual se possa construir um 11 titular do FC Porto) e Adrián saíram, Herrera e Jota entraram e o FC Porto agitou o jogo. Jota vai sempre à procura da baliza (foi praticamente o primeiro a dar trabalho a Schemichel... aos 72 minutos!) e Herrera soube empurrar a equipa, dando dinâmica, verticalidade e velocidade ao jogo do FC Porto. A entrada de Corona, que fez mais num quarto de hora do que nos jogos a titular que vinha fazendo esta época, fez o FC Porto encostar o Leicester à sua grande área. A bola no poste podia ter tido melhor sorte, mas quem joga apenas 20 minutos não se pode queixar. Nota positiva para as exibições de Layún, Otávio, a espaços, e Óliver. 





A (falta de) tática (-) - «A base do nosso modelo vai ser o 4x3x3. É algo que é da história do FC Porto e que se identifica muito com a ideia que eu tenho para o jogo, um 4x3x3 ofensivo e pressionante, que condiciona a construção contrária e que tem muita gente em zonas de finalização». Estas foram as palavras de Nuno Espírito Santo na pré-época. O FC Porto nunca chegou a espelhar as ideias aqui descritas, pois tem sido quase sempre uma equipa que joga na expetativa, recuada, no erro do adversário (sendo que nem tenta provocar esse erro, ao não pressionar) e que deixa sempre o oponente construir.

Nuno tem o direito de concluir que afinal o 4x3x3 que previa não era o mais adequado ao plantel, e com isso apostar no 4x4x2. Mas o que se tem visto não é uma equipa com plano A e B, não é uma equipa híbrida, não é uma equipa versátil: é uma desorganização absoluta de uma equipa que não tem um fio de jogo, não tem um plano para atacar além do pontapé para a frente, (quase) não tem como libertar individualidades para resolver um jogo e cria poucas situações de perigo. Nuno Espírito Santo tem dito após todos os jogos que o problema é a eficácia, mas não é: o FC Porto cria pouquíssimas situações efetivas de perigo.

Houve uma boa oportunidade para André Silva logo no início do jogo, mas depois só nos últimos 20 minutos é que o FC Porto consegue rematar à baliza. Além disso, estar a oscilar de tática de um jogo para o outro, com isso alterando o posicionamento/funções de jogadores como Adrián e André Silva, prejudica toda a equipa e os próprios jogadores. O FC Porto não tem uma base criada, não tem um padrão de jogo, não tem ligações criadas entre os setores, e os jogadores não revelam grande sintonia quando estão em campo (a espaços, Otávio e André Silva - essa receção de bola, menino! - são os únicos que se vão entendendo). De nada vale ter bom balneário se não houver sintonia em campo. 

Hm, Depoitre? (-) - Num jogo em que o FC Porto nada tinha a perder, sem que André Silva estivesse a ter uma noite feliz, sem experiência ou grande dimensão física no ataque (o FC Porto acaba o jogo com Óliver, Jota, Corona e André Silva na frente), contra uma dupla de centrais fortíssima fisicamente (Huth e Wes Morgan, dois tanques), Nuno Espírito Santo não encontrou utilidade para Depoitre para este jogo? Esta contratação corre o risco de meter Marega num bolso. Mas o grave foi ter confiado em Lopetegui para contratar Campaña, uma solução de fecho de mercado, que veio por empréstimo e que segundo o R&C do FC Porto nem implicou o pagamento de uma comissão discriminada. De não conhecer uma solução de recurso que vem emprestada a não conhecer um dos - senão mesmo o segundo - pontas-de-lança mais caros da história do FC Porto vai uma grande diferença. 

O golo (-) - Lembram-se daquele amigo sportinguista a quem dávamos baile por causa dos golos do Domingos e do Kostadinov? Se o karma tivesse um filho chamava-se Slimani. Meia oportunidade e marca. Mas não podemos ignorar a má abordagem defensiva do FC Porto no momento do golo. Primeiro momento: numa tabela junto à linha, em menos de 4 metros, o Leicester liberta-se da pressão de André André. No raio de ação da bola estão André, Danilo (deixa a sua zona para ir pressionar na segunda linha) e Adrián. Layún está colado à linha, Felipe a 3 metros, Marcano (arrastado por Vardy) 3 metros ao lado. O FC Porto tem o lado esquerdo completamente descoberto, com apenas Alex Telles naquela zona e Otávio ainda distante. Alex Telles é obrigado a ir fechar por dentro, para encurtar a distância em relação a Marcano, e com isso abre-se uma via rápida no corredor. A partir do momento em que o Leicester, logo após a tabela, abre o jogo, a equipa do FC Porto fica toda partida. Bastou um passe longo. Mahrez cruzou sem oposição de Alex Telles (e Mahrez já tinha o apoio do lateral), Felipe ficou a marcar Slimani com os olhos (não se pode deixar um ponta-de-lança destes ganhar a frente) e o Leicester marca num lance em que o FC Porto tinha 10 homens nos últimos 25 metros, tendo bastado para isso um cruzamento e um desvio.


O Leicester não é uma equipa de grande futebol, mas rasgou o FC Porto com uma simplicidade gritante. Tabela curta junto à linha, abertura para o lado direito, cruzamento para a zona onde aparecem os dois avançados e golo. Tão simples, tão difícil. Um FC Porto organizado no processo defensivo, sabendo que espaços ocupar e quem tem que sair na pressão, não permitiria que tivesse havido aquele cruzamento de Mahrez. Sem a bolinha na grande área, podia haver 10 Slimanis em campo, e nenhum deles faria estragos. 

Sendo o Leicester ou não, o FC Porto nunca pode definir o objetivo de ir aos 1/8 da Champions contando com uma vitória em Inglaterra. Por isso, não é o resultado de ontem que deixa os oitavos em risco. Se estão em risco, é pelos 2 pontos que foram dados ao Copenhaga. Há que recuperar do prejuízo diante do Club Brugge. Agora vamos à Choupana, antes de uma paragem para os jogos internacionais. Terminar o primeiro ciclo de 11 jogos com apenas 5 vitórias significaria um dos piores arranques das últimas décadas. Chegamos ao ponto em que só desejamos ver um FC Porto organizado em campo e que não jogue recuado e com medo de sofrer. Já seria um upgrade que nos deixaria mais próximos de vencer. 

PS: Dá para parar de usar a vitória em Roma como referência para o quer que seja? A não ser que continuem convencidos de que vamos jogar contra 9 em todas as partidas. Pelo contrário, ontem jogámos pela primeira vez contra 11 na Europa esta época. Não correu muito bem. 


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Pontapé de saída

Quem não se lembra do colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA? Tiago Martins e Fábio Veríssimo foram promovidos a árbitros internacionais contra as diretrizes da FIFA, que indicam que os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos».

Tiago Martins foi promovido quando tinha dois jogos de Primeira Liga, enquanto Fábio Veríssimo, no espaço de um mês, passou de árbitro na distrital a árbitro internacional.

Entretanto, mudou a mosca, mas o resto permaneceu intacto. Saiu Vítor Pereira, entrou José Fontelas Gomes. Mas não sem em novembro último Vítor Pereira pisar, uma última vez, as recomendações da FIFA. João Pinheiro, então com 27 anos e apenas dois jogos de Primeira Liga, foi promovido a internacional, juntamente com Sérgio Piscarreta, que em 2015 passou do C2N3 para a primeira categoria. E que bem correu.


Piscarreta foi despromovido no ano seguinte não só à sua promoção à primeira categoria mas também no seu ano de estreia como árbitro internacional. Isto no ano seguinte à histórica descida de Marco Ferreira, que logo depois abandonou a arbitragem e revelou o que passava nos bastidores. Nunca será de mais lembrar. 


O Conselho de Arbitragem não só promove árbitros contra as diretrizes da FIFA como é capaz de, no ano seguinte, despromover o mesmo árbitro. É histórico para Piscarreta. Nenhum outro campeonato na Europa tem um caso idêntico. 

E agora vemos a ascensão de João Pinheiro, um jovem árbitro, agora de 28 anos, que foi promovido a árbitro internacional em novembro de 2015 - um mês após ter apitado pela primeira vez um jogo grande, no caso um jogo do Benfica na Taça de Portugal. Tirando isso, tal como Tiago Martins, tinha apenas 2 jogos de Primeira Liga na carreira. 

João Pinheiro foi um de 11 árbitros a declarar apoio a José Fontelas Gomes na corrida à presidência do Conselho de Arbitragem, num elenco de luxo que contava com nomes como João Capela, Carlos Xistra, Bruno Paixão, Jorge Ferreira e Manuel Mota. E agora, na primeira época completa que terá Fontelas Gomes como presidente do CA, o jovem árbitro vai estrear-se num jogo grande da Primeira Liga.

Qual? O Tondela - Benfica. Oxalá o jogo corra bem, pois seria tramado um jovem e promissor árbitro, internacional aos 27 anos, ficar desde logo manchado pela histórica dificuldade do Benfica em começar os campeonatos a vencer.


Está dado o pontapé de saída para a carreira de Fontelas Gomes à frente do CA, na mesma jornada em que Fábio Veríssimo, outro internacional precoce, vai arbitrar o FC Porto, enquanto Carlos Xistra vai dirigir o Sporting. Sporting esse que merecerá todo o interesse em ser seguido durante a época 2016-17, em particular a sua equipa de juvenis, que contratou o talentoso Alexandre Gomes. Que só por mera e impertinente coincidência é filho de José Fontelas Gomes. Aquela perguntinha que irrita: o que se diria se fosse o FC Porto?

PS: Já foi dito praticamente tudo sobre o caso Depoitre. Ninguém sabia que o jogador não podia ser inscrito para o playoff da Champions. Mas a quem gere os destinos do FC Porto é sempre exigível muito mais. E nem é exigir assim tanto, basta saber os regulamentos das provas em que o clube está inscrito. O presidente confirmou que o assunto foi tratado com máxima celeridade, enquanto estava a acompanhar a Volta, e Depoitre chegou ao Porto na companhia de D'Onofrio às 2 da manhã. Pinto da Costa diz que foi inscrito com o objetivo de estar disponível para a Champions. Ou seja, não houve nenhuma reserva ou cautela assumida, pois a verdade é que o FC Porto julgava que o jogador podia jogar. Não podia, até porque o regulamento não permite diferentes interpretações. Felizmente o «esclarecimento» publicado pelo FC Porto não é assinado pelo Conselho de Administração, senão a vergonha seria ainda maior. Ou então é maior ainda por não ser diretamente assumido, e por ter que ser Nuno Espírito Santo (já começa!) quem teve que responder às questões sobre esse tema.

Depoitre vs. pré-época
Mas de facto, é confusa a questão de contar com Depoitre já para o playoff da Champions. Conforme foi defendido no post anterior, o FC Porto passou toda a pré-época a treinar e a trabalhar um esquema no qual Depoitre não encaixa (pelo menos nunca tão bem como André Silva). E era com uma semana de trabalho que ia já ser opção contra a Roma? As caraterísticas de Depoitre são mais importantes do que os mais de 50 treinos que Nuno fez com o plantel? É verdade que meter um ponta-de-lança forte na grande área para o chuveirinho não é a tática mais complicada de se trabalhar, mas o FC Porto teve quase 2 meses para preparar uma dinâmica de jogo forte, em que se assuma e possa confiar em André Silva. Se Depoitre iria fazer falta, tinha que ser contratado muito antes, não em cima do fecho das inscrições. A demora tem uma palavra, a mais utilizada nos últimos três dias: amadorismo. Um erro que não víamos em Portugal desde que o Sporting, de Godinho Lopes, tentou inscrever Marius Niculae (com as devidas diferenças, de bem maior gravidade pendente para o FC Porto). Bater no fundo não é perder com o Tondela, é ter um ato de gestão só à altura do Sporting de Godinho Lopes. 

Embora Depoitre tenha sido contratado com o objetivo de estar já disponível contra a Roma, não foi contratado para jogar apenas o playoff. A época será longa e oxalá consiga revelar utilidade em jogos futuros. De preferência antes do final do mês. Porque se acham que já seria útil com uma semana de treinos, então isso só pode deixar água no boca para quando tiver um mês de trabalho.

O FC Porto começa amanhã um campeonato para o qual não é favorito. Não, o FC Porto não é favorito para ser campeão em 2016-17. E o que é isso de ser favorito? Basicamente, aquilo que o Bayern Munique era na final da Taça dos Campeões Europeus de 87, ou aquilo que o Manchester United era nos oitavos de 2004, ou aquilo que a França era no Euro 2016. O padrão está bem claro: o favoritismo cai quando se depara contra uma equipa onde todos remam para o mesmo lado, em prol do bem comum e maior. O problema existe quando acham que isto tem que começar pelos internautas, e não pelos superiores. A Nuno Espírito Santo e ao plantel uma mensagem de força e incentivo. Enquanto lutarem pelo FC Porto, os portistas lutarão com vocês.

PS2: Só para lembrar. O International Board aprovou uma série de alterações nas leis de jogo para esta época, que o FC Porto vai estrear em Vila do Conde. Era só mesmo para lembrar. Não vá alguém esquecer-se dos regulamentos. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Quanto tempo esperou Nuno por Depoitre?

Voltemos até 2006. Co Adriaanse queria Jan Vennegoor of Hesselink. O chamado «pinheiro». Pediu-o uma, duas, três vezes. Queria-o tanto que ameaçou bater com a porta. Pinto da Costa disse que não, uma, duas, três vezes. Porque era caro, porque (citando) não podia «hipotecar as contas por este ou aquele jogador», e que «se fosse para tirar os pés do chão iríamos buscar o Deco ou o Ricardo Carvalho». Ou seja, o equivalente a ir buscar o Boly por 6M€, ou o Rafa por 20M€. Se fosse para perder a cabeça, não iria por aí.

Marc Janko Laurent Depoitre
Co Adriaanse não teve o seu pinheiro e depois acabou por sair. E depois dele sair, o futuro deu razão a Pinto da Costa. Hesselink assinou pelo Celtic no mesmo ano e marcou apenas três golos, apesar de ter tido problemas físicos. E desde então, nunca mais se revelou goleador. E de 2006 em diante, o FC Porto foi tricampeão e ninguém sentiu a falta do pinheiro.

Dez anos depois, Nuno teve o que Co Adriaanse não teve. Pediu um pinheiro e teve-o, apesar do desconhecimento total de Pinto da Costa em relação a Laurent Depoitre. Mas importa colocar desde já a questão: quanto tempo esperou Nuno por este pinheiro?

Desde o início da pré-época, Nuno Espírito Santo tem apostado num esquema que dispensa por completo o pinheiro. Ao ponta-de-lança, no caso André Silva, é pedida maior mobilidade, que descaia muitas vezes para os flancos, que tenha capacidade para levar a bola e encaixar numa transição rápida, seja com bola no espaço ou no pé. Depoitre não corresponde, de todo, a estas caraterísticas.

Depoitre encaixa num esquema que não foi trabalhado pelo FC Porto nos jogos de pré-época. Falta saber porquê. Nuno só se lembrou agora que quer ter soluções numa dinâmica diferente, que implique o tal tanque perto da grande área, ou está desde o início da pré-época à espera que lhe deem esse pinheiro? E Depoitre acaba por ir direto à lista de inscritos da UEFA, sem treinar, empurrando para fora da lista Aboubakar (se sair, o FC Porto necessita de um terceiro avançado - Gonçalo Paciência seria uma boa e pertinente aposta, a nível desportivo e financeiro), que fez toda a pré-época. Tudo soa a má preparação/gestão, ou pelo menos bem tardia. 

Experimentar um esquema com um homem de área, um ponta-de-lança mais fixo, quiçá até enquadrando André Silva para um 4x4x2, deveria ter sido algo preparado desde o início da pré-época. Neste caso, o pinheiro só chega depois de terminada a pré-época - a mesma pré-época que supostamente teria sido iniciada em abril.

Felizmente, numa coincidência tremenda, Luciano D'Onofrio apareceu para - citando o presidente - desbloquear o negócio. Foi uma sorte Nuno Espírito Santo querer um ponta-de-lança que estivesse no raio de ação de D'Onofrio, que todos os defesos vai fazendo negócios com o FC Porto. Salutar coincidência. 

Antes de falar do jogador, podemos já notar um dos padrões deste defeso. João Carlos Teixeira, Felipe e Depoitre foram todos apresentados ao lado de Pinto da Costa. Zé Manuel (para todos os efeitos uma contratação neste defeso) e Alex Telles não. Mas João Carlos, Felipe e Depoitre têm todos algo em comum: Pinto da Costa diz que foram todos contratados mediante a preferência de Nuno Espírito Santo.

Sobre João Carlos, Pinto da Costa disse que foi um dos nomes pedidos por Nuno na primeira reunião de preparação para esta época. Sobre Filipe, disse que Nuno estava sempre a telefonar para saber quando chegava. E agora, sobre Depoitre, diz que nem conhecia o jogador, mas que era um pedido de Nuno. Por outras palavras, se correr bem, Nuno Espírito Santo recolhe o mérito, por ter olho para o jogador; se correr mal, Pinto da Costa já responsabilizou o treinador pelas escolhas. É uma abordagem bem diferente da feita com Lopetegui, na qual Pinto da Costa só falou do subrendimento de Imbula ou Campaña depois de Lopetegui sair. Neste caso, já todos ficam a saber que são pedidos de Nuno Espírito Santo. Qual Mateus 27:24-25.

Pinto da Costa também mostra uma postura diferente da sua última entrevista. «Contratei jogadores que não conhecia, só por causa do parecer dele», disse, sobre Lopetegui, dando depois do exemplo de Campaña e garantindo que não voltaria a contratar jogadores sem os conhecer. Neste caso, assumiu sem rodeios o contrário em relação a Depoitre. 

E agora aí temos Depoitre. E não vale de muito aprofundar a análise individual sobre Depoitre. Pois é simples: será tão útil quanto o caudal ofensivo do FC Porto e as bolas que lhe derem na grande área. Depoitre é um jogador limitado tecnicamente, que está na grande área para finalizar, para servir de referência, para arrastar os centrais. Não pode fazer quase nada do que André Silva fez na pré-época, embora não seja tão lento quanto a sua estampa física possa sugerir. O rendimento de Depoitre vai depender da dinâmica do FC Porto, e de uma abordagem totalmente diferente da que foi feita na pré-época. A partir daí pode dar um Vinha, pode dar um Tiago Caeiro, pode dar um Graziano Pellè.

O FC Porto não revelou o custo de Depoitre. Desmentir os 12M€ que a RTBF, a RTP lá do sítio, avançou já seria um bom começo (embora possa enquadrar-se no tão patético que nem merece resposta). Já os valores noticiados em Portugal, 4+2,5 milhões de euros, também parecem francamente elevados. O FC Porto é o primeiro clube a pagar alguma coisa por Depoitre, que nunca foi dado como hipótese concreta para outro clube, tirando os habituais rumores da imprensa inglesa (falaram em Stoke, WBA e Tottenham no início do ano, mas nada durante a pré-época), que quase nunca podem ser levados a sério.

O percurso de Depoitre
Senão vejamos. Do top 10 da liga belga, Depoitre foi o que de mais tempo precisou para marcar, com um golo a cada 207 minutos. Considerando todos os avançados que chegaram à dezena de golos, Depoitre teve mesmo a segunda pior média na relação minuto/golo (pior só Zinho Gano, outro pinheiro).

Depoitre fez a sua melhor época em 2014-15, quando foi essencial para que o Gent conquistasse o primeiro título da sua história. Na altura, o Transfermarkt, o site que muitos usaram para o avaliar em 6,5M€, avaliava-o em 2,5M€. Esta época, Depoitre fez 14 golos na liga belga e um na Champions. Foi isso que justificou que o seu passe valha agora três vezes mais? Certamente que não. Terá sido o único jogo que fez pela Bélgica? Improvável, pois o valor de Licá também não triplicou quando fez o seu único jogo por Portugal. É de facto intrigante avaliar Depoitre em 6,5M€, tendo em conta que o Gent nunca vendeu um jogador por tanto dinheiro.

A valorização de Depoitre, Transfermarkt
Quem não se lembra de Vossen, avançado belga que chegou a ser uma paixão de pré-época de adeptos do FC Porto? Vossen, em três épocas no Genk, fez 78 golos. O dobro dos que Depoitre marcou nos últimos 3 anos. Mais barato, mais experiente, mais qualidade, e que talvez seria mais útil ao FC Porto do que Depoitre. É certo que nenhuma estatística vai abonar a favor de Depoitre, que teve números modestos no Gent e começou a carreira profissional já tarde. Janko, por exemplo, tinha muito mais serviço mostrado e custou 3M€ no mercado de inverno (quando os preços estão mais inflacionados) de 2012 ao FC Porto. E teve logo colocação no fim da época, após ter ajudado a chegar ao título.

André Silva é um jogador que pode envolver-se na construção da equipa. Já Depoitre é um jogador que precisa que construam para ele. Fisicamente é forte, segura bem a bola, é bom de cabeça. Mas não lhe peçam para ganhar uma bola nas costas da defesa, para conduzir um contra-ataque, para se destacar no 1x1. Depoitre está lá para tentar encostar o que lhe derem. Mas isso não pode ser a mesma coisa que jogar exclusivamente para a pontaria de um ponta-de-lança, coisa que o FC Porto não faz desde os tempos de Jardel. Esse não será nunca o caminho.

E agora? Agora é esperar que as bolas cheguem a Depoitre e que chamar-lhe «tronco» seja uma coisa positiva.

PS: Post publicado antes do FC Porto informar que Depoitre não pode jogar o play off da Champions.