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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Com vista a 2020

Presidente reeleito, entrevista pós-eleições dada, tempo de análise. A começar pela afluência às urnas, sem dúvida uma notícia que se saúda: o facto de o número de votantes quase ter dobrado, apesar de continuar a haver lista única. Quando o FC Porto passar a ser um clube minimamente modernizado e globalizado no processo eleitoral, abrindo espaço para votar online e nas casas do FC Porto espalhadas pelo país, o número de votantes vai certamente disparar - algo que deve ser uma realidade (no máximo) já para 2020.

Pinto da Costa pareceu estar sempre mais satisfeito com o aumento do número do votantes do que preocupado com a grande quantidade de votos nulos. Embora admitindo que possa ter havido quem votou em 2013 mas não votou em 2016, de umas eleições para as outras houve 1145 «novos» votantes. Ora e desses «novos» votantes, há mais portistas a votarem em Pinto da Costa do que contra: 494 fizeram votos nulos, mas 651 votaram a favor.

Ou seja, mais portistas às urnas significou mais votos para Pinto da Costa. Nessa perspetiva, é natural que o presidente esteja satisfeito e desvalorize os votos contra. Mas uma coisa é o número de votos, outra é a percentagem. E 21% de votos nulos, equivalente a 505 votantes, é um número muito elevado e que serve claramente de alerta.

Vejamos. Nos cinco atos eleitorais do séc. XXI que antecederam este último, Pinto da Costa foi sempre reeleito, com as seguintes percentagens:

2013: 99,13%; 1258 votos (11 nulos)
Um sócio a votar
2010: 98%; nº de votos não divulgado
2007: 98,6%; 3820 votos (51 nulos)
2004: 99,3%; 1068 votos (8 nulos)
2001: 98,8%; 1258 votos (12 nulos)

Embora em 2010 não tenha sido divulgado o número de votantes (fica a ressalva), entre 2001 e 2013 foram contabilizados 82 votos nulos. Ou seja, no simples ato eleitoral de 2016, os votos nulos aumentaram 6 vezes mais do que no espaço espaço de 12 anos. Não é possível minorizar a quantidade de votos nulos, de todo, pois foi francamente elevada quando avaliada por este prisma. E confirma sinais já dados antes, como uma AG que não teve espaço na sala para todos os sócios (mais de 300, quando anteriormente marcavam presença 20 a 40); e a própria lista de apoio à recandidatura de Pinto da Costa, desta vez, recolheu apenas 10 mil assinaturas, ao contrário das 20 mil do passado recente (neste caso não se pode tirar ilações definitivas, pois não se sabe se quantas pessoas a Comissão de Apoio à Recandidatura abordou para assinarem). 

Mas logo no anúncio dos resultados foi dito que a percentagem de votos nulos devia-se ao facto de muitos adeptos terem escrito mensagens de apoio a Pinto da Costa, e que por isso os seus votos foram inutilizados. De facto, houve movimentos de apelo ao voto nulo em alguns espaços da internet, e um grupo de associados fez questão de fazê-lo no próprio dia e imediações do Dragão - o «Acorda Porto». Dezenas de adeptos pelos mais diversos espaços ligados ao FC Porto na internet afirmam que fizeram votos nulos, e vários até tiraram fotos para as publicarem (não o deveriam fazer, pois o voto é secreto, mas o procedimento também pouco teve de secreto). 

O que se desconhecia, de todo, é que alguns adeptos tenham optado por votos nulos para apoiar Pinto da Costa. Não só são visionários como, esses sim, estão de parabéns: cumpriram na íntegra o artigo 3 do Regulamento Eleitoral, ao votarem com o maior secretismo. Não criaram sites, não tiraram fotos aos seus boletins, não fizeram cartazes; chegaram, escreveram «Força Porto» e «Força Presidente», inutilizaram os votos e está feito.

Essa foi a justificação da mesa da Assembleia Geral, e como não podemos ver os votos, ninguém a pode desmentir. Mas cá fica a reflexão: porque é que nenhum dos votantes se lembrou, entre 2001 e 2013, quando Pinto da Costa venceu sempre as eleições com mais de 98% dos votos, de escrever mensagens de apoio a Pinto da Costa nos boletins? Só se lembraram de o fazer em 2016, logo quando houve um movimento de apoio ao voto nulo como forma de protesto? Assinale-se a coincidência. A percentagem de votos nulos deve ser levada muito a sério, por todas as razões enumeradas nestes parágrafos.

Quanto à entrevista, Pinto da Costa começa por dizer que não vê nos votos nulos um «cartão amarelo». E depois segue-se uma comparação infeliz e sem qualquer espécie de sentido, ao questionar o que sentirão o Presidente da República e o primeiro-ministro. Primeiro, Marcelo Rebelo de Sousa não é o maior presidente da história da República, nem sequer António Costa é o melhor primeiro-ministro de sempre; Pinto da Costa, esse sim, é o melhor presidente da história do futebol, logo comparar-se a esses dois nomes é reduzir-se a si próprio. Depois, nenhum deles concorreu sozinho para os respetivos cargos. Poderia ser apenas uma piada e uma forma de abrir uma conversa bem disposta, mas não fez qualquer espécie de sentido. 

Pinto da Costa diz que não sentiu qualquer tipo de fúria dos adeptos, inclusive quando esteve a poucos metros das mesas de café onde os sócios estavam a votar. Mas o presidente esperava ser contestado naquele local? Não, os associados foram lá para votar secretamente, não foram lá para contestar o presidente - até porque quem vai às urnas não espera encontrar lá o candidato em quem vai, ou não, votar. Outra reflexão para futuras eleições: se houver dois candidatos à presidência do clube, poderá estar um deles em amena cavaqueira ao lado dos votantes? Certamente que não seria bem visto. 

De destacar o pormenor de Pinto da Costa ter dito que «durante anos não faltam candidatos», mas a verdade é que ninguém, nos últimos 3 anos, manifestou qualquer desejo de ser já candidato - Vítor Baía deixou claro que gostaria de avançar quando Pinto da Costa saísse; já António Oliveira, a candidatar-se, será sempre também depois de Pinto da Costa sair (até lá continuará a fazer eternos elogios ao presidente; pois nas futuras eleições, provavelmente a massa associativa verá com muitos melhores olhos alguém que sempre defendeu e elogiou Pinto da Costa do que alguém que o criticou).

Diga-se que falar de sucessão um dia após Pinto da Costa ser reeleito não faz nenhum sentido. Agora que Pinto da Costa foi reeleito, só temos que nos preocupar com o trabalho do presidente a ser desenvolvido até 2020. Em 2013, Pinto da Costa disse que «quem vier a seguir só tem que não estragar». Mas se o presidente acaba de reestruturar a SAD e se o clube «bateu no fundo», então é porque há coisas que, se não estão estragadas, então têm que ser altamente melhoradas. Não há maior desafio para Pinto da Costa do que, daqui a 4 anos, continue ou não no FC Porto, poder dizer: «Quem vier a seguir só tem que não estragar».

Entrevista ao Porto Canal, a 18-04-2016
Depois, Pinto da Costa passou para uma parte bastante agradável da entrevista e motivadora para todos os adeptos do FC Porto. Diz o presidente que não gostava que os filhos ou a mulher sucedessem ao seu lugar. Muito bem Pinto da Costa, desde logo a fazer afirmações com as quais todos os portistas se podem identificar. O único filho(a) de franca utilidade ao FC Porto é André André (o exemplo mais reconhecido; há também certamente outros frutos a ter em conta, como Francisco Ramos ou Afonso Sousa). O presidente deu ainda um voto de confiança a toda a sua estrutura, dizendo inclusive que vê nela gente como capacidade para suceder ao seu lugar.

Pinto da Costa pode e deve ter influência na escolha do seu sucessor no futuro. E deve exercê-la da seguinte forma: chegando ao dia das eleições e votando. Qualquer outra ação, como disse e bem, seria um atestado de mediocridade à capacidade dos sócios. Quando Pinto da Costa sair, e tendo em conta que foi através do presidente que (quase) todos os administradores chegaram ao FC Porto, mandam os princípios éticos e de serviço ao clube que acompanhem todos a sua saída. Depois, se algum deles quiser candidatar-se, então que o faça; o resto são os sócios a decidir. 

Pareceu valorizar-se excessivamente a vitória sobre o Nacional. Foi uma boa exibição, mas foi contra o Nacional, uma das piores equipas a jogar fora de casa no campeonato; e foi no Dragão, onde no passado recente todos os adversários caíam. Foi uma boa vitória, uma boa exibição, mas se a equipa não vencer em Coimbra já ninguém se lembrará deste jogo. Se calhar, daqui a um mês, quem viu este jogo só se lembra de um jogador do Nacional: do guarda-redes, o que diz muito da sua qualidade este ano. Ah, e Chidozie não jogou neste jogo. 

No que toca a contratações, as declarações de que Pinto da Costa deseja «duas ou três» contratações cirúrgicas foram importantes com vista à estabilidade no plantel. Não se pode pedir o título - ou torna-se difícil fazê-lo - quando se perdem 7 titulares de uma época para a outra (algo que foi francamente ignorado na projeção para esta época por muita gente). A questão dos eventuais regressos de ex-jogadores foi mencionada, e é natural que Pinto da Costa o vá tentar. O presidente anunciou que a equipa do próximo ano vai ser «uma equipa à Porto». E que melhor garantia disso do que fazer regressar jogadores à Porto? Veremos se se desenha alguma possibilidade de isso acontecer.

Curiosa a afirmação de que Hernâni, que aparentemente vai regressar, «está a brilhar no Olympiacos». De facto, quando Hernâni joga, deixa sempre a impressão de que merecia um pouco mais de oportunidades. Mas se não as tem, então é por algum motivo. Hernâni só foi 5 vezes titular no campeonato grego (contando apenas com os campeonatos nacionais, jogou menos do que Quintero no Rennes), mesmo com um treinador (Marco Silva) cujo modelo de jogo (contra-ataque/transição rápida/insistir pelos flancos) encaixava nas suas caraterísticas. Se a questão é Marega vs. Hernâni, nem merece discussão; que Hernâni tenha condições para se impor no FC Porto, restam muitas dúvidas. Mas essas devem ser dissipadas pela avaliação do treinador.

De qualquer forma, as afirmações de Pinto da Costa levam a crer que não se vão contratar Maregas, Hernânis ou quaisquer outros jogadores que: não tenham qualidade; não tenham caraterísticas adequadas; necessitem de grande período de adaptação; sejam com vista a melhorar o plantel mas não necessariamente o 11. Segundo o presidente, quem vier será para chegar, ver e jogar. Plano subscrito.

Pinto da Costa entrou depois num tema inesperado: o impacto que os pagamentos ao Estado têm no FC Porto. Em «Não temos que pagar as contas do Benfica», já tinha sido aqui realçado que o FC Porto é sem dúvida um dos maiores clientes do Estado, enquanto outros beneficiam de perdões, isenções e afins.  Mas a afirmação de Pinto da Costa de que o FC Porto paga 40M€ de impostos, tendo um orçamento de 150M€, merece algum enquadramento.

O presidente já tinha anunciado, em setembro, que o FC Porto pagou 31,68M€ de impostos na última época. Agora refere-se ao pagamento de 40M€ no último ano. Numa SAD que teve despesas operacionais de 110M€, e cujos custos totais com aquisições da última época ascenderam a 53,3M€, falar em 40M€ de impostos requer um melhor enquadramento. Por exemplo, há que ter em conta a dedução do IVA, e o facto da responsabilidade do IRS ser aplicável a todos os jogadores e trabalhadores do FC Porto. Que o FC Porto é um clube sem apoios, sem dúvida; mas já o era há 10, 20, 30 anos.

Pela primeira vez, Pinto da Costa revelou os números da proposta da NOS que o FC Porto teve em mãos: 320M€. Se assim foi, confirma-se, se ainda havia dúvidas, de que o negócio com a MEO foi o melhor possível para a SAD, com ou sem comissões - a acusação de Bruno de Carvalho que nunca teve resposta ou receptor. Mas falar do contrato de direitos televisivos como alternativa à falta de financiamento por parte dos bancos não faz sentido. Os bancos não dão receitas operacionais: antecipam verbas, financiam a atividade corrente da SAD, emprestam dinheiro; já as receitas televisivas sempre fizeram parte da gestão operacional da SAD. 

Pinto da Costa realçou a importância que Reinaldo Teles e Antero Henrique vão ter na gestão do futebol nos próximos 4 anos. Assim sendo, esperamos ver Reinaldo e Antero Henrique, pelo menos uma vez por época, no Porto Canal a falar sobre cada época desportiva; se temos dois dirigentes que vão ser influentes no futebol da SAD, então há que ouvi-los, para não se esgotar tudo em Pinto da Costa e no treinador. Desde que o Porto Canal foi criado, quantas pessoas responsáveis pelo futebol do FC Porto vimos dar entrevistas além de Pinto da Costa?

Sobre o treinador, por esta altura o FC Porto já tem que saber se vai ficar ou não com José Peseiro. Jesualdo Ferreira também acabou 2009-10 a ganhar 8 jornadas consecutivas e a conquistar a Taça de Portugal, mas saiu. Logo, nada do que Peseiro possa fazer neste fim de época devia mudar a decisão da SAD (Pinto da Costa admitiu, e bem, que não pode ser a Taça a decidi-lo). Se quer mantê-lo, que seja pela convicção que têm à data de hoje, e não por aquilo que forem às últimas jornadas. Pinto da Costa não podia fazer outra coisa senão reforçar a confiança de um treinador que pode ganhar a primeira Taça para o Museu do FC Porto, mas uma coisa é o discurso para fora e para o balneário, outra é a posição interna da SAD.

Depois não podia faltar o «espaço L», que parece tornar-se obrigatório em todas as entrevistas de Pinto da Costa: falar de Lopetegui. A bem da verdade, quem puxou o tema foi Miguel Guedes, que recentemente culpou Lopetegui por toda a má época do FC Porto. Mas uma vez mais, perdeu-se mais tempo a falar de Lopetegui do que do presente/futuro treinador do FC Porto. Aqui não vamos regressar a este tema: se Lopetegui sentir que deve dizer algo, que o faça, pois está no seu direito.

Direito esse de que já usufruiu Angelino Ferreira. Os adeptos do FC Porto sempre tiveram a sensibilidade de nunca misturar os assuntos pessoais e particulares de Pinto da Costa como a sua atividade no clube - e o mesmo se poderá dizer de todos os outros dirigentes, desde Reinaldo Teles a Antero Henrique -, mas foi isso que o presidente fez relativamente a Angelino Ferreira, ao falar na Gaianima. Também não seria nada bonito o ex-administrador vir agora dizer que Pinto da Costa ou Antero Henrique andam preocupados com a Operação Fénix e com as acusações do Ministério Público, ou que Reinaldo Teles esteve ocupado com o BPN. Evitável e inoportuno. Uma realidade onde nos tornamos amigos de quem nos atacava (Carlos Pereira, por exemplo) e em que nos viramos contra quem trabalhou durante vários anos na SAD e é portista é algo no qual poucos portistas se devem rever.

A entrevista termina com o tema (lançado por Júlio Magalhães, diga-se) mais ansiado pelos portistas: Pinto da Costa a manifestar apoio político ao PCP e a discutir o momento do país. Era mais interessante do que, por exemplo, debater o enquadramento do fair-play financeiro para esta época, sem dúvida.

Presidente reeleito, entrevista de lançamento (goste-se ou não) dos próximos 4 anos dada. Este foi o caminho que os associados do FC Porto, ou a sua maioria, escolheram. A confiança foi dada, agora há que correspondê-la por parte da SAD. Mãos à obra - neste caso, à reedificação da obra a que chamamos FC Porto. 

Pergunta(s): Reações à entrevista do presidente e que expetativas no lançamento do novo mandato?

domingo, 17 de abril de 2016

Dia de eleição

O FC Porto é um clube único, e isso aplica-se também ao seu processo eleitoral. Os associados do FC Porto não estão habituados a eleições porque, nos últimos 30 anos, a maioria nunca sentiu necessitar delas. Pinto da Costa sempre foi o homem pelo qual a massa portista se guiou.

Hoje não volta a ser muito diferente. Neste momento, a maioria dos adeptos do FC Porto quer mudanças. Mas querem que essas mudanças sejam levadas a cabo por Pinto da Costa, o único presidente do nosso futebol que consegue ser eleito com um currículo e não com um projeto eleitoral. Convenhamos, nenhum outro pode ser eleito por currículo, pois nenhum outro tem o currículo de Pinto da Costa. Mas os últimos três anos de FC Porto em pouco honraram não só o historial do clube mas a própria obra de Pinto da Costa.

Pinto da Costa tem 78 anos, terá 82 no final do mandato, e está perto de se tornar o presidente há mais anos à frente de um clube europeu (Santiago Bernabéu esteve 35 no Real Madrid). O 14º mandato pode muito bem ser o último de Pinto da Costa à frente do clube. Porque a obra de Pinto da Costa é eterna, mas nenhum homem o é.

A caminho do 14º mandato
Em 2012 Pinto da Costa dizia ao L'Équipe que pretendia deixar a presidência do FC Porto num prazo de cinco anos, ou seja em 2017. Foi na altura uma afirmação que fazia sentido - o seu mandato acabaria em 2016, mas os estatutos do FC Porto previam que a direção pudesse continuar mais um ano caso não houvesse uma lista concorrente; assim sendo, Pinto da Costa sairia em 2017.

Mas a alteração de estatutos do FC Porto aumentou os mandatos para quatro anos, e a direção prescindiu assim do direito que teria a ter o tal ano extra. Isso significa que Pinto da Costa assume um compromisso com o clube e os sócios até 2020, não até 2017, pois nenhum associado vai eleger o presidente pensando em que este possa sair antes do tempo - nenhum mandato pode servir para ganhar um campeonato e sair pela porta grande, mas sim para o cumprir na sua totalidade.

Na altura, aquando da alteração de estatutos, poucos terão discutido os efeitos que isto traria aquando do 14º mandato. E o mesmo se poderá dizer a propósito do processo eleitoral. Como muitos portistas nunca sentiram necessidade de precisar de eleições, são muitos os que agora estranham a forma como o FC Porto conduz os atos eleitorais.

O regulamento eleitoral, que cumpre os termos do artigo 50 dos estatutos do FC Porto, não recebeu qualquer tipo de objeção até há bem pouco tempo. Sim, o FC Porto é um clube completamente ultrapassado nos seus atos eleitorais, indigno para um clube que tem associados espalhados por todo o muno.

Só pode votar quem comparece no Dragão, o que afasta muitos interessados do ato eleitoral, pelas mais diversas indisponibilidades geográficas. O voto online, bem como a possibilidade de votar através das diversas casas do FC Porto espalhadas pelo país, deveria ser uma realidade já para o ato eleitoral de 2020. Não se aceita de outra forma. De certeza que há portistas que queriam votar em Pinto da Costa e não puderam; tal como outros queriam fazer o seu voto de protesto e não o puderam fazer. 

O FC Porto sente que nunca precisou de eleições, mas um dia vai precisar. Neste momento não há rivais pois ninguém aguenta o peso/responsabilidade de antecipar o fim da era Pinto da Costa no clube. Qualquer candidato que avance para a presidência do FC Porto seria, neste momento, considerado um inimigo do clube pela massa adepta. Pois desafiar Pinto da Costa é desafiar o FC Porto, sentem. Homem e clube confundem-se há anos, mas um dia o FC Porto vai ter que viver, a todos os níveis, sem Pinto da Costa; e nesse dia terá que ter um ato eleitoral adequado.

De facto, é uma manifesta hipocrisia só agora que o FC Porto «bateu no fundo» (palavras do presidente) criticar o ato eleitoral. Há um ano poucos ou ninguém se lembraram de o fazer. Isso é ponto assente. Mas ainda assim há a destacar, por exemplo, o boletim azul para a eleição dos corpos gerentes, no qual é particularmente difícil riscar ou escrever alguma mensagem que inutilize o boletim. Já na folha da eleição para o Conselho Superior, branca, é fácil de o fazer.

Não há também o local mais adequado para votar. As eleições são organizadas com a lógica de que, como só há uma lista, então só se vota nessa lista. A própria explicação das bonitas meninas nas urnas, dando a indicação de que «é só meter o boletim na urna porque só há uma lista», deixa um tanto a desejar. O Dragão não está preparado para receber pessoas que não queiram votar em Pinto da Costa; mas o clube não é de Pinto da Costa; Pinto da Costa é que é presidente do clube por vontade e decisão dos sócios.

Neste caso, só escreve e só vai às mesas quem não vota a favor de Pinto da Costa, ou que opte pelo ato de riscar alguns dos nomes das listas. Mesas corridas aos olhos de toda a gente não são mesas de voto. Sobretudo porque o artigo 3 do Regulamento Eleitoral diz claramente que a eleição é feita por «escrutínio secreto». Se alguém vai às mesas e saca da sua caneta, ou se é só receber o boletim e entregar, o secretismo deixa muito a desejar.

Mas lá está, sempre foi assim. É uma manifestação de hipocrisia, pois em 2013, quando Pinto da Costa foi eleito com mais de 99% dos votos expressos, não terá havido muitas críticas ao ato eleitoral. Por isso, aqui fica o desejo de que as coisas sejam severamente corrigidas no próximo ato eleitoral, com ou sem Pinto da Costa (o próprio Miguel Bismarck já admitiu rever a impossibilidade de votar em branco). O FC Porto tem que ser um clube preparado para eleições, coisa que não é, porque nunca sentiu necessidade de ser.

Quanto às eleições propriamente ditas, O Tribunal do Dragão foi abordado em dois sentidos: um para declarar apoio a Pinto da Costa antes das eleições; outro para publicitar um movimento de apelo ao voto nulo, como forma de protesto pelo trabalho feito nos últimos anos e como alerta para a SAD. Os dois casos foram descartados, pois O Tribunal do Dragão é um espaço de «defesa, crítica e análise ao FC Porto», não é um espaço para a promoção de sentidos de voto em atos eleitorais.

Pinto da Costa já foi elogiado e já foi criticado neste espaço. Porque aqui não se julgam as pessoas: julgam-se sim as ações e os atos de gestão - que por sua vez podem dizer muito de determinada pessoa. Pinto da Costa, enquanto presidente do FC Porto, já foi muitas vezes aclamado e defendido neste espaço; mas Pinto da Costa, enquanto candidato à presidência do FC Porto, está sujeito ao mesmo que os outros - os traços gerais da sua candidatura (não se pode falar em programa eleitoral) foram explicados no Porto Canal e foram devidamente analisados aqui, tal como se faria se o Manuel Joaquim quisesse candidatar-se à presidência do FC Porto. 

Pinto da Costa disse, genericamente, o que pretende para o 14º mandato. O resto é a palavra dos sócios, a mais importante em todo o processo. Mas podemos reconhecer que todos os associados, sejam os que entregam o boletim, sejam os que sacam da caneta, querem o mesmo: que o FC Porto volte a vencer e a orgulhar os seus adeptos pela personificação de mística, garra, honra e sede de vencer. No final das contas, há dois grandes grupos de associados: aqueles que continuam a acreditar em Pinto da Costa; e aqueles que querem acreditar uma última vez em Pinto da Costa. E haverá ainda certamente aqueles que queriam acreditar, mas não receberam sinais suficientes por parte do presidente nos últimos meses, o que também será uma posição legítima.

Pinto da Costa pode não voltar a ter outro mandato para corresponder a essa confiança. A boa notícia é que, a partir de hoje, terá 4 anos pela frente para reerguer não só o clube como a sua obra. Com o reconhecimento que os associados não estão a votar nele para premiar o seu passado, mas sim para regressar às vitórias no 14º mandato. 

Esta pode não ser a eleição em que Pinto da Costa recebe menos votos (essa ocorreu em 1991, quando Martins Soares conseguiu pouco mais de 20%), mas poderá ser aquela que mais votos nulos teve. Cabe a Pinto da Costa decidir o que quer fazer: ou ignorar quem não votou nele, pois não precisou desses votos para ser reeleito; ou tentar reconquistar a confiança desses associados, tentando unificar o clube e os adeptos, em vez de ignorar/criticar quem o contesta. Se seguir a segunda, o presidente já entra a ganhar no 14º mandato.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Esclarecimento e análise

Um pequeno esclarecimento a abrir o post: ao contrário do que se lê em vários comentários, Pinto da Costa não criticou uma única vez, diretamente ou indiretamente, O Tribunal do Dragão. Basta ouvir a entrevista do presidente para se chegar a esta conclusão. 

Júlio Magalhães perguntou ao presidente se achava que a contestação dos adeptos se devia ao negócio com a MEO, e depois insiste que a contestação «tem a ver com esta perspetiva».

Balanço da entrevista
O presidente respondeu que toda a gente do FC Porto deu os parabéns pelo contrato com a MEO, antes de tocar nos blogues: «Os adeptos não são parvos. Não tenho nenhuma carta de um adepto. Há os blogues, que não têm rosto, não têm cara, não têm clube. Mas é evidente que nem toda a gente gostou (do negócio da MEO)».

Não se sabe a que blogues Pinto da Costa se estava a referir (seria o Football Leaks?), mas certamente que não seria ao Tribunal do Dragão, que não só elogiou amplamente o negócio com a MEO, como pode ler aqui, como o considerou o melhor da história do futebol português, ao mesmo tempo em que abordou a saga de desvalorização da Benfica TV.

Portanto, obviamente que as críticas não eram para O Tribunal do Dragão. Pelo contrário, Pinto da Costa até partilha da opinião deste blogue (aliás, o blogue partilha da opinião do presidente do FC Porto). 

Depois, Júlio Magalhães questionou o presidente do FC Porto sobre o aumento do passivo. O presidente perguntou se foi buscar a pergunta a blogues, porque os conhece e que às vezes lhe mostram, e que os sócios podiam estar preocupados com o passivo. Uma vez mais, Pinto da Costa não se estava a referir ao Tribunal do Dragão, porque entre os mais de 400 posts neste espaço, não há um único em que o tema seja o passivo ou o respetivo aumento. Nada. 

Logo Pinto da Costa não visou uma única vez O Tribunal do Dragão, mas seria interessante saber que blogues são esses que abordaram os temas que levaram às críticas do presidente. Fica o conselho: leiam O Tribunal do Dragão, que neste campo aparenta estar em plena sintonia com o presidente do FC Porto e trata de forma muito clara estas questões. 

Começando então a análise à entrevista, na ordem dos temas que foram comentados. Pinto da Costa começa por assumir genericamente, sem rodeios, que o FC Porto «bateu no fundo», e que é por isso que se recandidata, não pelo seu passado. Sem dúvida, como diz o presidente, o passado «está no museu e é história que ninguém pode alterar». Não é o que Pinto da Costa fez nos 12 primeiros mandatos que importa nesta reeleição: é o que pretenderá fazer no 14º para corrigir todos os erros cometidos no 13º.

Júlio Magalhães entrou no tema comissões, tratado com demasiado superficialidade. Pinto da Costa diz que o FC Porto paga sempre «entre 5 a 10%» (quando os jogadores são contratados a custo zero, qual é a política da SAD?). O mais interessante seria enquadrar aqui a regra da FIFA que diz que os clubes só deveriam poder pagar 3% (e que nenhum clube está a seguir), mas esse continua a ser um tema ignorado por tudo e todos, inclusive pela própria FIFA.

Pinto da Costa recorda que «ninguém se queixou» por um empresário, no caso Jorge Mendes, ter recebido mais de 11 milhões em 3 anos. Simples, ninguém se queixou pois Jorge Mendes é o empresário que mais dinheiro dá ao FC Porto. Só as vendas de James, Moutinho ou Mangala valeram um valor bruto superior a 100 milhões de euros, por isso é perfeitamente normal que as comissões sejam elevadas. Se isto se enquadrasse noutra crítica aos blogues, certamente que não seria este o caso, pois O Tribunal do Dragão sempre deixou este tema muito claro. No dia em que Alexandre Pinto da Costa, Mohamed Afzal, José Caldeira ou Manuel Joaquim trouxerem boas propostas para o FC Porto, de 20M€ para cima, podem e devem levar a sua choruda comissão, que ninguém se vai importar.

A relação comissão de venda vs. percentagem do passe também é interessante de se debater. Por exemplo, foi publicado o contrato de Kelvin. 150 mil euros de comissão num negócio de 3M€ por 90% do passe. Ora isso dá apenas uma comissão de 5%, que segundo Pinto da Costa é o mínimo que o FC Porto paga. Mas repare-se que o FC Porto cedeu 15% da receita líquida de uma futura transferência a Afzal na mesma operação. Nesse âmbito, 15% de 3M€, o preço da compra, dá 450 mil euros. Juntando isso aos 150 mil euros de comissão, dá um total de 600 mil euros - que é 20% do valor por que Kelvin foi contratado. É certo que estes 15% só se aplicariam no caso de uma venda de Kelvin, mas no momento da venda de Kelvin, além de ter que ceder estes 15%, possivelmente também se pagaria comissão sobre a operação da transferência. Não sabemos se na venda de Rúben Neves já seria esse o caso: 10% para Jorge Mendes, além dos 5% para a Prestige Sports.

Depois Júlio Magalhães deu o caso de Rúben Neves. E a entrevista passou para um cano ao lado, pois Pinto da Costa começou a falar de Jorge Mendes (o seu empresário), quando o que estaria em causa seria a percentagem do passe dado a José Caldeira aquando da sua renovação (o entrevistador não clarificou a sua pergunta, diga-se). Não é verdade que «quem chega à formação tem empresário», Pinto da Costa sabe isso, nem todos os jovens têm empresários. E isto sim seria interessante de debater, o fenómeno de ser tão difícil que os jovens do FC Porto da formação mantenham os 100% do seus passes no clube/SAD. Neste campo nada de revelador.

Sobre o contrato com a MEO, O Tribunal do Dragão já deu há muito a sua favorável opinião. Mas vemos pela primeira vez Pinto da Costa a dizer que este contrato faz com que o FC Porto deixe de entrar com défice. Ou seja, as receitas operacionais podem finalmente cobrir as despesas operacionais, e com isso o FC Porto tornar-se um clube auto-sustentável? Era isso que queríamos ouvir. E se este negócio vai permitir manter os jogadores mais tempo, então só podemos deduzir que a SAD vai deixar de precisar de mais de 70M€ de mais-valias com jogadores, como é o caso desta época.

Depois, os capitais próprios, também lançados entre críticas a não se sabe que blogues. Pinto da Costa diz isto: «Em 2013/14, o FC Porto tinha de capitais próprios 33 milhões negativos. Em 14/15 subiu o passivo mas duplicou o ativo. E em vez de 33 milhões passou a ter 88 milhões de capitais próprios positivos. E em 2013 estávamos preocupados?» Sem dúvida que a situação dos capitais próprios do FC Porto melhorou imenso. Pinto da Costa só se esqueceu de dizer que tal deveu-se à operação Euroantas, de passar metade do estádio do clube para a SAD, caso contrário os capitais próprios continuariam negativos e o próprio fair-play financeiro (que não foi abordado com vista a esta época) estaria em risco. Mas como o próprio presidente afirmou, os adeptos não são parvos, e percebem o porquê da situação de evolução dos capitais próprios, mesmo que Pinto da Costa se tenha esquecido deste pequeno grande detalhe.

Seguiram-se as críticas da praxe a Lopetegui. Essa situação já foi aqui avaliada na entrevista anterior, não vale a pena repetir. Quando ou se Lopetegui entender que se deve defender, que o faça, pois já não é a primeira nem segunda vez que leva críticas mas fica em silêncio (repare-se que o Record contactou logo Lopetegui para saber se este queria responder a Pinto da Costa, mas uma vez mais Lopetegui foi respeitoso e não contribuiu para que incendiassem ainda mais a atualidade do FC Porto). Esperemos é que agora em todas as entrevistas de Pinto da Costa não haja a subsecção #todoesculpadelopetegui, mas é de lamentar que o próprio presidente quase tenha ignorado que só o colinho impediu que o FC Porto fosse campeão em 2014-15 - a não ser que partilhe da opinião que o FC Porto tem que ganhar 34 jogos em 34 jornadas, nem que o rival seja beneficiado em duas dezenas de pontos. Depois o tempo dirá se foi pior confiar em Lopetegui na contratação de Campaña (que esteve emprestado) ou em quem confiou na contratação de, por exemplo, Marega, só para dar o exemplo de um jogador já adquirido depois de Lopetegui sair. Quando voltarmos a fazer 82 pontos na liga, ganhar um jogo dos 1/4 da Champions, ter a melhor defesa da Europa e ganhar 20 jogos consecutivos no Dragão, podem criticar Lopetegui à vontade (ou muito simplesmente ganhar títulos, claro, que para a maioria dos adeptos parece ser o que interessa, mesmo que os outros sejam levados ao colo).

Pinto da Costa passou então a uma das frases mais fortes da entrevista, a de que a época acabou. Foi inteligente da sua parte: com isso basicamente apaga toda a onda de contestação até ao fim da época. Nos próximos seis jogos, muitos adeptos vão guiar-se com a máxima muito conhecida noutras bandas: «Para o ano é que é!» Este ultimato aos jogadores é bem dado. Com as afirmações de Pinto da Costa, podemos depreender que Peseiro vai rodar muito a equipa nas últimas jornadas, e talvez dar derradeiras oportunidades a jogadores que muito provavelmente não estarão cá em 2016-17. Ao próximo mau resultado do FC Porto, provavelmente muitos vão desdramatizar, dizendo que «isto já não conta para nada» e isto «é pré-época».

Otávio vai regressar. Pinto da Costa diz que não teve oportunidades com Lopetegui, mas Otávio passou quase um ano a ser suplente em Guimarães: só começou a jogar em dezembro. Ou seja, se até no Vit. Guimarães teve que esperar bastante até ter algum espaço para brilhar, achavam que ia ser no FC Porto que ia começar a jogar mais cedo? Claro que não. Otávio apareceu no tempo certo, na altura certa. Pinto da Costa disse ainda que Rafa e Josué vão regressar. O regresso de Rafa é um passo natural, o de Josué chega a ser surpreendente (embora garanta profundidade e qualidade ao plantel). Veremos se se confirma, pois Carlos Eduardo também ia regressar ao FC Porto, mas num ápice as coisas mudaram. De qualquer forma, faz todo o sentido identificar primeiro que emprestados podem encaixar no FC Porto antes de o clube atacar o mercado - até porque não faz sentido contratar jogadores antes de se saber quem é o treinador para 2016-17, mas a forma como Pinto da Costa mostrou um certo arrependimento por ter confiado algumas contratações a Lopetegui mostra que talvez a estrutura confie mais em si própria do que nos pedidos dos treinadores. 
Equipa para o 14º mandato

Pinto da Costa falou ainda do centro de formação, um sonho já antigo. Fará todo o sentido se for para aprofundar a aposta no futebol de formação. De realçar o papel de Antero Henrique na liderança do futebol de formação, e em que medida se enquadrará o pensamento de que «não vamos abdicar de ter a melhor equipa para ter a melhor formação». Sendo um investimento na formação, estas despesas não serão contabilizadas nas contas para o fair-play financeiro.

Depois, outra posição forte: a de que os jogadores vão passar a entrar no FC Porto sem perguntarem onde é a porta de saída. Ou seja, passar a contratar jogadores sem recurso a fundos como a Doyen, que só ajuda a levar jogadores para o FC Porto com vista a que depois sejam transferidos e lucrem. Se é intenção do FC Porto manter mais tempo os melhores jogadores, então há que negociar menos com fundos, bem como abdicar da tal gestão de dependência de mais-valias (o contrato com a MEO só entra em vigor em 2018, pelo que será um desafio perceber em que medida a questão das mais-valias será gerida nas épocas 2016-17 e 2017-18).

Pinto da Costa passou então àquilo que as massas mais queriam ouvir: o regresso de uma equipa à Porto, a jogar à Porto, capaz de voltar a conquistar títulos, com ou sem José Peseiro. Quando José Peseiro foi apresentado a justificação e motivação foi de que havia três competições para ganhar, mas Pinto da Costa disse ontem que «um treinador que pega na equipa a meio da época não tem objetivos imediatos». Isto já é querer entrar na cabeça de Pinto da Costa, num campo especulativo, mas se fosse inequivocamente para manter José Peseiro para 2016-17 Pinto da Costa tê-lo-ia afirmado. Ou seja, José Peseiro pode estar envolvido na preparação para a nova época, mas nada garante que esteja na próxima época.  Mas não pode haver dúvidas: a Taça é para ganhar! José Peseiro, além de ter chegado em janeiro, ainda vai ter várias semanas de pré-época até chegar ao Jamor; ou seja, tem muito mais tempo para preparar a equipa do que um treinador que chegasse em junho/julho para disputar a Supertaça em agosto.

Venha então a competência, o rigor, a paixão e a ambição. 

Pergunta(s): Reações à entrevista?

sexta-feira, 18 de março de 2016

O valor da palavra

Jornal de Notícias
Pode muito bem ser entendido como uma crítica a Vítor Baía, que foi a única personalidade ligada ao FC Porto a admitir publicamente uma futura candidatura à presidência do clube, mas que se ficou pela afirmação de que «varria tudo». Ou quiçá seria mesmo uma vontade do presidente. Pinto da Costa disse que «se tivesse entrado uma candidatura credível, não seria candidato». Por mais nobres ou provocatórias (na medida em que ninguém acabou por avançar com uma candidatura) que fossem as intenções de Pinto da Costa por trás desta frase, não são as palavras mais motivadoras para avançar para o 14º mandato.

Por outras palavras, os associados do FC Porto podem votar em Pinto da Costa por acreditarem que é a melhor hipótese; mas Pinto da Costa só se apresenta a votos por não haver outra hipótese (melhor). Os sócios confiam mais em Pinto da Costa do que o próprio Pinto da Costa?

Para responder a estes últimos 3 anos de péssima memória, é preciso um excelente programa para o 14º mandato. Assim sendo, se Pinto da Costa não decidisse avançar, ia deixar de lado o seu programa para o 14º mandato? Ou não há ainda sequer programa? Pinto da Costa, aliás, disse que só na terça-feira deu luz verde a Fernando Cerqueira para avançar. 

Em 2011-12 Pinto da Costa disse ao L'Équipe que ia deixar o FC Porto num prazo máximo de 5 anos. Esse quinto ano seria a época que se avizinha. Mas como é óbvio, nenhum associado quererá votar num mandato de 4 anos para, ao fim da primeira época, haver logo mudança de presidente. Por isso só temos que assumir que Pinto da Costa quer e vai cumprir os 4 anos que tem pela frente.

Aliás, se houvesse de facto intenção de Pinto da Costa em passar a pasta, então não se teria alterado os estatutos. É muito simples: o artigo 89 dos estatutos do FC Porto previa o seguinte. «Na hipótese de os Presidentes da Direcção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal manifestarem até ao dia 20 de Março do final do triénio, das suas disponibilidades para continuarem em exercício de funções e não surgir qualquer candidatura até 15 Abril, haver-se-à o seu mandato prolongado por mais 1 ano.»

Tendo em conta que não houve candidatos, a atual direção não precisaria de se candidatar para o 14º mandato: bastava avançar para o ano extra em causa e, quiçá, dar tempo a eventuais interessados para avançarem (se bem que provavelmente só o farão quando Pinto da Costa se retirar, pois ninguém quererá ficar sob a pressão de ter antecipado, oficialmente, o fim da era Pinto da Costa). Mas face à mudança de estatutos, então só se pode admitir um compromisso absoluto com o clube para os próximos 4 anos. Muito provavelmente será o último mandato de Pinto da Costa, mas que pelo menos seja apresentada a base para os próximos 4 anos; os associados querem saber em que estão a votar. E não querem votar num presidente que se retire ao fim 1 ou 2 anos de mandato.

Uma curta nota pelo meio, a propósito de alguns comentários que têm surgido, com uma analogia política que se fará entender: para se ter o direito a ter uma voz crítica sobre o governo, não é preciso formar um partido, nem fazer carreira de político; da mesma forma que ter algumas opiniões populares e fundamentas sobre o governo não qualifica ninguém para o substituir ou para ser político. Para bom entendedor...

Adiante, estas foram as palavras de Pinto da Costa à imprensa. Não sabemos, pode ter sido uma mera bicada aos candidatos, um toque de ironia. Mas uma coisa é o que Pinto da Costa diz à imprensa. Outra é o que diz aos associados, ou, como já disseram, entre família. Isto claro, a propósito do que disse Vítor Serpa, que confirmou que falou com Pinto da Costa durante 15 minutos na Gala dos Dragões de Ouro e que foi o próprio presidente a convidá-lo. Pedro Marques Lopes, um dos portistas mais notáveis da nossa praça, confirmou que esteve à conversa com os dois na Gala.

Ou Vítor Serpa e Pedro Marques Lopes mentiram, ou Pinto da Costa mentiu. E nenhum adepto pode ser inocente ao ponto de não reconhecer para que lado está a pender a balança. Como não há registos audiovisuais da intervenção do presidente na AG, há quem já fale em más interpretações: uns dizem que Pinto da Costa garantiu que não convidou, nem sequer viu Vítor Serpa na Gala; outros dizem que Pinto da Costa só disse desconhecer quem convidou Vítor Serpa, e que não terá falado com ele. 

Jornal A Bola, a outra «versão»
Seja como for, algo falhou aqui. Poderão dizer que isto é uma coisa insignificante - e até é, quando comparado com tantas outras coisas dos últimos anos. Mas o problema está mesmo aí: mentir numa questão tão insignificante quanto esta, não à imprensa, mas a sócios que o olharam nos olhos? Porquê? Para quê?

Nenhum erro poderá ser tão grave quanto não admiti-lo. Se aconteceu como com Suk, em que o homem lhe caiu ali nos braços, tudo bem, há que ser politicamente correto, educado, cordial. Mas mentir, nunca. Até podiam convidar Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho: nada seria tão grave quanto mentir nesta questão. E alguém mentiu. Depois, só há duas coisas piores do que a mentira: fingir que nada aconteceu ou insistir na mesma.

Na questão de Casillas, é de destacar que não foi proposta propriamente uma renovação: simplesmente o FC Porto quer ativar o ano de opção que tem no contrato. A única novidade é que, a partir de 2017, o Real Madrid deixa de contribuir no salário de Casillas. Logo, ou Casillas reduz para quase um terço o seu salário em 2017-18, ou terá que ser o FC Porto a suportá-lo (na verdade não será, pois é impossível fazê-lo, portanto só uma grande redução salarial de Casillas viabilizará a sua continuidade no FC Porto). 

Não é necessária grande pressa para renovar contrato com um jogador que terá 36 anos e não terá mercado quando o contrato com o FC Porto terminar (terá 37 no ano de opção), mas percebe-se que Pinto da Costa tenha optado por deixar uma mensagem forte depois da encomenda publicada no El Confidencial. E nisso fê-lo bem. Depois do Euro 2016, Casillas possivelmente perderá a titularidade na seleção espanhola e veremos em que medida o futebol europeu ainda o motiva, sobretudo com a MLS a chamar por ele. Nada que não se resolva à mesa para benefício de todas as partes. Com o valor da palavra presente, de preferência.

PS: A título de curiosidade...

sexta-feira, 4 de março de 2016

Recondução e coincidência poética

Uma curta reflexão a abrir: o FC Porto (clube) detém cerca de 3/4 das ações da SAD e mantém todas as ações de categoria A, o que confere o poder de designar os elementos do Conselho de Administração da SAD.

Ora a atual direção está em final de mandato e só em abril vai ser formalmente reeleita (poderia até não ser, se houvesse uma forte lista concorrente, coisa que nunca existiu na era Pinto da Costa e que continuará a não existir). Que sentido faz uma direção em fim de mandato eleger, atempadamente, a administração da SAD para o próximo quadriénio?

Imaginem - só mesmo imaginando - que uma lista alternativa ganharia as eleições para o clube, um mês depois de o Conselho de Administração da SAD ter sido reconduzido a novo mandato. Não faz sentido. Primeiro deveriam ocorrer as eleições do clube e só depois a direção eleita deveria designar os membros da SAD. Até porque quando o clube assumiu a maioria da SAD, aquando da operação Euroantas e da absorção da parte da Somague, era suposto isso conferir maior poder de intervenção dos associados nos destinos do FC Porto. Neste caso, a administração da SAD foi reeleita ainda antes dos sócios se poderem pronunciar. E sem que tenha sido apresentado aos associados um plano para os próximos anos.

Posto isto, a entrada de Antero Henrique no Conselho de Administração da SAD acabou por ser a principal novidade na AG que reconduziu Pinto da Costa e restantes parceiros à reeleição. Antero Henrique vê, no papel, os seus poderes no FC Porto serem reforçados, o que faz com que o Conselho de Administração aumente para sete elementos, dos quais dois não executivos - José Américo Amorim junta-se a Vieira de Sá. 

Na prática, Antero Henrique passa a poder validar, diretamente, contratos ou transferências que envolvam a SAD - é sempre necessária a assinatura de dois membros do Conselho de Administração. Até aqui, só Pinto da Costa, Fernando Gomes, Adelino Caldeira e Reinaldo Teles, independentemente de conduzirem ou não os processos em causa, podiam validar esses documentos. Antero Henrique vê assim ser aumentada a sua influência na SAD, inclusive após o processo Operação Fénix, embora a sua influência no FC Porto seja patente de há 10 anos para cá, com ou sem estatuto oficioso de administrador da SAD.

Um lamento que, por clara e infeliz coincidência, o R&C do primeiro semestre tenha sido comunicado à CMVM há apenas três dias - era necessário um intervalo de cinco dias para os acionistas colocarem, atempadamente, questões à AG. Esteve representado 83,78% do capital social da SAD. A sua composição, a saber: 


A SAD foi reconduzida antes das eleições no clube, no qual Pinto da Costa também vai ser reconduzido, com mais ou menos votos. Mas seria bom apresentar o quanto antes o seu programa para o 14º mandato, de modo a que os sócios pelo menos saibam que estão a votar num projeto para os próximos quatro anos, e não apenas num currículo de três décadas. É tempo de trabalhar presente e futuro, não de reconhecer o passado - reconhecimento pelo passado é eterno e intocável, mas é isso mesmo: passado, não futuro.

Não haverá listas alternativas, pois nenhum candidato terá a coragem de concorrer contra Pinto da Costa. Quem o fizer será eternamente visto como o homem que desafiou Pinto da Costa. Basta ver que qualquer voz de contestação que se levante é imediatamente abafada por diversas vias. Nas AG também não é fácil intervir - basta ver quando, há um ano, nas alterações de estatutos, um sócio decidiu abster-se (e disse porquê) e foi imediato pressionado pelo barulho de fundo da sala, onde muitos marcam presença não para discutir o que importa mas para abafar quem ouse questionar alguma ação.

E por muito que haja cada vez mais interessados e preocupados com o rumo do clube nos últimos anos, estamos ainda a falar de uma minoria. Disse Vítor Baía, e bem, que há quem esteja a preparar-se nos bastidores para avançar, mas só o vai fazer quando Pinto da Costa decidir sair (uma ironia Vítor Baía estar a ser puxado para uma dessas mesmas jogadas, mas isso é tema para outra altura). E quando o fizer, terão que ser os sócios a escolher, não uma elite já pré-definida, que pensa que vai direitinha para o poder - ou que vai poder continuar a manter o poder quando o presidente sair. Não são eles quem vão escolher. Nem sequer Pinto da Costa. São os sócios. Quem quiser que se chegue à frente com os seus projetos, pois é o projeto que deve ser eleito, não os homens ou o seu passado.

Pinto da Costa vai estar hoje em Cantanhede e seria bom ouvir as perspetivas para o próximo quadriénio da SAD, até porque foram os acionistas a reconduzir esta administração. Uma palavra para sócios e adeptos ficaria bem, sobretudo antes de uma jornada importantíssima.

Para render até 4,425M€
Entretanto, o Football Leaks escolheu o dia seguinte à reeleição dos órgãos sociais da SAD para divulgar o contrato com as comissões da renovação de contrato de Rúben Neves. O timing é uma coincidência poética. Mas é oportuno conhecer os seus contornos e confirmar que isto vai bem além dos 5% do passe (potencialmente convertíveis a 2M€ no momento de uma transferência).

A saber, José Caldeira embolsou 225 mil euros só com a renovação do contrato de Rúben Neves, na altura quando ele ainda tinha 17 anos. Depois disto, a SAD paga 100 mil euros por 20 jogos oficiais; e mais 50 mil se chegar aos 30 jogos; e mais 50 mil por 40 jogos. Posto isto, «em consideração pelos servidos prestados pelo agente ao clube» (palavras da SAD), o irmão de Adelino Caldeira ficou com 5% do passe.

Em relação aos serviços, e embora isto seja a justificação padrão em todos os contratos da SAD (e até em todos os clubes), é curioso ver os três pontos que justificam a intervenção de José Caldeira e interpretar o que cada um deles quer realmente dizer: a) aconselhar o FC Porto na estratégia de renovação (claramente, era preciso um grande aconselhamento para o clube perceber que tinha que renovar com Rúben Neves; podia haver dúvidas); b) servir como intermediário e informar o jogador das condições que o FC Porto tem para ele (o Rúben Neves chegou há pouco tempo ao clube, passa pouco tempo nas instalações do clube e tem uma agenda muito preenchida, que o impediria de se sentar à mesa com a Administração da SAD; ainda bem que houve um pombo-correio a resolver este problema); c): convencer o jogador a aceitar o FC Porto em vez de procurar outro rumo para a sua carreira (ainda bem que José Caldeira aconselhou Rúben Neves a renovar, se não ele, um portista de berço e sangue, até era capaz de assinar pelo Benfica. Uma estátua para Caldeira, pois sem ele não havia Rúben Neves!).


Mas... Se a proposta para a transferência de Rúben Neves para outro clube for apresentada por José Caldeira, então a percentagem que o empresário tem direito passa a ser de 10%. Ou seja, potencialmente 4M€ se tivermos em conta o valor da cláusula de rescisão. Tendo em conta que José Caldeira surgiu como intermediário e que o empresário é agora Jorge Mendes, pouco leva a crer que José Caldeira tenha capacidade ou conhecimentos para apresentar uma boa proposta por Rúben Neves. 

Mas para efeitos contratuais José Caldeira pode então, na melhor das hipóteses para o empresário, ganhar 4,425M€ com a transferência de Rúben Neves, um produto da formação do FC Porto e que se calhar Caldeira nem conhecia até começar a jogar na equipa principal - ou seja, três meses antes da renovação. 

Este foi o último contrato de Rúben Neves do qual se tenha tido conhecimento. O FC Porto já disse que ele tem contrato até 2019, mas desconhece-se em que termos. O que se conhece, para já, é quanto José Caldeira pode ganhar. Infantino, ajuda lá a malta a calcular quanto é 3%.

PS: As coisas que se fazem para desestabilizar o Benfica em semana de derby!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Vinte perguntas

Pinto da Costa vai falar amanhã ao Porto Canal, sensivelmente dois anos após ter dado a sua última entrevista de balanço a meio da temporada. O essencial é que se foque nas questões importantes e, ao longo dos 50 minutos. não perca tempo com fait divers.

Entrevista em perspetiva
Há dois anos, Pinto da Costa, o tipo de entrevistado que sabe conduzir uma entrevista, disparou em diversas frentes, mas quase sempre ao lado. Passou mais tempo a atacar dois potenciais candidatos à presidência do FC Porto (António Oliveira e Fernando Gomes) do que a debater, concretamente, a atualidade da equipa; das finanças da SAD pouco ou nada se falou; disse que Soares Dias não devia ser árbitro, mas um ano depois disse que era um árbitro com tudo para ser top europeu; atacou Manuel Serrão, chamando-o de palhaço (o FC Porto, ao contrário de Benfica e Sporting, não prepara os «seus» comentadores para os debates televisivos, o que indica que não atribui importância a este formato); disse que Abdoulaye, Pedro Moreira e Tozé eram as promessas de curto prazo para a formação do FC Porto, além de prever um grande futuro a Reyes; disse que Lucho González, que saiu duas semanas depois, ia ficar para sempre no FC Porto. E de outras coisas se poderia falar, mas também há declarações com segundas intenções, como dar confiança ao treinador («Se o contrato de Paulo Fonseca acabasse hoje, renovava com ele») ou dar recados ao mercado («Se alguém sair será pela cláusula, nós vão vendemos pela metade» - Otamendi nem chegou à metade).

De há dois anos para cá, o FC Porto não ganhou nenhum título no futebol e a SAD apresentou o seu maior prejuízo de sempre. Desde então, já saiu Fonseca, Luís Castro subiu, Lopetegui chegou e saiu e Rui Barros aqueceu o lugar até José Peseiro chegar. A contestação para com a SAD vai subindo de tom e, daqui a dois meses, será data para fechar listas para eleições.

Por isso, há uma série de questões que poderiam e deveriam ser abordadas. O facto de ser uma entrevista no Porto Canal pode levar a que Júlio Magalhães não pergunte várias coisas que gostaríamos de ouvir, mas aqui ficam questões que mereceriam ser debatidas por Pinto da Costa.

1 - Disse que os assobios a Lopetegui davam sorte e exaltou a subida do FC Porto à liderança, mas pouco mais de uma semana depois decidiu avançar para a rescisão com Lopetegui. O que mudou nesse espaço de 10 dias? Que responsabilidades, méritos e culpas se podem distribuir na era Lopetegui?

2 - Como se justifica a demora do FC Porto em encontrar o sucessor de Lopetegui? Concorda com quem diz que o FC Porto tem dificuldade em atrair treinadores de topo? 

3 - O que pode José Peseiro dar à equipa nos 18 meses de contrato que assinou? O que exige ao treinador? Por que foi esta a sua escolha?

4 - No início da época disse: «Às vezes não é preciso um treinador como Lopetegui. Quando tenho Hulk, Falcao e James na equipa, o treinador é indiferente. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores nem capacidade económica para substituí-los». Ou seja, Pinto da Costa dizia que apostou em Lopetegui por não ter grandes jogadores como Hulk, Falcao e James. Em que papel cabe então José Peseiro?

5 - Reconhece a dependência do FC Porto de fundos, nomeadamente e sobretudo da Doyen Sports, na abordagem ao mercado de jogadores? O FC Porto vai continuar a negociar sistematicamente com a Doyen ao lado ou deseja recuperar alguma independência no mercado? 

6 - Pinto da Costa sempre afirmou que os fundos permitiam ao FC Porto chegar a jogadores mais caros. Mas dados recentes mostram que o FC Porto começa a necessitar de fundos até para ter financiamento para pagar salários. Qual é o limite?

7 - Que comentário lhe merece a política do FC Porto de contratar diversos estrangeiros para a equipa B, mas sempre por empréstimo, o que depois significa comprar jogadores a título definitivo com inflação, como foram exemplos Kayembé ou Víctor Garcia?

8 - O FC Porto tem uma equipa B e formação recheada de grandes valores. No entanto, tem cerca de 100 milhões de euros investidos em jogadores que não utiliza, além de continuar a pagar o salário à maior parte de jogadores emprestados. Acha sustentável manter uma folha salarial e despesas com o plantel desta dimensão?

9 - A SAD orçamentou uma necessidade de mais-valias com jogadores de 72,519M€ para 2015-16. Tendo em conta que Alex Sandro já saiu e Brahimi vai pelo mesmo caminho, quem é o 3º jogador titular que poderá sair no fim da época? Pode assegurar a continuidade de Rúben Neves? E poderá o novo contrato de direitos televisivos aliviar a dependência de vendas do FC Porto? Em que medida a eliminação da Champions afetará os planos da SAD?

10 - Em relação ao contrato com a PT, pode desmentir o envolvimento de Alexandre Pinto da Costa e Pedro Pinho, já presente na contratação a «custo zero» de Quaresma, no papel de intermediários do negócio? Reconhece o FC Porto como destinatário da boca de Bruno de Carvalho, ao dizer que fez um contrato «sem comissões»? O novo contrato vai permitir ao FC Porto reduzir a dependência de mais-valias?

11 - Pinto da Costa já afirmou mais do que uma vez que o FC Porto «não é uma monarquia». É uma frase que se aplica apenas à presidência ou também a outros setores do clube, nomeadamente na relação e/ou favorecimento de empresários com relações familiares com membros da SAD?

12 - Uma vez disse que o seu sucessor «só tem que não estragar». Continua a achar que o FC Porto está a funcionar corretamente em toda a plenitude, que há total comunhão entre todos os administradores da SAD e que rumam todos em prol do propósito maior: «servir o FC Porto»?

13 - Ao recandidatar-se à presidência do FC Porto, planeia cumprir o mandato de quatro anos, até 2020, ou admite em algum momento passar a pasta durante o 14º mandato? Os sócios podem confiar que, ao votar em si, estarão a votar em Pinto da Costa para presidente e não em Pinto da Costa para, no médio prazo, passar o testemunho?

14 - A SAD reconhece a revenda de bilhetes do FC Porto, comprados por parte da massa associativa a um preço e revendida a comuns adeptos pelo dobro ou triplo?

15 - Como se justifica que, ao longo de 18 meses, o FC Porto tenha sempre deixado o treinador isolado na defesa do clube e no insurgimento contra as arbitragens e outros fatores externos?

16 - O FC Porto conformou-se com o papel de Vítor Pereira no CA da FPF? Por que deixou de combater o sistema de nomeações e assumiu o silêncio face às nomeações e arbitragens?

17 - Como se justifica que o FC Porto, nos últimos R&C, tenha apresentado uma média de dois a três intermediários/empresários por cada jogador transferido e declarado nas contas do clube? Há necessidade de envolver tantos empresários, com entidades que de transparante nada têm, nos negócios do FC Porto? Servir o clube não deveria também ser não deixar que se sirvam dele?

18 - Entre alguns dos negócios desta época: é verdade que Osvaldo custou 4M€? Imbula - dá para confirmar o modelo de pagamento de prestações a envolver Doyen e Marselha? - vai ser aposta de médio prazo ou o FC Porto vai admitir a sua saída no defeso? Cristian Tello vai sair? Pode esclarecer a alegada alienação de passe de Sérgio Oliveira após a proibição de partilha de passes da FIFA? Que comentário lhe merece o negócio a envolver Carlos Eduardo, Nice e a saída para as Arábias?

19 - A que objetivos se propõe caso avance para o 14º mandato na presidência do FC Porto? Quais são as bases do seu programa eleitoral?

20 - O que teria Jorge Nuno Pinto da Costa, o presidente eleito em 1982, a dizer sobre o FC Porto dos últimos três anos? Estaria orgulhoso e identificado com o clube atual?

PS: Que outras perguntas gostariam, os leitores, de ver serem colocadas ao presidente do FC Porto?

PS2: O Dragões Diário diz que Bruno Costa, que renovou até 2019, é «capitão dos juniores» do FC Porto. Quando o jornal oficial do clube não sabe que Bruno Costa usou, pela primeira e única vez na carreira, a braçadeira de capitão apenas no dia 9, contra o Boavista, assim se vê a atenção e rigor que dedicam à formação. Fica a nota da boa notícia pela renovação deste jovem talento, que está no FC Porto desde os infantis. 

PS3: Há um ano, O Tribunal do Dragão escreveu isto a propósito do empréstimo de Kelvin ao Palmeiras, defendendo que foi uma péssima decisão. Um ano depois, confirma-se. Passou um ano inteiro a ser suplente (jogou nas primeiras jornadas, mas desde junho só ia ao banco), fez apenas um golo em 2015 e não evoluiu absolutamente nada, pois o meio também não era convidativo a isso mesmo. Agora esqueçam o futuro: que presente dar a Kelvin?

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Habemus presidente

A entrevista de Pinto da Costa a O Jogo foi o prólogo da vitória de Pedro Proença nas eleições da Liga. E podemos começar por aqui: é uma ótima solução. Tem o perfil ideal, ironicamente até mesmo por ter sido árbitro - vai ter muitos, muitos conflitos e discórdias para mediar e vai colher ódios de diversas facções.

A Liga não está no centro de poder de decisão no futebol português, mas é a entidade que representa os clubes. Logo, era essencial ter na sua liderança alguém íntegro, competente, que não chega onde chega por subserviência, que percebe de futebol e gestão.

Pedro Proença foi uma pessoa que sempre fez por merecer respeito no panorama do futebol português. Pela ignorância de milhares de pessoas, muitas vezes foi dado como principal culpado pela derrota do Benfica contra o FC Porto no clássico do «golo do Maicon». É preciso imensa burrice ou má fé para culpar Pedro Proença por isso, tendo em conta que o erro, que existiu, foi do auxiliar Ricardo Santos. Mas o facto de Pedro Proença ter chamado a si próprio a responsabilidade mostra desde logo que tem o perfil ideal na Liga: não tem medo de responsabilizar-se por erros que não comete, notando que se a sua equipa erra, ele erra. Assim se forma um bom líder.

Ser adepto do Benfica não importa. De lembrar que o próprio presidente Pinto da Costa foi presidente da Liga. Fernando Gomes é portista e, apesar de ter sido um bom dirigente do FC Porto, tem sido um mau presidente da FPF para o futebol português - mas há quem tenha mais razões de queixa do que outros. A competência não tem clube. 

Pedro Proença tem o perfil ideal para presidir à Liga. Resta apresentar trabalho que sustente a escolha. Em termos de propostas, há as novas tecnologias de arbitragem a implementar, naming para a segunda liga, regulamentar as apostas online, aumentar as receitas e fomentar a sustentabilidade dos clubes - os dois últimos serão os maiores desafios do programa. Outro aspeto a merecer total atenção é ver que passamos de um ex-presidente anti-Olivedesportos (Mário Figueiredo) para um que tinha o apoio de Joaquim Oliveira. Para já fica a nota. Boa sorte, meu querido.

Passando à entrevista de Pinto da Costa, eis os destaques.

Um lateral de 30M€
Alex Sandro. Excelente notícia a garantia de que vai renovar. Dos três grandes, o FC Porto é o que perdeu mais titulares: Danilo, Casemiro, Óliver e Jackson, e ainda podemos incluir Quaresma e Fabiano. Temos a aposta da continuidade no treinador, mas há muito no futebol e nos métodos de Lopetegui que tem que ser melhorado e, em alguns aspetos, mudado. Basta lembrar o que se passou na última vez que o FC Porto jogou sem os dois laterais dos últimos anos: goleada em Munique.

Um misto de audácia, coragem e risco confirmar que recusou 30 milhões por Alex Sandro. Porque isso vai elevar a expetativa face à mais do que provável transferência no próximo verão. Alex Sandro deixou de ser o lateral dos quase 10M€: passou a ser o lateral dos 30M€. Só me lembro de dois laterais esquerdos vendidos dentro desse valor, Coentrão e Luke Shaw. É realista pensar em Alex Sandro com valor de mercado de 30M€ daqui a um ano? Se a sua continuidade ajudar o FC Porto a atingir os seus objetivos, uma eventual descida no preço valerá a pena; mas para o FC Porto atingir os seus objetivos, muito provavelmente necessitaremos de um Alex Sandro tão bom ou melhor do que no último ano. Um paradoxo com o qual nos devemos preocupar mais tarde. Até lá, metam lá Rafa a rodar numa equipa de primeira liga, ok?

Políticos. Ver políticos no futebol cheira a esturro a Pinto da Costa. Escolha de palavras algo discutível, tendo em conta que escolheu Fernando Gomes para pegar na pasta das finanças da SAD. Não é que o responsável financeiro tenha que ser um génio da tática - Angelino Ferreira não o era -, e uma estrutura pressupõe que diferentes competências se complementem. Mas que era evitável, era, ainda que a intenção tenha sido arrumar com Luís Duque.

Descartado em 2011-12
Rafa. Faz todo o sentido descartar a sua contratação. Não tanto pelo absurdo que era pedir 10M€ por metade do seu passe, mas sim por se tratar de um jogador que, quando estava no Feirense, recebeu vários pareceres positivos do departamento de scouting e o FC Porto, mesmo no ano de criação da equipa B, descartou a sua contratação. Nem iria ser uma contratação para o 11 ou que iria melhorar fracamente o plantel no curto prazo. Neste momento, só faz sentido ir ao mercado para contratar soluções mais experientes e/ou melhores para o curto prazo do que as que já se encontram no plantel. Vale também para o ponta-de-lança, claro.

Camisolas. «Não somos vendedores de camisolas». Ok, não somos. Mas quando temos um jogador com o mediatismo de Casillas, faz todo o sentido pensar em sê-lo. O próprio FC Porto ganhou grande apreço em mercados como México ou Colômbia. O FC Porto só tem a ganhar em pensar em expandir o seu mercado de vendas e merchandising. De notar que não se falou do patrocínio. Porquê? Provavelmente porque Pinto da Costa não quis falar disso. À atenção de Helton, a propósito do seu silêncio ruidoso para com Lopetegui.

Casillas. Pinto da Costa diz que Casillas ganha tanto como Fabiano e Andrés Fernández juntos. Então, desportivamente de facto foi bom emprestar os dois guarda-redes para arranjar espaço para Casillas. Resta saber se Granada e Fenerbahçe vão pagar os seus salários na totalidade. De qualquer forma, o aspeto mais relevante aqui é questionar como é que Fabiano e Andrés tinham salários tão altos, fazendo fé que Casillas custará 2,5 milhões limpos esta época. Fabiano tinha meio ano de titularidade quando renovou até 2019 - meia época depois foi dispensado. E Andrés foi contratado por um valor baixo, nunca jogou no campeonato, um ano após chegar foi emprestado e ainda assim também tinha, aparentemente, um salário alto. Assim se explica uma folha salarial de 70M€.

Para terminar, o aspeto mais curioso. O FC Porto precisa de um médio criativo? Sim. Danilo Pereira é um médio criativo? Não. Imbula é um médio criativo? Não. Então por que é que as contratações de Danilo e Imbula fizeram, segundo Pinto da Costa, com que Lucas Lima deixasse de ser essencial? Well played. 

PS: Gonçalo Paciência renova e segue para a Académica. Era essencial jogar com regularidade esta época. Um jogador que esteja no 3º ano de sénior tem obrigatoriamente que estar numa primeira liga, caso contrário torna-se difícil evoluir no sentido de jogar no FC Porto. É melhor do que Rabiola, é melhor do Rafael Lopes. É também menos experiente, mas é para isso que vai para a Académica: acumular experiência, golos e prosseguir a sua evolução. Esperemos que o futebol de José Viterbo seja algo mais do que jogar para o pontinho e na raça e que ajude Gonçalo a evoluir. Ficamos à tua espera. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Impressões gerais dos novos estatutos

Noite de Assembleia Geral, destinada à alteração dos estatutos do FC Porto. Que alterações? Através de uma tripinha do jornal O Jogo tivemos acesso à informação dos pontos em «discussão». A divulgação feita pelo FC Porto às Assembleias Gerais continua a ser manifestamente curta. Foi anunciada no site do clube, mas porque não publicitá-la nas redes sociais? E porque não criar uma newsletter que fosse encaminhada para todos os associados? Tão simples, tão útil. Seria interessante que estas alterações pudessem ter sido debatidas antes da Assembleia Geral, à qual a esmagadora maioria dos associados não comparece/não pode comparecer, de forma calma e ponderada, sem a agitação típica que possa causar constrangimentos e que iniba quem lá esteja com as melhores intenções clístenianas. Dictum et factum, mas se até a Platão desagradou.

Uma das novidades é a passagem dos mandatos para quatro anos. Nos anteriores estatutos, estavam previstos 3+1 (triénio normal, mais a possibilidade de exercer um ano complementar se a direcção assim o entender e se não houver novas listas). Uma alteração que não provoca grande diferença, sobretudo pela realidade que o clube viverá no pós-Pinto da Costa.

Pinto da Costa é o único presidente do futebol mundial que não precisa de programa eleitoral. É reeleito sistematicamente pelo seu currículo, pela sua obra. Assume algumas apostas, como é exemplo mais recente o Museu e o Porto Canal, mas os objectivos e modelo do FC Porto já estão tão enraizados (valorizar jogadores, conquistar títulos, subsistir por uma mão para bater com a outra, repetir) que Pinto da Costa nem precisa de programas eleitorais. Ora isso vai mudar.

Se as coisas estão a correr mal, culpa-se o treinador, os jogadores, o árbitro, e por aí fora. Só por último se culpa o presidente (e é preciso muito para chegar aqui). Quando Pinto da Costa sair, vai nascer no FC Porto uma coisa que quase não existiu nos últimos 30 anos: oposição. No pós-Pinto da Costa, se as coisas correrem mal, não há-de faltar quem questione o novo presidente. Por isso, o aumento de três para quatro anos pouco muda, porque o sucessor estará sob máxima pressão a partir do primeiro ano. Ninguém ousa questionar a obra de Pinto da Costa. Quando sair, o FC Porto vai ganhar facções críticas como nunca antes visto.

Outro dos destaques passa a ser a necessidade de maior tempo de filiação para exercer diretos de associado e cargos no FC Porto. Doravante, é preciso ter 12 meses enquanto associado para votar, enquanto até aqui eram necessários apenas 3. Para integrar os órgãos sociais, passam a ser necessários 5 anos, em vez de apenas um. E para ser candidato à presidência do FC Porto, passa a ser necessário 10 anos de filiação ininterrupta, em vez de 5. São medidas, portanto, que não beneficiam nenhum eventual candidato à presidência do FC Porto. No máximo, poderiam é afastar alguém. Passa ainda a ser obrigatório apresentar uma lista com 300 assinaturas, e não 50, para apresentar uma candidatura aos órgãos sociais.

Um assunto que causou celeuma durante a tarde era a possibilidade de grupos organizados (claques) passarem a usufruir de quotas mais baixas em relação aos outros sócios - e com isso a eventualidade dos grupos associados ao mesmo sentido de voto crescerem rapidamente e influenciarem futuras eleições. No artigo 27 dos novos estatutos passa a constar: 


Ou seja, pertencer a grupos organizados faculta a facilidade de ser associado do FC Porto, quando o mais «normal» seria o contrário. Afinal, primeiro somos adeptos do clube, não da claque. Mas que haja a possibilidade de criar uma vantagem, é admissível. Afinal são as claques que viajam quilómetros para o todo o lado, para acompanhar a equipa ao frio e à chuva, e que impedem que o Estádio do Dragão quase pareça um cinema, onde se fica sentado a comer pipoquinhas e no final logo se decide se é para aplaudir ou assobiar. Quem mais grita e puxa pela equipa merece ser reconhecido, resta saber a que valor (a quota é fixada pela AG, mas partindo de proposta da direcção). Para os adeptos que não pertençam a claques, também há hipóteses de serem premiados: os aposentados com 30 anos de filiação podem ficar isentos de quotas. Mas nos anteriores estatutos esta possibilidade existia a partir de 25 anos de associado. De destacar ainda que passam a existir 5 classes de associado, menos 3 do que anteriormente 

Na questão das quotas, há a relevante notícia de defender futuras eleições. Nos estatutos anteriores, era possível um camião de pessoas tornar-se associado do FC Porto e passado 3 meses já poderia votar. Com estas alterações, passa a ser necessário 12 meses. Além disso, nada leva a crer que a quota para membros de grupos organizados seja de 25% do valor habitual. Por isso, a questão de surgirem novos associados com as mesmas intenções de voto é falsa, pois estes novos estatutos combatem essa possibilidade mais do que os anteriores. Na relação tempo de filiação vs. quota especial, a quota não se tornará um atalho nesse sentido. Uma vez mais, não é por estas alterações que algum nome surge lançado - ou para usar a expressão do presidente, «encaminhado».

Por fim a questão dos equipamentos. Eis a alteração dos anteriores para os actuais estatutos.


Nota: o artigo 8 especifica que as «cores tradicionais» são o azul e branco
PS: Texto aberto a reparos/opiniões adicionais, até pela hora tardia em que acaba de ser escrito. Posteriormente o tema poderá ser aprofundado mais amplamente.

PS1: De louvar a decisão de ver o malogrado Sardoeira Pinto dar nome ao auditório do Museu. E terminamos como ele: VIVA O FUTEBOL CLUBE DO PORTO!