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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Um coelho em 23 cajadas: viagens pelo Brasil

O FC Porto B está na sua sétima participação consecutiva na II Liga. Já se sagrou campeão nesse escalão, mas tem estado muito, muito distante daquilo que era idealizado como «viveiro» de jogadores para a equipa A. Uns por falta de oportunidades, outros por falta de qualidade. A determinada altura, por exemplo, era necessário um lateral-esquerdo na equipa principal, estavam a negociar Zakarya com o Belenenses e nessa mesma altura estavam quatro defesas-esquerdos a fazer a pré-temporada na equipa B (Diogo Bessa, Inácio, Oleg e Luís Mata).

André Silva acaba por ser o caso mais bem sucedido desde 2012, na medida em que cumpriu quatro dos cinco patamares que deveriam existir neste processo - a saber, 1) qualidade; 2) promoção; 3) rendimento; 4) êxito coletivo, que acabou por não existir, face à ausência de títulos; 5) transferência/valia financeira.

Mas serve isto como ponto de partida para uma análise diferente, um olhar sobre aquilo que tem sido o FC Porto B desde a sua criação, com particular incidência num mercado que é muito querido ao FC Porto: o Brasil. Desde que a equipa B foi recuperada, já foram recrutados diretamente 23 jogadores a clubes brasileiros. Poderíamos falar de africanos, sul-americanos, portugueses, mas para já vamos analisar apenas uma parcela: o mercado brasileiro com destino à equipa B. 23 jogadores, ou seja, um plantel inteiro. Desses 23 jogadores brasileiros contratados, conseguem adivinhar quantos chegaram a jogadores de equipa A?

...

Um. Otávio. Entre 23 jogadores contratados no Brasil, o FC Porto só acertou num: Otávio, que não foi propriamente um achado, pois já custou 7,5 milhões de euros por 68% do passe (foram cedidos posteriormente 0,5%) e era um jogador sobre o qual havia sentido desportivo em ser aposta. Já tinha  60 jogos de Brasileirão nas pernas e, embora a sua contratação não tivesse passado por um pedido/desejo da equipa técnica da altura, sabíamos que havia ali talento. Caro, mas material para se trabalhar, tanto que com outro treinador poderia até eventualmente ser logo acolhido na equipa A.

Passamos agora um olhar sobre os jogadores que foram contratados a clubes brasileiros nas respetivas épocas:

2012-13: Diogo Mateus, Víctor Luís, Anderson Santos, Guilherme Lopes, Sebá, Dellatorre;
2013-14: -
2014-15: Diego Carlos, Otávio, Roniel, Anderson Dim;
2015-16: Rodrigo Soares, Maurício, Wellington Nascimento, Ronan, Enrick Santos, Gleison;
2016-17: Inácio, Galeno;
2017-18: Luizão, Danúbio, Anderson Canhoto;
2018-19: Diego Landis, Emerson Souza. 

Pergunta: quantos destes jogadores estão, neste momento, a jogar numa I Liga europeia, em clubes minimamente conhecidos ou com presenças nas provas da UEFA? É certo que nem todos estão condenados ao insucesso (Galeno, por exemplo, começou agora a jogar com regularidade no Rio Ave), mas a maioria destes jogadores «desapareceu» do mapa depois de ter representado o FC Porto B.

Otávio contra a maré, à quinta época em Portugal
Otávio é, efetivamente, o único que ficou no plantel principal para ser opção, ao contrário por exemplo de Sebá, que teve um tempo de participação mínimo na equipa A. E o próprio Otávio não só foi uma contratação cara como vai para a quinta época em Portugal, ainda à procura da afirmação. 

Tomemos o exemplo da primeira «fornada». O jogador que mais se destacou, Sebá, acarretava custos completamente injustificados e em boa hora não ficou no FC Porto - está atualmente na China. Dellatorre, que passou a época como titular na posição 9, está agora no APOEL, após ter jogado na Tailândia. Víctor Luís regressou ao Brasil e por lá continua, tendo evoluído ao serviço de Botafogo e Palmeiras. E o que é feito de Diogo Mateus, Anderson Santos e Guilherme Lopes?

O pioneiro de uma saga pouco proveitosa
Anderson Santos, desde que regressou ao Brasil, já esteve dois anos sem clube e está atualmente ao serviço do São Mateus, clube dos escalões inferiores. Diogo Mateus pertence ao Ferroviária, da Série D. E Guilherme Lopes... acabou a carreira. Estamos a falar de um jogador que, ao longo da sua estadia no FC Porto B, jogou o total de... um minuto na II Liga. Um minuto. Regressou ao Brasil e terminou a carreira aos 24 anos.

Mas não foi o único que passa de bom o suficiente para merecer um lugar no FC Porto para tão mau que tem que deixar o futebol. Enrick Santos, contratado em 2015, jogou apenas 23 minutos, na última jornada da época. Na época seguinte não arranjou clube e deixou o futebol aos... 20 anos. Há vidas piores: passam um ano a treinar no FC Porto, com tudo pago, jogam um ou dois jogos e voltam ao Brasil. Não deve haver programas de Erasmus melhores.

Vejamos Anderson Dim, contratado em 2015. Na época seguinte foi logo cedido ao Freamunde. E correu tão bem que ficou sem clube até 2018, ano em que foi contratado pelo Coimbra Esporte Clube. Nada mais, nada menos que o clube ao qual Otávio foi «contratado» e que é controlado pelo bem conhecido BMG. Um talento incompreendido, por certo. Igual exemplo foi o Anderson Canhoto, na época passada. Jogou 20 minutos em toda a época, voltou ao Brasil e está agora no quarto escalão. Ou Ronan, que chegou, jogou dois jogos e está agora no estimável Nova Iguaçu.

É certo que nenhum clube acerta em todas as contratações. O Real Madrid também não vai buscar todos os jogadores ao Castilla, e o Barcelona não dá oportunidades a tudo o que sai de La Masia. Mas isto não é apenas o olhar a dois ou três negócios que correram mal: são 23 jogadores contratados, sete anos de trabalho de scouting/prospeção (?) e dos quais só se aproveita, até hoje, um jogador para a equipa A.

Mas afinal, quem são os responsáveis por tanta importação de jogadores de qualidade duvidosa oriundos do Brasil? Não estamos a falar de jogadores que possamos dizer «olha, tinha talento, mas não se adaptou». Estamos a falar de rapaziada que regressa ao Brasil pela porta pequena, para jogar nos escalões inferiores, e que termina a carreira aos 20s. 

Em Abril de 2016, Pinto da Costa anunciou que estava a dividir a estrutura em seis setores. Passando a citar o presidente do FC Porto: 

«De acordo com os estatutos que foram discutidos e aprovados em Assembleia Geral, e em que eu não interferi em nada, foi decidido que os 14 vice-presidentes passavam a seis e os dez diretores passavam a seis. Nesse sentido, dividi o clube em seis setores: o financeiro, do qual será responsável o dr. Fernando Gomes; o jurídico, que estará a cargo do dr. Adelino Caldeira; o futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique; o Património será da competência do eng.º Eduardo Valente; as casas, filais e delegações serão da competência do sr. Alípio Jorge. E introduzi um novo setor, que é o do planeamento dos novos projetos e do qual será responsável o professor Emídio Gomes, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte.»

Portanto, seis setores com intervenção da cúpula da SAD: financeiro, jurídico, formação, património, casas/filiais e novos projetos. Alguém notou a falta de alguma coisa? Prospeção? Contratações? Era sabido que Antero Henrique tinha sido designado o responsável pelo «futebol de formação». Entretanto veio Luís Gonçalves, para ocupar o cargo de Antero, mas sem nunca ter sido especificado/esclarecido se assumiria também todo o controlo da formação. 

Nota: Chidozie é o único jogador do plantel campeão da II Liga que está na equipa A
Então, até quando o próprio FC Porto colocará a si próprio a questão: todo este investimento na equipa B e, em concreto, no mercado brasileiro, valeu a pena? Quem está a identificar estes craques incompreendidos? Como são observados jogadores que, em alguns casos, nem jogam no Brasil? 

E a verdade é que, ao observar estes 23 jogadores, podem observar um padrão um tanto dominante que envolve muitas vezes as mesmas entidades. Começamos pelo Algarve. A SAD do Portimonense tem como accionista maioritário Teodoro Fonseca, que saltou para a ribalta como empresário de Hulk e que enriqueceu/cresceu às custas da proximidade com o FC Porto.

Ora, Maurício, Gleison e Inácio são exemplos de jogadores que chegaram ao FC Porto por via do Portimonense, clube com quem o FC Porto fez o negócio mais estranho do defeso: a compra e consequente dispensa de Ewerton, de volta ao ponto de partida. Ewerton, curiosamente, chegou a Portugal após ter deixado o Desportivo Brasil

O Desportivo Brasil foi fundado pela Traffic, empresa que ficou conhecida em Portugal quando assumiu o controlo do Estoril, e em 2014 foi comprada pelo grupo chinês Luneng. Este mesmo clube foi a porta de entrada de Dellatorre ou Diego Carlos para o futebol português e também serviu o propósito de «armazenar» jogadores até transferi-los para a Europa.

E neste Campeonato, ninguém bate o Grêmio Anápolis, um clube controlado pelo empresário António Teixeira (sim, esse), dono da Promosport e que todos os anos distribui vários jogadores do clube brasileiro por equipas portuguesas. Roniel, Wellington (que nem chegou a jogar pelo FC Porto - foi logo cedido ao Leixões), Rodrigo Soares, Galeno e Danúbio (o nome mais sugestivo da história do futebol) chegaram ao FC Porto através do referido clube. 

No último verão, foi a vez de Diego Landis e Emerson Souza assinarem pelo FC Porto. Landis é oriundo do já mencionado Desportivo Brasil, enquanto Emerson jogou um total de 109 minutos de futebol em 2018. Esteve em Israel, ingressou no Rio Branco de Venda Nova e estava sem jogar praticamente desde o início do ano.

Chegou ao FC Porto B como um ilustre desconhecido e já recebeu guia de marcha, tendo sido emprestado ao Fafe. Como exatamente é que avaliaram um jogador que não jogava, fica a questão, mas o site brasileiro Tribuna Online tem uma versão: «O caminho dele até Portugal começou na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017, quando atuou pelo Nacional/SP e foi descoberto pelos empresários portugueses Pedro Silva e Jorge Boas, que prepararam um DVD com lances do jogador.» OK. Não jogou em 2018, mas tem um DVD com os lances de 2017. Bem dizem que a qualidade não tem prazo de validade.

Emerson, o 23º brasileiro na equipa B, chegou, viu e já saiu
Mas o que mais há a destacar de Emerson é a sua franca humildade e sinceridade. Estamos numa era em que todos os jogadores querem ganhar mais, procuram melhores condições financeiras e tentam sempre puxar o salário. Uma ambição normal, não só em qualquer futebolista como em qualquer trabalhador de qualquer área. Mas Emerson não. Emerson é um caso único, citando o próprio jogador:

«"Não esperava ganhar tão bem em tão pouco tempo. Todo mês eu ajudo minha família”, comentou o capixaba, que também elogia a estrutura do clube português: “Eles gostam muito de brasileiros e dão todo o suporte”». Ficamos com grande expetativa em acompanhar a evolução de Emerson, o jovem craque que não esperava ganhar tão bem em tão pouco tempo, e de vê-lo espalhar magia no Municipal de Fafe.

Até lá, sobra a questão: que género de scouting é este no mercado brasileiro que se limita a catálogos de três ou quatro clubes/empresários? Um país tão grande, um viveiro de talentos tão conhecidos, e vêm sempre pela mão dos mesmos? Em 23 contratações, ao longo de sete anos, só acertamos num jogador com vista à equipa A? Como é que há jogadores que têm qualidade para atravessarem o Atlântico e assinarem pelo FC Porto, mas logo a seguir nem clube conseguem arranjar e terminam a carreira? Brasileiros e talentos, sim, são bem vindos. Mas a via que os tem trazido e o proveito do passado recente não combinam com o futuro que todos (?) queremos para o FC Porto.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O relatório e contas do primeiro semestre 2016/17

Depois da ausência de contas no primeiro trimestre, a SAD, seguindo a data limite imposta pela CMVM, deu a conhecer os primeiros detalhes do desenrolar da época financeira 2016-17. O R&C do primeiro semestre compreende todas as operações da SAD efetuadas entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2016 (exclui portanto o fim do pagamento do Estádio do Dragão e todas as operações do mercado de inverno). Passemos então à análise, tendo sempre presente aquilo que é previsto no orçamento desta época

A SAD chegou ao final dos seis primeiros meses da época com 29,58M€ de prejuízo. Está orçamentado um resultado positivo de 2,7M€ no final da temporada. O prejuízo é explicado por a SAD ainda não ter gerado qualquer mais-valia com transferências de jogadores no período em análise. 

É de recordar que a SAD, no orçamento, definiu a necessidade de «Proveitos com transações de passes de jogadores» no valor de 115,781 milhões de euros (para fazer face a custos de 47,2M€). Tendo em conta que a alínea das alienações de passes ficou em branco no primeiro trimestre, isso já deixa claro sobre o que será necessário até ao final de junho. Mas quem afirmou sem rodeios que recusou uma proposta de 30M€ por Héctor Herrera não há-de ter problema nenhum em fazer essas vendas antes do final de junho. Pois não?

Os proveitos operacionais atingiram os 58,76M€ nos primeiros seis meses. Todas as rubricas estão relativamente dentro do previsto - na Liga dos Campeões o FC Porto já atingiu os seus objetivos, e mesmo que seja afastado pela Juventus vai atingir os previstos 30M€ em receitas da UEFA. Há a assinalar que a SAD conseguiu, até ao momento, 42,9% das receitas de publicidade previstas, por isso a receita terá que aumentar significativamente no que resta da temporada.

Proveitos do primeiro semestre 2016-17
Em relação aos custos, destaque para o facto de o plantel desta época ser mais caro do que o da temporada passada, pelo menos nos primeiros 6 meses da temporada. Os custos com pessoal foram de 38,90M€ até ao final de dezembro, sensivelmente mais 2M€ do que na época passada. Os custos aumentaram nas seis alíneas especificadas no ponto 19, desde os órgãos sociais aos seguros. 

Este valor não vai propriamente ao encontro do que estava previsto no orçamento, que eram custos com pessoal de 69,51M€. Se os custos dobrassem no segundo semestre, isso resultaria em gastos de 77,8M€, muito acima do que estava orçamentado. Com os ajustes no mercado de inverno, veremos se esta rubrica será cumprida. Quanto aos restantes custos operacionais, tudo dentro da expetativa e do que estava orçamentado.

Custos operacionais do primeiro semestre 2016-17
Nos resultados operacionais sem transferências de jogadores, o prejuízo é de 4,96M€, bem inferior aos 19,64M€ do primeiro semestre de 2015-16. A diferença está essencialmente nas receitas da UEFA. 

Chegamos então ao capital próprio e a um dos focos mais negativos deste R&C: todos os efeitos gerados pela operação Euroantas, de incorporação do Estádio do Dragão na SAD, já se esfumaram. A SAD voltou a apresentar capitais próprios negativos, de 3,449M€. Há dois anos, depois da operação Euroantas, os capitais próprios eram de 56,6M€. E no final da temporada 2014-15, chegaram aos 83,1M€, um valor excelente. Neste momento, a SAD, com capitais próprios negativos, volta a pairar numa situação de falência técnica, o que infelizmente mostra que a operação Euroantas não foi mais do que aquilo que se temia na altura - um empurrar de problemas com a barriga. Uma situação que terá que ser retificada não só até ao final de junho, como nos exercícios seguintes. 

O ativo mantém-se praticamente inalterado face há um ano, no valor de 374M€. A principal alteração está nos ativos correntes, agora situados em 97,7M€. E chegamos a outro problema: à subida abrupta do passivo, que está a chegar a números preocupantes. 

O passivo estava, no final de dezembro, fixado em 377,5M€. No final da época 2012-13, a última em que o FC Porto foi campeão nacional, o passivo era de 220 milhões de euros. Ou seja, o passivo aumentou 71% desde a última conquista de um campeonato. Em 2010, por exemplo, o passivo era de apenas 160M€. Estamos a falar de um aumento de mais do dobro desde que se iniciou a dourada época de 2010-11, em que o FC Porto começou a gerar vendas milionárias como nunca, de Hulk a Falcao, de Mangala a James, etc. Resultado? Mais do dobro do passivo. 

O passivo, dirão alguns, não se paga, gere-se. Sim, até ao dia. O presidente Pinto da Costa afirmou, em 2013, que «quem vier a seguir basta não estragar». Desde essa afirmação o passivo da SAD aumentou mais de 150 milhões de euros. E desde esse ano, nem um título para amostra. 

Quanto às aquisições, o FC Porto gastou 47,47M€, com comissões de 4,2M€, em seis jogadores: Óliver, Alex Telles, Boly, Depoitre, Otávio e Govea. 

Óliver começa por ser uma surpresa. Primeiro, por os 20M€ corresponderem a apenas 85% do passe. Segundo, por a SAD já ter incluído a compra de Óliver nas contas do primeiro semestre, indicando que o seu passe foi comprado em setembro. Um tanto confuso, tendo em conta que só anunciaram a sua compra a 9 de fevereiro. Boly e Alex Telles custaram 6,5M€ cada por 100% do passe, enquanto Depoitre custou 6M€ por 90%, valores já esperados. 

O caso de Otávio também é uma surpresa, com a SAD a ter comprado mais 20% do seu passe por 2,257M€. A SAD já tinha a opção de comprar mais 20% à GE Assessoria Esportiva e 15% do pai de Otávio. A soma destes 35%, no acordo oficial, custariam mais 5M€ ao FC Porto. Para já, a SAD passa a ter 52,5% de Otávio. Destaque também para a compra de Govea, por 2M€ ao América, pela totalidade do passe. Uma compra que obriga a que Govea seja pelo menos incluído nos trabalhos de pré-temporada da equipa principal para 2017-18. Govea tem revelado valor acima da média na equipa B, apesar da má época que está a ser feita pela equipa na Segunda Liga. 

Uma vez mais, a SAD declara mais do que uma entidade por jogador (pelo menos entre os que são declarados neste R&C) na hora do pagamento de serviços de intermediação. Voltaremos a eles numa análise futura, mas assinale-se já a curiosidade de a Energy Soccer receber 244 mil euros de comissão pelo empréstimo de Aboubakar ao Besiktas. Uma vez mais, a Energy Soccer aparece como intermediária de um jogador que não representa. 

A SAD tem a receber pouco mais de 40M€ de outros clubes por venda de jogadores, dos quais apenas 8M€ do São Paulo (sem surpresa) não são uma verba corrente. É possível ver dívidas de 190 mil euros do Villarreal (por Adrián), 250 mil do Trabzonspor (por Suk) e 600 mil do Espanyol (por Reyes), mas mantém-se a curiosidade em torno da Doyen: mantém-se uma dívida de 2,788M€, pela alienação do passe de Brahimi. Por norma, a alienação de passes permite assegurar receitas para o curto prazo; neste caso, alienou-se o passe de Brahimi à Doyen para nada, pois a SAD não tinha tocado neste 2,788M€ até ao final de dezembro (importa no entanto lembrar que a dívida ao Granada, ex-clube de Brahimi, também se mantém nos 3,332M€ - o que não será de todo uma coincidência). 

Por outro lado, a SAD tem ainda a pagar mais de 75M€ a outros clubes/entidades por jogadores já presentes no plantel, dos quais 52M€ no prazo de um ano. É possível desde já constatar que a SAD terá a pagar 5M€ ao Atlético de Madrid até dezembro de 2017. Tendo em conta que, tecnicamente, o contrato de Óliver com a SAD só seria efetivado a partir de 1 de janeiro de 2018... Confuso. A situação dos restantes Fornecedores será merecedora de uma análise mais detalhada futuramente. 

Em relação à situação bancária, a SAD abriu cinco novos contratos de factoring entre outubro e dezembro, que superam os 35 milhões de euros e apenas um será liquidado ainda na corrente época - 6M€ ao já bem conhecido Bankhaus Bodensee. E o reembolso será, precisamente, a verba a receber da UEFA pela eliminatória contra a Juventus, uma prática já muito recorrente na gestão da SAD, de tentar antecipar o máximo de receitas possível - e com isso nunca tirar o máximo de proveito das mesmas, na medida em que há sempre juros a pagar. 

Mas além do Bankhaus, a SAD fechou um empréstimo de 6M€ com o Novo Banco e um de 18,578M€ com o Ectonian AG, este último com termo em 2019. E é aqui que entram as maiores preocupações. Em ambos os casos, a liquidação está prevista com o dinheiro dos direitos televisivos: a PPTV no caso do Novo Banco, dentro de seis meses, e o maior contrato de factoring já através da Altice, com o dinheiro de «épocas futuras», diz a SAD. 

E no que toca ao adiantamento de receitas, o maior destaque neste R&C é este:


O contrato com a Altice, pelos direitos televisivos e de exploração, só tem início a 1 de julho de 2018. Mas a SAD já dá conta de um adiantamento bastante significativo. Estamos a falar do recurso a 12,5% do valor total do contrato com a Altice um ano e meio antes do mesmo entrar em vigor. 

Fernando Gomes chegou a afirmar que o contrato com a Altice/PT ia permitir «gerir o FC Porto de maneira diferente». Pois. Diferente é a palavra, mas não para melhor. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quercus Suber L.

«O Rui Pedro só está no FC Porto em virtude da empresa onde Alexandre Pinto da Costa era sócioJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Retemos esta frase do presidente do FC Porto na sua entrevista ao JN. Sensivelmente 24 horas depois de um trabalho particularmente interessante da Mediapart ter sido publicado em França. Leituras aqui e aqui.
O valor da cortiça

Descobrimos que Alexandre Pinto da Costa é um herói, o responsável pela presença de Rui Pedro no plantel do FC Porto. O ramo da cortiça é muito valioso em Portugal. Representa cerca de 0,7% das exportações do PIB. Mas desconhecia-se que a cortiça pudesse ter tamanha valia.

«Si le joueur Rui Pedro Silva participe à dix matchs, Alexandre touchera 100 000 euros. Cela peut singulièrement compliquer la tâche de l’entraîneur du club, qui cherche à préserver son poste. Doit-il engraisser la famille du président? Ou sélectionner la meilleure équipe possible?»

Diz portanto a investigação da Mediapart que Alexandre Pinto da Costa receberá 100 mil euros após 10 jogos que Rui Pedro fizer na equipa principal, levantando ainda suspeitas sobre se isso não irá interferir nas opções de Nuno Espírito Santo (algo que é grave). Não admira que Américo Amorim seja o homem mais rico de Portugal. Aparentemente, a cortiça sai mesmo cara.

Apenas uma outra frase, que nos leva para um tema mais abrangente: «Vamos aproveitar cada vez mais os que nascem cá em vez de jogadores da Nigeria, Malásia, MaliJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Uma mudança de política que já tinha sido associada à entrada de Luís Gonçalves na estrutura. Curioso é que o FC Porto, que tem vários nigerianos ligados ao clube que implicaram investimentos recentes (Chidozie, Ezeh, Moses, Mikel, Musa - que nunca jogou pela B mas é muitas vezes chamado para treinar na A), assuma esta posição 24 horas depois de isto ter sido publicado.

Quando foi divulgado o mapa de intermediários da FPF, O Tribunal do Dragão assinalou a polivalência do empresário Edmund Chu, intermediário de Ezeh e Chidozie. «Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente.»

Agora a referida investigação conta que em 2012 o FC Porto assinou um contrato com a RAMP, que tinha como missão indicar jogadores ao FC Porto de Gana, Congo, África do Sul, Zâmbia e Nigéria. A RAMP fica com uma comissão de 18 mil euros, torna-se parte interessada de uma futura venda do jogador e até 2015 assume 25% do passe do atleta. Um exemplo comprovado já tinha sido o caso de Fidélis, agora no Portimonense, o clube que mais tem recebido/trocado nigerianos com o FC Porto. 

A investigação da Mediapart, feita com documentos através do Football Leaks (que muitos parecem preferir fingir que não existem a desmenti-los), diz que com o fim da partilha de passes com terceiros o FC Porto passou a remunerar melhor os intermediários: 75 mil euros por cada vez que um jogador fizer cinco jogos pela equipa B (por norma só são considerados jogos em que o jogador atue pelo menos 45 minutos) e o direito de ser agente do jogador no futuro.

Isto levanta questões. Lembram-se de Mbola? Integrou a equipa B em 2012, ano em que o suposto acordo com a RAMP foi assinado. É um jogador da Zâmbia, um dos países referidos no acordo de observação.

Mbola era um jogador sem qualidade. Basta recordar a sua estreia na equipa B: 5 minutos em campo e foi expulso. Desde então, tornou-se uma opção fantasmagórica na equipa B. Fez um jogo a titular em novembro, outro em dezembro, outro em março. Chegamos a maio e às duas últimas jornadas do campeonato. Mbola faz os dois jogos a titular e, com isso, chega aos 5 jogos como jogador do FC Porto, precisamente a quantidade referida pela Mediapart. Foi embora no final da época e nunca mais ouviram falar dele. Até onde sabemos, coincidências. Na proveniência do jogador, no número de jogos. Coincidências. Muitas. 

A Mediapart fala detalhadamente sobre Chidozie. Diz que o FC Porto pagou 500 mil euros ao Riverlande Youth Club e 75 mil euros de comissão «em nome próprio» a Edmund Chu. «Um montante superior aos 10% autorizados». Calculam então que cada jogador menor pode permitir um encaixe de 975 mil euros à RAMP. 

Porquê? São acusações gravíssimas que aparecem nesta investigação e que, perante qualquer ato de transparência, princípio ético e legalidade, só têm que ser desmentidas pelo FC Porto. A saber: «Na correspondência a que tivemos acesso, o agente Saif Rubie, descontente com a forma como o FC Porto tratou o jovem ganês Christian Atsu, ameaçou contar aos media a maneira como o clube se comporta de início ao fim, incluindo os acordos com a RAMP e todas as vantagens usufruídas pelo clube com os contratos assinados com jogadores africanos jovens vulneráveis». 

Passando depois a um caso já aqui conhecido, o de Generoso Correia, um negócio muito... generoso. Questionando ainda o envolvimento de D'Onofrio, que no último verão trouxe Depoitre e que segundo estas contas já faturou 10 milhões de euros em comissões com o FC Porto, com o Benfica também envolvido. Dinheiro esse que terá sido escondido em offshores, mas quanto a isso os adeptos do FC Porto só podem estar descansados. Afinal Pinto da Costa deixou claro que o FC Porto não opera em offshores e em paraísos fiscais. 

O presidente anunciou então o fim da aposta em jogadores de países como Nigéria, Malásia e Mali, para passar a privilegiar a aposta em portugueses. Fica por perceber uma questão: qual o balanço desta parceria com a RAMP que se desconhecia? Quem teve a ideia? Que assume os frutos/resultado desta parceria? Quando custou e quanto rendeu ao FC Porto?

Agora, segundo afirma Pinto da Costa, é passado. Mas se o preço da cortiça não baixar, não parece que vá servir de muito. 

sábado, 17 de setembro de 2016

Otávio by BMG

Otávio não foi um pedido de Lopetegui, nem de qualquer outro treinador. Otávio foi uma aposta da SAD, numa oportunidade de fazer uma transferência com um parceiro do FC Porto, no caso o Banco BMG, através do Coimbra Esporte Clube.

Este é um exemplo de como pode ser fácil contornar a proibição da partilha de passes de jogadores por terceiros. Se os agentes não podem controlar os jogadores, controlam os clubes. 

Ricardo Guimarães, presidente do BMG e antigo presidente do Atlético de Mineiro, decidiu começar a investir em jogadores, criando para o efeito o BR Soccer, registado na CVM e que em 2013 já tinha uma carteira de mais de 100 jogadores, muitos deles protagonistas de transferências muito caras (como Marquinhos, Óscar ou Bernard). Ora o fundo controla a empresa Vevent, que por sua vez assumiu o comando do CEC.
O Jogo, 17.09.2016

Como o Coimbra Esporte Clube serve apenas para manter e transferir os direitos dos jogadores, esses jogadores são espalhados por clubes como Corinthians, Atlético, Cruzeiro, Vasco, São Paulo, Internacional, Fluminense...

A partir daqui, a modalidade de compra é conhecida. No primeiro negócio, o BMG comprou 50% do passe de Otávio por cerca de 1,35 milhões de euros, e adquiriu também 15% que estavam na posse de um fundo japonês. Isso totalizou os 65% que o Coimbra Esporte Clube tinha de Otávio.

No fecho de mercado de 2014, o Inter transferiu os direitos desportivos para o FC Porto. Os direitos de inscrição podem ser transferidos livremente, o que foi o caso. A imprensa, ao consultar o contrato que foi celebrado, chegou a noticiar que a transferência se tinha processado sem custos. Conforme foi explicado aqui, não foi o caso.

Não foi ao Internacional que o FC Porto comprou Otávio, mas sim ao Coimbra Esporte Clube. E ao contrário do que escreveu hoje O Jogo, o FC Porto não comprou 32,5% do passe por 2,5 milhões de euros. Comprou 33%.

«Uma diferença de 0,5% não é nada». É sim, é uma questão de rigor. O FC Porto comprou 33% de Otávio, por 2,5M€, e cedeu 0,5% a uma parte desconhecida. 

Por exemplo, ninguém terá reparado que no terceiro trimestre da última época o FC Porto comprou mais 0,5% do passe de Diego Reyes. Inicialmente tinha comprado 95%, alienou metade e tinha ficado com 47,5%. Nos últimos valores declarados, a SAD já informou ter 48%. Qual foi a pertinência de aumentar, de 47,5% para 48%, a percentagem do passe de um jogador que acabou novamente dispensado? 

Podem não ser quantias muito significativas em empresas que têm receitas e gastos superiores à centena de milhões de euros. Mas no caso de Otávio, desses 0,5% já estaríamos a falar de mais de 37 mil euros, tendo em conta o valor que o FC Porto gastou por 33% do passe. E no caso de Reyes, por esses 0,5%, à luz do que foi pago na transferência inicial, também estamos a falar de 35 mil euros.

Há empresários que não faturam 72 mil euros. E pode não ser uma quantia muito significativa, mas isso dependerá sempre do destino do dinheiro. Por exemplo, por mil euros o FC Porto comprou André Silva. Por 35 mil euros Jorge Mendes comprou 40% de Diogo Jota. Por 750 euros o Benfica comprou Renato Sanches. Por 30 mil euros o Sporting comprou Gelson Martins. E 72 mil euros pagam duas rendas anuais do centro de treinos do FC Porto no Olival. Com pouco é possível fazer muito. Como nota de curiosidade, também foram comprados mais 10% de Hernâni antes de ter sido sem surpresa dispensado. Com que sentido?

Portanto Otávio custou 2,5M€ e foi uma transferência tratada por Reinaldo Teles e Adelino Caldeira. Quando os adeptos discutem o mercado, fala-se um pouco de tudo, de Pinto da Costa a Antero Henrique, de Alexandre Pinto da Costa a Jorge Mendes, da Doyen a Luciano, mas esquecem-se que basta (aliás, é necessário) a assinatura de dois membros do Conselho de Administração para validar uma transferência. Neste caso, no contrato entre o FC Porto e o Internacional para a transferência dos direitos federativos de Otávio, foram Caldeira e Reinaldo a formalizarem o acordo.


O que O Jogo não explicou hoje foi quanto custa comprar mais de Otávio. Neste caso, o FC Porto tem a opção de comprar mais 35% do passe de Otávio por 5 milhões de euros, às entidades GE Assessoria Esportiva (20%) e ao pai de Otávio (15%). Importa dizer que estes 35% já estavam na posse das referidas entidades quando Otávio chegou ao FC Porto. Ou seja, o FC Porto não vai tocar na percentagem que toca ao Coimbra Esporte Clube/BMG, que assim continuará a ter 32% - isto desconhecendo a quem cedeu o FC Porto os restantes 0,5%.

Otávio ficaria assim a um custo de 7,5 milhões de euros por 68% (passados a 67,5%) do passe, além de encargos de 400 mil euros no momento da compra. É uma compra inflacionada, pois Otávio era um suplente do Internacional, sem percurso nas seleções brasileiras, no momento em que foi contratado.

Mas conforme foi opinado na altura, havia sentido desportivo na contratação de Otávio. Não era um Zé Manuel, um Sami ou um Anderson Dim (que chegou depois de Otávio, também via BMG, e a maioria dos adeptos já nem deve saber por onde ele anda - ou sequer que cá esteve). A qualidade, a classe e o potencial eram visíveis. Faltava o mais importante, e Otávio está a tê-lo: empenho, disponibilidade e humildade para aprender.

Sendo jogadores diferentes, tem qualidade como Quintero tinha, mas com uma mentalidade competitiva muito superior. Otávio não é um brinca na areia, não é o craque que pensa que já sabe tudo e o FC Porto tem todas as razões para estar satisfeito com o seu profissionalismo.

Obviamente que, há dois anos, Otávio não valia a avaliação de 7,5M€. São os riscos de começar por avançar para uma percentagem do passe e deixar as cláusulas de compra posteriores com uma grande inflação. Os otimistas poderão dizer que isso é uma maneira de proteger o investimento («É melhor ter dado apenas 2,5M€, e esperar para ter a certeza de que ia evoluir, do que dar logo 7,5M€»). Isso é altamente relativo. Não há partilha de risco no futebol, o risco está sempre em cima dos clubes. Walter é o perfeito exemplo disso - jogou pela última vez pelo FC Porto em 2011, mas no R&C do primeiro semestre ainda tinha contrato com a SAD, que tinha 15% do seu passe. 

Otávio não custou nada na primeira época, pois a dívida ao CEC manteve-se inalterável até ao R&C do primeiro semestre de 2015-16. Os 2,5M€ entretanto já foram pagos, além dos 400 mil euros de encargos. Agora, a maioria dos portistas admitirá que Otávio merece o tal investimento de mais 5M€ por 35% do passe. Pois, mas talvez mereça pelo que é hoje, não pelo que era há 2 anos. Foi graças ao trabalho desenvolvido pelo FC Porto (e neste caso com uma pequena ajuda do V. Guimarães) que Otávio atingiu este nível. Agora, o custo de Otávio dobrou.  E há casos em que até pode triplicar, como o de Gleison.

Otávio tem contrato por mais 3 anos, pelo que neste momento não há pressas para aumentar a percentagem do passe (nem a SAD devia comprar mais percentagem de passes antes de ter em mãos grandes propostas para venda). Mas é tempo de rever a forma como se permite que a percentagem do passe dos jogadores para compras futuras seja tão inflacionada. De 2,5M€ por 33% para 5M€ por 35% vai uma grande diferença. A avaliar por aquilo que eram as cláusulas das partes que não o FC Porto e o CEC, Otávio não estava a ser avaliado em 7,5M€ em 2014, mas sim em quase 15M€

Que o Otávio siga a sua evolução e continue com a mesma e louvável postura. Se continuar assim, o investimento progressivo será um passo natural. Mas o FC Porto não tem que calcular a sua gestão de hoje para ontem, mas sim de hoje para amanhã. 

PS: Luís Filipe Vieira disse durante o jantar de deputados benfiquistas com assento parlamentar que a sua SAD vai apresentar lucros pelo 3º ano consecutivo, o que disse ser um «feito único para os principais clubes portugueses.» Mentiu, pois a SAD do FC Porto conseguiu gerar lucros 5 anos consecutivos, entre 2006 e 2011. Os ares parlamentares fazem mesmo a boca fugir da verdade.

PS2: O empresário de Otávio, na sua entrevista a O Jogo, disse algo importantíssimo. «Ele diz que não há grupinhos no balneário». Mas por mais importante que isso seja, não basta haver sintonia no balneário, é preciso haver sintonia dentro de campo. E é algo que teremos forçosamente que ver contra o Tondela. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Jota: só peca por tardio

Um pequeno salto até Setembro de 2014. O Paços de Ferreira vem jogar ao Olival, no campeonato de juniores. Um rapaz chamado Diogo Jota decide fazer isto.


Um mês depois, com 17 anos, já começava a jogar na equipa principal do Paços. Marcou logo na estreia. Um talento inato, que passou sempre despercebido aos olhos não só dos principais clubes nacionais mas também da FPF (nunca tinha sido chamado às Seleções jovens).

Chega então o mês de Dezembro, e com ele a quadra natalícia, em que somos todos tomados por um espírito de generosidade. Começa então o ataque a Jota, mas não por parte dos 3 grandes do futebol português, nem por parte de qualquer outro clube. Foram sim empresários a começar a comprar o seu passe.

O primeiro foi Teixeira da Silva, o empresário que ficou com direito a 10% da mais-valia numa futura venda de André Silva. A 5 de Dezembro de 2014, comprou 20% do passe de Diogo Jota por menos de 38 mil euros (IVA incluído).


Mas a 31 de Dezembro, já em vésperas de réveillon, Jorge Mendes volta a fazer a sua magia, ao comprar 40% passe de Diogo Jota por... 35 mil euros.


São 60% do passe de Jota vendidos por 65 mil euros (sem IVA incluído). Depois chega o Atlético, uma vez mais com a mão de Jorge Mendes, e paga isto pelo jogador.


Agora, Diogo Jota vai jogar no FC Porto, por empréstimo. Tal como já disse O Jogo, a opção de compra é de 22M€, com a coincidência imensa de ser o mesmo que o Benfica pagou por Raúl Jiménez, ou o mesmo que custaria Vietto quando foi hipótese. Um número mágico para o Atlético, aparentemente. Sendo um empréstimo, e tendo o Atlético que salvaguardar-se a todos os níveis, é também natural que o Atlético exija uma cláusula de compensação se o jogador não for utilizado com frequência. 

Diogo Jota é um jogador de enorme potencial. Fez uma grande época em Paços de Ferreira - possivelmente até mais proveitosa do que a de Rafa em Braga, embora em realidades distintas. 12 golos e 8 assistências na sua primeira época de sénior, e logo já na Primeira Liga, são números de excelência para um jovem português da sua idade. Curiosamente, de todos os jogadores que estiveram no jogo de juniores acima referido, só Diogo Jota já se afirmou numa Primeira Liga. Sobretudo porque não houve medo de apostar no seu talento. Os resultados estão à vista.

Sobre Jota, as únicas dúvidas que podem haver em relação à pertinência da sua contratação é se terá já o estofo competitivo para jogar e fazer a diferença no FC Porto a curto prazo. Jogadores por empréstimo, por norma, têm que ser jogadores para os quais o FC Porto tem planos de curto prazo. Jota tem 19 anos, vai fazer apenas a segunda época de sénior e a primeira num clube que luta por títulos. O FC Porto dificilmente pode, à data de hoje, fazer planos para o jogador para lá de 2017. Por isso, tem que ser um jogador para acrescentar algo no imediato. Não pode ser uma aposta de futuro, pois não sabemos se terá futuro no FC Porto para lá de 2017. 

O FC Porto precisa de extremos e é a possibilidade de ter uma solução barata e de qualidade. Jota começou por jogar a médio-ofensivo, mas no Paços subiu no terreno. É avançado, mas funciona muito bem jogando a partir de um flanco. Não é extremo de procurar a linha, mas sim de jogar sempre com maior proximidade de zonas interiores e da baliza. Caraterísticas que por certo agradam a Nuno Espírito Santo, que quer os extremos em zona interior.

Diogo Jota diz que se inspira em Griezmann na forma de jogar. É rápido, hábil, finaliza bem e é muito objetivo quando vai para cima do defesa. O talento está todo lá, resta saber como se adaptará aos comportamentos coletivos da equipa, sobretudo na transição defensiva e na pressão ao adversário. As suas caraterísticas são uma boa adição ao plantel, falta saber se já estará no ponto de maturação desejado. Se fosse uma contratação do FC Porto ao Paços de Ferreira, seria excelente. Assim, vindo por empréstimo do Atlético, a sua evolução vai ter que acelerar contra o tempo, pois não faz sentido trazer um jogador por empréstimo se for para andar só a jogar nas Taças e pouco mais.

Podemos ir ao elefante na sala, nomeadamente alguns comentários antigos de Diogo Jota nas redes sociais. Esta é primeira geração de jovens futebolistas que crescem com acesso permanente a redes sociais. E não há rapaz que abdique de mandar as suas postas clubísticas. Diogo Jota era um miúdo do Gondomar, nem sequer estava no Paços. Provavelmente nem imaginaria que, dentro de 3 anos, ia chegar até aqui. Fez o que qualquer rapaz da sua idade pode fazer: escrever parvoíces na internet.

É benfiquista? Não interessa. Ou pelo menos não interessou quando o Paços anunciou que tinha tudo feito com o Benfica para a transferência, mas Diogo Jota recusou. O portismo é um bem precioso, mas há um ainda maior. Chama-se profissionalismo. Todos os grandes portistas que já tivemos no clube eram grandes profissionais. Mas nem todos os grandes profissionais eram portistas. É possível ser-se profissional sem se ser portista, mas não é possível ser-se portista sem se ser profissional. A função do futebolista que chega não é ser portista, é fazer os portistas felizes. Diogo Jota tem é que ser profissional, lutar pela camisola que veste e fazer mais coisas destas: 


PS: Leicester, Club Brugge e Copenhaga. Resumidamente, o FC Porto já passou em grupos mais complicados e já foi eliminado em grupos mais fáceis. O objetivo é ir aos 1/8, algo que já foi assumido. No ano passado o FC Porto parecia ter feito o suficiente, mas 10 pontos não chegaram. Apontemos, pelo menos, aos 11 esta época, embora sempre com a intenção de ganhar todos os jogos. Será certamente um grupo competitivo. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra (15 derrotas em 17 jogos), não ganhou nas três últimas visitas à Dinamarca e na Bélgica perdeu seis jogos em sete. Leicester, Club Brugge e Copenhaga são campeões dos respetivos países e, muito provavelmente, cada uma destas equipas pensa o mesmo que o FC Porto: «O grupo podia ser muito mais complicado». Pois podia. E também podia aparecer um grupo mais fácil. Tipo com APOEL, Artmedia e Áustria Viena. Canja.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Realidades diferentes, realidades iguais

Sempre ouvimos, e é sabido, que não há comparação entre o poderio económico dos clubes ingleses e o dos clubes portugueses. Por exemplo, a Premier League acabou de pagar 117 milhões de euros ao Leicester, entre direitos televisivos, prémio de participação, classificação final e outras variáveis. O Arsenal foi quem mais ganhou: 126 milhões. E o Aston Villa, a pior equipa, levou para casa 83 milhões de euros.

Isto não são as receitas totais de um clube: é somante aquilo que a Premier League paga aos seus clubes. Só o Aston Villa, através das receitas da Premier League, ganha mais do que todas as receitas operacionais do FC Porto para a época 2015-16 (57M€ ao fim do terceiro trimestre).

Não há comparação possível. Daí que também seja interessante perceber se essa diferença se reflete no mercado de transferências, nomeadamente nas intermediações pagas a empresários. Os resultados são no mínimo curiosos.

Valores em milhões de euros
Como referência, estão identificadas as receitas e comissões pagas pelos 8 clubes mais ricos da Premier League em 2014-15. No caso de FC Porto e Benfica, estão contabilizadas todas as receitas de 2014-15 (receitas operacionais e mais-valias com jogadores), enquanto que no que toca às comissões estão incluídos os números revelados pela FPF. Números precisos, por se referirem unicamente a comissões.

Por exemplo, algumas análises às contas do FC Porto indicam que a SAD pagou 13,17M€ em comissões nos primeiros 9 meses desta época. Não é verdade. Não é verdade pois os «encargos relacionados com aquisições de passes de jogadores» não incluem apenas comissões, há também prémios de assinatura para os jogadores, serviços jurídicos/legais, direitos de imagem e afins. Daí que não seja possível, através do R&C, aferir quanto foi de facto para empresários.

O período em análise da FPF não se refere a uma época desportiva completa, mas sim a um ano, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Ou seja, isto inclui todas as contratações feita para a época 2015-16, mais as contratações de janeiro. Já as receitas são referentes à época desportiva 2014-15 completa.

A primeira conclusão é que FC Porto e Benfica pagam comissões acima dos clubes ingleses na relação receitas vs. pagamentos a empresários. Liverpool, Manchester United, City, Chelsea e Arsenal têm obviamente mais despesas, pois falamos de clubes que conseguem contratar um jogador por mais de 40, 50 ou 60 milhões. Mas as suas receitas são imensamente superiores. Logo há um despesismo acima da média da Liga Inglesa levado a cabo por FC Porto e Benfica.

É claro que as comissões têm relação direta com as transferências, não com as receitas. Mas a capacidade de um clube investir em transferências está diretamente ligada às receitas que gera. Um clube com menos receitas não tem tanta disponibilidade para o mercado e, consequentemente, para despesas com intermediações.

Na relação comissões vs. aquisições, as despesas são muito mais elevadas. Para o 3º trimestre de 2015-16 houve um impacto de 23,5%. Em 2014-15, 12,85%. Em 2013-14, o recorde, 25,07%. A época 2013-14 foi a mais saudável, com apenas 5,45%, depois de em 2011-12 ter sido de 19,55%. Tendo em conta que a política do FC Porto, anunciada pelo próprio presidente, assenta em comissões de «5 a 10%», vemos que os números estão acima da média.

Sobretudo porque é fácil enquadrar uma comissão de 5 a 10% numa transferência, mas nas renovações de contrato ou na contratação de jogadores a custo zero já não há um valor movimentado para se definir a tal percentagem. 

Neste momento, a média do FC Porto na relação aquisições vs. encargos é superior à de clubes como Manchester City (7,67%), Manchester United (12,54%) e Liverpool (16,10%), tendo como referência os seus negócios de 2014-15. Estamos a falar de clubes com capacidade de receitas imensamente superior. 

De realçar que a época 2014-15 foi aquela em que a SAD teve maiores receitas (com o recorde de 82,5M€ em mais-valias e receitas operacionais de 89,2M€). Ou seja, a percentagem de 6,3% é muito conservadora. Pois se estivesse relacionada com as receitas de 2015-16, seria certamente superior. 

Em 9 meses, o FC Porto chegou sensivelmente a metade das receitas de 2014-15. Nos primeiros nove meses, a SAD gerou 93,4M€. Para surpresa de alguns, o FC Porto não foi o clube que, globalmente, mais gastou: esse continua a ser o Benfica, que no 3º trimestre teve custos totais de 131,6M€, mais 200 mil euros do que o FC Porto. Mas o Benfica gerou receitas de 122,3M€, essencialmente graças à grande diferença de proveitos operacionais (95,4M€ para 57,4M€), agravada pelos resultados na Champions. 

Um clube português gastar mais das suas receitas do que um endinheirado clube inglês em serviços de intermediação não rima com sustentabilidade. Bons exemplos? Uma vez mais, a época 2010-11. Ou até a época 2012-13, que teve encargos de 5,45% de um total de 46,5M€ em aquisições. Ou qualquer uma das épocas do ciclo do último tetracampeonato. Ou pouco/nada do que foi feito nos últimos três anos. Viver à grande e à inglesa é que não.

PS: Sejam dadas as boas-vindas a João Carlos Teixeira e Felipe, oficialmente confirmados como jogadores do FC Porto. É essencial os reforços começarem a pré-época tão cedo quanto possível, sobretudo por se tratar de uma nova realidade para ambos. Estando já duas caras confirmadas, falta esclarecer o caso de Zé Manel: nem anúncio de contratação, nem desmentido da mesma. Decidam-se.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

38 passos para a transparência

Chegou o dia em que O Tribunal do Dragão tem um elogio para a Federação Portuguesa de Futebol. Na verdade, nem chega a ser um elogio, pois não está mais do que a cumprir a sua obrigação, mas tecnicamente, com as novas regras para intermediários de jogadores, cada empresário passaria a ter direito a receber apenas 3% de uma transferência ou 3% do contrato do jogador que intermediasse. Não é isso que se tem verificado na esmagadora maioria dos clubes. 

Com as novas regras da FIFA, todas as Federações passam a estar obrigadas a declarar a que intermediários os clubes pagaram por cada jogador. Só não estão discriminados os valores envolvidos por cada jogador. Era pedir muito, talvez.

De qualquer forma, a FPF já divulgou a lista, que compreende o primeiro ano em análise, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Mas aparentemente isto não foi notícia em nenhum órgão de comunicação social. Não era de interesse público? Sim, é. E por isso cá vai:


Sem surpresa, FC Porto e Benfica são os clubes que mais comissões pagam. O FC Porto é quem mais gasta, com 11,789M€, e o Benfica também supera os 10M€. O Sporting gastou quase um terço do FC Porto no mesmo período, com pouco mais de 4M€. 

Curiosamente, 9 jogadores apareceram no papel de outorgante, contratualizando um total de 65,8 mil euros em comissões. O mais conhecido é Coates, do Sporting.


Esta lista mostra relações entre jogadores e empresários que se desconheciam dos R&C das diversas SAD. No universo FC Porto, que é o que mais importa, destaca-se o facto de terem sido feitos 38 pagamentos diferentes a empresários que trataram de transferências ou renovações de contrato de jogadores do FC Porto.

Por ordem alfabética, Alexandre Zahavi foi o intermediário das renovações de Héctor Herrera e Bruno Costa, dos sub-19. Deco, que agora trabalha próximo de Jorge Mendes, foi o intermediário da renovação de João Graça, um dos melhores da equipa B. Tanto Zahavi como Deco são empresários já conhecidos, mas também surge a intervenção de nomes desconhecidos para o grande público.

É o caso de Ben Aissa Abdelaziz, o intermediário de Marega. Carlo Cutropia trouxe Casillas e a Cantera Latina intermediou Jesús Corona (um exemplo de informação que já se conhecia dos R&C do FC Porto). 

Carlos Gonçalves foi o responsável pela renovação de Gonçalo Paciência e pela vinda de Miguel Layún. Delmenico Maurizio, conhecido parceiro de Luciano D'Onofrio, trouxe Imbula. Edmund Chu, ligado à Vela (empresa do universo Doyen), foi o responsável por Chidozie e Chidera Ezeh. Confirma-se também a intervenção de Paco Casal por Maxi Pereira.

Frank Justin Trimboli, com este nome, só podia ter o intermediário de um jogador: Pablo Osvaldo. Frederico Mathias Moraes intermediou dois brasileiros: a venda de Kléber e a chegada de Ronan, para a equipa B.

Gines Carvajal Seller trouxe Alberto Bueno, Hélio Martins tratou da renovação de Andorinha e a Gopro Sport Management foi responsável pela compra de Víctor García. O empresário João Pedro Cardoso Araújo interveio na contratação de André André e na renovação de Diogo Leite, um dos campeões europeus de sub-17. 

Jorge António Berlanga Amaya esteve envolvido no negócio Gudiño e na contratação de Miguel Layún, ao qual também esteve associado Carlos Gonçalves. 

José Caldeira, além da já conhecida intervenção na renovação de Rúben Neves, também tratou da renovação de outro jovem da formação, Sérgio Ribeiro. José Pedro Silva Maia Pinho, da Energy Soccer (de Alexandre Pinto da Costa), surge aqui como intermediário na vinda de Fede Varela. Já Jussara Mary Silva Correia, da Onsoccer, tratou da renovação de Rafa Soares. 

Kevin Caruana foi o intermediário da vinda de Sérgio Oliveira e Luís Machado esteve encarregado da renovação de Silvestre Varela. Matías Bunge, muito ativo no mercado mexicano, também esteve a cargo do empréstimo de Ismael Díaz. Palmer-Brown, emprestado à equipa B, veio pela mão de Michael Gartland.

Mohamed Afzal, conhecido pela proximidade com Antero Henrique, intermediou a vinda de Aly Cissokho. Oliver Cabrega surge confirmado como o intermediário por Danilo Pereira. Paulo Duarte Dias intermediou Suk e Pedro Regufe trouxe Ayoub do Barcelona. A Proeleven recebeu uma comissão pela cedência de Josué ao Bursaspor. 

Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente. 

Ricardo Rivera também surge confirmado como tendo tido intervenção em Jesús Corona, tal como a Cantera Latina. A terminar, aparece em último lugar da lista a Vela, pela renovação de contrato com Brahimi. 

Uma lista por certo muito incompleta, mas que ajuda um pouco à transparência do nosso futebol, nomeadamente no mercado de transferências.

Para download da lista completa.

PS: Nuno Espírito Santo e a sua equipa técnica já foram confirmados e apresentados no FC Porto. Nada mais resta do que esperar pela pré-época. Até lá há um plantel para (re)construir e uma época para preparar. Não foram declarados objetivos concretos para os próximos 2 anos (ao contrário do que fez José Peseiro quando chegou em janeiro), o que até seria prematuro fazer, tendo em conta todo o trabalho que haverá a desenvolver nas próximas semanas. Como disse Nuno, «Porto é muito mais do que palavras», por isso feitas as apresentações e cerimónia dos habituais lugares-comuns, é tempo de trabalhar, pois agosto já será um mês de grandes decisões. Até lá, continuamos a análise ao plantel de 2015-16 e ao recém-publicado Relatório e Contas do 3º trimestre da SAD

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Taça, André, Visão e Diogos

Perdi a conta a quantas vezes vi o Portugal x França de 1984. E por muito que já conheça cada detalhe do jogo de cor, sempre que Rui Jordão vira para 2x1 acredito que Portugal vai ganhar aquele jogo. Sei que Jean-François Domergue vai empatar o jogo e que Platini vai virar para 3x2 aos 119 minutos. Mas continuo a acreditar que Portugal vai ganhar aquele jogo, mesmo sabendo que não vai. Não por ingenuidade, mas por inconformismo perante uma eterna injustiça.

Muito André para pouco Porto
No Jamor, vimos algo parecido, no último minuto do prolongamento. Mas por mais que veja e reveja o lance, espero sempre algo diferente: ou que André Silva remate logo de pé esquerdo; ou que as pernas do André Pinto não apareceram; ou que Marafona escorregue; ou que o remate em arco saia para o segundo poste. Infelizmente, a bola acaba sempre nas mãos de Marafona. Injustiça para todos os portistas, sobretudo para o próprio André Silva, expoente máximo do que é ser Porto na final da Taça.

A época já terminou, mas há alguns aspetos a ter em consideração. A começar pela afirmação de André Silva, um jogador que há dois anos já podia preparar-se para assinar por outro clube. Não o fez porque não quis. Porque é portista, porque é um rapaz bem formado, porque honra e respeita a camisola.

André Silva resistiu a tudo até ter a sua oportunidade. Viu, por exemplo, o FC Porto contratar Suk e Marega em janeiro - e que jeito deram eles na final da Taça de Portugal. Violar o princípio mais básico de qualquer contratação - a vir, que seja melhor do que os que cá estão - foi tudo aquilo que o FC Porto conseguiu fazer no mercado de inverno.

Agora já todos têm grandes expetativas sobre André Silva - só surpreende quem não o acompanhada desde o seu percurso de formação. Na próxima época, é natural que já se comece a pensar num novo contrato - o atual é válido até 2019 e com uma cláusula de rescisão de 25M€. Felizes dias para António Teixeira da Silva, o intermediário da sua renovação. Intermediário, não empresário. A Promosport, no seu site oficial, diz que representa 3 jogadores do FC Porto (Verdasca, Fernando Fonseca e Rodrigo Soares). Não fala em André Silva.

Record, 10.09.2015
Mas no acordo de renovação de André Silva, assinado em novembro de 2014, Teixeira da Silva ficou com 10% do seu passe; e além desses 10%, foi atribuída uma mais-valia de 10% numa futura venda. Como estamos a falar de um produto da formação do FC Porto, a mais-valia a ser gerada seria sempre altíssima, pelo valor que se poupa em amortizações e mecanismos de solidariedade. Neste caso, tendo André Silva uma cláusula de 25M€, estamos potencialmente a falar da cedência de um valor até 5M€ a um intermediário pela renovação de contrato de um dos maiores talentos do FC Porto (e há ainda previsto o pagamento de 100 mil euros pela realização de 10 jogos - mínimo 45 minutos - por época). Na altura era sénior de primeiro ano e estava encostado, devido ao impasse na renovação. Assim que renovou, não mais deixou de jogar. Dá para parar de alienar os passes de jogadores da formação nas suas renovações de contrato, ainda antes de os miúdos começarem a jogar na equipa A?

Ainda sobre a final da Taça, e depois do Projeto Visão 611 ter voltado à ribalta, vemos a crueldade poética de o SC Braga ter ganho a final com dois centrais que deixaram o FC Porto quando o Visão 611 estava em vigor. Ricardo Ferreira, que em 2011 ia passar a sénior após ser campeão de sub-19, um portista dos nossos, não chegou a acordo para renovar - como André Silva poderia não ter chegado... - e foi para o Milan. Fez uma grande época no Braga e vai dar com naturalidade um salto na carreira, pois é central de equipa grande. E portista. Fica questão: quantos esforços foram movidos pelo FC Porto para renovar com Ricardo Ferreira?

O outro foi André Pinto, que era sub-19 de primeiro ano quando o V611 foi criado. Foi emprestado a 4 clubes diferentes até deixar, de vez, o FC Porto. O SC Braga, uma vez mais, aproveitou uma das muitas réstias do FC Porto. E enquanto o SC Braga ganhou a Taça com 2 centrais que deixaram o FC Porto durante o período do V611, o FC Porto perdeu a Taça por erros cometidos pelos seus defesas. No Museu temos o Espaço K. Mas o K já não parece ser de Kelvin, parece ser de Karma. 

Com isto, tomem lá dois nomes para o futuro: Diogo Leite e Diogo Queirós. Nos últimos anos, o FC Porto não tem aproveitado centrais tão bons como antigamente. Reparem que a palavra-chave é «aproveitado», não é «produzido». Afinal, o FC Porto até produziu centrais que são bons o suficiente para ganharem uma Taça de Portugal - e veremos quanto dinheiro vai valer já Ricardo Ferreira, mas é bem provável que valha mais do que Indi, Marcano e Maicon numa transferência. 

Futuro com D
Leite e Queirós acabam de conquistar o Europeu de sub-17. Diogo Queirós já está um passo à frente dos centrais da sua idade - é juvenil e já é titularíssimo nos juniores. Além de ser forte fisicamente, é o típico central que joga sempre de cabeçinha levantada. Diogo Leite, embora ainda não jogue pelos sub-19, teve o seu princípio de afirmação neste Europeu: se o viram perder uma ou duas bolas de cabeça neste Europeu, já foi muito. Muito rápido na antecipação. Temos aqui dois centrais para trabalhar para o futuro.

Do lado direito, já não há surpresas para Diogo Dalot. Foi chamado aos treinos por Lopetegui quando ainda era juvenil, e na altura o ex-treinador do FC Porto confidenciou que esse menino não enganava (a mesma reação de Paulo Fonseca quando chamou Rúben Neves pela primeira vez a um treino, quando tinha 16 anos). É o protótipo de lateral-direito moderno. Rápido, forte, com grande disponibilidade para subir pelo corredor e com golo. João Pinto não consegue olhar para ele sem sorrir.

Esta é mesmo a geração dos Diogos (Diogo Verdasca já poderia ter dado jeito esta época na equipa A, sobretudo face a todas as oportunidades que Chidozie teve). Na baliza, Diogo Costa. Juvenil de segundo ano, titular nos sub-19. Claro que há sempre exceções, mas os melhores guarda-redes, os de topo europeu, são aqueles que começam a jogar muito jovens em equipas principais - não aqueles que ao fim de 4 ou 5 anos de sénior ainda não conseguiram agarrar a titularidade numa equipa de primeira liga (por vezes não por falta de valor, mas de oportunidade). Diogo Costa está um degrau acima e precisa de ter um bom acompanhamento para os próximos anos. Uma palavra ainda para João Lameira, segundo ano de sub-17, com menos espaço no Euro, mas também é campeão europeu. 

Decisão da SAD
De volta à Taça, sem surpresa, a postura de Josué já foi criticada, numa reedição daquilo que foi dito sobre Tozé há 2 anos. E sem razão nenhuma para isso. Josué estava com a camisola do SC Braga, não era com a camisola do FC Porto. E estava com a camisola do SC Braga porque a SAD assim o decidiu, quando emprestou Josué a um clube que só sabe explorar positivamente o FC Porto, enquanto no Dragão nunca tivemos nada de bom oriundo de Braga. 

A culpa não é de Josué: é de quem decidiu emprestá-lo ao SC Braga. No FC Porto, formamos profissionais para darem tudo pela camisola que vestem. Josué estava com a camisola do SC Braga. Se o FC Porto fosse jogar contra o Watford, queriam que Layún deixasse de meter o pé, por estar a jogar contra o clube-mãe? Claro que não, nunca o perdoariam. Josué ganhou a Taça porque deixaram. Os insultos a Josué foram a única coisa lamentável de adeptos que apoiaram exemplarmente a equipa no Jamor. E depois de Pinto da Costa ter dito que Josué ia regressar a casa, veremos se é mesmo isso que vai acontecer...

O FC Porto estará pelo menos mais um ano sem ganhar títulos, e desperdiçou a hipótese de disputar uma Supertaça com o Benfica no início da próxima época. Não houve apenas injustiça, houve também consequência: em janeiro, em vez de reforçarem a defesa, foram buscar Suk e Marega, que nem jogaram no Jamor; se não fosse André Silva, a equipa talvez nem tivesse feito um golo; em sentido inverso, foi por erros defensivos que o FC Porto sofreu os dois golos que deram a Taça ao SC Braga.

Os 120 minutos da Taça de Portugal foram de uma tamanha injustiça; mas o desfecho da Taça de Portugal é uma consequência natural da gestão da época.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Uma questão para a France Football e um prémio

Portanto, Pinto da Costa quer Vítor Pereira (perante a eventual indisponibilidade de Jorge Jesus), Antero Henrique quer Marco Silva... e Alexandre Pinto da Costa quer Paulo Sousa. Foi isto que a France Football escreveu. Uma notícia que merece particular curiosidade por ter sido escrita por Nicolas Vilas Boas, um jornalista luso-descendente que tem alguma proximidade com o FC Porto.

E disto, aquilo que mais curiosidade desperta não é saber quem vai ser o treinador do FC Porto para 2016-17. É saber por que raio Alexandre Pinto da Costa teria opinião nesta matéria.


De um lado temos o presidente do FC Porto, que tem sempre a palavra na escolha do treinador. Do outro temos o recentemente promovido a membro do Conselho de Administração e diretor-geral da SAD. E por fim temos um empresário que, de acordo com o próprio Pinto da Costa, é um «agente independente», que exerce a sua função de empresário livremente e sem qualquer ligação ao FC Porto. 

Então, temos que perguntar à France Football: por que haveria de interessar a opinião de Alexandre Pinto da Costa sobre o futuro treinador do FC Porto? Vão perguntar aos restantes 200 e tal empresários do futebol português quem é que eles gostariam de ver no FC Porto? Seria um exercício de rigor. Se a opinião de Alexandre Pinto da Costa é importante, também deveriam perguntar a todos os outros empresários que estão registados na FPF. Uma questão de coerência. 

Neste momento, discutir sobre quem será o futuro treinador do FC Porto não é mais do que especulação. Há dois anos, passou-se o mês de abril a debater a sucessão de Luís Castro, enquanto Lopetegui já andava no Dragão a ver os jogos e a tirar notas. 

Que se repita a história, até porque por esta altura a SAD já tem que saber se José Peseiro fica ou não. Pinto da Costa disse, e bem, que nenhum treinador pode estar dependente de uma final de uma Taça de Portugal, pela imprevisibilidade que 90 minutos podem ter. É verdade. Mas isso serve para o bem e para o mal. Jesualdo Ferreira acabou 2009-10 a ganhar 10 jornadas consecutivas e conquistou a Taça de Portugal, mas a decisão já estava tomada. Que volte a ser o caso com José Peseiro. 

Entretanto, algo que merece a nossa curiosidade. Nuno Vicente está longe de ser um dos melhores árbitros assistentes em Portugal. Na verdade, tem sido dos piores. Depois de ter sido 23º classificado em 2013-14, na última época foi o 38º classificado. 
Nuno Vicente

Mas Nuno Vicente tem sido injustiçado e tem uma visão periférica. Por exemplo, no Benfica B-Freamunde, em que o Benfica B desceria de divisão se não ganhasse, conseguiu ver o que mais ninguém viu: quando o marcador estava 0x0, disse a Bruno Paixão que a falta que ele tinha assinalado fora da grande área era, afinal, penalty. E reparem que ele nem sequer era árbitro auxiliar: era quarto árbitro. O bandeirinha não sugeriu a Bruno Paixão que mudasse a sua decisão, mas o 4º árbitro, que nem sequer acompanhava a jogada, decidiu fazê-lo. Brilhante. 

Hoje recebe o prémio merecido: foi nomeado para a final da Taça da Liga... como árbitro assistente. E adivinhem quem será o 4º árbitro: António Godinho, precisamente um dos assistentes no Benfica B-Freamunde. Mas o árbitro, desta vez, não é Bruno Paixão... mas sim o wonderboy Fábio Veríssimo, um dos internacionais promovidos por Vítor Pereira contra as diretrizes da FIFA.

Vítor Pereira merece deixar o Conselho de Arbitragem em ombros. Há quem diga que merece um lugar no Museu Cosme Damião. Discordemos: merece é que abram o Museu Vítor Pereira, e que metam lá os troféus conquistados pelo Benfica durante o seu mandato no CA. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Paixão até ao fim

O FC Porto já está fora da luta pelo título, mas há fenómenos interessantíssimos que não podemos deixar de observar. Como por exemplo, nas nomeações para a 32ª jornada do campeonato, onde se pode decidir a luta pelo título.

É bom lembrar que estamos nas últimas semanas do reinado de Vítor Pereira, que anteriormente explicou que as nomeações têm em consideração a «graduação de Normal, Médio e Difícil» quanto à dificuldade de cada jogo, tendo sempre em conta «a classificação, a rivalidade e factores recentemente ocorridos».

Face à conjuntura para estas jornadas, tanto o FC Porto x Sporting como o Benfica x Vitória SC são jogos de grau de dificuldade difícil. Teoricamente, quem são (ou deveriam ser) os melhores árbitros? Os internacionais. Por isso Vítor Pereira admitiu o princípio de nomear os árbitros internacionais para os jogos de máximo grau de dificuldade.

Ora, para o Dragão foi nomeado Artur Soares Dias, internacional e eleito o 2º melhor árbitro da época passada (atrás de Jorge Sousa). Trata-se até de um árbitro já experiente em clássicos, apesar de já ter sido muito criticado de parte a parte, com mais ou menos razões para isso. 

Já para o Benfica x Vitória SC... Não foi nomeado nenhum internacional. Dos 8 árbitros internacionais da FPF, não escolheram nenhum: a escolha foi Bruno Paixão, que perdeu as insígnias de internacional em 2012, após ter ficado por duas vezes abaixo do 12º lugar da lista de melhores árbitros. Na altura recorreu aos tribunais, alegando que era uma injustiça. De facto, que grande injustiça que foi: em 2012-13 foi 12º e em 2013-14 cometeu a proeza de ser 20º classificado, um dos piores árbitros do ano em Portugal.

Já em 2014-15, numa época atípica em todas as classificações de árbitros (basta lembrar que o árbitro escolhido para a final da Taça, Marco Ferreira, na altura por ter feito uma boa época, acabou por ser despromovido de categoria), Bruno Paixão ficou no top 12. E isso já se consegue justificar, pelos regulamentos, a sua nomeação para a próximo jogo do Benfica.

Pois os regulamentos, embora recomendem a nomeação de árbitros internacionais para os jogos de grande dificuldade, incluem a possibilidade de chamar um árbitro do top 12 da época anterior. Mas sendo Bruno Paixão, segundo uma acusação do próprio Sporting, benfiquista, a nomeação não deixa de ser discutível por todos os motivos. Até pelo próprio saldo do Benfica a jogar em casa em jogos arbitros por Bruno Paixão.

Em 12 jogos com Bruno Paixão na Luz, o Benfica venceu os 12. Além disso, Bruno Paixão apitou uma única vez um jogo entre Benfica e Vitória SC em toda a sua carreira. O resultado foi este:


Vítor Pereira e o Benfica levam a sua Paixão até ao final. Não vá ela ser necessária no último suspiro.

PS: O timing do Football Leaks volta a ser deveras interessante. Quando divulgaram o mapa da percentagens de passes do FC Porto, já tinha sido levantado o véu da condição contratual de Tony Djim. Mas na semana passada colocaram o contrato na íntegra com a Danubio GMBH, empresa ligada a Luciano D'Onofrio e que tem estado envolvida em todos os jogadores que chegam do Standard Liège (Bolat, Opare, Kayembé, irmãos Djim), fica com percentagens de passes e cobra grandes quantias por jogadores que chegam livres de qualquer contrato ao FC Porto. 

Quase como que a adivinhar uma iminente renovação, o Football Leaks publicou o contrato que mostra que a partir do momento em que Tony Djim renovasse, o FC Porto teria que comprar 10% do passe por 1M€, avaliando assim Djim, com pobres resultados na relação tempo de jogo/rendimento, em 10M€. Tony Djim, à data de hoje, não vale sequer um décimo desse valor, nem mostra potencial que justifique a sua compra nestes moldes. É sem dúvida um jogador empenhado, mas que não se faz destacar por nada mais que a sua capacidade física nos sub-19. 

Se Tony Djim está já avaliado em 10M€, então quanto custarão os bem mais talentosos Gleison e Ismael Díaz? Se fizer 5 jogos na equipa A, a SAD, segundo o contrato que foi divulgado (não sabemos se houve alguma adenda ou modificação face ao que foi assinado em 2014), tem que pagar mais 1.5M€ por 20% do passe. Provavelmente Djim não chegará a fazer esses jogos, à imagem de Generoso, mas confirmando-se estes valores trata-se de um negócio sem cabimento nem pertinência, tal como tem sido esta ligação à Danubio. O Relatório e Contas provavelmente pouco ou nada dirá desta operação, tendo em conta que também não foi nada esclarecedor no caso de Célestin Djim (nunca foi clarificado quanto a SAD pagou por ele - o tal 1M€ por 10% antes da venda -, nem sequer especificaram que foi vendido com Carlos Eduardo para as Arábias). O outro irmão Djim tem 12 minutos ao serviço do Metz em França. Há idas à casa-de-banho que demoram mais tempo.

A Tony Djim a melhor sorte (o rapaz é o último culpado, pois não obrigou ninguém a contratá-lo ou a pagar por ele, e tem o sonho de ser um bom futebolista, como todos os outros), pois há muita gente a depender da sua evolução. Por exemplo, Luciano Djim, 37 anos, já criou 4 empresas diferentes (Nutrilite, Sport Promotion, World of Sport e Luciano Djim Soccer Talents Management), todas com o mesmo número de telefone, mas todas elas não parecem/pareceram passar de projetos de pouca dura. 

Luciano Djim com Dominique D'Onofrio, irmão de Luciano D'Onofrio
Esta foi a primeira renovação de contrato anunciada desde a reeleição do Conselho de Administração para um novo mandato. Está dado o pontapé de saída para o futuro.