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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E o Dragão paga a factura

«(...) Tecnicamente, a UEFA só admite prejuízos até 5 milhões de euros por exercício em análise. O resultado negativo pode esticar-se até 45 milhões de euros, mas neste caso o valor negativo acima dos 5 milhões tem que ser suportado pelos proprietários do clube, ou através do lançamento de novas acções que sejam subscritas na íntegra pelos accionistas»

«Há uma forte (diria mesmo inevitável) possibilidade do FC Porto ultrapassar os 45 milhões de euros de prejuízo nos últimos 3 anos. Para já, sabemos que as duas primeiras épocas deram um prejuízo de 15,4 milhões. Significa que para o limite não ser excedido, a época 2013-14 não poderia fechar com um prejuízo superior a 29,6 milhões de euros. Algo que é quase inevitável que vá acontecer»


O aviso tinha sido feito: o FC Porto estava em risco de falhar o fair-play financeiro da UEFA (não é por outros também estarem a falhar que há motivos para relaxar). A SAD teria que encontrar uma alternativa, sim, sobretudo tendo em conta que os custos operacionais não vão ser reduzidos em 2014-15, os capitais próprios vão continuar negativos no curto prazo e resistiu-se à venda de Jackson Martínez. Tudo isto teria um custo, mas os portistas não imaginariam que a SAD ponderaria, algum dia, recorrer ao trunfo Euroantas. Era a carta no baralho que nunca, nunca iriamos usar. Era um orgulho próprio, o Estádio do Dragão, do clube, dos sócios, a 100%, com uma disciplina notável no pagamento.
Metade do que é «nosso»
sacrificado

A partir de 2018, o Estádio do Dragão seria do FC Porto (clube, não SAD) a 100%. A Euroantas foi sempre exemplar no cumprimento do pagamento à banca. Neste momento, o Dragão está a custar, em média, 3,5 milhões de euros por ano e dentro de quatro anos estaria pago. Um estádio nosso, sem reestruturação. Limpinho, limpinho.

Havia o eterno receio de que um dia a SAD pudesse recorrer a este trunfo, mas nem eu, e imagino que nem a generalidade dos portistas, pensaria que algum dia isto seria realmente ponderado. Éramos, somos, o clube português mais honrado no cumprimento das suas obrigações. Tanto Benfica como Sporting já tinham sacrificado os seus estádios: o Benfica já fez duas reestruturações, tem um plano de pagamento até 2024 e certamente ainda vai renegociá-lo para mais 6-8 anos e com naming à vista; o Sporting também o fez, entrou em decadência e está há anos em falência técnica e vai continuar assim nos próximos semestres, mesmo que comece a recuperar aos poucos com a reestruturação que fez.

Passo a explicar o que está em causa. A SAD vai ter, no final de 2013-14, o maior prejuízo da sua história, que não será uma surpresa indo além dos 40 milhões de euros. A «desculpa fácil» será que o dinheiro da venda de Mangala ainda não entra neste exercício. Isso é uma explicação que se dispensa e que não é coerente.

Exemplifico: em 2011-12, a SAD teve o maior prejuízo da sua história, 35,7 milhões de euros. A tal «desculpa fácil» é que as transferências de Álvaro Pereira e Hulk ainda não tinham sido contabilizadas. Tudo bem. Foram contabilizadas em 2012-13, tal como Moutinho e James Rodríguez (70 milhões de euros brutos), e a SAD teve um lucro de... apenas 20,3 milhões de euros. Isto estando contabilizado, no mesmo exercício anual, as vendas de Hulk (40 milhões brutos), Álvaro Pereira (10), James (45) e Moutinho (25).

6 meses de Fernando
Gomes...
O problema é o de sempre: as receitas operacionais não cobrem os custos operacionais, e o FC Porto é extremamente dependente de mais-valias para cumprir com as obrigações. É um sistema de risco, já o sabemos, e tem dado resultados e sido um sucesso (faz bem ao ego ler inúmeros jornais estrangeiros a dizerem que somos uma máquina de transferências, mas esses focam-se em quanto vendemos os jogadores, não nos números finais de cada época). Mas nos últimos 3 anos começou a tremer. O fair-play da UEFA, goste-se ou não de Platini, foi das melhores iniciativas tomadas nos últimos anos: vai disciplinar os clubes e obrigá-los a tentar depender das receitas operacionais e, para leigos, a não gastarem mais do que têm. Mas a SAD decidiu contornar o fair-play financeiro sacrificando 50% do Estádio do Dragão, ou se preferir da Euroantas.

Todos ficámos contentes que o plantel que a SAD formou para 2014-15. Mas isto vai muito além da justificação «este é o preço de um grande plantel!» Esta não pode ser a justificação! Presidente, e demais: se este era o plano desde o início, usar 50% da Euroantas, então os sócios deveriam ter sido alertados desde o início, antes do ataque e da resistência ao mercado, não agora que se está praticamente entre a espada e a parede! Nenhum portista vai ficar satisfeito com esta operação, ninguém, a não ser os que ignoram a gestão da SAD e se focam no que se passa dentro das quatro linhas. Se em maio estiverem em festa, fica tudo bem. Mas eu não me preocupo apenas com o maio de 2015. Preocupo-me também com o de 2016, o de 2017, o de 2018, ano em que o Dragão já seria nosso...

Para que se perceba melhor o que está em causa: a SAD vai avançar para um aumento de capital, em 37,5 milhões de euros. É uma forma de assegurar o fair-play financeiro até 2015 (onde vamos fazer vendas milionárias, forçosamente, para equilibrar a balança - desta vez 2 titulares dificilmente chegará), de responder aos capitais próprios negativos e ao prejuízo enorme que se vai verificar no final de 2013-14.

O problema aqui, é que o clube, principal accionista da SAD, não consegue acompanhar esse aumento de capital, como é natural. Então a SAD vai adquirir 50% da sociedade Euroantas (a entidade proprietária do Dragão). A SAD, teoricamente, «injecta» dinheiro no clube, para por sua vez o clube «retribuir» à SAD. É uma operação que responde às dificuldades no curto prazo, legítima, e que tanto Benfica como Sporting já tiveram que fazer (e não tiveram grande sucesso com isso). Mas não pode ser considerado um acto de gestão normal e, muito menos, competente.

É uma das piores acções da gestão da FC Porto, SAD na última década. Se se pespectivava esta operação, isto deveria ter sido parte de um plano (plano esse previamente assumido) e não de uma solução de recurso. Talvez os sócios compreendessem a necessidade. Assim, largar esta granada já com o mercado fechado e época em curso, é reunir com total naturalidade o descontentamento dos sócios que percebem o que está em causa. Este é o dia em que a administração do FC Porto prefere os accionistas aos sócios.

Presidente e demais SAD, aguardamos justificações a 2 de Outubro. E sobretudo do doutor Fernando Gomes, cuja gestão ao fim de um semestre já obriga àquilo pelo qual Angelino Ferreira tanto lutou para evitar nos últimos 4 anos. 

PS: À hora que acabo de escrever este texto, confirma-se o que já tinha sido adiantado ontem pelo Tribunal do Dragão: Portugal ainda pode ir ao Euro 2016, mas Paulo Bento não irá. Haja uma boa notícia neste dia.