Mostrar mensagens com a etiqueta FIFA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta FIFA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As diferenças entre Mangala e Ola John

O timing é uma coincidência maravilhosa, é certo. Mangala foi transferido em agosto de 2014, e na altura já se levantavam questões sobre os valores da sua transferência, mas a FIFA só se lembrou agora, neste tempos tão quentinhos para o futebol nacional, de decidir analisar se há base para uma investigação. E também não é inocente o facto de a FIFA, enquanto entidade íntegra e transparente, estar completamente falida, logo terá que atacar alguns clubes e julgar algumas práticas para restaurar alguma credibilidade. 

Muito bem. O que estará em causa é perceber se a Doyen Sports teve influência na transferência de Mangala para o Manchester City. É um dos efeitos secundários dos leaks. E daí percebemos o porquê de só terem sido divulgados, em matéria de Benfica, documentos a envolver a Doyen e Ola John.

A influência da Doyen
Para quem tiver acesso ao Financial and Economic Rights Participation Agreement (ERPA) de Mangala e Ola John, pode notar a grande diferença entre os pontos 6.2 dos dois contratos. Começam exatamente com a mesma frase: «The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain». No caso do ERPA de Mangala, este ponto termina assim. Mas no do Benfica não. O Benfica acrescenta isto:

«The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain, and shall be strictly prohibited from contacting or interfering in any way whatsoever, either directly or indirectly, with any of the parties (other than the club) with is directly or indirectly involved in the negotiations of the potencial transfer, except with the written permission of the club».

Voilá. No mesmo artigo (6.2) no contrato do FC Porto, essa informação não aparece. O Benfica está, neste ponto, mais bem protegido no seu acordo do que o FC Porto, o que só levanta uma questão: quem se esqueceu deste pormenor? Se o FC Porto está mais próximo da Doyen do que o Benfica (normal, tendo em conta que Mangala foi um sucesso, tal como vai ser Brahimi, e Ola John uma enorme desilusão para o fundo), como se justifica que o mesmo artigo proteja muito mais o Benfica do que o FC Porto?

Por outro lado, assim se percebe o porquê de a Football Leaks só ter ainda um contrato online: precisamente este de Ola John. Serve isto como termo de comparação para tentar entalar o FC Porto na transferência de Mangala para o City e alegar que a Doyen teve interferência no processo. Mas como veremos mais abaixo, não correu como desejariam.

O que há a fazer? Para começar, não, o FC Porto não pode delegar à Doyen a iniciativa de uma transferência. Todos sabem isso. « (...) Article 18bis par. 1 of the RSTP, which states that “[n]o club shall enter into a contract which enables any other party to that contract or any third party to acquire the ability to influence in employment and transfer-related matters its independence, its policies or the performance of its teams.» O FC Porto só tem que explicar, se a FIFA o convidar a isso, que a Doyen não assumiu iniciativa em nada e somente colaborou com a parte que lhe cabia.

O FC Porto queria vender Mangala. O Manchester City queria comprar Mangala. O Manchester City oferecia uma excelente proposta ao FC Porto. Jorge Mendes estava no papel de intermediário. E então assim se fez a transferência. O que há aqui de errado? Nada.
Nélio Lucas

Levantaram-se questões sobre o valor pelo qual Mangala foi vendido. O FC Porto comunicou a sua parte: 30,5M€ por 56,67% do passe. Deste valor o FC Porto tirou o mecanismo de solidariedade FIFA, a intermediação para Jorge Mendes e os prémios de fidelidade a Mangala. Soube-se que a determinada altura a Robi Plus teria direito a 10%, mas esta sociedade de D'Onofrio e Delmenico deixou de ter esta participação muito antes da transferência para o City (a imprensa belga chegou a falar de uma suposta compra dos 10% por parte da própria Doyen, que as partes não quiseram confirmar). No R&C, o FC Porto acrescentou que «o clube comprador assumiu a obrigação de pagar diretamente à Doyen a proporção que esta entidade detinha sobre os direitos económicos do jogador».

Como se sabe, a Liga Inglesa só admite a inscrição de jogadores se o clube comprador absorver a totalidade do passe. Por isso o Manchester City tinha que comprar os 100% do passe de Mangala. E assim o fez. Comprou a sua parte ao FC Porto e a restante parte à... Doyen. Se a Doyen tinha 33,33% e se a sua quota era necessária à concretização da transferência, como esperavam que a Doyen não interferisse na transferência? É claro que tinha que interferir. E numa liga exigente como a inglesa, onde até é necessário licenças de trabalho, alguém acredita que a inscrição de Mangala teria sido aceite se não estivesse tudo muito bem claro (e logo após a reportagem da France 2, que tantas suspeitas levantou)? 

No acordo, o FC Porto declarou que reservava a um entendimento entre o City e a Doyen a questão da parcela que faltava no passe de Mangala. Ao contrário do que a Bloomberg escreve, não foram 54 milhões, como é lógico, pois não é por os 56,67% do FC Porto terem valido 30,5M€ que a restante parcela tem que ter valor proporcional. Isto é uma não questão, e nem é o que está em causa.

O FC Porto, se a FIFA assim o exigir, só tem que expor que era intenção dos dois clubes, City e FC Porto, transferir Mangala, e que para tal acontecer a Doyen teria que ser implicada nas negociações. Agora, por muito que possa estar limitado a jogadores do catálogo da Doyen, por possíveis dificuldades de investimento a curto prazo, o FC Porto não poderá nunca delegar à Doyen a iniciativa ou total responsabilidade de negociar, por sua conta, um jogador para o FC Porto. Isso não, nunca. Por outro lado, é normal os clubes delegarem a empresários procurações para negociar X jogador com X clube.

20 ou 45M€?
Se a FIFA quiser explicações, o FC Porto só terá que as prestar. De livre e espontânea vontade, pois aqui ninguém pode ficar de rabinho entalado entre as pernas, como basicamente tem sido assumido pelo Benfica nos últimos tempos, desde a Liga Aliança às ofertas ilegais a árbitros. E ao contrário do que se tem verificado neste último, o FC Porto, na questão Doyen/Mangala, não deve ter nada a esconder. 

Ah! O facto do ERPA de Ola John ter sido divulgado e de continuar online tem um propósito claro. Mas atenção àquilo que se possa entender como a influência de um fundo num determinado clube. No contrato do Benfica, está dito que a Doyen e o clube concordam que uma oferta de 20M€ seria mais do que razoável para vender Ola John. Mais, diz que se o Benfica não aceitar uma eventual proposta de 20M€ por Ola John terá que indemnizar a Doyen Sports em 100% do valor.

Mau! Então se a Doyen pretende uma indemnização no caso de o Benfica recusar 20M€, não estará a condicionar ou influenciar o seu futuro? Se João Cancelo e Ivan Cavaleiro, sem terem feito nada de relevante na equipa principal do Benfica, valem 15M€ cada, não me digam que um internacional holandês, que já foi eleito dos melhores jogadores da Eredivisie, até era seguido pelo Manchester United e que até significou um investimento elevado por parte do Benfica não vale um bocadinho mais.

Aliás! Por mais que esta frase esteja batida, Luís Filipe Vieira disse e repetiu isto: «Nenhum jogador sairá sem serem cumpridas as cláusulas de rescisão». Ora Ola John tinha uma cláusula de rescisão de 45 milhões de euros. Então como raio é que o Benfica permite um acordo com a Doyen em que estipula que uma proposta de 20M€ já era um montante razoável para a transferência?

Vá, um bocadinho de rigor. No Regulamento do Estatuto de Transferências de Jogadores sobre o TOP, no artigo 18 a FIFA diz que «No club shall enter into a contract which enbales the counter club/counter clubs, and vice versa, or any third party to acquire the ability to influence in empolyment and transfer related matters its independence, its policies or the perfomance of its teams».

Ora se Vieira só vende pela cláusula, se o Benfica coloca uma cláusula de 45M€ em Ola John e se depois acorda com a Doyen a possibilidade de uma saída por 20M€, em que ficamos? Não está a Doyen também a interferir no Benfica? E não aceitou o Benfica entrar num acordo que levanta estas questões, violando o trecho acima referido? É que a Doyen, pelo menos, não forçou o FC Porto a aceitar propostas de menos de metade do valor da cláusula de rescisão de Mangala.

FIFA, já que estão com a mão na massa, aproveitem e analisem isto também. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Profissão: intermediário de jogadores

És menor de idade? Não tens formação ou qualificação em nenhuma área? Já tens cadastro criminal? Nada temas, rapaz. O dia 1 de Abril de 2015 será um bom dia para ti, pois é o dia em que nada disto te impedirá de passares a ter uma profissão que te dá milhares de euros num curto de espaço de tempo, com pouco ou nenhum trabalho: intermediário de jogadores.

Um presentinho
Vai abrir-se uma nova era: acabaram os agentes de jogadores. A partir de 1 de Abril, a FIFA passa a reconhecer nos estatutos os «intermediários de jogadores». Quer isto dizer que a partir de agora qualquer pessoa pode participar em transferências de jogadores. Não é preciso licença, exame, garantia bancária ou registo criminal. Nada. Basta aparecer no dia em que o contrato do jogador é assinado, depositá-lo na Federação com a assinatura do representante intermediário, e está feito. Não precisamos de voltar a ver o jogador na vida - e nem é preciso tê-lo visto antes.

Em Portugal, oficialmente há cerca de 70 empresários de jogadores. Têm licença, fizeram exames, têm carteiras de jogadores. Mas a FIFA notou que havia um grande problema: grande parte das pessoas que participavam nas transferências de jogadores eram sujeitos «comuns», sem licenças. Segundo a Associação Europeia de Clubes, no espaço de 4 anos só 5,5% de agentes licenciados participaram em transferências em clubes europeus. A uma escala global, cerca de 25 a 30%. Por isso é que se consultarem esta lista, que é a lista oficial dos empresários licenciados na FPF, vão notar que falta aqui muita gente de quem certamente já ouviram falar.

Então a FIFA entendeu que o sistema de licenciamento de empresários não funcionava. Então em vez reformar ou mudar de sistema... acabou com o licenciamento. A partir de 1 de Abril, deixa de haver empresários licenciados. Qualquer pessoa pode participar numa intermediação de uma transferência. A FIFA reconhecia cerca de 6000 empresários licenciados. Agora estes números multiplicam-se incalculavelmente.

Fácil, barato, dá milhões
Porque é que isto é grave? Por mais sanguessugas ou mal-intencionados que alguns empresários possam ser, muitos deles acompanhavam a carreira de jogadores desde pequenos. Os empresários (alguns) são mais do que homens de negócios, são também olheiros, tutores e conselheiros. Muitos deles acompanham miúdos que «tiram» de famílias humildes até chegarem a grandes carreiras. A partir de agora, não é necessário fazer acompanhamento nenhum (já não o era, mas agora este fenómeno tem tudo para se propagar), nem ter carteira de jogadores, nem sequer conhecer o jogador. Basta aparecer, rubricar e receber o cheque. Vai haver cada vez mais gente simplesmente interessada em receber a sua comissão do que em acompanhar o crescimento do jogador.

Esta é a parte (muito) má. Há outra que tem tudo para ser uma (muito) boa notícia para os clubes: os novos limites aplicados às intermediações/comissões. O Regulamento de Intermediários de Jogadores que entra em vigor diz que qualquer pessoa singular ou colectiva (também esta uma nova alteração) só pode receber 3% do valor da transferência numa comissão ou 3% do valor total dos salários brutos que o jogador tenha a receber. E uma notícia ainda melhor: os intermediários não podem receber dinheiro com contratos com menores de idade (vai estar tudo a bombar com Europe no MP3 até chegar ao 18º aniversário. It's the final countdown, turururu).

A percentagem que pode mudar
tudo para melhor
São excelentes notícias, mas infelizmente a FIFA não dá cerejas vermelhinhas sem caroços podres. A FIFA abriu as portas do negócio do futebol a qualquer sujeito, dos mais variados (des)interesses. A boa notícia é que, apesar de qualquer um poder entrar, só tem direito a sair com 3% no bolso. Tendo em conta que as intermediações médias nas Ligas Europeias são de 14,5% (mais conservador do que possa parecer), é uma medida que vai disciplinar os clubes, reduzir os custos forçosamente. Porque aumentar os custos das transferências e os contratos dos jogadores só para a proporção dos 3% subir dava uma trabalheira nada sustentável.

O problema está na ambiguidade dos 3%, pois os regulamentos da FIFA não são esclarecedores e cada Federação terá margem para uma flexibilidade na sua gestão. Por exemplo, na Federação Inglesa já vemos que todos os interessados em ser intermediários vão ter que ter atestados de boa reputação, testes de carácter, documentação completa e vão ter que pagar taxas. Ora e em Portugal? Que esperar da Federação Portuguesa de Futebol, cujo presidente acabou de ser o mais votado para o Comité Executivo da UEFA? Nada. Nem uma palavra. Teve que ir Artur Fernandes, da ANAF, para a RTP para se ouvir alguma coisa.

Há ainda os conflitos de interesse. Aliás, não há. Acumular um cargo com o papel de intermediário que gere um conflito de interesse passa a ser admissível, desde que a terceira parte assim o aceite. Ou seja, os empresários (seja em título ou actividade) podem ter interesses em transferências que envolvam terceiras partes e que os beneficie, a eles ou a outrem, desde que estejam todos de acordo. Luz verde para empresários que colaborem com fundos que têm percentagens de passes de jogadores que representem (aqui o semáforo ainda pode fechar).

Apesar desta ambiguidade nos 3%, para terminar há outra óptima notícia: segundo o regulamento as Federações vão passar a estar obrigadas, anualmente, a publicar o nome de todos os intermediários registados, a que jogadores estiveram associados e as quantias. É um excelente passo para a credibilidade e transparência nas transferências de jogadores à escala mundial. Tão bom que se recomenda uma série de alongamentos. Não vá haver cãibras antes do passo ser dado.

domingo, 23 de novembro de 2014

Só ele sabe porque não fica em casa

Ele está em todo o lado. Dá conferências em Londres onde promete inovadoras experiências interactivas para os adeptos que já se praticam no Estádio do Dragão, vai aos Emirados falar de futebol de praia, passa pela África do Sul e pelos EUA e é recebido como um Messias na UEFA, a avaliar por este pequeno texto do jornal Record. Seja qual for o final de época, o Sporting já deve ser campeão em milhas acumuladas.

Fim dos fundos: eles riem-se
Mas isto a propósito do visionário Bruno de Carvalho que deixou a FIFA e a UEFA a seus pés com as suas propostas anti-fundos. Só se lamenta que Bruno de Carvalho não tenha sido tão visionário aquando das eleições para a LPFP (bastava escolher um candidato e ter o apoio de três clubes para concorrer contra Luís Duque). Se há tanta visão para o futuro do futebol português, porque não nem uma sugestão? É a chamada gestão à José Régio. Bruno de Carvalho não sabe para onde vai, mas sabe que não vai por aí (e por aí entenda-se o sentido de voto de FC Porto e Benfica).

Mas não deixa de ter pensamento estratégico. O caso mais interessante foi a entrevista com os directores dos 3 jornais desportivos. Chamou-os para uma entrevista que rapidamente se tornou num ataque, onde utilizou um inteligente jogo de palavras para iludir os desatentos. Cumpriu os seus objectivos: atacou os 3 directores e os sportinguistas rejubilaram, espumaram-se, celebraram. Rejubilaram tanto que esqueceram-se por um momento do 8º lugar na liga. Bruno de Carvalho sabe chamar as atenções para si próprio e fazer com que se esqueçam do importante. Acreditem, não é fácil fazer isto. Tem mérito.

Mas quando o tema são os fundos, já não se trata de desviar as atenções. Trata-se mesmo de ignorância face ao que aí vem. Continuam a tratar Bruno de Carvalho como o valente cavaleiro da cruzada contra os fundos, que vai acabar com os fundos na UEFA e na FIFA. Percebe-se este empenho de Bruno de Carvalho: enquanto Benfica e FC Porto mantiverem parceiros estratégicos, o Sporting não cheira. Mas a Bruno de Carvalho interessa corrigir rapidamente o erro que fez no Sporting: fazer com que mais nenhum fundo queira negociar com o clube.

Porque é isso que está em causa. Não é só o Sporting a romper com os fundos. São os fundos que já não querem negociar com o Sporting. A maneira como rasgam o contrato com a Doyen Sports, tratando tal como um empréstimo sem taxa de juro que ia triplicar ou quadruplicar o lucro da instituição, mostra que não tem uma SAD pronta a honrar os compromissos que assina. Nenhum parceiro quer negociar com um clube assim.

Por isso é tão conveniente a história de que os fundos vão acabar. Mas é tão conveniente como mal contada. A FIFA não vai proibir os fundos de investimento, vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento. Os fundos vão continuar a existir, como sempre. Na prática o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Já ouviram a aquela história de que os fundos são proibidos em Inglaterra? Ouviram mal. O que não é permitido é o third-party ownership. Os fundos existiam, exitem e continuarão a existir, em todos os campeonatos.

Portanto a história do herói Bruno de Carvalho, que anda a batalhar na FIFA e na UEFA, é para inglês ver. Vai acabar a partilha de passes por terceiros. Mas os fundos vão continuar a operar como instituições bancárias. E vão continuar a financiar transferências para clubes onde saibam que a) os jogadores vão ser valorizados; b) os clubes vão cumprir os compromissos assumidos.

O Sporting, além de rasgar contratos quando lhe apetece, não valoriza os jogadores para um patamar que Benfica e FC Porto alcançam. Em toda a sua história o Sporting só vendeu um jogador acima dos 15 milhões, foi há 7 anos e até lhes foi emprestado de graça. E para fazer a segunda maior venda da sua história em 2010 o Sporting teve que vender o seu capitão ao FC Porto. Que interesse podem os fundos ter num clube assim?

A dependência dos fundos não é saudável para ninguém. Mas que são importantes para conseguir jogadores como Mangala, James ou Brahimi, são. O que se pedia era a transparência do processo. Coisas tão simples como a) conhecer os accionistas ligados aos fundos; b) revelar logo no momento da alienação quanto custa recuperar o passe; c) definir uma taxa máxima de valorização dos activos. Três coisas tão simples que acabavam com o problema. Mas sabem porque é que estas 3 coisinhas nunca foram opção? Porque nem a FIFA nem a UEFA têm interesse.

A FIFA e a UEFA querem que os fundos continuem a existir, porque é um negócios paralelo que envolve centenas de milhões. Vai proibir o third-party ownership, mas os fundos vão continuar a operar. Não muda nada. Bater palminhas por se fechar uma janela quando a porta continua aberta? A única porta que se fechou foi para o Sporting, e foi dos fundos.





- A saudade de ver o nosso FC Porto jogar é tanta que para ter tema tive que o centrar em Bruno de Carvalho. Isto porque não posso aceitar a sugestão de um estimado amigo portista, que sugeriu que falasse sobre os elogios a Pinto da Costa em Angola. Ver o FC Porto, na presença do seu presidente, ser reconhecido lá fora é sempre importante. Mas para quem tanto se queixa de imprensa tendenciosa e do regime, dedicar uma única palavra ao Jornal de Angola seria de uma hipocrisia e falta de coerência considerável. Pobre do FC Porto no dia em que necessitar de um panfleto estatal para massajar o ego. Fica a nota por Pinto da Costa mais uma vez exportar a imagem do FC Porto no estrangeiro, com expectativas de ver se terá importado algo.

- Não li a entrevista de Lopetegui à UEFA. Mas o jornal Record diz algo como «seremos campeões ou lutaremos até ao fim» e esta frase deixou alguns portistas incomodados, por Lopetegui admitir a possibilidade de não ser campeão. Claramente um motivo para indignação, ora vejamos o que disse Guardiola em meados de 2011-12: «Ser campeón? Solo queda luchar hasta el final». Ou então o que diz Mourinho depois de passar para a frente da liga inglesa em 2013-14: «Não somos candidatos ao título, o City é que tem obrigação de ser campeão». Seguindo a coerência, Guardiola e Mourinho não têm capacidade para treinar o FC Porto, porque são treinadores que admitem não ser campeões. Ah, esperem, são mind-games para aliviar a pressão sobre a equipa? Ah, tudo bem! Que pena que Lopetegui não tenha feito o mesmo na sua entrevista à UEFA... [Irony alert]. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O que (realmente) vai acontecer com os fundos de investimento e a cruzada de Bruno de Carvalho

«FIFA proíbe fundos de investimento.» Fomos bombardeados com esta frase nas últimas semanas. Rapidamente surgiram vozes que davam conta do fim da competitividade dos clubes nacionais. Os melhores clubes portugueses  passariam a estar, diziam, ao nível dos melhores na Bélgica, Holanda e noutros países europeus de PIB superior ao de Portugal. Resumidamente, o nível de competitividade do futebol estaria adaptado à realidade económica e financeira do país em que está inserido. Uma valente treta.

Acabar com um negócio
de 1107 milhões? Rir.
Para começar, um pormenor que muda tudo: a FIFA não vai proibir os fundos de investimento. Vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento, com terceiros, o tal third-party ownership (TPO) que não se pratica em Inglaterra. Como muitos não sabem sequer a diferença, é normal que se leiam barbaridades como «FIFA proíbe fundos de investimento».

FC Porto, Benfica e Sporting praticam, já há alguns anos, aquela que vai ser a realidade alternativa ao fim da partilha de passes. Exemplificando: quantas vezes já ouviram que nos clubes ingleses «é proibido partilhar os passes com terceiros»? É verdade. Mas não deixam de manter negócios com fundos de investimento para contratar jogadores.

Estamos todos habituados à modalidade tradicional: o clube oferece uma parte do passe de um activo (jogador) a um fundo, a troco de determinado valor, e no momento da transferência desse activo entrega ao fundo a percentagem da receita a que tinha direito - sendo que os fundos nunca têm prejuízo, pois caso haja uma desvalorização os clubes têm que proceder à indemnização. Logo, a partilha de risco é um conceito utópico.

Os fundos de investimento vão continuar a existir. A FIFA não pode proibir este tipo de actividades. O que vai deixar de existir é a partilha de passes. E então entra em cena a alternativa: o financiamento. Um exemplo com um caso recente no FC Porto, nomeadamente a contratação de Walter.

«Na sequência da aquisição dos direitos desportivos e económicos do jogador Walter, realizada em Julho de 2011, a Sociedade celebrou um contrato com a For Gool Co. Ltd., no âmbito do qual esta entidade adianta o pagamento de parte do valor em dívida para com o clube vendedor, no montante de 2.000.000 Euros, a ser reembolsado pela Sociedade em Julho de 2012. Como remuneração deste acordo, aquela entidade auferirá 10% de uma eventual mais-valia numa futura transacção do jogador»

Walter, um exemplo de
negócio alternativo
Na prática, o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Na prática, os fundos de investimento nunca ficam com direitos económicos dos jogadores; depois, no momento da venda, recebem uma percentagem, além do reembolso do empréstimo. É algo que já se faz por toda a Europa, inclusive na sempre elogiada Inglaterra, e que tanto Benfica como Sporting já praticaram - curiosamente, em ambos os casos com a Doyen Sports. A única coisa que os fundos têm que fazer é declarar anualmente, às Federações de cada país, que não têm direitos económicos dos jogadores. De facto não têm: têm sim direito a uma percentagem de venda futura.

E damos o exemplo da Doyen Sports por causa da sua reacção ao fim da partilha de passes: «Não estamos nada preocupados, já que o nosso modus-operandi não é o TPO (third party ownership). Estamos preparados para isso e por isso é que nosso modelo é tão diferente dos outros». Ora aqui está. A FIFA quer proibir o TPO, mas não pode proibir os fundos. Por isso, a Doyen e outros fundos vão passar a ser financiadores de transferências e não detentores de partes de passes.

As vantagens? Possivelmente nenhuma. A FIFA não vai proibir o TPO com vista a maior transparência. Pelo contrário. Há muito que defendia a regulação e transparência dos fundos de investimento, mas o que vai acontecer é precisamente o contrário: menor transparência em todos os negócios.

Com o TPO, a FIFA tinha um sistema de monotorização que registava qualquer alienação de passes significativa nos clubes cotados em bolsa. Isso vai deixar de existir. Os clubes vão manter os negócios com os parceiros financeiros, mas as suas contrapartidas nem sempre vão ser esclarecidas. Um exemplo.

«A 9 de Março de 2012, a Sociedade celebrou com a For Gool Co. Ltd. um contrato de financiamento no montante total de 4.500.000 Euros. O valor financiado foi entregue em duas tranches (2.500.000 Euros em Março de 2012 e 2.000.000 Euros em Abril de 2012) e será reembolsado de uma só vez em 30 de Setembro de 2012. Este empréstimo vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências até 31 de Agosto de 2012 e dos montantes envolvidos nessas transacções

Um empréstimo que «vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências e dos montantes envolvidos nessas transacções» é demasiado ambíguo. O comum adepto não terá acesso detalhado a este tipo de informação. A FIFA ainda poderá intervir nestes mecanismos, mas até ao momento não há informação nesse sentido. Sabe-se apenas que o TPO vai acabar. A Doyen Sports, por exemplo, chegou a pagar salários do Sporting («dificuldades de tesouraria» é mais soft), conforme disseram em comunicado. Que valores? Que contrapartidas? Boas perguntas.

Em relação ao TPO, vai haver um período de transição, à partida de três anos. Todas as alienações já registadas até ao início da época 2014-15 não sofrerão quaisquer alterações, mas a partir daqui haverá um limite. Resta saber se esse limite será aplicado em relação ao valor das alienações, ou ao número de alienações, ou a ambas. Certo é que a partilha de passes vai acabar, mas a relação entre clubes e fundos não. Porque razão iria a FIFA acabar com um negócio paralelo que move 1.107 mil milhões de euros (número da KPMG)?

A novidade sobre este novo mecanismo de financiamento é que os fundos vão ser bem mais selectivos nas escolhas dos clubes. Clubes em falência técnica, sob reestruturação, fora das competições europeias ou que não valorizem jogadores no mercado vão deixar de ser apetecíveis. Daí que o presidente do rival Sporting, Bruno de Carvalho, esteja tão empenhado em tentar acabar com quaisquer ligações entre clubes e fundos.

Bruno de Carvalho está a tentar salvar o clube da sua própria, chamemos-lhe, «auto-destruição». Enquanto Benfica e FC Porto tiverem acesso ao financiamento com terceiros, o Sporting não conseguirá igualá-los em termos de competitividade. O facto de terem um bom punhado de jogadores da formação está a disfarçar esse grande abismo que há entre um clube e os dois rivais. Mas a longo prazo vão perceber que, em Portugal, são raros os casos em que quem ganha é quem gasta menos. O Sporting está a tentar ser essa raridade. Resultado: em 9 jogos com Marco Silva, ganhou 3, e está já a 6 pontos do primeiro lugar.

Ele sabe porque não se cala
Bruno de Carvalho é esperto, não digo o contrário. Enquanto ele fala, fala, fala e fala, os jornais têm que lhe dedicar tempo de antena, os comentadores têm muito que discutir e os adeptos também. Enquanto se fala sobre Bruno de Carvalho, esquece-se um pouco a pressão sobre o plantel e sobre o treinador. É uma estratégia que não é uma novidade, e que é bem aplicada - mas que só oculta os problemas, não os resolve.

A insistência de Bruno de Carvalho em tentar acabar com a ligação fundos-clubes é precisamente por já ter percebido que, enquanto Benfica e FC Porto tiverem apoios, não vão chegar-se à frente na luta pelo título. Ao rasgar unilateralmente o acordo com a Doyen Sports, Bruno de Carvalho fez com que mais nenhum fundo, em parte alguma do planeta, queira investir ou negociar com o Sporting. Então que faz ele? Tenta retirar a Benfica e FC Porto o que ele próprio já tirou ao Sporting.

Além disso: lembram-se dos 29 milhões de euros que o Benfica teve que pagar em Setembro para poder fechar o fundo do clube? O Sporting terá que fazer uma operação idêntica quando fechar o Sporting Portugal Fund. Não de valores tão superiores, mas as receitas operacionais e a capacidade orçamental do Sporting, sob reestruturação, são muito inferiores às do Benfica. Se a competitividade não cresce, há que tentar retirá-la aos rivais, pois haverá um grande problema para resolver em Alvalade. 

Portanto, podemos contar com muito Bruno de Carvalho nos próximos meses, mais fora do que dentro do relvado. Para sua infelicidade, o FC Porto continuará a ser um clube extremamente apetecível para investidores. Mas como é claro, a SAD deve adaptar-se às restrições da FIFA nos próximos três anos e combater o facto do fim da TPO retirar transparência às alienações de passes. Resumindo, o nosso faro terá que ser mais apurado do que nunca na procura de Mangalas e Brahimis e em saber separá-los dos Walters (com o devido respeito ao jogador).