Não pretendia falar sobre a selecção nacional no blogue, mas aproveito a ordem do dia como ponto de partida para o que o FC Porto pode oferecer à selecção nacional no curto e médio prazos. Passemos à frente do Mundial e da derrota com a Albânia e vamos ao encontro do mito que todos alimentam e que ninguém justifica: «Quem manda é o Jorge Mendes».
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Parte da solução, não do problema |
Para começar, concordo que Jorge Mendes é o melhor empresário português. De longe. E quanto digo isto não é pelas transferências inflacionadas que consegue fazer (óbvio que também ajuda), mas sobretudo por duas competências que teimam em ignorar: 1) é extremamente raro ouvirem algum jogador queixar-se de Jorge Mendes, seja publicamente ou na esfera privada (um dos raros casos será referido mais abaixo), porque é de facto um representante que promete e cumpre; 2) percebe mais de futebol do que muitos treinadores, dirigentes e olheiros. É por isso que chega, muitas vezes, primeiro a jovens promessas do que os clubes. É acima de tudo um empresário completo.
Numa altura em que se discute a saída de Paulo Bento e o desempenho da FPF quanto aos resultados da selecção nacional (ignorando os pipoqueiros, expressão carinhosa, que escangalhavam-se a rir enquanto acenavam os lenços brancos - curiosamente os mesmos que ficaram escandalizados com o sorriso de Pepe após o golo albanês), surgem os iluminados, com vastos conhecimentos privilegiadíssimos e sapientes de bastidores, que deixam o alerta: «Mudar para quê? Quem manda é o Jorge Mendes!» Como O Tribunal do Dragão (desta vez numa espécie de Tribunal da Seleção) tanto aprecia, vamos aos números.
Rui Patrício, Coentrão, Pepe, William Carvalho, Adrien, Miguel Veloso, Moutinho, André Gomes e Ivan Cavaleiro: 9 dos 24 convocados por Paulo Bento para o último jogo são representados por Jorge Mendes. O que significa que a carteira de Jorge Mendes teve um peso de 37,5% nas escolhas de Paulo Bento pós-Mundial, não esquecendo que faltou Cristiano Ronaldo. Ora, dizer que isto é uma convocatória influenciada pelos representados de Jorge Mendes é puro facciosismo.
Há 9 jogadores representados por Jorge Mendes na convocatória. Quase podem ser reduzidos a 8, pois Adrien mantém um conflito com Paulo Bento (o tal que não fecha as portas a ninguém, mesmo esborrachando-as no nariz de vários jogadores ano após ano) desde os tempos de ambos no Sporting, por isso não joga na selecção.
Rui Patrício, opinião, é o melhor guarda-redes português, Coentrão o melhor lateral-esquerdo, Pepe o melhor central e João Moutinho o melhor médio. Fosse qual fosse o empresário, são jogadores que tinham que estar na selecção. Alguma dúvida quanto a isso? Não estão, nem chegaram à selecção por serem agenciados por Jorge Mendes, mas sim por serem os melhores.
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A selecção não deve ser uma incubadora |
No início da época, William Carvalho era o melhor médio-defensivo disponível. Entretanto surgiu Rúben Neves. O menino de 17 anos joga como gente grande, a ponto de muitos adeptos, jornalistas e comentadores terem reclamado que devia ter ido já à selecção. Sinceramente, não me chocou que não tivesse ido. Quando a FPF entregou as pré-convocatórias aos clubes, Rúben Neves tinha três jogos de carreira profissional. Três. Não houve nenhum jogador que tivesse chegado à selecção com apenas 3 jogos de carreira profissional, excepção feita a.... Bruno Vale, o suplente do suplente de Vítor Baía na altura de Scolari (a sua convocatória dispensa comentários).Vai chegar à selecção a seu tempo, de certeza que irá ao Euro 2016 (?), mas ninguém pode ficar chocado por ter falhado esta primeira convocatória (na próxima já será difícil justificar a sua ausência) Fosse como fosse, William Carvalho tinha lugar na convocatória, fosse ou não representado por Mendes.
Sobram Miguel Veloso, André Gomes e Ivan Cavaleiro. Miguel Veloso não está a competir na Ucrânia, portanto o estatuto do jogador pesou. André Gomes, sim, é um produto de Jorge Mendes, sem dúvida. Tem potencial, mas há um punhado de médios que oferecem mais garantias a curto prazo. Jorge Mendes, em parceria com Peter Lim, fez dele um médio de 15 milhões de euros. Aliás, fez dele e Rodrigo uma dupla de 45 milhões de euros, que após descontar as terceiras partes passou a ser de 33,3 milhões, mas que segundo o último relatório e contas do Benfica rendeu, até ao final da época 2013-14, apenas cerca de 4 milhões de euros. Manter quase 30 milhões na rubrica de clientes dava jeito para depois, sei lá, indemnizar (ou «investir», é mais requintado) o fundo do clube. Adiante.
A influência de Jorge Mendes existe, sim, mas sobretudo a nível de clubes. Damos o exemplo de um dos poucos jogadores que rompeu com Mendes: Nani. Nani, quando renovou com o Man. United até 2018, teve a infeliz ideia de deixar Jorge Mendes, reclamando que este só dava atenção a Ronaldo. E a verdade é que desde que renovou... deixou de ser titular no Manchester. Não é suposto que um jogador que renova um contrato de 20 e tal milhões de euros passe a jogar frenquentemente? Um ano depois de ter deixado Mendes, não só foi encostado em Manchester como foi obrigado a fazer o que não queria: voltar a Portugal, ou ficava mais uma época no banco, ainda por cima sem Champions.
No que toca ao FC Porto, Jorge Mendes é um aliado forte na venda de jogadores, como foi o caso de João Moutinho, James Rodríguez ou Mangala. Mas em termos representativos, Adrián López (cujos 11 milhões de euros que custou são tão concretos como os que o Benfica já recebeu por André Gomes) e Quaresma são os únicos atletas por ele agenciados. Além disso, apresentou Lopetegui a Pinto da Costa, uma iniciativa que felizmente correu, ou está a correr, muito bem.
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Parte do problema e o maior problema |
Falámos de Miguel Veloso, falámos de Andrés Gomes, sobra Ivan Cavaleiro. Não mostrou mais no Benfica do que Carlos Mané no Sporting, por exemplo, ou até do que Ricardo no FC Porto. O factor Mendes, aqui, pode ser entendido como decisivo, apesar de ser um miúdo com potencial. Mas numa selecção nacional não se deve convocar potencial, mas sim qualidade para o curto prazo.
Contas feitas, no máximo, para quem se quiser apoiar no mito alimentado de que «quem manda é o Mendes», podem afirmar que Miguel Veloso, Ivan Cavaleiro e André Gomes foram à selecção pelo factor Mendes. São os únicos 3 casos passíveis dessa afirmação. Assim sendo, o factor Mendes parece estar a fracassar... Ora vejamos.
Adrien foi convocado, mas ficou no banco, como já tinha acontecido anteriormente, por causa de um conflito antigo com Bento. Danny? Fora dos convocados por um conflito com Bento. Quaresma? Fora dos convocados por um conflito com Bento. Ricardo Carvalho? Fora dos convocados por um conflito com Bento.
Nomes como André Martins, Nélson Oliveira ou Rúben Micael, que já foram convocados noutros tempos, também são representados por Mendes, mas de nada valeu: quando Paulo Bento risca, está riscado. Paulo Bento não obedece a Jorge Mendes, obedece à sua própria teimosia e incompetência. Quem acompanhou a sua estadia no Sporting pode enumerar mais de uma dúzia de casos de jogadores que tiveram conflitos pessoais com Paulo Bento: Vukcevic, Beto, Carlos Martins, Nani, Liedson, Stojkovic, Sá Pinto, Miguel Veloso, e certamente outros que a memória já não traz. Quem teve culpa, não sei. Mas que Paulo Bento é denominador comum em todos, é facto.
Agora, uma reflexão: o que é pior? Ter uma selecção com Miguel Veloso, André Gomes e Ivan Cavaleiro, ou não ter uma selecção com Ricardo Carvalho, Adrien, Quaresma e Danny? Meus caros, o que está a dominar a selecção nacional não é a carteira de jogadores de Jorge Mendes, é a incompetência de Paulo Bento, que está a tirar mais jogadores à selecção nacional do que aqueles que Jorge Mendes está a oferecer. É só fazer as contas.
O que pode dar o FC Porto à selecção nacional
Não é segredo que há cada vez menos jogadores portugueses a actuarem no FC Porto. O que não é uma coincidência: há cada vez menos jogadores portugueses com qualidade suficiente para jogar no FC Porto. Do 11 que jogou contra a Albânia, quantos tinham lugar no FC Porto de Lopetegui?
Em termos de plantel principal, não sobram muitas opções. Licá, Josué e Varela foram à selecção há um ano, mas entretanto foram todos emprestados. Agora há Ricardo (terceiro guarda-redes no FC Porto e dificilmente a poder sonhar com a estreia na selecção), Ricardito (um jogador à Porto, miúdo cheio de raça e potencial, mas que este ano dificilmente terá mais do que a ingrata missão de «tapa-buracos» - oxalá tenha algum espaço para crescer no médio prazo), Rúben Neves (Paulo Bento não irá ao Euro 2016, mas Portugal ainda pode ir - e se for, Rúben Neves certamente fará parte do elenco) e Quaresma (um dos ódios de estimação de Paulo Bento - curiosamente, houve mais portistas a revoltar-se contra o facto de Quaresma estar no banco do FC Porto do que na bancada da seleção nacional. Haja coerência).
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| Quem falhou? |
Felizmente, há uma nova geração que pode ser aproveitada por FC Porto e Portugal. Dos sub-19 à equipa B, não esquecendo uma geração de juvenis, de Moreto a Rui Pedro, que pode ser riquíssima, o FC Porto tem mais de 20 jogadores que podem marcar presença nos próximos Europeus de sub-19, sub-21 e no Mundial de sub-20. Há soluções para todos os sectores, e para não tornar o texto demasiado extenso não vamos enumerá-las uma a uma. Vários jovens da equipa B e da formação já foram destacados neste espaço, inclusive até Rúben Neves, no primeiro dia de Lopetegui no Olival, quando o seu nome ainda era desconhecido para muitos.
E no que toca ao aproveitamento dos jovens, há um factor importantíssimo. Exemplo: há quem diga que nos últimos 10 anos o FC Porto nada aproveitou em termos de formação, porque nada havia para aproveitar. Uma meia verdade.
Nem é preciso falar de Paim. Falemos de Márcio Sousa, campeão europeu de sub-17 (João Moutinho era o seu suplente), e que podia ter sido o Rúben Neves de Mourinho, pois foi o mais jovem jogador que Mourinho chamou para estágio quando por cá passou. Com 17 anos, Márcio Sousa, ou «Maradona», era um fora de série, um jogador cobiçado por clubes estrangeiros e que era apontado como uma enorme promessa a nível europeu. Dez anos depois, está no Tondela.
O facto de estar no Tondela quer dizer que o jogador não tinha o potencial que se anunciava... ou que esse potencial não foi aproveitado? Não é uma questão retórica, é a segunda hipótese.
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O talento tem que ser trabalhado na raiz |
No que toca a um trabalho da formação, não se pode olhar para Vieirinha, Hélder Barbosa ou Rui Pedro apenas por aquilo que são hoje. Porque muitas vezes, os jogadores não chegam mais alto não por falta de qualidades, mas sim por elas não serem potenciadas e trabalhadas no devido tempo.
Este processo pode falhar por diversos factores: problemas físicos, falta de empenho dos jogadores, opções erradas para as suas carreiras, maus treinadores, má orientação, um misto de tudo, etc. Vieirinha, Hélder Barbosa ou Rui Pedro, só para dar estes 3 exemplos, ou Márcio Sousa, podiam ser hoje jogadores muito melhores do que o são. O potencial estava todo lá, mas por algum factor lá falhou. Não foi por falta de qualidade e potencial, certamente.
Portanto, para saber o que valem os jovens talentos do FC Porto, de Rafa a Podstawski, de Rui Pedro a Gonçalo Paciência, a análise não pode ser feita daqui a 5 ou 6 anos. Isso não importa. O que importa é o potencial que existe hoje e que pode ser trabalhado no imediato. Claro que não haverá espaço para todos, mas todos merecem lutar pelo seu espaço. Em causa não está apenas o bem da selecção nacional, mas sobretudo o do FC Porto e de toda a sua mística e história.