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quinta-feira, 2 de junho de 2016

38 passos para a transparência

Chegou o dia em que O Tribunal do Dragão tem um elogio para a Federação Portuguesa de Futebol. Na verdade, nem chega a ser um elogio, pois não está mais do que a cumprir a sua obrigação, mas tecnicamente, com as novas regras para intermediários de jogadores, cada empresário passaria a ter direito a receber apenas 3% de uma transferência ou 3% do contrato do jogador que intermediasse. Não é isso que se tem verificado na esmagadora maioria dos clubes. 

Com as novas regras da FIFA, todas as Federações passam a estar obrigadas a declarar a que intermediários os clubes pagaram por cada jogador. Só não estão discriminados os valores envolvidos por cada jogador. Era pedir muito, talvez.

De qualquer forma, a FPF já divulgou a lista, que compreende o primeiro ano em análise, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Mas aparentemente isto não foi notícia em nenhum órgão de comunicação social. Não era de interesse público? Sim, é. E por isso cá vai:


Sem surpresa, FC Porto e Benfica são os clubes que mais comissões pagam. O FC Porto é quem mais gasta, com 11,789M€, e o Benfica também supera os 10M€. O Sporting gastou quase um terço do FC Porto no mesmo período, com pouco mais de 4M€. 

Curiosamente, 9 jogadores apareceram no papel de outorgante, contratualizando um total de 65,8 mil euros em comissões. O mais conhecido é Coates, do Sporting.


Esta lista mostra relações entre jogadores e empresários que se desconheciam dos R&C das diversas SAD. No universo FC Porto, que é o que mais importa, destaca-se o facto de terem sido feitos 38 pagamentos diferentes a empresários que trataram de transferências ou renovações de contrato de jogadores do FC Porto.

Por ordem alfabética, Alexandre Zahavi foi o intermediário das renovações de Héctor Herrera e Bruno Costa, dos sub-19. Deco, que agora trabalha próximo de Jorge Mendes, foi o intermediário da renovação de João Graça, um dos melhores da equipa B. Tanto Zahavi como Deco são empresários já conhecidos, mas também surge a intervenção de nomes desconhecidos para o grande público.

É o caso de Ben Aissa Abdelaziz, o intermediário de Marega. Carlo Cutropia trouxe Casillas e a Cantera Latina intermediou Jesús Corona (um exemplo de informação que já se conhecia dos R&C do FC Porto). 

Carlos Gonçalves foi o responsável pela renovação de Gonçalo Paciência e pela vinda de Miguel Layún. Delmenico Maurizio, conhecido parceiro de Luciano D'Onofrio, trouxe Imbula. Edmund Chu, ligado à Vela (empresa do universo Doyen), foi o responsável por Chidozie e Chidera Ezeh. Confirma-se também a intervenção de Paco Casal por Maxi Pereira.

Frank Justin Trimboli, com este nome, só podia ter o intermediário de um jogador: Pablo Osvaldo. Frederico Mathias Moraes intermediou dois brasileiros: a venda de Kléber e a chegada de Ronan, para a equipa B.

Gines Carvajal Seller trouxe Alberto Bueno, Hélio Martins tratou da renovação de Andorinha e a Gopro Sport Management foi responsável pela compra de Víctor García. O empresário João Pedro Cardoso Araújo interveio na contratação de André André e na renovação de Diogo Leite, um dos campeões europeus de sub-17. 

Jorge António Berlanga Amaya esteve envolvido no negócio Gudiño e na contratação de Miguel Layún, ao qual também esteve associado Carlos Gonçalves. 

José Caldeira, além da já conhecida intervenção na renovação de Rúben Neves, também tratou da renovação de outro jovem da formação, Sérgio Ribeiro. José Pedro Silva Maia Pinho, da Energy Soccer (de Alexandre Pinto da Costa), surge aqui como intermediário na vinda de Fede Varela. Já Jussara Mary Silva Correia, da Onsoccer, tratou da renovação de Rafa Soares. 

Kevin Caruana foi o intermediário da vinda de Sérgio Oliveira e Luís Machado esteve encarregado da renovação de Silvestre Varela. Matías Bunge, muito ativo no mercado mexicano, também esteve a cargo do empréstimo de Ismael Díaz. Palmer-Brown, emprestado à equipa B, veio pela mão de Michael Gartland.

Mohamed Afzal, conhecido pela proximidade com Antero Henrique, intermediou a vinda de Aly Cissokho. Oliver Cabrega surge confirmado como o intermediário por Danilo Pereira. Paulo Duarte Dias intermediou Suk e Pedro Regufe trouxe Ayoub do Barcelona. A Proeleven recebeu uma comissão pela cedência de Josué ao Bursaspor. 

Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente. 

Ricardo Rivera também surge confirmado como tendo tido intervenção em Jesús Corona, tal como a Cantera Latina. A terminar, aparece em último lugar da lista a Vela, pela renovação de contrato com Brahimi. 

Uma lista por certo muito incompleta, mas que ajuda um pouco à transparência do nosso futebol, nomeadamente no mercado de transferências.

Para download da lista completa.

PS: Nuno Espírito Santo e a sua equipa técnica já foram confirmados e apresentados no FC Porto. Nada mais resta do que esperar pela pré-época. Até lá há um plantel para (re)construir e uma época para preparar. Não foram declarados objetivos concretos para os próximos 2 anos (ao contrário do que fez José Peseiro quando chegou em janeiro), o que até seria prematuro fazer, tendo em conta todo o trabalho que haverá a desenvolver nas próximas semanas. Como disse Nuno, «Porto é muito mais do que palavras», por isso feitas as apresentações e cerimónia dos habituais lugares-comuns, é tempo de trabalhar, pois agosto já será um mês de grandes decisões. Até lá, continuamos a análise ao plantel de 2015-16 e ao recém-publicado Relatório e Contas do 3º trimestre da SAD

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Voucher Federação

Fernando Gomes vai, sem surpresa, ser reeleito presidente da FPF no início de junho. Quase numa espécie de périplo do futebol português, foi recolhendo apoios dos clubes pouco a pouco. Pinto da Costa questionou, na entrevista do início de abril, e bem, onde fica a Liga no meio de tudo isto: para que serve a Liga, que supostamente representa os clubes, se depois os clubes andam a conta-gotas a anunciar apoios a Fernando Gomes?

Não há que confundir as coisas. Fernando Gomes foi um bom gestor financeiro do FC Porto, que esteve diretamente associado ao ciclo de maior sucesso do clube e ao crescimento da SAD. Já enquanto presidente da FPF, Fernando Gomes tem contribuído para o tratamento marginal que o FC Porto tem recebido, como foi exemplo o ignorar de duas das maiores figuras do futebol nacional durante a Gala dos 100 anos da FPF, José Maria Pedroto e Pinto da Costa. As águas, pelo menos aqui, não se misturam. Apreço pelo homem que foi administrador da SAD do FC Porto, nada de positivo a dizer sobre o presidente da FPF.

Dito isto, aquilo que mais destaca da lista de Fernando Gomes: José Manuel Meirim passa a presidente do CD da FPF e José Fontelas Gomes é o novo presidente do CA. 

Na primeira entrevista do mês, Pinto da Costa disse que não podia apoiar Fernando Gomes, por não conhecer a sua lista. Já na sua última entrevista, o presidente disse isto, a propósito dos sucessores de Vítor Pereira e Herculano Lima: «Não sei quem vai para lá, porque o FC Porto não interfere nem tem nada a ver com isso». Ficou assim conhecida a posição do clube face a este tema na entrada para o novo mandato da SAD.

José Manuel Meirim foi uma surpresa. Era habitualmente o homem a quem a imprensa recorria para comentários sobre a justiça desportiva. Por hábito, poupa-se a considerações pessoais (uma mais valia) e limita-se a tentar interpretar e enquadrar os regulamentos. Agora vai presidir ao Conselho de Disciplina da Federação. Um grande passo, e desejemos que faça o melhor possível pela justiça desportiva. 

Mas recuemos até 2013 e a uma competição que não tem grande apreço por parte do FC Porto, a Taça da Liga. Todos se recordam do caso das 72 horas, a envolver Fabiano, Abdoulaye e Sebá. O CD concluiu e deliberou que o FC Porto não infringiu nenhuma regra. Mas se José Manuel Meirim fosse na altura presidente do CD da Federação, se calhar esta célebre capa do jornal A Bola já teria sido verídica.


Com isto podemos passar para a célebre história dos vouchers. A defesa do Benfica - aliás, de benfiquistas, pois o clube esteve sempre calado em todo o processo - que alternativa lhe sobrava? - insistiu sempre no tal limite de 200 francos, omitindo que esta norma é aplicada pela UEFA às competições europeias, não à liga portuguesa. Já os regulamentos da FPF, esses sim, indicam que só eram admitidas ofertas de valor simbólico e não-comercial. Mas as ofertas do Benfica, conforme foi analisado aqui, tinham valor comercial e não tinham defesa em quaisquer regulamentos. Ora e o que pensa José Manuel Meirim de tudo isto?


Com isto chegamos ao sucessor de Vítor Pereira, José Fontelas Gomes, o protagonista da palhaçada fresquinha, para quem oferecer jantares e artigos de valor comercial aos árbitros é normal, mas ceder material de banho a um árbitro - algo que segundo o CM o FC Porto fez a Artur Soares Dias - já deve ser passível de uma averiguação. Igualmente, Fontelas Gomes também sempre defendeu a prática do Benfica ao longo de todo o processo.

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, praticamente o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:


Fontelas Gomes conseguiu o apoio de ilustres árbitros como João Capela, Manuel Mota, Jorge Ferreira, Bruno Paixão ou Carlos Xistra, e enquanto presidente da APAF habitou-se a condenar publicamente o FC Porto sempre que falava das arbitragens; já sobre os ataques do Benfica, nem uma palavra. Quando João Gabriel disse que o título do FC Porto era um tributo aos árbitros, ninguém da APAF se revoltou; já aquando Pinto da Costa criticou Soares Dias em 2014, Fontelas Gomes levou de imediato as declarações do presidente do FC Porto ao Conselho de Disciplina.

Isto para concluir: José Manuel Meirim e José Fontelas Gomes. O que têm em comum? Ambos já se manifestarem publicamente de forma desfavorável em relação a FC Porto, ao mesmo tempo em que defenderam a legitimidade da prática do Benfica no caso dos vouchers. Condenaram o FC Porto, defenderam o Benfica, agora chegam a dois dos cargos mais importantes do futebol português.

Mas «o FC Porto não tem nada a ver com isso».

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Cuidem da dieta dos delegados

Todo o cuidado é pouco. É tempo de supervisionar e controlar a dieta de todos os delegados que vão votar nas eleições para o novo presidente do Conselho de Arbitragem, após o anúncio da saída de Vítor Pereira. Não há-de algum deles sofrer de uma grande indisposição no dia das votações.

Isto para recordar a forma como Vítor Pereira foi eleito presidente do CA, há quatro anos. Vítor Pereira venceu contra Luís Guilherme por 42-41. Houve um voto nulo e um dos delegados faltou à votação. Tratava-se de José Albano Domingues, delegado de Viana do Castelo, que não ia votar em Vítor Pereira, mas que a meio da viagem para a sede da FPF sofreu um ataque de diarreia e faltou à reunião.

Faça-se a devida homenagem a Bocage: foi graças à merda que Vítor Pereira conseguiu fazer um trabalho de merda nos últimos quatro anos. É quase poético. Mas não há motivos para festejar a saída de Vítor Pereira, sobretudo face aos dois nomes que estão a ser lançados à sucessão: o ex-árbitro Duarte Gomes e o presidente da APAF, José Fontelas Gomes. Começando por avaliar Duarte Gomes.


Duarte Gomes é um assumido benfiquista, ainda que a competência não tenha clube. Foi, por exemplo, o único árbitro dos últimos anos a admitir ter errado num jogo contra o FC Porto (e já lá vão mais de 4 anos desde que o fez, por causa de um penalty por marcar contra o Marítimo). Na altura, causou enorme celeuma no CA, com Vítor Pereira a ficar chocado e revoltado por um dos seus árbitros vir a público admitir que errou contra o FC Porto. Desde então, mais nenhum árbitro se atreveu a fazê-lo.

Duarte Gomes esteve também em destaque na última grande aparição pública de Antero Henrique em defesa do FC Porto: quando, juntamente com Rui Cerqueira, o FC Porto apresentou 15 erros cometidos por Duarte Gomes no clássico frente ao Benfica. É de realçar que, nesse jogo, o FC Porto foi campeão na Luz, mas não deixou de se insurgir contra a má arbitragem; nos últimos tempos, em que não ganha títulos mas tem tantas ou mais queixas face à arbitragem, o FC Porto quase não reage. As pessoas são as mesmas, o clube é diferente.


O historial de Duarte Gomes, o árbitro que assinalou três penaltys em 10 minutos a favor do Benfica em 2011 (e dos quais só um não deixou quaisquer dúvidas), não fica por aqui...





Mas a última entrevista de Pinto da Costa, há um mês, abriu novas perspetivas sobre Duarte Gomes, que decidiu abandonar a arbitragem há um mês. «Duarte Gomes vai abandonar a arbitragem provavelmente a pretexto de uma lesão, mas eu creio que o Duarte Gomes, um indivíduo de grande formação, licenciado em Direito, percebeu como as coisas funcionam, e para não ser amanhã um novo Marco Ferreira decidiu abandonar a arbitragem». Desconhecíamos, no universo FC Porto, tamanha consideração por Duarte Gomes.

Curioso que Duarte Gomes tenha terminado a carreira em janeiro e que já esteja a ser associado à presidência do Conselho de Arbitragem. Faz lembrar Pedro Proença, que também saiu da arbitragem mais cedo para, meio ano depois, ser eleito presidente da Liga. Duarte Gomes já deu uma entrevista ao Expresso este mês, na qual garante que não ambiciona, para já, ser presidente do CA. Mas depois lá diz que está disponível para ceder os seus conhecimentos à arbitragem no futuro.

Curiosamente, Duarte Gomes até já fez as pazes com o... Sporting. Em fevereiro de 2014 o Jornal do Sporting escrevia que recusava este árbitro, por ser um «reconhecido benfiquista que prejudica sistematicamente os seus rivais» (a APAF estava a nanar quando um dos seus árbitros - na verdade, quatro deles - foi difamado desta maneira?). O Sporting foi sempre um clube que protestava perante Duarte Gomes, que nos últimos anos só agradava ao Benfica e a Jorge Jesus.





Mas nada é eterno: curiosamente as pazes, aparentemente, foram feitas na semana passada: 


Mais curioso ainda é que Fontelas Gomes e Duarte Gomes, apontados como os dois nomes candidatos ao CA, tenham estado juntos na mesma visita ao Sporting. Mas é de esperar que o futuro da arbitragem passe por ambos. Em 2011, Luís Guilherme e Lucílio Baptista estavam na lista concorrente contra Vítor Pereira, que foi o eleito. Então, Lucílio Baptista e Luís Guilherme acabaram por passar para a comissão de nomeações, sobre a qual nunca se pronunciam - logo, os supostos rivais de Vítor Pereira foram eleitos para um cargo no qual se abstêm de tudo o que Vítor Pereira possa decidir. Será curioso ver se Bruno de Carvalho também vai falar desta vez em «aliança».

Sobre Fontelas Gomes, foi eleito para a APAF em 2013, em lista única. Foi um árbitro da terceira categoria, mas trabalhou durante vários anos na TAP e tem negócios na restauração (está na moda, portanto). No início de novembro foi protagonista da Palhaçada Fresquinha, na qual, como tantos outros, invocou regulamentos que não se aplicavam ao caso para justificar as ofertas ilegais do Benfica aos árbitros. E José Fontelas Gomes sempre se insurgiu contra o sorteio dos árbitros: ou seja, com ele tudo continuará igual, árbitros escolhidos a dedo. 

De recordar o seu papel na época 2014-15. Quando Lopetegui, o único elemento do FC Porto a contestar as arbitragens, se atreveu a dizer que não podiam ser o árbitros a decidir o campeonato, José Fontelas Gomes ficou ofendido. Curiosamente, a APAF nunca ficou ofendida com nenhuma das afirmações de Jorge Jesus ao longo dos últimos anos, nem quando João Gabriel falou de um campeonato que era «um tributo aos árbitros».

Nos últimos anos nenhum treinador do FC Porto acusou diretamente um árbitro de errar deliberadamente, de querer prejudicar o FC Porto ou beneficiar o Benfica. Jorge Jesus, não raras vezes, proferiu declarações bem mais graves em torno das arbitragens. Mas nunca mereceu nenhum reparo. Limpinho. Descubra as diferenças:



É este o cartão de visita de Fontelas Gomes, que segundo O Jogo e o DN tem apoio do FC Porto para o cargo. É uma piada? Todas as intervenções de José Fontelas Gomes enquanto presidente da APAF foram para atacar o FC Porto, sempre que havia críticas à arbitragem, e defender sempre o Benfica. E se há um ano o FC Porto lutava pelo regresso do sorteio dos árbitros, agora vai apoiar um sujeito que é contra o sorteio!? De realçar que Vítor Pereira disse isto: «Colinho e manto protetor? Estamos habituados a ser bode expiatório dos insucessos». Fontelas Gomes está na mesma linha de discurso: quando o Benfica critica as arbitragens, não reage; quando o FC Porto o faz, tenta logo silenciar o clube e culpa ou o seu treinador ou os seus jogadores.

Duarte Gomes ou José Fontelas Gomes. Um é um ex-árbitro que durante anos não mereceu nada mais do que críticas por parte do FC Porto; outro, enquanto líder da APAF nos últimos dois anos (antes tinha estado no cargo interinamente), legitimou tudo o que aconteceu no passado recente e condenou sempre toda e qualquer crítica do FC Porto.

Se o FC Porto não se demarca destas duas hipóteses, o futuro não trará nada de bom. E quem se conformar com uma destas escolhas não terá moral para contestar qualquer tipo de nomeação nas arbitragens nos próximos anos.

PS: Vários leitores discordaram por completo de que para o FC Porto fosse mais fácil ganhar em casa ao Dortmund do que ao Chelsea em Londres. No seu direito, claro, mas a história do FC Porto diz isso mesmo: em casa contra equipas alemãs, o FC Porto ganhou 10 jogos, empatou 3 e perdeu 4. Em Inglaterra, perdeu 16 e empatou 2. Claramente podem alegar que o plantel do FC Porto estava desfalcado. Mas repare-se que o Dragões Diário diz que o FC Porto jogou com «muitos remendos por causa das lesões». Não, não foi, pois o único titular lesionado era Martins Indi. O problema não eram as lesões, era sim a falta de opções num plantel mal construído e que não foi reforçado em janeiro. E José Peseiro não tem culpa da falta de peças que tem - só pode ser responsabilizado pela forma como estrutura as peças que tem, mas nunca pela falta de qualidade das mesmas. Mas tal como Paulo Fonseca em 2013-14, não tem o melhor plantel à disposição, mas podia ter tentado fazer melhor com o que tinha, pois pouco tinha a perder. 

Ninguém está em condições de exigir títulos a José Peseiro: só se exige que faça o melhor possível. Ninguém pode acreditar que contra o Dortmund tenha sido feito o melhor possível para ganhar pelo menos esse jogo, já que virar a eliminatória era uma utopia. De qualquer forma, o patamar de exigência não pode recuar ao ponto de acharmos que é pedir muito que o FC Porto tente fazer - pelo menos tentar - o que o PAOK e o Krasnodar fizeram este ano: ganharam ao Dortmund na Liga Europa. Esperemos que também não seja pedir muito ganhar ao Belenenses, que também trocou de treinador e apostou numa nova filosofia, e não repetir a vergonhosa exibição da época passada no Restelo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nem na UEFA nem na FPF: prática do Benfica não tem defesa

Serve isto como informação complementar ao último post. A Federação Portuguesa de Futebol já terá entregue o caso das ofertas do Benfica a árbitros ao Ministério Público, que agora se deverá encarregar da investigação. Para começar, mais um dado que dá razão ao FC Porto (e a grande parte dos clubes) na vontade e legitimidade de afastar Vítor Pereira do Conselho de Arbitragem: o presidente do CA, que pertence à FPF, sabia das prendas do Benfica. E nada disse.

Ora se a FPF, após a denúncia de Bruno de Carvalho, decidiu comunicar o sucedido ao Ministério Público, como pode Vítor Pereira manter-se em funções se ele pertence, por inerência, aos quadros da Federação? Vítor Pereira sabia das informações que a FPF considerou merecedoras de investigação. Como é possível manter no controlo da arbitragem um cúmplice silencioso do Benfica nesta prática potencialmente ilícita?

Mais, José Gomes, da APAF, também sabia das práticas. E este terá dito a Pedro Henriques, segundo é escrito hoje n'O Jogo, que nenhum árbitro optou por usufruir das ofertas do Benfica, apesar de as ter recebido. Mau: então se está tudo dentro dos limites, dentro da legalidade, porque é que ninguém quer ir jantar à pala?

Entretanto, continuam a insistir nos regulamentos da UEFA que preveem a possibilidade de lembranças até 200 francos. E convenientemente, omitem a parte em que os regulamentos da FPF reprovam as ofertas do Benfica. Passando a citar:



Ora, o Benfica só pode oferecer presentes sem «valor comercial». Mas verifica-se o contrário: a oferta do Benfica tem valor comercial, e prova disso é que está à venda na loja online do clube a camisola de Eusébio.



Mais. Partindo do princípio de que a camisola de Eusébio custa 59,9€ e que um conjunto de 4 bilhetes para o Armazém de Taças Cosme Damião custa 40€, boa sorte para tentar conseguir uma refeição completa no Museu da Cerveja, para quatro pessoas (Bruno de Carvalho até falava em muitos mais jantares), por 80€, conforme podem avaliar pelos preços no menu. O preço unitário, por refeição completa, nunca é menos de 30/35 euros. Logo os supostos 200 francos de limite, ou valor equivalente em euros, são mais do que ultrapassados.

Por outro lado, as próprias diretrizes da UEFA chegam a uma discórdia semântica. Reparem que a UEFA, no ponto 6 do artigo 4 dos Termos Gerais e Condições para a Arbitragem, definidos em 2003, dizem que os árbitros podem aceitar «recordações do jogo como bandeiras ou réplicas das camisolas das equipas».

Pode ser uma mera discórdia semântica, mas a camisola de Eusébio não é uma recordação do jogo que o árbitro arbitrou. É uma recordação de Eusébio, da história do Benfica. Não é uma camisola que tenha sido usada no jogo (ou uma réplica) que o árbitro arbitrou. Por exemplo, o Nacional da Madeira admitiu que às vezes dá camisolas aos árbitros, tal como o Marítimo. Mas dá camisolas do dia do jogo, de modo a que os árbitros possam recordar aquele dia, aquele jogo, onde foi utilizada aquela camisola. Não oferece uma réplica de uma camisola com 50 anos, que ainda por cima está à venda pelo clube por quase 60 euros.

O Ministério Público só tem a fazer uma coisa: encontrar provas de que o Benfica oferece, de facto, este kit aos árbitros. Como já várias personalidades ligadas ao clube, ou com conhecimento de causa, admitem que sim, então caso encerrado, pois nem os Termos Gerais e Condições para a Arbitragem da UEFA, nem as Normas e Instruções para Árbitros da FPF defendem a prática do Benfica. Pelo contrário, é ilegal.

PS: Conforme era previsto aqui, o Benfica vai ficar caladinho, à espera que a chuva passe, pois sabe que não tem como se defender e a única esperança é ver Bruno de Carvalho dar mais um tiro no pé. Mas a versão oficial passada ao jornal A Bola é simplesmente hilariante e capaz de fazer corar qualquer benfiquista: «Demasiado baixo para ter resposta». Diria, isso sim, «demasiado apertado para se atrever a abrir a boca».

PS2: Notem o pânico da TVI/PRISA/Media Capital a tentar apagar todos os vídeos do Youtube do último programa. Tem piada, as palhaçadas virais de Manuel Serrão, inclusive críticas com tom algo inapropriado a Lopetegui, continuam todas online e nunca ninguém se importou de reclamar direitos de autoria. Com as denúncias de Bruno de Carvalho ao Benfica, por incrível coincidência, os vídeos não duraram muito tempo online. 

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sporting e Alvalade têm oito letras. Vergonha também

Jornal A Bola, 04-04-2015
Quando o jornal A Bola é, aparentemente, o único a relatar um pouco do que aconteceu no dia 3 de Abril em Alvalade, algo de errado por aí vai. O FC Porto ganhou por 2x1 em Alvalade, com dois golos de Leonardo Ruiz. Até aqui tudo normal, dentro do relvado houve um mínimo de fair-play, mesmo tendo o FC Porto dado a volta ao marcador já perto do final. Lamentável foi o que passou nas bancadas.

Os adeptos do FC Porto em Alvalade, na sua maioria familiares e amigos próximos dos jogadores, celebraram normalmente o segundo golo de Leonardo e entoaram cânticos de apoio à equipa. Reparem que eram maioritariamente pais, familiares, namoradas e amigos próximos dos jogadores. Não era uma claque, onde há sempre trocas de bocas e cânticos.

Mas do lado do Sporting havia claque, cerca de 2500 adeptos. E assim que Leonardo faz o 2x1, resolveram começar a preparar o cerco aos adeptos do FC Porto - apenas 30, diz A Bola. A claque oficialmente reconhecida pelo Sporting, que dá guerrilhas entre skins, casuals, extrema-direita e etc., começou a provocar as poucas dezenas de portistas, que não fizeram outra coisa em todo o jogo que não apoiar a equipa, excepção feita a pelo menos um portista que de facto reagiu a provocações. E a polícia que estava na zona é testemunha disso mesmo.

Uma rapariga adepta do FC Porto teve um ataque de asma e foi de imediato assistida. Julgava-se que os delinquentes iriam se afastar. Mas não, continuaram a fechar o cerco. Ameaças de agressões e tentativas de roubo, desde telemóveis a sacos com adereços do FC Porto.

Até que a mãe de um dos jogadores do FC Porto foi agredida, pelo simples facto de ter um cachecol do FC Porto ao pescoço. Segundo os selvagens lá da casa, isso não era admissível. Então um grupo de adeptos de Lisboa tentou defender a senhora, mas a única coisa que aconteceu foi também apanhar e um deles, segundo o próprio, ficar sem um telemóvel de elevado valor.

Tantos títulos quanto coerência
Durou cerca de 45 minutos o cerco aos adeptos do FC Porto e foi necessário pedir reforço policial para que pudessem sair do estádio. Mais: a mulher e o filho do treinador de sub-19 do FC Porto tiveram que ser escoltados até ao hotel. Não fosse a intervenção policial e o que aconteceu poderia ter tido outras dimensões.

De certeza que a maioria dos adeptos do Sporting não se revê no que aconteceu, e o mesmo se aplicaria se fosse o contrário. Se há algo que não se deve fazer é confundir adeptos com clubes, porque a cor clubística não cria ou inibe um arruaceiro. Que pode ajudar, pode, sobretudo quando os próprios dirigentes contribuem com achas para a fogueira. Mas fica forçosamente a questão: porque é que provavelmente a maioria dos adeptos não ouviu falar do que se passou em Alvalade?

Em Outubro de 2013, um grupo de adeptos casuals do Sporting varreram a Alameda das Antas, semeando o pânico entre crianças, idosos e demais adeptos. Como ali havia elementos de uma claque do FC Porto, já tiveram a resposta. O MP acusou 87 arguidos, 81 dos quais pertencentes ao tal grupo de casuals delinquentes, que não merecem outro nome. Mas aquilo que um dos jornais portugueses mais vendidos, no caso o Record, conseguiu ver acima de tudo foi que o líder dos Super Dragões estava lá pelo meio.


Agora, sobre o ataque a familiares e adeptos do FC Porto, que não são elementos de claques nem participaram em guerrilhas com adeptos do Sporting, nem uma palavra. Depois do ataque à Alameda das Antas, o Sporting, numa resposta ilustrativa do carácter do seu presidente (a voz que diz representar o clube, não é?), decidiu deturpar o que se passou e acusou os adeptos do FC Porto de agredirem sportinguistas.

A saber: «Ao invés do clube da casa repudiar totalmente estas atitudes, como esta Direção já o fez em situações similares, começou a circular um rumor de que um grupo de sportinguistas teria provocado desacatos, facto ainda não confirmado, que “justificaria” tais atitudes bárbaras e inqualificáveis.»

Ora o MP acusou formalmente 81 arguidos que, não tendo adereços do Sporting à vista, possuíam tatuagens que denunciavam a preferência clubística, entre outros objectos e confissão dos mesmos. Mas o que Bruno de Carvalho viu foram os coitadinhos dos bandidos a serem agredidos. E agora, Bruno de Carvalho? Que tem a dizer sobre o que se passou em sua casa? Ou será que não se pode tocar na Juve Leo? Vocês sabem lá... Sabemos, sabemos. A coisa não está fácil. Tanto mistério e milhas acumuladas para encontrar um investidor e a resposta chama-se... Novo Banco, que recrutou um reforço de peso, chamado José Eduardo Bettencourt. Que original, mas é tema para depois.

Onde está o inquérito/processo disciplinar ao que se passou em Alvalade, num jogo da formação que se considera a melhor da Europa? É que o regulamento é bem claro.


Este braqueamento que está a ser feito - e O Tribunal do Dragão agradece desde já a contribuição de quem pôde testemunhar o que se passou - é sim um dos mais graves e vergonhosos casos dos últimos anos do futebol português. Não houve uma guerra de claques, entre adeptos que se odeiam mutuamente. Houve um ataque a familiares de jogadores do FC Porto.

E por isso fica a pergunta: onde está a resposta do FC Porto a isto? Onde está o clube a reivindicar o direito (e dever!) de exigir que a claque e o próprio Sporting, que assobia para o lado pela vergonha que se passou em sua casa, ser castigado? Já houve comunicados/declarações a reagir a jornais, a cascar pela enésima vez na FPF, até mesmo a compilar um manual de boas maneiras para viscondes que muitos elementos da Juve Leo se esqueceram aparentemente de ler. Mas nem uma palavra sobre isto!?

São familiares de jogadores do FC Porto, os jogadores do futuro do FC Porto, que estão em causa! Agredidos, ameaçados, atacados em casa de um rival, num clube com um presidente que tem estado à margem de todas as tentativas de consenso no futebol português, que cortou unilateralmente relações com os dois maiores clubes portugueses e se tem dedicado a ataques institucionais e pessoais ao FC Porto.

Uma direção não pode ignorar a
defesa do seu bem mais precioso
Como se justifica que ninguém da direção do clube ou da SAD tenha reagido publicamente ao que se passou!? Isto é um caso sem paralelo no futebol português nos últimos anos, e está simplesmente a ser abafado/ignorado. Bruno de Carvalho cortou relações com o Benfica por causa de uma tarja (de muito mau gosto, diga-se). Uma tarja. Então que faz ele perante este incidente imensamente mais grave? Nada. Rende-se à sua hipocrisia.

Mas o que será mais grave? A Liga, a FPF, o Sporting e as próprias autoridades ignorarem o caso? Ou o FC Porto nada fazer para defender os familiares dos seus profissionais? Este é, infelizmente, um reflexo perfeito do que tem sido a Liga Aliança. Temos todas as razões de queixas, mas pouco temos feito na defesa dos superiores interesses do FC Porto (e falar na primeira pessoal do plural não faz justiça a todos). Só que neste caso não está em causa apenas mais um campeonato. Está em causa a segurança de pessoas apaixonadas pelo FC Porto. Títulos ganham-se e perdem-se todos os anos. Adeptos ficam para sempre. Mesmo quando o clube nada faz para os defender.

Um muito obrigado aos adeptos que foram a Alvalade e apoiaram de forma mais uma vez determinante os sub-19 do FC Porto, que são líderes isolados na fase final do campeonato. Mereciam muito mais que isenções de quotas.

PS: Fernando Gomes, presidente da FPF, foi à Assembleia da República. Um dos temas da audição foi a credibilidade do futebol português. Estão pasmem-me com a resposta que Fernando Gomes deu à Liga Aliança: ah, não deu resposta, pois também ninguém lhe perguntou nada. Como é possível que numa audição para atestar a credibilidade do futebol português ninguém fale sobre a manipulação de resultados proposta pelo presidente do clube com mais adeptos/contribuintes em Portugal? Mas uma vez mais, aqui sim o FC Porto tinha razões de sobra para questionar Fernando Gomes, a FPF e até a AR. Não o fez, então será que nos podemos mesmo queixar?

sexta-feira, 27 de março de 2015

Profissão: intermediário de jogadores

És menor de idade? Não tens formação ou qualificação em nenhuma área? Já tens cadastro criminal? Nada temas, rapaz. O dia 1 de Abril de 2015 será um bom dia para ti, pois é o dia em que nada disto te impedirá de passares a ter uma profissão que te dá milhares de euros num curto de espaço de tempo, com pouco ou nenhum trabalho: intermediário de jogadores.

Um presentinho
Vai abrir-se uma nova era: acabaram os agentes de jogadores. A partir de 1 de Abril, a FIFA passa a reconhecer nos estatutos os «intermediários de jogadores». Quer isto dizer que a partir de agora qualquer pessoa pode participar em transferências de jogadores. Não é preciso licença, exame, garantia bancária ou registo criminal. Nada. Basta aparecer no dia em que o contrato do jogador é assinado, depositá-lo na Federação com a assinatura do representante intermediário, e está feito. Não precisamos de voltar a ver o jogador na vida - e nem é preciso tê-lo visto antes.

Em Portugal, oficialmente há cerca de 70 empresários de jogadores. Têm licença, fizeram exames, têm carteiras de jogadores. Mas a FIFA notou que havia um grande problema: grande parte das pessoas que participavam nas transferências de jogadores eram sujeitos «comuns», sem licenças. Segundo a Associação Europeia de Clubes, no espaço de 4 anos só 5,5% de agentes licenciados participaram em transferências em clubes europeus. A uma escala global, cerca de 25 a 30%. Por isso é que se consultarem esta lista, que é a lista oficial dos empresários licenciados na FPF, vão notar que falta aqui muita gente de quem certamente já ouviram falar.

Então a FIFA entendeu que o sistema de licenciamento de empresários não funcionava. Então em vez reformar ou mudar de sistema... acabou com o licenciamento. A partir de 1 de Abril, deixa de haver empresários licenciados. Qualquer pessoa pode participar numa intermediação de uma transferência. A FIFA reconhecia cerca de 6000 empresários licenciados. Agora estes números multiplicam-se incalculavelmente.

Fácil, barato, dá milhões
Porque é que isto é grave? Por mais sanguessugas ou mal-intencionados que alguns empresários possam ser, muitos deles acompanhavam a carreira de jogadores desde pequenos. Os empresários (alguns) são mais do que homens de negócios, são também olheiros, tutores e conselheiros. Muitos deles acompanham miúdos que «tiram» de famílias humildes até chegarem a grandes carreiras. A partir de agora, não é necessário fazer acompanhamento nenhum (já não o era, mas agora este fenómeno tem tudo para se propagar), nem ter carteira de jogadores, nem sequer conhecer o jogador. Basta aparecer, rubricar e receber o cheque. Vai haver cada vez mais gente simplesmente interessada em receber a sua comissão do que em acompanhar o crescimento do jogador.

Esta é a parte (muito) má. Há outra que tem tudo para ser uma (muito) boa notícia para os clubes: os novos limites aplicados às intermediações/comissões. O Regulamento de Intermediários de Jogadores que entra em vigor diz que qualquer pessoa singular ou colectiva (também esta uma nova alteração) só pode receber 3% do valor da transferência numa comissão ou 3% do valor total dos salários brutos que o jogador tenha a receber. E uma notícia ainda melhor: os intermediários não podem receber dinheiro com contratos com menores de idade (vai estar tudo a bombar com Europe no MP3 até chegar ao 18º aniversário. It's the final countdown, turururu).

A percentagem que pode mudar
tudo para melhor
São excelentes notícias, mas infelizmente a FIFA não dá cerejas vermelhinhas sem caroços podres. A FIFA abriu as portas do negócio do futebol a qualquer sujeito, dos mais variados (des)interesses. A boa notícia é que, apesar de qualquer um poder entrar, só tem direito a sair com 3% no bolso. Tendo em conta que as intermediações médias nas Ligas Europeias são de 14,5% (mais conservador do que possa parecer), é uma medida que vai disciplinar os clubes, reduzir os custos forçosamente. Porque aumentar os custos das transferências e os contratos dos jogadores só para a proporção dos 3% subir dava uma trabalheira nada sustentável.

O problema está na ambiguidade dos 3%, pois os regulamentos da FIFA não são esclarecedores e cada Federação terá margem para uma flexibilidade na sua gestão. Por exemplo, na Federação Inglesa já vemos que todos os interessados em ser intermediários vão ter que ter atestados de boa reputação, testes de carácter, documentação completa e vão ter que pagar taxas. Ora e em Portugal? Que esperar da Federação Portuguesa de Futebol, cujo presidente acabou de ser o mais votado para o Comité Executivo da UEFA? Nada. Nem uma palavra. Teve que ir Artur Fernandes, da ANAF, para a RTP para se ouvir alguma coisa.

Há ainda os conflitos de interesse. Aliás, não há. Acumular um cargo com o papel de intermediário que gere um conflito de interesse passa a ser admissível, desde que a terceira parte assim o aceite. Ou seja, os empresários (seja em título ou actividade) podem ter interesses em transferências que envolvam terceiras partes e que os beneficie, a eles ou a outrem, desde que estejam todos de acordo. Luz verde para empresários que colaborem com fundos que têm percentagens de passes de jogadores que representem (aqui o semáforo ainda pode fechar).

Apesar desta ambiguidade nos 3%, para terminar há outra óptima notícia: segundo o regulamento as Federações vão passar a estar obrigadas, anualmente, a publicar o nome de todos os intermediários registados, a que jogadores estiveram associados e as quantias. É um excelente passo para a credibilidade e transparência nas transferências de jogadores à escala mundial. Tão bom que se recomenda uma série de alongamentos. Não vá haver cãibras antes do passo ser dado.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um colinho que até atropelou os regulamentos da FIFA

Este é um novo tipo de colinho. O colinho que faz com que profissionais sem provas dadas cheguem onde só deveriam chegar os melhores. O colinho que pula as necessárias demonstrações de competência para conferir um estatuto de elite a quem só tem dado provas do contrário. Com isto chegamos a Tiago Martins, um jovem árbitro na ordem do dia, que tem sido muito criticado por adeptos do FC Porto.

Caros portistas, é hora de fazer mea culpa e reconhecer que estamos perante um valor de elite da arbitragem. Tiago Martins é não só uma promessa da arbitragem portuguesa como também a nível mundial. É tão bom que reparem que o Conselho de Arbitragem decidiu atropelar os regulamentos da FIFA e levar dois jovens árbitros ao colinho até ao estatuto de árbitros internacionais.


Este é o regulamento da FIFA para o licenciamento de árbitros internacionais. E diz que todos os árbitros «devem ter arbitrado regularmente na principal divisão do seu país durante pelo menos dois anos». Ora à data em que foi promovido, Tiago Martins tinha... dois jogos na primeira liga. Bem, dá a média de um jogo por ano, deve dar para passar. Portugal é o único país que promove árbitros estreantes na primeira categoria a internacionais.  Os navegadores devem estar orgulhosos com este pioneirismo.

Mérito: zero
Tiago Martins, da Associação de Futebol de Lisboa e filho de um ex-árbitro bem conhecido de Vítor Pereira, só chegou este ano à primeira categoria, por isso foi promovido contra aquilo que consta dos estatutos da FIFA. Ainda não arbitrou um único jogo de Benfica, FC Porto e Sporting na primeira liga e já é um árbitro internacional.

Isto torna-se ainda mais interessante sabendo quem era o principal favorito a ser promovido a internacional: Manuel Oliveira, do Porto. Um árbitro com quem curiosamente os 3 grandes nunca perderam pontos. Mas por milagre da santa, decidiram promover um árbitro que em Maio andava a apitar jogos dos juniores (!!!). Qual é a lógica? Bem, garante-se que assim a APAF continua a ter o dobro de árbitros internacionais de Lisboa em relação aos do Porto.

Diz o Conselho de Arbitragem que Pedro Proença também era jovem quando foi promovido. Tinha 32 anos,  recordam. Que bela desculpa esfarrapada, pois Pedro Proença já levava 5 anos de primeira categoria a arbitrar quando foi promovido. Tiago Martins? Ainda nem um jogo grande arbitrou. 

Para já, é isto que temos de amostra:
22-03-2014, OJOGO
25-02-2015, OJOGO (Oriental 3 x 0 FC Porto B)
28-01-2015, OJOGO (Taça da Liga)
Porque os mais pequenos também têm o direito de se queixar e serem ouvidos
É este o trabalho que o jovem internacional Tiago Martins tem apresentado em Portugal. Claramente, está a merecer um joguinho grande na primeira liga muito em breve, aí nas próximas 2 ou 3 jornadas. Place your bets.

Mais. O excelentíssimo Tiago Martins já arbitrou 5 vezes o FC Porto B. E o FC Porto B não ganhou nenhum desses jogos. Perdeu 4 e empatou 1. Foi culpa do árbitro? Seria demagogo afirmar isso. Mas que é um belo currículo, lá isso é. Sobretudo tendo em conta que o Sporting B ganhou todos os jogos com ele (3/3) e o Benfica B ganhou 2 e perdeu 1.

Além de Tiago Martins, também Fábio Veríssimo foi promovido sem qualquer experiência e provas dadas. Fun fact: em Novembro apitava nos distritais. Um mês depois, foi promovido a árbitro internacional, também em detrimento de Manuel Oliveira. O currículo com o FC Porto B também é promissor: em 4 jogos, apenas uma vitória.

Sistema de nomeações sem critério, promoção a internacionais sem justificação lícita e contra as normas da FIFA, árbitros que tombam a balança dos erros para o mesmo lado, árbitros que só servem para arbitrar alguns clubesum CA e uma FPF que continuam a assobiar para o lado, e ainda um presidente do CA que prefere passar uma manhã inteira no Seixal, na calorosa companhia de Luís Filipe Vieira, em vez de dar a cara por todas estas situações enumeradas. Bem vindos ao futebol português, ou como alguém disse, à Liga Wrestling: todos sabem que é a fingir, mas continua a entreter muita gente e há quem ache que é real.

Substituir «Wrestling» por «futebol português»
Senhor Vítor Pereira e demais vices e vogais do Conselho de Arbitragem: façam um favor ao futebol português, o que resta dele, e demitam-se.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mudanças necessárias e escolhas por catálogo encarnado

A parte mais relevante e pertinente da entrevista de Pinto da Costa ao jornal O Jogo está na questão das nomeações. Não coloca em causa o valor e o desempenho dos árbitros, como estava perfeitamente no direito de o fazer, mas sim os critérios para as nomeações. Vale a pena citar.

«O mal não está nos árbitros, está no critério das nomeações. Repare que chegámos ao final da primeira volta e o senhor Manuel Mota tinha arbitrado três jogos do FC Porto. Três! E havia vários internacionais que não tinham apitado nenhum. Parece-me um critério difícil de justificar, para dizer o mínimo. Aliás, já pedi uma justificação para isto e não ma deram. Depois, há jogos como um Vitória de Guimarães x FC Porto, um Vitória de Guimarães x SC Braga, um SC Braga x Benfica ou um Sporting x Vitória de Guimarães. São jogos que devem merecer a escolha dos árbitros que possam dar mais garantias. Repare que o Vitória de Guimarães x FC Porto da primeira volta foi disputado numa altura em que os dois clubes era líderes, com 9 pontos. Portanto, a priori, deveria ter sido escolhido um dos árbitros mais conceituados. Ora, o árbitro desse jogo foi justamente o senhor Paulo Baptista, que tinha descido de divisão. Um mês ou dois antes do jogo, ele desceu de divisão. (…) À quarta jornada, o árbitro que desceu e foi repescado e ficou acima da linha de água foi apitar o jogo entre dois líderes do campeonato. Qual é o critério de uma escolha destas? É por isso que sou um defensor de um regresso a um sorteio condicionado. Se houvesse sorteio, naturalmente já teríamos sido apitados por árbitros internacionais e o senhor Manuel Mota não teria feito, em meio campeonato, três jogos nossos».

O porquê do SLB querer
a nomeação directa
E então Pinto da Costa sugere um regresso ao passado: sorteio. Uma ideia que merece todo o apoio e que faz todo o sentido. Ao fim de quase ano e meio de profissionalização da arbitragem, a única coisa que se conseguiu foi que Rui Santos, o dono do espaço de opinião que mais vezes associou o mérito desportivo do FC Porto (47 troféus em 25 anos - um arquivo bem modesto) aos bastidores do sistema, dissesse isto.

Já não se trata de questionar a qualidade dos árbitros, mas sim as nomeações. Quais são os critérios? Toda a análise de Pinto da Costa é sustentada e pertinente. Sim, o regresso às nomeações já a partir de 2015-16 deve ser defendido. Sobretudo porque não hão-de faltar vozes a insurgir-se contra isto.

A saber. A Liga decidiu avançar para a nomeação directa em 2003. Decisão aprovada pela maioria, mas alguns clubes rejeitaram. Casos de FC Porto, Sporting e Guimarães. O Benfica apoiou a nomeação directa. Durante dois anos, as nomeações eram sistematicamente questionadas, por isso em 2005 voltou a propor-se o regresso ao sorteio. Só um clube queria continuar nas nomeações directas: o Benfica (o Beira-Mar não votou na altura por estar em mudança directiva). Algo que ajuda a explicar a faculdade de Luís Filipe Vieira ter podido escolher um árbitro por catálogo no processo Apito Dourado, em 2004, para uma meia-final da Taça de Portugal. Ao menos que tenha tido a cortesia de oferecer pequeno-almoço ao major.

Na altura, a nomeação directa tinha uma vantagem: era possível nomear os melhores árbitros para os maiores jogos. Era suposto os árbitros melhor classificados serem premiados com as nomeações para os clássicos, os derbys e os jogos que interferissem na luta pelo título e nas qualificações para a UEFA. Ora o que se vê, conforme é dito por Pinto da Costa, é que esse critério deixou de existir. A nomeação directa deixou de fazer sentido a partir do momento em que não há critério lógico para os grandes jogos.

O que se vê são árbitros não internacionais que apitam 3 vezes um grande na mesma volta. Árbitros que nos últimos 3 anos só arbitraram 1 dos 3 grandes e, coincidentemente, quase só são chamados para jornadas de alta dificuldade (ler mais aqui), ou árbitros que basta serem uma vez condenados publicamente por um dirigente de um grande e desaparecem do mapa das nomeações para esse clube. Isto aplica-se a todos os árbitros, a todos os clubes. Se um árbitro não serve para arbitrar um determinado clube, então não devia servir para arbitrar nenhum jogo.

Além da nomeação directa ter perdido a sua lógica, não há justificação possível para o facto de Tiago Martins ter sido promovido a árbitro internacional sem nunca ter arbitrado os 3 grandes. E logo na primeira amostra, na Taça da Liga no Dragão, mostrou porque é que há um ano estava na segunda categoria, não porque chegou a internacional. Não faz sentido nem há justificação possível.

Capela: há 1080 minutos sem sofrer
João Capela, árbitro com quem o Benfica nunca perdeu e com quem em 12 jogos nunca sofreu golos (não há-de faltar muito para bater o recorde de Mazaropi), foi nomeado para arbitrar numa jornada extremamente importante na luta pelo título. O 18º árbitro do ranking da época passada a arbitrar uma reedição do jogo onde o Benfica, em 2012-13, começou a deixar escapar o título. Qual o critério do CA da FPF?  

Porque é que foi nomeado um dos piores árbitros de 2013-14 para arbitrar o Benfica quando Jorge Sousa ou Marco Ferreira, dos melhores do ranking da época passada, vão arbitrar jogos de equipas que lutam para não descer? Onde está o critério da nomeação directa que defendia os melhores árbitros para os maiores jogos?

Artur Soares Dias foi nomeado para o FC Porto x Sporting. Já arbitrou as duas equipas esta época e fez globalmente boas arbitragens nos dois jogos anteriores entre FC Porto e Sporting. Esta foi a apreciação feita pelo painel do jornal O Jogo antes do clássicos anteriores:

18-04-2011 (FC Porto x Sporting, 3-2)

Os únicos erros apontados por unanimidade por Jorge Coroado, Pedro Henriques e Paulo Paraty são um fora-de-jogo mal assinalado a Varela e uma falta mal assinalada sobre Helton num choque com Guarín. Nada com interferência no resultado.






28-10-2013 (FC Porto x Sporting, 3-1)

O único erro apontado por Jorge Coroado, Pedro Henriques e José Leirós é um cartão amarelo mal mostrado a Iván Piris.






Ideal? Não, mas este curto historial, juntamente com uma classificação minimamente aceitável em 2013-14, ajuda a justificar a nomeação directa. No jogo do líder, que será um enorme interessado no resultado do clássico, não. Então se a lógica de nomear os melhores árbitros para os melhores jogos não é cumprida, que se regresse ao sorteio.

Como é claro, não se pode misturar todos os árbitros da primeira categoria no mesmo pote. Há que criar um sorteio condicionado, senão tanto podia aparecer Pedro Proença, o melhor árbitro português e agora retirado, como Bruno Paixão, que foi 20º há um ano. 

A solução proposta é criar escalões dentro da primeira categoria. Não se pode dividir entre internacionais e não internacionais, pois a promoção de Tiago Martins mostra que chegar a internacional não implica demonstrações prévias de competência nem experiência em jogos grandes.

Portanto, criar 3 ou 4 escalões (jogos de interferência em liderança/luta pelo título; jogos de competições europeias e metade superior da tabela; jogos entre equipas sem candidatura ao título ou à Europa) para os árbitros de primeira categoria, para condicionar o sorteio, seria o ideal. 

A mudança deve começar aqui
E para precaver o risco de árbitros com desempenho negativo serem sistematicamente nomeados, por sorte/azar, para o mesmo clube? Condicionar a repetição de nomeações, isto é, não permitir que árbitros que tenham tido uma nota anterior inferior a determinado valor (3,5 seria o ideal) possam ser nomeados para arbitrar a mesma equipa mais do que 2 ou 3 vezes na mesma época. A classificação final da época ajudaria a definir se os árbitros baixam ou sobem dentro do mesmo escalão da primeira categoria.

E o sistema de observações? Tempo de passar a incluir as imagens televisivas? Para quem não sabe, os observadores não avaliam os árbitros em função das imagens de TV. O sistema é simples: logo no fim do jogo, têm cerca de uma hora para enviar um SMS a Vítor Pereira ou ao representante secundário do CA com a nota para os árbitros, de 1 a 5.

Como a maioria dos erros graves (sobretudo os foras-de-jogo) só são perceptíveis a partir da TV, isso implica que os árbitros possam continuar a ter boas notas mesmo em jogos onde há erros graves de arbitragem, como vitórias por 1x0 a acontecer com um golo em fora-de-jogo. Isto desvirtua o sistema de avaliações. Há que criar um mecanismo para impedir que o mesmo assistente esteja associado a um acumular de erros neste tipo de avaliações, sobretudo porque grande parte dos erros de arbitragem são cometidos pelos auxiliares. Exemplo da ignorância que isto pode implicar é adeptos benfiquistas culparem Pedro Proença pelo clássico de 2011-12, quando na verdade o erro do golo de Maicon é de um auxiliar, não de Proença.

E acima de tudo, há que perceber que anular mal um golo por fora-de-jogo é mais grave do que validar um, isto porque as directrizes dizem que em caso de dúvida há que beneficiar a equipa atacante (isto é sempre ambíguo, porque na hora de decidir o árbitro tem que estar convicto da sua decisão, não ter dúvidas em função do estádio ou da cor da camisola). E enquanto adeptos de futebol, queremos golos e aceitamos o erro como parte deste desporto. Só não aceitamos o acumular de erros para o mesmo lado e a isenção face a tal. 

Avaliar o desempenho dos árbitros através da TV será sempre ponto de discórdia. Mostrem a mesma imagem a um benfiquista, a um portista e a um sportinguista e cada um deles vai ver uma coisa diferente, mediante o lance seja em benefício ou prejuízo para o seu clube. Mas se os erros só são detectados através da TV e os árbitros são avaliados em função da sua própria perspectiva e não em função das imagens, o sistema de avaliação demonstra que é tempo de uma reforma. Reforma essa que rima com Vítor Pereira e com os demais membros do Conselho de Arbitragem da FPF - que ironicamente tem a pasta da arbitragem, mas acha que ainda não foi pertinente reagir ao desvirtuar da competição esta época pelos senhores da bandeira e do apito. A utilização dos vídeos seria pertinente. Claro que Luís Filipe Vieira vai discordar, pois o Benfica votou contra esta proposta na mesma reunião em que era pedido o regresso do sorteio.

Que esta seja a única vez que é necessário falar de arbitragem até ao final da semana (até ao final da época já era pedir demasiado).

PS: O Record diz que a CII da Liga abriu o inquérito à manipulação de resultados proposta pelo presidente do Benfica ao presidente do Sporting, segundo disse Bruno de Carvalho. Num curto espaço de horas, José Eduardo Moniz e João Gabriel saem da toca e tentam de imediato desviar atenções para o FC Porto. Calma, meus senhores, não há motivos para estarem nervosos. Ou há?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A selecção de Jorge Mendes e o futuro dos jogadores portugueses

Não pretendia falar sobre a selecção nacional no blogue, mas aproveito a ordem do dia como ponto de partida para o que o FC Porto pode oferecer à selecção nacional no curto e médio prazos. Passemos à frente do Mundial e da derrota com a Albânia e vamos ao encontro do mito que todos alimentam e que ninguém justifica: «Quem manda é o Jorge Mendes».

Parte da solução, não
do problema
Para começar, concordo que Jorge Mendes é o melhor empresário português. De longe. E quanto digo isto não é pelas transferências inflacionadas que consegue fazer (óbvio que também ajuda), mas sobretudo por duas competências que teimam em ignorar: 1) é extremamente raro ouvirem algum jogador queixar-se de Jorge Mendes, seja publicamente ou na esfera privada (um dos raros casos será referido mais abaixo), porque é de facto um representante que promete e cumpre; 2) percebe mais de futebol do que muitos treinadores, dirigentes e olheiros. É por isso que chega, muitas vezes, primeiro a jovens promessas do que os clubes. É acima de tudo um empresário completo.

Numa altura em que se discute a saída de Paulo Bento e o desempenho da FPF quanto aos resultados da selecção nacional (ignorando os pipoqueiros, expressão carinhosa, que escangalhavam-se a rir enquanto acenavam os lenços brancos - curiosamente os mesmos que ficaram escandalizados com o sorriso de Pepe após o golo albanês), surgem os iluminados, com vastos conhecimentos privilegiadíssimos e sapientes de bastidores, que deixam o alerta: «Mudar para quê? Quem manda é o Jorge Mendes!» Como O Tribunal do Dragão (desta vez numa espécie de Tribunal da Seleção) tanto aprecia, vamos aos números.

Rui Patrício, Coentrão, Pepe, William Carvalho, Adrien, Miguel Veloso, Moutinho, André Gomes e Ivan Cavaleiro: 9 dos 24 convocados por Paulo Bento para o último jogo são representados por Jorge Mendes. O que significa que a carteira de Jorge Mendes teve um peso de 37,5% nas escolhas de Paulo Bento pós-Mundial, não esquecendo que faltou Cristiano Ronaldo. Ora, dizer que isto é uma convocatória influenciada pelos representados de Jorge Mendes é puro facciosismo. 

Há 9 jogadores representados por Jorge Mendes na convocatória. Quase podem ser reduzidos a 8, pois Adrien mantém um conflito com Paulo Bento (o tal que não fecha as portas a ninguém, mesmo esborrachando-as no nariz de vários jogadores ano após ano) desde os tempos de ambos no Sporting, por isso não joga na selecção.

Rui Patrício, opinião, é o melhor guarda-redes português, Coentrão o melhor lateral-esquerdo, Pepe o melhor central e João Moutinho o melhor médio. Fosse qual fosse o empresário, são jogadores que tinham que estar na selecção. Alguma dúvida quanto a isso? Não estão, nem chegaram à selecção por serem agenciados por Jorge Mendes, mas sim por serem os melhores.

A selecção não deve
ser uma incubadora
No início da época, William Carvalho era o melhor médio-defensivo disponível. Entretanto surgiu Rúben Neves. O menino de 17 anos joga como gente grande, a ponto de muitos adeptos, jornalistas e comentadores terem reclamado que devia ter ido já à selecção. Sinceramente, não me chocou que não tivesse ido. Quando a FPF entregou as pré-convocatórias aos clubes, Rúben Neves tinha três jogos de carreira profissional. Três. Não houve nenhum jogador que tivesse chegado à selecção com apenas 3 jogos de carreira profissional, excepção feita a.... Bruno Vale, o suplente do suplente de Vítor Baía na altura de Scolari (a sua convocatória dispensa comentários).Vai chegar à selecção a seu tempo, de certeza que irá ao Euro 2016 (?), mas ninguém pode ficar chocado por ter falhado esta primeira convocatória (na próxima já será difícil justificar a sua ausência) Fosse como fosse, William Carvalho tinha lugar na convocatória, fosse ou não representado por Mendes.

Sobram Miguel Veloso, André Gomes e Ivan Cavaleiro. Miguel Veloso não está a competir na Ucrânia, portanto o estatuto do jogador pesou. André Gomes, sim, é um produto de Jorge Mendes, sem dúvida. Tem potencial, mas há um punhado de médios que oferecem mais garantias a curto prazo. Jorge Mendes, em parceria com Peter Lim, fez dele um médio de 15 milhões de euros. Aliás, fez dele e Rodrigo uma dupla de 45 milhões de euros, que após descontar as terceiras partes passou a ser de 33,3 milhões, mas que segundo o último relatório e contas do Benfica rendeu, até ao final da época 2013-14, apenas cerca de 4 milhões de euros. Manter quase 30 milhões na rubrica de clientes dava jeito para depois, sei lá, indemnizar (ou «investir», é mais requintado) o fundo do clube. Adiante.

A influência de Jorge Mendes existe, sim, mas sobretudo a nível de clubes. Damos o exemplo de um dos poucos jogadores que rompeu com Mendes: Nani. Nani, quando renovou com o Man. United até 2018, teve a infeliz ideia de deixar Jorge Mendes, reclamando que este só dava atenção a Ronaldo. E a verdade é que desde que renovou... deixou de ser titular no Manchester. Não é suposto que um jogador que renova um contrato de 20 e tal milhões de euros passe a jogar frenquentemente? Um ano depois de ter deixado Mendes, não só foi encostado em Manchester como foi obrigado a fazer o que não queria: voltar a Portugal, ou ficava mais uma época no banco, ainda por cima sem Champions.

No que toca ao FC Porto, Jorge Mendes é um aliado forte na venda de jogadores, como foi o caso de João Moutinho, James Rodríguez ou Mangala. Mas em termos representativos, Adrián López (cujos 11 milhões de euros que custou são tão concretos como os que o Benfica já recebeu por André Gomes) e Quaresma são os únicos atletas por ele agenciados. Além disso, apresentou Lopetegui a Pinto da Costa, uma iniciativa que felizmente correu, ou está a correr, muito bem.

Parte do problema e
o maior problema
Falámos de Miguel Veloso, falámos de Andrés Gomes, sobra Ivan Cavaleiro. Não mostrou mais no Benfica do que Carlos Mané no Sporting, por exemplo, ou até do que Ricardo no FC Porto. O factor Mendes, aqui, pode ser entendido como decisivo, apesar de ser um miúdo com potencial. Mas numa selecção nacional não se deve convocar potencial, mas sim qualidade para o curto prazo. 

Contas feitas, no máximo, para quem se quiser apoiar no mito alimentado de que «quem manda é o Mendes», podem afirmar que Miguel Veloso, Ivan Cavaleiro e André Gomes foram à selecção pelo factor Mendes. São os únicos 3 casos passíveis dessa afirmação. Assim sendo, o factor Mendes parece estar a fracassar... Ora vejamos.

Adrien foi convocado, mas ficou no banco, como já tinha acontecido anteriormente, por causa de um conflito antigo com Bento. Danny? Fora dos convocados por um conflito com Bento. Quaresma? Fora dos convocados por um conflito com Bento. Ricardo Carvalho? Fora dos convocados por um conflito com Bento. 

Nomes como André Martins, Nélson Oliveira ou Rúben Micael, que já foram convocados noutros tempos, também são representados por Mendes, mas de nada valeu: quando Paulo Bento risca, está riscado. Paulo Bento não obedece a Jorge Mendes, obedece à sua própria teimosia e incompetência. Quem acompanhou a sua estadia no Sporting pode enumerar mais de uma dúzia de casos de jogadores que tiveram conflitos pessoais com Paulo Bento: Vukcevic, Beto, Carlos Martins, Nani, Liedson, Stojkovic, Sá Pinto, Miguel Veloso, e certamente outros que a memória já não traz. Quem teve culpa, não sei. Mas que Paulo Bento é denominador comum em todos, é facto.

Agora, uma reflexão: o que é pior? Ter uma selecção com Miguel Veloso, André Gomes e Ivan Cavaleiro, ou não ter uma selecção com Ricardo Carvalho, Adrien, Quaresma e Danny? Meus caros, o que está a dominar a selecção nacional não é a carteira de jogadores de Jorge Mendes, é a incompetência de Paulo Bento, que está a tirar mais jogadores à selecção nacional do que aqueles que Jorge Mendes está a oferecer. É só fazer as contas.

O que pode dar o FC Porto à selecção nacional

Não é segredo que há cada vez menos jogadores portugueses a actuarem no FC Porto. O que não é uma coincidência: há cada vez menos jogadores portugueses com qualidade suficiente para jogar no FC Porto. Do 11 que jogou contra a Albânia, quantos tinham lugar no FC Porto de Lopetegui?

Em termos de plantel principal, não sobram muitas opções. Licá, Josué e Varela foram à selecção há um ano, mas entretanto foram todos emprestados. Agora há Ricardo (terceiro guarda-redes no FC Porto e dificilmente a poder sonhar com a estreia na selecção), Ricardito (um jogador à Porto, miúdo cheio de raça e potencial, mas que este ano dificilmente terá mais do que a ingrata missão de «tapa-buracos» - oxalá tenha algum espaço para crescer no médio prazo), Rúben Neves (Paulo Bento não irá ao Euro 2016, mas Portugal ainda pode ir - e se for, Rúben Neves certamente fará parte do elenco) e Quaresma (um dos ódios de estimação de Paulo Bento - curiosamente, houve mais portistas a revoltar-se contra o facto de Quaresma estar no banco do FC Porto do que na bancada da seleção nacional. Haja coerência).

Quem falhou?
Felizmente, há uma nova geração que pode ser aproveitada por FC Porto e Portugal. Dos sub-19 à equipa B, não esquecendo uma geração de juvenis, de Moreto a Rui Pedro, que pode ser riquíssima, o FC Porto tem mais de 20 jogadores que podem marcar presença nos próximos Europeus de sub-19, sub-21 e no Mundial de sub-20. Há soluções para todos os sectores, e para não tornar o texto demasiado extenso não vamos enumerá-las uma a uma. Vários jovens da equipa B e da formação já foram destacados neste espaço, inclusive até Rúben Neves, no primeiro dia de Lopetegui no Olival, quando o seu nome ainda era desconhecido para muitos.

E no que toca ao aproveitamento dos jovens, há um factor importantíssimo. Exemplo: há quem diga que nos últimos 10 anos o FC Porto nada aproveitou em termos de formação, porque nada havia para aproveitar. Uma meia verdade.

Nem é preciso falar de Paim. Falemos de Márcio Sousa, campeão europeu de sub-17 (João Moutinho era o seu suplente), e que podia ter sido o Rúben Neves de Mourinho, pois foi o mais jovem jogador que Mourinho chamou para estágio quando por cá passou. Com 17 anos, Márcio Sousa, ou «Maradona», era um fora de série, um jogador cobiçado por clubes estrangeiros e que era apontado como uma enorme promessa a nível europeu. Dez anos depois, está no Tondela.

O facto de estar no Tondela quer dizer que o jogador não tinha o potencial que se anunciava... ou que esse potencial não foi aproveitado? Não é uma questão retórica, é a segunda hipótese.

O talento tem que
ser trabalhado na raiz
No que toca a um trabalho da formação, não se pode olhar para Vieirinha, Hélder Barbosa ou Rui Pedro apenas por aquilo que são hoje. Porque muitas vezes, os jogadores não chegam mais alto não por falta de qualidades, mas sim por elas não serem potenciadas e trabalhadas no devido tempo.

Este processo pode falhar por diversos factores: problemas físicos, falta de empenho dos jogadores, opções erradas para as suas carreiras, maus treinadores, má orientação, um misto de tudo, etc. Vieirinha, Hélder Barbosa ou Rui Pedro, só para dar estes 3 exemplos, ou Márcio Sousa, podiam ser hoje jogadores muito melhores do que o são. O potencial estava todo lá, mas por algum factor lá falhou. Não foi por falta de qualidade e potencial, certamente.

Portanto, para saber o que valem os jovens talentos do FC Porto, de Rafa a Podstawski, de Rui Pedro a Gonçalo Paciência, a análise não pode ser feita daqui a 5 ou 6 anos. Isso não importa. O que importa é o potencial que existe hoje e que pode ser trabalhado no imediato. Claro que não haverá espaço para todos, mas todos merecem lutar pelo seu espaço. Em causa não está apenas o bem da selecção nacional, mas sobretudo o do FC Porto e de toda a sua mística e história.