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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os lesados do NES

«Quem olhou para as contas da época passada, pode ver que as contas deram um prejuízo considerável. Assumidamente, não houve qualquer surpresa, porque ficou definido pela SAD que não haveria vendas, porque o treinador de então achou que os os jogadores não deveriam ser vendidos». Fernando Gomes, 07-06-2017

Três anos de trabalho
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Lembram-se dos tempos em que se dizia que, no FC Porto, o treinador treina, o jogador joga e a estrutura cuida de todo o resto? Entrámos, aparentemente, numa nova era: aquela em que o trabalho do treinador da equipa principal do FC Porto também passa por ser responsabilizado pelos prejuízos apresentados pela SAD. 

Fernando Gomes já habituou os adeptos do FC Porto às mais surreais intervenções, desde as camisolas sem patrocinador que ficam mais bonitas aos alertas para a necessidade de uma contenção que nunca chegou a pôr em prática.

Mas esta nova intervenção, de responsabilizar o treinador (no caso, o ex-treinador) pelo maior prejuízo da história da SAD, desafiam todos os limites da compreensão que se possa ter para decisões que, no cargo que ocupa, nunca são fáceis de tomar.

Aquando da operação Euroantas, o próprio Fernando Gomes admitiu que havia a necessidade de cumprir o fair-play financeiro. E na apresentação do maior prejuízo da história da SAD (em que ninguém se lembrou de dizer que era culpa do NES - como tem sido hábito, assim que um treinador deixa o FC Porto, leva com ele culpas que nunca lhe seriam imputadas enquanto estivesse no cargo), Fernando Gomes afirmou isto: «Nas nossas conversas estamos em sintonia relativamente ao que fazer: reduzir custos e não depender da venda de jogadores. Não temo sanções mais graves».

E agora, o que admitiu Fernando Gomes? «Se o FC Porto vai ter de vender jogadores? É evidente que sim.» Era capaz de ser mais fácil encontrar sintonia e segurança numa defesa composta por Kralj, Butorovic, Stepanov, Sonkaya e Benítez do que coerência nas palavras do administrador responsável pelas finanças do FC Porto. 

Esta falta de lógica não é nova. Basta recordar as palavras de Pinto da Costa em finais de novembro. «Havia dois caminhos. Era fácil apresentar resultados positivos: no último dia [de mercado], por exemplo, ofereceram-nos 30 milhões de euros por Herrera, 40 milhões por Danilo e quiseram pagar a cláusula de rescisão do André Silva que era de 25 milhões. Aí tínhamos feito 95 milhões e em vez de apresentarmos um resultado negativo íamos apresentar um resultado positivo de 40 e tal milhões. Mas a nossa opção foi aguentar porque tivemos prejuízo, mas os ativos continuaram cá, o André Silva renovou contrato».

Pinto da Costa afirmou, nesta entrevista à ESPN, que o FC Porto recusou as vendas (e fala no plural, não numa vontade expressa de NES - Danilo sempre foi imprescindível, mas Herrera foi opção intermitente e André Silva acabou secundado por Soares nas suas opções) devido a esta razão: «Não é só pelo dinheiro, é pelo prestígio porque o FC Porto, a par do Manchester United, é quem tem mais presenças na Champions e tínhamos a Roma para tentar eliminar logo a seguir. Se perdessemos esses três jogadores em cima da pré-eliminatória, as nossas possibilidades de eliminar o adversário iam diminuir muito. Foi uma opção e conseguimos o objetivo de ir para a Champions e esse prejuízo já está menor».

Ora então. O presidente do FC Porto afirmara que a SAD recusou propostas no último dia do mercado por Herrera, Danilo e André Silva, por causa do play-off com a Roma. Falta só realçar que o play-off com a Roma disputou-se a 17 e 23 de agosto. Ou seja, o FC Porto recusou a venda de jogadores porque queria estar na máxima força para um play-off que tinha sido disputado na semana anterior? 

Perante esta organização/coerência digna de um Phasianidae de cabeça cortada, o mais fácil acabou mesmo por ser isto, pelo menos na visão assumida por Fernando Gomes: coitados dos lesados do NES, neste caso, a SAD do FC Porto. 

Mas depois de tudo isto, a principal vítima tem um nome: Sérgio Conceição, que no dia seguinte à sua apresentação no FC Porto (uma excelente conferência de imprensa, a todos os níveis, com posições fortes e esclarecedoras em todas as vertentes) recebe a notícia de que ficará privado de 3 jogadores na Liga dos Campeões. 

O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador. E não, a responsabilidade não é de Nuno Espírito Santo. Nunca será de mais renovar os votos de confiança e apoio no trabalho de Sérgio Conceição, que ainda não deu o primeiro treino e já ficou sem três jogadores. Bem vindo ao FC Porto, mister!

Este é, infelizmente, o resultado de uma das frases mais acertadas que Pinto da Costa alguma vez proferiu: «Nada tenho contra políticos que são políticos, mas quando os vejo no futebol deito logo as mãos à cabeça, cheira-me logo a esturro». Sem mais a acrescentar. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

«Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil»

«É evidente que os recursos que estão afetos ao futebol vão sendo cada vez mais curtos para fazer face às exigências do futebol. Tem de haver sensatez e prudência nesse equilíbrio. Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil».

Faz este fim-de-semana dois anos que Fernando Gomes, administrador da SAD do FC Porto, disse estas palavras no Porto Canal. Um apelo à contenção de custos e o reconhecimento de que ia ser necessário apertar o cinto.

Afinal, o FC Porto tinha acabado de apresentar um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Os custos com pessoal eram de 48,8M€. Os custos operacionais foram de 95,17M€. Os proveitos operacionais atingiram os 72,6M€. O défice operacional de 22,5M€. Os salários cobriam 67% dos proveitos operacionais (a UEFA não recomenda mais de 70%). O passivo era de 233M€. O valor investido no plantel foi de 46,5M€. Os encargos sobre transferências foram de 4,8M€. A dívida total em empréstimos era de 139M€.

Há dois anos, Fernando Gomes tinha feito um reconhecimento geral da necessidade de reduzir os custos, não só aplicável ao FC Porto como à generalidade do futebol português. Dois anos depois, através do R&C de 2015-16, podemos concluir que o FC Porto não só não reduziu os seus custos comparativamente a 2014 como foi capaz de aumentar de forma abrupta todas as alíneas.

O prejuízo de 2015-16 foi de 58,4M€. Os custos com pessoal aumentaram 27M€. Os custos operacionais aumentaram 30M€, para 124,4M€. Os proveitos operacionais tiveram um ligeiro aumento para 75,8M€. O défice operacional dobrou para os 48,6M€. A totalidade das receitas operacionais não chega para cobrir 100% dos salários. O passivo está à porta dos 350M€. O investimento total no plantel foi de 78,4M€, dos quais 15,16M€ em encargos. A dívida total de empréstimos chegou aos 178,35M€ (dos quais 10M€ após a operação Euroantas). Uma realidade um bocadinho ao lado daquela a que Fernando Gomes apelava em 2014. 

Já no início do ano, Fernando Gomes falava do acordo do FC Porto com a PT/Altice. «É um grande acordo que permite sobretudo que o FC Porto, enquanto empresa, possa ser gerido de forma menos contingente. Até agora, os encargos operacionais eram sempre superiores aos proveitos operacionais, sem contar com as mais-valias das transações de passes de jogadores. A partir de agora podemos vir a deixar de ter de tomar decisões sob pressão. Permite gerir o clube de outra forma, mais objetiva económica e financeiramente e sem estar tão dependente dos ganhos ocasionais em janeiro e no final da época. É essa a grande vantagem». Ainda não chegámos a 2018, mas o contrato com a PT/Altice já parece uma espécie de oásis no deserto, insuficiente para matar a sede.

E ainda na entrevista ao Porto Canal, Fernando Gomes afirmou: «Este ano, fizemos um aumento de capital que superou o capital social negativo e resolveu os nossos problemas do fair-play financeiro. Não é preciso um grande resultado para, no próximo ano, cumprirmos o fair-play financeiro».

Chegamos a 2016 e o FC Porto falhou o fair-play financeiro. Não podia apresentar um prejuízo de mais de 8,6M€, apresentou de 58,4M€. Em 2014, a SAD apostou na absorção do Estádio para resolver o problema dos capitais próprios. Dois anos depois, revelou-se incapaz de gerar as receitas necessárias para cumprir com o fair-play financeiro.

O fair-play financeiro não era só para cumprir num ano, mas sim ano após ano. Enquanto aguardamos que a UEFA fale sobre o que poderá acontecer ao FC Porto, é bom lembrar que a época 2016-17 vai ser ainda mais difícil do que a época anterior no que toca ao FPF.

Em 2014-15, 19,3 milhões de euros de lucro. Em 2015-16, 58,4 milhões de prejuízo. Logo, à partida para esta época, a SAD já vai ter que apresentar 9,1 milhões de euros de lucro para não violar as regras para o triénio que acaba em 2017. Isto apenas para cumprir o fair-play financeiro, não para tapar todos os buracões da época passada. Resta aguardar para conhecer em que medida as deliberações da UEFA podem ditar novas regras/limites financeiros para o FC Porto cumprir no curto prazo.

Por fim, apetece perguntar: por onde andaram as palavras ditas por Fernando Gomes em 2014 nos últimos dois anos? 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O outro teste

«Excedentários vão render 30 milhões». Esta capa do jornal O Jogo é de um otimismo e convicção que se saúda, pois já era tempo de o FC Porto receber tão positiva garantia. Num país onde os Renatos se vendem por 60M€ e os Nicos por 45M€, finalmente sentimos alguma justiça em prometerem um encaixe de 30M€ com excedentários.

Da capa do jornal ao texto, O Jogo passa da certeza à especulação, enumerando uma série de jogadores que podem «render entre 25 a 30 milhões de euros». Basicamente, é o exercício especulativo que todos os adeptos fazem todos os anos, de calcular quanto cada jogador pode render. Mas por experiência própria, é mais do que sabido que os excedentários raramente dão bons encaixes financeiros.

Ainda assim, e repetindo o mesmo que vem sendo dito em todos os finais de época, é tempo de o FC Porto deixar de ter um plantel emprestado. Um clube que tem uma equipa B, que tem uma folha salarial altíssima e que ainda assim tem carências no seu plantel principal não pode ter mais de 30 jogadores emprestados - sobretudo quando a maioria desses jogadores nunca mais vão vestir a camisola do FC Porto. É insustentável e injustificável.

Com isto, algumas considerações sobre as metas até 30 de junho. Como era sabido na apresentação do orçamento para 2015-16, a SAD precisava de um resultado com transação de passes de jogadores de 72,59M€. Entretanto a saída de Alex Sandro gerou uma mais-valia de 21,36M€, o que já abateu o valor para pouco mais de 50M€. Imbula também saiu, mas terá uma mais valia muito reduzida (só cerca de 18M€ servem para abater o valor contabilístico do passe, pois Imbula não esteve sequer meio ano no FC Porto), sendo que ainda haverá a calcular as outras operações de inverno do FC Porto.

Na possibilidade de alguns excedentários serem vendidos, há que ter em atenção a relação preço de venda vs. mais-valia. Por exemplo, imaginando que Adrián López conseguia a proeza de ser vendido por 8M€ - 6,6M€ deste valor não seriam considerados na mais-valia, pois Adrián só cumpriu 2 dos 5 anos de contrato. Se a isso tivermos que deduzir mecanismos de solidariedade, comissões ou prémios/indemnizações, basicamente Adrián López não gera mais-valia, apenas para dar este exemplo. 

Uns foram contratados sabendo-se (ou prevendo-se) de antemão que não tinham qualidades/características para singrar no FC Porto, como Sami ou Hernâni. Outros tinham valor mas a contratação falhou por diversas razões, como Ghilas. E outros não são ainda casos perdidos, como Reyes. Mas há a garantia de que a SAD tem que arrumar a casa antes de atacar o mercado. Não podemos pensar em comprar um guarda-redes quando já temos 5 emprestados a outros clubes. Primeiro limpar os quadros do clube, depois reforçá-los se necessário, mesmo que a saída dos excedentários não impeça a venda de dois ou três titulares da equipa A.  

Não vale a pena falar de Quintero pois, a partir do momento em que renova até 2021, então é porque a SAD sabe que pode contar com ele - felizmente o absurdo empréstimo ao Internacional foi abortado. O FC Porto podia errar na sua contratação, mas não podia errar quando renova com ele por mais 4 anos, sobretudo no mercado de inverno, de onde o plantel saiu ainda mais enfraquecido. Quando O Jogo escreve que Quintero vai estar «em exame até ao fim da época», não faz o menor sentido - então depois de renovar por 4 anos é que vai a exame? O exame já tinha que ter sido feito, logicamente. Renovar com um jogador para depois concluir que não tem caráter não se enquadraria numa gestão competente. 

Além da necessidade de fazer mais cerca de 50M€ com mais-valias de jogadores (é dado quase adquirido que Brahimi sai, restando saber quem lhe faz companhia - Herrera, Danilo e Rúben Neves são os jogadores que aparentam ter maior valia no mercado, mas sobretudo os dois últimos deveriam ser considerados intocáveis), há a necessidade de colmatar a ausência da Champions.
As metas a cumprir até 30 de junho
A SAD orçamentou 27,437M€ de ganhos na Champions. No primeiro semestre conseguiu apenas 11,698M€, mas a diferença seria reduzida se a equipa se apurasse diretamente para a Champions 2016-17. Como à partida não o vai fazer, são mais 12M€ que têm que se encontrar até 30 de junho.

A SAD orçamentou um resultado líquido de 1,793M€ para a época 2015-16, mas não seria inédito, nem tampouco a coisa mais grave da sua história, fazer com que algum prejuízo transitasse para 2016-17. Mas há um problema chamado fair-play financeiro, que impede a SAD de apresentar mais de 8,6M€ de prejuízo, caso contrário enfrenta o risco de sanções. O Sporting também falhou o fair-play financeiro e não foi a coisa mais grave do mundo, pois as sanções não foram particularmente pesadas, mas no caso do FC Porto falhar o FPF depois da operação Euroantas de 2014-15 seria algo absolutamente inqualificável e injustificável. 

Faltam dois meses e meio para o fim da época financeira e, mais do que testes de caráter ao plantel, vai haver testes à capacidade da SAD nas movimentações no mercado, com a necessidade de gerar pelo menos mais 40 a 50M€ em mais-valias e encontrar forma de colmatar os 12M€ da Champions que já não vão entrar nas contas. As últimas semanas de 2015-16 não servem apenas para que alguns jogadores mostrem se merecem ficar no FC Porto: serve também para ver como é que a SAD vai lidar com este grande, chamemos-lhe, desafio. Há o teste de caráter ao plantel e haverá o teste de competência de gestão financeira da SAD para a época 2015-16.

Pergunta(s): Que emprestados têm lugar no FC Porto 2016-17 e quem pode gerar as mais-valias necessárias no mercado?

sexta-feira, 11 de março de 2016

Nove finais

A nove jornadas do final do Campeonato, a luta pelo primeiro lugar está muito, muito difícil. O FC Porto não depende de si próprio para sequer chegar ao 2º lugar, mas as jornadas que faltam vão ser muito mais do que jogos para tentar confirmar a Champions, cumprir calendário ou já projetar a próxima época: há muito em jogo, presente e futuro do FC Porto.

Se o FC Porto não chega ao título, falha o seu objetivo. Mas não é igual ficar em 2º ou 3º lugar, ao contrário do que se possa fazer crer. Todo o portista só pensa em chegar ao título, e na verdade em termos desportivos ser 2º ou 3º classificado não prova grandes alterações de humor. Mas estar ou não estar na Liga dos Campeões faz toda a diferença.

José Peseiro e o plantel têm pela frente nove jornadas que vão decidir muito do futuro do FC Porto. Isto por causa de algo chamado fair-play financeiro. É um tema muito pouco debatido desde a sua criação, mas que tem que ser considerado em relação às nove jornadas que restam. O FC Porto tem que se qualificar diretamente para a Champions, caso contrário o risco de falhar o fair-play financeiro torna-se (ainda mais) real.

É o dilema cíclico do FC Porto. Por um lado, a SAD investe financeiramente forte no plantel, paga bem aos jogadores e a equipa tem que atingir determinadas metas desportivas, pois o sucesso de determinada gestão está sempre dependente dos jogadores e equipa técnica; por outro lado, tem que ser o plantel e a equipa técnica a carregar a responsabilidade desta gestão de risco da SAD, pois se os atletas falham, a política dos dirigentes também falha. É o eterno dilema, mas esta época há algo com o qual todos concordam: por melhor ou pior que possam achar o plantel, ninguém pode concordar que este plantel está à altura de merecer o maior investimento da história da SAD.

O risco está há muito assumido e depende agora das 9 finais que faltam disputar no campeonato. Não há qualquer tipo de margem para errar. Continuar a olhar para o primeiro lugar é uma esperança e ambição para muitos, mas apurar-se diretamente para a Champions é uma obrigação para o próprio clube.

No conjunto das épocas 2013-14, 2014-15 e 2015-16, a SAD não pode apresentar um prejuízo superior a 30M€. Em 2013-14, a SAD apresentou um prejuízo recorde de 40,7M€. Na época seguinte, resultados positivos de 19,35M€, num exercício que foi excelente e atípico para a SAD (dois prémios de entrada na Champions, uma ida aos 1/4, mais-valias recorde de 82,5M€ com vendas de futebolistas e, à margem das receitas operacionais e transação de passes, ainda houve a operação Euroantas).


Tendo isto em consideração, a SAD, que no seu orçamento prevê um lucro de 1,79M€ para esta época, não pode apresentar um prejuízo superior a 8,65M€, caso contrário falha o fair-play financeiro. 

O orçamento da SAD (podem consultá-lo aqui) já contava com os 12M€ de entrada direta na Liga dos Campeões. Além disso, conta também com 72,5M€ de mais-valias com jogadores que terão que ser feitas até junho. São receitas que ainda não estão garantidas e que farão toda a diferença. No caso das transferências, é difícil imaginar que as últimas 9 jornadas do campeonato façam disparar o valor de algum jogador; mas são as últimas 9 jornadas do campeonato que vão decidir a questão da Champions.

Repetir 2013-14 não é opção. Nessa época o FC Porto ficou em 3º lugar e não fez as vendas necessárias até 30 de junho. A venda de Mangala foi feita mais tarde, a SAD assumiu o prejuízo e só mais tarde garantiu as receitas da Champions. Mas desta vez assumir o prejuízo (pelo menos além dos 8,65M€) não é opção, pois está em causa a avaliação do fair-play financeiro. E o contrato televisivo com a PT, importa recordar, só é válido a partir de 2018, pelo que independentemente da eventual antecipação de receitas, para efeitos contabilísticos não interferirá no fair-play financeiro. 

Caso este limite seja ultrapassado, o FC Porto não é necessariamente automaticamente castigado, mas terá que prestar justificações à UEFA. Por exemplo, os investimentos em infra-estruturas e na formação do clube não são considerados. E temos o caso do Sporting, que violou largamente o fair-play financeiro, mas depois fez um acordo de drástica redução de custos com a UEFA e livrou-se de punições agravadas. Mas a UEFA impôs limites específicos que o Sporting está forçado a cumprir. O Galatasaray, por exemplo, não os cumpriu e foi excluído da Champions.


E neste momento, não é só o FC Porto a estar sob máxima pressão: o Sporting também. Além de ter dobrado os seus custos salariais, o Sporting perdeu o caso Doyen, falhou a Champions 2014-15 e ainda não gerou particularmente nenhuma grande venda. Se o Sporting também falhar este acesso direto à Champions, fica em maus lençóis. Isto só vai apimentar as 9 jornadas que faltam e mostra que há muito mais a ganhar/perder do que possam pensar quando o Sporting for ao Dragão. 

Para já há que vencer o União da Madeira, que roubou pontos a Benfica e Sporting. Não são apenas três pontos, o 2º lugar ou o sonho do título a estar em causa. É o futuro e presente do FC Porto no lugar a que pertence: a Liga dos Campeões. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Impressões gerais do Relatório e Contas 2014-15

O FC Porto divulgou hoje a sinopse do R&C da época passada. Passemos à análise, começando por comparar aquilo que foi projetado no orçamento, há um ano, e aqueles que foram os resultados.

O FC Porto perspetivava ter proveitos operacionais de 89,22 milhões de euros, sendo que a maior parte viria da sua participação na Liga dos Campeões, entre 8 rúbricas:


Ora as expetativas foram superadas, com 93,589 milhões, graças à grande participação de Lopetegui e dos jogadores na Liga dos Campeões. A participação na UEFA rendeu quase mais 8M€ do que o expectável, uma vez que não estava orçamentada uma fase de grupos tão boa e a ida aos 1/4 da Champions. Esperemos que a SAD não caia no erro de passar a orçamentar os 1/4 como objetivo mínimo - Casillas, por exemplo, disse esta semana que o objetivo do FC Porto é ir pelo menos aos 1/4, e os objetivos do FC Porto deveriam estar todos em sintonia. Os 1/8 já são mais dos que razoáveis e já obrigam a equipa a grande competitividade. Além disso, os prémios da UEFA aumentaram imenso. Não é necessário sobrecarregar a equipa de pressão. Se for aos 1/8, o FC Porto já ganhará pelo menos mais 6M€ do que o faria em 2014-15.

O FC Porto ganhou quase mais 1M€ em bilheteira do que o esperado, mais 1,2M€ em receitas televisivas (também o fator Champions a influenciar), mais cerca de 700 mil euros em publicidade e mais de meio milhão em Publicidade/Merchandising. O FC Porto destacou-se e superou as expetativas em quase toda a linha, mas na rúbrica de Corporate Hospitality, que estava prevista acima de 14M€, ficou-se pelos 8,2M€. Ainda assim, avaliando o quadro abaixo e o que estava inicialmente definido, o FC Porto superou as expetativas e cumpriu o que estava orçado.


Em relação às despesas, isto era o que estava previsto...



... e isto foi o que o FC Porto acabou por gastar:

O FC Porto gastou quase 4M€ a menos do que esperava fazer. Desde logo o maior destaque vai para a redução nos FSE, quase 6M€ a menos do que o previsto, o que é uma excelente notícia, ainda que tudo se resuma ao Corporate Hospitality. Para atingir a sustentabilidade, o FC Porto tem que apostar na redução dos FSE, que tirando a folha salarial é o que dá maior prejuízo à SAD.

Nos custos com pessoal, o FC Porto gastou quase 1M€ a menos do que o previsto, atingindo praticamente os 70M€ em salários. Não se pode dizer, ainda assim, que tenha havido poupança - é simplesmente a ausência do pagamento dos prémios em caso de conquista do título. Se o FC Porto tivesse sido campeão nacional, os custos iriam certamente disparar bem acima dos quase 71M€ que estavam definidos.

Feita a comparação entre o esperado e o conseguido, vamos à análise dos resultados. Lucro de 19,35M€ no exercício. Ou seja, o FC Porto esteve a 53 minutos de fechar 2014-15 com prejuízo, como já se sabia, mas a venda de Jackson Martínez colocou as contas no positivo.

A 14M€ de estar pago
O primeiro destaque é desde logo a importância que teremos que dar ao fair-play financeiro. O FC Porto teve um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Face aos resultados em 2014-15, isto significa que o FC Porto não poderá terminar a temporada 2015-16 com mais de 8,65 milhões de euros de prejuízo, caso contrário falha o fair-play financeiro. Tendo em conta que a venda de Alex Sandro já está à espera para entrar, o fair-play financeiro aparenta estar controlado. De qualquer forma, o ponto de referência deve ser o lucro e não o prejuízo nunca superior a 8,65M€. Além disso, mesmo com o aumento dos prémios da Champions, em 2015-16 só entra um prémio de participação e não vamos andar a fazer 80 milhões de mais-valias em todos os exercícios. 

Do passivo, dizer que aumentou 42M€ é manifestamente faccioso. Com a integração da Euroantas na SAD, o FC Porto (SAD) assumiu a dívida do que falta pagar do Estádio do Dragão, que são 14 milhões de euros. A Euroantas nunca falhou um pagamento, foi a única a não renegociar ou alargar prazos (ao contrário de Benfica e Sporting) e vai acabar de pagar o estádio em 2018. 

Além disso, podemos sempre comparar o que era o passivo antes da operação Euroantas e aquele com que fechámos 2014-15. Antes da integração da Euroantas, o passivo era de 269M€. A 30 de junho era de 276,13M€. Em relação ao ativo: mais de 150 milhões de euros em relação há um ano, mais de 110 milhões em relação ao último R&C antes da operação Euroantas. Neste momento o FC Porto tem um ativo de 359,235M€, e não esquecendo que não foi absorvida a totalidade da Euroantas, caso contrário o ativo poderia muito bem estar em vias de ser o maior do futebol português.

De destacar igualmente o capital próprio: 83,104M€. Tendo em conta que o Benfica, que tanto aclama o seu ativo, tem um capital próprio de pouco mais de meio milhão de euros e o que Sporting teve que converter mais de 100 milhões de dívida bancária em valores mobiliários para chegar a valores positivos, facilmente se conclui que o FC Porto tem de longe, neste momento, a melhor situação financeira em Portugal. O que é diferente de estar numa boa situação financeira.

No passivo corrente, regista-se a boa notícia de os empréstimos bancários para esta época terem baixado 13,5%, para uma dívida de 61,455 milhões. E ao contrário da época passada, não há empréstimos obrigacionistas correntes. Em contrapartida, haverá mais de 10M€ a mais a pagar a fornecedores.

Feita a análise, há que destacar algumas intervenções de Fernando Gomes. Na questão do patrocinador, uma das que mais se inquieta os adeptos, o tema já tinha sido abordado de diversas formas, desde o impacto do fim da ligação à PT, o efeito Iker Casillas, e o facto de já com a época em andamento ainda não haver patrocinador. Não era nada de fazer perder o sono, pois estamos a falar de uma questão que está longe se ser a mais significativa nas receitas da SAD. Tem importância? Claro, todo o euro tem. Mas nada que fizesse perder a cabeça, nem aceitar negócios precipitados, nem muito menos vender-se à Qatar Airways por menos do que pagava a PT.

Por outro lado, foi o próprio Fernando Gomes, em maio, que disse que o patrocinador estava «para breve». Agora mudou completamente o discurso: «O main sponsor (patrocinador principal) deixou de ser imperioso . Ou arranjamos um bom patrocinador ou não vale a pena. Não vale a pena fazer cedências por pouco», disse, segundo o MaisFutebol. Quem anunciou que o patrocinador estava «para breve» devia, no mínimo, explicar o que correu mal. Poderia ser algo tão simples como «o colapso de Xangai» e estava resolvido. Negociar um patrocínio envolve várias vontades, não se tem só porque se quer. Qualquer adepto perceberia isso. Mas se o patrocinador estava «para breve», é porque o FC Porto já tinha em vista uma proposta do seu agrado. O que mudou para passar a não ser agradável?

As explicações de F. Gomes
O próprio Fernando Gomes reconhece que a venda de camisolas de Casillas superou as suas expetativas. Cabe a quem gere as finanças de um clube com a projeção do FC Porto aproveitar esse fenómeno. É inadmissível que o FC Porto feche a época 2015-16 com menos de 13 milhões de euros na rúbrica dos patrocínios, e com a projeção que alguns jogadores têm deveria tentar chegar perto dos 15M€. Agora, coisas como isto: «Alguns de nós até acham a camisola muito mais pura, mais bonita, sem patrocinador», é impossível de dizer com cara séria, sem se rir ou sem corar. Para isso, como já muitos adeptos o defenderam, mas valeria premiar a parceria histórica com a Revigres, que foi o primeiro patrocinador nas camisolas de um clube português. Seria uma bonita homenagem ao que um grande portista como Adolfo Roque fez pelo FC Porto.

Outra frase citada na imprensa muito curiosa foi esta: «O FC Porto estava numa situação económica debilitadíssima, muito por culpa da deficiência na estruturação da empresa. A integração da EuroAntas na SAD tornou essa situação sólida e reforçou muito a sua condição.» Ou seja, na visão de Fernando Gomes, o FC Porto não esteve em risco de falhar o fair-play financeiro e não apresentou o pior resultado de sempre em 2013-14 por culpa do crónico défice orçamental e da grande dependência de mais-valias com jogadores: foi por culpa do Estádio do Dragão estar no clube e não na SAD. Desde a criação da Euroantas que esta sociedade esteve sempre no clube. Nunca ninguém questionou em contrário, até ao momento em que o FC Porto teve que responder ao maior prejuízo de sempre e teve que recorrer ao estádio. Além disso, a operação Euroantas não se traduz em dinheiro líquido, mas sim numa operação que reforça os capitais próprios sem que isso implique maior liquidez. É surreal uma afirmação destas, que diz o contrário de tudo o vinha sendo a gestão de risco do FC Porto na última década. A culpa, afinal, era do estádio. Contado ninguém acreditava. 

A fechar a análise à intervenção de Fernado Gomes, de destacar também este trecho do MaisFutebol. «O nosso volume de financiamento é superior em bancos de outros países. Muito mais do que em bancos nacionais. Encontrámos outros mercados. Não temos encontrado dificuldade em encontrar financiamento no exterior». Muito bem, mas a oferecer taxas como o foi feito à For Gool (que não se trata de um banco, diga-se) com Héctor Herrera, de 5% (para negociar 5,5M€ com o Internationales Bankhaus Bodensee, em novembro, o FC Porto conseguiu 4%) ao fim de seis meses, mais reembolso, e com possibilidade de lucro de 10% da receita (algo que torna as restrições da FIFA a comissões inúteis, ao autorizar empresários a procurar comprador para os jogadores do FC Porto), além do reembolso do empréstimo, em caso de venda por 30M€, não é muito difícil conseguir financiamento.

A análise será aprofundada quando o R&C completo for publicado.

segunda-feira, 2 de março de 2015

As contas da SAD no primeiro semestre

Contas semestrais, as primeiras que incluem a operação Euroantas. Genericamente, tudo dentro do que tinha sido orçamentado desde o início da época. Vamos à análise.

Balanço do primeiro semestre
Sendo necessários 66,5M€ de ganhos com vendas de passes e tendo em conta que a única mais-valia significativa é a de Mangala (22,8M€), é normal que o prejuízo ao fim de 6 meses seja de 8,44M€ e que no relatório intercalar vá ficar perto dos 30M€. O desafio é gerar as mais-valias necessárias até 30 de Junho, com a venda de 2 titulares, para um lucro orçamentado em 541 mil euros.

Para compreender melhor como o FC Porto chegará a essas mais-valias, ler aqui e aqui. É sabido desde que foi apresentado que se trata de um orçamento de risco, mas exequível, através da venda de 3 titulares (Mangala + 2) no exercício em questão. Mal estaríamos, isso sim, se tivéssemos que vender titulares em Dezembro/Janeiro em 2 anos consecutivos e vender 4 titulares por ano para evitar prejuízos. Estar melhor que o vizinho não significa estar necessariamente bem, mas é sempre importante que o FC Porto continue a apresentar contas mais saudáveis do que os seus rivais (apesar do Sporting estar já num patamar à parte, com uma rigorosa contenção de custos, e que a sua dimensão financeira se aproxime mais do Sporting de Braga). Algo que se volta a verificar, mas claro que cada um vai querer vender o seu peixe. Cabe a cada portista saber escolher bem a lota. 

Terminada a operação Euroantas, a SAD tem um activo reforçado para 333,1M€, que deverá ser o maior de sempre, e o passivo tem uma subida para 278,5M€ (normal tendo em conta a absorção da Euroantas e do financiamento para o estádio). O Estádio do Dragão fica pago dentro de 3 anos e o FC Porto será o primeiro clube a concluir o pagamento, e certamente o único a fazê-lo esta década, sem necessidade de reestruturação. 

Projecção orçamental para 2014-15.
A SAD passa a ter capitais próprios de 54,6M€, que asseguram o cumprimento do fair-play financeiro. Não necessariamente uma boa notícia, tendo em conta que a operação Euroantas foi uma consequência da negligência anterior em relação ao FPF, mas após a compra da participação da Somague o clube ficou a deter basicamente 3/4 da SAD. E directa ou indirectamente, o FC Porto continua a manter 88% da Euroantas. 

Tendo em conta que a SAD assumiu esta operação, é essencial cumprir este orçamento e não repeti-lo. No início deste exercício, o FC Porto (clube) tinha 63M€ de capitais próprios e as contas consolidadas do universo FC Porto (que incluem clube, Euroantas e SAD), entre passivo e activo, tinham um balanço de 26,8M€. Já a SAD terminou 2013-14 com um prejuízo de 40,7M€ e transitou um prejuízo líquido de 38M€ para 2014-15, daí que seja absolutamente essencial cumprir o orçamento. O FC Porto tem activos valiosos o suficiente para o cumprir e uma boa Champions pode ajudar.

Dito isto, algumas considerações. O orçamento para 2014-15 já previa o apuramento para os oitavos da Champions e a qualificação directa em 2015-16. Se nos qualificarmos para os 1/4, como temos que admitir que o vamos fazer, a receita com a UEFA supera garantidamente os 32M€. Nos primeiros 6 meses, a UEFA teve um peso de 38% nas receitas operacionais, mais do dobro da segunda principal fonte de rendimento (direitos televisivos, 16%).

Mas na próxima época haverá um problema, já conhecido. O prémio pelo acesso à Champions não vai entrar em 2015-16, pois já está orçamentado para esta época e projectámos ter o apuramento garantido já em Maio. Por isso, haverá menos uma importante fonte de receitas operacionais em 2015-16. Daí que seja necessário reduzir de forma bastante acentuada os custos. Isto é algo repetido por muitos adeptos todos os anos, mas desta vez, mais que nunca, será imperativo.

É sabido que a SAD orçamentou custos com pessoal de 71M€ para 2014-15, ou seja, o mesmo é dizer que todas as receitas do primeiro semestre serviram para cobrir pouco mais de 70% dessas necessidades. O défice operacional é uma constante, daí a necessidade acentuada de mais-valias. O problema é que o FC Porto tem vários activos caros que não estão a ser titulares (Reyes, Quintero, Ádrian, além de todos os emprestados), outros dos quais não temos direitos económicos (Casemiro, Tello, Óliver), jogadores de grande potencial mas com posição minoritária do passe (Aboubakar, Brahimi), mais titulares que não serão candidatos a grandes vendas (Fabiano, Marcano, Maicon, Evandro, Quaresma) e trutas de enorme valor cujo prazo para venda será os próximos 18 meses (Danilo, Jackson, Alex Sandro, talvez Herrera).

Proveitos operacionais do primeiro semestre 2014-15
Daí que seja essencial, no fim da época, arrumar a casa, e que considere absurdo questionar a continuidade de Lopetegui para 2015-16. Lopetegui tem obviamente que ficar, pois precisamos de um treinador que já esteja, finalmente, totalmente identificado com o plantel, com as camadas jovens e com o futebol português. Como Lopetegui era um treinador novo, no último verão pagámos o preço de contratar jogadores que, agora todos concordam, vieram para ser excedentários. Mas isto não é (apenas) culpa do treinador, pois todos os anos a SAD vem contratando, à margem dos pedidos dos treinadores, jogadores que não chegam para ser mais-valias desportivas. Isso acabou, ou tem que acabar. Os Ezequias, os Sandros e os Samis não podem voltar a ter lugar no FC Porto. Qualquer acto contrário lesa o clube.
Custos operacionais do primeiro semestre 2014-15
Enquanto Pinto da Costa for presidente do FC Porto, vamos continuar a depender acentuadamente de mais-valias. Vamos ter é que readaptar um pouco essa política: os jogadores para venda não vão poder continuar a vir a custo de 8 ou 10M€. O FC Porto vai começar a ter que fazer isso com o recurso às camadas jovens e ao mercado nacional. Lopetegui já promoveu alguns jovens, deu a indicação para contratar Sérgio Oliveira e André André e está identificado com o FC Porto e o campeonato nacional. É um reajustar da polícia de gestão. Tem que ser, não há outra forma. Se o FC Porto não reduzir consideravelmente os custos com pessoal, os fornecimentos e serviços externos e as despesas em activos que não chegam para render, será impossível resistir sem vender um terceiro titular e muito possivelmente arranjar um novo Otamendi para o mercado de inverno de 2015-16.

Agora algo que tem gerado muita confusão por aí, apesar de já ter sido explicado diversas vezes. Para já comecemos por ver as despesas que o FC Porto ainda terá com a contratação de jogadores: 45M€. O Tribunal do Dragão acrescentou, dentro dos possíveis, que jogador está ligado a cada clube/fundo/empresário.

Custos com transferências para 2014-15
E este é o dinheiro que o FC Porto ainda tem a receber por venda de ex-jogadores.

Dinheiro com transferências a receber em 2014-15
Já foi repetido inúmeras vezes, mas cá vai mais uma: o dinheiro da venda de Falcao não teve nada a ver com Ádrian, tal como Ádrian não tem nada a ver com Óliver. O Atlético fez o pagamento normal de Falcao, faltando uma tranche de 200 mil euros. Em Julho chegou a acordo com o FC Porto para a venda de Ádrian López, por 11M€. E o plano de pagamento ficou acordado para 2015.

Isto foi insistentemente repetido para que o jogador não continuasse a ser vítima de preconceito e crítica fácil pelo seu elevado custo. Tecnicamente o FC Porto ainda não pagou Ádrian, porque ainda não teve que o fazer. No fim da época, se Ádrian permanecer no FC Porto, obviamente que a dívida tem que ser liquidada. Mas o factor Jorge Mendes é sempre influente, e ele poderá perfeitamente encontrar uma colocação para Ádrian no fim da época. Dificilmente pelos 11M€, tendo em conta que Ádrian desvalorizou muito no FC Porto, mas a possibilidade de recuperar a maior parte do investimento está de pé. Se Jorge Mendes conseguiu que Roberto não se desvalorizasse, ainda que tenham sido milhões da treta e crédito para uma troca de jogador, tudo é possível. A alternativa? Confiar que Ádrian vai render no FC Porto. Mas se é verdade que os jogadores não têm culpa do preço que custam, têm a responsabilidade de justificar aquilo que ganham.

Portanto, quando fazemos aqueles exercícios de vender A para comprar B e C, é bom lembrar que o FC Porto ainda vai pagar por jogadores que ainda não estão a render. E 45M€ equivalem a sensivelmente metade das receitas operacionais que vão ser geradas em 2014-15. Mais uma vez, a importância da SAD e Lopetegui arrumarem a casa no fim da época antes de pensarem em comprar mobília nova (para já compraram duas peças made in Portugal, de baixo custo).

Para concluir, um olho às responsabilidades que a SAD terá em relação à banca até ao final de 2015.

Empréstimos integrados no passivo da SAD - 1.º Semestre 2014-15 (clicar para ampliar)
Serão mais de 90M€ para liquidar, abater ou renegociar até ao final do ano. O empréstimo obrigacionista de 30M€ vence em Maio e a SAD vai forçosamente voltar ao mercado para o renovar (e as renovações vão acumular-se enquanto não houver redução de custos operacionais). O maior empréstimo como o Novo Banco (25M€) será liquidado com a venda de Jackson/Danilo. Não é comum abater de forma tão bruta o passivo, mas uma nova renegociação parece difícil.

Na rubrica de Factoring, os patrocínios da PT e da Unicer, o prémio da UEFA pela ida aos 1/8 da Champions e a última tranche do Man. City por Mangala/Fernando pagam cerca de 18M€ de dívida. O dinheiro dos direitos televisivos (16M€) segue para o Novo Banco em Setembro, de resto há apenas mais 2 empréstimos acima de 2M€: uma tranche de 3M€ ao Novo Banco (bilheteira/quotas) e uma prestação da Euroantas para o Estádio do Dragão (3,356M€, e ficam a faltar menos de 12M€ para pagar a totalidade do estádio).

Em jeito de balanço, resta aguardar a concretização das mais-valias até 30 de Junho e arrumar a casa, procurando negociar todos os excedentários e primeiro potenciar os recursos (leia-se jogadores) que já temos à disposição antes de pensar em voltar ao mercado. Concluindo, há que cumprir este orçamento para nunca mais ter que o repetir.

PS: Depois da vitória num clássico, de lamentar quem teve a triste ideia de dedicar dois parágrafos ao jornal A Bola no site do clube. Se é uma página de opinião que merece as nossas preocupações e repudio, então as prioridades estão um tanto trocadas. Se alguém se sentiu incomodado, então que reagisse ao jornal A Bola a título pessoal, não em nome do FC Porto, porque a palavra do FC Porto devia ficar reservada para questões verdadeiramente importantes, não para quem não merece mais do que indiferença. 

Se querem dar tempo de antena a um jornal, então leiam este interessante artigo do AS que curiosamente não foi citado em Portugal.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

O que (realmente) vai acontecer com os fundos de investimento e a cruzada de Bruno de Carvalho

«FIFA proíbe fundos de investimento.» Fomos bombardeados com esta frase nas últimas semanas. Rapidamente surgiram vozes que davam conta do fim da competitividade dos clubes nacionais. Os melhores clubes portugueses  passariam a estar, diziam, ao nível dos melhores na Bélgica, Holanda e noutros países europeus de PIB superior ao de Portugal. Resumidamente, o nível de competitividade do futebol estaria adaptado à realidade económica e financeira do país em que está inserido. Uma valente treta.

Acabar com um negócio
de 1107 milhões? Rir.
Para começar, um pormenor que muda tudo: a FIFA não vai proibir os fundos de investimento. Vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento, com terceiros, o tal third-party ownership (TPO) que não se pratica em Inglaterra. Como muitos não sabem sequer a diferença, é normal que se leiam barbaridades como «FIFA proíbe fundos de investimento».

FC Porto, Benfica e Sporting praticam, já há alguns anos, aquela que vai ser a realidade alternativa ao fim da partilha de passes. Exemplificando: quantas vezes já ouviram que nos clubes ingleses «é proibido partilhar os passes com terceiros»? É verdade. Mas não deixam de manter negócios com fundos de investimento para contratar jogadores.

Estamos todos habituados à modalidade tradicional: o clube oferece uma parte do passe de um activo (jogador) a um fundo, a troco de determinado valor, e no momento da transferência desse activo entrega ao fundo a percentagem da receita a que tinha direito - sendo que os fundos nunca têm prejuízo, pois caso haja uma desvalorização os clubes têm que proceder à indemnização. Logo, a partilha de risco é um conceito utópico.

Os fundos de investimento vão continuar a existir. A FIFA não pode proibir este tipo de actividades. O que vai deixar de existir é a partilha de passes. E então entra em cena a alternativa: o financiamento. Um exemplo com um caso recente no FC Porto, nomeadamente a contratação de Walter.

«Na sequência da aquisição dos direitos desportivos e económicos do jogador Walter, realizada em Julho de 2011, a Sociedade celebrou um contrato com a For Gool Co. Ltd., no âmbito do qual esta entidade adianta o pagamento de parte do valor em dívida para com o clube vendedor, no montante de 2.000.000 Euros, a ser reembolsado pela Sociedade em Julho de 2012. Como remuneração deste acordo, aquela entidade auferirá 10% de uma eventual mais-valia numa futura transacção do jogador»

Walter, um exemplo de
negócio alternativo
Na prática, o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Na prática, os fundos de investimento nunca ficam com direitos económicos dos jogadores; depois, no momento da venda, recebem uma percentagem, além do reembolso do empréstimo. É algo que já se faz por toda a Europa, inclusive na sempre elogiada Inglaterra, e que tanto Benfica como Sporting já praticaram - curiosamente, em ambos os casos com a Doyen Sports. A única coisa que os fundos têm que fazer é declarar anualmente, às Federações de cada país, que não têm direitos económicos dos jogadores. De facto não têm: têm sim direito a uma percentagem de venda futura.

E damos o exemplo da Doyen Sports por causa da sua reacção ao fim da partilha de passes: «Não estamos nada preocupados, já que o nosso modus-operandi não é o TPO (third party ownership). Estamos preparados para isso e por isso é que nosso modelo é tão diferente dos outros». Ora aqui está. A FIFA quer proibir o TPO, mas não pode proibir os fundos. Por isso, a Doyen e outros fundos vão passar a ser financiadores de transferências e não detentores de partes de passes.

As vantagens? Possivelmente nenhuma. A FIFA não vai proibir o TPO com vista a maior transparência. Pelo contrário. Há muito que defendia a regulação e transparência dos fundos de investimento, mas o que vai acontecer é precisamente o contrário: menor transparência em todos os negócios.

Com o TPO, a FIFA tinha um sistema de monotorização que registava qualquer alienação de passes significativa nos clubes cotados em bolsa. Isso vai deixar de existir. Os clubes vão manter os negócios com os parceiros financeiros, mas as suas contrapartidas nem sempre vão ser esclarecidas. Um exemplo.

«A 9 de Março de 2012, a Sociedade celebrou com a For Gool Co. Ltd. um contrato de financiamento no montante total de 4.500.000 Euros. O valor financiado foi entregue em duas tranches (2.500.000 Euros em Março de 2012 e 2.000.000 Euros em Abril de 2012) e será reembolsado de uma só vez em 30 de Setembro de 2012. Este empréstimo vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências até 31 de Agosto de 2012 e dos montantes envolvidos nessas transacções

Um empréstimo que «vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências e dos montantes envolvidos nessas transacções» é demasiado ambíguo. O comum adepto não terá acesso detalhado a este tipo de informação. A FIFA ainda poderá intervir nestes mecanismos, mas até ao momento não há informação nesse sentido. Sabe-se apenas que o TPO vai acabar. A Doyen Sports, por exemplo, chegou a pagar salários do Sporting («dificuldades de tesouraria» é mais soft), conforme disseram em comunicado. Que valores? Que contrapartidas? Boas perguntas.

Em relação ao TPO, vai haver um período de transição, à partida de três anos. Todas as alienações já registadas até ao início da época 2014-15 não sofrerão quaisquer alterações, mas a partir daqui haverá um limite. Resta saber se esse limite será aplicado em relação ao valor das alienações, ou ao número de alienações, ou a ambas. Certo é que a partilha de passes vai acabar, mas a relação entre clubes e fundos não. Porque razão iria a FIFA acabar com um negócio paralelo que move 1.107 mil milhões de euros (número da KPMG)?

A novidade sobre este novo mecanismo de financiamento é que os fundos vão ser bem mais selectivos nas escolhas dos clubes. Clubes em falência técnica, sob reestruturação, fora das competições europeias ou que não valorizem jogadores no mercado vão deixar de ser apetecíveis. Daí que o presidente do rival Sporting, Bruno de Carvalho, esteja tão empenhado em tentar acabar com quaisquer ligações entre clubes e fundos.

Bruno de Carvalho está a tentar salvar o clube da sua própria, chamemos-lhe, «auto-destruição». Enquanto Benfica e FC Porto tiverem acesso ao financiamento com terceiros, o Sporting não conseguirá igualá-los em termos de competitividade. O facto de terem um bom punhado de jogadores da formação está a disfarçar esse grande abismo que há entre um clube e os dois rivais. Mas a longo prazo vão perceber que, em Portugal, são raros os casos em que quem ganha é quem gasta menos. O Sporting está a tentar ser essa raridade. Resultado: em 9 jogos com Marco Silva, ganhou 3, e está já a 6 pontos do primeiro lugar.

Ele sabe porque não se cala
Bruno de Carvalho é esperto, não digo o contrário. Enquanto ele fala, fala, fala e fala, os jornais têm que lhe dedicar tempo de antena, os comentadores têm muito que discutir e os adeptos também. Enquanto se fala sobre Bruno de Carvalho, esquece-se um pouco a pressão sobre o plantel e sobre o treinador. É uma estratégia que não é uma novidade, e que é bem aplicada - mas que só oculta os problemas, não os resolve.

A insistência de Bruno de Carvalho em tentar acabar com a ligação fundos-clubes é precisamente por já ter percebido que, enquanto Benfica e FC Porto tiverem apoios, não vão chegar-se à frente na luta pelo título. Ao rasgar unilateralmente o acordo com a Doyen Sports, Bruno de Carvalho fez com que mais nenhum fundo, em parte alguma do planeta, queira investir ou negociar com o Sporting. Então que faz ele? Tenta retirar a Benfica e FC Porto o que ele próprio já tirou ao Sporting.

Além disso: lembram-se dos 29 milhões de euros que o Benfica teve que pagar em Setembro para poder fechar o fundo do clube? O Sporting terá que fazer uma operação idêntica quando fechar o Sporting Portugal Fund. Não de valores tão superiores, mas as receitas operacionais e a capacidade orçamental do Sporting, sob reestruturação, são muito inferiores às do Benfica. Se a competitividade não cresce, há que tentar retirá-la aos rivais, pois haverá um grande problema para resolver em Alvalade. 

Portanto, podemos contar com muito Bruno de Carvalho nos próximos meses, mais fora do que dentro do relvado. Para sua infelicidade, o FC Porto continuará a ser um clube extremamente apetecível para investidores. Mas como é claro, a SAD deve adaptar-se às restrições da FIFA nos próximos três anos e combater o facto do fim da TPO retirar transparência às alienações de passes. Resumindo, o nosso faro terá que ser mais apurado do que nunca na procura de Mangalas e Brahimis e em saber separá-los dos Walters (com o devido respeito ao jogador).

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

E o Dragão paga a factura

«(...) Tecnicamente, a UEFA só admite prejuízos até 5 milhões de euros por exercício em análise. O resultado negativo pode esticar-se até 45 milhões de euros, mas neste caso o valor negativo acima dos 5 milhões tem que ser suportado pelos proprietários do clube, ou através do lançamento de novas acções que sejam subscritas na íntegra pelos accionistas»

«Há uma forte (diria mesmo inevitável) possibilidade do FC Porto ultrapassar os 45 milhões de euros de prejuízo nos últimos 3 anos. Para já, sabemos que as duas primeiras épocas deram um prejuízo de 15,4 milhões. Significa que para o limite não ser excedido, a época 2013-14 não poderia fechar com um prejuízo superior a 29,6 milhões de euros. Algo que é quase inevitável que vá acontecer»


O aviso tinha sido feito: o FC Porto estava em risco de falhar o fair-play financeiro da UEFA (não é por outros também estarem a falhar que há motivos para relaxar). A SAD teria que encontrar uma alternativa, sim, sobretudo tendo em conta que os custos operacionais não vão ser reduzidos em 2014-15, os capitais próprios vão continuar negativos no curto prazo e resistiu-se à venda de Jackson Martínez. Tudo isto teria um custo, mas os portistas não imaginariam que a SAD ponderaria, algum dia, recorrer ao trunfo Euroantas. Era a carta no baralho que nunca, nunca iriamos usar. Era um orgulho próprio, o Estádio do Dragão, do clube, dos sócios, a 100%, com uma disciplina notável no pagamento.
Metade do que é «nosso»
sacrificado

A partir de 2018, o Estádio do Dragão seria do FC Porto (clube, não SAD) a 100%. A Euroantas foi sempre exemplar no cumprimento do pagamento à banca. Neste momento, o Dragão está a custar, em média, 3,5 milhões de euros por ano e dentro de quatro anos estaria pago. Um estádio nosso, sem reestruturação. Limpinho, limpinho.

Havia o eterno receio de que um dia a SAD pudesse recorrer a este trunfo, mas nem eu, e imagino que nem a generalidade dos portistas, pensaria que algum dia isto seria realmente ponderado. Éramos, somos, o clube português mais honrado no cumprimento das suas obrigações. Tanto Benfica como Sporting já tinham sacrificado os seus estádios: o Benfica já fez duas reestruturações, tem um plano de pagamento até 2024 e certamente ainda vai renegociá-lo para mais 6-8 anos e com naming à vista; o Sporting também o fez, entrou em decadência e está há anos em falência técnica e vai continuar assim nos próximos semestres, mesmo que comece a recuperar aos poucos com a reestruturação que fez.

Passo a explicar o que está em causa. A SAD vai ter, no final de 2013-14, o maior prejuízo da sua história, que não será uma surpresa indo além dos 40 milhões de euros. A «desculpa fácil» será que o dinheiro da venda de Mangala ainda não entra neste exercício. Isso é uma explicação que se dispensa e que não é coerente.

Exemplifico: em 2011-12, a SAD teve o maior prejuízo da sua história, 35,7 milhões de euros. A tal «desculpa fácil» é que as transferências de Álvaro Pereira e Hulk ainda não tinham sido contabilizadas. Tudo bem. Foram contabilizadas em 2012-13, tal como Moutinho e James Rodríguez (70 milhões de euros brutos), e a SAD teve um lucro de... apenas 20,3 milhões de euros. Isto estando contabilizado, no mesmo exercício anual, as vendas de Hulk (40 milhões brutos), Álvaro Pereira (10), James (45) e Moutinho (25).

6 meses de Fernando
Gomes...
O problema é o de sempre: as receitas operacionais não cobrem os custos operacionais, e o FC Porto é extremamente dependente de mais-valias para cumprir com as obrigações. É um sistema de risco, já o sabemos, e tem dado resultados e sido um sucesso (faz bem ao ego ler inúmeros jornais estrangeiros a dizerem que somos uma máquina de transferências, mas esses focam-se em quanto vendemos os jogadores, não nos números finais de cada época). Mas nos últimos 3 anos começou a tremer. O fair-play da UEFA, goste-se ou não de Platini, foi das melhores iniciativas tomadas nos últimos anos: vai disciplinar os clubes e obrigá-los a tentar depender das receitas operacionais e, para leigos, a não gastarem mais do que têm. Mas a SAD decidiu contornar o fair-play financeiro sacrificando 50% do Estádio do Dragão, ou se preferir da Euroantas.

Todos ficámos contentes que o plantel que a SAD formou para 2014-15. Mas isto vai muito além da justificação «este é o preço de um grande plantel!» Esta não pode ser a justificação! Presidente, e demais: se este era o plano desde o início, usar 50% da Euroantas, então os sócios deveriam ter sido alertados desde o início, antes do ataque e da resistência ao mercado, não agora que se está praticamente entre a espada e a parede! Nenhum portista vai ficar satisfeito com esta operação, ninguém, a não ser os que ignoram a gestão da SAD e se focam no que se passa dentro das quatro linhas. Se em maio estiverem em festa, fica tudo bem. Mas eu não me preocupo apenas com o maio de 2015. Preocupo-me também com o de 2016, o de 2017, o de 2018, ano em que o Dragão já seria nosso...

Para que se perceba melhor o que está em causa: a SAD vai avançar para um aumento de capital, em 37,5 milhões de euros. É uma forma de assegurar o fair-play financeiro até 2015 (onde vamos fazer vendas milionárias, forçosamente, para equilibrar a balança - desta vez 2 titulares dificilmente chegará), de responder aos capitais próprios negativos e ao prejuízo enorme que se vai verificar no final de 2013-14.

O problema aqui, é que o clube, principal accionista da SAD, não consegue acompanhar esse aumento de capital, como é natural. Então a SAD vai adquirir 50% da sociedade Euroantas (a entidade proprietária do Dragão). A SAD, teoricamente, «injecta» dinheiro no clube, para por sua vez o clube «retribuir» à SAD. É uma operação que responde às dificuldades no curto prazo, legítima, e que tanto Benfica como Sporting já tiveram que fazer (e não tiveram grande sucesso com isso). Mas não pode ser considerado um acto de gestão normal e, muito menos, competente.

É uma das piores acções da gestão da FC Porto, SAD na última década. Se se pespectivava esta operação, isto deveria ter sido parte de um plano (plano esse previamente assumido) e não de uma solução de recurso. Talvez os sócios compreendessem a necessidade. Assim, largar esta granada já com o mercado fechado e época em curso, é reunir com total naturalidade o descontentamento dos sócios que percebem o que está em causa. Este é o dia em que a administração do FC Porto prefere os accionistas aos sócios.

Presidente e demais SAD, aguardamos justificações a 2 de Outubro. E sobretudo do doutor Fernando Gomes, cuja gestão ao fim de um semestre já obriga àquilo pelo qual Angelino Ferreira tanto lutou para evitar nos últimos 4 anos. 

PS: À hora que acabo de escrever este texto, confirma-se o que já tinha sido adiantado ontem pelo Tribunal do Dragão: Portugal ainda pode ir ao Euro 2016, mas Paulo Bento não irá. Haja uma boa notícia neste dia.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O FC Porto está a cumprir o fair play financeiro? Fizemos as contas. E já foram mais animadoras

O fair play financeiro (FPF) da UEFA, criado em 2009 e implementado a partir da época 2011-12 para o primeiro período de avaliação, promete combater e acabar com os envidamentos crescentes dos clubes, as falências técnicas e encurtar o grande fosso entre os clubes ricos e os demais. Michel Platini não é um nome querido para o FC Porto, mas o seu trabalho na UEFA tem tido vários pontos positivos, não só a implementação do FPF como o combate à falta de transparência dos fundos de investimento - que não têm que ser eliminados, mas têm que ser esmiuçados e reformulados quanto ao seu papel no mundo do futebol. Um tema para outra altura.
Aperto no cinto
começa a urgir

O FPF tem sido consideravelmente desvalorizado. Em Portugal, é um tema que passa à margem da imprensa desportiva e a que nem a especializada (Diário Económico e Jornal de Negócios) tem dado grande atenção. O jornal Público tem sido o único a dar alguma relevância periódica a este tema, mas sem responder: o FC Porto está mesmo a cumprir o FPF? N'O Tribunal do Dragão fizemos as contas... e os resultados não são animadores.

Como funciona e o que está em causa

Na prática, o FPF pretende que os custos operacionais dos clubes sejam sustentados pelas receitas operacionais. Para a primeira parte são contabilizadas as receitas com transferências, patrocínios, direitos de transmissão e comercialização de produtos com marca dos clubes. Quanto aos custos operacionais, incluem todos os salários, transferências e custos correntes. Mas nas transferências há um dado a ter em conta.

Por exemplo. O primeiro período em análise para o FPF foi de 2011-12 a 2012-13. Jackson Martínez custou 8,88 milhões de euros. Como o período em análise é de 2 anos e Jackson chegou apenas em 2012, não vão ser contabilizados os 8,88 milhões de euros. O valor total da transferência vai ser dividido pelo número de anos de contrato. Isto é, a despesa com a transferência de Jackson para o primeiro período em análise foi de 2,22 milhões de euros. Com os salários, também é feita a contabilização anual. Posto isto, vamos às contas.

Para o período inicial, entre 2011-12 e 2012-13, o FC Porto não podia apresentar um défice negativo que fosse além dos 5 a 45 milhões de euros. Em 2011-12 a SAD acabou com um prejuízo de 35,7 milhões de euros, enquanto em 2012-13 houve um lucro de 20,3 milhões. Assim, o FC Porto passou no primeiro período de análise com um prejuízo de 15,4 milhões de euros, dentro do admitido. Mas...

FC Porto arrisca punição
para a próxima análise
Tecnicamente, a UEFA só admite prejuízos até 5 milhões de euros por exercício em análise. O resultado negativo pode esticar-se até 45 milhões de euros, mas neste caso o valor negativo acima dos 5 milhões tem que ser suportado pelos proprietários do clube, ou através do lançamento de novas acções que sejam subscritas na íntegra pelos accionistas. O défice pode ainda ser justificado com operações realizadas até junho de 2010, com investimentos nas infraestruturas ou na formação (nenhuma despesa na formação é contabilizada para o FPF, que também pretende incentivar à aposta nas camadas jovens).

Risco já na próxima análise

O FC Porto não fez parte da lista de clubes punidos para 2014-15, ao contrário do Manchester City e do PSG. A punição a estes 2 clubes foi o alerta que faltava: a UEFA não terá problemas em atacar os ditos tubarões controlados por magnatas.  Segundo os regulamentos do FPF, qualquer clube tem obrigatoriamente de ser punido caso registe perdas superiores a 45 milhões de euros. O segundo período em análise vai desde 2011-12 a 2013-14, de 3 anos. E aqui as coisas podem complicar-se para o FC Porto.

Há uma forte (diria mesmo inevitável) possibilidade do FC Porto ultrapassar os 45 milhões de euros de prejuízo nos últimos 3 anos. Para já, sabemos que as duas primeiras épocas deram um prejuízo de 15,4 milhões. Signfica que para o limite não ser excedido, a época 2013-14 não poderia fechar com um prejuízo superior a 29,6 milhões de euros. Algo que é quase inevitável que vá acontecer. Surgem, desde já, duas consequências e dois desafios para a SAD: justificar pelo menos em parte o défice operacional e perceber em que medida a direcção e/ou accionistas poderão ter que avançar com a cobertura de parte do montante negativo.

Exigências do FPF
crescem a partir de 2015
Para o 3º período em análise, de 2012 a 2015, o desafio cresce, pois só pode ser apresentado um resultado negativo de 30 milhões de euros (embora aqui já não entre o enorme buraco de 2011-12). Mas para o 4º período, de 2013 a 2016, também já não entrarão os 20,3 milhões de euros de lucro em 2012-13 e o limite continuará a estar nos 30 milhões de euros negativos.

O FC Porto não vai correr, pelo menos para já, o risco de ser excluído da UEFA (o Sporting leva um registo negativo de quase 90 milhões de euros na avaliação do PFP e não foi punido, enquanto o Benfica, que em 2012-13 estava pior que o FC Porto, passa a uma situação mais controlada no final de 2013-14), mas há outro tipo de sanções, que podem passar pela retenção de prémios da UEFA, limite de inscrição de jogadores, criação de tecto salarial e/ou investimento em transferências, dedução de pontos e até a necessidade da UEFA passar a controlar trimestralmente as contas dos clubes.

Se ainda há quem não leve o fair play financeiro a sério, é bom que o comece a fazer.