Iván Marcano - Um exemplo de sobriedade e maturidade em toda a sua estadia no FC Porto. Chegou com low profile, rapidamente agarrou e justificou o lugar no 11, chegou ao grupo de capitães e despediu-se como campeão, marcando inclusive o último golo da época 2017-18 (na qual fez sete golos e uma assistência). O FC Porto não conseguiu renovar com o espanhol atempadamente e, naturalmente, Marcano tornou-se um alvo cada vez mais apetecível no mercado, a ponto de ter ofertas muito superiores às do FC Porto para prosseguir a carreira. Perto dos 31 anos, seguiu o caminho lógico, mudando-se para Itália e deixando o FC Porto órfão daquele que foi o melhor central da I Liga na última época. Com o aproximar do final do contrato, logicamente que passou a ser cada vez mais «caro» renovar com Marcano. O tempo dirá se a compra de novos centrais para 2018-19 se revelará mais ou menos dispendiosa do que teria sido renovar com Marcano, que faria perfeitamente mais duas épocas de bom nível. Para já despedimo-nos de um profissional exemplar e de um dos bons jogadores do FC Porto da última década.
Contrato até 2021
Felipe - Abençoada a hora em que Sérgio Conceição decidiu mandar o brasileiro para o banco durante uns jogos. Na primeira parte da época, chegou a ser sofrível ver Felipe em alguns momentos. Desconcentrado, desleixado, ultrapassando muitas vezes os limites da agressividade e cometendo uma enxurrada de faltas desnecessárias e em posições comprometedoras. Quando voltou à equipa, em janeiro, surgiu renovado, apesar da comprometedora exibição no Restelo, e partiu para uma série de boas exibições, tendo ainda conseguido tornar-se o 2º central com mais interceções na Liga (80) e o 2º defesa com mais duelos aéreos ganhos (134) - dois dados notáveis quando temos em consideração que o FC Porto foi a equipa que menos teve que defender na Liga. Na próxima época, sem Marcano, Felipe terá que assumir o papel de «patrão» da defesa e a sua responsabilidade será redobrada, tendo em conta que o setor defensivo será o que terá mais alterações na equipa. O Felipe da segunda metade da época tem tudo para dar conta do recado.
Final de contrato
Diego Reyes - O central mexicano foi comprado ainda em 2012. Nas duas primeiras épocas jogou mais pela equipa B do que pela A, seguiram-se dois empréstimos para Espanha e regressou ao Dragão para ter a sua época de maior utilização, mas ainda assim insuficiente para agarrar-se ao 11. Reyes entrou bem na equipa quando Felipe saiu do 11, teve uma sequência de boas exibições que justificavam a continuidade, mas depois da eliminatória com o Liverpool o central deixou de ser aposta. Reyes chegou ao final de contrato e o seu futuro passa pela saída do FC Porto, numa operação que pode revelar-se particularmente complexa - não esquecer que o passe de Reyes, ainda antes do jogador chegar ao Dragão, foi alienado ao fundo Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi, e neste tipo de acordos os fundos nunca perdem dinheiro. Embora tenha conseguido algumas boas exibições na última época, Reyes teve diferentes treinadores, diferentes (pré-)épocas no FC Porto e, ainda assim, nunca conseguiu ter o estofo necessário para se fixar na equipa. Foi um investimento caro da SAD, mas apesar de ter feito a sua melhor época pelo FC Porto, mesmo com a saída de Marcano o clube prefere recrutar novos centrais no mercado do que tentar a renovação com Reyes. Ficará sempre a impressão de que Reyes poderia ter dado mais, mas foram cinco épocas à espera que se afirmasse - e como dar-lhe a sexta oportunidade implicaria um contrato prolongado, percebe-se que os seus agentes estejam a procurar uma solução longe do Dragão e que a SAD já prepare o futuro nesse sentido.
Contrato até 2022
Osorio - Fez apenas um jogo pelo FC Porto - derrota no Restelo. Não mais voltou a jogar... e foi campeão. Apesar de a contratação de Osorio não ter trazido quaisquer benefícios para 2017-18, no momento do seu empréstimo por parte do Tondela já estava prevista a sua permanência a título definitivo no Dragão. Osorio tem caraterísticas físicas e atléticas muito interessantes, mas no Tondela não mostrou nenhum potencial fora do comum - revelou até muitas dificuldades no jogo aéreo e em aspetos básicos de um central. Fica a dúvida se fica no clube por causa da cláusula de compra obrigatória, ou se Sérgio Conceição acredita de facto no seu valor. Osorio tem tudo o que se pode desejar a nível físico e atlético num central, mas tem basicamente que evoluir em todos os aspectos - marcação, posicionamento, timing de entrada sobre a bola, jogo aéreo. Para já ganhou uma pré-época para mostrar serviço, sabendo que, com as saídas de Marcano e Reyes, é a par de Felipe o único central a transitar de uma época para a outra. Será preciso muito, muito trabalho por parte do venezuelano.
Não há momento algum da época em que os adeptos prefiram a exibição ao resultado - mas muito menos nesta altura. Foi uma performance q.b. do FC Porto, mas o suficiente para vencer um dérbi que prometia e que foi difícil. A pausa para as seleções é relativamente bem vinda, desde que ninguém regresse dos seus compromissos internacionais direto ao boletim clínico.
Danilo Pereira e Alex Telles já deverão estar 100% recuperados dentro de duas semanas, tal como Soares, para a extremamente difícil visita ao Belenenses, num jogo que pode ser tão traiçoeiro quanto as visitas a Moreirense, Aves ou Paços de Ferreira. Também não há boas alturas para perder pontos, mas ninguém pode subestimar a importância de não voltar a escorregar antes da visita ao Benfica.
Felipe (+) - Abriu o marcador com um belo cabeceamento (e um excelente cruzamento de Sérgio Oliveira) e cedo deu tranquilidade à equipa. Ao contrário do que é habitual, desta vez o brasileiro esteve melhor a distribuir do que Marcano e foi o melhor passador da equipa, com 86% de acerto no passe e 4/7 nos passes longos. Só perdeu um duelo em todo o jogo e não cometeu nenhuma falta. Esteve ainda perto de bisar, num jogo em que nenhum dos avançados do FC Porto fez um remate enquadrado com a baliza. Felipe bem tentou mostrar, lá à frente, como se faz.
Héctor Herrera (+) - Algo amarrado na primeira parte, um pouco à imagem da equipa, libertou-se no segundo tempo e melhorou imenso com a entrada de Óliver. Foi responsável por 3 dos 5 remates do FC Porto à baliza de Vágner e aproveitou uma oferta do guarda-redes para fazer o 2x0. Não esteve tão forte nos duelos individuais (ganhou 5 em 13), mas compensou com bom posicionamento e grande disponibilidade a preencher o meio-campo.
A entrada de Óliver (+) - Corona terminou a primeira parte a aquecer, continuou os exercícios durante o intervalo, mas três minutos depois do reatar da partida Sérgio Conceição decidiu lançar Óliver. Só o treinador saberá o que o fez mudar de opinião em tão curto espaço de tempo, mas a entrada de Óliver em campo reorganizou o FC Porto, que ganhou o meio-campo e conseguiu finalmente circular a bola. Óliver contribuiu com 85% de acerto, 5 em 6 passes longos corretos e ainda criou 2 situações de finalização - foi um dos jogos mais pobres da época do FC Porto neste capítulo, pois só Maxi (1), Ricardo (1) e Sérgio Oliveira (2) conseguiram passes para finalização. Tudo melhorou com o espanhol em campo.
Definição (-) - Mister, está na hora de tentar algo diferente quando a equipa chega perto da grande área. Este filme repetiu-se várias vezes: o portador da bola chega às imediações da grande área; faz um passe curto para trás e desmarca-se para as costas da defesa; o colega que recebe a bola tenta «picá-la» por cima do defesa, tentando isolar o colega; a defesa adversária corta o lance. Foi um movimento repetido vezes sem conta e que se tornou demasiado previsível, além de não ter funcionado. Não houve ousadia para o remate à entrada da grande área, o último passe não funcionou e a produtividade ofensiva foi perto de inexistente - Brahimi e Otávio nem remataram nem criaram situações de finalização, enquanto Aboubakar teve dois remates, ambos ao lado.
Nos últimos jogos, Sérgio Conceição tentou duas soluções diferentes para replicar o papel de Marega: um jogador rápido sobre a meia direita, a cair nas costas da defesa. Waris passou do 11 para a bancada, e Ricardo Pereira passou da lateral-direita para o ataque. Repare-se que, quando Danilo se lesionou, Sérgio Conceição não tentou encontrar um novo 6 - mudou a disposição do meio-campo e reposicionou Sérgio Oliveira e Herrera. Mas neste caso, apesar da lesão de Marega, Sérgio Conceição tentou encontrar em Ricardo a solução para o ataque. O português é ágil, rápido e mais habilidoso em ganhar a linha e cruzar do que Marega, mas não tem a dimensão física para «arrastar» a defesa e comer metros no terreno como o maliano.
Por outro lado, será mesmo essencial, numa equipa como o FC Porto, líder do Campeonato e com um dos melhores desempenhos (em termos pontuais e de finalização) dos últimos 30 anos, depender tanto de um jogador a cair nas costas da defesa? Não devia. Se não há espaço, tem que haver alternativa. Os adversários do FC Porto na I Liga jogam quase todos com linhas baixas. Chegámos ao ponto em que, a 3 metros da grande área, a equipa continuava a tentar procurar o espaço nas costas da defesa com bolas pelo ar. Não funciona. É necessário ter uma alternativa. Ter mais bola, saber criar o espaço através da circulação e não depender tanto do bicão para o lado direito. A equipa tem qualidade e soluções para isso. Por muito que o lado direito seja um problema, já todos sabem como é que o FC Porto vai jogar por aquele corredor. Há que surpreender para não ser... surpreendido.
Quatro vitórias, dois empates e um sabor agridoce ao cair do pano. O mês de janeiro ficou marcado pelo afastamento da Taça da Liga, que pôs fim a uma série de 10 vitórias consecutivas, e pelo comprometedor empate na visita ao Moreirense - uma igualdade já entretanto redimida no arranque de fevereiro, com o regresso à liderança isolada da I Liga e agora com vantagem reforçada. Para já, ficam os melhores do último mês.
5. Héctor Herrera
MVP dos quartos-de-final da Taça de Portugal, Héctor Herrera continua longe de ter os melhores números nas zonas de decisão (fez apenas um golo no último mês), mas isso não retira mérito ao seu papel na equipa. Por exemplo, já criou 26 ocasiões de golo no Campeonato, apenas superado por Brahimi e Alex Telles no plantel, e está a apenas dois passes para finalização do seu máximo da época passada. Ainda assim, é no papel de recuperador que mais se destaca, ele que é o jogador do FC Porto com maior média de desarmes e recuperações de posse por 90' no Campeonato. E a eficácia de 86% no passe continua a colocá-lo muito acima da displicência que, muitas vezes, e algumas por culpa do próprio, lhe teimam em associar.
4. Felipe
É caso para dizer: o mês de dezembro passado no banco fez-lhe muito, muito bem. Depois da enchurrada de erros que vinha cometendo jogo após jogo, e que lhe custou a perda da titularidade para Diego Reyes, Felipe acordou e entrou finalmente numa sequência de boas exibições. Autoritário, forte no jogo aéreo e a inventar menos na retaguarda, assinou a vitória na visita ao Feirense (ainda que tivesse sido expulso - não voltou a ver cartões desde então) e passou a ser o central com mais duelos aéreo defensivos ganhos na Liga (80, à frente dos 76 de Marcano), além de ser o 2º com mais interceções (50). O que lhe falta na saída de bola e na cobertura compensa no jogo aéreo, nas dobras e na forma como se limita, muitas vezes, a afastar o perigo para longe.
3. Ricardo Pereira
Fez apenas uma assistência para golo em janeiro, mas a sua consistência é notável, seja na defesa ou a jogar mais adiantado no corredor. Não é um lateral possante fisicamente, mas compensa com a forma aguerrida como disputa cada lance. Comparativamente com Alex Telles, embora não seja tão forte a cruzar, assume bastante mais os lances de 1x1 (59% de acerto), tem maior eficácia de desarmes pelo chão (54%) e tem uma interessante média de 53% de eficácia no jogo aéreo, o que não deixa de ser notável para um jogador que é algo leve. Nas últimas semanas Ricardo tem apostado mais nas diagonais quando chega ao último terço e subiu para 75% de acerto em remates enquadrados com a baliza. Falta-lhe melhor colocação no remate.
2. Alex Telles
Não surpreenderia ninguém se vencesse «Os Pentas» de Janeiro, mas a verdade é que Alex Telles não foi eleito MVP pelos leitores d'O Tribunal do Dragão em nenhum dos jogos do último mês, algo que acabou por ter peso nas contas finais. O que não significa que a sua influência não seja evidente. O brasileiro somou mais três assistências no último mês e, neste momento, já leva 15 passes/cruzamentos para golo entre todas as competições. É o 5º jogador das Ligas europeias que mais passes para finalização fabrica e está entre os 8 que mais assistências assinaram. Há ainda a destacar o facto de conseguir jogar de forma limpa e agressiva ao mesmo tempo: ainda só viu um cartão amarelo na Liga.
1. Yacine Brahimi
O mago argelino regressa ao topo d'Os Pentas, muito graças à forma fulgurante como arrancou o mês de janeiro. Eleito MVP nas vitórias contra V. Guimarães e Feirense, o terceiro melhor driblador das Ligas europeias (111 dribles eficazes, apenas atrás de Neymar e Messi) já teve intervenção direta em 17 golos esta época. Defensivamente, Brahimi também continua a destacar-se (só Danilo e Herrera recuperam mais bolas por jogo do que ele). Se é certo que a fechar o mês lhe faltou algum fulgor, também não deixa de ser verdade que há um denominador comum: quando Brahimi não está no seu melhor, toda a equipa sofre o mesmo. Sem Brahimi, o FC Porto é muitas vezes uma equipa previsível, de bola na frente e limitada nas ideias no último terço. Por isso, mesmo quando não está no seu melhor, Brahimi é absolutamente essencial e continua a nivelar por cima o nível da equipa.
Este post começa com algo diferente: a análise a um golo do... Manchester City, mais concretamente o golo que foi apontado pela equipa de Guardiola aos 90+5 minutos de um jogo frente ao Southampton.
Quem tiver oportunidade que observe os últimos 40 segundos do jogo. Último minuto, Southampton a defender com 11 atrás da linha da bola. E o que faz o City? Passes curtos, circulação, tabelas, desmarcação. Mesmo perante a pressão do relógio e do resultado, uma equipa que se manteve fiel aos seus princípios de jogo até ao último instante. O remate de Sterling podia até ter ido para a bancada, mas vimos uma equipa que tinha um plano e agarrou-se a ele até ao último instante.
A determinada altura, aquilo que vimos no Moreirense x FC Porto foi um caos tático total. O chamado «tudo ao molho e fé em Deus». Jogadores fora de posição, tudo em pânico a tentar meter a bola na grande área. E o mais irónico de tudo isto é que podia perfeitamente ter funcionado, pois o FC Porto acaba por chegar ao golo no último minuto.
E muito do que se passou acaba por se resumir a esse lance. É absolutamente inaceitável que, em plena época de implementação do VAR, as equipas de arbitragem continuem a ignorar o apoio desse sistema. É muito simples: o auxiliar Paulo Miranda não tem um ângulo de visão favorável no momento em que Ricardo vai ganhar a bola de cabeça e devolvê-la para a zona central, onde aparecem Soares (este sim, em posição irregular) e Waris (o único a participar na jogada e sem que ninguém, em perfeita honestidade, possa garantir que está em posição de fora-de-jogo).
Paulo Miranda, naquele lance, deveria ter a sensibilidade de deixar correr a jogada. O FC Porto marcava, o FC Porto festejava. Depois, se houvesse posição irregular, então certamente o VAR informaria a equipa de arbitragem de que o lance teria sido ilegal. O que não foi o caso. É um lance em que não é possível escrutinar qualquer fora-de-jogo a Waris. É um lance de dúvida. Já estão todos fartos de ouvir que «em caso de dúvida beneficiasse quem ataca». Não, não é preciso: em caso de dúvida usem a porra do VAR!
Mais. Este foi o quarto empate do FC Porto na I Liga. E tal como aconteceu na receção ao Benfica e na visita ao Desp. Aves, há mais uma grande penalidade flagrante a ficar por assinalar, desta vez com o guarda-redes a socar Felipe em cheio. O VAR deveria, precisamente, acabar com a existência deste tipo de lances: aquele que podem passar despercebidos aos olhos da equipa de arbitragem no relvado, mas que nas imagens televisivas não deixam margem para dúvidas.
Os erros de arbitragem não desculpam mais uma exibição em que o FC Porto joga a meio-gás, mas devem ser sempre assinalados. Dos oito pontos que o FC Porto não conseguiu somar neste Campeonato, seis deles tiveram forte influência de erros de arbitragem. Poderíamos estar a falar de uma equipa com 18 vitórias em 19 jornadas.
Depois da péssima preparação para esta época, chegar ao início de fevereiro a depender de si próprio para se manter na liderança do Campeonato, a um (grande) passo do Jamor e com os objetivos na Champions cumpridos já é, por si só, um milagre que tem como base o trabalho de Sérgio Conceição e do plantel. Mas ver sistematicamente o campo inclinado a cada perda de pontos torna esta missão impossível algo ainda bem mais difícil de alcançar.
Laboratório (+/-) - Um lance que poderia estar neste momento a correr o mundo: aquelelivre de Alex Telles, à futebol de praia, foi uma das mais brilhantes jogadas estudadas que já vimos no FC Porto. Imprevisível, a todos os níveis, com uma execução perfeita no plano: colocar Brahimi na cara do golo. A má finalização de Brahimi manchou uma jogada que mostra trabalho de casa. Por outro lado, há que realçar: uma equipa que trabalha tão bem este tipo de lances, de bola parada, não consegue arranjar outra alternativa que não seja despejar bolas na frente à espera que alguém apanhe uma? Infelizmente, este lance provavelmente não voltará a funcionar na I Liga, pois a colocação de Alex Telles já «denunciará» se vai voltar a tentar bater desta forma. Que foi perfeito, foi. Ou quase.
Os laterais (+) - Inconformismo puro. Juntos, Ricardo e Alex Telles foram responsáveis por 187 ações com bola e tentaram 17 cruzamentos, além de terem passado os 90 minutos a fazer piscinas defesa-ataque/ataque-defesa. Fartaram-se de correr e de tentar dar largura a corredores que encontraram os muito desinspirados Marega e Brahimi. Nem sempre tomaram a melhor decisão (o remate de meia distância de Alex Telles, já em tempo de compensação, foi um disparate e um exemplo de quem já não tinha um plano de jogo a seguir), mas ninguém lhes pode apontar o dedo por falta de garra e empenho.
Zonas de ação de Alex Telles e Ricardo Pereira
Felipe (+) - Ainda deve estar a tentar compreender como é que aquela bola não entrou. E, diga-se, Felipe tinha que meter aquela bola lá dentro. Um jogador com a sua dimensão física, com uma entrada mais determinada, teria levado tudo à frente naquele lance: entrava bola, entrava jogador, entrava tudo. Foi a mancha numa exibição que esteve bem perto de ser irrepreensível. Ganhou 9 dos 12 lances de cabeça que disputou, foi o mais rematador do FC Porto (3 tentativas, as mesmas de Soares) e ganhou todos os lances pelo chão (3/3). O Moreirense não fez um único remate na direção da baliza de José Sá e, perante a falta de Marcano, Felipe assumiu-se como o patrão da defesa, numa das melhores exibições da época. Faltou, literalmente, apenas o golo.
Circulação de bola (-) - O minuto 34 sintetiza um pouco daquilo que foi a incapacidade do FC Porto para circular a bola (ainda que o relvado, de facto, não estivesse nas melhores condições). Sem qualquer oposição, e com o Moreirense com as linhas bem recuadas, Felipe e Reyes deixam escapar a bola pela linha lateral no início de construção. Foi o exemplo de uma equipa que parecia estar a jogar junta pela primeira vez, sem saber muito bem como começar a construir.
De facto, este era um novo meio-campo. Herrera mais recuado, perante a ausência de Danilo, Óliver mais à frente e Paulinho, em estreia, a jogar a partir da direita. Mas é incompreensível a incapacidade do FC Porto em fazer tabelas, em jogar curto nos últimos 30 metros, em procurar o espaço entre linhas. Este Moreirense sofria golos há 17 jogos consecutivos. Bombear a bola para as costas da defesa, num campo curto e com uma equipa com a linha defensiva baixa, não funciona.
Eficácia (-) - Os golos anulados frente a Sporting e Moreirense foram lances de manifesta infelicidade (será a palavra correcta?) para o FC Porto. Mas quando olhamos para os resultados que ficam para a história, nos últimos 315 minutos de jogo o FC Porto fez um golo - e teve que ser um defesa do Tondela a oferecê-lo. O FC Porto já perdeu o estatuto de melhor ataque da Liga e tem tido, de facto, imensas dificuldades para chegar ao golo.
Durante este ciclo de 315 minutos, o FC Porto rematou 54 vezes, das quais apenas 19 à baliza. E entre todas estas ocasiões, os dragões tiveram 12 oportunidades flagrantes de golo (isto é, sem um opositor entre o rematador e a baliza para além do guarda-redes) - falharam 11 e só mesmo Marega acertou frente ao Tondela.
Na I Liga, o FC Porto tem uma média de um golo a cada 7,32 remates. Logo, se nos últimos 54 remates só um acabou em golo, não é preciso muito mais para se concluir que há um problema de eficácia neste momento no ataque. Estávamos felizes por 2018 não ter CAN em janeiro/fevereiro, mas a verdade é que pouco se viu dos atacantes africanos do FC Porto em Moreira de Cónegos e nas últimas semanas. Se todos os jogadores que estavam a garantir golos se apagam... Waris e Paciência terão mesmo que ser «reforços».
Lugar cativo? (-) - É difícil comentar este tema, e é difícil apontar seja o que for a Sérgio Conceição, que fez milagres até aqui. Mas se com a saída de Iker Casillas do 11 habitual o treinador provou que não havia lugares cativos, o que dizer quando vemos um jogador não dar uma para a caixa em 90 minutos e continuar em campo? As coisas não correram bem a Brahimi, e não é difícil perceber porquê: está completamente esgotado fisicamente. O mesmo era visível em jogadores como Alex Telles, Herrera, Aboubakar, e o próprio Marega.
Paulinho, que esteve nas três jogadas de perigo na primeira parte, foi o primeiro a sair, para dar lugar a Soares, protagonista de três ocasiões desperdiçadas no ataque. Waris substituiu Aboubakar (um remate, um bom passe na primeira parte e pouco mais) e até poderia ter sido o herói no último instante, mas nota-se claramente que ainda se está a adaptar a uma nova realidade e não está entrosado com os colegas.
Sérgio Oliveira entrou já numa fase de desespero. Começa mal, ao falhar dois passes, mas depois colocou duas vezes a bola em zona de finalização, cumprindo a sua missão para os instantes finais - meter a bola na grande área.
Ok, só dava para tirar três. E se Corona não corresponde nos treinos - e nos jogos -, torna-se difícil condenar Sérgio Conceição por não o lançar mais vezes, mas a falta de alternativas é demasiado gritante. Herrera, que começa por substituir Danilo, acaba o jogo a jogar com Marega na frente. Brahimi criou apenas uma ocasião de golo em toda a partida, o cruzamento para Soares.
Mas o mais preocupante é que, no último jogo antes do fecho do mercado, não se vislumbrou outra alternativa que não seja manter Marega em campo 90 minutos, mesmo sem o maliano dar uma para caixa. Exceção a um passe para Paulinho, Marega não conseguiu fazer nada em campo. Fez apenas um remate, aos 90', sem perigo; acertou apenas 3 passes dos 13 que tentou; falhou as suas 2 tentativas de drible; não cruzou nenhuma vez. Foi provavelmente o seu pior jogo nas competições nacionais esta época.
Desde que Marega entrou no 11 titular, o avançado falhou apenas 16 minutos de jogo por vontade do treinador - em ambos os casos, foi substituído para a ovação, em dois jogos em que conseguiu bisar. De resto, é Marega e mais 10. O maliano luta muito, tem a interessante média de contribuição de quase um golo por jornada, mas não podemos estar dependentes de um jogador que erra muito mais do que acerta. Pode até regressar aos golos já diante do SC Braga, mas chega a parecer que o FC Porto versão 2017-18 não pode prescindir em instante algum de Marega. Nem Madjer, Deco ou Hulk tinham utilização tão cativa na equipa.
É Marega que é assim tão bom? Ou é o FC Porto que está tão curto em soluções? Só há algo pior do que ver Sérgio Conceição confiar sistematicamente em Marega para fazer 90 minutos: é que se calhar não sobram mesmo assim tantas soluções. E entre o talento intermitente/molengão de Corona ou até Otávio, e um Hernâni que só tem servido para fazer número (mais até na bancada do que na ficha de jogo), o treinador prefere o empenho e a capacidade física de Marega. É penoso ver o maliano nestas situações em campo. Mas chegámos a um pouco em que parece que resta aceitar isso.
Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal.
Sérgio Conceição resumiu tudo, sem falsas modéstias ou arrogância: «Nem o mais otimista» esperaria que o FC Porto chegasse à última jornada da fase de grupos a depender de si próprio para seguir para os 1/8 da Champions, enquanto lidera a I Liga de forma imaculada e responde com soluções a cada problema provocado por não terem dado um único reforço ao treinador. Mérito inabalável de Sérgio Conceição e do grupo por si liderado, sobretudo quando temos em conta o quão difícil tem sido para o FC Porto jogar esta Champions.
Se era impensável que o FC Porto chegasse a esta fase com notórias hipóteses de se qualificar, também é difícil imaginar que o FC Porto tenha tanta dificuldade em tratar a bola na Champions, sendo a 2ª equipa que mais passes falha, só atrás do APOEL, e praticamente só as bolas paradas permitem à equipa estar no 2º lugar (7 dos 10 golos nesta fase de grupos foram obtidos desta forma, e os restantes divididos entre um lance de contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada com vários ressaltos).
O FC Porto de Conceição não nega as suas limitações, convive com elas, e está a apenas uma vitória de cumprir um difícil objetivo de época. O que é muito diferente de já se poder cantar vitória, pois a receção ao Zenit de 2011-12 deve ser sempre mantida como exemplo.
A equipa a defender (+) - Este FC Porto convive mal com a bola, mas isso não retira à equipa o mérito de saber controlar o espaço e a profundidade. O Besiktas teve momentos de grande superioridade, mas o FC Porto limitou o adversário a três únicas entradas perigosas na grande área, duas por Quaresma e uma por Pepe, - além, claro, do golo, um lance que deixou Felipe mal na fotografia (a única falha numa exibição de sentido prático quase irrepreensível) e no qual Sérgio Oliveira (o melhor do meio-campo) pareceu ter parado para coçar as jóias da família em vez de fazer o acompanhamento a Tosun quando este correu para o flanco. Não tivesse ocorrido esta falha e o FC Porto teria feito um jogo perfeito defensivamente, ainda que também José Sá, na sua melhor exibição desde que chegou ao clube, tenha feito 3 defesas de elevado grau de dificuldade.
Brahimi (+) - À imagem da equipa, teve dificuldades em criar perigo objetivo para a baliza adversária (além do golo, só ficaram na retina um remate de Aboubakar e a tentativa de trivela de Ricardo), mas sempre que recebia a bola parecia que o jogo parava. Brahimi arrastava a bola, descobria zonas novas, permitia à equipa subir, partia as linhas do Besiktas que iam aparecendo e foi sempre o único escape de criatividade da equipa. Foi o elemento com maior facilidade em manter e passar a bola, mesmo jogando em zonas mais recuadas e sempre com 2 jogadores do Besiktas em cima dele.
Demasiada alergia à bola (-) - Pode ser mais feitio do que defeito, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O FC Porto divide-se demasiado entre a pressa de querer atacar rapidamente e jogadas perdulárias por querer acelerar demasiado o jogo. Sérgio Conceição pode querer isso, e a forma como monta a equipa, por exemplo jogando com Herrera em vez de Óliver, é um exemplo desse modelo, mas o FC Porto deita demasiadas vezes a perder a posse de bola gratuitamente. Estamos entre as equipas que menos controlam os jogos na Champions, ficando sempre à mercê da eficácia adversária e ficando demasiado limitados aos lances de bola parada. Apesar de o FC Porto gostar de acelerar o jogo, só fez dois golos de bola corrida dessa forma na Champions, o 0x2 no Mónaco e o 3x1 ao Leipzig. De resto, valem as bolas paradas, que são um trunfo, mas não podem significar 70% dos golos que o FC Porto marca.
Atacar as linhas (-) - Ok, o FC Porto é forte nas bolas paradas. E sai de Istambul sem um único pontapé de canto? Faltou forçar a ida à linha, obrigar o Besiktas a cortar para onde estivesse virado. O FC Porto foi forçado a 38 jogadas em que os defesas tiveram que, simplesmente, dar uma bicada ou cortar para a linha, enquanto o Besiktas esteve apenas exposto a 8 dessas situações. Alex Telles não teve a oportunidade de ir nenhuma vez à linha fazer um cruzamento, e o FC Porto conseguiu apenas cruzar 2 vezes com perigo, ambas por Ricardo. E não é por acaso que 2 das 3 jogadas de maior perigo do FC Porto nasceram por intermédio de cruzamentos de Ricardo. O Besiktas ganhou o meio-campo, mas poderia ter sido bem mais explorado pelos corredores.
Verborreia (-) - «Às vezes não necessito de um treinador como Lopetegui. Quando tenho na equipa Hulk, Falcao e James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores, nem capacidade económica para os substituir, e o trabalho é diferente. (...) No primeiro ano esteve bem, mas no próximo [esta época] vai ser melhor. Não ganhou nada, mas estou satisfeito. Na Liga, um estudo demonstrou que o Benfica foi favorecido com sete pontos. E na Liga dos Campeões foi o Bayern de Munique que nos eliminou nos quartos de final». Pinto da Costa, julho de 2015
Ontem ficámos a descobrir que o FC Porto não foi campeão nos últimos anos não por causa do colinho, do polvo e de tudo aquilo que vem sendo denunciado e combatido no Porto Canal. Descobrimos que o FC Porto não foi campeão porque Pinto da Costa decidiu ir buscar Lopetegui em 2014, um treinador com o qual afinal não era para ganhar. Dirão alguns portistas que Pinto da Costa lembrou-se só agora de vir falar, nas vitórias. Nada mais errado, pois o FC Porto ainda não ganhou nada. E se ganhar não será por certo por enxurradas de disparates, falta de coerência e fugas à responsabilidade como estas. Deprimente. Sérgio Conceição disse recentemente que não queria o diretor de comunicação a falar em nome da equipa. O melhor mesmo é limitar essa faculdade ao treinador.
Imaginar, no início da época, que no início de novembro o único central suplente já teria que jogar a médio-defensivo, perante a falta de alternativas de raiz no plantel, e que já haveria jogadores a acusar uma quantidade preocupante de desgaste seria coisa para motivar e justificar todo o tipo de preocupações.
Mas o saldo é este: líder à 11ª jornada, com 31 pontos, com a 2ª melhor marca da história do clube e com 4 pontos de vantagem sobre o 2º classificado; melhor ataque; melhor defesa; e uma demonstração de força e estofo mesmo quando a equipa não consegue jogar da melhor forma. No início da época perspetivava-se um campeonato muito equilibrado, com as equipas teoricamente mais pequenas a tirar pontos várias vezes aos candidatos ao título, mas o FC Porto ainda não conheceu nenhum mau resultado nesta Liga - o que não deixa de atestar as dificuldades presentes na Liga, tanto que o 2º classificado deste Campeonato já foi buscar 8 a 10 pontos (com VAR à mistura) nos minutos finais.
Já o FC Porto, com exceção do clássico em Alvalade, nunca chegou à última meia hora sem já conhecer a vantagem no marcador. O coração agradece, ainda que na mais recente vitória só em cima do minuto 90 foi possível respirar de vez de alívio.
Héctor Herrera (+) - Está definitivamente a atravessar a sua terceira vida no FC Porto. Quando chegou ao Dragão, Paulo Fonseca não viu nele um sucessor à altura de João Moutinho e Herrera teve uma utilização intermitente; na segunda época, brilhou com Lopetegui, mas na temporada seguinte caiu em desgraça na primeira metade da época; depois da chegada de José Peseiro, recuperou a forma e foi possivelmente o melhor jogador portista da segunda volta; com NES voltou a ser uma unidade de subrendimento, mas agora com Sérgio Conceição está novamente a recuperar o seu espaço.
Está a jogar à Costinha nas bolas paradas, escondido ao segundo poste, e foi daí que nasceu o primeiro golo; depois, já quando faltavam pernas, serviu Aboubakar para o 2x0 após uma corrida de 40 metros. Muito antes, destacou-se no passe (91% de eficácia) e na distribuição de jogo, além de ter criado 4 situações de finalização (tantas quanto Brahimi, Hernâni, Aboubakar, Corona e Galeno juntos). Falhou algumas ações defensivas, mas foi no meio-campo adversário que foi capaz de ser a diferença. Há poucas coisas que possam justificar o desaparecimento de Óliver das opções; esta exibição de Herrera é uma delas.
Diego Reyes (+) - Nota bastante positiva a jogar numa posição que é relativamente nova para si. Foi o jogador mais solicitado em campo, esteve no lance do 1x0 e não se inibiu de subir até aos últimos 30 metros, procurando empurrar a equipa para a frente. Não foi tão eficaz nos duelos individuais como Danilo (perdeu um terço das jogadas pelo ar e pelo chão), mas mostrou ser uma solução válida - se é que é possível que o 3º central seja também o 2º médio-defensivo num plantel que ambiciona lutar por todas as frentes.
Outros destaques (+) - Frieza e classe no golo de Aboubakar, que passou grande parte do jogo longe da grande área, muitas vezes descaído sobre a meia direita, a tentar abrir espaços e a arrastar os centrais. Teve apenas duas oportunidades para rematar, mas numa delas acabou com o jogo. Nota também positiva para Alex Telles, que voltou a jogar sobretudo no meio-campo adversário, criou duas ocasiões de golo e voltou a ser o jogador com mais quilómetros nas pernas.
A bola nas costas da defesa (-) - Um novo meio-campo, o regresso ao esquema com um avançado, um Hernâni que se enquadrava bem na grande área mas depois parecia ter medo de aleijar a bola a rematar. Ingredientes difíceis para o ataque do FC Porto, mas o problema esteve na forma como a bola (não) lá chegava. Invariavelmente, a equipa abusou da tentativa de bater a bola para as costas da defesa, mesmo que o Belenenses não tivesse a equipa particularmente avançada. A tentativa de apanhar Aboubakar nas costas pelo lado direito, ou de tentar aproveitar logo a profundidade de Alex Telles, deu poucas vezes resultado. Houve dificuldades em criar e encontrar espaço e os sucessivos pontapés longos para a linha da frente não foram solução.
Mais cabeça (-) - A linha que separa os centrais agressivos, duros e impetuosos daqueles que podem deitar tudo a perder numa única entrada mal calculada é ténue. Felipe sabe, ou deve saber, que se pôs a jeito. A dificuldade na abordagem aos lances tem-se acentuado nos últimos jogos, com Felipe a expor-se demasiadas vezes ao risco - e com ele a equipa. Desta vez, ganhou apenas um terço dos lances de cabeça que disputou e foram poucas as vezes que recuperou a bola e soube sair a jogar - os lances em que mais se destacou foi quando, na grande área, não inventou e chutou para longe. Felipe já conquistou titularidade e estatuto no FC Porto, por isso são erros que se poderiam esperar quando chegou do Brasil, não agora que já tem experiência de futebol europeu. É preciso mais cabeça, até porque não nos podemos dar ao luxo de ter Felipe e/ou Marcano em má forma.
O FC Porto queria sair líder de Alvalade: e saiu. O Sporting queria passar para o primeiro lugar: e falhou o seu objetivo. Basta isto para se concluir que o FC Porto saiu do clássico por cima do adversário. Com um sabor agridoce, pois foi a melhor equipa e fez, sobretudo na primeira parte, os melhores 45 minutos que o FC Porto fez em Alvalade desde o ano da última vitória, em 2008. Mas sair do estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal invicto, líder da I Liga, com mais soluções no plantel e a jogar bom futebol só pode ser encarado como muito positivo.
Não, Sérgio, não foram dois pontos perdidos (embora se entenda e subscreva a ambição): foi confiança ganha, soluções ganhas, equipa mais forte e coesa, e ao contrário do que aconteceu em 2014-15, época na qual o FC Porto perdeu a liderança logo após a ter recuperado, desta feita a equipa dominou o Sporting e agarrou-se ao primeiro lugar com todo o mérito. Vila do Conde, Braga e Alvalade já lá vão, três deslocações a casa de equipas dos seis primeiros lugares da tabela e com ambições europeias. Perfeito.
A primeira parte (+) - Não fosse a eficácia e teriam sido 45 minutos perfeitos, nos quais o FC Porto reduziu o Sporting a um único lance de algum perigo, o cabeceamento de William Carvalho (e mesmo no segundo tempo, o lance de maior aflição foi um remate de Bruno Fernandes para as couves). O FC Porto ganhou o meio-campo, teve sempre profundidade, foi capaz de ser criativo (Brahimi e Aboubakar bem a criar, mas faltou pragmatismo e sentido prático na hora de rematar) e obrigou o Sporting a correr muito, muito mais. Taticamente, tudo saiu bem ao FC Porto, que controlou o jogo com e sem bola. Naquele que foi o primeiro clássico de Sérgio Conceição, meteu no bolso Jorge Jesus.
Outra vez, Brahimi (+) - E novidades? Perdeu gás na segunda parte (assim como toda a equipa), mas encheu o campo na primeira parte. Saíram dos seus pés as principais jogadas de perigo, assegurou que Piccini não dormiu bem na última noite e foi quem melhor soube aproveitar o espaço entre linhas. Tem que apostar mais no remate à entrada da grande área, pois quem ganha espaço e se enquadra com a baliza como Brahimi não pode estar sempre à espera que apareça mais um jogador para fintar. À margem desse pormenor, começa este mês como acabou o último: o melhor em campo.
Os três pilares (+) - Casillas só teve que fazer uma defesa em todo o jogo e o Sporting foi reduzido a cinco tentativas de remate. A equipa defendeu bem em bloco, mas há que realçar a importância de Marcano, Felipe e Danilo Pereira. Ganharam todos os lances aéreos nos últimos 25 metros, fizeram apenas 3 faltas e bloquearam 29 tentativas de ataque do Sporting no último terço, entre cortes e alívios. Defensivamente, tudo correu à equipa, também com um papel importante de Herrera e Sérgio Oliveira em manter o meio-campo composto. Casillas tocou na bola metade das vezes de Rui Patrício (22-44), o que diz tudo de uma noite que, num clássico, não costuma ser tão tranquila para os guarda-redes.
Pormenores (-) - A hesitação que levou ora Brahimi, ora Aboubakar a perderem tempo e espaço para rematar nas melhores condições; a finalização de Marega na cara de Rui Patrício; o lance em que Herrera, tendo Layún solto na direita e Aboubakar a correr para o segundo poste, decide rematar; o lançamento de Alex Telles para uma zona proibida do campo, que forçou o erro de Danilo. Tudo isto são pormenores, mas foram todas jogadas candidatas a decidir um clássico. Não deram prejuízo, mas também não deram o lucro mais desejado. Já se sabe: os clássicos decidem-se nos pormenores, e estes merecem maior acerto nos momentos-chave.
A quebra física (-) - O FC Porto fez 60/65 minutos de elevada intensidade, e isso refletiu-se no rendimento da equipa durante a segunda parte. Era necessário mexer, mas Sérgio Conceição deparava-se com um problema: não havia músculo/pulmão no banco. A decisão era difícil, mas a entrada de Otávio, para a saída de Herrera, fragilizou naturalmente a equipa na dimensão física do meio-campo. Soares e Corona entram também já relativamente tarde, mas era dos pés de Aboubakar e Brahimi, desgastados, que poderia sair o caminho para a vitória em Alvalade. Sérgio Conceição está a fazer milagres, ao reinventar/resgatar jogadores como Marega, Sérgio Oliveira ou o próprio Herrera, mas não pode jogar o que não tem no baralho.
Líderes à 8ª jornada, pela primeira vez desde 2013, e curiosamente, tal como na época com Paulo Fonseca, logo após um clássico com o Sporting, que permitiu passar a somar 22 pontos em 24 possíveis. Recomenda-se, por isso, que a calma que seja companheira da confiança ao longo da época. Mas quando um treinador sai de casa de um candidato ao título insatisfeito porque jogou muito melhor e manteve o primeiro lugar, isto diz tudo da mentalidade competitiva que habita no balneário do FC Porto. Não é só à Porto: é à Conceição.
Sete jogos, sete vitórias e confiança renovada antes de um difícil ciclo de três jogos fora de casa, em que estarão em jogo a liderança do campeonato e, muito possivelmente, o apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões.
A Champions representa outro tipo de exigência e Alvalade é o estádio mais difícil para o FC Porto em Portugal, mas todo o percurso da equipa de Sérgio Conceição até ao momento só merece elogios e vai dando provas de superação. Pegar num plantel já sem cultura de campeão, numa lista de dispensas e sem ter direito a um único reforço e, ainda assim, ter um dos 3 melhores arranques da história do clube, o segundo melhor ataque em 60 anos e a segunda melhor defesa em duas décadas dispensa quaisquer tipo de elogios: é uma qualidade de trabalho que fala por si própria.
Sérgio Conceição reergueu o espírito competitivo do FC Porto em dois meses de campeonato e leva-o a Alvalade invicto e na liderança isolada. Um percurso que não se idealizaria com este plantel e, provavelmente, com nenhum treinador no início da temporada.
Quando chegou, Sérgio Conceição disse que, para ele, jogar bem era vencer. A equipa joga bem e vence. Que mais se pode pedir?
Yacine Brahimi (+) - Uma noite em cheio. Sorte no primeiro golo, mestria na condução e conclusão no segundo. Uma vez mais, voltou a ser o jogador que mais vezes recuperou a posse de bola, falhou apenas um drible e atirou 4 vezes à baliza, tendo sido bem mais incisivo e prático junto à grande área quando comparado com os últimos jogos. Falhou alguns passes, mas nas ações individuais tudo lhe correu de feição para o seu melhor jogo nesta temporada.
Miolo (+) - Certinhos, dinâmicos, rijos. Herrera e Danilo asseguraram uma eficácia de passe de 95% no meio-campo e, sem a criatividade e amplitude de Óliver na zona central, o mexicano compensou com velocidade, agressividade e um jogo mais direto que favoreceu a equipa. Herrera fartou-se de correr, interceptar e pressionar, e ainda assim ainda foi o jogador que mais ocasiões de golo criou (três). Abusou no número de faltas e não ficou bem no primeiro golo do Portimonense, mas libertou muitas vezes Danilo do trabalho defensivo - praticamente só teve que ganhar lances pelo ar e não falhou um único passe. Ninguém poderá questionar Sérgio se optar por manter este miolo, ainda que continue a ser difícil imaginar que o melhor FC Porto não tenha Óliver no 11.
Eficiência africana (+) - Um golo e uma assistência para Marega, um golo e uma (com a colaboração de Herrera) assistência para Aboubakar. O camaronês, uma vez mais, parece que tem mais facilidade em marcar carambolas ou recargas, enquanto Marega teve uma finalização perfeita após grande jogada de Corona (grande envolvência nos dois golos, mas com a forma intermitente que já lhe é caraterística). Isto atesta influência e eficiência mesmo sem necessariamente fazer grandes jogos no envolvimento coletivo da equipa. O que não continua, de todo, a ser o caso.
Há a opinião e há os factos. Dizer que é bom ou mau é opinião. Isto são os factos: Marega voltou a ser o jogador que mais vezes perdeu a bola, só passou uma vez por um adversário e foi o que mais passes falhou - fez apenas dois passes para a frente em 90 minutos, de resto sempre a jogar para trás (Aboubakar similar, com apenas quatro jogadas para a frente). Isto não é teima ou desvalorização, é o que aconteceu em campo. O que aconteceu também em campo é que Marega não desperdiçou a oportunidade de matar o jogo e que, apesar de só ter feito dois passes para o ataque, num deles deu o golo a Brahimi. Isto foi o bom. O resto foi mau. E o bom sobrepôs-se ao mau, porque rendeu golos ao FC Porto. 11 golos em 7 jornadas, e seis delas tiveram golos da dupla africana reabilitada por Sérgio Conceição, pelos atletas e, também, pelos adeptos, que souberam puxar por jogadores outrora proscritos.
Acorda, rapaz (-) - Nenhuma equipa desaprende a defender em três jogos. Mas como é claro, sofrer 6 golos em 3 jogos, em vésperas de 3 difíceis deslocações em que o FC Porto muito possivelmente atacará menos do que os adversários, é motivo de preocupação. E nesse epicentro está Felipe, de há umas semanas para cá uns furos abaixo dos colegas. Tem adornado demasiado na saída de bola, complica o que antes resolvia com um pontapé, está a perder vários lances no corpo a corpo e foi completamente comido no lance do 3x1, com um mau timing de entrada sobre o adversário e corte falhado - no lance do 5x2, reparte culpas com Marcano, pois o defesa do Portimonense finaliza entre os dois centrais. Felipe tem que subir de rendimento para os jogos que aí vêm, até porque vai ter muito mais trabalho do que o que vem tendo nos últimos jogos.
A concluir: o FC Porto regressa à liderança isolada do Campeonato, pela primeira vez desde dezembro de 2015. Na altura, depois da subida ao primeiro lugar, seguiu-se uma derrota em Alvalade, despediu-se o treinador e a equipa mergulhou numa declarada crise de confiança e resultados; serve também isto para lembrar que um percurso de 644 dias pode ser destruído no espaço de duas semanas. Cabe aos adeptos não permitirem que isso se repita, pois Sérgio Conceição e o plantel não merece outra coisa que não total compromisso e apoio.
Há dias em que o futebol tem lógica. A Juventus é pentacampeã italiana e vai a caminho de um inédito hexa, o que mostra bem que estão numa das melhores fases da história do clube. Só o que Pjanic e Higuaín custaram paga todo o plantel do FC Porto. A Juventus tem um dos melhores plantéis da Europa, com o equilíbrio perfeito entre experiência, maturidade e talento. São técnica e taticamente muito superiores ao FC Porto. Posto isto, a única surpresa para esta eliminatória será a Juventus não passar. Tal como ontem a surpresa seria a Juventus não se impor no Dragão.
Há dias em que o futebol tem lógica. A Juventus é melhor, foi melhor e ganhou o jogo. Não há portista que não entre numa eliminatória destas sem uma pontinha de esperança em vergar a lógica. Foi graças a essa atitude que Viena e Gelsenkirchen, ou Sevilha e Dublin, ou até Tóquio não são apenas nomes de cidades para nós. Mas os argumentos da Juventus são imensamente superiores, a todos os níveis.
Na Liga dos Campeões, o FC Porto já cumpriu os seus objetivos, com uma dose de felicidade já bem generosa: as três expulsões contra a Roma (agora provámos o efeito contrário) e o penalty em Brugge que pode muito bem ter invertido o rumo da fase de grupos. Sem estas incidências nestes dois jogos podíamos nem ter chegado a esta eliminatória contra a Juventus. Isso sim seria preocupante, pois passar a fase de grupos era um objetivo e uma necessidade. A partir daqui, ou se contraria toda a lógica e expetativas, ou acontece o que aconteceu no Dragão: o testemunho de uma equipa superior.
Ninguém pode exigir aos jogadores ou a Nuno Espírito Santo que eliminem uma das melhores Juventus da história. Muito menos quando, ainda há bem pouco tempo, o FC Porto atravessava reconhecidamente uma das fases mais negativas da história do clube. Estes opostos dificilmente terminarão com a eliminatória em festa.
Antes de defrontar a Juventus, o FC Porto tinha que ganhar ao Boavista. Continua a ter que fazê-lo. Não há que pensar em Turim mas sim nos 9 pontos que têm que ser feitos contra Boavista, Nacional e Arouca. A nossa luta é esta e já vai dar trabalho de sobra.
A organização defensiva (+) - É o único traço verdadeiramente positivo da identidade da equipa esta época. Raramente apanham o FC Porto num momento de descompensação defensiva. Mesmo com dez, a Juventus poucas vezes entrou no último terço em superioridade, as tabelas poucas vezes tiveram consequência e Felipe (muito bem no jogo aéreo) e Marcano foram ótimos na missão possível: afastar a bola da grande área. Quanto à organização defensiva, só se pode elogiar Nuno Espírito Santo. E depois podem puxar pela memória e lembrar-se da última vez que disseram isto: «Naquele ano ganhámos o campeonato porque defendíamos muito bem». Pois.
Brahimi (+) - Do meio-campo para a frente, tudo o que de bom pudesse acontecer teria que nascer dos pés de Brahimi. Foi ele o único a tentar algo enquanto esteve em campo: seis dribles em progressão, nove duelos ganhos, um dos três remates do FC Porto (nenhum à baliza) e o único capaz de mostrar alguma habilidade na procura da baliza da Juventus. Com a sua saída desapareceram de campo as únicas ideias do FC Porto para tentar chegar ao golo.
Herrera (+/-) - Não pela exibição, mas por aquela velha frase de que uma imagem vale mais do que mil palavras. O estado do pé de Herrera é sugestivo. Não o viram a queixar-se, não pediu para sair. Aguentou, não virou a cara à luta e honrou a braçadeira de capitão que tinha no braço pela sua atitude. Também é por isso que é capitão: um estatuto que tem que ser reconhecido e compreendido pelo treinador e pelos colegas, não pelos adeptos. Quem acha que esta atitude não é significativa talvez tenha o cérebro em pior estado do que o pé de Herrera.
A ausência de Óliver (-) - Esta Juventus tem um rosto: Pjanic. Que delícia é vê-lo jogar. Todo o futebol da Juve passa por ele: seja no passe curto, na progressão, na variação de flanco ou no momento de esticar o jogo. Sem Pjanic, esta Juventus não seria a mesma. Uma espécie de FC Porto sem... Óliver.
Não havia ponta de fio de jogo no FC Porto do meio-campo para a frente, mesmo antes da expulsão de Alex. Ninguém a saber tratar a bola, a perceber o momento para a soltar, para apoiar, para solicitar os colegas. Nada. Ou Brahimi ia para cima dos defesas, ou nada acontecia. Não houve um único passe nos últimos 35 metros para situação de finalização - o mais próximo disso foi o cruzamento de Layún para Herrera. Nada. Não iam ser Danilo, Rúben ou Herrera a consegui-lo. E mesmo que André Silva tivesse continuado com Soares na frente, dificilmente haveria capacidade para imaginar uma jogada que desmontasse a organização defensiva da Juve.
Percebe-se a intenção de NES: quis jogar para o 0x0 e esperar que, em Turim, o FC Porto tivesse o espaço desejado para as transições rápidas e explorar o espaço em profundidade. Mas podem contar pelos dedos das mãos as vezes em que apanham a defesa da Juve em contra-pé, seja no modelo em que jogaram ontem, seja no esquema de três centrais. Não funcionou.
O FC Porto anunciou a compra do passe de Óliver a 9 de fevereiro. Desde então foi três vezes para o banco, e ontem nem de lá saiu. Dá para compreender esta gestão de recursos? A SAD anuncia a compra do ativo mais caro da história do clube (a par de Imbula), e logo a seguir Óliver deixa de contar como titular para NES? Querer encontrar a melhor versão desde FC Porto sem Óliver é algo que nunca baterá certo.
O abandono a Soares (-) - Soares estava a fazer a sua estreia na Liga dos Campeões. Há confiança pelos golos que marcou recentemente, mas ter que jogar contra Chiellini e Barzagli é um pouco diferente do Campeonato português. No momento da expulsão de Alex Telles, a decisão seria sempre difícil para NES. Saiu André Silva, mas a forma como Soares ficou completamente desamparado no ataque foi deveras preocupante. Pediram-lhe o impossível. Soares não seria nunca uma solução para jogar em profundidade, o que já retirou metros à equipa. Houve uma clara tentativa de colocar Soares a segurar a bola, mas depois o apoio nunca chegava. Isso fez com que Soares fosse o jogador com mais perdas de bola em campo, só tivesse arrancado 2 faltas (crítica extensível a toda a equipa - com 10, o FC Porto tinha que procurar os lances de bola parada), não tenha ganho nenhum lance de 1x1 e nem um esboço de remate para amostra. Sem culpas no cartório: Soares ficou sozinho no ataque para tentar ser o que não é. É mais um ajudar, mas não alguém que vai resolver tudo sozinho. Não é Hulk, é Soares. Não queiram fazer dele um salvador da pátria. O resultado esteve à vista: Casillas levou para casa uma camisola de Buffon sem pinga de suor.
Uma noite má (-) - Todos os jogadores têm noites más. E se calhar foi melhor tê-la contra a Juventus do que contra o Boavista. Mas algo se passou com Alex Telles, que fez 27 minutos irreconhecíveis para um jogador da sua já demonstrada valia. 8 perdas de bola, 7 passes falhados, 3 faltas e uma única chegada aos últimos 30 metros. Foi mau, ele sabe que foi mau, mas há que assumir que foi apenas isso: uma noite má, como calha a todos. Uma reação contra o Boavista será bem vinda, Alex. O outro Alex, que estava do outro lado, andou meses a ouvir coisas bem menos simpáticas nos seus primeiros tempos no FC Porto.
Faltam 12 jornadas para o final do campeonato e é nelas que o FC Porto tem que pensar. Talvez nem o melhor FC Porto chegaria para bater esta Juventus. Mas no Campeonato português, mesmo sem o melhor FC Porto, estamos na luta e a depender de nós próprio. Talvez mais «apesar de» do que «graças a», mas as contas do campeonato são as mesmas: dependemos de nós próprios para chegar ao título. E não há o risco de aparecer nenhuma Juventus pelo caminho.
Na despedida do Dragão na época 2014-15, os Colectivo mostraram uma tarja que falava por si: «Vão de férias? Parecia que já estavam!». Há uma grande diferença entre jogar mal e jogar sem esforço, sem empenho, sem compromisso. Quem representa o FC Porto pode jogar mal - acontece a todos -, mas nunca pode deixar de jogar sem comer a relva e dar tudo em campo. Ora este FC Porto nunca veria aquela tarja. Esta equipa esforça-se, luta, quer ganhar. Mas não joga suficientemente bem.
Não há nada a apontar ao compromisso dos jogadores com a tentativa de vencer. Uma defesa de patinhos feitos que dá segurança. Um meio-campo de pesos-leves que se esfola a pressionar e a correr. Avançados jovens que se desgastam a si próprios e ao adversário ao máximo. Estes jogadores empenham-se, quiseram ganhar em Copenhaga, quiseram garantir já o apuramento.
Por isso, quando vemos que os jogadores se empenham, lutam, transpiram espírito coletivo, e que ainda assim a equipa não consegue ganhar e/ou jogar suficientemente bem, então há algo que está a faltar. Quiçá alguém dentro das quatro linhas, ou alguém fora delas.
O apuramento para os 1/8 continua perfeitamente ao alcance do FC Porto, desde que meta na cabeça que o Leicester é uma equipa inferior e não é nenhum bicho papão. Alguém se lembra de temer um supremo Boavista em 2001-02? Não, porque sabiam que aquele título tinha sido episódico, coisa de uma vez na vida. Mas há que ter em atenção que esforço, luta e empenho não estão a chegar.
Felipe e Marcano (+) - Quando as vitórias não apareceram, há coisas boas que ficam ofuscadas. Esta não pode ser uma delas: estamos com uma senhora dupla de centrais. Para os mais esquecidos, nos últimos 570 minutos (6 jogos), o FC Porto só sofreu um golo, e todos se recordarão de qual - e como - foi. E nos últimos 9 jogos, o FC Porto sofreu apenas mais um golo, em Brugge. Os centrais têm que ser destacados por esta eficácia defensiva.
Marcano e Felipe não são uma das melhores duplas de centrais da história do FC Porto, e provavelmente nunca serão mencionados para um top 10. Mas são eficazes. Não inventam, jogam simples, mostram sintonia, controlam muito bem a profundidade, poucas vezes perdem lances pelo ar e têm sido impecáveis na marcação. Também cometem erros (Felipe falhou ontem 16 passes, uma quantidade anormal de falhas na saída de bola), mas naquilo que é a sua função principal - defender e não sofrer golos -, era difícil pedir mais. Claramente que o facto de a equipa não sofrer golos tem que ser destacado por todos os protagonistas da defesa, desde Casillas até Danilo, mas Felipe e Marcano merecem este destaque.
Outros destaques (+) - Não foi capaz de manter a consistência, mas objetivamente foi dos mais perigosos e trabalhadores em campo. Otávio criou, sozinho, mais situações de finalização do que todos os colegas e voltou a estar em evidência nas ações defensivas, ao recuperar 5 bolas e fazer 6 desarmes. Além disso, para um jogador da sua baixa estatura, ganhar 3 lances de cabeça é sempre assinalável.
Óliver não esteve tão bem no passe, mas não se cansa de procurar soluções à sua volta, procurando manter sempre a equipa a rodar e a circular a bola. Procura sempre dar largura à equipa e impor critério na distribuição de bola, embora não esteja a ser influente no último terço (um golo e nenhuma assistência em 14 jogos).
Por fim, Corona em bom nível na segunda parte: procurou o desequilíbrio, fez dois pares de bons cruzamentos, procurou movimentos de ruptura e só lhe faltou ter capacidade de remate (apenas uma tentativa). Tem que ter mais golo.
Uma parte de avanço (-) - Chega o intervalo e o FC Porto não fez um único remate à baliza. Nem um. Isto diz tudo sobre a qualidade da exibição na primeira parte. Antes do jogo em Belém, talvez fosse boa ideia Nuno Espírito Santo dizer duas coisas aos jogadores: antes do jogo, o que disse antes do jogo com o Benfica; ao intervalo, o que disse antes desta segunda parte em Copenhaga. A equipa revelou caras diferentes, melhorou na segunda parte, mas quem faz 45 minutos deploráveis como estes não pode dizer que entrou em campo com o objetivo de marcar cedo e sufocar o Copenhaga. Ou então não passou do plano à prática.
Zero no ataque (-) - A improdutividade do FC Porto no ataque começa fora de campo. Nos últimos 5 jogos, apenas 2 golos. Mau, muito mau. Para começar, o principal criativo do FC Porto (não na perspetiva da equipa, mas do lance individual), Brahimi, não conta. Depois, Depoitre, um disparate de contratação (na medida em que pouco joga - pior do que vermos um jogador caro a jogar mal, é nem sequer vê-lo jogar) quando o FC Porto necessitava, aos olhos de todos, de uma alternativa/complemento a André Silva, não conta para um jogo onde o FC Porto conseguiu fazer 28 cruzamentos. E atenção, pois as contas trimestrais vão ser apresentadas antes do final do mês e então poderá ser possível confirmar se o 2º ponta-de-lança mais caro da história do FC Porto só serve para jogar uns minutos contra Gafanha e Chaves.
Brahimi, que devia ser um match-winner, nem ao banco vai. E Depoitre, que tinha que ser o ponta-de-lança que resolveria os jogos quando faltasse André Silva, não saiu do banco em 9 dos últimos 11 jogos. Quem decide que Brahimi não joga neste FC Porto e que Depoitre era o ponta-de-lança ideal para ser contratado esta época deve ter muito em que pensar.
Dentro de campo, por maior que fosse o esforço de André Silva e Diogo Jota, faltou novamente o killer instinct . Faltou presença na grande área, numa noite de muita desinspiração. André Silva foi o mais rematador (5 vezes), mas sempre sem eficácia. Diogo Jota terá feito a sua pior exibição no FC Porto: perdeu 11 lances e foram poucas as vezes em que criou perigo. Carregar tudo sobre os ombros de uma dupla de avançados sub-21, sobretudo num nível de exigência de Champions, é demasiado. Um abre-latas e um ponta-de-lança mais forte fisicamente poderiam ter dado outros argumentos para resolver o jogo na segunda parte. Pois...
Nota negativa para a exibição de Maxi Pereira, longe da melhor forma depois da lesão. Se em boas condições já seria difícil justificar a titularidade em detrimento de Layún (que, apesar de ser mais forte à esquerda, mostrou qualidade também à direita), assim muito menos.
Ah. E desta vez, não ficou a sensação de que ficámos a perder alguma coisa por culpa do árbitro. Não senhor, nem foi por causa da qualidade do Copenhaga, que na segunda parte não fez um único remate à baliza. Não ganhámos por culpa própria. O Leicester vai ao Dragão relaxado, já com o primeiro lugar garantido, quiçá até com suplentes (defronta o City 3 dias depois), enquanto o FC Porto precisa de vencer para se apurar (livrem-se de meter um ouvido que seja em Brugge). Não há desculpas. Fazer 2 pontos em 6 contra o Copenhaga já foi mau o suficiente. Têm mais uma oportunidade. E será a última.