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domingo, 21 de outubro de 2018

O orçamento do FC Porto para 2018-19

Começamos por uma curta viagem ao passado. Na apresentação das contas de 2015-16, Fernando Gomes, responsável financeiro da SAD, afirmou: «Os custos têm subido de forma abrupta. A SAD quer conter e tomar um novo rumo».

Um novo rumo, dizia Fernando Gomes, que definiu os seus objetivos: «Inflacionámos os salários para além do razoável. Em 2013/14 os salários do plantel eram de cerca de 40 milhões de euros e hoje são de 75. Entendemos que devemos conter e reduzir».

O administrador da SAD definiu, por isso, um plano: no espaço de 3 anos, a folha salarial do FC Porto iria baixar para 55 milhões de euros. Foi isto que Fernando Gomes traçou como objetivo, realçando que, numa primeira fase, o plano passava por «reduzir 20 milhões em salários nos próximos dois anos».

Os objetivos de Fernando Gomes (jornal O Jogo, 12-10-2016)

Cumpridas as épocas de 2016-17 e 2017-18, é tempo de observar o orçamento da SAD para a época 2018-19. O tal em que Fernando Gomes apontava para uma grande redução salarial e que baixaria os custos com o plantel para os 55 milhões de euros. 

O FC Porto terá, nesta época, a folha salarial mais alta da sua história, ultrapassando pela primeira vez os 80 milhões de euros. Depois da época de contenção que foi a mais cara da história do FC Porto, a folha salarial é elevada para os valores mais altos de sempre.


Os custos operacionais do FC Porto ascenderão, assim, aos 135,5 milhões de euros, cerca de dois milhões acima dos resultados de 2017-18. A folha salarial do plantel chega aos 81,7 milhões de euros quando, segundo as expetativas de Fernando Gomes, deveria nesta altura estar a caminho dos 55 milhões de euros - a não ser que esteja a contar com uma debandada em junho para baixar a folha salarial abruptamente. E continuamos sem descobrir onde é que está a poupança de 20,8 milhões de euros que o administrador diz ter sido feita com a «limpeza» do plantel da época passada. 

Os Fornecimentos e Serviços Externos, por sua vez, continuam na casa dos 43 milhões de euros, mantendo esta rubrica praticamente inalterada e sem perspetivas de descida. 

Em relação aos Proveitos Operacionais, a SAD estima os mais altos de sempre: 156,7 milhões de euros, essencialmente graças ao enorme aumento dos prémios da UEFA, com receitas de 67,15 milhões de euros (está novamente previsto o apuramento para os oitavos-de-final da Champions), e ao novo contrato de direitos televisivos - é a primeira vez em que entra oficialmente no exercício o contrato com a Altice, por isso as receitas televisivas rompem a barreira dos 40 milhões.


É de recordar que o contrato com a Altice ascende a 457,5 milhões de euros, por um período de 10 anos, e tecnicamente entrava em vigor apenas a 1 de julho. Mas a SAD já antecipou - e muito - dezenas de milhões de receitas deste acordo.

Há um ano, a SAD já tinha antecipado mais de 90 milhões de euros, através de vários contratos de factoring com empresas de crédito estrangeiras. No entanto, o R&C da época 2017-18 revelou que, em abril/maio, a SAD antecipou uma enorme fatia dessas receitas com mais dois contratos de factoring: nada mais, nada menos do que 111 milhões de euros - 11 milhões com a Star Fund e 100 milhões de euros com a Sagasta. Esta operação, de resto, é a principal responsável por o passivo da SAD ter disparado para os valores mais altos de sempre: 464 milhões de euros. Quando estes contratos de factoring terminarem (o acordo com a Sagasta termina em 2023), os valores envolvidos serão eliminados do passivo.

O Tribunal do Dragão, na análise do R&C de 2016-17

Importa reconhecer que antecipar receitas é uma prática corrente e natural em clubes de futebol, em que há despesas contínuas e mensais mas as receitas não são geradas da mesma forma. Mas coloquem simplesmente isto em perspetiva: o FC Porto já «antecipou» mais de 200 milhões de euros de um contrato de direitos televisivos que, tecnicamente, teve o seu início oficial apenas em julho.

Um contrato de 457,5 milhões de euros, a 10 anos, que oficialmente entrou em vigor há menos de 4 meses e do qual a SAD já «puxou» cerca de 200 milhões de euros. Há momentos em que nem vale a pena acrescentar mais nada e basta espelhar apenas os números, que falam por si. Mas em 2016 Fernando Gomes explicara para onde seria canalizada a receita dos direitos televisivos: «De resto, a ideia é que este dinheiro não vá para reforços, porque para isso o FC Porto gera recursos suficientes. Iremos baixar custos, pagar dívida e ter uma gestão mais sã». Confere?

Ainda nas Receitas, a SAD confirma que as receitas de gestão e exploração do Corporate Hospitality passam a ser consideradas na Publicidade e Sponsorização, mantendo-se assim na casa dos 22-23 milhões de euros, à imagem das duas últimas épocas. De realçar ainda que a SAD aponta para as maiores receitas de bilheteira no Dragão, com uma verba estimada em 9,3 milhões de euros. 

O grande crescimento dos Proveitos Operacionais permite que após várias épocas de enormes buracos, a SAD estime finalmente resultados positivos sem custos com passes. Nas últimas quatro épocas, por exemplo, a SAD orçamentou sempre prejuízos operacionais, que foram dos 18 aos 25 milhões de euros. Mas desta vez, pelo grande crescimento nas receitas, a expetativa é de um resultado favorável de 21 milhões de euros. É certo que a qualificação para a Liga dos Campeões é o que pode ditar a diferença entre um lucro de 20 milhões ou um prejuízo do mesmo valor, e não nos podemos esquecer que há 3 equipas a jogarem declaradamente para um lugar, mas enfim vemos perspetivas de bons resultados operacionais.

Mas chega? Não, não para 2018-19. Pois apesar de ter proveitos operacionais superiores a 150 milhões de euros, a SAD necessita de fazer 34,6 milhões de euros em proveitos com transferências. De recordar que o R&C de 2017-18 não incluía, ainda, as compras de Mbemba e Militão, e que as vendas do FC Porto no exercício de 2018-19 praticamente resumem-se, para já, a Layún, Gonçalo Paciência e João Carlos Teixeira. Portanto, estamos a falar na necessidade de, entre receitas operacionais e resultados com transações de jogadores, «fazer» mais de 185 milhões de euros para pagar a época 2018-19.

Tudo isto para, em junho, terminar a época 2018-19 com um lucro de 1,575 milhões de euros. É esta a proposta da SAD que vai a Assembleia Geral a 8 de novembro.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A época de contenção que foi a mais cara de sempre

Diretos à aguardada análise do Relatório e Contas da SAD do FC Porto relativo à época 2017-18. O FC Porto cumpriu o acordo com a UEFA relativo ao fair-play financeiro? Sim. O FC Porto cumpriu o orçamento relativo à época 2017-18? Não. Porque uma coisa não significa a outra e passamos, por isso, à análise das principais alíneas relativas à época financeira 2017-18.

A SAD apresentou um orçamento que previa um prejuízo de 17,277 milhões de euros. A época 2017-18 acabou com um resultado negativo de 28,444 milhões de euros. Então, como se explica esta diferença de mais de 11 milhões de euros nos resultados da época e, simultaneamente, o cumprimento do fair-play financeiro?

Conforme O Tribunal do Dragão explicou em 2014, num post que já alertava para esta realidade iminente na SAD, a UEFA tem em consideração custos justificados com investimentos em futebol juvenil, infraestruturas e amortizações. Isso ditou que, para efeitos do fair-play financeiro, o FC Porto justifica essa diferença de 11 milhões com despesas autorizadas pela UEFA e, assim, não ultrapassa os 20 milhões de euros de prejuízo.

O orçamento da SAD para a época 2017-18, apresentado em novembro
A forma como Fernando Gomes apresentou estes dados faz esta tarefa parecer algo quase hercúleo, e não uma consequência de ser o responsável financeiro da única SAD/clube a ter sido punido pelo incumprimento do fair-play financeiro em toda a Europa em 2016-17, mas há que esclarecer o que foi ou não cumprido. 

E com isto vamos a um dado que pode parecer atípico, mas que é comprovado pelos números finais: a época 2017-18 foi a mais dispendiosa da história da SAD nos custos operacionais. Sim, numa época de assumida (?) contenção financeira, sem reforços para Sérgio Conceição, com um plantel de remendos, os custos operacionais atingiram o recorde de 133,71 milhões de euros, sensivelmente mais 15 milhões de euros do que o que estava orçamentado. A SAD ultrapassou os custos em 5 das 6 alíneas da rúbrica, com destaque para os fornecimentos e serviços externos e os custos com pessoal.

Custos operacionais foram os mais altos da história da SAD
Os FSE ficaram à beira dos 44 milhões de euros e os custos com pessoal atingiram os 78,8 milhões de euros, tornando esta folha salarial a mais cara da história do clube. 

Fernando Gomes começou por explicar esta parte com esta interessantíssima declaração: «Tínhamos previsto reduzir os Custos com Pessoal e eles subiram por uma questão muito simples: como fomos campeões nacionais, tivemos de pagar prémios ao plantel e à equipa técnica. Isso representou um encargo adicional de 6 milhões de euros, mas ainda bem que o tivemos». Ok, não há adepto que se oponha a pagar por ganhar. Mau é pagar e não se ganhar. Mas vamos por partes.

«Tínhamos previsto reduzidos os custos com pessoal». É verdade, tinham. Face ao orçamento da época passada, a SAD previa uma redução que não chegava aos 100 mil euros. E face aos resultados de 2016-17, a proposta de orçamento apontava para uma redução de perto de quatro milhões de euros. No entanto, Fernando Gomes diz que isto derrapou devido aos 6 milhões de euros que tiveram que ser pagos ao plantel em prémios pela conquista de título (uma prática habitual em todos os clubes, diga-se).

Mas... o orçamento apontava para custos salariais de 69,44 milhões de euros. Mesmo com seis milhões de euros de prémios, não chegam aos 78,8 milhões que aparecem nos resultados finais. E ainda que a diferença possa não parecer a mais significativa, resumir tudo isto ao pagamento dos prémios pela conquista do campeonato parece um tanto superficial. Afinal, na época 2016-17 a SAD previa custos de 69,5 milhões e gastou 73,2. Foi por causa dos prémios de campeão? Em 2015-16, a SAD previa custos de 68,8 milhões e gastou 75,79 milhões. Foi por causa dos prémios de campeão? Isto para dizer que o FC Porto vem de épocas consecutivas em que a folha salarial é maior do que o previsto, mesmo sem ter pago prémios pela conquista do Campeonato durante quatro temporadas seguidas.

E para que não restem dúvidas: mesmo que o FC Porto não tivesse pago prémios pela conquista do título, esta seria a época mais cara da história da SAD, pois os custos operacionais, mesmo sem os 6 milhões de euros de prémios referidos por Fernando Gomes, seriam superiores aos 124 milhões de 2015-16. 

Mas há mais. Recapitulando, a SAD propôs uma redução de 74 mil euros em salários face ao orçamento de 2016-17, de 3,822 milhões face aos resultados do ano passado e acabou com um aumento de 9,35 milhões de euros nos custos com pessoal. Falta portanto perceber em que universo se enquadrou esta previsão feita por Fernando Gomes há um ano:


Voltando a citar o site oficial do FC Porto, Fernando Gomes afirmara: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». Onde é que está a diminuição de 20,8 milhões se a folha salarial atingiu os valores mais altos da história do clube e ficou 9,35 milhões de euros acima do previsto? Foi tudo devido aos 6 milhões de euros que tiveram de pagar em prémios no plantel?

Os Proveitos Operacionais, por sua vez, ficaram acima das expetativas: a SAD previa 98,8 milhões de euros mas atingiu os 105,7 milhões. Quase todas as alíneas tiveram desempenhos positivos, mas a principal diferença vai para a «Publicidade», numa diferenciação que tem marcado os Relatório e Contas das últimas épocas. Acontece que no orçamento o FC Porto apresenta apenas nos proveitos «Publicidade», mas no Relatório e Contas final acrescenta «Sponsorização». Pode parecer idêntico, mas não é. Tanto que o FC Porto tinha apontado para 14,3 milhões e apresentou agora 23,6 milhões. O mesmo exercício da época passada, quando expectava 16,1 milhões e atingiu depois os 22,3 milhões. O porquê exato desta diferenciação é algo que ainda carece de uma explicação mais elaborada do que aquela que um blogue possa apresentar.

Proveitos operacionais tiveram uma evolução positiva e ficaram dentro do orçamentado
Naquele que é sempre o ponto mais delicado da época financeira, a SAD apresentou resultados com transações de passes de 50 milhões de euros, cerca de 5 milhões aquém do que estava previsto. O Tribunal do Dragão publicará posteriormente uma análise mais detalhada sobre os negócios do defeso - coisas curiosas como o porquê de que o FC Porto ter que pagar comissões à Gestifute pela transferência de Boly se o Wolves accionou uma suposta cláusula de compra, ou o porquê de o FC Porto ter comprado (e transferido logo depois) Rafa ao Portimonense por 1,5 milhões de euros depois de o ter cedido em janeiro -, numa altura em que tem sido muito difícil assegurar uma publicação mais regular de conteúdos no blogue, daí o atraso nesta análise e a ausência de algumas crónicas de jogo.

Mas há que destacar esta afirmação de Fernando Gomes face às situações contratuais de Brahimi e Herrera, que se aproximam de uma saída a custo zero (que, no caso de Brahimi, só se for uma sequência de zeros à direita) no final da época. «Para efeitos contabilísticos, é rigorosamente indiferente». Por mais surreal que possa parecer, Fernando Gomes não está a mentir: para efeitos contabilísticos não tem impacto, pois o FC Porto já amortizou as compras dos dois jogadores.

Mas... «Em termos financeiros pode não ser [indiferente], mas isso é outra história». Nesta lógica da batata de Fernando Gomes, todos os jogadores da formação podem sair a custo zero sem problema, pois não há amortização do passe dos jogadores. Em 2019, Danilo Pereira, por exemplo, também poderia sair a custo zero, pois o passe já terá sido amortizado. No ano seguinte Corona já pode sair, e atrás dele podem seguir-se Felipe e Alex Telles, pois o passe já terá sido todo amortizado. É surreal, aliás, um administrador da SAD ignorar que, se não há amortizações de passes, então as mais-valias com vendas de jogadores são maiores!

Tudo o que seja jogadores da formação, contratados a «custo zero» e jogadores com duração contratual já superior àquela prevista no primeiro contrato que assinaram pelo FC Porto podem ir à vida deles, pois em efeitos contabilísticos não faz diferença nenhuma. Agora falta saber como é que o responsável financeiro de uma SAD que depende da concretização de mais-valias para subsistir consegue afirmar isto com cara séria.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O orçamento da época 2017-18

A SAD já deu a conhecer a proposta de orçamento que será submetida a aprovação na Assembleia Geral de 27 de novembro. Depois de meses em que as (poucas) intervenções dos dirigentes da SAD apontavam para um caminho de contenção de custos, redução da despesa e de dar passos rumo à auto-sustentabilidade, este orçamento era, é, a oportunidade de conferir se há realmente planos para isso ou se eram meras palavras. E como é hábito, resta deixar os números falarem por si - e também deixarem claro que, se queremos razões para festejar esta época, só podemos mesmo contar com Sérgio Conceição e os jogadores.


Há um ano, a SAD apontava para custos operacionais (sem despesas com passes de jogadores) de 116,5 milhões de euros - o valor final acabou por atingir os 121,8 milhões. Desta vez, a SAD prevê gastar mais do que o que havia sido orçamentado há um ano: 118,5 milhões de euros

Isto indica desde logo uma coisa: a folha salarial praticamente não baixa, apesar de ter havido um desinvestimento no plantel para esta época. A SAD prevê custos com pessoal de 69,4 milhões de euros esta época. Aliás, há uma pequena redução face ao orçamento da época passada, mas não chega aos 100 mil euros. Já em relação aos resultados finais da temporada passada, que atingiram os 73,26 milhões de euros, a redução aproxima-se dos quatro milhões de euros.

Portanto, a partir deste orçamento, concluímos que a SAD propõe uma redução dos custos com pessoal de 74 mil euros em relação ao orçamento de 2016/17 e de 3,822 milhões de euros face ao Relatório e Contas final da temporada passada. Isto leva-nos desde logo a questionar de onde saíram estas previsões particularmente animadoras. 


Além deste relato do jornal O Jogo, o site oficial do FC Porto cita Fernando Gomes: «Libertámos 26 jogadores que tinham contrato, o que nos permite já em 2017/18 uma diminuição dos custos com o plantel de 20,8 milhões de euros». De custos com plantel para salários, de 3,822 milhões de euros para 20,8 milhões, há aqui um triângulo das Bermudas qualquer, entre semântica e matemática, que faz as coisas não baterem certo. Onde está a poupança com 26 jogadores? Oportunidade para se explicar dia 27. A não ser que estejam à espera do mercado de inverno para emagrecer a folha salarial, quiçá com ativos bem remunerados que não estão a ser opção inicial para Sérgio Conceição. Especulação, nada mais. 

Os proveitos operacionais previstos também aparecem dentro da mesma linha. Na época passada, a previsão era de 98,4 milhões de euros, e ficou meio milhão acima da metade traçada. Agora, a SAD aponta para 98,8 milhões de euros. A maior fatia volta a ser esperada na UEFA, em que a SAD conta com a qualificação para os 1/8 de final da Liga dos Campeões. Mesmo havendo restrições nas opções de Sérgio Conceição e que não lhe tenham dado um único reforço para a Champions. 

Tudo isto resulta num prejuízo operacional de 19,737 milhões de euros, resultado que acaba por ser superior às previsões da época passada (18,1M€).

O resultado final esperado é então de um prejuízo de 17,277 milhões de euros (o prejuízo de 2016-17 transitará para este exercício), após serem considerados/esperados proveitos de 55 milhões de euros com transações de jogadores na próxima época. Posto isto, torna-se difícil de encontrar algo nesta proposta de orçamento que aponte para uma mudança de rumo, de redução de custos ou de aproximação da auto-sustentabilidade. Mas calma: Fernando Gomes por certo explicará, dia 27, que este é apenas o «ano zero» e que a verdadeira recuperação começará já em 2018-19. 

Coisa que nos leva a imaginar qual seria a disposição dos adeptos se um treinador do FC Porto que, estando há três anos e meio no cargo e que tenha estado envolvido nos piores resultados da história do clube, se desse ao luxo de prometer «calma que isto vai melhorar, estamos no caminho certo e a partir do próximo ano vamos começar a jogar futebol a sério». Tem tudo para correr bem. 

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Os lesados do NES

«Quem olhou para as contas da época passada, pode ver que as contas deram um prejuízo considerável. Assumidamente, não houve qualquer surpresa, porque ficou definido pela SAD que não haveria vendas, porque o treinador de então achou que os os jogadores não deveriam ser vendidos». Fernando Gomes, 07-06-2017

Três anos de trabalho
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Lembram-se dos tempos em que se dizia que, no FC Porto, o treinador treina, o jogador joga e a estrutura cuida de todo o resto? Entrámos, aparentemente, numa nova era: aquela em que o trabalho do treinador da equipa principal do FC Porto também passa por ser responsabilizado pelos prejuízos apresentados pela SAD. 

Fernando Gomes já habituou os adeptos do FC Porto às mais surreais intervenções, desde as camisolas sem patrocinador que ficam mais bonitas aos alertas para a necessidade de uma contenção que nunca chegou a pôr em prática.

Mas esta nova intervenção, de responsabilizar o treinador (no caso, o ex-treinador) pelo maior prejuízo da história da SAD, desafiam todos os limites da compreensão que se possa ter para decisões que, no cargo que ocupa, nunca são fáceis de tomar.

Aquando da operação Euroantas, o próprio Fernando Gomes admitiu que havia a necessidade de cumprir o fair-play financeiro. E na apresentação do maior prejuízo da história da SAD (em que ninguém se lembrou de dizer que era culpa do NES - como tem sido hábito, assim que um treinador deixa o FC Porto, leva com ele culpas que nunca lhe seriam imputadas enquanto estivesse no cargo), Fernando Gomes afirmou isto: «Nas nossas conversas estamos em sintonia relativamente ao que fazer: reduzir custos e não depender da venda de jogadores. Não temo sanções mais graves».

E agora, o que admitiu Fernando Gomes? «Se o FC Porto vai ter de vender jogadores? É evidente que sim.» Era capaz de ser mais fácil encontrar sintonia e segurança numa defesa composta por Kralj, Butorovic, Stepanov, Sonkaya e Benítez do que coerência nas palavras do administrador responsável pelas finanças do FC Porto. 

Esta falta de lógica não é nova. Basta recordar as palavras de Pinto da Costa em finais de novembro. «Havia dois caminhos. Era fácil apresentar resultados positivos: no último dia [de mercado], por exemplo, ofereceram-nos 30 milhões de euros por Herrera, 40 milhões por Danilo e quiseram pagar a cláusula de rescisão do André Silva que era de 25 milhões. Aí tínhamos feito 95 milhões e em vez de apresentarmos um resultado negativo íamos apresentar um resultado positivo de 40 e tal milhões. Mas a nossa opção foi aguentar porque tivemos prejuízo, mas os ativos continuaram cá, o André Silva renovou contrato».

Pinto da Costa afirmou, nesta entrevista à ESPN, que o FC Porto recusou as vendas (e fala no plural, não numa vontade expressa de NES - Danilo sempre foi imprescindível, mas Herrera foi opção intermitente e André Silva acabou secundado por Soares nas suas opções) devido a esta razão: «Não é só pelo dinheiro, é pelo prestígio porque o FC Porto, a par do Manchester United, é quem tem mais presenças na Champions e tínhamos a Roma para tentar eliminar logo a seguir. Se perdessemos esses três jogadores em cima da pré-eliminatória, as nossas possibilidades de eliminar o adversário iam diminuir muito. Foi uma opção e conseguimos o objetivo de ir para a Champions e esse prejuízo já está menor».

Ora então. O presidente do FC Porto afirmara que a SAD recusou propostas no último dia do mercado por Herrera, Danilo e André Silva, por causa do play-off com a Roma. Falta só realçar que o play-off com a Roma disputou-se a 17 e 23 de agosto. Ou seja, o FC Porto recusou a venda de jogadores porque queria estar na máxima força para um play-off que tinha sido disputado na semana anterior? 

Perante esta organização/coerência digna de um Phasianidae de cabeça cortada, o mais fácil acabou mesmo por ser isto, pelo menos na visão assumida por Fernando Gomes: coitados dos lesados do NES, neste caso, a SAD do FC Porto. 

Mas depois de tudo isto, a principal vítima tem um nome: Sérgio Conceição, que no dia seguinte à sua apresentação no FC Porto (uma excelente conferência de imprensa, a todos os níveis, com posições fortes e esclarecedoras em todas as vertentes) recebe a notícia de que ficará privado de 3 jogadores na Liga dos Campeões. 

O FC Porto já tinha dificuldades em compor a lista A da Champions, devido à falta de jogadores formados no clube com mais de 21 anos, e agora viu a UEFA reduzir a lista de 25 para 22 jogadores, o que vai certamente limitar as opções do treinador. E não, a responsabilidade não é de Nuno Espírito Santo. Nunca será de mais renovar os votos de confiança e apoio no trabalho de Sérgio Conceição, que ainda não deu o primeiro treino e já ficou sem três jogadores. Bem vindo ao FC Porto, mister!

Este é, infelizmente, o resultado de uma das frases mais acertadas que Pinto da Costa alguma vez proferiu: «Nada tenho contra políticos que são políticos, mas quando os vejo no futebol deito logo as mãos à cabeça, cheira-me logo a esturro». Sem mais a acrescentar. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

O relatório e contas do primeiro semestre 2016/17

Depois da ausência de contas no primeiro trimestre, a SAD, seguindo a data limite imposta pela CMVM, deu a conhecer os primeiros detalhes do desenrolar da época financeira 2016-17. O R&C do primeiro semestre compreende todas as operações da SAD efetuadas entre 1 de julho e 31 de dezembro de 2016 (exclui portanto o fim do pagamento do Estádio do Dragão e todas as operações do mercado de inverno). Passemos então à análise, tendo sempre presente aquilo que é previsto no orçamento desta época

A SAD chegou ao final dos seis primeiros meses da época com 29,58M€ de prejuízo. Está orçamentado um resultado positivo de 2,7M€ no final da temporada. O prejuízo é explicado por a SAD ainda não ter gerado qualquer mais-valia com transferências de jogadores no período em análise. 

É de recordar que a SAD, no orçamento, definiu a necessidade de «Proveitos com transações de passes de jogadores» no valor de 115,781 milhões de euros (para fazer face a custos de 47,2M€). Tendo em conta que a alínea das alienações de passes ficou em branco no primeiro trimestre, isso já deixa claro sobre o que será necessário até ao final de junho. Mas quem afirmou sem rodeios que recusou uma proposta de 30M€ por Héctor Herrera não há-de ter problema nenhum em fazer essas vendas antes do final de junho. Pois não?

Os proveitos operacionais atingiram os 58,76M€ nos primeiros seis meses. Todas as rubricas estão relativamente dentro do previsto - na Liga dos Campeões o FC Porto já atingiu os seus objetivos, e mesmo que seja afastado pela Juventus vai atingir os previstos 30M€ em receitas da UEFA. Há a assinalar que a SAD conseguiu, até ao momento, 42,9% das receitas de publicidade previstas, por isso a receita terá que aumentar significativamente no que resta da temporada.

Proveitos do primeiro semestre 2016-17
Em relação aos custos, destaque para o facto de o plantel desta época ser mais caro do que o da temporada passada, pelo menos nos primeiros 6 meses da temporada. Os custos com pessoal foram de 38,90M€ até ao final de dezembro, sensivelmente mais 2M€ do que na época passada. Os custos aumentaram nas seis alíneas especificadas no ponto 19, desde os órgãos sociais aos seguros. 

Este valor não vai propriamente ao encontro do que estava previsto no orçamento, que eram custos com pessoal de 69,51M€. Se os custos dobrassem no segundo semestre, isso resultaria em gastos de 77,8M€, muito acima do que estava orçamentado. Com os ajustes no mercado de inverno, veremos se esta rubrica será cumprida. Quanto aos restantes custos operacionais, tudo dentro da expetativa e do que estava orçamentado.

Custos operacionais do primeiro semestre 2016-17
Nos resultados operacionais sem transferências de jogadores, o prejuízo é de 4,96M€, bem inferior aos 19,64M€ do primeiro semestre de 2015-16. A diferença está essencialmente nas receitas da UEFA. 

Chegamos então ao capital próprio e a um dos focos mais negativos deste R&C: todos os efeitos gerados pela operação Euroantas, de incorporação do Estádio do Dragão na SAD, já se esfumaram. A SAD voltou a apresentar capitais próprios negativos, de 3,449M€. Há dois anos, depois da operação Euroantas, os capitais próprios eram de 56,6M€. E no final da temporada 2014-15, chegaram aos 83,1M€, um valor excelente. Neste momento, a SAD, com capitais próprios negativos, volta a pairar numa situação de falência técnica, o que infelizmente mostra que a operação Euroantas não foi mais do que aquilo que se temia na altura - um empurrar de problemas com a barriga. Uma situação que terá que ser retificada não só até ao final de junho, como nos exercícios seguintes. 

O ativo mantém-se praticamente inalterado face há um ano, no valor de 374M€. A principal alteração está nos ativos correntes, agora situados em 97,7M€. E chegamos a outro problema: à subida abrupta do passivo, que está a chegar a números preocupantes. 

O passivo estava, no final de dezembro, fixado em 377,5M€. No final da época 2012-13, a última em que o FC Porto foi campeão nacional, o passivo era de 220 milhões de euros. Ou seja, o passivo aumentou 71% desde a última conquista de um campeonato. Em 2010, por exemplo, o passivo era de apenas 160M€. Estamos a falar de um aumento de mais do dobro desde que se iniciou a dourada época de 2010-11, em que o FC Porto começou a gerar vendas milionárias como nunca, de Hulk a Falcao, de Mangala a James, etc. Resultado? Mais do dobro do passivo. 

O passivo, dirão alguns, não se paga, gere-se. Sim, até ao dia. O presidente Pinto da Costa afirmou, em 2013, que «quem vier a seguir basta não estragar». Desde essa afirmação o passivo da SAD aumentou mais de 150 milhões de euros. E desde esse ano, nem um título para amostra. 

Quanto às aquisições, o FC Porto gastou 47,47M€, com comissões de 4,2M€, em seis jogadores: Óliver, Alex Telles, Boly, Depoitre, Otávio e Govea. 

Óliver começa por ser uma surpresa. Primeiro, por os 20M€ corresponderem a apenas 85% do passe. Segundo, por a SAD já ter incluído a compra de Óliver nas contas do primeiro semestre, indicando que o seu passe foi comprado em setembro. Um tanto confuso, tendo em conta que só anunciaram a sua compra a 9 de fevereiro. Boly e Alex Telles custaram 6,5M€ cada por 100% do passe, enquanto Depoitre custou 6M€ por 90%, valores já esperados. 

O caso de Otávio também é uma surpresa, com a SAD a ter comprado mais 20% do seu passe por 2,257M€. A SAD já tinha a opção de comprar mais 20% à GE Assessoria Esportiva e 15% do pai de Otávio. A soma destes 35%, no acordo oficial, custariam mais 5M€ ao FC Porto. Para já, a SAD passa a ter 52,5% de Otávio. Destaque também para a compra de Govea, por 2M€ ao América, pela totalidade do passe. Uma compra que obriga a que Govea seja pelo menos incluído nos trabalhos de pré-temporada da equipa principal para 2017-18. Govea tem revelado valor acima da média na equipa B, apesar da má época que está a ser feita pela equipa na Segunda Liga. 

Uma vez mais, a SAD declara mais do que uma entidade por jogador (pelo menos entre os que são declarados neste R&C) na hora do pagamento de serviços de intermediação. Voltaremos a eles numa análise futura, mas assinale-se já a curiosidade de a Energy Soccer receber 244 mil euros de comissão pelo empréstimo de Aboubakar ao Besiktas. Uma vez mais, a Energy Soccer aparece como intermediária de um jogador que não representa. 

A SAD tem a receber pouco mais de 40M€ de outros clubes por venda de jogadores, dos quais apenas 8M€ do São Paulo (sem surpresa) não são uma verba corrente. É possível ver dívidas de 190 mil euros do Villarreal (por Adrián), 250 mil do Trabzonspor (por Suk) e 600 mil do Espanyol (por Reyes), mas mantém-se a curiosidade em torno da Doyen: mantém-se uma dívida de 2,788M€, pela alienação do passe de Brahimi. Por norma, a alienação de passes permite assegurar receitas para o curto prazo; neste caso, alienou-se o passe de Brahimi à Doyen para nada, pois a SAD não tinha tocado neste 2,788M€ até ao final de dezembro (importa no entanto lembrar que a dívida ao Granada, ex-clube de Brahimi, também se mantém nos 3,332M€ - o que não será de todo uma coincidência). 

Por outro lado, a SAD tem ainda a pagar mais de 75M€ a outros clubes/entidades por jogadores já presentes no plantel, dos quais 52M€ no prazo de um ano. É possível desde já constatar que a SAD terá a pagar 5M€ ao Atlético de Madrid até dezembro de 2017. Tendo em conta que, tecnicamente, o contrato de Óliver com a SAD só seria efetivado a partir de 1 de janeiro de 2018... Confuso. A situação dos restantes Fornecedores será merecedora de uma análise mais detalhada futuramente. 

Em relação à situação bancária, a SAD abriu cinco novos contratos de factoring entre outubro e dezembro, que superam os 35 milhões de euros e apenas um será liquidado ainda na corrente época - 6M€ ao já bem conhecido Bankhaus Bodensee. E o reembolso será, precisamente, a verba a receber da UEFA pela eliminatória contra a Juventus, uma prática já muito recorrente na gestão da SAD, de tentar antecipar o máximo de receitas possível - e com isso nunca tirar o máximo de proveito das mesmas, na medida em que há sempre juros a pagar. 

Mas além do Bankhaus, a SAD fechou um empréstimo de 6M€ com o Novo Banco e um de 18,578M€ com o Ectonian AG, este último com termo em 2019. E é aqui que entram as maiores preocupações. Em ambos os casos, a liquidação está prevista com o dinheiro dos direitos televisivos: a PPTV no caso do Novo Banco, dentro de seis meses, e o maior contrato de factoring já através da Altice, com o dinheiro de «épocas futuras», diz a SAD. 

E no que toca ao adiantamento de receitas, o maior destaque neste R&C é este:


O contrato com a Altice, pelos direitos televisivos e de exploração, só tem início a 1 de julho de 2018. Mas a SAD já dá conta de um adiantamento bastante significativo. Estamos a falar do recurso a 12,5% do valor total do contrato com a Altice um ano e meio antes do mesmo entrar em vigor. 

Fernando Gomes chegou a afirmar que o contrato com a Altice/PT ia permitir «gerir o FC Porto de maneira diferente». Pois. Diferente é a palavra, mas não para melhor. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

«Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil»

«É evidente que os recursos que estão afetos ao futebol vão sendo cada vez mais curtos para fazer face às exigências do futebol. Tem de haver sensatez e prudência nesse equilíbrio. Senão, um dia, pode não haver recuperação fácil».

Faz este fim-de-semana dois anos que Fernando Gomes, administrador da SAD do FC Porto, disse estas palavras no Porto Canal. Um apelo à contenção de custos e o reconhecimento de que ia ser necessário apertar o cinto.

Afinal, o FC Porto tinha acabado de apresentar um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Os custos com pessoal eram de 48,8M€. Os custos operacionais foram de 95,17M€. Os proveitos operacionais atingiram os 72,6M€. O défice operacional de 22,5M€. Os salários cobriam 67% dos proveitos operacionais (a UEFA não recomenda mais de 70%). O passivo era de 233M€. O valor investido no plantel foi de 46,5M€. Os encargos sobre transferências foram de 4,8M€. A dívida total em empréstimos era de 139M€.

Há dois anos, Fernando Gomes tinha feito um reconhecimento geral da necessidade de reduzir os custos, não só aplicável ao FC Porto como à generalidade do futebol português. Dois anos depois, através do R&C de 2015-16, podemos concluir que o FC Porto não só não reduziu os seus custos comparativamente a 2014 como foi capaz de aumentar de forma abrupta todas as alíneas.

O prejuízo de 2015-16 foi de 58,4M€. Os custos com pessoal aumentaram 27M€. Os custos operacionais aumentaram 30M€, para 124,4M€. Os proveitos operacionais tiveram um ligeiro aumento para 75,8M€. O défice operacional dobrou para os 48,6M€. A totalidade das receitas operacionais não chega para cobrir 100% dos salários. O passivo está à porta dos 350M€. O investimento total no plantel foi de 78,4M€, dos quais 15,16M€ em encargos. A dívida total de empréstimos chegou aos 178,35M€ (dos quais 10M€ após a operação Euroantas). Uma realidade um bocadinho ao lado daquela a que Fernando Gomes apelava em 2014. 

Já no início do ano, Fernando Gomes falava do acordo do FC Porto com a PT/Altice. «É um grande acordo que permite sobretudo que o FC Porto, enquanto empresa, possa ser gerido de forma menos contingente. Até agora, os encargos operacionais eram sempre superiores aos proveitos operacionais, sem contar com as mais-valias das transações de passes de jogadores. A partir de agora podemos vir a deixar de ter de tomar decisões sob pressão. Permite gerir o clube de outra forma, mais objetiva económica e financeiramente e sem estar tão dependente dos ganhos ocasionais em janeiro e no final da época. É essa a grande vantagem». Ainda não chegámos a 2018, mas o contrato com a PT/Altice já parece uma espécie de oásis no deserto, insuficiente para matar a sede.

E ainda na entrevista ao Porto Canal, Fernando Gomes afirmou: «Este ano, fizemos um aumento de capital que superou o capital social negativo e resolveu os nossos problemas do fair-play financeiro. Não é preciso um grande resultado para, no próximo ano, cumprirmos o fair-play financeiro».

Chegamos a 2016 e o FC Porto falhou o fair-play financeiro. Não podia apresentar um prejuízo de mais de 8,6M€, apresentou de 58,4M€. Em 2014, a SAD apostou na absorção do Estádio para resolver o problema dos capitais próprios. Dois anos depois, revelou-se incapaz de gerar as receitas necessárias para cumprir com o fair-play financeiro.

O fair-play financeiro não era só para cumprir num ano, mas sim ano após ano. Enquanto aguardamos que a UEFA fale sobre o que poderá acontecer ao FC Porto, é bom lembrar que a época 2016-17 vai ser ainda mais difícil do que a época anterior no que toca ao FPF.

Em 2014-15, 19,3 milhões de euros de lucro. Em 2015-16, 58,4 milhões de prejuízo. Logo, à partida para esta época, a SAD já vai ter que apresentar 9,1 milhões de euros de lucro para não violar as regras para o triénio que acaba em 2017. Isto apenas para cumprir o fair-play financeiro, não para tapar todos os buracões da época passada. Resta aguardar para conhecer em que medida as deliberações da UEFA podem ditar novas regras/limites financeiros para o FC Porto cumprir no curto prazo.

Por fim, apetece perguntar: por onde andaram as palavras ditas por Fernando Gomes em 2014 nos últimos dois anos? 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

34 coisas a reter do Relatório e Contas 2015/16

- No orçamento proposto há um ano, a SAD pretendia fechar o exercício com um lucro de 1,793 milhões de euros. Terminou com um prejuízo de 58,411 milhões de euros, o maior da história do futebol profissional em Portugal. 

- O FC Porto apontava para receitas operacionais de 85,433 milhões de euros. Ficou-se pelos 75,811 milhões de euros, muito por causa das receitas da UEFA (a SAD esperava 27,437M€, mas terminou com apenas 11,603M€). Na generalidade das restantes rubricas, merchandising, bilheteira, direitos televisivos e publicidade, a SAD ficou ligeiramente acima das expetativas e cumpriu com o que estava orçamentado. Nas receitas operacionais, o problema foi por isso a Liga dos Campeões - não é possível continuar a dar por garantido, orçamento após orçamento, que o FC Porto vai estar sempre presente na Champions. 

- Nos custos operacionais, eram esperadas despesas de 107,76 milhões de euros. Os custos acabaram por bater o recorde de 124,325 milhões de euros. A folha salarial ficou quase 7M€ acima do que estava previsto, algo verdadeiramente preocupante e negativo, sobretudo tendo em conta que em janeiro saíram alguns dos mais bem pagos do FC Porto, casos de Tello, Imbula e Osvaldo. Custos com pessoal de 75,79M€ são uma violação do que já era incomportável. A SAD diz que a subida se deve essencialmente às indemnizações de Julen Lopetegui e José Peseiro (dois exemplos em que erros de gestão desportiva têm consequências financeiras - um pelo momento da saída, outro pela chegada). 

- Os Fornecimentos e Serviços Externos voltaram a disparar: a SAD gastou sensivelmente mais 6M€ do que estava previsto, ao chegar aos 38,662M€ de despesa. 

- Toda a receita da atividade corrente da SAD não chega para pagar os salários da época 2015-16. 

- A SAD tinha que apresentar um resultado de 72,591M€ com transações de passes. Após custos, amortizações e perdas por imparidade, a SAD apresentou apenas 7,102M€ (no que toca a mais-valias, contando com Alex Sandro, as mesmas chegaram a 40,22M€). 

- A SAD pretendia fechar o exercício com um prejuízo de 22,323 milhões nos resultados operacionais sem vendas de jogadores. O prejuízo foi mais do dobro do que estava orçamentado, 48,614M€

- Nos últimos três exercícios, o FC Porto acumulou um resultado negativo de quase 80M€ - pior que em todos os anos anteriores de atividade da SAD juntos. 

- O ativo subiu para 375M€, uma subida de 15,81M€, algo que se deve unicamente ao valor do plantel, que subiu quase 25M€ na rubrica de ativos tangíveis. 

- Em contraste, o passivo sofreu uma subida abrupta, de 73M€, atingindo agora quase os 350M€. O passivo corrente aumentou cerca de 25% no prazo de um ano, estando agora nos 202 milhões de euros. 

- A SAD explica o prejuízo com uma «decisão estratégica de não transferência de alguns ativos da sociedade, com finalidade de competir ao mais alto nível em 2016-17». Buster Keaton, Charlie Chaplin e Harold Lloyd dão por eles a pensar que deixaram muito por fazer no mundo da comédia. 

- A SAD informa, pela primeira vez, que Helton rescindiu o contrato que tinha com o FC Porto. Assim sendo, já não é um profissional assalariado pelo clube e já não tem qualquer ligação a este emblema.

- O capital próprio mantém-se positivo, mas desceu 57,25 milhões de euros no espaço de um ano, um espelho do prejuízo apresentado. Os efeitos da operação Euroantas, cuja cedência do clube para a SAD também fazia parte de uma «visão estratégica e ponderada», estão cada vez mais reduzidos. 

- Face à subida do passivo, e tendo em conta que um dos empréstimos obrigacionistas conhecerá o prazo para reembolso neste exercício, a SAD diz que «o Conselho de Administração está a estudar a realização de uma operação financeira para reestruturação deste passivo, de forma a assentar uma parte significativa da sua dívida no longo prazo».

- Pela primeira vez, a SAD decidiu pronunciar-se sobre o falhanço do fair-play financeiro. A SAD não podia apresentar mais de 8,6 milhões de euros de prejuízo, o que significa que falhou o FPF por cerca de 50 milhões de euros. Resta agora aguardar que a UEFA se pronuncie sobre as punições a aplicar ao FC Porto - e que o Conselho de Administração responda depois por elas e que assuma as responsabilidades pelas mesmas. Aqui a culpa - se preferirem, a responsabilidade - não é dos blogues, não é da imprensa, não é dos adeptos, não é do árbitro, não é do Marega, não é do Lopetegui e não é do Trump: é do Conselho de Administração da SAD. Democraticamente reeleito por 79% dos associados votantes, diga-se. 

- Maicon saiu para o São Paulo por 12M€, gerou uma mais-valia de 9M€ e o FC Porto indica que comprou 50% de Inácio por 3M€. Mas o FC Porto pagou no total 6M€ ao São Paulo. Se Inácio custou 3M€ por metade do passe, a que se devem os restantes 3M€ pagos ao São Paulo?

- O FC Porto pagou 15,162 milhões de euros com encargos com transferências na última época. O FC Porto detalha as compras de 11 futebolistas (há 5M€ pagos por jogadores que não são discriminados) e pagou comissões a um total de 25 entidades diferentes. 

- A SAD tem 60% do passe de Víctor García, pois já tinha adquirido 10% no último trimestre de 2014/15, além dos 50% que comprou depois à Northfields. 

- A SAD tem a receber 50,69M€ de outros clubes no prazo de um ano. Entre os novos devedores, entram o Stoke (13,37M€), o Portimonense (615 mil), o Atlético Paranaense (500 mil) e a Real Sociedad (300 mil). Nota para a Doyen, cuja dívida em relação ao FC Porto aumentou no último ano, para os 2,877 milhões de euros. 

- A SAD já começou a antecipar as receitas do novo contrato com a PT/Altice (que só entra em vigor em 2018), ao utilizar 10M€ como garantia para um empréstimo junto do Montepio.

- A SAD antecipou 13,37M€ da receita de Imbula, ao recorrer ao Macquarie Bank, banco australiano.

- A SAD está mesmo apostada na antecipação de receitas - tentar tapar os buracos do presente comprometendo o futuro. Outro exemplo foi o contrato com a Unicer: foi renovado em abril e, no mesmo mês, a SAD usou-o como garantia para um empréstimo de 4,2M€ junto do BIC. 

- No R&C Individual, a SAD dá conta de adiantamentos de 4M€ em 2014-15 e de 27M€ em 2015-16 nas receitas televisivas. No R&C Consolidado, os adiantamentos apontam para 36,9M€ em 2015-16 e 9M€ em receitas do patrocinador principal.

- Fernando Gomes disse, no início de janeiro, que o contrato com a Altice ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falava?

- O FC Porto deve 37,743M€ no prazo de um ano a outros clubes.

- Em dezembro, o FC Porto tinha uma dívida corrente de 1M€ e uma não corrente de 1,8M€ ao Portimonense, pela contratação de Danilo. Neste momento (a 30 de junho), a dívida não corrente mantém-se (1,8M€), mas a dívida corrente já é de 2,75M€. O que significa que o FC Porto comprou mais jogadores ao Portimonense - ou através do Portimonense -, mas não há detalhes sobre isso. Gleison é um desses casos.

- Nos Fornecimentos e Serviços Externos, destaque para um aumento de 601 mil para 3,5 milhões de euros do FC Porto em despesas com os direitos de imagem dos seus jogadores. Há mais 2M€ de despesas que não são discriminadas. Nota para uma descida na «Publicidade e Propaganda» para sensivelmente metade, agora de 1,06M€.

- Nos custos com pessoal, o plantel mantém-se na casa dos 54M€. As remunerações dos Órgãos Sociais subiram para 1,97M€, apesar dos vencimentos de Pinto da Costa (520 mil euros) e administradores da SAD (287) se manterem inalterados. As rescisões com Lopetegui, Helton, Peseiro e restantes staff saíram caro, pois a rubrica ascende a 4,4 milhões de euros. 

- Em 2015, o FC Porto tinha 329 profissionais no Grupo. Neste momento, são 431, com destaque no aumento dos administrativos (de 133 para 217), dos técnicos desportivos (37 para 54) e dos atletas (77 para 85). No Museu, saíram sete pessoas, estando agora 25 ao serviço do FC Porto. 

- O FC Porto teve proveitos de 2,769M€ com empréstimos de jogadores. Em sentido inverso, teve custos de 3,347 com empréstimos de jogadores. 

- A SAD incluiu uma alínea em que dá conta de operações realizadas com Alexandre Pinto da Costa, filho do presidente, na envolvência da Energy Soccer em transferências e renovações de contratos. A Energy Soccer faturou 465 mil euros com comissões nas saídas de Rolando e Quaresma, na compra de Fede Varela, na renovação de Leandro Silva e na assinatura do contrato profissional com Rui Pires (menino a seguir com muita atenção). Estão pendentes 108 mil euros. Saúda-se que a SAD apresente estes detalhes das contas, mas deveria ser aplicável a todos os membros do Conselho de Administrações que negoceiam com familiares. 

- A SAD diz que os custos de Alex Telles, Depoitre e Boly implicaram um valor global de 19M€. Tendo em conta que Alex Telles, segundo o Galatasaray, custou 6,5M€, a SAD confirma que investiu 12,5M€ em Depoitre e Boly. 

- Fernando Gomes diz que foram rejeitados 95M€ por André Silva, Danilo e Herrera. Tendo em que conta que Fernando Gomes diz que tal permitiria apresentar resultados positivos, então foram propostas apresentadas até 30 de junho. Assim sendo, André Silva tinha uma cláusula de rescisão de 25M€, por isso houve um total de 70M€ propostos por Danilo e Herrera. Tendo em conta que Danilo tem uma cláusula de 40M€, ou andaram a oferecer propostas acima das cláusulas, ou o FC Porto rejeitou uma proposta de pelo menos 30M€ por Herrera. É a vez de Cervantes, Dumas e Dickens sentirem as suas obras incompletas. 

- O FC Porto justifica-se com esta frase: «Demos um passo atrás, para darmos agora dois ou três em frente». Esperemos é que tenham reparado que já têm o abismo debaixo dos pés.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Recondução e coincidência poética

Uma curta reflexão a abrir: o FC Porto (clube) detém cerca de 3/4 das ações da SAD e mantém todas as ações de categoria A, o que confere o poder de designar os elementos do Conselho de Administração da SAD.

Ora a atual direção está em final de mandato e só em abril vai ser formalmente reeleita (poderia até não ser, se houvesse uma forte lista concorrente, coisa que nunca existiu na era Pinto da Costa e que continuará a não existir). Que sentido faz uma direção em fim de mandato eleger, atempadamente, a administração da SAD para o próximo quadriénio?

Imaginem - só mesmo imaginando - que uma lista alternativa ganharia as eleições para o clube, um mês depois de o Conselho de Administração da SAD ter sido reconduzido a novo mandato. Não faz sentido. Primeiro deveriam ocorrer as eleições do clube e só depois a direção eleita deveria designar os membros da SAD. Até porque quando o clube assumiu a maioria da SAD, aquando da operação Euroantas e da absorção da parte da Somague, era suposto isso conferir maior poder de intervenção dos associados nos destinos do FC Porto. Neste caso, a administração da SAD foi reeleita ainda antes dos sócios se poderem pronunciar. E sem que tenha sido apresentado aos associados um plano para os próximos anos.

Posto isto, a entrada de Antero Henrique no Conselho de Administração da SAD acabou por ser a principal novidade na AG que reconduziu Pinto da Costa e restantes parceiros à reeleição. Antero Henrique vê, no papel, os seus poderes no FC Porto serem reforçados, o que faz com que o Conselho de Administração aumente para sete elementos, dos quais dois não executivos - José Américo Amorim junta-se a Vieira de Sá. 

Na prática, Antero Henrique passa a poder validar, diretamente, contratos ou transferências que envolvam a SAD - é sempre necessária a assinatura de dois membros do Conselho de Administração. Até aqui, só Pinto da Costa, Fernando Gomes, Adelino Caldeira e Reinaldo Teles, independentemente de conduzirem ou não os processos em causa, podiam validar esses documentos. Antero Henrique vê assim ser aumentada a sua influência na SAD, inclusive após o processo Operação Fénix, embora a sua influência no FC Porto seja patente de há 10 anos para cá, com ou sem estatuto oficioso de administrador da SAD.

Um lamento que, por clara e infeliz coincidência, o R&C do primeiro semestre tenha sido comunicado à CMVM há apenas três dias - era necessário um intervalo de cinco dias para os acionistas colocarem, atempadamente, questões à AG. Esteve representado 83,78% do capital social da SAD. A sua composição, a saber: 


A SAD foi reconduzida antes das eleições no clube, no qual Pinto da Costa também vai ser reconduzido, com mais ou menos votos. Mas seria bom apresentar o quanto antes o seu programa para o 14º mandato, de modo a que os sócios pelo menos saibam que estão a votar num projeto para os próximos quatro anos, e não apenas num currículo de três décadas. É tempo de trabalhar presente e futuro, não de reconhecer o passado - reconhecimento pelo passado é eterno e intocável, mas é isso mesmo: passado, não futuro.

Não haverá listas alternativas, pois nenhum candidato terá a coragem de concorrer contra Pinto da Costa. Quem o fizer será eternamente visto como o homem que desafiou Pinto da Costa. Basta ver que qualquer voz de contestação que se levante é imediatamente abafada por diversas vias. Nas AG também não é fácil intervir - basta ver quando, há um ano, nas alterações de estatutos, um sócio decidiu abster-se (e disse porquê) e foi imediato pressionado pelo barulho de fundo da sala, onde muitos marcam presença não para discutir o que importa mas para abafar quem ouse questionar alguma ação.

E por muito que haja cada vez mais interessados e preocupados com o rumo do clube nos últimos anos, estamos ainda a falar de uma minoria. Disse Vítor Baía, e bem, que há quem esteja a preparar-se nos bastidores para avançar, mas só o vai fazer quando Pinto da Costa decidir sair (uma ironia Vítor Baía estar a ser puxado para uma dessas mesmas jogadas, mas isso é tema para outra altura). E quando o fizer, terão que ser os sócios a escolher, não uma elite já pré-definida, que pensa que vai direitinha para o poder - ou que vai poder continuar a manter o poder quando o presidente sair. Não são eles quem vão escolher. Nem sequer Pinto da Costa. São os sócios. Quem quiser que se chegue à frente com os seus projetos, pois é o projeto que deve ser eleito, não os homens ou o seu passado.

Pinto da Costa vai estar hoje em Cantanhede e seria bom ouvir as perspetivas para o próximo quadriénio da SAD, até porque foram os acionistas a reconduzir esta administração. Uma palavra para sócios e adeptos ficaria bem, sobretudo antes de uma jornada importantíssima.

Para render até 4,425M€
Entretanto, o Football Leaks escolheu o dia seguinte à reeleição dos órgãos sociais da SAD para divulgar o contrato com as comissões da renovação de contrato de Rúben Neves. O timing é uma coincidência poética. Mas é oportuno conhecer os seus contornos e confirmar que isto vai bem além dos 5% do passe (potencialmente convertíveis a 2M€ no momento de uma transferência).

A saber, José Caldeira embolsou 225 mil euros só com a renovação do contrato de Rúben Neves, na altura quando ele ainda tinha 17 anos. Depois disto, a SAD paga 100 mil euros por 20 jogos oficiais; e mais 50 mil se chegar aos 30 jogos; e mais 50 mil por 40 jogos. Posto isto, «em consideração pelos servidos prestados pelo agente ao clube» (palavras da SAD), o irmão de Adelino Caldeira ficou com 5% do passe.

Em relação aos serviços, e embora isto seja a justificação padrão em todos os contratos da SAD (e até em todos os clubes), é curioso ver os três pontos que justificam a intervenção de José Caldeira e interpretar o que cada um deles quer realmente dizer: a) aconselhar o FC Porto na estratégia de renovação (claramente, era preciso um grande aconselhamento para o clube perceber que tinha que renovar com Rúben Neves; podia haver dúvidas); b) servir como intermediário e informar o jogador das condições que o FC Porto tem para ele (o Rúben Neves chegou há pouco tempo ao clube, passa pouco tempo nas instalações do clube e tem uma agenda muito preenchida, que o impediria de se sentar à mesa com a Administração da SAD; ainda bem que houve um pombo-correio a resolver este problema); c): convencer o jogador a aceitar o FC Porto em vez de procurar outro rumo para a sua carreira (ainda bem que José Caldeira aconselhou Rúben Neves a renovar, se não ele, um portista de berço e sangue, até era capaz de assinar pelo Benfica. Uma estátua para Caldeira, pois sem ele não havia Rúben Neves!).


Mas... Se a proposta para a transferência de Rúben Neves para outro clube for apresentada por José Caldeira, então a percentagem que o empresário tem direito passa a ser de 10%. Ou seja, potencialmente 4M€ se tivermos em conta o valor da cláusula de rescisão. Tendo em conta que José Caldeira surgiu como intermediário e que o empresário é agora Jorge Mendes, pouco leva a crer que José Caldeira tenha capacidade ou conhecimentos para apresentar uma boa proposta por Rúben Neves. 

Mas para efeitos contratuais José Caldeira pode então, na melhor das hipóteses para o empresário, ganhar 4,425M€ com a transferência de Rúben Neves, um produto da formação do FC Porto e que se calhar Caldeira nem conhecia até começar a jogar na equipa principal - ou seja, três meses antes da renovação. 

Este foi o último contrato de Rúben Neves do qual se tenha tido conhecimento. O FC Porto já disse que ele tem contrato até 2019, mas desconhece-se em que termos. O que se conhece, para já, é quanto José Caldeira pode ganhar. Infantino, ajuda lá a malta a calcular quanto é 3%.

PS: As coisas que se fazem para desestabilizar o Benfica em semana de derby!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Culpas e responsabilidades

Não há adepto do FC Porto que perdoe um jogador que não dá tudo. Se não mete o pé ou não puxa mais um bocado no sprint, não é perdoado. Porque todos os adeptos exigem que cada jogador faça o que está ao seu alcance para ajudar o FC Porto a vencer. Se fazemos essa exigência aos jogadores, não era de esperar menos face à exigência perante a administração da SAD.

Começando por aqui: o caso das prendas ilegais do Benfica às equipas de arbitragem. Este caso foi descaradamente arquivado pela Liga, mesmo quando os regulamentos estão chapados e aos olhos de qualquer pessoa. Mas a lavagem pública que foi feita levou muita gente, inclusive portistas, a aceitar este desfecho com naturalidade. 

Culpas e responsabilidades
Inaceitável. Veja-se lá que a comissão de inquérito foi perguntar aos árbitros se eles se sentiam pressionados ou coagidos. Isto é um gozo! Nos regulamentos, o que é punível não é o sentimento dos árbitros: é a oferta de prendas de valor comercial. Não interessa o sentimento do árbitro, o que é ilegal foi a prática do Benfica - que aparentemente deixou de entregar os seus kits (se não havia nada incriminatório, por que deixar de os entregar?). Vítor Pereira mentiu, em defesa do seu clube (por seu, entenda-se o único clube que o segura na instância da arbitragem), e o Benfica só teve que esperar que o caso chegasse a este desfecho.

Que fez o FC Porto perante tudo isto? Nada. Ficou calado, sem uma única reação. Mas porquê? Ficar em silêncio perante isto é a mesma coisa que o Maicon parar de correr, que o Herrera falhar um passe e o Varela perder a bola: é uma gestão que não faz tudo o que está ao seu alcance para ganhar. Indiferença? Reféns de alguma coisa? Ou estratégia? Nada o justifica.

Na perspetiva de um dirigente do FC Porto, não pode haver maior vergonha de que esta: Bruno de Carvalho, indiretamente, fez mais pela defesa do FC Porto neste processo do que todos os dirigentes do FC Porto juntos (o FC Porto é que foi 2º classificado em 2014-15, não foi o Sporting, logo, sem o colinho descarado, o campeão seria o FC Porto) . Não há como aceitar isto.

Sabe-se lá porquê, alguns portistas meteram na cabeça, e cultivaram essa ideia, que o FC Porto tinha que ganhar 34 jogos em 34 jornadas. Como se isso existisse, como se isso fosse possível. Todas as equipas perdem pontos todos os anos, e perdem sempre em jogos teoricamente mais acessíveis; o que não foi normal foi o camião de pontos que o Benfica garantiu à boleia de erros de arbitragens sempre em prejuízo dos seus adversários. 

E perante isto, que fez o FC Porto? Nada. Aliás, despediu a única pessoa, por mais ou menos valias que tenha tido, a contestar todo o desenrolar da última época.

E com isto chegamos ao jogo com o Arouca. Uma equipa que perde em casa com o Arouca não pode ser campeã, como é natural. Não se sabe bem porquê (ou talvez sim), mas gerou-se por aqui um mini-motim nos últimos dias na caixa de comentários. Porque o FC Porto tinha ganho ao Estoril e ao Gil Vicente, e tinha contratado Peseiro, Marega e Suk no mercado de inverno, logo não se podia criticar nada de nada. Ora foda-se. Que FC Porto é este que acha que os seus problemas foram resolvidos por ganhar dois jogos ao Estoril e ao Gil Vicente!?

O erro do auxiliar de Rui Costa (e não é que o FC Porto não mete nome ao sujeito!?) prejudicou gravemente o FC Porto. O problema é que este não é um erro de arbitragem isolado. Acontece na jornada que antecede a visita do FC Porto à Luz. Vamos a seis pontos, podemos sair de lá a nove. A luta pelo título já está longe para o FC Porto, mas até o acesso à Liga dos Campeões já está em causa (e que grande rombo financeiro será falhar o apuramento). E este erro de arbitragem é apenas mais um dos muitos que se acumularam nos últimos tempos, sem que o FC Porto o combatesse declaradamente. 

Todos gozam com o circo que o Sporting montou. Protestam sem razão, preparam comentadores para os espaços televisivos, montaram uma máquina de propaganda similar à célebre do Benfica e fazem o papel de eternos coitadinhos e vítimas. E sabem o que é que também estão a fazer? Tudo o que está ao seu alcance para serem campeões! E a verdade é que podem, à 21ª jornada, ficar já com praticamente irrecuperáveis 8 pontos de avanço sobre o FC Porto, e vergonhosos 11 na jornada seguinte. O Sporting, porra! O Sporting!

Veja-se lá que até meteram Cosme Machado a admitir publicamente um erro de arbitragem, violando a alínea G, do artigo 19 do do subtítulo II do regulamento de arbitragem. Alguém acredita que agora vamos ver o árbitro auxiliar (vá, metam nome ao sujeito) dar uma entrevista a assumir que prejudicou o FC Porto? Veja-se a diferença de tratamento que será feita.

E agora, voltamos a fazer uma piadinha no Dragões Diário e depois volta tudo a esperar que José Peseiro faça o milagre? Esta reação do Dragões Diário é novamente de um amadorismo que não tem descrição. Por acaso viram o árbitro Rui Costa a levantar a bandeirinha quando Brahimi marcou? Não? Pois não, pois quem assinala os fora-de-jogo não é o árbitro principal, é o auxiliar. E o FC Porto achou que o interessante era realçar o parentesco entre Rui Costa e Paulo Costa, nem sequer metendo nome ao responsável pela perda de pontos do FC Porto. Volvidos quase dois anos, tempo de fazer um balanço: que anda Manuel Tavares a fazer no clube? Que política de comunicação é esta levado a cabo desde a sua chegada ao FC Porto? Mudanças, para ontem!

Quanto a José Peseiro, não vale a pena tecer críticas ao jogo de ontem. Se tiver sucesso no FC Porto, é um herói. Se não tiver, quem assumiu a aposta nele só tem que se responsabilizar pelo sucedido. Porque quem, através da análise feita nos últimos 10 anos, julgou que encontrou em José Peseiro o homem para esta «missão impossível» no FC Porto só pode ter uma justificação muito boa.

Culpas e responsabilidades
Além de trazermos um treinador sem o hábito de lutar por títulos (atravessamos uma fase em que é necessário um treinador que faça do FC Porto campeão, não um treinador que venha para o FC Porto para ser campeão - são coisas diferentes), o FC Porto consegue a proeza de sair do mercado de inverno mais fragilizado do que quando começou o mês de janeiro. Todos sabem que as equipas de José Peseiro mostravam-se muito frágeis no momento de transição defensiva. Ok, alguém achou que era no FC Porto que isso ia mudar. Mas além disso saem do mercado de inverno sem uma única tentativa de reforço do setor.

José Peseiro também não tem culpa que Ángel comece o jogo a dormir, que Casillas não saia da baliza, que Indi não ganhe uma bola de cabeça e que Maicon tenha tido mais uma paragem cerebral. É um treinador que sempre teve dificuldades em preparar as suas equipas defensivamente, mas que culpa pode ter um treinador perante estes erros individuais? E que culpa tem o treinador que vê a sua equipa ter um golo mal anulado? Discutam o que quiserem, mas não será por Peseiro que o FC Porto deixará de ser campeão; tal como, cruel realidade, dificilmente será com ele que algum dia o será. Pelo menos não esta época, onde não houve tempo para preparar uma equipa com pré-temporada e devido reforço do plantel.

O FC Porto manteve a aposta assumida de que ia lutar para ser campeão e sai do mercado de inverno com Suk e Marega. Não vale a pena continuar a criticar as contratações, porque já estão feitas e são estes que sobram para ir à luta, mas sinceramente que esperavam? Quem achou que era com Peseiro, Suk e Marega que o FC Porto ia passar do 3º lugar para o título?

E se o FC Porto não conseguir um bom resultado na Luz e for eliminado pelo Dortmund? Também se faz o funeral a José Peseiro ou começa-se, finalmente, a perceber que o problema vai muito além do treinador? Não tarda e o cemitério de treinadores, que ficava mais a sul, muda-se de vez para norte.

Considerem-se estes os «Machados» a atribuir pelo jogo de ontem. «Bonés» nem um, nem sequer um chapéuzito. Podemos alegar que o FC Porto construiu oportunidades de golo, atacou, tentou, e teve um golo mal anulado que mudou toda a história do jogo. Mas de que nos podemos verdadeiramente queixar se Bracalli acaba o jogo com menos defesas do que Casillas?

Esta administração vai ser reeleita dentro de dois meses (Pinto da Costa, na última entrevista que deu, nem sabia ao certo quando eram as eleições), e para um mandato de 4 anos inédito da história do FC Porto. Mas em vésperas de eleições, desejava-se uma postura bem diferente para esta fase débil do FC Porto. Em vésperas de eleições, o máximo que esta administração conseguiu garantir para lutar pelo título foi contratar José Peseiro (isto não é uma crítica ao treinador, é simplesmente questionar o que fez nos últimos 10 anos para merecer receber um telefonema de Pinto da Costa logo após o empate com  Rio Ave...), o 13º guarda-redes com contrato profissional, tornar Marega o jogador mais caro da história de um clube português insular e contratar Suk.

Culpas e responsabilidades
Uma vez mais: Pinto da Costa vai ser reeleito, mantendo a atual administração. E é exatamente por isso que esta exigência é aqui clamada. É por isso que há críticas sempre de sentido construtivo. É por isso que se questionam negócios ou apresentam-se sugestões: porque esta administração vai ficar veiculada ao FC Porto durante mais 4 anos. E de certeza que nenhum adepto do FC Porto quer que os próximos 4 anos sejam um filme dos últimos três. É por isso que este espaço não é de luas, de achar que quando se ganha ao Gil Vicente está tudo bem e que quando se perde com o Arouca está tudo mal. Mas quando se perde com o Arouca, podem ter a certeza de que há muita coisa que está mal. 

Pinto da Costa tem uma remuneração fixa de 520 mil euros. Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Fernando Gomes de 287 mil euros (o salário de Antero Henrique não é conhecido, por não ser administrador). Todo o portista tem o direito de exigir que, perante as condições de que usufruem, os dirigentes lutem cada dia, cada segundo pela defesa dos interesses do FC Porto. Não é ficar calado à espera de encontrar um treinador que engate e que camufle os problemas da equipa.

Não podemos viver de memórias de há 25 anos atrás. Não podemos desculpar o presente com base na gratidão pelo passado. O passado é grandioso, intocável, eterno. Mas chega um dia em que o passado já não é mais do que... passado. Se o presidente dos últimos 3 anos se chamasse Joaquim, de certeza que os sócios pensariam duas vezes antes de elegê-lo para os próximos quatro anos, pois é impossível ficar satisfeito com o desenrolar das últimas três épocas. Temos que pensar nos próximos 4 anos, não nos últimos 30, pois o FC Porto é um clube de futuro, não de passado.

Pinto da Costa, Antero Henrique e Fernando Gomes, sem esquecer a restante administração, são e continuarão a ser os dirigentes que carregam as expetativas de centenas de milhares de adeptos, muitos deles que continuam a confiar cegamente nesta administração e a achar que a culpa é sempre ou do treinador, ou do jogador, ou do árbitro. Precisamos de uma administração que mereça ficar no FC Porto pelo que faz no presente e pelo que planeia para o futuro, não pelo que fez no passado.

Queremos mais e melhor. Isto não é pedir uma nova administração: é exigir mais de quem cá está e de quem cá vai continuar independentemente do que faça!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Patrocinador e empréstimos: novidades

A questão do patrocinador nas camisolas do FC Porto já foi muito debatida, mas eis uma novidade que ainda não foi devidamente realçada: a previsão da receita com patrocínios para 2015-16. O que o orçamento prevê é que, na primeira época já sem o patrocínio da PT, as receitas com patrocínios vão... aumentar.

Não há patrocinador, mas há aumento
Para o FC Porto, o valor normal na rúbrica de patrocínios está situado entre 13 a 14 milhões de euros. Desde 2007 que a SAD está sempre situada nestes valores. Com a saída da PT, que garantia um encaixe anual a rondar os 3,7 milhões de euros, temia-se que o FC Porto deixasse as receitas com patrocínios caírem para o valor mais baixo desde 2007, mas afinal as perspetivas são de um aumento.

O orçamento para 2015-16 aponta para 13,626 milhões de euros com receitas com publicidade, valor ligeiramente acima do das duas últimas épocas (13,56M€ em 2014-15 e 13,59M€ em 2013-14). Aliás, este é mesmo o terceiro valor mais alto registado pela SAD, só superado pelas épocas 2009-10 e 2010-11, as únicas em que a barreira dos 14M€ foi superada.

Face ao fenómeno Casillas, claro que havia expetativas de que a SAD atingisse, pela primeira vez, os 15 milhões de euros. Basta dizer que se ainda houvesse PT, provavelmente essa barreira teria sido agora transposta. Mas o importante era que as receitas com patrocínios não caíssem. Só não se percebe como é que Fernando Gomes, na sua quase surreal apresentação do R&C de 2014-15, não achou relevante mencionar este aspeto, tendo em conta a sua importância. Não sabemos como é que o valor da PT vai ser compensado, tendo em conta que não houve entrada de 3º main sponsor, mas como o orçamento não pode ser construído com wishful thinkings só podemos esperar que os valores propostos sejam atingidos e ficar tranquilos quanto ao tema dos patrocínios.

Em relação à última tranche da PT, o valor foi para o Internationales Bankhaus Bodensee AG, com quem o FC Porto mantinha uma dívida de 2,244M€. De realçar que o FC Porto também tinha uma dívida de 5,5M€ por um empréstimo aberto em novembro de 2014 com a mesma entidade, mas que já foi abatida: a SAD apresentou como garantia o dinheiro do apuramento para os oitavos-de-final da Champions e das receitas de market pool da UEFA de 2014-15.

Novos «parceiros» da SAD
Na gestão do FC Porto, e na generalidade do futebol português, o dinheiro dos patrocínios raramente chega a entrar nos cofres dos clubes, uma vez que estas receitas normalmente são utilizadas como garantias e pagamento a diversas entidades. Na SAD, o dinheiro da Unicer vai para o BIC, a quem o FC Porto terá que pagar 3M€ em fevereiro de 2016. E o dinheiro da Warrior, a substituta da Nike, vai precisamente para o Internationales Bankhaus Bodensee AG: 1,5M€ esta época e pouco mais de 400 mil euros na próxima.

Os portistas bem podem habituar-se a ver o Internationales Bankhaus Bodensee AG ser constantemente referido. Afinal, é neste momento a entidade a quem o FC Porto mais recorre para garantir liquidez financeira. O R&C de 2014-15 dá novidades nesse sentido. Além de todas as operações já referidas, o FC Porto abriu dois empréstimos de 12 milhões de euros cada com este banco: um em abril, outro em maio.

O primeiro, a uma taxa de 5%, vence em julho de 2016. E a garantia é, na íntegra, os 12 milhões de euros que o Real Madrid tem a pagar da 3.ª tranche de Danilo. Por outras palavras, face à necessidade da SAD de receber já o valor, encontrou uma alternativa, arranjando forma de receber já os 12M€... mas com recurso a uma taxa de juro que não se pagaria se houvesse capacidade de aguardar pela tranche do Real Madrid.

O outro empréstimo de 12M€ vence precisamente este mês, a uma taxa de 4%. Neste caso, foi mais uma operação da SAD para contrariar problemas de liquidez imediata, pois a garantia apresentada foi a receita do apuramento da fase de grupos da Champions, que também é de 12 milhões de euros. O Internationales Bankhaus Bodensee AG substituiu o Novo Banco como entidade a quem o FC Porto mais vezes recorre para financiar as suas atividades correntes. 

Por fim, e de volta ao tema inicial. Uma das afirmação de Fernando Gomes, na apresentação do R&C, foi esta: «O merchandising do FC Porto tem aumentado bastante, nomeadamente a procura de camisolas do Iker Casillas. Esgotámos em poucas semanas o stock que tínhamos previsto para um ano. Em novembro chegará uma nova encomenda. Foi uma loucura o que aconteceu com a procura. Esperávamos um aumento de vendas de 3 por cento e o número disparou.»

Ora, em 2014-15 o FC Porto fechou a época com 3,828 milhões de euros de receita de Merchandising/Vendas. Para 2015-16, na qual Fernando Gomes diz haver um grande aumento, o FC Porto apresentou à CMVM uma previsão de receita de... 3,828 milhões de euros. Exatamente o mesmo valor de 2014-15.  Tendo em conta Fernando Gomes fez a referida afirmação a 9 de outubro e a proposta de orçamento foi enviada a 22 de outubro, ficamos à espera que as vendas de merchandising «aumentem bastante».