Começamos por uma curta viagem ao passado. Na apresentação das contas de 2015-16, Fernando Gomes, responsável financeiro da SAD, afirmou: «Os custos têm subido de forma abrupta. A SAD quer conter e tomar um novo rumo».
Um novo rumo, dizia Fernando Gomes, que definiu os seus objetivos: «Inflacionámos os salários para além do razoável. Em 2013/14 os salários do plantel eram de cerca de 40 milhões de euros e hoje são de 75. Entendemos que devemos conter e reduzir».
O administrador da SAD definiu, por isso, um plano: no espaço de 3 anos, a folha salarial do FC Porto iria baixar para 55 milhões de euros. Foi isto que Fernando Gomes traçou como objetivo, realçando que, numa primeira fase, o plano passava por «reduzir 20 milhões em salários nos próximos dois anos».
Cumpridas as épocas de 2016-17 e 2017-18, é tempo de observar o orçamento da SAD para a época 2018-19. O tal em que Fernando Gomes apontava para uma grande redução salarial e que baixaria os custos com o plantel para os 55 milhões de euros.
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| Os objetivos de Fernando Gomes (jornal O Jogo, 12-10-2016) |
Cumpridas as épocas de 2016-17 e 2017-18, é tempo de observar o orçamento da SAD para a época 2018-19. O tal em que Fernando Gomes apontava para uma grande redução salarial e que baixaria os custos com o plantel para os 55 milhões de euros.
O FC Porto terá, nesta época, a folha salarial mais alta da sua história, ultrapassando pela primeira vez os 80 milhões de euros. Depois da época de contenção que foi a mais cara da história do FC Porto, a folha salarial é elevada para os valores mais altos de sempre.
Os custos operacionais do FC Porto ascenderão, assim, aos 135,5 milhões de euros, cerca de dois milhões acima dos resultados de 2017-18. A folha salarial do plantel chega aos 81,7 milhões de euros quando, segundo as expetativas de Fernando Gomes, deveria nesta altura estar a caminho dos 55 milhões de euros - a não ser que esteja a contar com uma debandada em junho para baixar a folha salarial abruptamente. E continuamos sem descobrir onde é que está a poupança de 20,8 milhões de euros que o administrador diz ter sido feita com a «limpeza» do plantel da época passada.
Os Fornecimentos e Serviços Externos, por sua vez, continuam na casa dos 43 milhões de euros, mantendo esta rubrica praticamente inalterada e sem perspetivas de descida.
Em relação aos Proveitos Operacionais, a SAD estima os mais altos de sempre: 156,7 milhões de euros, essencialmente graças ao enorme aumento dos prémios da UEFA, com receitas de 67,15 milhões de euros (está novamente previsto o apuramento para os oitavos-de-final da Champions), e ao novo contrato de direitos televisivos - é a primeira vez em que entra oficialmente no exercício o contrato com a Altice, por isso as receitas televisivas rompem a barreira dos 40 milhões.
É de recordar que o contrato com a Altice ascende a 457,5 milhões de euros, por um período de 10 anos, e tecnicamente entrava em vigor apenas a 1 de julho. Mas a SAD já antecipou - e muito - dezenas de milhões de receitas deste acordo.
Há um ano, a SAD já tinha antecipado mais de 90 milhões de euros, através de vários contratos de factoring com empresas de crédito estrangeiras. No entanto, o R&C da época 2017-18 revelou que, em abril/maio, a SAD antecipou uma enorme fatia dessas receitas com mais dois contratos de factoring: nada mais, nada menos do que 111 milhões de euros - 11 milhões com a Star Fund e 100 milhões de euros com a Sagasta. Esta operação, de resto, é a principal responsável por o passivo da SAD ter disparado para os valores mais altos de sempre: 464 milhões de euros. Quando estes contratos de factoring terminarem (o acordo com a Sagasta termina em 2023), os valores envolvidos serão eliminados do passivo.
Importa reconhecer que antecipar receitas é uma prática corrente e natural em clubes de futebol, em que há despesas contínuas e mensais mas as receitas não são geradas da mesma forma. Mas coloquem simplesmente isto em perspetiva: o FC Porto já «antecipou» mais de 200 milhões de euros de um contrato de direitos televisivos que, tecnicamente, teve o seu início oficial apenas em julho.
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| O Tribunal do Dragão, na análise do R&C de 2016-17 |
Importa reconhecer que antecipar receitas é uma prática corrente e natural em clubes de futebol, em que há despesas contínuas e mensais mas as receitas não são geradas da mesma forma. Mas coloquem simplesmente isto em perspetiva: o FC Porto já «antecipou» mais de 200 milhões de euros de um contrato de direitos televisivos que, tecnicamente, teve o seu início oficial apenas em julho.
Um contrato de 457,5 milhões de euros, a 10 anos, que oficialmente entrou em vigor há menos de 4 meses e do qual a SAD já «puxou» cerca de 200 milhões de euros. Há momentos em que nem vale a pena acrescentar mais nada e basta espelhar apenas os números, que falam por si. Mas em 2016 Fernando Gomes explicara para onde seria canalizada a receita dos direitos televisivos: «De resto, a ideia é que este dinheiro não vá para reforços, porque para
isso o FC Porto gera recursos suficientes. Iremos baixar custos, pagar
dívida e ter uma gestão mais sã». Confere?
Ainda nas Receitas, a SAD confirma que as receitas de gestão e exploração do Corporate Hospitality passam a ser consideradas na Publicidade e Sponsorização, mantendo-se assim na casa dos 22-23 milhões de euros, à imagem das duas últimas épocas. De realçar ainda que a SAD aponta para as maiores receitas de bilheteira no Dragão, com uma verba estimada em 9,3 milhões de euros.
O grande crescimento dos Proveitos Operacionais permite que após várias épocas de enormes buracos, a SAD estime finalmente resultados positivos sem custos com passes. Nas últimas quatro épocas, por exemplo, a SAD orçamentou sempre prejuízos operacionais, que foram dos 18 aos 25 milhões de euros. Mas desta vez, pelo grande crescimento nas receitas, a expetativa é de um resultado favorável de 21 milhões de euros. É certo que a qualificação para a Liga dos Campeões é o que pode ditar a diferença entre um lucro de 20 milhões ou um prejuízo do mesmo valor, e não nos podemos esquecer que há 3 equipas a jogarem declaradamente para um lugar, mas enfim vemos perspetivas de bons resultados operacionais.
Mas chega? Não, não para 2018-19. Pois apesar de ter proveitos operacionais superiores a 150 milhões de euros, a SAD necessita de fazer 34,6 milhões de euros em proveitos com transferências. De recordar que o R&C de 2017-18 não incluía, ainda, as compras de Mbemba e Militão, e que as vendas do FC Porto no exercício de 2018-19 praticamente resumem-se, para já, a Layún, Gonçalo Paciência e João Carlos Teixeira. Portanto, estamos a falar na necessidade de, entre receitas operacionais e resultados com transações de jogadores, «fazer» mais de 185 milhões de euros para pagar a época 2018-19.
Tudo isto para, em junho, terminar a época 2018-19 com um lucro de 1,575 milhões de euros. É esta a proposta da SAD que vai a Assembleia Geral a 8 de novembro.
Tudo isto para, em junho, terminar a época 2018-19 com um lucro de 1,575 milhões de euros. É esta a proposta da SAD que vai a Assembleia Geral a 8 de novembro.































