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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quercus Suber L.

«O Rui Pedro só está no FC Porto em virtude da empresa onde Alexandre Pinto da Costa era sócioJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Retemos esta frase do presidente do FC Porto na sua entrevista ao JN. Sensivelmente 24 horas depois de um trabalho particularmente interessante da Mediapart ter sido publicado em França. Leituras aqui e aqui.
O valor da cortiça

Descobrimos que Alexandre Pinto da Costa é um herói, o responsável pela presença de Rui Pedro no plantel do FC Porto. O ramo da cortiça é muito valioso em Portugal. Representa cerca de 0,7% das exportações do PIB. Mas desconhecia-se que a cortiça pudesse ter tamanha valia.

«Si le joueur Rui Pedro Silva participe à dix matchs, Alexandre touchera 100 000 euros. Cela peut singulièrement compliquer la tâche de l’entraîneur du club, qui cherche à préserver son poste. Doit-il engraisser la famille du président? Ou sélectionner la meilleure équipe possible?»

Diz portanto a investigação da Mediapart que Alexandre Pinto da Costa receberá 100 mil euros após 10 jogos que Rui Pedro fizer na equipa principal, levantando ainda suspeitas sobre se isso não irá interferir nas opções de Nuno Espírito Santo (algo que é grave). Não admira que Américo Amorim seja o homem mais rico de Portugal. Aparentemente, a cortiça sai mesmo cara.

Apenas uma outra frase, que nos leva para um tema mais abrangente: «Vamos aproveitar cada vez mais os que nascem cá em vez de jogadores da Nigeria, Malásia, MaliJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Uma mudança de política que já tinha sido associada à entrada de Luís Gonçalves na estrutura. Curioso é que o FC Porto, que tem vários nigerianos ligados ao clube que implicaram investimentos recentes (Chidozie, Ezeh, Moses, Mikel, Musa - que nunca jogou pela B mas é muitas vezes chamado para treinar na A), assuma esta posição 24 horas depois de isto ter sido publicado.

Quando foi divulgado o mapa de intermediários da FPF, O Tribunal do Dragão assinalou a polivalência do empresário Edmund Chu, intermediário de Ezeh e Chidozie. «Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente.»

Agora a referida investigação conta que em 2012 o FC Porto assinou um contrato com a RAMP, que tinha como missão indicar jogadores ao FC Porto de Gana, Congo, África do Sul, Zâmbia e Nigéria. A RAMP fica com uma comissão de 18 mil euros, torna-se parte interessada de uma futura venda do jogador e até 2015 assume 25% do passe do atleta. Um exemplo comprovado já tinha sido o caso de Fidélis, agora no Portimonense, o clube que mais tem recebido/trocado nigerianos com o FC Porto. 

A investigação da Mediapart, feita com documentos através do Football Leaks (que muitos parecem preferir fingir que não existem a desmenti-los), diz que com o fim da partilha de passes com terceiros o FC Porto passou a remunerar melhor os intermediários: 75 mil euros por cada vez que um jogador fizer cinco jogos pela equipa B (por norma só são considerados jogos em que o jogador atue pelo menos 45 minutos) e o direito de ser agente do jogador no futuro.

Isto levanta questões. Lembram-se de Mbola? Integrou a equipa B em 2012, ano em que o suposto acordo com a RAMP foi assinado. É um jogador da Zâmbia, um dos países referidos no acordo de observação.

Mbola era um jogador sem qualidade. Basta recordar a sua estreia na equipa B: 5 minutos em campo e foi expulso. Desde então, tornou-se uma opção fantasmagórica na equipa B. Fez um jogo a titular em novembro, outro em dezembro, outro em março. Chegamos a maio e às duas últimas jornadas do campeonato. Mbola faz os dois jogos a titular e, com isso, chega aos 5 jogos como jogador do FC Porto, precisamente a quantidade referida pela Mediapart. Foi embora no final da época e nunca mais ouviram falar dele. Até onde sabemos, coincidências. Na proveniência do jogador, no número de jogos. Coincidências. Muitas. 

A Mediapart fala detalhadamente sobre Chidozie. Diz que o FC Porto pagou 500 mil euros ao Riverlande Youth Club e 75 mil euros de comissão «em nome próprio» a Edmund Chu. «Um montante superior aos 10% autorizados». Calculam então que cada jogador menor pode permitir um encaixe de 975 mil euros à RAMP. 

Porquê? São acusações gravíssimas que aparecem nesta investigação e que, perante qualquer ato de transparência, princípio ético e legalidade, só têm que ser desmentidas pelo FC Porto. A saber: «Na correspondência a que tivemos acesso, o agente Saif Rubie, descontente com a forma como o FC Porto tratou o jovem ganês Christian Atsu, ameaçou contar aos media a maneira como o clube se comporta de início ao fim, incluindo os acordos com a RAMP e todas as vantagens usufruídas pelo clube com os contratos assinados com jogadores africanos jovens vulneráveis». 

Passando depois a um caso já aqui conhecido, o de Generoso Correia, um negócio muito... generoso. Questionando ainda o envolvimento de D'Onofrio, que no último verão trouxe Depoitre e que segundo estas contas já faturou 10 milhões de euros em comissões com o FC Porto, com o Benfica também envolvido. Dinheiro esse que terá sido escondido em offshores, mas quanto a isso os adeptos do FC Porto só podem estar descansados. Afinal Pinto da Costa deixou claro que o FC Porto não opera em offshores e em paraísos fiscais. 

O presidente anunciou então o fim da aposta em jogadores de países como Nigéria, Malásia e Mali, para passar a privilegiar a aposta em portugueses. Fica por perceber uma questão: qual o balanço desta parceria com a RAMP que se desconhecia? Quem teve a ideia? Que assume os frutos/resultado desta parceria? Quando custou e quanto rendeu ao FC Porto?

Agora, segundo afirma Pinto da Costa, é passado. Mas se o preço da cortiça não baixar, não parece que vá servir de muito. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tão lógico quanto marcar golos

O FC Porto já disputou 3233 jogos oficiais. Marcou 7165 golos. Ganhou dezenas de títulos, cá dentro e lá fora. Ao longo dos seus 123 anos de existência, foram quase 300 mil minutos de futebol. Nunca esteve tanto tempo sem marcar um golo.

É histórico. Nunca o FC Porto tinha passado 430 minutos sem marcar um golo (ou sem que lhe validassem um). Estamos, à 11ª jornada, a 7 pontos do Benfica, a primeira vez que acontece desde que Pinto da Costa foi eleito presidente. Temos 22 pontos, a pior pontuação desde que a vitória passou a valer três pontos (1995). 19 golos em 11 jornadas, o pior ataque dos últimos 10 anos. E estamos fora do pódio, o que não acontecia desde 1975. Copo meio cheio: este é um FC Porto de recordes. 

O Tribunal do Dragão já tinha destacado o facto do FC Porto não sofrer golos. É bom. Mas para todos os efeitos pontuais, é melhor ganhar um jogo e perder um do que empatar dois; é melhor ganhar dois e perder três do que empatar cinco; e em momento algum podemos considerar que não sofrer golos contra equipas como Setúbal, Chaves, Copenhaga e Belenenses é algum tipo de proeza que mereça criar um constaste positivo.

Sim, não sofrer golos é positivo, mas se não marcamos entramos na lógica residente noutras bandas: não somos campeões, mas jogamos o melhor futebol; não ganhámos, mas fomos quem mais mereceu

Sente-se a contestação cada vez maior a cair sobre Nuno Espírito Santo. As críticas são expectáveis, aconteceria o mesmo a qualquer outro treinador. No FC Porto, ao fim de 2 ou 3 maus resultados, para a generalidade da massa adepta o funeral fica feito. Aconteceu com Paulo Fonseca, com Lopetegui, com Peseiro e muito provavelmente vai acontecer com o próximo que chegar. 

Mas há algo a saudar em relação a Nuno Espírito Santo, em defesa do técnico: tem contrariado algo que vinha sendo uma tendência cada vez maior no FC Porto - o não defraudar as expetativas. Nuno Espírito Santo não desilude, vai ao encontro das expetativas. O seu trabalho no FC Porto tem sido um espelho do desenvolvido no Rio Ave e no Valência: o futebol praticado, as escolhas para a equipa que muitos não conseguem entender, o discurso monocórdico e saído de um manual rasca de auto-ajuda. 

Nuno Espírito Santo não está a fazer nada abaixo do que já tivesse demonstrado. Admita-se, nem é o caso de Paulo Fonseca, que meteu o Paços de Ferreira a jogar à Porto e o Porto a jogar à Paços de Ferreira, mesmo não tendo tido condições de trabalho suficientemente boas para lutar pelo título. Nuno Espírito Santo meteu o Porto a jogar à... Nuno Espírito Santo. Jamais será cobrada uma fatura ao técnico por fazer o mesmo trabalho que fez nos seus outros clubes. Logo, este funeral perde um pouco a sua lógica. Vamos condenar quem está a ser o que sempre foi?

Se o FC Porto passou de Lopetegui para Peseiro e de Peseiro para Nuno Espírito Santo, nem vale a pena entrar por uma conversa de sucessão. Dá medo.

A competição de ontem, como saberão, não é valorizada neste espaço. A Taça da Liga deve ser utilizada única e exclusivamente para dar espaço competitivo a jogadores pouco utilizados e para lançar jovens da equipa B. As escolhas de NES para o jogo de ontem serviram minimamente para esse efeito, ainda que ninguém consiga ignorar que se tratou de um prolongamento de mais 90 minutos sem golos, ainda por cima jogando quase uma hora contra 10.  De qualquer forma, o maior problema não foi o jogo de ontem, mas sim os últimos jogos. 

Por isso, troquemos os Bonés e Machados por algumas considerações. Primeiro, Brahimi. Ontem descobrimos que Brahimi não serviu para jogar no Campeonato, na Liga dos Campeões e na Taça de Portugal. Mas serve para jogar na Taça da Liga.

Isto consegue ser pior do que ter o Taarabt a ganhar 193 mil euros por mês para ir ao Main. Porquê? Porque esse nunca viram fazer nada de jeito no Benfica e não faz falta à equipa principal. Brahimi sim. Viram-lo os adeptos, os adversários, a Champions do futebol. Há dois anos, era o jogador mais aplaudido pelos adeptos. Desaprendeu? Não. Ao longo de novembro, em que o FC Porto esteve em 4 competições, Brahimi ficou no banco no Campeonato, na Champions e na Taça para jogar apenas na prestigiada Taça da Liga. Gestão danosa, nada mais. 

Inácio fez a sua estreia na equipa principal. Ainda que envolvido no negócio Maicon, estamos a falar de um dos cinco laterais-esquerdos mais caros da história do FC Porto. Mas aqui temos um perfeito exemplo da diferença entre um jogador da formação e um jogador que vem de um negócio do Brasil. Não apenas do Brasil: de um negócio do Brasil.

Inácio fez apenas 4, 4 jogos na Segunda Liga e teve logo uma oportunidade na equipa principal. Não se discute o mérito de Inácio, mas sim o tratamento bem diferente que teve Rafa: esteve 3 épocas desportivas a jogar ativamente na equipa B, sem nunca ter tido uma oportunidade de jogar na equipa principal. Inácio chega e tem logo a sua chance. Deve ser tudo uma questão do critério dos treinadores. Sim, sim.

Rui Pedro estreou-se pela equipa principal e foi provavelmente o mais aclamado pelos adeptos. Neste âmbito, uma saudação para Bernardino Barros, que afirmou, preto no branco, durante os seus comentários no Sentimento (para fazer honra ao Edmundo), que Rui Pedro esteve encostado e em risco de sair enquanto não renovou contrato «com quem eles queriam» na SAD. André Silva esteve na mesma situação. É assim que se gerem os nossos talentos. 

Depoitre esteve uma hora em campo. A jogar contra 10, com o jogador a precisar de ganhar confiança e não havendo melhor oportunidade para isso, NES decidiu tirá-lo de campo e lançar o miúdo. Está tudo dito sobre Depoitre. Nuno nem pensou «vamos esperar, a ver se ele marca para ganhar confiança». Por norma, um treinador que quer muito um jogador não desiste dele em circunstâncias tão favoráveis. Talvez isto diga muito do quão queria NES Depoitre. 

João Carlos Teixeira jogou 15 minutos. O suficiente para ir ao encontro do comentário do TdD aquando da sua contratação: «É daqueles jogadores que conseguimos apreciar pelo simples facto de receberem a bola». Porque não joga mais? Não procurem a lógica. Procurar lógica neste FC Porto tornou-se uma coisa tão complicada quanto acertar na baliza adversária.

Sábado regressa o campeonato, com o FC Porto no 4º lugar, a sete pontos da liderança. Ninguém se recusa a deixar de olhar para o primeiro lugar. Mas o problema não é apenas os adversários terem que perder pontos. É o FC Porto ter que ganhá-los. Sem golos, nada feito. E com estes meios, não esperem fins agradáveis. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Formação, Manel e desculpas

Começando por não uma, não duas, mas três excelentes notícias. A renovação dos contratos de dois membros da nossa excelente geração de Diogos e de Afonso Sousa, neto de um campeão de Viena. Diogo Dalot é o protótipo de lateral-direito moderno. Não há memória do FC Porto ter, na sua formação, um lateral da sua idade e qualidade. Não é por acaso que aos 16 anos já tinha sido chamado aos treinos da equipa A por Lopetegui (tal como por exemplo Paulo Fonseca chamou Rúben Neves quando tinha 16). São chamadas que premeiam a qualidade e potencial de grandes promessas, muito diferente de por exemplo ver Musa treinar com a equipa A do FC Porto esta época (não jogou ainda nem um minuto na B). Quanto mais cedo Dalot começar a jogar num patamar acima, melhor. 

Uma boa aposta
Diogo Queirós, capitão campeão europeu de sub-17, é candidato a reeditar a escola de grandes defesas centrais do FC Porto. Forma boa dupla com o homónimo Leite, já tem uma estampa física considerável para a sua idade, lê bem o jogo e já tem sido um dos destaques da Youth League. Outro jogador que só tem a ganhar em subir de patamar mais cedo (a equipa B tem dado sucessivas oportunidades a centrais estrangeiros, sem grande sucesso - no curto prazo, é tempo de privilegiar a formação neste setor).

Sobra então Afonso Sousa. É mais novo, tem bons genes futebolísticos, jogador de recorte técnico e que joga com grande envolvência coletiva (um exemplo, vejam este golo marcado por Afonso ao Tondela, que também mostra como é que se abatem autocarros). Vai ter que ganhar dimensão física (ainda só tem 16 anos), essencial para a sua afirmação (há o exemplo de Vítor Andrade, um dos maiores talentos do FC Porto durante a formação, mas a quem faltou essa dimensão na transição para sénior - não é ainda um caso perdido, fica a nota). 

Assinaladas estas três boas notícias, falemos de um rapaz já muitas vezes mencionado neste espaço. Chama-se Rui Pedro, tem 18 anos e é o melhor marcador da UEFA Youth League. É há muito visto como um potencial avançado de futuro no FC Porto, tendo inclusive sido destacado para o Projeto Jogador de Elite. Pep Lijnders, na avaliação que fez dele, comparou-o desta forma com Gonçalo Paciência: «O Rui Pedro não faz o impossível, como Gonçalo, mas é melhor no domínio do possível».

Um pequeno Falcao
Por outras palavras, Rui Pedro talvez não tenha, ainda, a capacidade de inventar um golo com uma grande finta, uma rabona, um túnel ao adversário ou um slalom que só acaba na baliza. Mas tem aquela ratice que nos leva a descrever os avançados que estão sempre no sítio certo, que marcam em meia oportunidade, que se antecipam e movimentam na perfeição, que pressiona e está sempre a mexer-se no ataque. Há quem lhe veja coisas de Falcao, mas todos sabemos o quão perigosas são essas comparações.

Rui Pedro, para quem não se recorda, começou a época a jogar na equipa B. Uma aposta que fazia todo o sentido - os nossos melhores jovens têm que jogar em escalões acima. Mas depois do fim de agosto, Rui Pedro deixou de jogar na equipa B. Porquê? Chegou Areias, emprestado pelo V. Guimarães. O FC Porto nunca se pronunciou sobre o absurdo que seria enquadrar uma cláusula de compra de mais de 500 mil euros sobre este jogador, por isso vamos pular esta consideração. Meramente hipotética, claro. 

O FC Porto passou a apostar em Areias como ponta-de-lança da equipa B. É titular há 6 jornadas e marcou um golo. Rui Pedro voltou aos juniores. Logo, atrasam o desenvolvimento de Rui Pedro para estar a utilizar um jogador emprestado pelo V. Guimarães que, perdão, não justifica que o FC Porto secunde a aposta em Rui Pedro para estar a valorizar um jogador em nada superior a, por exemplo, Tomané. Com a pequena diferença de que Tomané ainda conseguiu ser titular em Guimarães, fez alguns golos, enquanto Areias não contou para a equipa A do Vitória... onde joga Marega.

Na última época fez 9 golos na equipa B, na anterior tinha feito 14. Justifica-se a aposta? Não. Qualquer avançado, jogando com regularidade no FC Porto B, marca uma dúzia de golos sem grandes problemas. Quem não se lembra de Dellatorre? Avançado brasileiro de qualidade sofrível, mas que conseguiu ser titular toda a época na equipa B, levando até a que muitos considerassem que valia a pena avançar para a compra do seu passe. O futuro, como sempre, foi bem esclarecedor. Mas rezam as crónicas que Dellatorre está a deslumbrar na Liga Tailandesa. 

Justifica-se?
Areias não é, à data de hoje e muito provavelmente de amanhã, uma solução que dê mais perspetivas de presente e futuro do que Rui Pedro. E pior ainda: Areias está emprestado pelo V. Guimarães! Nem sequer é um jogador do FC Porto! E já agora, quanto custaria mesmo ficar com Areias? Pois é. A gestão deste caso é tudo aquilo que o FC Porto não deve fazer na sua formação e equipa B.

Rui Pedro voltou aos sub-19 para estar num escalão que não oferece competitividade. Nos sub-19, já não vai aprender muito mais. À 10ª jornada, a equipa de juniores já leva 8 pontos de vantagem na liderança. Não vai haver estímulo competitivo até à fase final. Até lá, Rui Pedro podia estar a jogar na bem mais competitiva Segunda Liga, mas não, joga o avançado que não serviu para a equipa A do Guimarães. Isto não é ser simpático com Areias (na última vez que tivemos um Areias em campo, até ganhámos ao Chelsea de Mourinho), que de certeza quer lutar pelo seu espaço e ganhar o seu lugar, mas estamos a falar da gestão de ativos da formação do FC Porto. Areias nem sequer é jogador do FC Porto. E será uma surpresa se for no futuro. Podia ser o Areias, podia ter o Tomané. O problema é que Rui Pedro está a ser ultrapassado por quem não é melhor. 

E agora uma história. Era uma vez o Manel. O Manel tinha uma mercearia. Era um negócio rentável, bem sucedido. O Manel por vezes importava produtos caros, mas conseguia vendê-los a compradores que tinham mais dinheiro. Tudo corria bem ao Manel. Mas em 2014, o Manel viu-se perante um grande problema. A sua mercearia deu um prejuízo de 40,7 mil euros, o maior que alguma vez tinha dado. O Manel ficou em apuros, pois sabia que uma entidade que seguia as suas contas não ia admitir um prejuízo tão grande no ano seguinte. O problema nem era apenas o resultado líquido, mas sim o cruzamento entre passivo e ativo. 

O Manel fez o que nunca esperaram que fizesse. Hipotecou a sua casa. Isso iria permitir ao Manel que a sua mercearia ficasse com um ativo muito mais superior. O Manel deu por si a ter a sua mercearia com capitais próprios de 83,1 mil euros no final de 2015. Problema resolvido!, pensou. Em 2015, a mercearia do Manel até deu um lucro de cerca de 20 mil euros!

Mas passou-se mais um ano e o Manel viu a sua mercearia voltar a dar prejuízo. Foram 58,4 mil euros, o maior que alguma vez deu. E de repente, a hipoteca feita pelo Manel em 2014 começou a perder o seu efeito. Acontece que os 83,1 mil euros que tinha de capitais próprios em 2015 passaram, no espaço de um ano, a ser de apenas 25,8 mil euros. 

O Manel tem um prejuízo acumulado de quase 80 mil euros desde 2014 e conseguiu que os seus capitais próprios fossem reduzidos em quase 70% no espaço de um ano, tendo agora apenas 25,8 mil euros. Problema? Não. O Manel, otimista, está feliz, pois tem 25,8 mil euros. Fim da história. 

PS: Durante meses, O Tribunal do Dragão deu o seu contributo no caso dos vouchers, da Liga Aliança e em diversos temas a envolver léxicos como colinho, arbitragem e derivados do sistema. Hoje, é tempo de apresentar as devidas desculpas por se ter dado a todo esse trabalho. Tudo aquilo que contribuiu, diretamente ou indiretamente, fora de campo (ou dentro, ao ritmo do apito) para que o Benfica fosse tricampeão, não diz respeito ao FC Porto. Assim o afirmou o presidente, que diz que o caso dos vouchers, uma prática do Benfica que não tem defesa em nenhum regulamento, não diz respeito nem interessa ao FC Porto. Assim sendo, as desculpas por todo o tempo que os leitores d'O Tribunal do Dragão perderam a ler aqui sobre temas que não interessam ao FC Porto. Aqui fica uma informação mais útil e talvez mais importante: uma caixa de 48 pastilhas de Rennie tem um PVP de 4,95€. Coisas que importam. 

domingo, 9 de outubro de 2016

Mudança de paradigma

Na sequência deste post, a segunda parte da revolução anunciada pelo - ou através do - JN no FC Porto com a entrada de Luís Gonçalves na estrutura. Foi escrito que o FC Porto vai passar a privilegiar ao máximo a contratação de jogadores portugueses para os sub-19, e a contratação de estrangeiros passará a ser feita só em circunstâncias excepcionais. 

Jornal de Notícias, 07/09/2016
É uma necessidade, sobretudo quando tendo em conta que, nos últimos sete anos, não foi contratado um único jogador para os Sub-19 que se tivesse afirmado no FC Porto, ou que tenha neste momento um papel ativo na equipa principal. 

Para já, podemos ver com agrado que o plantel de juniores do FC Porto para esta época é na sua esmagadora maioria composto por portugueses. Há cinco estrangeiros no plantel. Mário Évora, guarda-redes cabo-verdiano que provavelmente nunca sairá do estatuto de suplente; Ayou Abou, marroquino ex-Barcelona que faz a segunda época no clube; Moses John, um desconhecido nigeriano que ainda não jogou; Yan Dinghao, um médio chinês - não há futebolistas chineses com qualidade para o FC Porto e pouco leva a crer que Dinghao inverta a história; e por fim James McArthur, um ganês que dificilmente sairá com mediatismo maior do que aquele com que chegou. De resto, tudo portugueses e um bom arranque de época (11 jogos e 10 vitórias, duas delas na Youth League). 

Se tivermos como referência os jogadores que foram recrutados para os Sub-19 nos últimos sete anos, vemos que tem havido uma incapacidade imensa em encontrar juniores com qualidade para chegarem à equipa A do FC Porto. A saber, e lista é longa:

Adivinha quem é
Yero, Gilmar, Rody, Engin, Bacar Baldé, Katalic, Renato, Abdoulaye, Cristian Atsu, Rafinha, Fábio Nunes, Samir Abdr, Romário, Ebo, M'Bola, Mikel, Rafael Floro, Thibaut Vion, Sagna, Víctor Garcia, Kokovic, Li Shuai, Rúben Alves, Jonathan, Ricardo Tavares, Pius, Elvis, Fidélis, Gudiño, Chidera, Leonardo Ruiz, Tony Djim, Malthe, Lumor, Matheus, Chidera, Ayoub, Luiz Sousa, Mouhamed, Oleg, Xavi, Dinghao, Moses, Fali, McArthur. 

Ufa. A maioria destes jogadores são desconhecidos para os adeptos. Muitos não sabem de onde vieram, muitos não sabem para onde foram, muitos não sabem sequer que passaram pelo FC Porto. Os processos de contratação da maioria destes jogadores são desconhecidos, mas se para se contratar jogadores conhecidos como Casemiro ou Dani Osvaldo são necessários contratos de scouting, o que esperar de miúdos desconhecidos que chegam dos 4 cantos do mundo?

Estamos a falar de jogadores que chegaram do Senegal, Gana, Costa do Marfim, Zâmbia, Nigéria, Venezuela ou Equador. E de toda esta lista, só seis jogadores chegaram a alinhar pela equipa A, a saber: Chidozie, Víctor García, Mikel, Abdoulaye, Yero e Cristian Atsu.

De todos estes, aquele que acabou por desempenhar o papel mais relevante na equipa A foi Cristian Atsu, apesar ter sido muitas vezes opção para Vítor Pereira sobretudo por o nosso último treinador campeão não ter muito por onde escolher (1 golo e 4 assistências em 32 jogos). Podia ter crescido mais no FC Porto, mas foi mal acompanhado na gestão da sua carreira e pouco mostrou desde que saiu do FC Porto. 

Mas é um exemplo do quão fragmentado já pode estar um jovem africano quando chega ao FC Porto. No momento da transferência para o Chelsea, a Energy Soccer, de Alexandre Pinto da Costa, ficou com 150 mil euros. E um fundo, cujo nome não foi revelado, ficou com 25%. Assim a mais-valia pela venda ao Chelsea ficou abaixo dos 2M€, com a curiosidade de depois a SAD ter utilizado o valor da conta a receber do Chelsea (1,5M€) para o ceder à Good for Sports Limited, a uma taxa de 8%. 

Sete anos de FC Porto
Um caso ainda mais demonstrativo é o de Mikel Agu, que tem mais renovações de contrato do que jogos pela equipa A. Mikel está agora a jogar com regularidade em Setúbal, embora nunca tenha revelado estofo e qualidade para ter espaço na equipa A (os melhores jogos que fez na equipa B foram como central). Está desde 2009 no clube, sempre a ter oportunidades de treinar no plantel principal, mas nunca mostrou estar em condições para dar o passo competitivo que faltava (com ou sem lesão, não faria parte das opções de Lopetegui para 2014-15). 

Do passe de Mikel, é sabido que a SAD cedeu 10% do seu passe ao SIF, em 2012, por cerca de 100 mil euros. Desde então, o passe do jogador já passou por diversas fragmentações: 10% ao Megapp FC, 25% a uma entidade chamada Sans Souci, e depois mais 10% cedidos ao SIF; à luz de um protocolo com a Sans Souci, a SAD cedeu 25% da receita líquida de uma futura venda. Qual a pertinência/razão de todas estas operações? Qual o sentido de ser necessário fragmentar tanto e tantas vezes o passe de um jogador que chegou ao FC Porto em 2009 e que esteve dois anos à espera para ser inscrito (não podia jogar antes dos 18 anos)? Não vale a pena falar dos já conhecidos casos de Rúben Neves ou André Silva: é essencial manter a totalidade dos passes dos nossos jovens mais promissores. 

Yero pode eventualmente ser recordado como um dos jogadores mais altos da história do FC Porto, e pelos 57 minutos em que representou a equipa principal. Uma prova de que a ordem do substantivo pode fazer toda a diferença: a diferença entre um grande jogador e um jogador grande.

O sexto empréstimo
Abdoulaye, um jogador que conseguiram convencer que tinha propostas de Liverpol, Dortmund e Benfica, voltou a renovar e a ser emprestado pelo FC Porto. Estamos a falar de um jogador sem quaisquer qualidades para jogar a este nível e que já foi emprestado seis vezes. Algo a repensar no futuro imediato do FC Porto é chegar à conclusão que há jogadores que, por mais vezes que sejam emprestados, nunca se vão valorizar a ponto de ser possível lucrar algo com uma transferência. Abdoulaye é um desses casos. Em final de contrato, era uma oportunidade para deixar o jogador ir à sua vida. Mas não. Continua emprestado.

60% do passe de Abdoulaye eram propriedade da Unifoot, de José Caldeira, segundo o R&C da SAD de 2010-11. Mas no R&C de 2012/13, o FC Porto informou que comprou 60% à Pearl Design, com um custo total de 1,1M€. Estávamos a falar de um júnior africano sem escola, que ainda assim implicou um investimento considerável. 

Curiosamente Abdoulaye partilha com Chidozie o dia de nascimento - 1 de janeiro. E quanto a Chidozie, que renovou até 2020 (a renovação justifica-se, falta saber se o mesmo se aplica aos eventuais custos do seu passe), é possível recuperar a avaliação feita no final da época passada. 

«Sub-19, equipa B e equipa A na mesma época. Foi um carrossel de emoções para Chidozie, lançado às feras na Luz. O Tribunal do Dragão foi da opinião de que Diogo Verdasca, tendo o mesmo número de oportunidades que Chidozie, faria igual ou melhor. Opinião que se mantém, mas José Peseiro escolheu confiar em Chidozie, que acusou toda a sua inexperiência ao longo destas semanas.

A grande exibição de Casillas contra o Benfica disfarçou muita coisa. Chidozie comete os erros próprios da idade e da sua inexperiência. Bruno Alves, Jorge Costa ou Ricardo Carvalho não jogavam no FC Porto aos 19 anos por um motivo. O mesmo que penalizou Chidozie: inexperiência e falta de devida preparação. Repare-se que Chidozie nem sequer teve um parceiro consistente ao lado, o que não ajudou. Não houve jogo em que Chidozie não cometesse erros graves de posicionamento. Mais culpa das circunstâncias do que propriamente do jogador, que fez o que podia, sem a preparação devida.»

Chidozie tem jogado pela equipa B e aparece como 4º ou 5º central (mediante um possível recuo de Danilo) da equipa A. Continua a ter algumas caraterísticas interessantes, mas tudo dependerá do acompanhamento e espaço competitivo que tiver nos próximos dois anos. No R&C da SAD, que deve ser dado a conhecer a 20s de outubro, poderá ser possível ver os eventuais custos envolvidos na sua chegada. Um júnior oriundo da Nigéria não pode custar milhões (basta dois para ser plural). 

A valorização de García
Sobra então Víctor García, um caso já aqui analisado e debatido. Esteve inicialmente emprestado ao FC Porto, com a possibilidade de ser comprado por um valor consideravelmente baixo, mas a SAD prolongou o empréstimo e Víctor García acabou por custar 1,8M€, por 50% do passe, pagos à já popular Northfields Sports, empresa muitas vezes envolvida e sempre paga bem em negócios do FC Porto na América do Sul - com a saída de Antero Henrique da SAD, fica a expetativa de ver se o FC Porto continuará a negociar com esta empresa ligada a Marcelo Simonian. Não deve haver muitos clubes a pagar 1,8M€ por metade de um júnior da Venezuela. 

Chidozie, Víctor García, Mikel, Abdoulaye, Yero e Cristian Atsu foram os sub-19 estrangeiros que conseguiram jogar pela equipa A do FC Porto nos últimos anos. É pouco, muito pouco. E tendo em conta que não se aproveitou um único jogador da equipa B que conquistou a Segunda Liga na última época, é lógico que urge repensar não só aproveitamento a ser feito da nossa formação, mas sobretudo o recrutamento que estava a ser feito. É essencial detetar os talentos portugueses mais cedo e questionar se vale a pena continuar a ter este tipo de abordagens em mercados como o africano. 

Um exemplo? Rafa e Diogo Jota, que ainda com idade sub-19 estavam no Feirense e no Paços de Ferreira, e que neste momento são os dois avaliados em potenciais 40M€ juntos (um pelo que poderia custar, outro pelo que poderá custar). E por vezes, muitos desses talentos estão fora do mapa dos três grandes até à idade de juniores. Exemplos: Raúl Meireles estava no Boavista, Rolando no Belenenses, Bruno Alves no Varzim, Ricardo Carvalho no Amarante, e a lista pode continuar, jogadores que conquistaram muitos títulos importantes no FC Porto.

Terá a Gestifute um departamento de scouting mais capaz do que o FC Porto? Não, certamente. Os empresários não podem ser mais rápidos do que o FC Porto, até porque atacar os jovens do mercado nacional sai muito mais barato do que recrutar sub-19s em África ou na América do Sul. A mudança de paradigma é mesmo essencial: o FC Porto tem que ser mais rápido a chegar aos jovens portugueses e trocar as prioridades. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Taça, André, Visão e Diogos

Perdi a conta a quantas vezes vi o Portugal x França de 1984. E por muito que já conheça cada detalhe do jogo de cor, sempre que Rui Jordão vira para 2x1 acredito que Portugal vai ganhar aquele jogo. Sei que Jean-François Domergue vai empatar o jogo e que Platini vai virar para 3x2 aos 119 minutos. Mas continuo a acreditar que Portugal vai ganhar aquele jogo, mesmo sabendo que não vai. Não por ingenuidade, mas por inconformismo perante uma eterna injustiça.

Muito André para pouco Porto
No Jamor, vimos algo parecido, no último minuto do prolongamento. Mas por mais que veja e reveja o lance, espero sempre algo diferente: ou que André Silva remate logo de pé esquerdo; ou que as pernas do André Pinto não apareceram; ou que Marafona escorregue; ou que o remate em arco saia para o segundo poste. Infelizmente, a bola acaba sempre nas mãos de Marafona. Injustiça para todos os portistas, sobretudo para o próprio André Silva, expoente máximo do que é ser Porto na final da Taça.

A época já terminou, mas há alguns aspetos a ter em consideração. A começar pela afirmação de André Silva, um jogador que há dois anos já podia preparar-se para assinar por outro clube. Não o fez porque não quis. Porque é portista, porque é um rapaz bem formado, porque honra e respeita a camisola.

André Silva resistiu a tudo até ter a sua oportunidade. Viu, por exemplo, o FC Porto contratar Suk e Marega em janeiro - e que jeito deram eles na final da Taça de Portugal. Violar o princípio mais básico de qualquer contratação - a vir, que seja melhor do que os que cá estão - foi tudo aquilo que o FC Porto conseguiu fazer no mercado de inverno.

Agora já todos têm grandes expetativas sobre André Silva - só surpreende quem não o acompanhada desde o seu percurso de formação. Na próxima época, é natural que já se comece a pensar num novo contrato - o atual é válido até 2019 e com uma cláusula de rescisão de 25M€. Felizes dias para António Teixeira da Silva, o intermediário da sua renovação. Intermediário, não empresário. A Promosport, no seu site oficial, diz que representa 3 jogadores do FC Porto (Verdasca, Fernando Fonseca e Rodrigo Soares). Não fala em André Silva.

Record, 10.09.2015
Mas no acordo de renovação de André Silva, assinado em novembro de 2014, Teixeira da Silva ficou com 10% do seu passe; e além desses 10%, foi atribuída uma mais-valia de 10% numa futura venda. Como estamos a falar de um produto da formação do FC Porto, a mais-valia a ser gerada seria sempre altíssima, pelo valor que se poupa em amortizações e mecanismos de solidariedade. Neste caso, tendo André Silva uma cláusula de 25M€, estamos potencialmente a falar da cedência de um valor até 5M€ a um intermediário pela renovação de contrato de um dos maiores talentos do FC Porto (e há ainda previsto o pagamento de 100 mil euros pela realização de 10 jogos - mínimo 45 minutos - por época). Na altura era sénior de primeiro ano e estava encostado, devido ao impasse na renovação. Assim que renovou, não mais deixou de jogar. Dá para parar de alienar os passes de jogadores da formação nas suas renovações de contrato, ainda antes de os miúdos começarem a jogar na equipa A?

Ainda sobre a final da Taça, e depois do Projeto Visão 611 ter voltado à ribalta, vemos a crueldade poética de o SC Braga ter ganho a final com dois centrais que deixaram o FC Porto quando o Visão 611 estava em vigor. Ricardo Ferreira, que em 2011 ia passar a sénior após ser campeão de sub-19, um portista dos nossos, não chegou a acordo para renovar - como André Silva poderia não ter chegado... - e foi para o Milan. Fez uma grande época no Braga e vai dar com naturalidade um salto na carreira, pois é central de equipa grande. E portista. Fica questão: quantos esforços foram movidos pelo FC Porto para renovar com Ricardo Ferreira?

O outro foi André Pinto, que era sub-19 de primeiro ano quando o V611 foi criado. Foi emprestado a 4 clubes diferentes até deixar, de vez, o FC Porto. O SC Braga, uma vez mais, aproveitou uma das muitas réstias do FC Porto. E enquanto o SC Braga ganhou a Taça com 2 centrais que deixaram o FC Porto durante o período do V611, o FC Porto perdeu a Taça por erros cometidos pelos seus defesas. No Museu temos o Espaço K. Mas o K já não parece ser de Kelvin, parece ser de Karma. 

Com isto, tomem lá dois nomes para o futuro: Diogo Leite e Diogo Queirós. Nos últimos anos, o FC Porto não tem aproveitado centrais tão bons como antigamente. Reparem que a palavra-chave é «aproveitado», não é «produzido». Afinal, o FC Porto até produziu centrais que são bons o suficiente para ganharem uma Taça de Portugal - e veremos quanto dinheiro vai valer já Ricardo Ferreira, mas é bem provável que valha mais do que Indi, Marcano e Maicon numa transferência. 

Futuro com D
Leite e Queirós acabam de conquistar o Europeu de sub-17. Diogo Queirós já está um passo à frente dos centrais da sua idade - é juvenil e já é titularíssimo nos juniores. Além de ser forte fisicamente, é o típico central que joga sempre de cabeçinha levantada. Diogo Leite, embora ainda não jogue pelos sub-19, teve o seu princípio de afirmação neste Europeu: se o viram perder uma ou duas bolas de cabeça neste Europeu, já foi muito. Muito rápido na antecipação. Temos aqui dois centrais para trabalhar para o futuro.

Do lado direito, já não há surpresas para Diogo Dalot. Foi chamado aos treinos por Lopetegui quando ainda era juvenil, e na altura o ex-treinador do FC Porto confidenciou que esse menino não enganava (a mesma reação de Paulo Fonseca quando chamou Rúben Neves pela primeira vez a um treino, quando tinha 16 anos). É o protótipo de lateral-direito moderno. Rápido, forte, com grande disponibilidade para subir pelo corredor e com golo. João Pinto não consegue olhar para ele sem sorrir.

Esta é mesmo a geração dos Diogos (Diogo Verdasca já poderia ter dado jeito esta época na equipa A, sobretudo face a todas as oportunidades que Chidozie teve). Na baliza, Diogo Costa. Juvenil de segundo ano, titular nos sub-19. Claro que há sempre exceções, mas os melhores guarda-redes, os de topo europeu, são aqueles que começam a jogar muito jovens em equipas principais - não aqueles que ao fim de 4 ou 5 anos de sénior ainda não conseguiram agarrar a titularidade numa equipa de primeira liga (por vezes não por falta de valor, mas de oportunidade). Diogo Costa está um degrau acima e precisa de ter um bom acompanhamento para os próximos anos. Uma palavra ainda para João Lameira, segundo ano de sub-17, com menos espaço no Euro, mas também é campeão europeu. 

Decisão da SAD
De volta à Taça, sem surpresa, a postura de Josué já foi criticada, numa reedição daquilo que foi dito sobre Tozé há 2 anos. E sem razão nenhuma para isso. Josué estava com a camisola do SC Braga, não era com a camisola do FC Porto. E estava com a camisola do SC Braga porque a SAD assim o decidiu, quando emprestou Josué a um clube que só sabe explorar positivamente o FC Porto, enquanto no Dragão nunca tivemos nada de bom oriundo de Braga. 

A culpa não é de Josué: é de quem decidiu emprestá-lo ao SC Braga. No FC Porto, formamos profissionais para darem tudo pela camisola que vestem. Josué estava com a camisola do SC Braga. Se o FC Porto fosse jogar contra o Watford, queriam que Layún deixasse de meter o pé, por estar a jogar contra o clube-mãe? Claro que não, nunca o perdoariam. Josué ganhou a Taça porque deixaram. Os insultos a Josué foram a única coisa lamentável de adeptos que apoiaram exemplarmente a equipa no Jamor. E depois de Pinto da Costa ter dito que Josué ia regressar a casa, veremos se é mesmo isso que vai acontecer...

O FC Porto estará pelo menos mais um ano sem ganhar títulos, e desperdiçou a hipótese de disputar uma Supertaça com o Benfica no início da próxima época. Não houve apenas injustiça, houve também consequência: em janeiro, em vez de reforçarem a defesa, foram buscar Suk e Marega, que nem jogaram no Jamor; se não fosse André Silva, a equipa talvez nem tivesse feito um golo; em sentido inverso, foi por erros defensivos que o FC Porto sofreu os dois golos que deram a Taça ao SC Braga.

Os 120 minutos da Taça de Portugal foram de uma tamanha injustiça; mas o desfecho da Taça de Portugal é uma consequência natural da gestão da época.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Plano B

Uma equipa B, com média de idades sub-20, ganhar a longa e extremamente competitiva segunda liga, onde a experiência tem um grande grau de importância, é um feito histórico. Mas não é um acidente. 


Não podemos falar de um Leicester, de um David contra Golias. O FC Porto B tem um dos maiores orçamentos da segunda liga, senão o maior. Os seus jogadores têm excelentes condições de treino e logísticas, a todos os níveis. Teoricamente, o FC Porto B deveria ser sempre candidato a lutar pelo topo da segunda liga. 

Por exemplo, o Freamunde, equipa que luta pela subida de divisão, disse que o seu orçamento para esta época é de 750 mil euros. Se tivermos em conta que só 50% do passe de Víctor García, o lateral direito da equipa B, custou 1,8M€, já temos uma ideia de quão afortunado é o investimento do FC Porto na sua equipa secundária quando comparado com os demais clubes.

A equipa B significou, a partir de 2012, a oportunidade de passar a apostar a médio prazo em mais jogadores da formação, o que talvez permitisse uma redução da folha salarial. Não foi ainda, de todo, o caso. Nas quatro épocas anteriores à criação da equipa B, a média salarial anual foi de 46,59M€. Nas quatro épocas seguintes à criação da equipa B, e contando com a projeção orçamental para 2015-16, a média aumentou para 60,44M€. Estes quase 15M€ de aumento por ano não se devem, certamente, inteiramente à equipa B, mas mostram que ter a equipa secundária não inverteu o despesismo na equipa A (tendo também em consideração que ter uma equipa B, com mais 25 jogadores com contrato profissional, implica um aumento óbvio de custos; mas não de quase 15M€, sobretudo tendo em conta que desde 2012 só o golo de Kelvin rimou com campeão; e continuar a ter 30 emprestados não ajuda).

Agora é tempo de pensar em colher os frutos deste trabalho. Uns vão fazer a pré-época na equipa A, outros serão dispensados, outros emprestados e outros continuarão na equipa B. A verdadeira valia da equipa B não estará em ganhar a segunda liga, mas sim em lançar jogadores que ajudem a equipa A a voltar aos títulos. Vamos ao quem é quem (contando apenas os jogadores que terminam a época na equipa B, pois os emprestados terão o seu próprio post).
Sem espaço

Começando pelos guarda-redes e pelo talismã Andorinha, que foi campeão em todos os escalões pelo FC Porto. Jogou pouco, por culpa de José Sá e Gudiño, mas foi apenas o seu primeiro ano como sénior e deve prosseguir a sua evolução na equipa B. Contrariamente, Caio tem que sair. Vai para o seu 4º ano de sénior e foi sempre guarda-redes suplente na equipa B, onde fez apenas 4 jogos em 3 anos. 

José Sá (tecnicamente jogador da equipa A, mas como só jogou pela B é aqui avaliado) acabou por tornar-se com naturalidade o titular da equipa B, onde não pode ficar para a próxima época. Vai para o 5º de sénior sem nunca ter sido o titular na primeira liga (chegou a alternar o lugar com Salin no Marítimo, mas sem a consistência desejada). Ficar na equipa A para ser suplente ou terceiro guarda-redes não ajudará à sua evolução, por isso o empréstimo é o mais adequado; a resolução dos casos de Helton, Casillas (que diz que fica até 2018) e dos guarda-redes seniores emprestados ajudará a perceber um pouco o enquadramento que possa ter para a próxima época.

Na defesa, Víctor García está pronto para o salto. Três épocas como titular da equipa B é mais do que suficiente. Cumpriu sempre que foi chamado à equipa A e certamente que terá a oportunidade de jogar numa primeira liga na próxima época. Se será no FC Porto, talvez só a pré-época o possa esclarecer. É um valor seguro para o futuro.

Ronan vai sair pela mesma porta por onde entrou, sendo daquelas contratações que ninguém chega a perceber. Rodrigo Soares, que até foi dar uma perninha ao lado esquerdo da defesa após a saída de Rafa, tem jogado com regularidade nas últimas semanas, mas dificilmente será o suficiente para justificar a sua continuidade no FC Porto, até porque já tem 23 anos e pouco ou nada mostrou na carreira até ao momento.

O futuro atrás
Diogo Verdasca deu mais um passo na sua evolução, que pode muito bem terminar com a afirmação de central da equipa A. Após a saída de Maurício e a promoção de Chidozie agarrou o lugar na equipa B (não é descabido imaginar que Verdasca fizesse tanto ou melhor do que Chidozie nas oportunidades que este último teve, mas foi uma escolha de Peseiro). Para o segundo ano de sénior, deve continuar na equipa B.

Palmer-Brown está emprestado pelo Kansas City, e desconhecem-se os termos que poderiam permitir ao FC Porto comprar o jogador. Mostrou muitas coisas interessantes, embora só tenha chegado em fevereiro, e a sua continuidade por pelo menos mais um ano pode muito bem ser ponderada. Aliás, o Kansas City anunciou que o jogador seria emprestado até ao fim de 2016. Como não faz sentido ter um emprestado que pode sair a meio da época, o FC Porto terá que rever a sua situação no fim da época. A América do Norte é um mercado pouco explorado pelo FC Porto e o Kansas City é um clube que costuma vender barato, por isso a sua continuidade deve ser avaliada.

Vamos ao meio-campo. Pité, também muitas vezes utilizado a defesa-esquerdo por Luís Castro (uma invenção melhor do que Kayembé, mas continua a parecer ser no meio-campo que Pité mais pode ter a dar), teve uma lesão que praticamente o fez terminar a época em janeiro. Mas até então, já mostrava alguns problemas de consistência exibicional, o que fez com que nunca conseguisse fazer 3 jogos seguidos a titular. O 2º ano de equipa B não foi o desejado, apesar de ter tido números muitíssimo interessantes (faz um golo/assistência a cada 82 minutos). É um jogador para continuar a merecer a atenção do FC Porto, pelo menos mais um ano.

Nassim Zitouni, emprestado pelo Vitória de Guimarães e que chegou em janeiro, pouco ou nada mostrou. Foi, tal como Cláudio Ribeiro (o FC Porto aparenta ter extremos mais talentosos nos seus quadros), um jogador que chegou através da MNM Sports (a empresa de Fernando Meira e Pedro Mendes). Ambos dificilmente caberão nos planos do FC Porto. 

Rui Moreira, recuperado da grave lesão sofrida no último ano, teve uma boa série de exibições entre fevereiro e abril. Será natural que continue na equipa B. Sérgio Ribeiro teve um papel secundário no seu primeiro ano de sénior, sendo quase sempre o suplente que entrava para os últimos minutos. Há quem defenda que o seu posicionamento em campo deve ser reconsiderado, recuando no corredor. Ficar na equipa B pelo menos mais um ano seria o ideal.

Haykeul Chikhaoui chegou a meio da época e não se conseguiu adaptar à equipa a tempo de ter um papel importante em 2015-16. É provável que avance para o segundo ano de equipa B, por ter mostrado potencial considerável nos escalões jovens em França. Já Fede Varela foi opção secundária ao longo de toda a época, e pouco mostrou nas oportunidades que teve. Já Enrick Santos ainda nem sequer jogou na segunda liga, e vai sair pela mesma porta por onde entrou. 

Tomás Podstawski, uma das promessas da formação do FC Porto, está pronto para o salto, pois já não está a evoluir na equipa B. Não pode continuar na equipa B, já fez 3 épocas (sendo que na primeira ainda era sub-19), e aos 21 anos está pronto para jogar num patamar superior (melhor a 6 do que a central). E pode ser dito o mesmo sobre Francisco Ramos, com a ressalva de que em 2013-14 jogou apenas nos sub-19. Grande evolução no último ano, e é natural que tenha um lugar na pré-época (veremos em que medida os Jogos Olímpicos podem condicionar o seu caso). 

Um mini Moutinho
O passe de Omar Govea já foi comprado. O FC Porto costuma pagar caro por jogadores mexicanos, e desconhece-se se terá sido uma vez mais o caso, mas Govea justifica a continuidade no FC Porto. Tem tudo para singrar no futebol europeu: posiciona-se bem, boa qualidade de passe, visão de jogo, sabe sair a jogar e é incansável ao longo dos 90 minutos. Faz lembrar um pouco Moutinho.

João Graça ganhou lugar na pré-época, após uma temporada em cheio na equipa B. Depois do papel secundário que teve em 2014-15, foi um dos melhores e mais consistentes jogadores da temporada. É daqueles que não engana, de grande elegância técnica, que joga e faz jogar. Tem que melhorar a sua capacidade física, sem dúvida, mas está a dar garantias de futuro. Veremos como corre a pré-época, mas Graça já teria lugar em muitas equipas da primeira liga.

E agora o ataque, começando pelo nome que mais deu que falar: Ismael Díaz. Está emprestado e surgiram notícias de que o seu passe custaria 3M€ (lá meteram o Benfica ao barulho, sempre bom para inflacionar preços). Ora, o FC Porto não pode pagar 3M€ por Ismael. 

O preço da evolução
Expliquemos. O potencial de Ismael justificaria um investimento de 3M€? Sim. Mas o problema é este: Ismael atingiu este potencial por todo o trabalho que a equipa técnica do FC Porto desenvolveu com o jogador no último ano. O FC Porto tem que pagar um valor alto pelo próprio trabalho que fez no desenvolvimento do jogador? Questionável.

Em toda a sua história, segundo o Transfermarkt o Tauro só fez uma venda revelante: Luís Henríquez, para o Lech Poznan, por 70 mil euros. O FC Porto vai pagar 40 vezes mais por um jovem de 18 anos, que há um ano era um perfeito desconhecido (aliás, muitos já o tinham visto no Mundial de Sub-17 e no Sudamericano de sub-20)? Não faz sentido. Contratar um jogador no Panamá deveria, deve, ser barato. A não ser que o Tauro seja um negociador implacável, que pulveriza o recorde de maior venda da história do Panamá. Queremos ficar com Ismael Díaz, claramente. E neste momento, entre pagar 3M€ e ficar sem Ismael, provavelmente a maioria prefere pagar os 3M€. Mas se o FC Porto começar a pagar por jogadores que o próprio clube desenvolve, então a equipa B sairá (ainda mais) cara.

Leonardo Ruiz também está emprestado, e o seu contrato acaba esta época. Alguns golos, mas esteve na sombra de André Silva e revelou algumas dificuldades na dimensão física da segunda liga. Precisa de evoluir mais. A sua continuidade poderia justificar-se por um valor dificilmente superior a 1M€, o que já seria bastante generoso. De preferência pela totalidade do passe. Se for para ser o número 9 prioritário, então que se avance (Rui Pedro vai fazer o segundo ano de sub-19 ou começar já na equipa B?)

Gleison é outro caso de um emprestado que o FC Porto deve ponderar em contratar. Só há dúvidas quanto ao preço. Gleison pertence ao Portimonense, cuja maioria da SAD pertence a Teodoro Fonseca. Quanto custará comprar Gleison? Nas últimas semanas, baixou imenso de forma, e a segunda metade da época é incomparável ao que fez nos primeiros meses. É um produto totalmente inacabado, de capacidade técnica requintada mas com as limitações próprias dos extremos brasileiros. Se não for caro e não for para ser tratado como Kelvin - o FC Porto desistiu da sua evolução enquanto jogador desde o minuto 92 -, recomenda-se a sua continuidade. 

A crescer
Por fim, Rúben Macedo, também em primeiro ano de sénior e com potencial que recomenda a sua continuidade na equipa B. É, juntamente com Andorinha, Verdasca e Rui Moreira, o sobrevivente da equipa de lançamento do Visão 611. Há a destacar, isso sim, a relação entre o Projeto de Jogador de Elite e esta fornada de talentos que está a sair da equipa B. Rafa e João Graça são bons exemplos. Sobretudo após a crítica de Rui Moreira, tem havido uma tentativa de colar o Visão 611 a este título, quase sempre através do jornal O Jogo. Se isso assim é, então podemos deduzir que 6 jogadores da formação estarão na equipa A em 2016-17? É que o Visão 611 prometia isso todas as épocas. 

Falta elogiar a equipa técnica, começando por João Brandão. Já tinha passado pelas camadas jovens no FC Porto, chegou para adjunto e está para Luís Castro como Vítor Pereira esteve para Villas-Boas: o sucesso de um deveu-se muito aos métodos de treino do outro.

Quanto a Luís Castro, após 10 anos no comando da formação do FC Porto, e sem grandes proveitos que justificassem aposta e continuidade, atinge agora o resultado de maior sucesso. Enquanto treinador da equipa B, teve aquilo que os técnicos da equipa A raramente têm: estabilidade. Teve mais derrotas do que vitórias em 2014-15 (com apenas 17 vitórias em 46 jogos e uma diferença de golos de +2), mas poucos foram críticos para com o seu trabalho. Sobretudo porque a muitos pouco interessava a equipa B até ao último fim-de-semana. O seu trabalho na equipa B nunca pareceu estar particularmente articulado com os treinadores da equipa A. Sobretudo por ser difícil fazê-lo quando o treinador da equipa A, ao fim de 2 maus resultados, já tem a cabeça a prémio. Já Luís Castro, mesmo após uma época de maus resultados, mau futebol e escassa evolução de jogadores, nunca teve o seu lugar em perigo.

Não é fácil treinar uma equipa B e ser campeã com ela, logo tem que haver mérito. A equipa técnica perdeu jogadores em janeiro, teve muitas caras novas e sistematicamente há jogadores a irem às seleções ou à equipa A. Não se ganham títulos sem competência. Que Luís Castro teve e tem condições que mais ninguém teve, sem dúvida que sim. Tem as melhores condições de treino, o plantel (ou um dos) mais caro da segunda liga, e passou quase imune à crítica pelos maus resultados até esta época. E desta vez não insistiu num esquema com dois (por vezes até três) médios de caraterísticas defensivas, o que foi meio caminho andado para meter o FC Porto a fazer golos com grande regularidade (defensivamente a equipa foi sempre insegura, tanto que o FC Porto B tem uma das piores defesas da parte superior da tabela, também porque houve muitas alterações no setor defensivo). 

Luís Castro tem contrato por mais um ano e fala-se no interesse de equipas da primeira liga. Se de facto existir, o FC Porto não deve colocar entraves à sua saída. Se quiser ir, que o FC Porto assim o permita. Sai como campeão e terá a oportunidade de mostrar, noutro contexto, a sua valia. Caso contrário, é natural que os resultados atingidos esta época justifiquem a sua continuidade. 

Pergunta(s): Que jogadores da equipa B têm lugar no FC Porto em 2016-17?

PS: Na sondagem sobre quem mais se destacou na equipa B, foram considerados apenas os 20 jogadores mais utilizados esta época. Maurício foi excluído, por ter saído em janeiro e não pertencer ao FC Porto. Podem escolher mais do que um jogador.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ilusão 611 e a mala da hipocrisia

O FC Porto não personalizou a resposta às críticas, mas sentiu-as. Assim se explica a reação após Rui Moreira ter criticado o projeto Visão 611, cinco anos após o mesmo ter sido enterrado, e ter visado Antero Henrique. 

Críticas do baú
Para começar, saúde-se o facto do FC Porto ter, cinco anos depois, apresentado uma espécie de balanço do Visão 611. O pequeno Thumber saiu defraudado na filosofia que deu a conhecer ao mundo, mas basicamente a SAD emitiu um pequeno comunicado a defender que o projeto foi um sucesso.

Rui Moreira, face ao cargo que ocupa na cidade, faz com que as suas críticas tenham um mediatismo superior. Mas há que enquadrá-las. Quantos dos problemas do FC Porto se podem relacionar com o falhanço do Visão 611? Faz sentido lamentar agora um projeto enterrado há 5 anos? Na essência, parece claro que o FC Porto falhou por completo nos pressupostos do projeto, que visavam aumentar a quantidade de jogadores da formação na equipa A; contrariamente, desde o encerramento do projeto os gastos com contratações dispararam, nasceu a moda dos contratos de scouting, os erros de casting acumularem-se e a eficácia de contratações tem deixado muito a desejar, além da crescente influência/dependência dos fundos nas movimentações do FC Porto no mercado.

O que mais surpreende é que, há 15 dias, Rui Moreira votou na reeleição de Pinto da Costa para a presidência do FC Porto, tendo deixado uma mensagem de confiança. Mas não sabemos se não riscou o nome de Antero Henrique do boletim. Se o fez, estas críticas já fariam mais sentido - até porque há uma grande facção de adeptos que dizem confiar em Pinto da Costa, mas não nos seus parceiros do Conselho de Administração. Algo que não faz muito sentido, diga-se: como é que podemos confiar em alguém se esse alguém vai confiar nas pessoas erradas?

De qualquer forma, bastou Rui Moreira falar no Visão 611 para meter o seu balanço em discussão. O FC Porto nunca fez um balanço a propósito do projeto, e este comunicado na SAD ignora aquilo que eram as bases do projeto.

Nas análises já aqui feitas ao Visão 611, foi destacada a eficiência de o clube ter facilitado a ponte clube-escola, a modernização do modus operandi (mesmo que em muitos casos isto sejam planos teóricos que não produzem efeitos na prática) e a aposta especializada nos treinos (não treinar apenas um plantel: treinar defesas, treinar médios, treinar avançados). Isto foram os pontos positivos do Visão 611. Mas naquilo que interessava, o projeto foi um falhanço completo.

A importância desconhecida
O FC Porto previa ter, a partir de 2011, 6 jogadores da formação na equipa A. Como o clube fez uma época memorável em 2010-11, ninguém se incomodou com a ausência de jogadores da formação. Mas não foi cumprida a premissa mínima de qualquer projeto de formação: meter miúdos na equipa A.

No comunicado, o FC Porto associa a conquista da Liga Europa ao sucesso do Visão 611. Um disparate. A não ser que os jogos que Ukra fez contra o Genk e o Rapid Viena (Castro jogou  21 minutos contra as duas equipas, depois foi emprestado em janeiro) tenham sido decisivos rumo a Dublin. Não parece de todo ter sido o caso. Mas na defesa ao Visão 611, há quem amplie o seu propósito a todo o mercado, e assim defenda que contratações como Sapunaru, Guarín ou James foram da responsabilidade do Visão 611. Uma tentativa de defender o seu sucesso.

O FC Porto não passou a apostar mais na formação desde o encerramento do 611. Reparem que na última época antes do início do projeto, o FC Porto utilizou Hélder Barbosa, Postiga, Bruno Alves, Ivanildo, Hugo Almeida e Ricardo Costa. 6 jogadores da formação, que era quanto o projeto visava incluir a partir de 2011. Já em 2011-12... Kadú jogou 8 minutos na Taça de Portugal. Só isto.

«O impacto do projeto Visão 611 pode ainda ser percetível nas dezenas de jogadores formados pelo FC Porto e que se encontram a disputar os campeonatos profissionais portugueses». Como disse? Mas o FC Porto criou este projeto de formação para meter jogadores na equipa A ou para andar a fornecer jogadores ao Rio Ave, ao Paços de Ferreira ou ao Vitória de Setúbal?

Em 2009, o FC Porto apresentou no Vitalis Park as duas equipas de sub-13 e sub-14 que iriam ser a bandeira para os próximos anos. Da equipa de sub-13 não sobra ninguém no clube. Na equipa de sub-14 contam-se pelos dedos os sobreviventes: Andorinha, Diogo Verdasca (se o Visão 611 tivesse sido um sucesso tão grande, se calhar tinha sido ele a jogar nestes últimos meses; aliás, o FC Porto sempre teve uma grande escola de centrais, mas nos últimos 10 anos não formou nenhum central para se afirmar na equipa A), Rui Moreira (ironicamente, um homónimo do presidente da CM Porto) e Rúben Macedo.

Entretanto, quando Rúben Neves apareceu na equipa A e Lopetegui deu alguns minutos a Gonçalo Paciência, tentou retirar-se o 611 da gaveta, ao recordar o Projeto de Jogador de Elite. Faltou só dizer que quando Pepijn Lijnders saiu para o Liverpool, o projeto morreu. É um facto que esta vertente de treino ajudou a desenvolver alguns dos nossos jogadores (Rafa, Podstawski, Rui Moreira, Graça, Leandro, Macedo, Sérgio Ribeiro, Bruno Costa, Rui Pedro, entre duas dezenas de jogadores). Falta saber se isso vai ter impacto na equipa A, que é o que interessa. Mas com a saída de Pepijn, viu-se que era mais um projeto de um homem do que um projeto de um clube. 

Revolução sem proveito
Além disso, é difícil identificar que jogadores formados do FC Porto durante o projeto Visão 611 estão a brilhar nas «principais ligas europeias». A sério, ajudem. Já para não falar que o FC Porto não fez nenhuma grande venda com jogadores da formação durante esse período. Tendo como referência as despesas inerentes a contratações/negociações de jogadores como Kayembé, Djim ou Abdoulaye, o dinheiro gerado com a venda de jogadores saídos da formação do FC Porto cobre sequer o dinheiro gasto em jogadores estrangeiros que nunca chegam a ser opção válida de equipa A?

Aquando da apresentação do projeto, Antero Henrique garantiu também a existência de uma «equipa sombra», que o FC Porto tinha como referência antes de cada ataque ao mercado. Neste momento, alguém acredita na existência, ou utilização, dessa «equipa sombra»? E quais são os custos da elaboração de uma equipa sombra? Implicam contratos de scouting?

Como grande curiosidade, este texto da «revolução chamada Visão 611», muito elogioso para com o FC Porto e publicado em 2009, é da autoria de Francisco J. Marques, agora mais conhecido entre os portistas pelos textos do Dragões Diário, e na altura explicava que o projeto ia muito além da formação, pois também estava implicado no modelo de compra-valorização-venda. Mas há a destacar este excerto: «Em 2006 houve uma mudança radical na forma de trabalhar e os resultados só devem começar a surgir na plenitude dentro de seis, sete anos». Se tomarmos como referência os sete anos, desde 2013 o FC Porto não voltou a ganhar títulos e desde então atravessa uma das maiores crises desportivas da sua história.

Concluindo, e pegando nas críticas de Rui Moreira: é tudo culpa do projeto Visão 611? Não, certamente não. Mas se o Visão 611 visava ser solução para alguma coisa, deixa muito a desejar. 

PS: As malas é que estão a dar. De todo este barulho que não leva a lado algum, Carlos Pereira, presidente do Marítimo, deixou uma afirmação muito sugestiva: «Isto pode virar-se contra o Benfica». Ele sabe porque é que afirmou isso. O Benfica também. E o Sporting também. O Benfica sabe porque é que tanto questionou o choro do Arnold. E sabe porque é que mandatou Pedro Guerra para falar das malas para o Vitória de Guimarães: porque não há vergonhosa, escrúpulos e reina a hipocrisia para os lados da Luz. E o Sporting também sabe porque é que pode estar tranquilo neste assunto: porque do outro lado não há moral para falar. 

E com isto, na óptica do FC Porto para a época 2015-16, os adeptos questionam: o que é possível fazer com vista a punir os eventuais incentivos oferecidos por Benfica e Sporting para perderem pontos contra os respetivos adversários?

Se estivéssemos a falar de uma competição sob tutela da FPF, haveria matérias para as duas equipas perderem pontos:


Mas o que acontece numa competição que é da responsabilidade da Liga?


Eis a nossa liga. No campeonato português, o máximo que pode acontecer a um clube que oferece ilícitos a clubes terceiros é pagar uma multazita. Não perdem pontos, não são suspensos, não são desqualificados. Nada. O máximo que acontece é pagarem uma multa. Quem tem dinheiro para meter por baixo da mesa para motivar os adversários, também tem dinheiro para pagar multas de 25 mil euros. Peaners. Aliás, reparem bem: Pedro Guerra disse que foram oferecidos 350 mil euros ao Vitória de Guimarães (o Sporting não ajudou o José Pina a descobrir quanto oferece o Benfica? Então, Bruno?). A multa máxima prevista nos regulamentos é de 25,5 mil euros. Ou seja, pagar a multa por oferecer incentivos é quase 14 vezes mais barato do que o próprio incentivo do Sporting. Sai mais barato do que pagar IVA. Eis o nosso futebol.

Por isso, isto é uma discussão de manifesta inutilidade, porque o próprio Regulamento Disciplinar da Liga não oferece consequências graves a quem recorrer ao jogo da mala. Irão Pedro Proença, presidente da Liga, José Fontelas Gomes, novo presidente do CA, e José Manuel Meirim, o novo presidente do CD, propor alterações a este nível? Esperem deitados, porque sentados causaria dores no cóccix. O futebol português não tem interesse em punir as equipas que oferecem e aceitem incentivos. Vá-se lá saber porquê. 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Paixão até ao fim

O FC Porto já está fora da luta pelo título, mas há fenómenos interessantíssimos que não podemos deixar de observar. Como por exemplo, nas nomeações para a 32ª jornada do campeonato, onde se pode decidir a luta pelo título.

É bom lembrar que estamos nas últimas semanas do reinado de Vítor Pereira, que anteriormente explicou que as nomeações têm em consideração a «graduação de Normal, Médio e Difícil» quanto à dificuldade de cada jogo, tendo sempre em conta «a classificação, a rivalidade e factores recentemente ocorridos».

Face à conjuntura para estas jornadas, tanto o FC Porto x Sporting como o Benfica x Vitória SC são jogos de grau de dificuldade difícil. Teoricamente, quem são (ou deveriam ser) os melhores árbitros? Os internacionais. Por isso Vítor Pereira admitiu o princípio de nomear os árbitros internacionais para os jogos de máximo grau de dificuldade.

Ora, para o Dragão foi nomeado Artur Soares Dias, internacional e eleito o 2º melhor árbitro da época passada (atrás de Jorge Sousa). Trata-se até de um árbitro já experiente em clássicos, apesar de já ter sido muito criticado de parte a parte, com mais ou menos razões para isso. 

Já para o Benfica x Vitória SC... Não foi nomeado nenhum internacional. Dos 8 árbitros internacionais da FPF, não escolheram nenhum: a escolha foi Bruno Paixão, que perdeu as insígnias de internacional em 2012, após ter ficado por duas vezes abaixo do 12º lugar da lista de melhores árbitros. Na altura recorreu aos tribunais, alegando que era uma injustiça. De facto, que grande injustiça que foi: em 2012-13 foi 12º e em 2013-14 cometeu a proeza de ser 20º classificado, um dos piores árbitros do ano em Portugal.

Já em 2014-15, numa época atípica em todas as classificações de árbitros (basta lembrar que o árbitro escolhido para a final da Taça, Marco Ferreira, na altura por ter feito uma boa época, acabou por ser despromovido de categoria), Bruno Paixão ficou no top 12. E isso já se consegue justificar, pelos regulamentos, a sua nomeação para a próximo jogo do Benfica.

Pois os regulamentos, embora recomendem a nomeação de árbitros internacionais para os jogos de grande dificuldade, incluem a possibilidade de chamar um árbitro do top 12 da época anterior. Mas sendo Bruno Paixão, segundo uma acusação do próprio Sporting, benfiquista, a nomeação não deixa de ser discutível por todos os motivos. Até pelo próprio saldo do Benfica a jogar em casa em jogos arbitros por Bruno Paixão.

Em 12 jogos com Bruno Paixão na Luz, o Benfica venceu os 12. Além disso, Bruno Paixão apitou uma única vez um jogo entre Benfica e Vitória SC em toda a sua carreira. O resultado foi este:


Vítor Pereira e o Benfica levam a sua Paixão até ao final. Não vá ela ser necessária no último suspiro.

PS: O timing do Football Leaks volta a ser deveras interessante. Quando divulgaram o mapa da percentagens de passes do FC Porto, já tinha sido levantado o véu da condição contratual de Tony Djim. Mas na semana passada colocaram o contrato na íntegra com a Danubio GMBH, empresa ligada a Luciano D'Onofrio e que tem estado envolvida em todos os jogadores que chegam do Standard Liège (Bolat, Opare, Kayembé, irmãos Djim), fica com percentagens de passes e cobra grandes quantias por jogadores que chegam livres de qualquer contrato ao FC Porto. 

Quase como que a adivinhar uma iminente renovação, o Football Leaks publicou o contrato que mostra que a partir do momento em que Tony Djim renovasse, o FC Porto teria que comprar 10% do passe por 1M€, avaliando assim Djim, com pobres resultados na relação tempo de jogo/rendimento, em 10M€. Tony Djim, à data de hoje, não vale sequer um décimo desse valor, nem mostra potencial que justifique a sua compra nestes moldes. É sem dúvida um jogador empenhado, mas que não se faz destacar por nada mais que a sua capacidade física nos sub-19. 

Se Tony Djim está já avaliado em 10M€, então quanto custarão os bem mais talentosos Gleison e Ismael Díaz? Se fizer 5 jogos na equipa A, a SAD, segundo o contrato que foi divulgado (não sabemos se houve alguma adenda ou modificação face ao que foi assinado em 2014), tem que pagar mais 1.5M€ por 20% do passe. Provavelmente Djim não chegará a fazer esses jogos, à imagem de Generoso, mas confirmando-se estes valores trata-se de um negócio sem cabimento nem pertinência, tal como tem sido esta ligação à Danubio. O Relatório e Contas provavelmente pouco ou nada dirá desta operação, tendo em conta que também não foi nada esclarecedor no caso de Célestin Djim (nunca foi clarificado quanto a SAD pagou por ele - o tal 1M€ por 10% antes da venda -, nem sequer especificaram que foi vendido com Carlos Eduardo para as Arábias). O outro irmão Djim tem 12 minutos ao serviço do Metz em França. Há idas à casa-de-banho que demoram mais tempo.

A Tony Djim a melhor sorte (o rapaz é o último culpado, pois não obrigou ninguém a contratá-lo ou a pagar por ele, e tem o sonho de ser um bom futebolista, como todos os outros), pois há muita gente a depender da sua evolução. Por exemplo, Luciano Djim, 37 anos, já criou 4 empresas diferentes (Nutrilite, Sport Promotion, World of Sport e Luciano Djim Soccer Talents Management), todas com o mesmo número de telefone, mas todas elas não parecem/pareceram passar de projetos de pouca dura. 

Luciano Djim com Dominique D'Onofrio, irmão de Luciano D'Onofrio
Esta foi a primeira renovação de contrato anunciada desde a reeleição do Conselho de Administração para um novo mandato. Está dado o pontapé de saída para o futuro.