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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sempre se pagaram comissões

«Sempre se pagaram comissões». Esta frase ganhou espaço em todas as discussões sobre o pagamento de comissões feito pelo FC Porto, em particular por parte de quem defende inteiramente a política levada a cabo pela SAD neste aspeto.

À partida, nunca ninguém disse que o FC Porto nunca pagou comissões, o que retira desde logo toda a lógica e peso a essa argumentação. O que está em causa é que, provavelmente, muitos adeptos só se interessam com isto pois a equipa não está a conquistar títulos. Se o FC Porto estivesse já com festa à vista nos Aliados, possivelmente muitos não se importariam com quantos milhões e para quem iriam sair dos cofres da SAD.

Mas na verdade, isso é mais legítimo do que possa parecer. Para muitos adeptos, o problema não é o pagamento de comissões: é o pagamento de milhões que não têm retorno desportivo. É o pagamento de milhões ou comissões que não resultam num benefício para o FC Porto. A política de gestão da SAD do FC Porto é, há anos, estar sempre no risco financeiro para ter retorno desportivo; se o retorno desportivo não está a aparecer, é normal que o modelo seja criticado.

«Sempre se pagaram comissões», é verdade. Mas a questão que se deve colocar é: hoje pagam-se mais comissões do que antes? São essas as contas que O Tribunal do Dragão fez:

(*) 6 primeiros meses de 2015-16. Dados dos R&C anuais da SAD. As comissões incluem encargos e contratos
Nota prévia: a época 2015-16 inclui apenas as despesas dos primeiros seis meses da temporada; e todos estes valores dizem respeito a «encargos com serviços de intermediação nas aquisições de passes de jogadores», «bem como na negociação e renegociação dos contratos de trabalho com jogadores». Ou seja, não estão incluídas as comissões pagas pelo FC Porto nos momentos de vendas de jogadores, apenas na compra ou elaboração de contratos. Em relação a 2015-16, o valor ainda vai aumentar com os negócios feitos em janeiro pela SAD. Posto isto, algumas notas soltas sobre as comissões/encargos pagos pela SAD nas últimas 10 épocas:

- Em 2011-12, época seguinte à conquista da Liga Europa, a SAD atingiu o topo do pagamento de serviços de intermediação: mais de 11M€. Tal explica-se pelos elevados encargos envolvidos nas contratações de Danilo (4,839M€), Mangala (1,02M€) e Defour (1,85M€) - os dois primeiros deram grande retorno desportivo e financeiro. Nessa época, o FC Porto investiu um valor líquido de 56,517M€ em contratações (78,29% das receitas operacionais da SAD) e terminou com um prejuízo consolidado de 35,76M€ - o que marcou uma série de cinco épocas sempre a dar lucro.

- As comissões/serviços de intermediação têm aumentado sucessivamente desde 2012-13 - à imagem do que foi acontecendo entre 2005-06 e 2011-12.

- Só nos primeiros seis meses desta época, a SAD gastou mais 2,568M€ do que no conjunto das três primeiras épocas com Jesualdo Ferreira, na qual o FC Porto foi sempre campeão.

As mudanças desde 2010
- Nas quatro épocas em que a SAD mais pagou em comissões e encargos, o FC Porto só foi campeão numa, em 2011-12. Se é verdade que no futebol português a equipa que mais investe é, por norma, a campeã (2015-16 vai ser uma das exceções), investir mais em encargos/comissões não garante nada.

- Nos últimos dois anos e meio, o FC Porto pagou 18,97M€ - há a expetativa de ver se este valor atinge os 20M€ com os negócios do mercado de inverno. Assim sendo, em dois anos e meio em que o FC Porto não ganhou nada, os encargos são quase tantos como os das últimas cinco épocas em que o FC Porto foi sempre campeão (20,349M€).

- Na era Jesualdo Ferreira, o FC Porto foi sempre aos 1/8 da Liga dos Campeões e pagou apenas 7,217M€ de comissões - menos do que o valor total a ser pago na época 2015-16, em que o FC Porto só pode ganhar uma Taça de Portugal.

- Exceção feita a Jackson Martínez, as últimas grandes vendas do FC Porto foram feitas com jogadores contratados em 2011-12, a época em que houve mais encargos (Danilo, Alex Sandro e Mangala).

O resistente de 2013
- Entre 2006 e 2010, anos em que as comissões/encargos nunca foram além dos 3,045M€, o FC Porto contratou jogadores como Fernando, Hulk, Rodríguez, Sapunaru, Rolando, Guarín, Álvaro Pereira, Falcao ou Belluschi; ou seja, uma base de jogadores para ganhar campeonatos e Liga Europa com grande brilhantismo, e em que alguns geraram as mais-valias necessárias para que a SAD nunca desse prejuízo (entre 2006 e 2011 deu sempre lucro). Além disso, durante esse espaço de tempo fez vendas como Diego, Anderson, Pepe, Quaresma, Bosingwa, Lisandro, Lucho ou Cissokho.

- De todos os jogadores contratados pelo FC Porto desde 2013, que implicaram o pagamento de encargos de pelo menos 18,97M€, ainda nenhum proporcionou nenhuma venda significativa ao FC Porto (a mais-valia por Imbula é reduzida, por ter sido vendido quase a preço de compra e menos de meio ano depois de ter assinado pelo FC Porto), acima dos 10M€. Importa recordar que o FC Porto, pela voz de Antero Henrique, assumiu que a sua gestão implica ciclos de três anos para os jogadores do clube. Ou seja, a fornada contratada em 2013 deveria começar a dar lucro agora neste verão (de todos esses jogadores, só Herrera, que tecnicamente foi contratado no exercício de 2012-13, está no plantel). Quantos dos jogadores do atual plantel estão em condições de garantir as mais-valias necessárias?

- Tendo em conta a última década. Entre 2006 e 2011 o FC Porto pagou uma média de 2,353M€ por época; já entre 2011 e 2016 pagou, até ao momento, uma média de 6,52M€, ou seja, quase o triplo da primeira metade da década. Podemos considerar uma hipotética inflação no mercado do futebol, mas o triplo parece ser um pouco puxado. E há que lembrar que entre 2006 e 2011 o FC Porto ganhou quatro campeonatos e uma Liga Europa, enquanto entre 2011 e 2016 ganhou dois campeonatos.

ADENDA: face à pertinente sugestão de um leitor no Facebook, O Tribunal do Dragão acrescenta a relação entre comissões/encargos e o valor total das aquisições feitas pelo FC Porto por época (o que inclui contratações e compras de passes de jogadores que já eram do clube).
- O padrão de aumento desde 2011 é claro, e tem na época 2012-13 a grande exceção (curiosamente a última época em que o FC Porto foi campeão). De recordar que Pinto da Costa disse, na última entrevista, que o FC Porto paga «5 a 10%» por operação aos empresários. Neste caso, importa ter em conta que o valor dos encargos inclui variantes como prémios de assinatura e direitos de imagem, logo o dinheiro não se destina todo aos empresários. Daí que o facto de nas últimas 5 épocas o FC Porto ter ultrapassado, em 4 ocasiões, os 10% (e de já ter ultrapassado os 25%) não significa que os empresários estejam a receber acima das percentagens afirmadas pelo presidente do FC Porto.

É verdade. O FC Porto sempre pagou comissões/encargos, como todos os outros clubes. O problema é que nunca pagou tanto por tão pouco retorno desportivo.

PS: Foram considerados apenas os encargos com compras de jogadores e celebração de contratos, e não as percentagens de passes que se atribuem a agentes/fundos aquando da compra de jogadores e renovações de contratos. E uma vez mais, importa lembrar que não estão incluídas as comissões pagas nos momentos de vendas de jogadores (daí que Pinto da Costa tenha dito, por exemplo, que o FC Porto pagou 11M€ em três anos a um empresário, e que este valor pareça exagerado face aos números que estão aqui apresentados). 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A verdade antes da generosidade

Já ninguém pode falar num SportingLeaks. O Football Leaks virou definitivamente as agulhas para o FC Porto nos últimos dias. Só na última semana foram feitas sete publicações de documentos do FC Porto (e com uma vasta variedade de contratos nos casos de Casemiro, dos negócios de Alexandre de Pinto da Costa e de Corona), enquanto Benfica e Sporting há muito que não são visados. 

No último mês, a única coisa que se revelou do Sporting foi o salário de Coates. Do Benfica, basicamente só revelaram os contornos da renovação do contrato de Nico Gaitán, cuja engenharia foi aqui analisada no post «Abono de família». Ou o Football Leaks esgotou os seus documentos sobre Benfica e Sporting, o que não parece de todo ser o caso, ou decidiu dar tréguas à Segunda Circular e passar a visar quase exclusivamente o FC Porto. No mínimo suspeito curioso. 

É também de notar o facto de só à segunda tentativa a situação de Generoso Correia, avançado dos sub-19, ter ganho espaço mediático. Expliquemos:

A 8 de fevereiro o Football Leaks já tinha divulgado o mapa completo da situação contratual de todos os jogadores do FC Porto em relação ao TPO. Está lá Generoso Correia, que foi contratado ao Chaves em 2013, quando ia entrar no primeiro ano de juvenil.  Atualmente está no primeiro ano de sub-19.

Generoso nos sub-19, zerozero.pt

Na altura, foi esta a informação divulgada: o FC Porto tinha 40% do passe de Generoso; o Chaves 10%; e os restantes 50% estão na já bem conhecida Danubio Finanzierungsleistungen und Marketing GMBH, que ganhou 2,615M€ com 85% do passe de Kayembé, que tinha acabado de sair da equipa de juniores do Standard.

E o Standard é sempre o denominador em negócios que envolvam a Danubio, uma empresa ligada a Luciano D'Onofrio, mas que no contrato de Generoso está representada por Paul Stefani, empresário de Defour, outro ex-Standard. A lista que foi divulgada em fevereiro mostrou por exemplo que a Danubio ficou com 25% de Opare e terá ficado com 20% de Bolat (há uma nota a dizer que o acordo não está assinado, mas que existe um compromisso assumido). Dois jogadores que chegaram ao FC Porto a custo zero, diga-se.

Há também destaque para os contratos dos irmãos Djim, que são exatamente iguais. A saber 50% do passe para a SAD, 50% para a Danubio. Se algum dos irmãos Djim fizer 5 jogos pela equipa A, a SAD tem que comprar 20% do passe por 1,5M€; e se houver uma renovação de contrato, a SAD tem que comprar mais 10% por 1M€. 

Entretanto Célestin Djim foi vendido para as Arábias (o seu passe foi vendido mas o jogador continua no Metz, onde já jogou 12 minutos na segunda liga francesa). Não houve qualquer confirmação por parte da SAD de que tenham comprado mais 10% por 1M€ antes da transferência para o Al Hilal. Mas tecnicamente a SAD nunca afirmou que Djim foi diretamente transferido para o Al Hilal, embora tenha sido o caso. O R&C anual talvez ajude a perceber a operação. 

Tony Djim está atualmente a jogar com impressionante regularidade nos sub-19, mas pouco ou nada tem convencido. Tem 7 golos em 22 jogos, muito pouco para um júnior de segundo ano, sobretudo se tivermos em conta que em época e meia de juniores André Silva marcou 47 golos. E se comprar 30% do passe de Djim custaria ao FC Porto 2,5M€, então quanto valerá André Silva?

Num exemplo mais recente, Leonardo Ruiz fez 29 golos na última época nos sub-19. Importa dizer que Tony Djim não é um homem de área, joga muitas vezes pelo flanco (ficando Rui Pedro a ponta-de-lança), mas poucos ou nenhuns dos que acompanham os sub-19 do FC Porto conseguem enaltecer as qualidades de Tony Djim. E se uma simples renovação de contrato custará 1M€, então não, obrigado, temos melhores avançados e bem mais baratos nos quadros do clube. Basta dizer que para ir buscar André Silva ao Salgueiros o FC Porto pagou apenas mil euros. E André Silva tinha 15 anos. Quando comparamos os mil euros de André Silva com os irmãos Djim ou o valor do passe de Generoso...

É de realçar ainda que poderá ter havido outras despesas inerentes a estas contratações a envolver o Standard e/ou a Danubio. Por exemplo, segundo os R&C da SAD, em junho de 2014 o FC Porto devia 2,065M€ à Danubio; em dezembro de 2014, já devia 2,25M€; e em junho de 2015 a dívida já era de 2,676M€.

Mas de regresso ao tema inicial, Generoso Correia. Era isto que estava escrito no ficheiro divulgado em fevereiro:


Resumidamente, se Generoso assinar contrato profissional com o FC Porto, a SAD paga 100 mil euros ao Chaves; se fizer 10 jogos pela equipa A, a SAD paga mais 250 mil; e se fizer outros 10 jogos, a SAD paga outros 250 mil. Mas se Generoso fizer simplesmente 5 jogos pela equipa A, a SAD é obrigada a comprar mais 30% do passe à Danubio por 2,5M€.

Ora o contrato que foi publicado esta semana foi assinado em agosto de 2013, quando Generoso tinha 14 anos. 14 anos. E com um miúdo de 14 anos, o Chaves consegue uma receita potencial de 600 mil euros. Tendo em conta que o lucro gerado pelo Chaves na última época foi de 113 mil euros, aqui se vê o quão fantástico é este negócio para o Chaves. Além disso, em 2011 teve que ser aprovado um plano de viabilização para o clube, devido a um processo de insolvência. Dois anos depois, o Chaves já estava a negociar como gente grande. Notável, sobretudo porque talvez o Chaves não consiga vender nenhum dos seus jogadores da equipa A por 600 mil euros. Um abraço aos nossos amigos flavienses, que estão de parabéns. 

Mas há aqui algo que faz toda a diferença: todas, todas estas condições só são aplicáveis se Generoso assinar contrato profissional. O documento que o Football Leaks divulgou é de 2013, quando Generoso tinha 14 anos. Logo, e porque a verdade deve estar acima de tudo, não sabemos se todas estas condições são aplicáveis. Podemos criticar que o simples facto de admitirem fazer este negócio é uma loucura, mas não há ainda garantias de que o negócio tenha sido feito.

A crítica só faz sentido se for rigorosa e respeitar todos os factos. Por exemplo, lembram-se de Diego Maurício, que em 2014-15 fez apenas dois jogos pelo Vitória de Setúbal na primeira liga e foi dispensado por ser, simplesmente, fraco? Em 2011, a meio de uma época dourada para o FC Porto, escapámos a um dos maiores barretes da história:


Com ou sem proposta de 13 milhões, o FC Porto não contratou Diego Maurício em 2011, logo não cometeu esse erro. Ora Generoso fez 17 anos em dezembro, ou seja, só desde então pode assinar contrato profissional. Não há nenhuma informação pública que indique que Generoso assinou contrato profissional pelo FC Porto. Logo, não se sabe se estas condições são aplicáveis.

Se estas condições forem válidas, com a assinatura do contrato profissional, então pela sanidade e bom senso de qualquer portista só podemos deduzir isto: Generoso Correia é a maior promessa do futebol português, e Folha está completamente enganado ao não lhe dar mais oportunidades nos sub-19. Porque se um jogador de 14 anos fica vinculado à possibilidade de ter que pagar 600 mil euros ao Chaves e é avaliado em mais de 8M€ com base nas cláusulas celebradas com a Danubio, então esqueçam Rúben Neves ou Renato Sanches: a maior promessa do futebol português dá pelo nome de Generoso Júlio Nunes Correia (um miúdo a quem não se deseja nada mais do que boa sorte na construção da sua carreira profissional, pois nenhum jogador tem culpa de quanto custa e a quem custa, e que nunca deixe de lutar pelo sucesso do FC Porto e pela progressão na sua qualidade futebolística). Cá fica algo importante a esclarecer à entrada para o 14º mandato: o FC Porto desistiu da ideia de tornar Generoso Correia o rapaz de 14 anos com a maior avaliação da história do futebol português, ou o contrato profissional foi assinado e estamos perante um caso sério do futebol juvenil?

Hoje Pinto da Costa fala à nação portista. Que se faça ouvir o presidente.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Verdades de 1 de abril

Saúde-se a prontidão de Alexandre Pinto da Costa. No dia seguinte a ver a sua cara chapada no CM, a Energy Soccer emite de pronto um comunicado e o empresário dá uma entrevista de grande destaque ao JN. Coisa rara nos tempos que correm.

O Correio da Manhã pegou em informações que já eram do domínio público e deu uma injeção de sensacionalismo no tema. E como seria de esperar, cometeu imprecisões, que foram de pronto identificadas pela Energy Soccer no seu comunicado.

O caso de Ricardo Quaresma é um exemplo. Já se sabia, desde a época 2013-14, que havia uma despesa de 500 mil euros associada à sua contratação. O CM escreveu que Alexandre Pinto da Costa recebeu 500 mil euros de comissão, enquanto o empresário desmente e diz isto: «Na contratação do jogador a Energy Soccer não emitiu qualquer factura ao FC Porto SAD por este negocio.»

De realçar a insistência de afirmar que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto. Tem uma explicação, porque é verdade. Conforme se pôde ver no R&C, o FC Porto não tinha nenhuma dívida à Energy Soccer, mas sim à DNN.

Dívidas a outros clubes e entidades - Relatório e Contas 2014-15
Por isso, neste dia 1 de abril, Alexandre Pinto da Costa não mentiu: de facto, a Energy Soccer não passou nenhuma fatura ao FC Porto, pois quem o fez foi a DNN (uma empresa fundada em 1999, de Pedro Pinto, e que está ligada a dois treinadores do FC Porto, Luís Castro e José Peseiro).

E aqui é que surge o fenómeno Football Leaks, que publicou um acordo entre a Energy Soccer (Segundo Outorgante) e a DNN (Primeiro Outorgante), para que a DNN transferisse para a Energy Soccer metade do dinheiro que viesse a receber do FC Porto.

Acordo entre a Energy Soccer e a DNN na transferência de Quaresma
Assim se explica como é que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto e diz ter recebido apenas 596 mil euros, ao contrário dos cerca 2M€ que foram noticiados. É verdade, ninguém mentiu. Tal como o FC Porto também não pagou nada por Casemiro à Energy Soccer: o FC Porto pagou à Vela, do Universo Doyen, e depois a Vela transferiu dinheiro para a Energy Soccer e a Pesarp. Tudo explicado. 

Do comunicado da Energy Soccer não há muito mais a destacar, mas a empresa diz que entre as transferências de Atsu, Rolando e Álvaro Pereira ajudou a SAD a ter um encaixe de 16,6 milhões de euros. Atsu e Rolando saíram por valores reduzidos (1,5M€ cada), enquanto Álvaro Pereira saiu por 10M€, mais variáveis. E aqui é curioso que a venda de Álvaro Pereira seja usada para aumentar o bolo do encaixe. Porque se é verdade que a Energy Soccer não colaborou, diretamente, na compra de Quaresma, também é verdade que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto na venda de Álvaro Pereira - quem fez o pagamento foi a IG Teams & Players, no valor de 25 mil euros (por, segundo o documento divulgado, um serviço prestado em setembro de 2012, no mês seguinte à venda de Álvaro Pereira ao Inter). 

A IG Teams & Players é uma empresa bem mais conhecida no universo do Benfica: metade dos seus ativos são jogadores que estão ligados ao Benfica ou que já passaram pelo clube, casos de Derlis González, Claudio Correa, Francisco Vera, Urreta e Funes Mori (não tem nenhum jogador atualmente ligado ao FC Porto).

Na entrevista ao JN Alexandre Pinto da Costa não diz nada de revelador na parte dos negócios, mas admite que também faz negócios de prospecção para o FC Porto «ou qualquer outro clube». O empresário diz que tem uma carteira com muitos clientes, que negoceia com vários clubes e que só não revela quem representa por que não quer.

O que torna a Energy Soccer «tão diferente e especial»
É um caso único no nosso futebol. Todos os empresários da nossa praça gostam de publicitar as suas carteiras de jogadores e divulgarem, publicamente, que negoceiam com vários clubes. Seja uma Onsoccer ou uma Promosport, uma International Foot ou uma US11. Mas a Energy Soccer é um caso único que prima pela discrição. Isso já será uma preferência de Alexandre Pinto da Costa, e a maneira como a gere só a ele lhe dirá respeito, mas de facto todas as notícias de transferências que são mencionadas no site da Energy Soccer têm a intervenção do FC Porto. Todas do FC Porto, nenhuma a envolver qualquer outro clube. A nível de imprensa, também nunca houve notícias a envolverem Alexandre Pinto da Costa em negócios que não contassem com o FC Porto. Mas o empresário garantiu que é assim porque é assim que quer.

E é aqui que a análise pode ser aprofundada. O que têm em comum Atsu, Rolando ou Álvaro Pereira? Todos saíram, digamos, a mal do FC Porto, ou como disse a Energy Soccer, não faziam parte do projeto desportivo. É um padrão algo comum. Mas como de facto o FC Porto não emitiu nenhuma fatura à Energy Soccer por Álvaro Pereira, então talvez não faça sentido associar a venda ao Inter à Energy Soccer. A não ser que ela tenha trabalhado de borla - isso seria louvável. 

Portanto, qual foi a maior venda do FC Porto com intermediação de Alexandre Pinto da Costa? Tendo em conta que o próprio admitiu que não recebeu comissões na saída de Carlos Eduardo (diz que recebeu 100 mil euros no total «das duas operações», mas isso foi a comissão no momento da compra ao Estoril), então as maiores vendas a envolver diretamente a Energy Soccer foram Atsu e Rolando, por 1,5M€ cada (o Besiktas informou que pagou 1,2M€ por Quaresma, a Energy Soccer diz que o FC Porto recebeu 1,5M€).

O jogo das diferenças
E aqui vemos o quão ridículo é comparar estas operações com, por exemplo, os negócios de Jorge Mendes. O chavão «todos os clubes pagam comissões» e «todos os empresários recebem comissões» é de uma leviandade que não pode estar presente na discussão destes temas. Por exemplo, o desafio de calcular quanto já recebeu Jorge Mendes de comissões do FC Porto seria de facto interessante. Mas antecipando a conclusão: é o empresário que mais dinheiro deu ao FC Porto.

A experiência mais recente nem é boa, com Jorge Mendes a deixar o FC Porto a arder no negócio Adrián López, por quem a SAD já pagou quase 8M€ ao Atlético. Mas Jorge Mendes é, de longe, o empresário que mais bons negócios já fez com o FC Porto. James, Falcao, Mangala, Anderson, Danilo, Pepe, Ricardo Carvalho, tantos outros.

Jorge Mendes nem sequer era o empresário de alguns destes jogadores, mas surgiu como intermediário. E nisso não há problema nenhum, desde que o empresário chegue à SAD do FC Porto e apresente boas propostas. No dia em que Alexandre Pinto da Costa chegar à SAD e bater ali uma proposta de 20 ou 30M€ por algum jogador do FC Porto, maravilha, pode e deve levar a comissão a que tem direito, e de certeza que ninguém se insurgirá contra isso (pelo contrário, até será elogiado). Mas enquanto estivermos a negociar jogadores por 1,5M€, a custo zero ou a recrutar jogadores para a equipa B dos quais a SAD só assume parte do passe, comparações com Jorge Mendes são um sacrilégio. Além de que há inúmeras notícias de negócios de Jorge Mendes com clubes um pouco por todo o mundo, não apenas com o FC Porto.

Também se tem insistido muito que, se Alexandre Pinto da Costa tiver algum jogador que interesse ao FC Porto, a SAD não deixará de querer o jogador. Óbvio. Mas como não se conhece a carteira de jogadores de Alexandre Pinto da Costa, nunca se sabe ao certo. Aliás, a maioria dos negócios em que Alexandre Pinto da Costa surgiu associado ao FC Porto foram vendas, não compras. Não se conhece nenhum jogador que o empresário, neste momento, represente que possa interessar ao FC Porto. O resto são chavões para lugares comuns. Votos para que cheguem das mãos de Alexandre Pinto da Costa à SAD muitas propostas de 20M€ para cima, pois o FC Porto bem necessita delas, e que esses serviços de scouting continuem a descobrir muitos craques. O perfume do futebol de Fede Varela tem deslumbrado na equipa B.

Sobre as acusações do Football Leaks para a elaboração de contratos pré-datados não houve comentários. A Doyen também reagiu junto da imprensa, orgulhando-se que «o FC Porto teve sempre lucro em negócios por nós intermediados». A Doyen só foi fundada em 2011, ainda não há muitos exemplos de negócios - Mangala, que até foi intermediado com o City por Jorge Mendes, foi o melhor de todos e um dos melhores da história da SAD; Imbula e Defour cobriram basicamente os custos; Brahimi está na calha para sair e vamos ver se a receita será assim tão grande. 

Que os negócios gerem lucro para o FC Porto não é favor nenhum: é uma obrigatoriedade. Com o tipo de gestão que pratica, o FC Porto precisa de vendas para sobreviver. Mas precisa de grandes vendas. A vender Defours ou Atsus, a SAD não durava muito. É preciso grandes negócios, como Mangala, por exemplo. Pode ser a diferença entre só ter que vender dois jogadores ou ter que vender meia dúzia deles. Além de que, escusado será dizer, o risco dos negócios está sempre em cima do FC Porto, que é quem tem que fazer evoluir os jogadores e pagar os salários. Os fundos nunca têm prejuízo.

A Doyen também não comentou diretamente as dúvidas sobre os contratos pré-datados, mas considera que se não fosse a Vela, com o seu contrato de scouting assinado em janeiro de 2015, Casemiro nunca teria vindo para Portugal. Por isso aqui fica o agradecimento à Vela, que conseguiu descobrir um jogador do Real Madrid que poucos conheciam. Portanto quando Casemiro agradeceu a Pinto da Costa e Lopetegui o seu papel na sua transferência para o FC Porto, esqueceu-se de mencionar a Vela. Ficou-te mal, Miro, pois não era qualquer um que te ia descobrir ali perdido no modesto Real Madrid - daí que por exemplo o Benfica, que não te conhecia, nem te tenha tentado desviar na semana em que assinaste pelo FC Porto. Depois das acusações do Football Leaks, a Energy Soccer reagiu, a Doyen reagiu, e acaba por não surgir nada mais de revelador.

Candidatura(s) admitida(s)
Ainda em relação à entrevista de Alexandre Pinto da Costa, o que mais se destaca é não descartar ser um futuro candidato à presidência do FC Porto, dizendo que tem sido abordado por muita gente que lhe reconhece «capacidade». Oxalá que essa lista de pessoas apoiantes de Alexandre não seja como a carteira de jogadores da Energy Soccer, se não permanece tudo em segredo. Alexandre Pinto da Costa diz ainda que tem «no sangue o melhor professor possível». É verdade, mas como disse Pinto da Costa, «o FC Porto não é uma monarquia», pelo que certamente isso nunca será um cartão de visita. Até porque se para uns está no sangue, outros trabalham há anos, ininterruptamente, ao lado de Pinto da Costa na SAD, e não é por isso que têm valias para virem a ser presidentes do FC Porto. 

Mas para já só Pinto da Costa se chega à frente, pelo que não faz sentido falar noutros nomes para a presidência do clube - até porque mais do que nomes, o que interessa é o projeto e as soluções de presente e futuro. Já agora, a três semanas da eleição para a presidência do FC Porto, falta ainda conhecer o programa para o 14º mandato. É uma ânsia conhecê-lo.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Um salto ao México

É muito difícil encontrar jogadores mexicanos que se afirmem em grandes clubes europeus. Há sempre algum fogo de vista, com exemplos que vão de Chicharito a Giovani dos Santos, mas são poucos os jogadores mexicanos na Europa que têm conseguido manter um nível alto ano após ano.

No FC Porto, Héctor Herrera tem sido por vezes um exemplo de alguma inconsistência, apesar de na época 2014-15 ter sido dos melhores jogadores da equipa e de estar agora, em 2016, a recuperar a boa forma e a influência na equipa. Diego Reyes não se conseguiu afirmar no FC Porto nas duas primeiras épocas. Agora está na Real Sociedad, onde recuperou a titularidade perdida no final de 2015. Jesús Corona está a ter as dificuldades de adaptação típicas de um primeiro ano no FC Porto, com troca de treinadores e modelo de jogo pelo meio. Já Layún tem sido provavelmente o jogador mexicano em melhor forma na Europa em 2015-16, talvez a par de Chicharito.

É difícil o jogador mexicano brilhar ao mais alto nível na Europa, mas o FC Porto acredita muito no seu potencial. E isso está refletido nos investimentos que foram feitos nos últimos anos. E após terem sido leakados mais pormenores do contrato de Reyes (que não eram novidade, antes confirmação) e das suspeitas (independentemente de alheias ao FC Porto) lançadas no México, oportunidade para (re)ver as condições contratuais que trouxeram os últimos mexicanos para o FC Porto.

Herrera e Reyes foram contratados no exercício de 2012-13, apesar de só terem sido reforços para 2013-14. Herrera, por 80% do passe, custou 8M€, mais 1M€ de encargos; Reyes, por 95% do passe, custou 7M€, mais 2,092M€ de encargos; a SAD procedeu de imediato à alienação de 47,5% do passe por 3,5M€ à Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi (que ganhou 6,2M€ com a compra e revenda de 35% do passe de James Rodríguez em 2013 - inicialmente o FC Porto tinha gastado 5,1M€ em 70% do passe e a GFL tinha comprado 35% por 2,55M€).

Isto é, por Reyes e Herrera existiram encargos de 3,092M€. Estes encargos podem incluir diversas coisas, como prémio de assinatura, direitos de imagem ou comissões. As quantias não são discriminadas, mas a SAD, no R&C de 2013-14, acrescentou esta informação:


Com a divulgação dos contratos de Reyes e Herrera, há vários pormenores que constituem novidade. 

O negócio Herrera
Em 2013-14, Herrera fez o número de jogos suficiente para que a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% do seu passe ao Pachuca por 1,5M€; a SAD continuou a ter 80% de Herrera. Em 2014-15, Herrera fez o número de jogos suficiente para a SAD fosse obrigada a comprar mais 10% por mais 1,5M€. Ou seja, a totalidade do passe de Herrera ficaria por 11M€. Mas a SAD continua a declarar deter 80%.

Numa carta complementar ao negócio com o Pachuca, as partes acordaram que «20M€ seria um excelente preço para considerar uma venda futura», sendo que a cláusula de rescisão de Herrera era de 30M€. E aqui já é referido que a compra dos restantes 20% em relação ao Pachuca não eram obrigatórios, mas sim uma opção. O acordo terá mudado, com uma condição: se o FC Porto rejeitasse mais de 20M€ por Herrera, o FC Porto teria que pagar o valor proporcional pelos restantes 20%. Neste caso, esta mudança foi vantajosa para o FC Porto.

As comissões para a transferência de Herrera terão sido surpreendentemente baixas. Há apenas referência a um pagamento de 300 mil euros (a 4 prestações) a Nicholas Blair, tendo como referência 10% da remuneração anual de Herrera. A FIFA passou ter como referência 3% da remuneração líquida como comissão, mas nenhum clube está a seguir esta prática - que tecnicamente seria uma regra, não uma recomendação, mas a FIFA parece ter criado a regra para a meter na gaveta. 

Em outubro último, aí sim, grandes novidades sobre Herrera, com o pedido de empréstimo de 5M€ à For Gool, uma empresa de Teodoro Fonseca (que controla o Portimonense e detém o passe de Gleison, que convenientemente já está a ser chamado de novo Hulk antes de o FC Porto comprar o seu passe - já tinham feito o mesmo com Ismael Díaz, e no site oficial do FC Porto está escrito que Marega «tem caraterísticas físicas e técnicas que fazem lembrar Hulk»; padrão interessante para valorizar os jogadores).

O acordo era complexo. Se Herrera, o que acabou por acontecer, ficasse no clube, a taxa de reembolso era de 5%. Bem aceitável. Se Herrera fosse vendido à margem da For Gool, subia para 9%; e se fosse a For Gool a tratar da saída, a percentagem seria de 10% da venda. Ou seja, na eventualidade de Herrera sair por 30M€ (o valor da procuração para vender o jogador), a For Goal recebia 3M€ - 60% do valor que emprestou ao FC Porto. Ter uma proposta de 30M€ por Herrera seria de facto muito bom, certamente. Jorge Mendes também cobra comissões de 10% como referência. Mas isto não é uma mera comissão: é uma taxa de empréstimo. E seria de 60%. Tendo em conta que o FC Porto paga uma taxa de juro média anual de 5,02%...

Um negócio em dupla
Depois de Herrera, Reyes, que esteve em destaque nos últimos dias por causa das ligações que foram feitas a um cartel mexicano. É um assunto que pode não ser afeto diretamente ao FC Porto, mas Matías Bunge, representante do Grupo Comercializador Cónclave (ligado ao cartel de Juárez), já se identificou na imprensa com sendo empresário de Diego Reyes, Héctor Herrera e Jesús Corona. Confirmando-se quaisquer tipo de irregularidades, o FC Porto não pode voltar a negociar com este agente, nem com quaisquer parceiros afetos ao tema. Um clube só é tão transparente quanto os parceiros que escolhe para negociar. À mulher de César não basta ser...

No caso de Corona, já tinha sido noticiado que custou 1,25M€ em comissões: 500 mil euros para a Northfields Sports (ligada a Marcelo Simonian) e 750 mil euros, a três tranches, para a «Cantera Latina». O que é a Cantera Latina? Precisamente uma empresa de Matías Bunge, em Barcelona, registada junto da Federação Espanhola. 

No caso de Reyes, a imprensa pegou nas informações do Football Leaks e falou numa comissão de 700 mil euros a Matías Bunge, ou seja, os 10% dos 7M€ por 95% do passe. Mas é bom lembrar que o FC Porto alienou 47,5% do passe. Entretanto Matías Bunge pode ganhar mais 200 mil euros, em caso de renovação de contrato, e mais 300 mil pela transferência para outro clube. Dá 1,2M€ no total.

Mas curiosamente, no documento de 12 de dezembro de 2012 que tinha sido divulgado, estas condições já estavam todas pré-definidas, mas estava ainda prevista uma mais-valia de 10% para o agente. Não se sabe se a mesma continua aplicável ou se terá sido rejeitada. 

O mais curioso é que o Football Leaks tenha divulgado agora os pormenores relacionados com a Conclave, quando em 2015 já o tinha feito, na altura mostrando ainda um contrato com o empresário Ricardo Rivera (em representação da Northfields Sports) que carecia de assinaturas. O mesmo previa uma comissão de 500 mil euros e uma mais-valia de 10% acima dos 8M€. 

Curiosamente, 500 mil euros já tinha sido quanto a Northfields Sports lucrou por Corona. E é difícil crer que a SAD se tenha disponibilizado a pagar duas comissões aos mesmos protagonistas por dois jogadores diferentes. Os tempos em que só se pagava comissões no momento da venda já vão distantes, mas pagar comissões a dobrar num só ato de compra (uma no contrato do jogador, outra no contrato entre os clubes) é um ato de audaz modernismo.

Com as suspeitas a envolver os mencionados intervenientes num esquema de lavagem de dinheiro no México, nada mais é de esperar que o FC Porto apure toda a transparência dos envolvidos. Sobretudo quando o presidente do FC Porto afirmou, em outubro, que quer continuar a apostar no mercado mexicano. E de preferência, reservar as comissões altas para o momento em que os empresários oferecem boas propostas de venda ao FC Porto, não no momento da compra, na qual qualquer sujeito pode surgir no papel de intermediário; já para arranjar propostas para vender jogadores por 30M€ ou mais, não é qualquer um que o faz. Prova disso é que ainda não vimos nenhuma boa proposta trazida por estes agentes, mas para a intermediação no momento da compra receberam confiança redobrada. É caso para dizer: têm que ser mesmo bons empresários, que vão dar muito dinheiro ao FC Porto.


PS: O Dragões Diário, o órgão independente do FC Porto que só escreve o que os superiores do FC Porto mandam (foram os próprios a admiti-lo, por mais confuso que possa parecer), deu-nos a conhecer que Vítor Baía errou numa das suas análises, ao dizer que Bruno Alves e Meireles tinham saído após Dublin. É a segunda gafe de Vítor Baía, um dos muitos comentadores em espaço televisivo, e o Dragões Diário, entre todas as Guerras que poderia comprar, escolheu Vítor Baía. Ao segundo erro, não perdoaram, mais parecendo que Vítor Baía era tratado não como alguém que cometeu uma gralha, mas sim como um inimigo.

O rigor e os factos são importantes, e Vítor Baía errou. Que tem isso a ver com o FC Porto? Nada. Está no seu programa a título pessoal, e de certeza que não está no topo daqueles que mais disparates sobre o FC Porto dizem. Mas ao errar no espaço de um ano (Bruno Alves e Meireles saíram em 2010, não em 2011), Vítor Baía teve honras de críticas oficiais do FC Porto. É caso para dizer: cuidado, José Peseiro, que ao próximo erro estás completamente tramado. Peseiro disse que Herrera, capitão do FC Porto, está «há ano e meio no clube». Na verdade está há dois e meio, quase três. E como para o Dragões Diário não é admissível falhar num espaço temporal de um ano, à próxima falha Peseiro pode muito bem ser o próximo visado.

Felizmente, a maioria dos portistas já não se está está a rever neste registo, e são cada vez mais os que cancelam a subscrição do Dragões Diário, o que devia ser um alerta para reverem o serviço que prestam. Vai aparentando que há mais pessoas a precisar do Dragões Diário do que o FC Porto. O Dragões Diário já cometeu imensas gralhas, muito mais graves do que as de Vítor Baía; a diferença é que Baía faz o que quer a título pessoal, não está em representação oficial do FC Porto. Provavelmente nunca exercerá um cargo de grande importância no FC Porto, pois, opinião, nunca aparentou ter o perfil para isso (se quiser que prove o contrário). Mas é isso que mais surpreende: se um Vítor Baía (por mais ou menos gralhas que cometa, por melhor ou pior gestor que seja, ninguém duvida que só quer o melhor para o FC Porto e que o clube retome o rumo das vitórias) já causa tanta comichão, então há demasiada inquietação e falta de confiança no FC Porto.

PS2: A propósito dos jogadores mexicanos e da desejada compra de Layún, refira-se que o FC Porto tem até 30 de junho para comprar Layún, pagando 3M€ no momento em que exerce a opção de compra e mais 3M€ a 31 de julho. Se deixar passar estes prazos, terá que negociar a compra com o Watford, leia-se, com Giampaolo Pozzo. O FC Porto pagou 500 mil euros pelo empréstimo de um ano. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

De Osvaldo a Suk e um salto a Carregosa

Osvaldo foi uma grande jogada de risco na tentativa de ganhar uma solução. Correu mal. Só não sabemos o quão mal correu, pois o FC Porto nunca clarificou o moldes da transferência de Osvaldo.

Vai e não voltes
A única coisa que se soube foi que Rui Gomes da Silva, vice-presidente do Benfica, afirmou em direto na SIC Notícias que Osvaldo custou 4M€. O FC Porto nunca o desmentiu, e no R&C do primeiro trimestre apresentou despesas não discriminadas com outros jogadores de 8,62M€. Para quem se deu ao trabalho de desmentir os números da transferência do Hernâni, há um ano, numa diferença pouca, e não o faz quando Osvaldo é falado por 4M€, deixa a desejar a nível de coerência.

Osvaldo foi um erro, um playboy que estava mais interessado nas portuenses e no Porto do que no FC Porto. O Tribunal do Dragão escreveu na altura que Osvaldo nunca foi um goleador na carreira, mas havia a expetativa de que conseguisse pelo menos lutar pela titularidade com Aboubakar. Não resultou. E Osvaldo estava a ganhar o dobro de Aboubakar. Não deixa saudades e sai na linha de Pizzi.

Chega então Suk, uma opção muito longe de reunir consenso. Não é melhor do que Aboubakar neste momento e a médio prazo não promete mais do que André Silva. São jogadores diferentes, mas isso não é necessariamente bom.

Já estava contratado antes de Lopetegui ser despedido e entretanto vai chegar um novo treinador (que salvo um volte-face será Sérgio Conceição), o que deixará sempre Suk pendente face à sua integração nos planos do futuro técnico. Mas a maior incógnita prende-se com as caraterísticas de Suk, desadequadas ao modelo que o FC Porto teve nos últimos anos.

Suk é um avançado que faz a diferença quando tem 40 metros à sua frente, quando está num modelo de jogo que lhe permite ter profundidade. Nunca jogou numa equipa como o FC Porto, de posse, que joga com o avançado como apoio e não como referência para o passe longo. Vai acontecer o mesmo que a Hernâni há um ano (com a diferença de que Suk é mais jogador e tem mais provas dadas): ou o seu futebol sofre uma formatação ou vai ter dificuldades em entrar na equipa.

Ainda não sabemos que uso o futuro treinador do FC Porto quererá dar ao ponta-de-lança, mas não será difícil imaginar que manterá o 4x3x3. Suk jogava num esquema e modelo diferente em Setúbal, e é difícil encaixar este tipo de jogadores no mercado de inverno.

Suk até 2020
Suk gosta de tentar a meia distância e de assumir o um para um, mas não está habituado a jogar sem espaço, que é o que vai acontecer no FC Porto. Algo que pode não parecer importante, mas que é, é o facto de Suk ser... sul-coreano. Os futebolistas asiáticos, salvo algumas exceções, são por norma muito humildes, disciplinados, respeitadores, com muita vontade de aprender e trabalhar. São pontos a favor de Suk, pois não têm cá faltado pontas-de-lança com qualidades, que tinham que mudar/evoluir, mas não tiveram humildade para o reconhecer, exemplos vão desde Walter ou Ghilas a Osvaldo.

Suk, que terá custado um pouco mais do que os 1,7M€ noticiados (só se saberá no R&C - e também falta confirmar que foi Alexandre Pinto da Costa, uma vez mais, a lucrar num negócio do FC Porto), não é de todo a solução ideal, mas é ele quem já cá está. Resta desejar boa sorte ao sul-coreano, esperar que lhe deem espaço competitivo já na Taça da Liga e que consiga fazer dois pares de golos importantes na segunda metade da época. E oxalá que no verão não esteja já na lista de emprestáveis.

E por falar em empréstimos. O FC Porto sempre falou dos fundos como sendo importantes para chegar a jogadores mais caros. Tudo bem. Mas os leaks desta sexta-feira mostram que os fundos já servem outro propósito para a SAD, bem mais preocupante.

Conforme O Tribunal do Dragão aqui analisou na altura, o 3º trimestre foi particularmente difícil em termos financeiros para o FC Porto, que teve que recorrer a múltiplas formas de financiamento para pagar todas as despesas correntes (um crédito de 3M€, a 2 meses, com o Banco Carregosa, mais 1,5M€ com o Montepio e um financiamento de 5M€ da - não vale a pena googlarem - For Gool Co Ltd, que tem Herrera como garantia e retorno em caso de transferência). 

É normal para uma SAD, cujas receitas não constantes, ter que recorrer a créditos ao longo do ano para pagar todas as despesas. O que não é normal é ter que ser a Doyen a pedir um empréstimo para o FC Porto.

Com patrocínio da Doyen
Segundo os documentos leakados, o FC Porto começou por pedir um empréstimo de 3M€ à Doyen, que disse não ter fundos para isso. Então a Doyen assegurou as garantias sobre 80% do valor pedido pelo FC Porto ao Banco Carregosa, com a Doyen a entrar em contacto com o banco para que o empréstimo fosse feito. Contratamos jogadores da Doyen, com a Doyen, pagamos relatórios de jogadores, de scouting e de preferência sobre atletas à Doyen, e agora também usamos os connects da Doyen para ter dinheiro líquido.

Isto já não é depender dos fundos para contratar jogadores mais caros. É depender de fundos para conseguir financiamento para pagar salários e despesas correntes. Isto supera o limite do admissível na ligação aos fundos. Mais do que dependência, já começa a ser uma questão de sobrevivência para o FC Porto. Não queremos mais quatro anos disto.

PS: Suk é natural de um país asiático, com quase 50 milhões de habitantes, que tem uma das 15 economias mais ricas do mundo e poucos jogadores nacionais a jogar num clube do calibre do do FC Porto. E ainda assim, a sério que apresentam o rapaz com uma camisola sem patrocinador? Há muita gente a dormir.

PS2: Até domingo Rui Barros será o treinador do FC Porto e é com ele que vamos tentar buscar três pontos a Guimarães. A partir de segunda-feira será tempo de falar do seu sucessor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As diferenças entre Mangala e Ola John

O timing é uma coincidência maravilhosa, é certo. Mangala foi transferido em agosto de 2014, e na altura já se levantavam questões sobre os valores da sua transferência, mas a FIFA só se lembrou agora, neste tempos tão quentinhos para o futebol nacional, de decidir analisar se há base para uma investigação. E também não é inocente o facto de a FIFA, enquanto entidade íntegra e transparente, estar completamente falida, logo terá que atacar alguns clubes e julgar algumas práticas para restaurar alguma credibilidade. 

Muito bem. O que estará em causa é perceber se a Doyen Sports teve influência na transferência de Mangala para o Manchester City. É um dos efeitos secundários dos leaks. E daí percebemos o porquê de só terem sido divulgados, em matéria de Benfica, documentos a envolver a Doyen e Ola John.

A influência da Doyen
Para quem tiver acesso ao Financial and Economic Rights Participation Agreement (ERPA) de Mangala e Ola John, pode notar a grande diferença entre os pontos 6.2 dos dois contratos. Começam exatamente com a mesma frase: «The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain». No caso do ERPA de Mangala, este ponto termina assim. Mas no do Benfica não. O Benfica acrescenta isto:

«The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain, and shall be strictly prohibited from contacting or interfering in any way whatsoever, either directly or indirectly, with any of the parties (other than the club) with is directly or indirectly involved in the negotiations of the potencial transfer, except with the written permission of the club».

Voilá. No mesmo artigo (6.2) no contrato do FC Porto, essa informação não aparece. O Benfica está, neste ponto, mais bem protegido no seu acordo do que o FC Porto, o que só levanta uma questão: quem se esqueceu deste pormenor? Se o FC Porto está mais próximo da Doyen do que o Benfica (normal, tendo em conta que Mangala foi um sucesso, tal como vai ser Brahimi, e Ola John uma enorme desilusão para o fundo), como se justifica que o mesmo artigo proteja muito mais o Benfica do que o FC Porto?

Por outro lado, assim se percebe o porquê de a Football Leaks só ter ainda um contrato online: precisamente este de Ola John. Serve isto como termo de comparação para tentar entalar o FC Porto na transferência de Mangala para o City e alegar que a Doyen teve interferência no processo. Mas como veremos mais abaixo, não correu como desejariam.

O que há a fazer? Para começar, não, o FC Porto não pode delegar à Doyen a iniciativa de uma transferência. Todos sabem isso. « (...) Article 18bis par. 1 of the RSTP, which states that “[n]o club shall enter into a contract which enables any other party to that contract or any third party to acquire the ability to influence in employment and transfer-related matters its independence, its policies or the performance of its teams.» O FC Porto só tem que explicar, se a FIFA o convidar a isso, que a Doyen não assumiu iniciativa em nada e somente colaborou com a parte que lhe cabia.

O FC Porto queria vender Mangala. O Manchester City queria comprar Mangala. O Manchester City oferecia uma excelente proposta ao FC Porto. Jorge Mendes estava no papel de intermediário. E então assim se fez a transferência. O que há aqui de errado? Nada.
Nélio Lucas

Levantaram-se questões sobre o valor pelo qual Mangala foi vendido. O FC Porto comunicou a sua parte: 30,5M€ por 56,67% do passe. Deste valor o FC Porto tirou o mecanismo de solidariedade FIFA, a intermediação para Jorge Mendes e os prémios de fidelidade a Mangala. Soube-se que a determinada altura a Robi Plus teria direito a 10%, mas esta sociedade de D'Onofrio e Delmenico deixou de ter esta participação muito antes da transferência para o City (a imprensa belga chegou a falar de uma suposta compra dos 10% por parte da própria Doyen, que as partes não quiseram confirmar). No R&C, o FC Porto acrescentou que «o clube comprador assumiu a obrigação de pagar diretamente à Doyen a proporção que esta entidade detinha sobre os direitos económicos do jogador».

Como se sabe, a Liga Inglesa só admite a inscrição de jogadores se o clube comprador absorver a totalidade do passe. Por isso o Manchester City tinha que comprar os 100% do passe de Mangala. E assim o fez. Comprou a sua parte ao FC Porto e a restante parte à... Doyen. Se a Doyen tinha 33,33% e se a sua quota era necessária à concretização da transferência, como esperavam que a Doyen não interferisse na transferência? É claro que tinha que interferir. E numa liga exigente como a inglesa, onde até é necessário licenças de trabalho, alguém acredita que a inscrição de Mangala teria sido aceite se não estivesse tudo muito bem claro (e logo após a reportagem da France 2, que tantas suspeitas levantou)? 

No acordo, o FC Porto declarou que reservava a um entendimento entre o City e a Doyen a questão da parcela que faltava no passe de Mangala. Ao contrário do que a Bloomberg escreve, não foram 54 milhões, como é lógico, pois não é por os 56,67% do FC Porto terem valido 30,5M€ que a restante parcela tem que ter valor proporcional. Isto é uma não questão, e nem é o que está em causa.

O FC Porto, se a FIFA assim o exigir, só tem que expor que era intenção dos dois clubes, City e FC Porto, transferir Mangala, e que para tal acontecer a Doyen teria que ser implicada nas negociações. Agora, por muito que possa estar limitado a jogadores do catálogo da Doyen, por possíveis dificuldades de investimento a curto prazo, o FC Porto não poderá nunca delegar à Doyen a iniciativa ou total responsabilidade de negociar, por sua conta, um jogador para o FC Porto. Isso não, nunca. Por outro lado, é normal os clubes delegarem a empresários procurações para negociar X jogador com X clube.

20 ou 45M€?
Se a FIFA quiser explicações, o FC Porto só terá que as prestar. De livre e espontânea vontade, pois aqui ninguém pode ficar de rabinho entalado entre as pernas, como basicamente tem sido assumido pelo Benfica nos últimos tempos, desde a Liga Aliança às ofertas ilegais a árbitros. E ao contrário do que se tem verificado neste último, o FC Porto, na questão Doyen/Mangala, não deve ter nada a esconder. 

Ah! O facto do ERPA de Ola John ter sido divulgado e de continuar online tem um propósito claro. Mas atenção àquilo que se possa entender como a influência de um fundo num determinado clube. No contrato do Benfica, está dito que a Doyen e o clube concordam que uma oferta de 20M€ seria mais do que razoável para vender Ola John. Mais, diz que se o Benfica não aceitar uma eventual proposta de 20M€ por Ola John terá que indemnizar a Doyen Sports em 100% do valor.

Mau! Então se a Doyen pretende uma indemnização no caso de o Benfica recusar 20M€, não estará a condicionar ou influenciar o seu futuro? Se João Cancelo e Ivan Cavaleiro, sem terem feito nada de relevante na equipa principal do Benfica, valem 15M€ cada, não me digam que um internacional holandês, que já foi eleito dos melhores jogadores da Eredivisie, até era seguido pelo Manchester United e que até significou um investimento elevado por parte do Benfica não vale um bocadinho mais.

Aliás! Por mais que esta frase esteja batida, Luís Filipe Vieira disse e repetiu isto: «Nenhum jogador sairá sem serem cumpridas as cláusulas de rescisão». Ora Ola John tinha uma cláusula de rescisão de 45 milhões de euros. Então como raio é que o Benfica permite um acordo com a Doyen em que estipula que uma proposta de 20M€ já era um montante razoável para a transferência?

Vá, um bocadinho de rigor. No Regulamento do Estatuto de Transferências de Jogadores sobre o TOP, no artigo 18 a FIFA diz que «No club shall enter into a contract which enbales the counter club/counter clubs, and vice versa, or any third party to acquire the ability to influence in empolyment and transfer related matters its independence, its policies or the perfomance of its teams».

Ora se Vieira só vende pela cláusula, se o Benfica coloca uma cláusula de 45M€ em Ola John e se depois acorda com a Doyen a possibilidade de uma saída por 20M€, em que ficamos? Não está a Doyen também a interferir no Benfica? E não aceitou o Benfica entrar num acordo que levanta estas questões, violando o trecho acima referido? É que a Doyen, pelo menos, não forçou o FC Porto a aceitar propostas de menos de metade do valor da cláusula de rescisão de Mangala.

FIFA, já que estão com a mão na massa, aproveitem e analisem isto também. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Trânsito das Bermudas

Qualquer pessoa pode ganhar dinheiro no futebol, sobretudo após a FIFA ter liberalizado o mercado de intermediários. E a limitação das intermediações a 3% do valor das transferências entre clubes iria trazer uma nova realidade a quem, não pertencendo necessariamente ao futebol, ganha dinheiro através do futebol há muitos anos: mais free agents e mais Rentistas. Ou mais Sud Américas.

Tradição, não novidade
Não é uma prática inaugurada por Osvaldo, nem há um par de anos, nem nesta década. É uma prática recorrente no futebol português, envolvendo não só todos os grandes clubes como aqueles que passaram da primeira liga à extinção em pouco tempo: os jogadores passam, o dinheiro não fica lá e o clube não tem como resistir.

Um exemplo para lançar o tema, o Salgueiros e... Deco. Deco já estava na mão de Jorge Mendes quando o FC Porto o comprou, por cerca de 400 mil contos na altura, apenas por metade do passe. Já estava plantada a realidade de empresários/fundos chegarem, muitas vezes, primeiro do que os clubes aos jogadores. E às vezes chegam ao mesmo tempo, por mútuo interesse, e faz-se a ponte.

Mais tarde, já após Sevilha, o FC Porto acaba por comprar mais 40% por um total de 3,5 milhões, 700 mil contos na moeda antiga. Sempre ao ritmo de Jorge Mendes, empresário que já deu muito dinheiro ao FC Porto (à imagem do que faz com o Benfica), mas que também já ganhou muito, mas mesmo muito às custas do clube. Deco foi só um exemplo, mas até poderíamos recordar Anderson, que foi vendido à Gestifute uma semana antes de o FC Porto o ter contratado.

A diferença é que sabemos com o que podemos contar com Jorge Mendes. Negócios exorbitantes e essenciais para as contas da SAD, como Falcao, James, Moutinho e Mangala, passaram pelas suas mãos, embora a preço pago e bem pago. O problema são outras pontes sem rosto.

Alex Sandro, Hulk e Walter são exemplos de jogadores que são inscritos em clubes fantasma, alvos de investimentos inflacionados no momento da contratação e aos quais o FC Porto se submeteu para conseguir os jogadores. Mas todos eles tinham algo em comum: eram jovens, não estavam livres de vínculos, havia perspetivas de evolução e futura transferência (ninguém preveria, no momento da contratação, aquilo em que Walter se tornou). Com Osvaldo, é simplesmente mama descarada.
Meios desnecessários
para um fim

Osvaldo está sem clube desde o início do mês. Assina pelo Sud América para depois assinar pelo FC Porto. E o que seria uma transferência em free agent torna-se uma transação entre dois clubes, com tudo o que isso implica: comissões que seriam evitáveis. Poderiam dizer, «se o FC Porto quer o jogador tem que aceitar estas condições». Provavelmente não tem. Osvaldo tem idadezinha para decidir o seu futuro. É difícil de imaginar um jogador com tantos problemas de hierarquização no seu passado como um refém da vontade de um grupo de empresários ou dirigentes. Osvaldo quer o FC Porto e o FC Porto quer Osvaldo? Sim. Então é mesmo necessário ir ao Uruguai para chegar a esse desfecho?

São coisas dos meandros do futebol, que não se tornam novidade com Osvaldo, mas podem e dever implicar questões. Dois casos muito célebres foram também Caballero e Kayembé. O primeiro iria custar apenas direitos de formação, dizia o advogado, mas acabou por custar 1,53M€, pagos à MHD, S.A. Já Kayembé estava livre, sem contrato profissional com o Standard, e um ano depois custa 2,65M€ por 85%, pagos à Danubio Finanzierungsleistungen und Marketing GMBH. A Danubio e a MHD não são mais do que uma variação de Rentistas: basta um escritório numa esquina qualquer e um registo comercial. Vida boa.

Como agora os fundos/empresários não podem ter direitos económicos de jogadores, os Rentistas e os Sud Américas vão multiplicar-se. E as transferências a custo zero, que de zero nada têm, também. Osvaldo é o primeiro exemplo. Se marcar 30 golos e o FC Porto for campeão, ninguém se lembrará dos meios, nem questionará o quanto custará. Mas impõe-se sempre a reflexão: até para contratar no mercado nacional a Doyen interferiu - e sem a Doyen não haveria nenhum investimento alto neste defeso -, e até para contratar um jogador livre tivemos que ir fazer ponte ao Uruguai. Que autonomia resta?

A Osvaldo resta desejar juízo e boa sorte. Há muita gente a esperar grandes coisas de ti. Ah, e o FC Porto também.

PS: Quantos dos brasileiros (e já são sete, com mais dois provenientes do Rentistas Sud America Portimonense) que chegaram ao FC Porto B continuarão no clube em 2016-17? Será interessante descobrir.

sábado, 28 de março de 2015

A incubadora que todos querem

Pausa para as Selecções, buraco para preencher com especulações e antevisões sobre o mercado. Dois nomes lançados, Lucas Lima e Lucas Silva, exactamente pelos mesmos motivos. Não por manifestas pretensões do FC Porto, mas sim pelo desejo de terceiras partes em aproveitar aquilo em que o FC Porto se distingue: desenvolver jogadores.

Casemiro, parte II
Os clubes habituaram-se a comprar qualidade no FC Porto. Mas conforme já aqui foi explicado, com as restrições do fair-play financeiro vai tornar-se cada vez mais difícil, até para os clubes mais poderosos financeiramente, chegar e bater propostas acima dos 30M€ num clube português. Mas o que é que Atlético, Barcelona e Real Madrid descobriram esta época? Que há outra forma que aproveitar o quanto o FC Porto valoriza jogadores: colocando-os cá a rodar.

A evolução com Casemiro é notória. Por isso é normal que o Real Madrid queira fazer o mesmo com Lucas Silva. Daí a ser um jogador cobiçado por Lopetegui (que já pediu Sérgio Oliveira para a posição 6) e que o FC Porto tenha condições para receber e manter, vai uma grande distância. 

Os empréstimos não são problema desde que se obedeça a um plano lógico e coerente. Não é coincidência nenhuma que só Óliver Torres tenha começado cedo a render desde o início da época: era o único que já conhecia Lopetegui. Campaña chegou tarde, Casemiro e Tello demoraram muito até começarem a render a bom nível. Por isso, o FC Porto só pode ter jogadores emprestados assumindo um plano de continuidade do treinador. 

Podem chegar emprestados se forem peças para encaixar na equipa. Se chegam jogadores não para reforçar uma equipa, mas sim para ajudar a formar uma equipa, não funciona. Na segunda época com Lopetegui, o FC Porto já terá uma base definida. E a partir daí não devem chegar peças para fazer um puzzle, mas sim para encaixar e reforçar alguns sectores. 

(Des)vantagens
Já aqui foi desmistificado que os empréstimos são um problema. Problema são os camiões de jogadores que chegam com contratos de 4 anos e que ao fim do primeiro ano já são para despachar. O FC Porto raramente tem mais do que 5/6 jogadores no plantel candidatos às tais vendas milionárias que permitem à SAD continuar a operar num patamar financeiro superior. Antes de pensar em empréstimos para 2015-16, é preciso definir se o FC Porto terá esse punhado de jogadores para valorizar em 2015-16.

Depois, há o problema dos vencimentos. Não, Tello não ganha 240 mil euros por mês, e bastava o Record informar-se minimamente sobre como funciona o Barcelona para não escrever essa asneira. No Barça os contratos são atribuídos em função de cinco escalões. Tello, quando renovou até 2018, não era titular no Barcelona, logo assinou um contrato de Categoria Base, colocando-o a par de jogadores como Bartra, Montoya ou Rafinha quanto aos vencimentos, na casa dos 3M€ brutos por ano. 

Mas o FC Porto está a investir mensalmente em jogadores que não vão dar retorno financeiro. Podem dar desportivamente, mas assim terá que haver outros jogadores, que o FC Porto controle a 100% na SAD, que o possam fazer (este ano, por exemplo, Danilo e Jackson resolveram esse problema; e no próximo?). Além disso, os empréstimos não deixam de ser despesas (Casemiro, por exemplo, vai custar 600 mil euros no segundo semestre e Cristian Tello 1,5M€). O FC Porto vai ter que reduzir drasticamente os custos com pessoal na próxima época, e a SAD sabe disso, logo não há espaço para grandes aventuras. Quem chegar por empréstimo, que seja para encaixar na máquina de Lopetegui. A época de adaptação e reestruturação é/era esta.

Assim, não
Mas não só o Real Madrid sabe que o FC Porto valoriza jogadores como ninguém. Fundos como a Doyen Sports, que ganhou o jackpot com Mangala e viu o FC Porto valorizar Brahimi em flecha, terão todo o interesse em continuar a recorrer a esta barriga de aluguer. Daí a usar o FC Porto como cartão de visita com números absolutamente pornográficos, fica-se pela tentativa. Uma avaliação de 13M€ por um jogador que não é internacional, não tem percurso nas camadas jovens e que tem um ano de primeira liga brasileira não merece mais do que assinalar a boa disposição. Não estamos em tempo de mais excepções.

Com o anunciado fim da partilha de passes, já a partir de Maio, fundos como a Doyen não poderão voltar a ter percentagens de passes. Logo ou passam a operar como instituições financeiras, com financiamento e direito a percentagens de futuras vendas, ou inventam novos Rentistas que mantenham a totalidade dos passes dos jogadores e depois vendam. O FC Porto jamais poderá ser uma barriga de aluguer nesse sentido. Por isso urge perceber onde começa a parceria, como foi com Brahimi, e onde começa a rentistização. Nem por metade poderíamos ou deveríamos aceitar Lucas Lima. Sobretudo porque já não poderá haver o modelo Brahimi (isto é, o FC Porto ficar com uma percentagem do passe e ficar com opção de comprar mais posteriormente). Agora a Doyen e demais fundos vão querer livrar-se de toda a percentagem e vender directamente tudo. Isto o FC Porto não pode aceitar. Se nem com Lucho González, Lisandro López ou Brahimi o fez, não será com Lucas que isso pode acontecer. No dia em que o FC Porto tiver capacidade para comprar 100% do passe a um fundo, então deixa de precisar dos fundos e pode voltar a negociar apenas com clubes.

Vai sendo tempo de deixar de lamentar o problema (o fim da partilha de passes) e começar a pensar em alternativas. Sobretudo quando já nem jogadores do mercado nacional, que custam pouco acima de meio milhão, estão livres de chegar ao FC Porto sem antes alguém meter a mão...

quinta-feira, 5 de março de 2015

Danilo e uma questão de semântica


Quando Mangala saiu para o Manchester City, num dos maiores negócios da história do futebol português, ouviu-se e leu-se por todo o lado coisas «Mangala era do BES» ou «Mangala serviu para pagar ao BES». Assunto já aqui aprofundado e criticado pelo absurdo de terem ignorado a possibilidade de uma renegociação, sobretudo porque nunca um clube português recebeu 30M€ a pronto numa transferência.

Agora vamos começar a ouvir algo idêntico com Danilo e Jackson Martínez. O MaisFutebol escreve que «Danilo e Jackson servem de garantia em empréstimo de 25 milhões». Algo que já se sabia. O jornal em questão recorre ao R&C do 1º semestre para dar conta de que o empréstimo vence em 2015. E depois faz intelectualmente questionável. Citemos.

«Em relação ao empréstimo de 30.000.000 Euros, foi acordada a extensão do prazo de reembolso, sendo agora de 3.000.000 Euros a 15 de Setembro de 2014, 2.000.000 Euros a 31 de Outubro de 2014 e 25.000.000 Euros a 15 de Setembro de 2015 (Nota 14). De acordo com esta renegociação, caso a FC Porto SAD venha a alienar, ceder ou transferir, deixando de deter, directa ou indirectamente, a propriedade de (i) 100% dos direitos económicos do futebolista Danilo Luiz da Silva, ou (ii) 100% dos direitos económicos do futebolista Jackson Martinez, os montantes resultantes dessas alienações, líquidas de comissões, serão utilizados no reembolso, parcial ou total, do montante no âmbito do contrato», pode ler-se no Relatório & Contas da SAD do FC Porto

Pode ler-se no Relatório e Contas da SAD do FC Porto, diz o MaisFutebol. Faltou foi dizer que num texto em que o ponto de partida noticioso era o R&C semestral de 2014-15, resolveram citar uma parte do R&C anual de 2013-14. Um pequeno pormenor que faz toda a diferença e algo falacioso.

Atentos à parte «caso a FC Porto SAD venha a alienar, ceder ou transferir, deixando de deter, directa ou indirectamente, a propriedade de (i) 100% dos direitos económicos do futebolista Danilo Luiz da Silva, ou (ii) 100% dos direitos económicos do futebolista Jackson Martinez, os montantes resultantes dessas alienações, líquidas de comissões, serão utilizados no reembolso, parcial ou total, do montante no âmbito do contrato».

Pode ser um problema semântico. Mas tecnicamente, o FC Porto já não tem a propriedade de 100% dos direitos económicos de Jackson Martínez. Tem 95%. E não foi por isso que teve que proceder ao reembolso total ou parcial em relação ao Novo Banco. Tudo isto para dizer que a possibilidade de uma renegociação não deve ser ignorada, tendo em conta o quão raro é abater o passivo de forma tão bruta.

No relatório e contas de 2013-14, o tal citado pelo MaisFutebol, é dito que a SAD tem que proceder ao reembolso no momento em que o FC Porto deixe de ter a totalidade dos direitos económicos de Danilo e Jackson. Tecnicamente, como já foi dito, já não tem 100% dos direitos de Jackson. Mas não se trata apenas de uma questão semântica, pois no R&C semestral já não há qualquer referência à necessidade de um reembolso imediato assim que Danilo ou Jackson sejam transferidos, nem fazem referência à cláusula que existia quando estavam Mangala e Jackson na colateral.

Podemos também finalmente confirmar que o FC Porto, ao contrário do que chegou a ser dito, continua a ter 100% do passe de Danilo. Vai ter, isso sim, que ceder 10% da transferência ou da mais-valia (não foi oficialmente esclarecido) ao Santos.

Sabendo-se que é praticamente inevitável vender dois titulares até ao final do exercício 2014-15, num cenário optimista Danilo e Jackson Martínez podem gerar mais-valias de 18,5M€ e 21M€, além dos 22,8M€ de Mangala. Tudo que for acima disto já irá para além de um excelente negócio. O valor em falta pode e deve ser coberto com a receita extra da UEFA ou a rentabilização de excedentários.

O défice operacional previsto para 2014-15 era de cerca de 25M€, além do prejuízo que transitou da última época. Com Jackson e Danilo transferidos dentro do exercício de 2014-15, o FC Porto cobre todo o valor, sem antecipar a liquidação, seja ela total ou parcial, do empréstimo do Novo Banco que vence em Setembro. Se a cláusula já não é aplicável, tal implicará que seja algo para resolver em 2015-16, sem agravar a necessidade de mais-valias em 2014-15 - e outra coisa não faria sentido, pois a renegociação do empréstimo com o Novo Banco foi feita antes de definir o orçamento para esta temporada.