«Sempre se pagaram comissões». Esta frase ganhou espaço em todas as discussões sobre o pagamento de comissões feito pelo FC Porto, em particular por parte de quem defende inteiramente a política levada a cabo pela SAD neste aspeto.
À partida, nunca ninguém disse que o FC Porto nunca pagou comissões, o que retira desde logo toda a lógica e peso a essa argumentação. O que está em causa é que, provavelmente, muitos adeptos só se interessam com isto pois a equipa não está a conquistar títulos. Se o FC Porto estivesse já com festa à vista nos Aliados, possivelmente muitos não se importariam com quantos milhões e para quem iriam sair dos cofres da SAD.
Mas na verdade, isso é mais legítimo do que possa parecer. Para muitos adeptos, o problema não é o pagamento de comissões: é o pagamento de milhões que não têm retorno desportivo. É o pagamento de milhões ou comissões que não resultam num benefício para o FC Porto. A política de gestão da SAD do FC Porto é, há anos, estar sempre no risco financeiro para ter retorno desportivo; se o retorno desportivo não está a aparecer, é normal que o modelo seja criticado.
«Sempre se pagaram comissões», é verdade. Mas a questão que se deve colocar é: hoje pagam-se mais comissões do que antes? São essas as contas que O Tribunal do Dragão fez:
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| (*) 6 primeiros meses de 2015-16. Dados dos R&C anuais da SAD. As comissões incluem encargos e contratos |
Nota prévia: a época 2015-16 inclui apenas as despesas dos primeiros seis meses da temporada; e todos estes valores dizem respeito a «encargos com serviços de intermediação nas aquisições de passes de jogadores», «bem como na negociação e renegociação dos contratos de trabalho com jogadores». Ou seja, não estão incluídas as comissões pagas pelo FC Porto nos momentos de vendas de jogadores, apenas na compra ou elaboração de contratos. Em relação a 2015-16, o valor ainda vai aumentar com os negócios feitos em janeiro pela SAD. Posto isto, algumas notas soltas sobre as comissões/encargos pagos pela SAD nas últimas 10 épocas:
- Em 2011-12, época seguinte à conquista da Liga Europa, a SAD atingiu o topo do pagamento de serviços de intermediação: mais de 11M€. Tal explica-se pelos elevados encargos envolvidos nas contratações de Danilo (4,839M€), Mangala (1,02M€) e Defour (1,85M€) - os dois primeiros deram grande retorno desportivo e financeiro. Nessa época, o FC Porto investiu um valor líquido de 56,517M€ em contratações (78,29% das receitas operacionais da SAD) e terminou com um prejuízo consolidado de 35,76M€ - o que marcou uma série de cinco épocas sempre a dar lucro.
- As comissões/serviços de intermediação têm aumentado sucessivamente desde 2012-13 - à imagem do que foi acontecendo entre 2005-06 e 2011-12.
- Só nos primeiros seis meses desta época, a SAD gastou mais 2,568M€ do que no conjunto das três primeiras épocas com Jesualdo Ferreira, na qual o FC Porto foi sempre campeão.
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| As mudanças desde 2010 |
- Nos últimos dois anos e meio, o FC Porto pagou 18,97M€ - há a expetativa de ver se este valor atinge os 20M€ com os negócios do mercado de inverno. Assim sendo, em dois anos e meio em que o FC Porto não ganhou nada, os encargos são quase tantos como os das últimas cinco épocas em que o FC Porto foi sempre campeão (20,349M€).
- Na era Jesualdo Ferreira, o FC Porto foi sempre aos 1/8 da Liga dos Campeões e pagou apenas 7,217M€ de comissões - menos do que o valor total a ser pago na época 2015-16, em que o FC Porto só pode ganhar uma Taça de Portugal.
- Exceção feita a Jackson Martínez, as últimas grandes vendas do FC Porto foram feitas com jogadores contratados em 2011-12, a época em que houve mais encargos (Danilo, Alex Sandro e Mangala).
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| O resistente de 2013 |
- De todos os jogadores contratados pelo FC Porto desde 2013, que implicaram o pagamento de encargos de pelo menos 18,97M€, ainda nenhum proporcionou nenhuma venda significativa ao FC Porto (a mais-valia por Imbula é reduzida, por ter sido vendido quase a preço de compra e menos de meio ano depois de ter assinado pelo FC Porto), acima dos 10M€. Importa recordar que o FC Porto, pela voz de Antero Henrique, assumiu que a sua gestão implica ciclos de três anos para os jogadores do clube. Ou seja, a fornada contratada em 2013 deveria começar a dar lucro agora neste verão (de todos esses jogadores, só Herrera, que tecnicamente foi contratado no exercício de 2012-13, está no plantel). Quantos dos jogadores do atual plantel estão em condições de garantir as mais-valias necessárias?
- Tendo em conta a última década. Entre 2006 e 2011 o FC Porto pagou uma média de 2,353M€ por época; já entre 2011 e 2016 pagou, até ao momento, uma média de 6,52M€, ou seja, quase o triplo da primeira metade da década. Podemos considerar uma hipotética inflação no mercado do futebol, mas o triplo parece ser um pouco puxado. E há que lembrar que entre 2006 e 2011 o FC Porto ganhou quatro campeonatos e uma Liga Europa, enquanto entre 2011 e 2016 ganhou dois campeonatos.
ADENDA: face à pertinente sugestão de um leitor no Facebook, O Tribunal do Dragão acrescenta a relação entre comissões/encargos e o valor total das aquisições feitas pelo FC Porto por época (o que inclui contratações e compras de passes de jogadores que já eram do clube).
ADENDA: face à pertinente sugestão de um leitor no Facebook, O Tribunal do Dragão acrescenta a relação entre comissões/encargos e o valor total das aquisições feitas pelo FC Porto por época (o que inclui contratações e compras de passes de jogadores que já eram do clube).
- O padrão de aumento desde 2011 é claro, e tem na época 2012-13 a grande exceção (curiosamente a última época em que o FC Porto foi campeão). De recordar que Pinto da Costa disse, na última entrevista, que o FC Porto paga «5 a 10%» por operação aos empresários. Neste caso, importa ter em conta que o valor dos encargos inclui variantes como prémios de assinatura e direitos de imagem, logo o dinheiro não se destina todo aos empresários. Daí que o facto de nas últimas 5 épocas o FC Porto ter ultrapassado, em 4 ocasiões, os 10% (e de já ter ultrapassado os 25%) não significa que os empresários estejam a receber acima das percentagens afirmadas pelo presidente do FC Porto.
É verdade. O FC Porto sempre pagou comissões/encargos, como todos os outros clubes. O problema é que nunca pagou tanto por tão pouco retorno desportivo.
PS: Foram considerados apenas os encargos com compras de jogadores e celebração de contratos, e não as percentagens de passes que se atribuem a agentes/fundos aquando da compra de jogadores e renovações de contratos. E uma vez mais, importa lembrar que não estão incluídas as comissões pagas nos momentos de vendas de jogadores (daí que Pinto da Costa tenha dito, por exemplo, que o FC Porto pagou 11M€ em três anos a um empresário, e que este valor pareça exagerado face aos números que estão aqui apresentados).
PS: Foram considerados apenas os encargos com compras de jogadores e celebração de contratos, e não as percentagens de passes que se atribuem a agentes/fundos aquando da compra de jogadores e renovações de contratos. E uma vez mais, importa lembrar que não estão incluídas as comissões pagas nos momentos de vendas de jogadores (daí que Pinto da Costa tenha dito, por exemplo, que o FC Porto pagou 11M€ em três anos a um empresário, e que este valor pareça exagerado face aos números que estão aqui apresentados).



























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