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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (2)

Contrato até 2021
Vincent Aboubakar - No início da época, perspetivava-se que Aboubakar, sendo titular, conseguiria sem problemas superar as contribuições em golos de André Silva na última época. E assim foi, com o camaronês a conseguir 26 golos e 7 assistências. Mas o mais notório é que Aboubakar praticamente fez isso em meia época, o que diz muito do elevado rendimento que teve até janeiro e da grande quebra que sofreu desde então. 

Entre problemas físicos e quebra de rendimento, Aboubakar fez apenas um golo e uma assistência nos últimos quatro meses da época. Até então, os seus golos foram sendo sempre sinónimo de vitórias - o FC Porto venceu 18 dos 19 jogos em que Aboubakar marcou. O camaronês, além dos golos que marcou, criou tantas ocasiões de golo flagrantes como Soares e Marega juntos (13), mas dos três foi aquele que teve menor eficácia em duelos ganhos (41%) e dribles eficazes (53%). Embora grande parte dos golos de Aboubakar pareçam quase sempre obtidos em esforço (há quase sempre um ressalto ou um desvio ao barulho), terminou a época como melhor marcador da equipa, mas a sua época teve claramente um «antes» e «depois». O mesmo é dizer que o Aboubakar da primeira parte da época tem tudo para se manter como referência goleadora da equipa, mas o Aboubakar pós-janeiro não pode carregar as dependências ofensivas da equipa. 

É de recordar que a SAD comprou a totalidade do passe de Aboubakar no decorrer da época, elevando o seu custo total a 11,5 milhões de euros, além da operação de renovação de contrato ter custado 5,1 milhões de euros (verba que inclui prémio de assinatura e comissões, tendo sido uma das renovações contratuais mais caras da história da SAD). É um ativo que tem que continuar a ser rentabilizado, até porque não aparenta haver compradores (pelo menos que agradem a todas as partes) que cubram o investimento em Aboubakar, mas o avançado tem que ser mais do que um jogador de meia época, embora ter tido interferência direta em 33 golos sejam números que muitos avançados não conseguem numa temporada inteira. 

Contrato até 2019
Gonçalo Paciência - Repescado no mercado de inverno, na altura quando a saída de Soares estava a ser negociada, o avançado português acabou por ser remetido a um papel secundário no FC Porto, até porque o brasileiro acabou por ficar no plantel. Foi apenas duas vezes titular, uma contra o Sporting (o único jogo em que conseguiu ter interferência decisiva, no passe para Brahimi), e de resto foi suplente utilizado de forma residual. A segunda metade da época acabou por quebrar o rendimento que estava a ter em Setúbal e, neste momento, parte no último lugar da hierarquia de opções para o ataque e dificilmente o FC Porto terá interesse em ir ao mercado pescar um jogador para ser suplente de Gonçalo Paciência. Ainda assim, face às caraterísticas e talento reconhecido por todos os que já trabalharam com o avançado, a um ano do final de contrato justificar-se-ia a renovação, pois o avançado, mesmo não ficando no plantel, pode perfeitamente ser titular na grande maioria das equipas da I Liga. Tudo dependerá do aval do Sérgio Conceição, sendo certo que ou joga com regularidade em 2018-19, ou arriscar-se-á a carregar o rótulo de eterna promessa. 

Contrato até 2020
Moussa Marega - O inesperado melhor marcador da equipa no Campeonato. Semana após semana, Marega conseguia combinar os mais sofríveis números no contacto com bola com a garantia de que ia fazendo um golo por jornada. Sérgio Conceição encontrou uma forma de encaixar a dimensão física de Marega na equipa e fazer com que o maliano, embora poucas vezes conseguisse acertar uma diagonal ou um cruzamento, tivesse sempre presença no ataque, ajudasse a esticar o jogo e a pressionar a linha defensiva adversária. Não é assim tão comum conseguir 22 golos no Campeonato - o último a fazê-lo foi Jackson, em 2013 -, por isso Marega distingue-se pela média de golos que conseguiu na Liga, uma surpresa que talvez não encontra paralelo desde os tempos de Pena. 

E agora? Agora seria a oportunidade perfeita para conseguir uma grande venda com Marega. Um jogador pelo qual ninguém dava dois tostões (daí que a SAD tenha dado 30% do passe de Marega ao Vitória de Guimarães aquando da contratação de Soares), que só não foi dispensado no início da época porque não sobravam mais opções e que foi reabalitado. O próprio jogador, mesmo sendo aclamado pela massa adepta, não se inibiu de afirmar que gostaria de ir para Inglaterra, mesmo sem saber se haveria propostas: Marega sabe que esta época foi única. Tem 27 anos, dois anos de contrato para cumprir e há que ter em conta o desempenho nos jogos grandes.

Entre Champions, clássicos e até os jogos com o SC Braga, foram 15 partidas em que Marega não só ficou em branco como foi sendo invariavelmente a unidade de menor rendimento na equipa - exceção à exibição no Mónaco, onde fez duas assistências. É certo que a I Liga não tem apenas quatro equipas, por isso Marega pode continuar a ter golo contra a maioria dos adversários, mas é altamente improvável ultrapassar este pico de valorização. O jornal O Jogo já deu conta de uma alegada recusa de 25 milhões de euros por Marega e, sendo verdade, seria apenas e só uma das três melhores (não confundir com maiores) vendas da história do FC Porto. A média de golos é um mérito intocável, mas Marega desperdiçou tantas ocasiões de golo flagrante como Soares e Aboubakar juntos (21 - 9 delas em clássicos), embora dos três o maliano tenha sido o jogador que melhor eficácia de dribles (65%) e duelos ganhos (48%) teve, tendo sido também o mais rematador (96 disparos na Liga, contra 77 de Aboubakar e 53 de Soares). Ainda assim, e apesar da evolução desde o início da época, foi o pior passador do plantel (67%) e o jogador com maior percentagem de perdas de posse nas provas da UEFA. Continuar a apostar num esquema de jogo tão dependente da dimensão física de Marega é uma fórmula que pode não surtir o mesmo sucesso na próxima época. Por isso, sim, se houver propostas, poderá ser a altura ideal para Marega sair... Restando saber se Sérgio Conceição planeia, ou não, continuar a apostar num esquema que privilegie - ou que faça mesmo depender - a presença de Marega.

Contrato até 2021
Tiquinho Soares - Se Aboubakar só durou até janeiro, Soares só durou em fevereiro. Esteve à beira de sair no mercado de inverno, mas o negócio falhou e Soares acabou por permanecer no plantel, tendo de imediato sido puxado para a titularidade por Sérgio Conceição, que recuperou bem o avançado. Soares entrou a matar, com 10 golos em fevereiro, mas desde então não mais voltou a marcar, vítima de uma lesão que lhe tirou um mês de competição numa altura em que estava em excelente forma. O brasileiro já tinha tido o azar de perder a titularidade logo no arranque da época, fruto de nova lesão, e a sua produtividade ofensiva acabou por se revelar curta nas últimas semanas da temporada. Dificilmente terá mercado para sair e tudo aponta para a sua continuidade no FC Porto, com o desafio de ter que melhorar a sua média de golos na Liga (um a cada duas jornadas).

domingo, 28 de janeiro de 2018

O que pode Gonçalo Paciência trazer à equipa

O FC Porto não tem grande tradição em repescar jogadores no mercado de inverno. Quem está emprestado, por norma, termina a época longe do Dragão. Kelvin, por exemplo, voltou ao FC Porto em 2017 para jogar 21 minutos na I Liga e Hélder Barbosa interrompeu a sua evolução na Académica, em 2008, para jogar pouco mais no regresso ao Dragão. 

Mas quando não há disponibilidade para investir e há o fair-play financeiro da UEFA à perna, algo que limita o FC Porto a empréstimos ou oportunidades muito específicas de negócio, há que olhar para dentro. E subitamente, com a Taça da Liga, o nome de Gonçalo Paciência regressou ao debate portista, agora que está finalmente a fazer a primeira época consistente na carreira sénior. 

Em 2014-15, Lopetegui quis que Gonçalo ficasse no plantel para a segunda metade da época, mas revelou-se um erro, pois acabou por não haver espaço para que fosse aposta. Seguiu-se o empréstimo a uma Académica medíocre, com um plantel fraco e mau futebol. Difícil esperar que Gonçalo fosse o milagreiro no meio daquele caos.

A cedência ao Olympiacos revelou-se uma solução ainda pior. Ainda que tenha sido uma solução encontrada por quem o representa - a ProEleven -, o clube grego iria, logicamente, tentar rentabilizar os seus próprios ativos em vez de dar minutos a um jogador emprestado, que chegava ao clube por intermédio do seu representante. Felizmente, a cedência foi interrompida em dezembro. Entre o fantasma das lesões e da falta de minutos, Gonçalo chegou ao Rio Ave, mas na altura o plantel vila-condense já estava formado e só encontrou protagonismo como suplente utilizado. 

No Vitória de Setúbal, enfim, Gonçalo Paciência tem finalmente o espaço desejado. E tem também números para acompanhar o seu rendimento: 11 golos e 6 assistências. A questão é: faria sentido o FC Porto promover o seu regresso se não fosse para jogar? Agora que Gonçalo está finalmente a jogar com continuidade, deveria o clube correr o risco de o fazer regressar para, depois, talvez ser a última opção da linha para o ataque?

Tudo passa, naturalmente, pela vontade de Sérgio Conceição. Mas olhando aos jogadores já recrutados no mercado de inverno - Paulinho e Waris -, ambos servem os propósitos já ensaiados no 4x4x2: avançados a jogar em profundidade. Ora, Gonçalo Paciência não pode ocupar essa função. Não é jogador para ganhar metros nas costas da defesa. É muito forte fisicamente, não deve muito nesse âmbito a Aboubakar ou Marega, mas não tem a velocidade e a capacidade de comer metros no último terço que os avançados africanos do FC Porto têm. 

Então, o que poderia acrescentar Gonçalo Paciência ao FC Porto?


Desde logo, a capacidade individual que, muitas vezes, se resume a Brahimi no ataque do FC Porto. Gonçalo Paciência é o 3º principal driblador do Campeonato, neste momento só atrás de Brahimi e Gelson Martins. Gonçalo tem 36 dribles eficazes na Liga - Marega e Aboubakar, juntos, têm 38. 

Há que ter em conta que o Vit. Setúbal é uma das 5 equipas que menos tempo tem a bola em seu poder no Campeonato. Logo, cada ação de Gonçalo com bola tem valor acrescido nesse aspecto. Por exemplo, na quantidade de faltas que consegue arrancar: já leva 57 no Campeonato, mais do que o jogador mais castigado do plantel do FC Porto, Brahimi, com 51. O mesmo é dizer que Gonçalo Paciência sofre mais faltas do que Marega e Aboubakar juntos (53). Numa equipa como o FC Porto, que sobretudo nos grandes jogos depende bastante das bolas paradas para chegar ao golo, é sempre bom ter um jogador a arrancar faltas nos últimos 30 metros. 

No 4x4x2 do FC Porto, muitas vezes, Aboubakar baixa para junto da linha média, para ir buscar jogo, enquanto Marega se prepara para atacar as costas da defesa. Gonçalo Paciência só poderia desempenhar a primeira função, a de jogar mais recuado, pois é nisso que é mais forte: receber, aguentar a pressão, explorar situação de 1x1 ou apostar desde logo no remate de meia distância. É pouco habitual ver o FC Porto rematar de fora da grande área com os seus avançados: Brahimi, Aboubakar e Marega têm 24 tentativas em conjunto... tantas quanto Gonçalo. Mas a verdade é que também são poucas as vezes em que esses remates se traduzem em golo. 

Gonçalo Paciência é o 6º mais rematador do Campeonato, com 47 disparos, menos do que Aboubakar (57) ou Marega (63), mas comparando com os avançados do FC Porto recebe muito menos vezes a bola na grande área. Daí que, embora remate mais de longe, tenha muitas poucas oportunidades para disparar nos últimos 15 metros. 

Mas nem tudo é um mar de rosas no rendimento de Paciência no Bonfim, havendo claramente alguns dados que o limitam enquanto opção para o que resta da época. Desde logo, o facto de ser o jogador com mais perdas/receções de bola falhadas no Campeonato, com 71, à frente do reforço de inverno Paulinho. O facto de jogar muitas vezes desapoiado no ataque do Vit. Setúbal não ajuda, claro. 

Além disso, tirando os guarda-redes, Gonçalo Paciência é o jogador da I Liga com maior percentagem de passes falhados: falhou 46% dos seus passes. Mas tendo em conta que Marega (continua a ser o pior passador do plantel, mas subiu para uma eficácia de 68,6%) liderou durante várias jornadas esta estatística, também não haveria de ser isso a riscar Gonçalo do mapa de possibilidades.

Porém, há algo que ajuda a explicar isso mesmo. No Vitória de Setúbal de Couceiro, Gonçalo Paciência é exposto muitas vezes à seguinte situação: receber mais atrás, rodar e tentar o passe em profundidade. Ou seja, Gonçalo não recua para fazer tabelas, jogar para trás ou ser um mero apoio: recua para segurar a bola e ser ele próprio o lançador do ataque. 

Isso explica porque é que 65,3% dos passes de Gonçalo Paciência são feitos para a frente, enquanto no FC Porto a maior parte dos passes de Marega e Aboubakar são feitos para trás - 55,1% para o maliano e 51,9% para o camaronês. Além disso, os africanos do FC Porto jogam num raio de ação mais curto, com passes médios de 14 a 15 metros, enquanto Gonçalo tem uma média de passe de 18 metros. Ou seja, é muito mais exposto ao risco e não tem tantas soluções para jogar curto. 

Por fim, as ocasiões de golo criadas na Liga. Aboubakar leva 15, Marega 14 e Gonçalo Paciência... 14. Ou seja, numa equipa que tem menos posse de bola, que ataca menos e que tem menos qualidade, o avançado português consegue, ainda assim, criar tantas ocasiões de golo como os ponta-de-lança do FC Porto. Diferente, muito diferente, mas não menos produtivo. 

Agora tem a palavra Sérgio Conceição. 

domingo, 7 de agosto de 2016

Não desistam da Paciência

Os talentos de hoje nem sempre são os de amanhã. Mas muitas vezes, o que separa a promessa da concretização é uma simples oportunidade. André Silva está a tê-la e a aproveitá-la, e agora percebem o porquê deste post, de julho de 2014, em que O Tribunal do Dragão defendia como prioridade segurar André Silva para o futuro.

O futuro já chegou, e agora André Silva é o ponta-de-lança do presente. Neste caso, não se trata do presente para António Teixeira, mas sim para a época 2016-17 do FC Porto, na qual André Silva está pronto para ser o 9, apesar de ter ficado com a camisola 10, honrando o antigo ídolo Deco. 

Mas não é de André Silva que falamos desta vez, mas sim de Calleri, atualmente nos Jogos Olímpicos e que fez um bonito golo na sua estreia. Ups, afinal não foi Calleri, foi Gonçalo Paciência a marcar. Mas o que se diria se aquele golo tivesse sido de Calleri? 

É interessante que, nos habituais plantéis virtuais que os adeptos formam e partilham em fóruns e redes sociais nas pré-épocas, Calleri tenha sido um nome muito utilizado. Provavelmente, muitos não o incluiriam se o seu nome não tivesse aparecido na imprensa. Mas o mais inquietante é que muitos o admitam apesar do valor exigido pelos investidores por Calleri: 20 milhões de euros, fosse por transferência ou empréstimo com opção de compra.

Calleri, que vai para o West Ham, e Gonçalo Paciência são jogadores de caraterísticas totalmente distintas. Mas é apenas um dado indicativo do quão pode ser diferente o tratamento/expetativa em relação a um jogador que chega, por exemplo, da América do Sul e outro que venha da formação.

Não é que o FC Porto não tenha tido grande sucesso no recrutamento de avançados sul-americanos - ninguém recusaria um Lisandro, um Falcao ou um Jackson -, mas a diferença é notória. O avançado estrangeiro tem o direito a ser muito caro, a ter período de adaptação e entrar em plantéis virtuais quando muitos nem sequer o viram jogar além de um best-off no Youtube. O jogador da formação não tem essa sorte.

Se calhar, alguns esperavam que Gonçalo Paciência chegasse a uma Académica ultradefensiva, mal trabalhada a todos os níveis, e que marcasse 20 golos. Quiçá os mesmos que iam torcendo o nariz em relação a André Silva até à final da Taça de Portugal. Nada se consegue sem paciência... e sem o contexto correto. 

Apesar da afirmação de André Silva, o FC Porto continua a necessitar de mais um ponta-de-lança, sem dúvida - e se Aboubakar sair, então poderão ser dois. É verdade que a juventude de André Silva recomenda uma alternativa mais experiente, mas a bem da verdade não é tarefa fácil contratar um avançado já mais rotinado, que garanta 15 ou 20 golos por época e que não venha ganhar mais do que André Silva. Isto além de ter que ser uma solução simultaneamente capaz de aceitar o banco enquanto dê garantias a titular. Um Aboubakar confiante e sem o bloqueio psicológico resolveria muitos problemas (o facto de ter sido apresentado, ao contrário de Indi, indicia que ficará no plantel se não houver uma boa proposta)... E aí, porque não Gonçalo Paciência?

De facto, há que compreender as caraterísticas de Gonçalo Paciência. Ao contrário de André Silva, Gonçalo não é jogador para receber a bola em profundidade, descair para os flancos e assumir o 1x1 ainda longe da grande área. Os jogos de pré-época deixaram claro que Nuno vai pedir isso aos avançados (o FC Porto vai ter menos posse de bola, controlar menos os jogos e depender mais da aceleração no último terço do terreno, tipo de futebol que não é propriamente o cartão de visita das equipas que têm ganho campeonatos).

Gonçalo não é um ponta-de-lança muito veloz, como nunca o foram Ibrahimovic, Sheringham ou Berbatov. Se lhe pedirem para jogar em profundidade, vai ter sempre dificuldade. Gonçalo tem um perfil diferente. Tem que jogar mais perto da grande área, com menor amplitude de jogo, pois Gonçalo é fortíssimo a segurar a bola, de costas para a baliza, a descobrir os espaços em drible curto e em arrastar os defesas. É forte fisicamente, tem um remate potente e ótimo no jogo aéreo. Gonçalo Paciência precisa de uma equipa que o «deixe» jogar mais perto da grande área... mas o FC Porto de Nuno Espírito Santo parece necessitar de avançados mais velozes e móveis.

Ainda assim, e cada vez mais no futebol português, haverá alturas em que os avançados terão que encostar aos centrais, bem perto da grande área, e aí faria todo o sentido confiar em Gonçalo Paciência. É curioso que Pepijn Lijnders, que trabalhou Gonçalo no Projeto Jogador de Elite, tenha dito isto sobre ele: «É um jogador capaz do impossível, que por vezes falha mais no possível». É uma grande verdade. Gonçalo Paciência é um jogador capaz de inventar a mais incrível jogada, coisas que a maioria dos avançados não consegue fazer, mas depois tem faltado o tal killer instinct. Mas trabalhar avançados para encostar é bem mais fácil do que ter o talento nato que Gonçalo tem, a capacidade de inventar quando os jogos estão fechados.

Se tivesse um toque mais hispânico no nome, um Gonzalo Paciencia, viesse da América do Sul e alguém tivesse compilado o seus melhores momentos e publicado um vídeo no Youtube com o título «El Nuevo Ibrahimovic», se calhar fazia correr mais água na boca. Mas sendo portista e nosso, o que deveria contribuir para haver ainda mais confiança, parece haver o sentido contrário.

Depois dos Jogos Olímpicos, sabe que tem as portas do seu «pai no futebol», Nuno Capucho, abertas no Rio Ave. Mas que ninguém pense em fechar-lhe as do FC Porto, seja nesta época ou na próxima. Fica o conselho, o mesmo sobre André Silva há dois anos. Basta ter um pouco de Paciência.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Lutar por nós sem (ainda) ser um de nós

Maxi Pereira já é jogador do FC Porto. E agora, que fazer? Rasgar o cartão de sócio, fazer boicote aos jogos e passar a assobiar quem veste a nossa camisola? Claro que não. A opinião já foi aprofundada aqui. Agora, Maxi Pereira é mais um a lutar a nosso lado pelo regresso aos títulos. Não é, ainda, dos nossos. Mas vai lutar por nós, que para já é o que basta e se exige. 

Oportunidade
Se estiver em campo com a mesma postura com que representou o Benfica (o tal espírito de sacrífico de que gostamos), tudo estará bem. Dificilmente gozará da mesma impunidade, mas os nossos camisola 2 estão habituados a isso. 

Agora, cabe aos adeptos darem a Maxi Pereira a oportunidade que devem dar a todos os jogadores: a oportunidade de conquistarem os adeptos pelo seu empenho e trabalho dentro de campo. Não temos que subscrever a contratação, mas devemos compreendê-la. Contrato de 3 anos, o que defende um pouquinho melhor o clube, e pouco mais há a acrescentar. De destacar a importância de Pinto da Costa ter dado a cara pela contratação e explicado tudo, embora o negócio tenha sido conduzido por Antero Henrique, como o próprio confirmou.

Não deixa de ser curioso constatar a vulnerabilidade de um Benfica bicampeão. Na sua melhor fase em três décadas, não conseguiu evitar perder o treinador para um rival e um jogador nuclear para outro. Acaba por ser uma consequência da sua frágil situação financeira, mas também que mostra que os seus profissionais nem num Benfica bicampeão sentiram confiança e segurança para continuar. Não deixará de ser uma corrida a 3, mas fica a interessante nota. Ah, e o Sporting só irá buscar quem o FC Porto não quiser, como este mercado já o comprovou. Logo, na hora de escolher, o FC Porto, mesmo não ganhando nada há dois anos, ainda é o mais desejado. Não podemos ignorar o fator financeiro, mas o estatuto também tem dólar.

Não precisamos que Maxi Pereira faça juras de amor ao FC Porto, que comece a renegar publicamente o Benfica e que desate a apregoar portismo. Não, basta que se defenda esta camisola até ao limite, até à última gota de suor, com profissionalismo, e perceber o risco que o FC Porto assumiu ao contratá-lo, não só financeiro como até mesmo na relação adepto-clube. Desportivamente, há muito a ganhar e para ganhar. E o trabalho para alcançar esse objetivo já começou.

Época de afirmação como 9 futuro
Os resultados não merecem grande importância nesta altura, mas é sempre bom abrir a pré-época a ganhar e a fazer golos. Neste caso, com André Silva a marcar pontos. Teve uma época prejudicada em 2014-15 pelo impasse na renovação (que não foi culpa do jogador) e pelo 4x3x3 da B que só dava lugar a Gonçalo Paciência a 9, além de continuarmos sem ter um treinador com mínimo perfil para orientar os bês (isto sim, preocupante, tendo em conta que da B podem sair talentos que valham mais do que meia dúzia de patrocínios - quando houver novidades neste aspeto, serão tema, certamente).

Gonçalo Paciência, já se sabe, vai sair por empréstimo. Percebe-se e aceita-se a decisão, pois vai para o 3º ano de sénior e praticamente ainda não teve futebol de primeira liga. Só se torna incompreensível a decisão de o ter mantido no plantel na segunda metade de 2014-15, tendo em conta que agora sairá para um clube que não terá as rotinas do FC Porto, de futebol de posse que usa o 9 como um apoio e não como uma referência para o pontapé para a frente. Que Gonçalo renove e volte, é o que se deseja e exige. Até lá, André Silva e Leonardo Ruiz (que assinou um novo contrato de empréstimo, decisão lamentável - a cláusula de compra era de exercer logo, pois assim a futura compra arrisca-se a uma inflação e a mais concorrência), com Rui Pedro aos poucos, são os nomes que merecem toda a atenção e dedicação na B. André Silva já está uns degraus acima, o que ainda assim não lhe dá lugar no plantel, mas certamente Lopetegui terá minutos para ele ao longo da época, quando as circunstâncias se conjugarem para tal. 

Falando ainda da formação. David Bruno volta a fazer uma pré-época, novamente por circunstância de carência na posição, mas já vai para o 5º ano de senior sem nunca ter jogado na primeira liga. Tem forçosamente que fazê-lo este ano, para bem da carreira do jogador, que é o miúdo com mais anos de FC Porto na formação. Uma palavra para Chico Ramos, que segundo O Jogo pode ser o novo Rúben Neves e vai ficar no plantel. Provavelmente não será assim, pois o meio-campo ainda vai ter que emagrecer e ainda nem acabou de engordar, mas de destacar que fez um bom primeiro ano de senior na equipa B e é titular no FC Porto e nas seleções desde os iniciados. Tem futuro, mesmo que não seja imediato.

Para terminar, uma palavra a dois jogadores que deixam o FC Porto rumo ao novo brinquedo de Pini Zahavi. Frédéric sai a título definitivo, ficando o FC Porto com parte do passe (tecnicamente de futura venda), e é pena que não tenha renovado e sido meramente emprestado. Não voltou ao Sporting porque não quis e é um nome ao qual não convém perder o rasto. E Pavlovski sai após um segundo ano de empréstimo. Sempre que esteve em campo, vimos qualidade. Por que é que não passou mais tempo em campo, é um mistério. O futuro esclarecerá se foi mal aproveitado, o que parece ter sido. Melhor sorte aos dois miúdos.

domingo, 14 de junho de 2015

Análise 2014-15: os avançados

A hora da sucessão
Há Jackson Martínez e há o resto. O resto tem potencial, mas quando há Jackson não há espaço para muito mais do que esperar na sombra do colombiano. Pela terceira época consecutiva, não conseguimos ter o melhor ataque do campeonato, ficando sempre atrás do Benfica. Mesmo assim, Jackson consegue durante três épocas seguidas ser o melhor marcador, faz 92 golos em 3 épocas e tornou-se um dos melhores pontas-de-lança do mundo. Sem ele, as últimas três épocas teriam sido bem mais complicadas do que o foram.

E agora, a sucessão. Um tema que tem sido difícil de gerir. Aboubakar é o sucessor natural, Gonçalo Paciência pouco tempo tem de primeira equipa e André Silva ainda não o tem. Alberto Bueno foi um negócio de oportunidade, com vista a algo mais do que um 4x3x3. Entre Kléber, Ghilas e até Walter e Caballero há 16M€ investidos sem retorno à vista. Leonardo Ruiz vai fazer a primeira época na B, restando saber se demoram muito a fechar a compra do passe (sem desculpas para inflações à Kayembe). Ainda vai chegar mais um ponta-de-lança do mercado. O natural seria Aboubakar partir como primeira opção, até porque Gonçalo não vai começar a pré-época, abrindo espaço para a terceira vida de Kléber. Mas podemos admitir que está tudo em aberto no que toca ao ataque, seja em 4x3x3, seja no 4x4x2 que na época passada só funcionou na cabeça de Lopetegui e frente ao BATE. Vamos à análise.

Jackson Martínez - Passou a época a receber elogios semana após semana, logo tudo o que se diga agora torna-se redundante. Talvez só Danilo possa competir com ele na designação de melhor jogador da época. Foram três anos a levar a equipa às costas, na mais ingrata das tarefas - fê-lo não em tempos de hegemonia, como Jardel, Lisandro ou até Falcao, mas sim durante três épocas de grande dificuldade e exigência para o FC Porto. É o 2º melhor marcador estrangeiro da história do clube, só atrás do insuperável Jardel. Além de toda a valia desportiva, saindo pela fasquia dos 30M€ ainda se torna num excelente negócio financeiro para a SAD. Merecia sair com mais títulos na bagagem. É sempre subjetivo definir quem é o melhor, mas foi o mais completo ponta-de-lança que o FC Porto teve em muitos anos.

Aboubakar - Chegou para crescer na sombra de Jackson. Aproveitou dentro do possível as suas oportunidades, fazendo 8 golos na época de estreia e revelando o potencial que levou o FC Porto a apostar na sua contratação. Não é Jackson, claro que não. Mas pode ocupar o lugar de Jackson, mesmo que isso implique que Lopetegui passe a utilizar o seu 9 de maneira diferente. Jackson Martínez jogava pela equipa, enquanto que neste caso a equipa terá que jogar um pouco mais para Aboubakar. E a própria equipa, sobretudo do ponto de visto criativo no meio-campo, terá que render muito mais, pois Jackson disfarçava muita coisa. Aboubakar tem condições para começar a próxima época como primeira opção, desde que lhe peçam para fazer de... Aboubakar, não de Jackson.

Adrián López - Tal como Falcao não é o jogador que viram no Man. United esta época, Adrián também não é o que mostrou no FC Porto. No início da época, foi uma contratação que genericamente gerou entusiasmo, excepção à parte de ter chegado por 11M€, tão reais quanto os 8,6M€ de Roberto ou os 6M€ de Pizzi. É certo que o feitio do jogador não ajudou. Não é que seja mau profissional, mas revelou-se frágil psicologicamente para aguentar a pressão de as coisas não terem começado desde o início a correr bem. Mas também foi contratado para uma equipa na qual não tinha espaço. Não podia ser extremo, não podia ser 9. Lopetegui tentou encaixá-lo naquela variação de 4x4x2, mas o esquema não funcionou de todo. E sendo esse o único esquema onde Adrián podia entrar, o jogador também ficou sem grande margem. Depois veio a lesão e terminou a história de Adrián no FC Porto. Ficando no plantel o FC Porto teria que começar a liquidar os 11M€, mas nem um décimo do investimento conseguiu justificar - e o pior é a massa salarial. Logo há que esperar que Jorge Mendes encontre uma solução.

Gonçalo Paciência - Tem caraterísticas raríssimas. Estivesse já a jogar numa liga estrangeira (na Bélgica ou na Holanda, por exemplo, os jogadores jovens começam mais cedo a jogar nas primeiras equipas) e já o comparariam a Ibrahimovic. No FC Porto, num clube onde a exigência é máxima e havia Jackson Martínez, era difícil ter muito tempo de jogo. Podia ter saído por empréstimo, mas Lopetegui quis que ficasse a trabalhar e evoluir sob a sua supervisão. É bom de mais para estar na equipa B ou limitado a minutos residuais na equipa A. Já vai para a 3ª época de senior, logo precisa de jogar numa equipa principal. Se Lopetegui não encontrar espaço competitivo para ele, talvez o empréstimo seja a melhor solução. Resta responder à questão: quem chegar do mercado terá mais potencial e oferecerá mais a curto prazo do que Gonçalo Paciência? Não faz sentido contratar um projeto de jogador quando temos um projeto chamado Gonçalo. Nem sequer investir no mercado quando o contrato de Gonçalo acaba em 2016.

Os bês - André Silva foi prejudicado pelo impasse na sua renovação e, de certa forma, pela tentativa de coexistir com Gonçalo na equipa B, desviando-o para uma ala - o seu lugar é a posição 9. Vai para o 2º ano de sénior, o que indicia que possa continuar na B, mas se já podermos aumentar o estímulo competitivo a que está sujeito só há a ganhar. Anderson (que só chegou em janeiro) e Roniel fizeram uma época exemplar daqui para que não devia servir uma equipa B - como porta de importação para jogadores cujo agenciamento é melhor do que o talento demonstrado.

Pergunta(s) - O sucessor de Jackson deve vir do mercado ou do plantel? Que papel para Gonçalo Paciência em 2015-16?

sábado, 31 de janeiro de 2015

Cartão de visita

Nas várias análises já aqui partilhadas sobre o projecto Visão 611, os pontos positivos resumiram-se essencialmente a duas coisas: logística (a ponte escola-clube foi facilitada e a formação deixou de ser meramente futebolística) e especialização técnica com recurso à escola holandesa. A propósito deste segundo ponto, o jornal O Jogo publicou sábado um interessante trabalho, que tem como base a filosofia do holandês Pepijn Lijnders.

Podia, sei lá, ter sido publicado em 2007, ano da sua criação. Ou em 2008. Ou em 2011, quando o projecto Visão 611 foi encerrado e careceu de um balanço. Mas só agora, em 2015, é que se lembraram de partilhar isto, quatro anos após o projecto Visão 611 ter sido enterrado e já depois de Pepijn sair do FC Porto.

O timing é interessante e não é inocente. Surge numa altura em que Rúben Neves e Gonçalo Paciência dão que falar, Sérgio Oliveira é o primeiro reforço para a próxima época e há outra mão cheia de miúdos que só precisam de uma oportunidade. Lembraram-se que o FC Porto tinha, e tem, uma formação que projecta grande potencial. E então surge a vinculação da afirmação de Gonçalo Paciência a um trabalho desenvolvido há anos a nível da formação. Uma boa maneira de atribuir louros aos bastidores, mas são o resultado ou a excepção?

Apesar da criação do DCAPI, uma secção no FC Porto que visava trabalhar a técnica individual dos miúdos, isto nunca foi tema de domínio público nos últimos 8 anos. O Projecto Jogador de Elite foi uma filosofia apresentado pelo Pepijn. Um teórico da bola. Mas um teórico que apesar de abusar do lirismo sabe passar da teoria à prática (e já agora, o único que apresentou um balanço do projecto, numa tese escrita pelo próprio que podem ler aqui).

Pepijn tinha duas coisas essenciais para um treinador a nível da formação: 1) os jogadores gostavam dele; 2) os jogadores tinham razões para gostar dele. Era competente e minucioso no que fazia. Apaixonado pelo treino e pelo desenvolvimento dos jogadores. Não pensava em mais nada. E foi também uma lufada de ar fresco para um primeiro fracasso. Começou por ser contratado um holandês, Chris Kronshorst, recomendado por Co Adriaanse, que quis aplicar o método Coerver. As ideias estavam lá, faltava o resto.

Os jovens da formação respondem melhor a um treinador que parece um irmão mais velho porreiro do que um avô. Pepijn tinha 24 anos quando chegou ao FC Porto, precisamente para substituir Kronshorst. E seguiu a mesma linha metódica, a de Coerver. Mas a recepção foi muito superior por parte dos miúdos, porque mais importante do que os ensinamentos é a abordagem com que queremos transmitir esses mesmos ensinamentos. Isto é precisamente algo que Pepijn diria.

Rúben Neves
O trabalho publicado é giro e tranquiliza quem quer ver reconhecimento da formação, nem que entre pela janela, mas não responde à questão mais importante de todas: e agora que Pepijn está no Liverpool, quem trabalha a técnica individual dos jogadores no FC Porto? Quem faz o trabalho que era feito por Pepijn? Teria sido interessante responder a isso. Porque sem essa resposta, não me parece que isto seja um trabalho sobre a formação do FC Porto, mas sim sobre o currículo e os métodos de Pepijn. Um treinador competente que não precisava de cartão de visita. Este trabalho não é sobre o trabalho do FC Porto com os jogadores, é sobre o trabalho de Pepijn com os jogadores. A metodologia seguida pode ser a mesma, mas regressamos ao início: mais importante do que os ensinamentos é a abordagem com que queremos transmitir esses mesmos ensinamentos.

Pepijn já é passado, mas a formação do FC Porto é o futuro. E com isto chegamos à frase mais importante: «Os portistas não imaginam os talentos que estão para chegar». E lá confessa que recomendou Rúben Neves, o seu jogador favorito, ao Liverpool. Por isso, não é de admirar que Rúben Neves já faça correr tinta em Inglaterra, que André Silva tenha recebido sondagens de Inglaterra e que o FC Porto tenha sido convidado a participar na Internacional Cup... em Inglaterra, onde pode mostrar in loco os talentos da sua formação.

A formação do FC Porto vai dar muitos frutos. Oxalá não sejamos dos últimos a descobrir isso. É tempo de colheitas.





PS: Pepjin elogiou o trabalho de outros dois treinadores a nível da formação do FC Porto: Vítor Pereira e Capucho. Não se lembrou de mais ninguém ou não havia mais ninguém para lembrar?

PS2: Tendo em conta que Gonçalo Paciência já não deve sair, a convocatória de Lopetegui diz uma única coisa que no fundo todos sabiam: Gonçalo não era a alternativa a Jackson. Era a alternativa a Aboubakar. Tendo em conta que se trata do treinador que mostrou ao país aquilo que o Liverpool soube antes de muitos portistas sobre Rúben Neves (craque), merece crédito e compreensão pela forma como entende ser melhor gerir Gonçalo Paciência.

PS3: Fernando treinou mais do que uma vez com Rúben Neves o ano passado (sim, porque Paulo Fonseca chamou-o a alguns treinos, tal como Vítor Pereira chamou Gonçalo Paciência quando tinha 16 anos - mas é preciso coragem, estofo e acima de tudo condições para ir mais além), mas diz que não o conhecia. Ou estava muito esquecido quando deu a entrevista à RTP, ou isto diz muito da confraternização e união que havia no balneário há um ano. Nada acontece por acaso. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Renovar, uma questão de (im)paciência

Hoje já todos percebem, ou vão começando a perceber, porque é que quem acompanha a formação do FC Porto elogia e espera tanto de Gonçalo Paciência. Entendo que fosse difícil de compreender. Pelas lesões, por pertencer à formação do FC Porto (o que na última década não foi propriamente ter vida facilitada para chegar à equipa A) e por não fazer capas de jornais como um tal de Nélson Oliveira, que nunca foi melhor do que Gonçalo, mesmo sendo 3 anos mais velho.

Tem 20 anos e um potencial tremendo, mas já com qualidade a acrescentar no presente. Mas não é um miúdo que caiu cá de pára-quedas. Está cada desde os 6 anos e ser filho de Domingos Paciência, por incrível que possa parecer, foi um fardo maior do que um atalho para a equipa principal. Numa das poucas entrevistas que deu, diz até que por ser filho do Domingos «tenho que mostrar mais do que os outros». E nunca se coibiu disso. 

E agora se disséssemos que, há exactamente um ano, Gonçalo Paciência podia ter ido à sua vidinha e assinado por qualquer outro clube a custo zero? Foi assim entre Janeiro e Abril, até finalmente ter recebido proposta de renovação por... mais 2 anos. Um contrato de 2 anos para o mais promissor avançado português. Quase que nem é mau, tendo em conta que Gonçalo Paciência acaba 2012-13 não em final de contrato, mas sim sem contrato. 

Um mini-Gonçalo com um ano de idade
Só o amor ao clube levou Gonçalo Paciência a andar assim, na corda bamba contratual, época após época. Tem contrato por mais ano e meio. A renovação devia ser para ontem. Nada justifica que um dos maiores talentos da formação do FC Porto seja alimentado com contratos de curta duração. Sobretudo quando o tratamento não é padrão para todos no clube, tendo em conta que miúdos desconhecidos que chegam de África, e até jogadores seniores contratados que todos sabem que nunca vão ser titulares no FC Porto, conseguem ter contratos de 4 a 5 épocas de duração, mesmo sem que cheguem à equipa A. Não vale a pena citar nomes, pois os jogadores não têm culpa de terem contratos mais vantajosos que os colegas e não os ajuda em nada a criação de um estigma. Culpa, ou responsabilidade, tem quem distribui os contratos não em função da qualidade do jogador, mas de outros factores.

Se compilarmos um vídeo dos melhores lances do Gonçalo Paciência e colocarmos no Youtube com o título «Gonzalo Pazienzia - El Nuevo Ibrahimovic», haveria muita gente a perder a cabeça e já muitos começavam a fazer contas. Neste caso não há contas a fazer. Este é nosso. Tem sangue azul. Provas dadas de amor ao clube, nem sempre retribuído em termos contratuais. Como é que um estrangeiro sem escola chega ao FC Porto e tem contratos de 4 anos à sua espera e um talento puro, português, portista e já nosso tem apenas de 2?

Gonçalo a festejar um golo na bancada, no meio dos adeptos
O que está em causa não é a nacionalidade. É o jogador em questão, a sua história, o seu potencial, a sua qualidade. Há uma tendência extraordinária para valorizarmos excessivamente o mercado e desvalorizarmos o que já é nosso. Estamos tão habituados, sobretudo nos últimos 8/9 anos, a valorizar o mercado e quem vem de fora que nos esquecemos de valorizar quem já cá está dentro. Investir no mercado é importante, mas investir em quem já cá está, sobretudo com provas dadas, é igualmente - ou ainda mais - importante.

Outro pormenor importante: os próprios jogadores do FC Porto, nos últimos anos, sabiam que dificilmente chegariam ao plantel principal. Por isso renovar por poucos anos era até um mecanismo de defesa para os jogadores. Mas para quem sabe que não chegará à equipa A, não há mecanismo melhor do que ir à sua vida. Aconteceu com André Gomes, por exemplo, um jogador hoje em dia numa das melhores ligas do mundo e que um dia até poderá contar numa auto-biografia que tipo de proposta de renovação teve no FC Porto. É normal que se cometam erros e se dispensem alguns jogadores que mais tarde se afirmam, porque não podemos acertar nos jogadores todos e muitas vezes são os próprios atletas a ter culpa pela sua não afirmação. Mas no caso de Gonçalo Paciência, há muito que podia ter ido para outro lado, ganhar muito mais e chegar mais rapidamente à equipa A, mas não quis. E dentro do FC Porto todos sabiam que era um talento muito acima da média - perguntem a qualquer treinador que tenha trabalhado com ele. Felizmente, Lopetegui abriu-lhe as portas, tal como fez a Rúben Neves e a Ivo Rodrigues. Já fez mais pela formação do que muitos projectos de três dígitos.

Passado... e presente/futuro
Não vale a pena esconder que é imperativo, para a saúde financeira da SAD, vender Jackson Martínez no fim da época. Aboubakar foi contratado com vista a um processo de sucessão. Para já custou 3 milhões por 30% do passe. A cada 20 jogos que ele fizer, podemos comprar mais 10 a 20% por 1 a 2 milhões de euros. O investimento pode chegar aos 12M,2€, que era o valor inicialmente acordado por 92,5%.

Além do investimento caro em Aboubakar (que pode vir a justificar na perfeição, sobretudo tendo em conta que na próxima época não há CAN - e não deve haver Jackson), há 16M€ investidos em Walter (para esquecer), Caballero (tem que evoluir muito para sequer ser considerado solução), Kléber (a ter uma segunda vida no Estoril, mas no mercado) e ainda Ghilas (pouco para número 1, inconformado para ser número 2).

Investimos muito em pontas-de-lança nos últimos anos, No próximo ano, mesmo saindo Jackson, não há motivos para investir em mais para o plantel principal. Aliás, há um nome no qual vale a pena investir: Gonçalo Paciência. Renovar, para ontem, meus senhores. Renovar e blindá-lo como se se tratasse de um talento sul-americano. Pelo que é e pelo que pode vir a ser. De certeza que as suas exigências, se é que existem, não serão mais irrazoáveis do que qualquer novato que chega com idade de júnior ou quase destinado a saltar de empréstimo em empréstimo.

PS: Já falámos de Gonçalo Paciência, que com o regresso de Aboubakar da CAN leva à discussão, em comunhão com Lopetegui, sobre que futuro para a segunda metade da época. Há André Silva, que com a promoção de Gonçalo pode ganhar mais espaço na equipa B. Já falámos também de Rui Pedro, juvenil mas já a trabalhar com os Sub-19 e até já se estreou pela B, aos 16 anos (é assim que deve ser, os melhores devem jogar nos escalões acima). Então anotem lá mais um nome: Vasco, dos Sub-15. O nome não diz nada? Então vejam e memorizem o apelido do miúdo. Vai valer a pena.

Presente e futuro

As opções de Lopetegui, sobretudo a maneira como recorreu ao banco no Rio Ave x FC Porto, mostraram desde o primeiro jogo que a Taça da Liga era para ganhar. Mas mesmo tendo feito uma fase de grupos quase irrepreensível e conseguido o apuramento para as meias-finais, mostrou sobretudo como se gere um plantel: geriu o esforço dos jogadores nucleares, deu espaço às segundas linhas para se mostrarem e ainda mostrou um pouco daquilo que a formação tem para oferecer. Uma boa gestão na Taça da Liga, que nos vai levar a um campo onde temos que corrigir a imagem deixada há bem poucos dias.

A Académica é uma equipa frágil, e não havia outro remédio que não vencer tranquilamente, mas a primeira e última meia hora mostraram a profundidade, potencial e qualidade que há no plantel. Um meio-campo forte na circulação, um ataque nem sempre eficaz mas constantemente perigoso, e um banco a oferecer soluções e dores de cabeça a Lopetegui.

Afinal, a Taça da Liga não é assim tão inútil. Já tínhamos concordado com isto em Braga, mas não capitalizámos essa revolta na Madeira. Mas vale a pena insistir, não é assim tão inútil: ver os golos do Jackson e do Gonçalo já valeu bem a pena.





O mestre e o aprendiz (+) - É o melhor marcador da história do Dragão, e conseguiu esse feito em apenas 2 anos e meio. Comecem a contar os anos, pois há-de faltar muito tempo até que alguém o supere. No primeiro golo é oportunista e eficaz, no segundo marca um golo à Ibrahimovic. Qual Ibra, marca é um golo à Jackson! Ponta-de-lança de eleição, que há-de deixar muitas saudades, com 23 golos em 27 jogos esta época.

E depois de Jackson Martínez, Gonçalo Paciência. Quando O Tribunal do Dragão foi criado descrevia-o como o melhor avançado português sub-21 e o futuro titular da selecção A. E ele não precisou de muito tempo para mostrar porquê. Questionam como é que um miúdo tem a ousadia de fazer uma finta daquelas na estreia no Dragão. Ele explicou no final: «Estou cá há 14 anos». Não são 14 dias, são 14 anos. Está cá desde os 6 anos e não conhece outro clube que não o FC Porto, nunca teve outra vida que não a de um portista. É um avançado completo a todos os níveis, que se estivesse no estrangeiro já era considerado o novo Ibrahimovic. Tem tudo para ser o nosso 9. Ou quase tudo, pois falta-lhe uma coisa importante: oportunidade. Lopetegui já começou a inverter o rumo, para alegria nossa. Já agora: um golo de canto!!!!!!!!

Meio-campo (+) - O nosso espaço interior vinha servindo como um meio (distribuir para os corredores) e não como um fim (construir na zona central). Hoje inverteu-se essa tendência. Rúben Neves continua a ter uma evolução impressionante e percebe-se o porquê de Lopetegui também querer soltá-lo para 8 - é um médio completo em todos os momentos do jogo, com presença física, orientação e passe exímios. E hoje fez a melhor exibição ao lado de Campaña, que vive uma intranquilidade maior que os colegas - não só tem que lutar para ganhar o lugar no 11 como tem que lutar para ganhar um contrato no FC Porto; uma coisa é um emprestado jogar sabendo que tem uma «almofada» chamada Real Madrid ou Barcelona, outra é ter a Sampdoria. Do pouco que vimos, vai surpreendendo. E Evandro, mais uma vez a mostrar que é um grande complemento ao meio-campo e com veia goleadora: 4 golos nos últimos 5 jogos. 3 golos de penalty, é certo, mas cá no burgo isto quase que soa a proeza.

Cabeça levantada (+) - Há uma lacuna no modelo de Lopetegui, que é a dificuldade em encontrar um gajo que pegue na bola entre os médios e a linha defensiva adversária, encare a grande área e decida para onde vai sair o último passe. É por isso que dizem tanto que falta jogo interior ao FC Porto e que estamos tão dependentes das investidas pelos flancos - como os médios não assumem esse espaço entre-linhas, quase que são meros intermediários para mandar as bolas para os flancos Hoje Quintero entrou. E consegue uma, duas, três, quatro e cinco vezes receber a bola, virar-se para a grande área e meter os colegas na cara do golo. Uma jogatana do miúdo, finalmente com oportunidade para jogar como 3º médio - faz sentido no Dragão, sobretudo contra as Académicas que jogam para o ponto. Uma solução que merece mais tempo em campo, mas Quintero também tem que fazer por o merecer. Hoje fê-lo, e bem.

Outros destaques (+) - Marcano. É o nosso central mais forte no passe longo, consegue acelerar o jogo em 3 ou 4 metros e não sendo muito rápido tem grande sentido posicional e impulsão. Dizem que não pode jogar sempre com Indi, por haver 2 centrais canhotos. Continuo sem perceber como é que 2 destros podem jogar juntos, mas quando há 2 canhotos já é um problema. Rotinas, meus caros, tudo depende de rotinas e de tanto Indi como Marcano saberem como se devem posicionar para receber e para onde distribuir. Somou pontos para a titularidade, mesmo que no próximo jogo Indi não vá jogar.

Ricardo, desta vez a extremo. Raçudo, rápido, com alguma dificuldade em chutar ou cruzar de primeira mas com enorme disponibilidade. Mais prático que Tello e Quaresma a decidir, apesar de ser claro que lhe falta tempo de jogo na posição e maior imprevisibilidade no 1 para 1. José Ángel ia borrando a pintura em 2 lances (baixou muito o rendimento na segunda parte), mas na primeira parte superou o que temos visto de Alex Sandro em velocidade, profundidade, passe interior e cruzamentos. Temos dois bons laterais esquerdos. Um que tem mais potencial, estatuto e valor do que outro; e outro que apesar de ser underdog tem rendido mais e mostrado mais vontade. Não é preciso dizer quem. Reyes fez um jogo competente, resta saber nos próximos dias se o último.





Um ataque, um golo (-) - Quinto jogo consecutivo a sofrer golos. E não é nenhum acidente. Pode acontecer uma ou duas vezes e dizer que é azar. Agora, jogo após jogo ver adversários que só precisam de ir uma ou duas vezes à nossa baliza para fazer golo já não é azar, é desconcentração e displicência defensiva. Pior ainda, estamos habituados a sofrer pelo menos um golo contra equipas que passam o jogo todo à defesa. Então imagine-se quando será quando apanharmos uma equipa que queira jogar no nosso meio-campo. Nem todos os dias serão dias de São Helton...

Dois meses a seco (-) - No período em que precisávamos do melhor Tello, pela ausência de Brahimi, torna-se cada vez mais difícil perceber quem é este rapaz que veio de La Masia e que no início da época esperávamos ser o extremo match-winner que Paulo Fonseca nunca teve. Uma, duas, três, quatro vezes na cara do colo e mostra imaturidade, precipitação e displicência a finalizar. Tello é um avançado interior, que procura a baliza em vez da linha. Isso devia implicar que tivesse um mínimo de eficácia, mas isso não tem acontecido. Tello e até Quaresma, sendo os extremos titulares do FC Porto, fazem muito poucos golos. Isso acresce a responsabilidade de Jackson e força o meio-campo a ser produtivo (e daqui até se chega à crítica habitual a Herrera, excelente a aparecer no espaço mas pouco eficaz a finalizar). Comparem quantos golos marcam os extremos de Benfica e Sporting ao número de golos marcados pelos do FC Porto. Está há 2 meses sem fazer uma grande exibição pelo FC Porto. Só o estatuto e a crença de que possa vale algo mais é que lhe têm dado a titularidade.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Nacho Fernández, a armada espanhola da silly season e a intransigência de Pinto da Costa

Está destinada a ser a marca desta silly season: qualquer jogador que seja dado como possível dispensado por Barcelona ou Real Madrid é apontado ao FC Porto, através do canal Lopetegui. Uns pela imprensa espanhola - como é o mais recente caso de Nacho -, outros pela portuguesa.
Nacho fora dos planos

A saber: Bartra, Tello, Cuenca, Delofeu, Javier Espinosa, Nacho (pausa para respirar), Casemiro, Illaramendi e Morata já foram apontados ao FC Porto. Mas entre outros clubes, como Valência ou Málaga, há ainda Ignacio Camacho, Canales, Sarabia, Alberto Moreno e Álvaro Vásquez (e não esquecendo Ayoze Pérez, jogador perdido para o Newcastle pela incapacidade financeira de passar do acordo verbal ao oficial). Uns efetivamente alvos, outros meramente sondados, a maioria estórias típicas da pré-época. Lopetegui quer reforços e sabe que em Espanha há qualidade, mas a qualidade tem um preço. E são poucos os jogadores dispostos a trocar Espanha por Portugal se não for para serem titulares.

Face à expetativa do mercado começar a rodar com a primeira saída - o FC Porto tem que vender para comprar -, todos os jornais portugueses aproveitaram a notícia do jornal AS do interesse em Nacho para marcar posição. O central/defesa-esquerdo (que ganha 100 mil euros limpos por mês, tanto quanto... Jackson), todavia, não entra nos planos e se recebeu uma proposta de Portugal não foi, certamente, do FC Porto.

Paciência, Gonçalo
Gonçalo Paciência diz, em entrevista a O Jogo, que se sente na obrigação de mostrar «mais do que os outros» por ser filho de Domingos. O passado recente, todavia, diz que o problema não está aí: está sim no facto de pertencer à formação do FC Porto. Uma tendência que tem urgentemente que mudar.

Jackson: mais milhão, menos milhão...
Não conheço ninguém que possa dar lições de dirigismo a Pinto da Costa, embora o presidente não possa, de forma alguma, estar ileso das responsabilidades da pior época em 32 anos. No entanto, a intransigência face a algumas negociações pode revelar-se uma faca de dois gumes.
Jackson Martínez
em contrarrelógio
Em 2008, Pinto da Costa avisou que Quaresma só sairia pela cláusula de rescisão, de 40 milhões de euros, e que estava disposto a colocar o euro que faltasse. Foi vendido à pressão no fecho de mercado, por 18,6 milhões de euros, caso contrário a SAD tinha fechado 2008/09 com 13,5 milhões de euros de prejuízo.

Em 2012, Pinto da Costa não quis, literalmente, vender Hulk até ao último instante, numa altura em que lutava para manter a estrela do FC Porto e para ele próprio sobreviver. Hulk acabou por sair para o Zenit, por 40 milhões de euros. Se esta mais valia não tivesse sido feita, o FC Porto terminava a época 2012/13 com 19,7 milhões de euros de prejuízo. E é bom lembrar: foi aqui que entraram 80 milhões de euros brutos pelas vendas de James, Moutinho e Álvaro Pereira.

Nem em 2008, nem em 2012 a SAD estava tão mal financeiramente como agora - 38,7 milhões de euros em 9 meses é um recorde absoluto. A necessidade de vender até 30 de junho é imperativa. Pinto da Costa sabe que o Valência tem pasta e que um Jackson vale mais do que dois Andrés Gomes. Mas dos 30 aos 40 milhões de euros há um limite para a corda esticar e romper.