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sábado, 25 de abril de 2015

Freitas e o 25 de Abril

Atravessar a ponte era um tormento. Durante a vigência do Estado Novo, para o FC Porto ir ao Estádio da Luz era quase derrota pela certa. 6-0, 7-0, até 12-2, derrotas sucessivas. Ao longo de 41 anos, foram apenas quatro as vezes em que o FC Porto conseguiu ganhar na Luz. E a única vez que isso implicou ser campeão foi em 1940.

Pedido do Estado Novo
O FC Porto ainda não era feito da fibra que desafia a hostilidade e que não presta vassalagens, muito menos a quem as reclama por estatuto atribuído por terceiros e não por mérito próprio, a casas que se diziam soberanas mesmo precisando do próprio FC Porto para crescer. Numa das muitas relíquias partilhadas neste valioso arquivo, vemos aqui ao lado o descaramento da ligação Benfica-Estado Novo: a pedinchar junto de adeptos do FC Porto para que pagassem do seu bolso para ajudar a construir o Estádio da Luz. Era uma oportunidade, diziam. Porque na época, para se ser grande, só sendo Benfica. Era «a» oportunidade. Isto dos mentores de uma célebre campanha na época: «O Último Impulso - Quem não deu que dê agora, quem já deu que torne a dar».

Em 1974 tudo começou a mudar. Caiu o Estado Novo, faz hoje 41 anos, precisamente o tempo de vigência do regime salazarista. Menos de dois meses depois do 25 de Abril, Eusébio deixa o Benfica. Contra o Benfica de Eusébio, o FC Porto nunca tinha sido campeão. E o Benfica perde em pouquíssimo tempo as duas maiores forças: a força sobre-humana de Eusébio e a força política.

Pinto da Costa ainda não tinha pegado na pasta do futebol, mas já se sentiam ventos de mudança. O FC Porto estava habituado a ganhar na Luz quase de década em década. E nos dois jogos pós-25 de Abril... ganhou os dois. Um com Monteiro da Costa, o homem dos 2-0 de 1951, graças a Júlio «Kelvin» Carlos, e outro com Aymoré Moreira. As coisas estavam a mudar. 

Pedroto deixou o medo
atrás da ponte
Pinto da Costa chega para o cargo de diretor de futebol, ainda com Américo de Sá, e José Maria Pedroto regressa a casa. Perguntaram-lhe, ao treinador, qual era o motivo de ser tão difícil, no passado recente, para o FC Porto jogar na Luz. Nasce aí a expressão «roubos de igreja». E pela primeira vez um treinador do FC Porto tem honras de ver uma frase sua fazer manchete no jornal A Bola. Nasce uma campanha sem igual pró-Benfica e anti-FC Porto, em vésperas de um clássico.

Era um taco-a-taco na luta pelo título, não muito diferente do que estamos a viver em 2014/15. O Benfica levava 2 pontos de avanço (na altura a vitória valia 2 pontos) e contava com uma onda de apoio sem igual. No FC Porto, mesmo com os tempos de mudança pós-25 de Abril, ainda havia pernas a tremer. Íamos jogar para a liderança na Luz, frente a cerca de 120 mil adeptos, num clima de absoluta hostilidade.

Nesse dia, Pedroto deu a palestra mais cedo, mas decidiu inovar no aquecimento. Mandou Freitas, um armário que fomos buscar ao Restelo, aquecer sozinho. Com uma instrução bem clara: levantar o pirete para a bancada. A partir do momento em que o terceiro anel começasse a vaiar, apontar o dedo do meio bem lá para cima. Não há imagens que o documentem, mas contou o nosso Pedro Marques Lopes que Freitas ficou da cor do cal. Uma nota: o Freitas era angolano. O recorde de decibéis num estádio de futebol deve ter sido batido nesse dia. Se não veio abaixo, é porque a campanha do Último Impulso, em 1954, de facto rendeu bem e garantiu cimento de qualidade.

Freitas, campeão de 78
Freitas esteve 20 minutos a aquecer sozinho. Depois entrou o resto da equipa. De Fonseca a Celso, de Rodolfo a Oliveira, os jogadores tiveram um santo aquecimento, pois já não havia forças na bancada para assobiar. John Mortimore contou mais tarde que nunca tinha visto algo parecido: um treinador a começar a enfraquecer o adversário no aquecimento.

No final, o resultado foi atípico: 0-0. O Benfica continuou na frente do campeonato com este resultado, que não nos servirá, de todo, amanhã. Mas tinha sido mais um passo seguro pela ponte. O FC Porto já não entrava a perder. Prova disso foi que no final de 1977/78 festejámos, após 19 anos de jejum, o título de campeões. Precisamente com os mesmos pontos do Benfica, que é um dos cenários em aberto para 2014/15. Cenário pelo qual temos que lutar até ao último segundo, por cada milímetro de terreno, sob toda e qualquer hostilidade que possamos - e vamos - encontrar.

A pressão está toda do lado do Benfica. Tem uma oportunidade de ouro para ganhar o primeiro bicampeonato em 30 anos, passou quase toda a época na frente do campeonato sem que o deixassem cair, foi arrumado na Luz da Taça e fez uma época medíocre nas competições europeias. Tem 3 pontos de vantagem, ganha no confronto directo, joga em casa e o FC Porto em 80 anos de campeonato só por uma vez ganhou por mais de um golo na Luz (apesar dos 3-1 da Taça, de 2010-11, e dos históricos 5-0 no terramoto da Supertaça). Não ganhar este campeonato será um golpe mais rude que o pontapé do Ademir e do Kelvin juntos. Têm tudo a perder e arriscam nada ganhar. Um tanto à imagem da situação do FC Porto, reconheça-se. São 90 minutos de vida ou morte. E é para isto que todos vivemos, com a ânsia de libertar o Freitas que há dentro de nós e a mística que adormeceu em maio de 2013. Hora de despertar.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Histórias do Dragão (1) - De Roberto Carlos e Geraldão até à lista de compras da B

Equipa alargada, rúbrica nova. Para os adeptos mais velhos, episódios de nostalgia. Para os mais novos, histórias que enriquecem a cultura portista. Histórias para recordar ou para descobrir. O Tribunal do Dragão cria a rúbrica «Histórias do Dragão», viagens ao passado que nos trouxe até aqui.

Quem é o melhor lateral-esquerdo da história do futebol mundial? Para muitos, Roberto Carlos, que quando ainda era um jovem podia ter assinado pelo FC Porto. Mas havia um problema: o FC Porto estava interessado em 2 jogadores e só podia trazer 1. Uma (in)flexibilidade de outros tempos. Então Pinto da Costa decidiu trazer um tal de Geraldão.
Geraldão

O facto de termos tido Branco um ano depois, para o lugar do já em fim de ciclo Inácio, não nos deixou sentir grandes saudades de um lateral-esquerdo de elite. Que teria sido fantástico ter Roberto Carlos, teria. Mas ficámos bem servidos com Geraldão para o centro da defesa. Com Celso, com Lima Pereira ou com Demol, tínhamos um central de eleição. Tão bom que se nos dissessem que o tal miúdo Roberto Carlos viria a bater livres tão bem como ele desatávamos a rir na sua cara.

Um exemplo de uma maravilha. Mas o melhor golo (ou o mais saboroso) de Geraldão foi num clássico, início dos anos 90, contra o Sporting. O Sporting tinha um guarda-redes, Ivkovic, cheio de moral, que tinha garantido antes do jogo que sabia como defender os livres do Geraldão. Quatro minutos de jogo, livre a 30 metros, o Geraldão mete a bolinha a tabelar no poste e o Ivkovic só teve tempo de virar o pescoço e ver a bola e entrar.

Quando estava a fazer uma época sensacional em 1990-91 (em Dezembro já levava 14 golos, quase todos em bolas paradas), Geraldão decidiu portar-se mal e assinou à revelia um pré-acordo com o Benfica. Cerca de 23 mil contos na altura, uma enormidade. Pinto da Costa descobriu e mandou Geraldão passar umas férias no Brasil. Antes de Geraldão sair éramos líderes do campeonato. Quando regressou já o Benfica tinha tomado a dianteira e ganhou aí o campeonato.

Acabou por nunca jogar pelo Benfica e o FC Porto vendeu-o ao PSG. Como o acordo com o Benfica tinha sido assinado à revelia, nada puderam fazer e Geraldão foi para Paris. Goste-se ou não da forma como saiu, foi um dos grandes centrais da história do FC Porto e um dos que derreteram o gelo de Tóquio. E não nos podemos esquecer que foi a sua saída que permitiu que um miúdo com cabelo à frente dos olhos começasse a ganhar espaço no FC Porto. Chamava-se Fernando Couto.

Podia ter  sido igualmente bom ou até melhor ter Roberto Carlos? Podia. Mas com Geraldão também construímos a nossa história. E com isto chegamos à listinha de compras na equipa B: Raúl Gudiño, Victor Garcia, Pavlovski e Leonardo Ruiz (ainda nos Sub-19). Quatro estrangeiros emprestados, quatro jogadores que há interesse em comprar. Todos eles interessantes, talvez até pela ordem que são referidos. No caso de Gudino e Ruiz, se forem contratados e ficarem cá nos próximos 2 anos vão ser consideradores jogadores formados no clube. Vai ter é que haver um limite para investir.
Gudiño é para agarrar

A equipa B, por si só, dá prejuízo. Porque todas as equipas da segunda liga dão prejuízo. As receitas de bilheteira e patrocínios não chegam para cobrir nem os salários dos jogadores. A única maneira de resolver este problema é colocar a equipa B ao serviço da equipa A. Desenvolver jogadores para a equipa principal e esperar que um deles, dentro de alguns anos, saia por uns valentes milhões que cubram o muito dinheiro ainda sem retorno que já aplicámos na B.

Gudiño, Victor Garcia, Pavlovski e Leonardo, sendo todos eles interessantes, precisam de um limite quanto ao investimento. Não pode haver mais Kayembes. Isto não em termos do potencial do jogador (Kayembe, a extremo, tem muito para dar), mas do custo para uma equipa B. Um exemplo: o Freamunde, uma equipa que está a lutar para subida de divisão, tem um orçamento de 700 mil euros para esta época. Só Kayembe, por si só, custou 2,65M€, e se não fosse o empréstimo ao Arouca ia passar provavelmente todo o ano na B.

Todas as dificuldades aqui enumeradas devem ser tidas em conta em relação à equipa A, mas também à B. Luís Castro diz hoje n'O Jogo que não há jogador do FC Porto B que não tenha sido cobiçado no inverno. É sinal que há qualidade, mas essa qualidade só fará sentido se for para dar um passo em frente, rumo à equipa A. E como o princípio da equipa B devia ser para fazer com que os Sub-19 dêem continuidade à sua evolução, então os ataques ao mercado devem ser calculistas ao máximo. 

Raul Gudiño, Victor Garcia, Pavlovski e Leonardo Ruiz. Os quatro já demonstraram potencial e a sua contratação devia ser priorizada mesmo por esta ordem. Mas não a qualquer custo. Dificilmente dará para os 4 (tendo em conta que veem de clubes modestos, 1M€ já seria um preço mais do que exagerado para cada 1)... tal como não deu para trazer Geraldão e Roberto Carlos. Tempo de decisões, que devem ser tomadas a pensar nas limitações financeiras do presente e nas necessidades da equipa A do futuro. Falhar os Robertos Carlos não será um problema, desde que consigamos os Geraldões.