Atravessar a ponte era um tormento. Durante a vigência do Estado Novo, para o FC Porto ir ao Estádio da Luz era quase derrota pela certa. 6-0, 7-0, até 12-2, derrotas sucessivas. Ao longo de 41 anos, foram apenas quatro as vezes em que o FC Porto conseguiu ganhar na Luz. E a única vez que isso implicou ser campeão foi em 1940.
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| Pedido do Estado Novo |
O FC Porto ainda não era feito da fibra que desafia a hostilidade e que não presta vassalagens, muito menos a quem as reclama por estatuto atribuído por terceiros e não por mérito próprio, a casas que se diziam soberanas mesmo precisando do próprio FC Porto para crescer. Numa das muitas relíquias partilhadas neste valioso arquivo, vemos aqui ao lado o descaramento da ligação Benfica-Estado Novo: a pedinchar junto de adeptos do FC Porto para que pagassem do seu bolso para ajudar a construir o Estádio da Luz. Era uma oportunidade, diziam. Porque na época, para se ser grande, só sendo Benfica. Era «a» oportunidade. Isto dos mentores de uma célebre campanha na época: «O Último Impulso - Quem não deu que dê agora, quem já deu que torne a dar».
Em 1974 tudo começou a mudar. Caiu o Estado Novo, faz hoje 41 anos, precisamente o tempo de vigência do regime salazarista. Menos de dois meses depois do 25 de Abril, Eusébio deixa o Benfica. Contra o Benfica de Eusébio, o FC Porto nunca tinha sido campeão. E o Benfica perde em pouquíssimo tempo as duas maiores forças: a força sobre-humana de Eusébio e a força política.
Pinto da Costa ainda não tinha pegado na pasta do futebol, mas já se sentiam ventos de mudança. O FC Porto estava habituado a ganhar na Luz quase de década em década. E nos dois jogos pós-25 de Abril... ganhou os dois. Um com Monteiro da Costa, o homem dos 2-0 de 1951, graças a Júlio «Kelvin» Carlos, e outro com Aymoré Moreira. As coisas estavam a mudar.
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| Pedroto deixou o medo atrás da ponte |
Pinto da Costa chega para o cargo de diretor de futebol, ainda com Américo de Sá, e José Maria Pedroto regressa a casa. Perguntaram-lhe, ao treinador, qual era o motivo de ser tão difícil, no passado recente, para o FC Porto jogar na Luz. Nasce aí a expressão «roubos de igreja». E pela primeira vez um treinador do FC Porto tem honras de ver uma frase sua fazer manchete no jornal A Bola. Nasce uma campanha sem igual pró-Benfica e anti-FC Porto, em vésperas de um clássico.
Era um taco-a-taco na luta pelo título, não muito diferente do que estamos a viver em 2014/15. O Benfica levava 2 pontos de avanço (na altura a vitória valia 2 pontos) e contava com uma onda de apoio sem igual. No FC Porto, mesmo com os tempos de mudança pós-25 de Abril, ainda havia pernas a tremer. Íamos jogar para a liderança na Luz, frente a cerca de 120 mil adeptos, num clima de absoluta hostilidade.
Nesse dia, Pedroto deu a palestra mais cedo, mas decidiu inovar no aquecimento. Mandou Freitas, um armário que fomos buscar ao Restelo, aquecer sozinho. Com uma instrução bem clara: levantar o pirete para a bancada. A partir do momento em que o terceiro anel começasse a vaiar, apontar o dedo do meio bem lá para cima. Não há imagens que o documentem, mas contou o nosso Pedro Marques Lopes que Freitas ficou da cor do cal. Uma nota: o Freitas era angolano. O recorde de decibéis num estádio de futebol deve ter sido batido nesse dia. Se não veio abaixo, é porque a campanha do Último Impulso, em 1954, de facto rendeu bem e garantiu cimento de qualidade.
| Freitas, campeão de 78 |
Freitas esteve 20 minutos a aquecer sozinho. Depois entrou o resto da equipa. De Fonseca a Celso, de Rodolfo a Oliveira, os jogadores tiveram um santo aquecimento, pois já não havia forças na bancada para assobiar. John Mortimore contou mais tarde que nunca tinha visto algo parecido: um treinador a começar a enfraquecer o adversário no aquecimento.
No final, o resultado foi atípico: 0-0. O Benfica continuou na frente do campeonato com este resultado, que não nos servirá, de todo, amanhã. Mas tinha sido mais um passo seguro pela ponte. O FC Porto já não entrava a perder. Prova disso foi que no final de 1977/78 festejámos, após 19 anos de jejum, o título de campeões. Precisamente com os mesmos pontos do Benfica, que é um dos cenários em aberto para 2014/15. Cenário pelo qual temos que lutar até ao último segundo, por cada milímetro de terreno, sob toda e qualquer hostilidade que possamos - e vamos - encontrar.
A pressão está toda do lado do Benfica. Tem uma oportunidade de ouro para ganhar o primeiro bicampeonato em 30 anos, passou quase toda a época na frente do campeonato sem que o deixassem cair, foi arrumado na Luz da Taça e fez uma época medíocre nas competições europeias. Tem 3 pontos de vantagem, ganha no confronto directo, joga em casa e o FC Porto em 80 anos de campeonato só por uma vez ganhou por mais de um golo na Luz (apesar dos 3-1 da Taça, de 2010-11, e dos históricos 5-0 no terramoto da Supertaça). Não ganhar este campeonato será um golpe mais rude que o pontapé do Ademir e do Kelvin juntos. Têm tudo a perder e arriscam nada ganhar. Um tanto à imagem da situação do FC Porto, reconheça-se. São 90 minutos de vida ou morte. E é para isto que todos vivemos, com a ânsia de libertar o Freitas que há dentro de nós e a mística que adormeceu em maio de 2013. Hora de despertar.









