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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa

Detesto o discurso da vitimização na boca de um portista. Coitados de nós, somos o clube com mais títulos no futebol português. Coitados de nós, somos o clube que mais troféus venceu a nível mundial nos últimos 15 anos. Coitados de nós, o FC Porto tornou-se uma referência internacional, aclamada em três continentes, produziu jogadores e treinadores de escala planetária e tem o presidente mais consagrado do futebol mundial. Tudo isto num clube que entrava em campo a perder só por atravessar a ponte. O clube de uma cidade passou a ser um clube de e para o Mundo. Quase que concordo, coitadinhos de nós.

Quando falo em vitimização falo, por exemplo, quando vemos uma capa do Record ou da Bola. Se eu estou a gerir um negócio em que 90% dos meus consumidores querem o produto A, então eu não vou apostar no produto B só porque 10% o querem. A não ser que tenha vontade de ver o meu negócio falir rapidamente. Não me belisca que num Record ou numa Bola o FC Porto esteja reduzido a um quadradinho. É normal, uma leitura rápida na Marktest diz que cerca de 90% dos compradores dos jornais são simpatizantes de Benfica ou Sporting. Logo fazem os jornais bem em dirigir-se para o seu público alvo. No negócio, sobretudo num meio precário, não há romantismo. 

Não há vitimização, apenas negócio. Ora na Gala das Quinas não havia negócio. Havia uma gala que supostamente tinha como objectivo premiar os melhores dos melhores. Era o momento para dar destaque e atenção àqueles que se distinguem acima dos demais.

Concordei, por exemplo, que fossem dadas as Quinas de Platina a Eusébio. Era um futebolista acima de tudo o resto na sua época. Entre azares e Salazares, o FC Porto acima de tudo nunca foi campeão contra o Benfica do Eusébio por uma razão mais simples do que possa aparentar: eram melhores do que nós. O Benfica era melhor do que nós, logo ganhava mais vezes.

O Sporting teve um bom momento nas décadas de 40 e 50, mas ficou-se por aí. Fala-se, por exemplo, dos lendários 5 violinos, como se tivessem dominado anos a fio o futebol português. O que muitos não sabem é que os 5 violinos só jogaram 3 anos juntos. Foram tricampeões? Olha, parabéns. Fizeram tanto como o Jesualdo Ferreira no FC Porto. E ninguém recorda Jesualdo Ferreira como sendo um bicho-papão do futebol português.

O Benfica era, indiscutivelmente, melhor. Até que apareceu uma dupla que desafiou isso. Bendita hora em que nasceu Albertino Eduardo Ferreira Ventura Pereira. Não tenho memórias sobre se era bom ou mau jogador (o que aparenta indicar a tendência mais para o mau), mas foi o dia em que o Albertino decidiu preferir o Boavista ao FC Porto que lançou Pinto da Costa para o clube e que levou a que recuperasse o Mestre Pedroto 10 anos após a sua saída. 

O Benfica deixou de ser melhor. Parafraseando o Pedroto do século XXI, que também dá pelo nome de Mourinho, em condições normais éramos melhores. E em condições anormais, também. Pedroto e Pinto da Costa mudaram a história do futebol português. Pinto da Costa é o rosto das grandes obras, mas é o primeiro a reconhecer que Pedroto, qual engenheiro, planeou-a. Inovou os treinos, lançou os mind-games quando as conferências de imprensa se reduziam a 2 microfones e 3 cadeiras de plástico, estudou adversários, obrigou a que o Homem e o futebolista coubessem dentro da mesma pessoa, começou a criar aquilo a que hoje chamamos uma estrutura. Foi o primeiro treinador a estender o percurso académico ao relvado e colocou o FC Porto a jogar num estilo que, anos mais tarde, foi apresentado pelo Barcelona de Cruijff como sendo uma novidade.

Pedroto na largada, Pinto da Costa ao leme desde então. Com muitos, muitos marujos de estimada qualidade e importância. Mas dois se destacaram. A FPF tem o presidente com mais títulos do futebol mundial e a sua melhor participação numa prova de Selecções ainda é graças a uma espinha dorsal do FC Porto (final do Euro 2004). E Pedroto deu o primeiro título à Seleção Nacional, um europeu de juniores. Quando muito se fala de Carlos Queiroz (que até foi premiado) como o mentor da formação em Portugal, dá que pensar.

Não recordar José Maria Pedroto e não enaltecer o papel de Jorge Nuno de Lima Pinto da Costa, na Gala das Quinas, comprova que a Gala não quis distinguir os melhores. Quis distinguir os preferidos. Como gostar de Pedroto e Pinto da Costa, que tiveram a ousadia de acabar com a normalidade que tantos apreciavam? O FC Porto passou a ganhar mais porque passou a ser melhor. Muito melhor. Cá dentro e lá fora.

Há mais, claro. Uma coisa de que nem todos os portistas gostam de falar: Apito Dourado. E sinceramente, não percebo porquê o preconceito. Por conveniência, há uma tendência extraordinária em associar o Apito Dourado ao norte, mais concretamente a FC Porto e Boavista, sobretudo. Só por aí já falham na definição e mostram o quão filtrada é a mediatização do Apito.

O Apito Dourado foi um escândalo de corrupção no futebol português. Não no FC Porto, no futebol português. As escutas que vazaram para público foram feitas de forma filtrada. Dois utilizadores anónimos no Youtube largaram as escutas que incriminavam o FC Porto. Nunca se ouviu falar de outras escutas. Até que um dia o jornal Público decide transcrever uma escuta que também mostrava o presidente do Benfica a escolher árbitros (a jornalista que escreveu essa notícia está hoje no CM, curiosamente). Uma escuta que convenientemente nunca caiu no Youtube. Nem outras. Anos depois, numa extrema coincidência, a CMTV consegue em exclusivo novas escutas. Escutas essas que também iam contra o FC Porto. Será que a CMTV teve acesso aos dois utilizadores anónimos do Zimbabué do Youtube? Ou os de Zimbabué é que foram beber à mesma fonte?

O Apito Dourado foi um caso afunilado, que ignorou a envolvência de outros clubes protagonistas de tráficos de influência e corrupção no futebol português, com o objectivo de acertar no FC Porto. E dito isto, a opinião pouco popular entre portistas: o FC Porto foi punido e bem. As escutas mostram que houve de facto tráfico de influências a anteceder esses jogos. Por isso, considerei justa a punição, opinião que ainda mantinha aquando da absolvição.

Dito isto, retrospectiva que dá vontade de rir: a corrupção suprema dos últimos 30 anos foram dois jogos contra Estrela da Amadora e Beira-Mar? Um clube que desapareceu, outro que anda a pairar na cova. O máximo que conseguiram arranjar para associar o FC Porto a uma imagem de corrupção que dominou os últimos 30 anos foram 2 jogos contra dois clubes simpáticos, logo numa época em que fomos campeões europeus? É o máximo que conseguiram espremer do Apito Dourado? Falo abertamente do Apito Dourado pois é isto que fica: numa indústria centenária como o futebol, que move milhares e milhões, e como tal nos bastidores as actividades pouco cristalinas se acumulam, o máximo que conseguiram arranjar para associar o FC Porto a corrupção foram jogos contra Beira-Mar e Estrela da Amadora. Durmo bem.

Entretanto, Benfica e Sporting respiram desportivismo, transparência, ética. Um vice-presidente deposita dinheiro na conta de um árbitro e ninguém se apercebe no clube. E se esse vice-presidente se chamasse Reinaldo Teles ou Antero Henrique, como seria? Ou então um treinador reúne-se com um jogador adversário para combinar um resultado na Taça UEFA. E se esse treinador se chamasse Pedroto ou Vítor Pereira? Limpinho, limpinho.

Não há a mínima justificação para o ignorar de Pedroto e Pinto da Costa na Gala da FPF. Nem o estigma que para muitos ainda existe sobre o Apito Dourado, um processo que revela corrupção não no FC Porto, mas no futebol português. E supostamente, ontem foram celebrados os 100 anos do futebol português...

Percebo que esta página, uma página de algo que dava um livro, queira ficar bem escondida entre o centenário do futebol nacional. Não choca. O que choca é que a FPF tenha ignorado que as suas páginas mais ricas tiveram prefácio em antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto. E foram escritas com as letras de Pedroto e Pinto da Costa.

Carlos Daniel insistia que daqui a 100 anos todos vão recordar aquela noite, onde se distinguia os melhores dos melhores. Vá, concordemos. Os feitos de Pedroto e Pinto da Costa são grandes de mais para ficarem reduzidos a um século. Perpetuarão pelos milénios que hão-de vir.

PS: Pinto da Costa trocaria qualquer homenagem ou referência por uma vitória contra o Penafiel. A última vez que vi o presidente explodir de alegria no banco foi em Penafiel, há 10 anos, quando McCarthy fez o golo da vitória aos 93 minutos. É favor de dar-lhe neste dia mais uma alegria, mais uma vitória. Como Pedroto nos ensinou. Como Pinto da Costa nos habituou.

sábado, 26 de julho de 2014

O FC Porto de Lopetegui

Longe dos holofotes, Lopetegui desenvolve há muito o projecto de FC Porto à sua imagem. Já teve mais mediatismo do que Vítor Pereira (por incrível que possa parecer, o treinador bicampeão não deu uma única entrevista ao Porto Canal enquanto esteve no clube), mas só na véspera do jogo de apresentação aos sócios e adeptos deu uma entrevista ao jornal O Jogo. Dela sobressai que as contratações «são reforços do FC Porto e não do Lopetegui». 

Lopetegui partilha
mérito e responsabilidade
Mesmo sem ainda se ter estreado em jogos oficiais, Lopetegui já deixou claro que é tão rigoroso consigo próprio como com o meio que o rodeia. Assumiu, desde o início, que forma com Antero Henrique e Pinto da Costa o tridente que se propõe a recolocar o FC Porto na rota de títulos. Na entrevista, partilha os méritos das contratações de vários internacionais de calibre... mas também a responsabilidade.

Lopetegui tem a capacidade, única de um treinador do FC Porto nos últimos anos, de identificar se determinado jogador é bom o suficiente para melhorar o plantel. Mas não é o treinador quem pode decidir se são bons negócios. Ao treinador cabe a responsabilidade de avaliar o que Casemiro, Tello ou Adrián (e os demais) podem fazer com a bola nos pés; à SAD cabe avaliar como enquadrar esses activos dentro das suas limitações orçamentais e, sobretudo, não esquecer que o FC Porto não acaba hoje, nem amanhã, e que nada obriga a que se hipoteque o futuro a médio prazo com um «all in» no presente. Felizmente, o equilíbrio parece encontrado.

Independentemente da força que Jorge Mendes está oferecer às posições negociais do FC Porto no defeso, é claro que muitas das contratações são de Lopetegui. Possivelmente, Casemiro, Óliver, Tello e Adrián não teriam na Liga ZON/NOS Sagres uma preferência se não fosse pelo treinador. Mas Lopetegui expôs bem a sua visão: não é o FC Porto que está a trabalhar para Lopetegui, mas sim Lopetegui que está ao serviço do FC Porto. Para fazer um bom trabalho, precisa de uma boa matéria prima. O treinador sugere os ovos, a SAD vê se os preços na mercearia são aceitáveis, e depois já haverá condições para fazer a omelete. Amanhã, contra o Saint-Étienne, há o primeiro aperitivo para o banquete 2014-15.

O Mágico que nunca irá desaparecer

O último acto do Mágico
Pagar 400 mil contos, corria o ano de 1998, por 50% de um jogador que o Benfica não quis aproveitar do satélite Alverca, ainda por cima avaliando-o em 800 mil contos e dividindo o seu passe com Jorge Mendes, soava a qualquer coisa de loucura. E foi. E foi também uma das melhores apostas da história do FC Porto e da presidência de Pinto da Costa.

O Mágico não desapareceu. Pelo contrário, mostrou que jamais desaparecerá. O jogador que não corria, deslizava pelo campo, teve a homenagem merecida. Deco ajudou o FC Porto a chegar mais alto; e talvez Deco nunca tivesse sido Mágico se não tivesse sido pelo FC Porto. Tem lugar merecido no melhor 11 da história do clube e o reconhecimento eterno. O agradecimento é mútuo.

Nomes como Vítor Baía e Jorge Costa, sobretudo estes, mereciam ter a sua própria despedida e reconhecimento e é uma pena que para voltarem a ser aplaudidos no Dragão tenha que ter sido numa homenagem a outro jogador (porque não, em 2017, uma homenagem aos campeões de Viena 30 anos depois?). Mas homenagear Deco é também homenagear a mística portista, que Baía e Jorge Costa ajudaram a construir e que teve o contributo de muitos outros que passaram ontem pelo Dragão. Todos eles diziam o mesmo: não há nada como isto. Tal como não voltará a haver outros como eles, como Deco.


sábado, 28 de junho de 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um legado que é eterno

Nenhum homem morre quando a sua obra é eterna. Teles Roxo vive. Pôncio Monteiro vive. Sardoeira Pinto vive.

29/08/1933-19/06/2014

Dedicou quatro décadas da sua vida ao futebol do Porto, primeiro na AF, depois no FC Porto. Apoiou Pinto da Costa na candidatura à presidência do clube, em 1982, e foi nesse ano que assumiu o cargo de presidente da Mesa da Assembleia Geral, que manteve até hoje. Outro ocupará o seu lugar. Substituí-lo? Isso é impossível.

Mais do que dizer adeus, é hora de partilhar a responsabilidade de cuidar do legado de Sardoeira Pinto: o FC Porto, hoje mais pobre que nunca. Mas de pé. Como sempre esteve e sempre estará, enquanto a integridade, dedicação, paixão, competência e lealdade com que Sardoeira Pinto serviu o clube for tomada como exemplo pelos demais, de administradores a adeptos.

A meu filho, que pergunte, «quem era o Dr. Sardoeira Pinto?», respondo: «Quem seria o FC Porto sem homens como o Dr. Sardoeira Pinto?». Homens como já não há.

Obrigado, doutor!