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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Três pontos e Danilo

O FC Porto iniciou a corrida atrás do prejuízo causado pela 3.ª jornada da única forma possível: com uma vitória, embora muito pouco convidativa a uma Enologia de qualidade. Olhamos para os 13 golos marcados em 4 jornadas e vemos que o FC Porto não fazia tantos golos desde 1951, embora esta época com a vantagem da calendarização pouco habitual que ditou dois jogos consecutivos no Dragão. 


Mas o momento em que vemos a «roda» formar-se na segunda parte, mesmo com a equipa a vencer por 2x0, é demonstrativa de que a equipa sabia que havia muito mais a merecer a preocupação do que o resultado. Na segunda parte, o que aconteceu não foi muito diferente daquilo que antecedeu os golos de Vitória de Guimarães ou Belenenses: a equipa deixou de ter bola, deixou de controlar o jogo e perdeu soluções na saída para o ataque. O Moreirense não aproveitou, também porque Iker não deixou, mas é a terceira jornada consecutiva em que o FC Porto se coloca a jeito quando a vantagem e a sua superioridade já deveriam deixar a vitória encaminhada.

Valeu, sobretudo, o regresso às vitórias e o de Danilo Pereira, elemento essencial para o ciclo de jogos que se iniciará depois da pausa para as seleções. 




Iker Casillas (+) - Terminou o jogo com mais defesas do que o guarda-redes do Moreirense: três. Com um par de boas intervenções na segunda parte, segurou a vantagem do FC Porto e evitou que o fantasma das jornadas anteriores voltasse a assombrar a equipa (o bom trabalho de Felipe, em estreia com Éder Militão como parceiro, também ajudou). Bem, também, na reposição da bola em campo, sendo neste momento o guarda-redes da Liga com melhor aproveitamento neste capítulo.

Héctor Herrera (+) - Mais uma exibição a encher o campo e a ter que jogar por ele e por Sérgio Oliveira (novamente muito distante do nível exigível para o 11). Inaugurou o marcador num lance oportuno, esteve perto de bisar e assumiu-se sempre como o motor do meio-campo, destacando-se ainda o momento em que puxa da braçadeira para dar um abanão à equipa na segunda parte. Sempre disponível no processo defensivo e a ganhar metros no meio-campo.

As zonas de ação de Héctor Herrera
Otávio (+) - Esteve no lance do 2x0 (muito bem trabalhado por Marega, a ganhar a primeira bola de Casillas, e Aboubakar, no toque para Otávio e na corrida para a grande área), e abriu o livro no último lance da segunda parte, ao ultrapassar dois jogadores antes de servir Marega para o 3x0. Foram os pontos altos de uma exibição na qual Otávio tentou sempre «mostrar-se» ao jogo: foi o jogador que mais duelos disputou (16) e o que mais desarmes conseguiu (4). Pecou pela ausência de tentativas de remate e por algumas más decisões no último terço, mas esta época já teve intervenção direta em quatro golos na I Liga. Em toda a época passada, teve apenas três.




Apanha! (-) - Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Aconteceu, na segunda parte, aquilo que tanto queremos que o FC Porto evite ao máximo. A determinada altura, parecia que a equipa não sabia o que fazer. Cada posse de bola era uma tentativa de passe longo para Marega. Não houve jogo interior, não houve progressão em posse. A equipa percebeu que não estava bem, Sérgio Conceição reforçou o meio-campo, mas não há necessidade absolutamente nenhuma de jogar assim, até porque raramente o FC Porto consegue criar real perigo quando joga desta forma.

O FC Porto já é a equipa com mais foras-de-jogo no Campeonato, 13 em quatro jornadas. Que indica isto? Que está a tentar forçar muito a entrada na linha defensiva com o último passe, mas também que as defesas adversárias estão a saber «apanhar» o FC Porto nesta armadilha. O regresso de Marega ao 11 coincidiu com um abuso desta fórmula (ou melhor, motivou), que certamente terá o momento de (ter que) ser utilizada ao longo da época. Mas em casa? Contra o Moreirense? A ganhar por 2x0? Quando acabamos um jogo com mais foras-de-jogo do que remates enquadrados com a baliza adversária...

Há também um dado deveras curioso. Pensar em Alex Telles e Brahimi é pensar num flanco ofensivo, criativo, capaz de fabricar diversas ocasiões de golo, certo? Mas estatisticamente, o FC Porto é neste momento a equipa que menos usa o flanco esquerdo para atacar em todo o Campeonato. Nas primeiras quatro jornadas, o FC Porto canalizou apenas 31% dos seus ataques por esse corredor. Em contrapartida, é a equipa que mais usa o direito, com 43% de investidas por esse lado. Já vimos bons momentos e combinações por esse lado nesta época, em particular com Maxi e Otávio, mas isto muito se deve à quantidade de vezes que despejaram a bola pelo lado direito à procura da profundidade. 

E o mais irónico é que, uma vez mais, vemos que o FC Porto não precisa de passes de 40 metros para colocar um elemento nas costas da defesa. O lance do 2x0 é um exemplo: Otávio, com um passe curto e na linha da marca de grande penalidade, conseguiu colocar Marega nas costas da defesa. Não é preciso balões e corridas a partir da linha de meio-campo: só é preciso saber decidir e encontrar o espaço certo no último terço.

Sérgio Conceição sabe isso. A equipa sabe isso e, mais importante, sabe fazê-lo. Então, basta fazer. E repetir. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vinho de tasca

Sérgio Conceição falou numa exibição de «vinho de tasca». E assim foi, com as uvinhas uma vez mais espremidas ao máximo. É a antecâmara de uma época na qual a maioria verá sempre qualidade e opções de sobra sempre que o FC Porto vencer, mas ao primeiro mau resultado (re)surgirão de pronto os alertas do óbvio: de que faltam soluções, sobretudo no ataque, num plantel que praticamente não foi reforçado com idas ao mercado.


Saíram Ricardo, Marcano e Reyes (além de Diogo Dalot), entraram João Pedro, Mbemba e Militão. E tendo em conta que nenhum deles, por diferentes razões, entrou ainda na equipa titular, não podemos afirmar que este elenco seja mais forte do que o da temporada passada.

E é agora que é importante repetir e reafirmar isto, pois no final da próxima semana, com o mercado fechado, já será inútil dizê-lo. No Jamor tivemos a felicidade que faltou na época passada nos jogos contra Aves ou Moreirense, por exemplo, e valeu a raridade que é ver uma equipa de arbitragem manter o critério nas suas decisões. Mas que vai ser preciso muito mais nas próximas deslocações, vai, embora este Belenenses tenha mostrado no passado recente ser uma das equipas que melhor se organiza frente aos grandes.




Alex Telles (+) - Ganhou e bateu o livre do 1x0 e decidiu, ele próprio, o jogo com a marcação irrepreensível de um penálti capaz de fazer tremer qualquer sangue frio. O lateral brasileiro acabou por se destacar nos cruzamentos (acertou 5 em 8) e nos duelos disputados (4/5), além de ter criado três situações de finalização. Num jogo em que o FC Porto teve muitas dificuldades na bola corrida, a fórmula Alex/bolas paradas voltou a fazer a diferença.

Héctor Herrera (+) - O Belenenses tomou conta do meio-campo durante parte significativa do jogo, mas o mexicano sempre remou contra a maré. Foi o elemento com mais ações com bola (63), ganhou 11 dos 14 duelos que disputou e criou duas situações de golo, tendo ainda atirado uma bola ao ferro. Fartou-se de fazer quilómetros e tentou redobrar-se em todo o campo, tentando muitas vezes lançar ataques aos quais as unidades da frente não deram sequência.


Iker Casillas (+) - Um calafrio com um atraso de Felipe, mas acabou por somar um par de defesas importantíssimas na segunda parte, que evitaram (melhor, adiaram) o empate do Belenenses.




Falta de controlo (-) - O Belenenses terminou o jogo com mais posse de bola, mais passes e nunca perdeu o controlo do meio-campo em toda a partida. Há que reconhecer que se tratou de um adversário com boa organização, cujas marcações nunca foram baralhadas pelos avançados do FC Porto e que raramente cedeu espaço nos últimos 25 metros. O FC Porto não conseguiu construir jogo e os golos acabam por nascer em lances à margem das dinâmicas da equipa - duas bolas paradas e um erro de um adversário. Comparando o caudal ofensivo e a qualidade demonstrada pelo FC Porto na 1ª jornada, foi do 80 ao 8 - o primeiro remate da equipa à baliza surgiu já a meio da primeira parte, e Muriel fez tantas defesas como Casillas.

Minuto 58 (-) - Como diriam os treinadores da velha guarda, «esta nem nos infantis». Uma bola batida diretamente pelo guarda-redes do Belenenses, Muriel, é dominada por Fredy (Sérgio Oliveira a dormir neste lance) à entrada da grande área do FC Porto. Isto não existe a este nível: com um simples passe de 80 metros, o adversário fica na cara do golo. O avançado do Belenenses (que tantas dores de cabeça deu a Felipe) tocou para Licá e Casillas acabou por evitar o golo, mas este é o tipo de jogada capaz de fazer qualquer treinador arrancar cabelos. 

Não esperemos o mau resultado (-) - Sérgio Conceição valoriza muito o trabalho nos treinos. É certamente por isso que André Pereira ganhou o lugar neste arranque de época - por isso e pela falta de uma solução/reforço de maior qualidade. É um jovem avançado fisicamente interessante, que tenta trabalhar para a equipa, mas cuja aposta neste momento não está a funcionar da melhor forma. Volta a ser o primeiro a ser substituído e pouco conseguiu produzir em campo - apenas 8 passes completos, falhou os 2 dribles que tentou, tentou o remate apenas uma vez e perdeu 10 dos 17 duelos que tentou. É certo que o companheiro de ataque, Aboubakar, esteve em modo amorfo, mas André Pereira não terá ainda a estaleca que possa fazer dele uma solução de 11 inicial para o curto prazo. 

Mas dirão: e soluções? Adrián? Marius? Marega? Com Soares lesionado e sem mais soluções para o ataque, a verdade é que provavelmente André Pereira não deixa de ser aquele que mais tem lutado e feito por merecer um lugar no ataque do FC Porto aos olhos de Sérgio Conceição. E assim sendo não é possível censurar as opções do treinador, que dificilmente terá intenções de abdicar do esquema de dois avançados neste arranque de época. Sérgio Conceição tem que «rentabilizar os que tem», dizem, mas não se queixem se o que tem se revelar insuficiente a breve trecho. Vinho de tasca pode desenrascar numa refeição mas não vai matar a sede nos dias de maior calor. 

sábado, 2 de junho de 2018

Análise 2017-18: os guarda-redes

Iker Casillas - Muito simples. Se Iker não tivesse regressado à baliza, o FC Porto muito provavelmente não teria chegado ao título. Porque ter Iker entre os postes não era apenas ter o melhor guarda-redes do FC Porto em campo: era ter estofo, experiência, voz de comando e saber dar confiança à sua defesa. 

Contrato até 2019
Já todos sabem que os guarda-redes do FC Porto são muito menos expostos a remates dos adversários do que os demais da Liga - por isso não importa saber quantas defesas fazem, mas sim a sua percentagem de aproveitamento. E nesse caso, Iker foi o guardião com mais percentagem de remates travados na Liga - 78,3%, ligeiramente acima de Rui Patrício (77,8%). E Iker Casillas melhorou, pois na época passada tinha defendido 75% dos remates e na primeira apenas 70%.

Já com contrato renovado por mais uma época, e com uma redução salarial bastante significativa (embora o FC Porto não pudesse dizer nunca que o espanhol era um jogador caro, pois não foi essa a posição assumida pela SAD no dia da sua chegada), Iker Casillas dá garantias de mais uma temporada na baliza, a nível interno e europeu. E bem, sendo que agora já sabem que têm 12 meses para preparar a sua sucessão - algo para a qual o FC Porto não teria capacidade de resposta interna caso Iker, conforme chegou a estar previsto, deixasse o clube. 

Contrato até 2020
José Sá - Não estava, não está, minimamente preparado para assumir a titularidade na baliza do FC Porto. Sérgio Conceição teve a oportunidade de deixar claro que a sua opção refletia o rendimento nos treinos - e nós, adeptos, não sabemos o que se passa no Olival, logo há sempre essa ressalva. Mas José Sá nunca mostrou ser um fora de série, nem sequer ao longo do seu percurso de formação. Foi dispensado de um Benfica que tinha Bruno Varela como projeto para a baliza, nunca chegou a ser titular indiscutível no Marítimo e tinha apenas um jogo de I Liga pelo FC Porto (derrota contra o Moreirense em 2017) antes de se tornar aposta de Sérgio Conceição.

Não funcionou. José Sá tem 25 anos e, em toda a sua carreira, acumula apenas 31 jogos de I Liga. Pouca experiência, poucas provas dadas. Sempre se revelou um guarda-redes algo permeável (consentiu 41% dos remates que enfrentou no Campeonato), e na Liga dos Campeões foi o segundo pior guarda-redes em prova, com uma percentagem de defesas de apenas 50%. O vendaval de Liverpool acontece uma vez na vida, mas se Munique foi cidade madrasta para Fabiano, Liverpool não poderia ser diferente para José Sá e foi o pretexto para voltar atrás numa aposta falhada.

Como ponto positivo ficam duas boas defesas frente ao SC Braga, no Dragão, e pouco mais. Tem mais dois anos de contrato e não vai evoluir estando no banco, e estando em campo arrisca comprometer. A sua continuidade na próxima época não faz sentido, pois de Beto a Bracalli, foram vários os guarda-redes de qualidade superior e dispensados nas últimas épocas.

Contrato até 2021
Vaná - Na perspetiva de 2017-18, foi uma contratação desnecessária, e o desenrolar da época comprovou-o. O FC Porto não tinha muito dinheiro para gastar, mas o pouco que havia gastou num guarda-redes que passou a maior parte da época na bancada. Estamos a falar de um guarda-redes que nem sequer rodou nas Taças. Jogou apenas no jogo da consagração do título e revelou-se uma pessoa muito divertida ao longo dos festejos, mas ter apenas uma época de Feirense e de I Liga no currículo, aos 27 anos, não oferece grandes perspetivas de futuro. A sombra de Casillas e um papel secundário são o máximo que lhe pode esperar na próxima época - a diferença é que Vaná não chegou a ter a sua oportunidade, enquanto José Sá teve-a e desperdiçou-a. 

Contrato até 2019
Fabiano - O seu papel ao longo de 2017-18 já foi um pouco descrito nos «Bonés» da última jornada da I Liga. O melhor Fabiano é melhor do que o melhor Josá Sá e o melhor Vaná. Mas aos 30 anos, e depois de superar graves problemas físicos, Fabiano está a uma época do final de contrato e é raro ter um guarda-redes que, depois de perder a titularidade, fique no clube para um papel de suplente. É sabido que Sérgio Conceição aprecia as qualidades de Fabiano, algo que pode favorecer o brasileiro na decisão. Para todos os efeitos, estando em forma, é o segundo melhor guarda-redes do plantel principal. Chegará para fazer sombra a Casillas? Ou fará mais sentido que a sombra de Casillas em 2018-19 seja alguém capaz de pegar no seu lugar em 2019-20? Integrar Diogo Costa definitivamente nos trabalhos da equipa A, jogando com regularidade na B e ganhando o seu espaço nas Taças nacionais, é algo a ter em conta, sobretudo porque já renovou até 2022.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A permanência de Iker e a saída de Ricardo

Caminhos opostos para duas figuras importantíssimas na caminhada do FC Porto para o título 2017-18. Iker Casillas fica mais um ano, Ricardo Pereira já assinou pelo Leicester City e torna-se a primeira de várias saídas - umas com mais impacto do que outras, naturalmente - que inevitavelmente terão lugar neste plantel. 

Começando pela renovação de Iker, que aceitou uma redução salarial para permanecer no FC Porto. Não é qualquer atleta que o faz. Embora o guarda-redes seja um futebolista mais do que afortunado, com mais dinheiro do que aquele que possa contar, a verdade é que é comum os futebolistas em final de carreira optarem por um futebol mais periférico para acumularem mais alguns milhões antes da reforma. Casillas, aos 37 anos, trocou isso por mais uma época de FC Porto, mais uma época de Champions, mais uma época a tentar lutar por títulos. 

De qualquer forma, o FC Porto não poderia decidir, ao final do terceiro ano de contrato, que afinal Iker Casillas era caro. Isto já foi explicado neste post. Quando o espanhol foi contratado, em 2015, Pinto da Costa garantiu que Casillas ganhava tanto como Andrés Fernández (que já saiu) e Fabiano (que está longe de integrar a fileira dos mais bem pagos) juntos. A diferença entre ter um grande guarda-redes e dois guarda-redes razoáveis. 


Caso Iker Casillas tivesse saído, a baliza tornar-se-ia um problema, pois não há, no atual plantel, um guarda-redes com o estofo necessário para assumir desde já o posto de número um. Assim, temos guarda-redes para mais um ano, e mais um ano para trabalhar a sucessão, até porque a herança das balizas costuma ser um tema complicado para o FC Porto. Veja-se o exemplo de Vítor Baía: o FC Porto só conseguiu verdadeiramente substituir Baía quando voltou a ir buscar Baía ao Barcelona; e quando o português se retirou, aí sim, o presente estava assegurado com Helton, que já era campeão e internacional brasileiro e tinha já considerável experiência e provas dadas na I Liga. Agora, um guarda-redes que era suplente do atual suplente do Sporting, ou outro que tem uma época de Feirense, são rédeas curtas. 

A continuidade de Iker Casillas é uma boa notícia. Já a saída de Ricardo Pereira, como é natural, não pode ser vista da mesma maneira, pelo menos na dimensão desportiva. E na financeira?

O FC Porto anunciou a transferência por 20 milhões de euros, mais eventuais 5 milhões em variáveis. Como as variáveis por norma são apenas para inglês ver, tanto que as SAD muitas vezes nem se dão ao trabalho de explicar como podem ser atingidos esses objetivos, teremos como referência os 20 milhões de euros. 

Ricardo Pereira, a um ano do final de contrato, sai basicamente pelo mesmo valor de Paulo Ferreira e Bosingwa, um transferido em 2004, outro quatro épocas depois. O mercado de transferências, desde então, inflacionou consideravelmente. Mas poderá o mesmo ser aplicável ao mercado dos laterais-direitos em particular?

Vejamos o top 12 dos laterais-direitos mais caros de sempre:


Desde logo, assinala-se o facto de quatro dos 12 laterais-direitos mais caros da história terem sido transferidos pelo FC Porto. E tirando Dani Alves, não vêem por aqui nenhum nome consagrado do futebol mundial.  O segundo em termos de palmarés será por certo Paulo Ferreira, seguido por Bosingwa.

O mercado de laterais-direitos é, por norma, propício a valores baixos. Mas vemos que a tendência é isso estar a mudar, como são exemplos as transferências recentes de Aurier, Zappacosta, Conti ou Nélson Semedo - nenhum deles é melhor do que Ricardo Pereira e todos eles foram transferidos por valores superiores. 

Por isso, 20 milhões de euros, considerando a qualidade e potencial atuais de Ricardo Pereira, são um número capaz de satisfazer os adeptos em plenitude? Provavelmente não, sobretudo quando tivermos em conta que a mais-valia poderá ser mais bem reduzida.  

Ricardo foi comprado ao Vitória de Guimarães em Abril de 2013, por 1,6 milhões de euros a troco de 80% do passe, mais 100 mil euros de encargos. No último R&C semestral da SAD, o FC Porto anunciou ter 88% do passe do lateral-direito. Na altura da transferência, Júlio Mendes disse que o Vitória de Guimarães ficou com uma parte de uma futura venda, mas não esclareceu se se estaria a referir à percentagem dos direitos económicos ou mesmo a uma futura transferência. 

Por exemplo, o FC Porto tem efetivamente 88% do passe de Ricardo, mas aquando da salgalhada que foi a transferência de Carlos Eduardo e de um dos irmãos Djim para as Arábias (leia-se, o facto de o FC Porto ter permitido/precipitado um negócio quando o Nice tinha direito de preferência sobre Carlos Eduardo) o Nice acabou por ficar com 15% de uma futura venda. 

Ou seja, o Nice não tem, na prática, direitos económicos de Ricardo Pereira, mas tem direito a receber 15% da futura venda do FC Porto. O caso de Marega também é ilustrativo: o FC Porto tem 100% dos direitos económicos do maliano, mas o Vitória de Guimarães tem direito a 30% da futura venda, percentagem que ficou definida aquando da transferência de Soares. 

Agora resta saber: o Leicester é quem paga os 12% do Vitória e os 15% do Nice?; o Leicester é quem paga o mecanismo de solidariedade FIFA?; o Leicester é quem paga as mais do que esperadas comissões pela concretização do negócio? A definição de todas estas parcelas é que ajudará a decidir quão boa - ou menos má - pode ter sido esta venda de Ricardo Pereira.


De qualquer forma, há que considerar ainda o factor «tempo». Sim, o FC Porto é campeão nacional. Mas a situação económica da SAD não mudou. Ser campeão em Portugal, por si só, não dá dinheiro - pelo contrário, acaba por dar é ainda mais despesa, pois a SAD tem que pagar os prémios pela conquista do Campeonato aos jogadores.

Logo, não é o facto de ser campeão em Portugal que melhora a situação financeira - o que permite isso é o factor UEFA, nomeadamente a qualificação direta para a Liga dos Campeões, que a partir de 2018-19 vai multiplicar os prémios e permitir um maior encaixe financeiro (ainda que, em contrapartida, a qualificação para a fase de grupos da Champions e para os próprios 1/8 de final se torne mais complicada de atingir).

Ora, e «tempo» era algo que o FC Porto não tinha no dossier Ricardo Pereira. O lateral ia entrar em final de contrato e a SAD não poderia permitir que um ativo chegasse a janeiro nesta condição contratual (Herrera e Brahimi estão na mesma situação, por isso ou renovam ou saem já). Logo, havia pressa em vender, sobretudo porque a SAD tem metas a cumprir por ter falhado o fair-play financeiro da UEFA. Há quem defenda que o Mundial 2018 poderia ser uma montra, mas sejamos francos; primeiro, não há garantia de que Ricardo seja titular na Rússia; segundo, os clubes interessados passaram uma época inteira a observar Ricardo, logo não haveria de ser por 2 ou 3 jogos num Mundial que iam decidir dobrar as suas propostas.

É de recordar que a SAD orçamentou, para 2017-18, um prejuízo de 17,27 milhões de euros. No final do primeiro semestre, o resultado negativo era de quase 24 milhões. Nos proveitos operacionais definidos a SAD não deverá ter dificuldades em cumprir as principais alíneas, mas há um setor sempre alarmante: os proveitos com transações de passes de jogadores.

Excerto do acordo entre a UEFA e o FC Porto para o FPF
No final do R&C do primeiro semestre 2017-18, a SAD teve proveitos de apenas 8,4 milhões de euros, tendo basicamente tido apenas uma venda relevante - a transferência de Bruno Martins Indi para o Stoke. 

Tendo em conta que a SAD projetava custos operacionais de 19,7 milhões de euros negativos, mais 35,5 milhões de euros em amortizações de passes, o FC Porto teria que registar, em 2017-18, 55 milhões de euros em proveitos com transações de passes de jogadores. Ora, a venda de Ricardo Pereira mantém o FC Porto longe desse valor, por isso podemos esperar que mais um titular possa ser alvo de uma transferência a curto prazo.

Para já despedimo-nos de Ricardo Pereira, com votos de sucesso em Inglaterra, e deixamos uma sugestão para o lugar de lateral-direito. Há por aí um miúdo bem jeitosito, de apenas 19 anos, mas com qualidade para o curto prazo e potencial enormes; anda há meses a ser observado por clubes como Bayern e Barcelona, e apesar de ter pouca experiência de equipa A já houve um clube a acenar com uma proposta bem próxima dos 20 milhões de euros da sua modesta cláusula de rescisão. Chama-se Diogo Dalot. E está também a entrar em final de contrato. Renovar com Dalot colmata, desde logo, a saída de um titular e assegura um lateral de qualidade e portismo inquestionáveis para as próximas épocas. Querem melhor? 

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Primeiro Alvalade, depois o Vit. Setúbal

O clássico continua na próxima segunda-feira, às 20.00, no Estádio do Dragão, frente ao Vitória de Setúbal. Porque nada do que se conquistou ontem à noite na Luz terá valor se o FC Porto não der continuidade a esse resultado já na próxima ronda, frente a um adversário que na temporada passada empatou na Invicta. 

A margem de erro é diminuta e o FC Porto sabe que, vencendo o Vitória de Setúbal e o Marítimo, pode muito bem sentenciar o título na 33ª ronda. Para já, no entanto, nada é mais fulcral e difícil do que bater o Vitória de Setúbal. Isto no que ao Campeonato diz respeito, pois já na quarta-feira há uma final duríssima em Alvalade, frente ao Sporting, contra um adversário que vai ter que atacar desde o primeiro minuto e que, desde novembro, venceu todos os jogos das provas nacionais em casa e sempre sem sofrer golos.

Foi de uma justiça poética que Herrera, a quem foi anulado o legítimo golo da vitória na primeira volta, tenha sido autor do golo que decidiu agora o jogo na Luz. Mas foi difícil, muito difícil. Benfica melhor na primeira parte, FC Porto muito melhor na segunda. Jogo decidido num detalhe, na terceira vez na história do FC Porto em que o golo da vitória frente ao Benfica apareceu ao 90 minutos ou na compensação. Também foi assim com Bruno Moraes e Kelvin, em épocas em que o FC Porto foi campeão por um ponto. Por um ponto se ganha, por um se perde. Daí que nada importe mais, neste momento, do que o Vit. Setúbal.





Ricardo Pereira (+) - Entrou algo nervoso, o que o levou a cometer alguns lapsos defensivos, mas rapidamente se desinibiu e partiu para uma exibição que fez dele o melhor em campo ao longo dos 90 minutos. Cansou só de o ver correr por todo o campo, ora junto ao corredor, ora nos movimentos interiores. Foi responsável por quatro das cinco ocasiões de golo que o FC Porto criou na Luz, duas delas nas quais serviu de bandeja Marega na grande área, além de ter estado perto do golo num remate desviado pelo maliano. 

Foi o jogador em campo com mais ações com bola, 91 no total (o segundo melhor do FC Porto, Alex Telles, teve apenas 62), tendo-se ainda destacado na forma prática como defendeu (10 alívios, 10 bloqueios de passes/cruzamentos/remates). Uma exibição completa, na qual foi ainda o atleta com mais duelos ganhos (14). Fernando Santos estava a ver e só resta mesmo perguntar: como é que este rapaz nunca fez um jogo oficial (não particular, oficial) por Portugal?

Centrais (+) - Não foi o melhor jogo da dupla Marcano-Felipe, mas na visita ao melhor ataque da Liga dificilmente se poderia pedir mais. Marcano e Felipe secaram por completo Raúl Jiménez, estiveram quase sempre bem posicionados defensivamente e, contra uma equipa especialista em arrancar faltas, cada um deles cometeu apenas uma falta em 90 minutos. Jogaram muito mais adiantados no terreno do que, por exemplo, a dupla do Benfica, algo que contribuiu e muito para a subida de rendimento na segunda parte.

Iker Casillas (+) - Se Pizzi aproveitasse aquela oportunidade, quiçá estaríamos, neste momento, preocupados com o Sporting e com o 3º lugar. Iker Casillas apareceu quando foi necessário, com uma intervenção decisiva, e continua sem saber o que é perder com o Benfica ao serviço do FC Porto. Talismã.

Héctor Herrera (+) - Porquê sempre ele? Por exibições assim. Num meio-campo no qual as fivelinhas Otávio e Sérgio Oliveira, sobretudo na primeira parte, sentiram muitas dificuldades, Herrera teve que trabalhar por dois. E não havia Danilo. Foi uma exibição de trabalho do mexicano, que foi quem mais faltas sofreu (6), quem mais passes completou (38), teve 13 ações defensivas e foi o médio com mais duelos ganhos (10). E olhem, resolveu um clássico que inverteu a classificação do Campeonato no minuto 90, a jogar em casa do maior rival. Sérgio Conceição admitiu, um dia, a dúvida: «Um mexicano a capitão do FC Porto?». E não, um mexicano não: mas um jogador à Porto sim. Como Héctor. E obrigadinho por dar uma folga ao TdD por, segundo tantos, defender em demasia Herrera. Hoje lhe têm a agradecer a liderança e um travão ao penta do Benfica.






Primeira parte (-) - Divididos entre o receio e números de circo, foram 45 minutos de fazer arrancar os cabelos. Otávio incapaz de apertar Fejsa e de receber no miolo. Brahimi sempre a pegar na bola demasiado longe e a querer fintar em zona proibida. Soares com mais faltas cometidas do que remates ou jogadas de perigo. Marega novamente a aparecer no sítio certo, mas para falhar as melhores oportunidades. Sérgio Oliveira bem a ganhar no primeiro metro, mas depois a deixar-se entalar entre os jogadores adversários. E gritos, muitos gritos de Sérgio Conceição, que sabia que a coisa não estava a funcionar.

A primeira parte revelou uma vez mais uma equipa com muitas dificuldades em construir. O pouco que a equipa fez nasceu das investidas de Ricardo. Jogadores demasiado distantes uns dos outros, dificuldades em segurar a bola no ataque, bolas em profundidade que não resultavam em nada e imensas dificuldades em progredir em apoio. A segunda parte mudou e, embora o golo de Herrera tenha nascido de um ressalto e se desvie de toda a lógica de um plano tático, há dois detalhes que não se podem desvalorizar: é Óliver quem ganha metros com bola e «puxa» Brahimi, que vai finalmente recolher a bola no espaço interior e, rapidamente, tenta a tabela com Marega. A sorte também se procura, e esta acabou por ser merecida.


Já dissemos que é preciso ganhar ao Vit. Setúbal? Pronto. Mas primeiro vem aí mais um clássico. Duas festas em quatro dias na Luz e em Alvalade seria inédito na história do FC Porto e deixaria a equipa com uma mão na Taça de Portugal. Há semanas piores.  

Um pormenor: Herrera preferiu mostrar o símbolo na frente do que o nome nas costas

terça-feira, 13 de março de 2018

O preço de Iker Casillas

«Só conseguimos equilibrar as coisas verdadeiramente quando os contratos terminarem. Por exemplo, o contrato com o Casillas termina no final deste ano. É um contrato muito elevado. Vamos pagar até ao fim religiosamente, não temos alternativa. Quando o contrato terminar, vamos logo ter uma folga de alguns milhões de euros anuais», Francisco Marques, citado pela Revista Sábado, 02/03/2018

«Quem não gostaria de continuar com Casillas? Estou muito feliz por o termos. Está a demonstrar que é realmente uma mais-valia para qualquer clube. Ficar? Gostaria que sim. Se é possível? Quando é possível ter mar em Bragança é tudo possível», Pinto da Costa, 06/03/2018

Iker Casillas está a caminho do 37ª aniversário. É raro, senão inédito, vermos um guardião com essa idade defender as balizas do FC Porto. O guardião espanhol já não está no seu auge, mas continua a ser uma garantia de qualidade, com um rendimento que o aproxima - mas que não supera, diga-se - os dois últimos guardiões indiscutíveis no FC Porto.

O FC Porto venceu 64,2% dos jogos que disputou com Casillas na baliza. Com Vítor Baía (67,3%) e Helton (68,5%) venceu um pouco mais. A média de golos sofridos também apresenta algumas diferenças, mas residuais: 0,72 para Iker Casillas, 0,7 para Hélton e 0,65 para Vítor Baía.

A maior diferença, claro está, reside no palmarés. Helton e Vítor Baía são duas referências pelos títulos que conquistaram. Já Iker Casillas continua com o currículo em branco na sua passagem por Portugal. Portanto, neste momento, a maior preocupação é mudar isso: ver o FC Porto regressar aos títulos, algo que leva até a que os adeptos «aceitem» que haja diversos jogadores já elegíveis para assinar por outros clubes a custo zero e outros que estão a nove meses de o poder fazer. 

Ainda assim, tendo em conta as duas declarações acima citadas, importa recordar uma questão em torno de Iker Casillas. Todos defendem que o espanhol é caro. Muito caro para a dimensão do campeonato português. E nesse caso sobra a pergunta: quando, exatamente, é que Iker Casillas passou a ser caro? 

Oportunidade para recordar estas declarações de Pinto da Costa, em julho de 2015, ao jornal O Jogo, aquando da chegada do guarda-redes. «Para nós, foi altamente competitivo em termos de preço. Ele, que foi considerado várias vezes o melhor do mundo, tem o melhor currículo, e com 34 anos pode jogar mais três ou quatro anos em grande nível, como aliás o Helton prova; ganha tanto como o Fabiano e o Andrés Fernández juntos. E eu pergunto o que qualquer clube do mundo preferirá: ter o Fabiano e o André Fernández ou ter o Casillas?». 

Ora, tendo em conta que Andrés Fernández já saiu e que Fabiano está, neste momento, meramente a fazer número no plantel, o que faltará para Iker Casillas renovar contrato? Apenas que Fabiano saia?

Podemos ainda acrescentar o factor Vaná, com um pouco de mistério à mistura. O FC Porto apresentou Vaná a 15 de julho, mas o R&C da SAD do primeiro semestre diz que o guarda-redes foi comprado ao Feirense apenas em agosto - um milhão de euros por 80% do passe. Vaná andou 15 dias - ou mais - a treinar-se com o FC Porto antes de ser comprado ao Feirense? Para quê tanta pressa por um jogador que nem nas Taças nacionais calçou? 


Lá está. O FC Porto não tinha muita disponibilidade para investir no mercado no verão. Mas no pouco que investiu, investiu onde não era prioritário ou sequer necessário.

No final da época, e pegando nas palavras anteriores de Pinto da Costa, talvez possa ser colocada a mesma questão: o que é mais caro? Ter Iker Casillas na baliza? Ou ter Fabiano e Vaná meramente a treinar no Olival? Um tema que pode esperar dois meses. Para já, mais importante, é ter Iker Casillas campeão em maio. Aliás, o FC Porto campeão. 

domingo, 4 de março de 2018

Estofo

Um pouco de contexto. Do meio-campo para a frente, a equipa do FC Porto era composta por quatro jogadores que, num passado recente, estavam dispensados/emprestados (Sérgio, Otávio, Marega e Gonçalo), o maior mal-amado desde Silvestre Varela (Herrera) e um jogador que estava afastado das opções no início da última época (Brahimi). 

Nos 11 titulares não estavam dois dos melhores laterais a nível europeu nesta época (Ricardo e Alex), o melhor médio da Liga (Danilo) e o melhor marcador do FC Porto (Aboubakar) entre todas as provas. No setor defensivo, espaço para três trintões em final de contrato e um miúdo de 18 anos a fazer a estreia em clássicos. 

O resultado foi uma demonstração de estofo, pragmatismo e superação, que aproxima o FC Porto de um sonho que o trabalho de Sérgio Conceição e do plantel pode tornar realidade. São 67 pontos em 25 jornadas. Nem José Mourinho, nem Jesualdo Ferreira, nem Vítor Pereira conseguiram mais em todas as épocas em que foram campeões, só para dar os exemplos mais recentes. Juntem a isso, a nível global, o terceiro ataque mais concretizador da Europa, só atrás de PSG e City. Uns com milhões, Cavanis, Neymares e Agüeros, outros com jogadores recuperados da lista de dispensas. 


Era essencial vencer, para arrumar o Sporting das contas do título e não permitir que o Benfica passasse a depender de si próprio, mas esta é uma ameaça que se mantém: basta escorregar numa única jornada para dar ao rival essa oportunidade. A margem de erro não é curta - é quase inexistente. Bem a postura de Sérgio Conceição nesse sentido.

O calendário pode tornar-se uma coisa muito subjetiva - vão ver, na reta final do Campeonato, equipas do fundo da tabela tirar pontos a equipas dos lugares europeus -, mas é verdade que a agenda do Benfica é teoricamente mais simpática do que a do FC Porto, que terá pela frente 7 jogos fora de casa (a contar com Liverpool e Alvalade) e apenas quatro em casa até ao final da temporada. E a onda de lesões no plantel promete não ajudar. 

A visita ao Liverpool serve apenas para cumprir calendário e tentar evitar estragos maiores na eliminatória (em 18 visitas a Inglaterra, o FC Porto perdeu 16 e empatou duas, em cima do minuto 90, em Manchester - por isso dificilmente a história mudará contra um adversário que nos deu 5 na primeira mão), mas a ida a Paços de Ferreira e a receção ao Boavista revelam-se importantíssimas antes da pausa de 15 dias para as seleções, que pode permitir a recuperação de alguns atletas. 




Estofo (+) - Não foi o melhor jogo do FC Porto desta época. E nenhum dos atletas que esteve em campo fez a sua melhor exibição da temporada. Mas os 90 minutos revelaram algo mais: estofo. Tudo começa nas condicionantes para esta partida - a ausência de vários titulares, atletas juntos a fazer o seu primeiro Clássico e a certeza de que o Sporting ia dar tudo neste jogo. O FC Porto aguentou e deu ao jogo aquilo que o jogo lhe pediu. Atacar quando o resultado o pedia, defender quando o Sporting apertava e tentar explorar as saídas rápidas quando se abria a janela de oportunidade - e aqui, uma vez mais, Sérgio Conceição muito bem a realçar que poderia ter sido feito melhor para matar o jogo.

Brahimi e Otávio passaram mais tempo a fechar o corredor do que a procurar atacar e, defensivamente, a equipa esteve quase sempre prática e limpa a afastar o perigo - tirando o lapso de Marcano, aos 20 minutos, o setor mais recuado esteve quase irrepreensível. Além disso, depois de sofrer o 1x1 a fechar a primeira parte, a equipa deu uma boa resposta com uma entrada forte e determinada em recuperar rapidamente a vantagem. O FC Porto foi forte quando tinha que ser - na procura da vantagem - e, depois, não se inibiu em defender com tudo. 

Iker Casillas (+) - Era mais ou menos expectável, mas ficámos a saber, pela voz do diretor de comunicação do FC Porto (que, tendo sido jornalista, sabe que quando não quer que algo seja tornado público convém esclarecer que se trata de uma conversa em off), que Casillas vai sair no fim da época. E, cintando, «quando o contrato terminar, vamos logo ter uma folga de alguns milhões de euros anuais». Pois vamos, mas também há um risco de se abrir um buraco na baliza, tamanha que tem sido a preponderância de Iker Casillas, sobretudo nos Clássicos. 

A defesa a remate de Montero, aos 85 minutos, é daquelas que seguram um Campeonato. Uma defesa, uma vitória. Naquele lance Casillas impede, simultaneamente, que o Sporting reentre na luta pelo título e que o Benfica passe a depender de si próprio, enquanto segurou a sexta vitória consecutiva do FC Porto. Com Casillas nas balizas nacionais o FC Porto não perde um jogo desde Agosto de 2016. Vai deixar saudades, e oxalá deixe como o campeão que merece.


Héctor Herrera (+) - Quando Rui Patrício afastou a bola e esta sobrou para Herrera, a tentação seria tentar metê-la rapidamente na grande área. Mas não. Herrera esperou, combinou com Maxi, permitiu a reorganização da equipa e cruzou num momento em que há seis jogadores do FC Porto prontos para atacar a grande área. Marcano fez o golo. Foi o ponto de alto de mais uma exibição todo-o-terreno de Herrera. Foi o jogador com mais ações com bola (57), venceu 12 dos 15 duelos que disputou, recuperou 6 vezes a bola e teve 8 ações defensivas. 

Brahimi resolveu (+/-) - É necessário realçá-lo, tantas que foram as vezes que O Tribunal do Dragão escrevia que só faltava algo a Brahimi: ser decisivo num Clássico. E ao 16º jogo contra Benfica ou Sporting, o argelino finalmente apareceu para resolver, com a calma e classe que o momento recomendava: pentear a bola antes de a colocar fora do alcance de Rui Patrício. Foi um jogo muito difícil para Brahimi - bem como para Otávio, Marega e Gonçalo (que serviu o argelino para o 2x1) -, ele que perdeu a bola antes do golo do empate, não fez nenhum passe para finalização e teve apenas um drible, mas na única ocasião que teve para rematar resolveu um Clássico. Já esteve em 14 golos na I Liga - está a uma intervenção de igualar a melhor temporada da carreira. 




Definir e resolver (-) - Sérgio Conceição admitiu-o sem problemas: o FC Porto não explorou da melhor forma alguns momentos de superioridade numérica e em que podia ter definido melhor. Isto começa no case-study de Marega, que uma vez mais esteve sempre no sítio certo para dispor das melhores ocasiões de golo. Mas nas receções a Sporting e Benfica dispôs de 7 ocasiões flagrantes de golo (isto é, apenas com o guarda-redes entre ele e a baliza ) e falhou todas, mesmo entre o azar de ver uma bola bater no poste e Ruiz ou Battaglia chegarem onde Rui Patrício já não chegaria.

Mas o dado mais negativo acabou por ser a entrada de um Corona completamente a leste, a complicar e a decidir mal. O mexicano entrou num bom momento - fresco, Sporting mais subido, com possibilidade de explorar várias situações de 1x1 e com espaço nas costas da defesa -, mas decidiu quase sempre mal. Um toque interessante de calcanhar e, de resto, uma enxurrada de más decisões e de displicência. Com a lesão de Marega pode ter a derradeira oportunidade para mostrar serviço. Corona não pode ser um André Carrillo - aquele tipo de jogador que sabemos que tem talento, mas depois chegamos à conclusão de que estamos há 5 ou 6 épocas à espera que exploda, até chegar à conclusão de que o rapaz não está mesmo para aí virado. 

Segue-se então a visita a Liverpool, para cumprir calendário e tentar evitar números mais expressivos na eliminatória - o Liverpool visita o Man. United no sábado, por isso também é possível que rode algumas unidades, ainda que deslocações a Inglaterra sejam historicamente sinónimo de derrota para o FC Porto. As atenções devem ser centradas em Paços de Ferreira e a recente visita do Benfica à capital do móvel só deve servir de aviso para as dificuldades que o adversário poderá apresentar. Não esquecendo que o FC Porto, há três meses, chegou a desperdiçar um 2x0 na Mata Real.


Terminando com aquela que pode ser a imagem mais marcante da época:

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Clockwork Orange

Sérgio Conceição e os seus drugues continuam a semear o pânico nas balizas adversárias e superaram a marca dos 100 golos em jogos oficiais, tornando-se a quinta equipa da Europa a consegui-lo (depois de PSG, Man. City, Real Madrid e - quem diria? - Liverpool). Mas a nível interno, este registo só pode ter particular agrado acrescido para o treinador, que se tornou o timoneiro com a melhor média de golos no FC Porto ao fim de 40 jogos dos últimos 40 anos


Os 64 pontos em 24 jornadas (melhor só os 68 do FC Porto de Villas-Boas) mantêm o FC Porto numa boa posição para a reta final da temporada, mas vem aí o jogo mais importante da época: a receção ao Sporting. É um jogo de importância vital, pois em caso de vitória o FC Porto arruma um candidato da luta pelo título; por outro lado, um empate pode permitir ao Benfica passar a depender dele próprio na luta pelo Campeonato. As contas fazem-se jornada a jornada, mas não dá para secundar a importância de vencer na sexta-feira. 

O Portimonense não era, nem de perto nem de longe, um dos jogos mais complicados até ao final da época, mas a pressão e o cansaço são cada vez maiores e o calendário mais curto. A equipa respondeu com eficácia e controlo, mesmo perante a ausência de 5 dos 11 jogadores mais utilizados por Sérgio Conceição. Nunca deixamos de realçar que o plantel do FC Porto é curto, mas a uma equipa que goleia quando falta meia equipa titular... que mais se pode pedir?




Marega e o volume ofensivo (+) - Os melhores 45 minutos ao serviço do FC Porto. Marega começou com uma boa finalização, de primeira, a passe de Soares, e pouco depois acertou finalmente um cruzamento na I Liga, ao servir Otávio para o 2x0. A fechar a primeira parte, voltou a finalizar de primeira, novamente bem posicionado, após cruzamento de Maxi Pereira.

No entanto, houve algo a diferenciar a primeira parte de Marega dos demais jogos ao serviço do FC Porto: foi muito mais eficaz nas suas ações com bola. Só falhou um passe no primeiro tempo, acertou os 2 dribles que tentou, marcou nas 2 únicas vezes em que rematou e foi apenas desarmado uma vez pelos adversários, além de ter ganho 7 dos 10 duelos que disputou. Na segunda parte esteve bem menos ativo, mas foi a primeira vez ao serviço do FC Porto em que teve saldo positivo em todas as suas intervenções na partida.


E em semana de FC Porto x Sporting, podemos aproveitar para aprofundar um tema: Marega tem 20 golos, tantos quanto Bas Dost. Mas há um detalhe a fazer a diferença: o holandês já marcou 4 golos de penalty na Liga, enquanto o maliano não marcou nenhum desta forma (ainda que a Liga tenha oferecido um golo a Marega, ao considerar o auto-golo de Marcelo na jornada passada como sendo da autoria do avançado do FC Porto - e se é este o registo oficial, então há que segui-lo). Marega está, por isso, a marcar mais do que Bas Dost.

Como se explica isto? O holandês do Sporting é, sem dúvida, mais eficaz: tem 20 golos em 45 remates, enquanto Marega já rematou 78 vezes. A diferença? O FC Porto cria muitas mais ocasiões de golo e coloca muitas mais vezes a bola nos seus avançados do que o rival de sexta-feira. Bas Dost, no Sporting, é obrigado a ser mais eficaz, pois não recebe tantas vezes a bola. Já no FC Porto, seja com Aboubakar, Soares ou Marega, o volume ofensivo da equipa permite a criação de tantas ocasiões de golo que, eventualmente, elas acabam por entrar. Isto só valoriza o trabalho ofensivo realizado por Sérgio Conceição, um treinador que sempre dizia preferir o 1x0 ao 5x4. A verdade é que o FC Porto de Conceição é um dos mais concretizadores da história do clube. 

Já agora, um pouco de trivia no mesmo âmbito: o Estoril, o mesmo Estoril que muitos deram como desaparecido na quarta-feira, tem mais passes para finalização na I Liga do que o Sporting (246 dos canarinhos contra 224 dos leões). E o mesmo Portimonense que foi agora goleado pelo FC Porto também tem números mais favoráveis do que o Sporting, com um total de 231 ocasiões criadas. Logo, não é que os dois últimos adversários do FC Porto não tenham querido atacar: a equipa portista é que não deixou e impôs a sua superioridade.

Soares (+) - Vai fechar o mês de fevereiro com intervenção direta em 10 golos, igualando o mês de dezembro de Aboubakar. Assistiu Marega para o golo inaugural e respondeu com um belo golpe de cabeça a um cruzamento de Diogo Dalot. Teve algumas dificuldades nos duelos contra os defesas do Portimonense (foi desarmado 8 vezes), mas voltou a entender-se com Marega e a saber movimentar-se a toda a largura em cima da linha defensiva adversária. Não contava em janeiro, agora deixou todos apreensivos face a uma eventual lesão que o pode afastar do clássico.

Laterais (+) - Nervoso nos primeiros minutos, Diogo Dalot foi ganhando confiança e metros pelo corredor e brilhou na segunda parte, primeiro com um grande cruzamento para Soares, depois com alguma sorte a servir Brahimi. Bom, estamos habituados a que o lateral-esquerdo do FC Porto faça assistências - e cá estão mais duas. A questão é: vale a pena ficarmos entusiasmados com o futuro de Dalot? É que o seu contrato acaba em 2019, ainda não foi renovado, está a ser observado desde os sub-17 por grandes clubes mundiais e a questão de Rúben Neves não deixou nenhum adepto confiante face à forma como a SAD olha para a formação e para o futuro. Renovar, para ontem. Maxi Pereira também voltou a fazer um jogo certinho, com destaque para a assistência para Marega, e tem compensado com experiência aquilo que já lhe falta em frescura nas pernas. 

Fator Iker (+) - O guarda-redes espanhol esteve 422 minutos sem sofrer golos nas balizas do FC Porto, e a sequência só foi quebrada de bola parada, num lance muito consentido pela defesa. Tendo em conta que José Sá saiu da baliza do FC Porto com uma média de um golo sofrido a cada 92 minutos, isto, por si só, já revela a importância de ter o melhor e mais experiente guarda-redes no 11 titular. Casillas dá segurança, voz de comando e estabilidade à baliza e à defesa à sua frente. E por mais incrível que possa parecer, fez 5 defesas em Portimão - o guarda-redes da equipa da casa fez apenas uma, até porque o Portimonense rematou mais (13-8). 

Outros destaques (+) - Sérgio Oliveira e Herrera voltaram a controlar o meio-campo, desta vez com e sem bola. Não se aproximaram muito da grande área adversária, mas foram eficazes e seguros no controlo do miolo - o mexicano particularmente bem no passe e na circulação (95% de acerto), o português melhor nas ações defensivas (10 intervenções). Otávio foi aparecendo a espaços, mas lançou a jogada do 1x0 e marcou ele próprio um golo, tendo sempre procurado a bola ora à direita, ora mais em zonas interiores. 

Faltam 10 jornadas, 10 finais. Melhor ataque, melhor defesa, melhor futebol. Venha o Sporting.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O futuro de Casillas

«Por mais vontade que [Casillas] tenha de continuar no clube, até pela forma como foi tratado desde o momento em que deixou o Real Madrid, Iker compreende que a SAD azul e branca possa ter outros planos para 2017/18. Por isso aguarda serenamente por uma indicação do clube, depois de mais uma época em que o título está próximo de lhe escapar». O Jogo, 10/05/2017

Iker Casillas, segundo esta notícia do jornal O Jogo, aguarda uma indicação do FC Porto para conhecer o seu futuro. Destaca-se esta frase: «Iker compreende que a SAD azul e branca possa ter outros planos para 2017/18».

É um tanto estranho que o futuro de Iker Casillas, a cerca de mês e meio do final do seu contrato, ainda esteja por resolver e/ou esclarecer. Afinal, houve uma posição bem diferente assumida pelo próprio presidente do FC Porto no dia 16 de março de 2016. 

«Eu e o senhor Antero Henrique, agora administrador da SAD, já conversámos e chegámos a acordo com o empresário que representa o jogador para, além do próximo ano, prorrogarmos o contrato por mais um ano. A bola está agora do lado dele, o acordo está feito, já lhes dissemos que assinaremos quando quiserem». Foram declarações prestadas ao próprio site oficial do FC Porto.

Se o próprio Pinto da Costa confirmou, nos meios oficiais do FC Porto, que chegou a um acordo com o empresário de Iker Casillas para renovar contrato, como é possível que, 14 meses depois, surja agora uma pseudo-novela em torno da continuidade do guarda-redes?

Uma renovação tratada há 14 meses
A renovação é, claramente, um tema sensível. O próprio Pinto da Costa afirmou que o FC Porto não pagava nem um terço do salário de Iker Casillas. O Real Madrid deixa, a partir de junho, de comparticipar no salário de Iker Casillas. Ou seja, o FC Porto passa a ter que pagar a totalidade do seu vencimento.

Mas o que significa isso? Que Casillas aceita reduzir drasticamente o seu salário? Ou que o próprio FC Porto aceitou igualar as condições que Iker auferia no Real Madrid? Muitas questões. Mas se Pinto da Costa chegou a acordo com o seu representante, há 14 meses, para a renovação do contrato de Casillas...

Não deixa também de ser curioso que Pinto da Costa afirmara que foi proposta a renovação a Iker Casillas quando existia uma cláusula de renovação que poderia ser accionada quando o guarda-redes cumprisse um determinado número de jogos. Ora, esse requisito já foi atingido há três meses, aquando do jogo frente ao Tondela.

Há 14 meses, Pinto da Costa disse haver acordo para renovar. Há três meses, foram atingidas as metas para a renovação automática. Há dois, Iker Casillas assumiu que queria continuar. E dentro de um mês e meio, como será?

O FC Porto tem a melhor média de golos sofridos das principais Ligas Europeias, com 0.47 golos (à frente dos 0.5 do Benfica). É a segunda vez em três anos que o consegue, pois já o tinha feito em 2014-15, era o contestado Fabiano o guarda-redes. 

O FC Porto sofreu apenas 13 golos nessa época, enquanto desta feita sofreu 15, a duas jornadas do final. Ou seja, a qualidade do guarda-redes não fica necessariamente patente nos golos sofridos, pois Fabiano sofreu menos, mas Iker Casillas tem qualidade infinitamente superior. A diferença?

Talvez Fabiano tenha beneficiado de ter à sua frente uma defesa de betão e uma equipa coesa e organizada. Fabiano nunca teve que brilhar mais do que a equipa. Com Iker Casillas, tem sido o contrário: tem sido uma figura determinante no balneário e dentro das quatro linhas. 

Neste momento, o FC Porto não tem jogadores com cultura/experiência de campeão. Só dois jogadores sabem o que é ganhar frequentemente: Maxi Pereira, que veio do rival Benfica, e Iker Casillas. Estará o FC Porto em condições de prescindir de um dos poucos que acrescentam experiência, maturidade, qualidade indiscutível e cultura de campeão ao clube? Ou talvez a questão não seja essa: estará o FC Porto em condições de sustentar um jogador assim?

Segundo a própria palavra de Pinto da Costa, sim. Esperemos que valha tanto quanto a qualidade de Iker Casillas. Dentro e fora do relvado.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sobreviver ao jogo do título

Assim pensou o FC Porto na Luz. A equipa e o treinador sentiram que era melhor segurar o empate do que arriscar perder na procura pela vitória. Só os três pontos colocariam o FC Porto a depender de si próprio, mas no final a equipa sentiu mais confiança em esperar que outra equipa - porventura o Sporting - tire pontos ao Benfica, em vez de arriscar sair da Luz sem um ponto (dessa forma, o Benfica doravante teria que escorregar em duas jornadas, enquanto assim continua a bastar uma - que de nada valerá se o FC Porto não fizer o seu trabalho). Mais do que tentar ganhar, o FC Porto mostrou que o que importava era sair daquele jogo vivo. E saiu. 


Foi a primeira vez que o Benfica de Rui Vitória foi superior num clássico, algo que deve merecer claramente preocupação do FC Porto. Mas convém não esquecer este pormenor: o melhor Benfica dos clássicos não marca um golo de bola corrida. Só o consegue de penalty, ainda que para isso tenha voltado a valer San Iker. 

É um tricampeão de carne e osso que está do outro lado, que no clássico foi melhor do que o FC Porto, mas que não tem vindo a fazer um campeonato em nada superior. Mas merece a preocupação que o Benfica, a quem bastava o empate, tenha feito mais na procura pela vitória do que o FC Porto. Sem que lhe tenha valido de muito. 

Demos um passo atrás nas duas últimas jornadas (o FC Porto passa a ter menos um ponto, menos golos marcados e mais sofridos do que na última época em que esteve na luta pelo título até ao final), mas o Benfica também não deu nenhum em frente. Todos os portistas vão ter grandes expetativas de que o Sporting dê uma ajuda, mas para isso há que fazer a nossa parte - o V. Setúbal tem que servir de exemplo, e o resto do calendário vai oferecer jogos bem mais complicados. Sem margem para errar.




Iker Casillas (+) - Casillas é um dos raros históricos do Real Madrid que é relativamente respeitado pelos adeptos do Barcelona. Admirável, tamanha a rivalidade entre os dois clubes, até porque Casillas passou 16 anos no Real Madrid. No FC Porto, não está há sequer há dois anos... e já entende a rivalidade com o Benfica ao extremo. Não é elegante, mas é ilustrativo: aquele gesto mostrou bem o quão Casillas quer ganhar o Campeonato. Não só ganhar o Campeonato, mas também ganhar o Campeonato ao Benfica. E contribuiu tanto quanto pôde, com dois pares de defesas que aguentaram o pontinho. Quando se fala do bom balneário do FC Porto este ano, não é possível ignorar o papel de Casillas: um profissional que fala não pelo seu passado no Real Madrid, mas por entender aquilo que é o FC Porto. Ah, perdeu tempo? Perdeu. Certamente porque lhe disseram que tinha que segurar o empate. E segurou.


Maxi Pereira (+) - Não dá para disfarçar: os quase 33 anos de Maxi Pereira pesam cada vez mais nas pernas. É notório que lhe custa a recuperar cada vez mais no corredor, sobretudo num jogo em que Alex Telles, no flanco oposto, pouco conseguiu subir. Maxi Pereira não está no auge da sua frescura física, mas podem contar com uma coisa: vai continuar a lutar pelo FC Porto até cair para o lado. O que lhe faltou em pernas compensou com determinação, garra e inconformismo. Foi lá à frente, na raça, fazer o golo do empate e manter o FC Porto de pé na luta pelo título. E por ele, o FC Porto continuará de pé nessa luta. Pelo menos até que Maxi caia para o lado.

Yacine Brahimi (+) - Todos os defesas já sabem o que é que Brahimi vai fazer: vai rodar sobre a bola, tentar puxar para a linha de fundo, aproximar-se da pequena área e fazer o passe atrasado. E mesmo assim, caem sempre: poucos conseguem tirar a bola a Brahimi. Tem o dom de ser imprevisível sendo previsível. O ataque do FC Portos só existiu nos seus pés, na forma como arrastou e rasgou a defesa do Benfica, numa noite em que Corona, Soares e André Silva pouco conseguiram fazer em sentido prático. Falta uma coisa no seu futebol, que é a capacidade de rematar mais quando arranja espaço à entrada da grande área, mas nem isso desta vez o impediu de ser o mais rematador em campo. E uma vez mais vimos muito trabalho de Brahimi sem bola, com 16 duelos ganhos e 12 recuperações. Tem sido um símbolo de inconformismo neste plantel e um oásis numa equipa à qual falta rasgo individual. Com Brahimi, haverá sempre uma solução. Se dá para chegar ou não ao título, veremos. Mas com ele dá para acreditar. 

Uma palavra para um bom jogo de André André, o melhor do meio-campo.




Deixar o Benfica crescer (-) - A boa exibição do FC Porto frente ao Benfica, no Dragão, deveu-se sobretudo à forma como a equipa apertava logo o rival no início de construção. Não dava espaço, obrigava o Benfica a falhar na saída de bola, e depois sim apostava nas transições rápidas que NES tanto aprecia. Na primeira volta funcionou enquanto a equipa declarou essa estratégia. Na Luz, nada disso. O FC Porto entrou a medo, nervoso, com as linhas recuadas. Se é certo que ninguém pode entrar na Luz a oferecer espaço nas costas, o Benfica de Rui Vitória treme sobretudo quando se depara com um rival que assume o jogo e que é forte na pressão.

O FC Porto esteve perdido em campo durante os primeiros 20 minutos, altura em que Óliver fez o primeiro remate e a equipa começou a crescer e a ganhar confiança. Não foi o dia mais feliz para o muitos jogadores, desde Felipe a Corona, passando por Danilo, mas uma equipa que quer ser campeã não pode permitir que o Benfica assuma com tanta facilidade o jogo. Sobretudo quando ainda não o tinha conseguido fazer em clássicos com Rui Vitória.

Sozinh9s (-) - Percebe-se a intenção de NES em reforçar o meio-campo. E entre Soares e André Silva, a opção nunca seria totalmente consensual. Mas tanto um como outro passaram por enormes dificuldades frente ao Benfica: quase sempre longe da grande área, descaídos para o flanco sem sucesso (Brahimi, apesar da intenção de fazê-lo passar para a zona interior, acabava sempre por criar o desequilíbrio a partir do lado esquerdo), expostos a um trabalho que não devia ser o seu. O caso de Soares vem sendo discutido há algumas semanas: é sofrível a forma como é invariavelmente desarmado no 1x1. E não é culpa do jogador, pois não tem caraterísticas para aquela função. Soares faz a diferença na grande área, ou a atacar a profundidade (excelente a forma como sentou Nélson Semedo, porventura o único momento em que conseguiu tirar um defesa da jogada), não a servir de bengala do lado esquerdo para um ataque que, assim, fica sem referência no eixo e na grande área. André Silva também não entrou bem na partida, num clássico muito difícil para os pontas-de-lança do FC Porto, e que a dinâmica ofensiva da equipa não facilitou. Ou havia Brahimi, ou tinha que haver Yacine. Não houve outra solução para o FC Porto.

Meio-campo de rastos (-) - André André e Óliver lutaram, lutaram, lutaram tanto quanto puderam. Mas foi notório, sobretudo à entrada para os últimos 20 minutos, que o meio-campo do FC Porto estava completamente rebentado. Nuno tomou a opção de refrescar a linha da frente, sem mexer no trio do meio-campo, mas  o setor já mal dava resposta em campo. E se o FC Porto estava, declaradamente, à procura de segurar o resultado, ter bola era essencial. A opção passou por mudar as peças de um ataque que mal existia, ao invés de refrescar um meio-campo que não estava a conseguir segurar o Benfica. A exibição de Corona ia pedindo a saída, mas não ter reagido à perda do meio-campo podia ter custado muito caro - Pizzi jogou solto e fez 7 passes para zona de remate, mais do que toda a equipa do FC Porto junta. Deixar o playmaker do adversário com tanto espaço não é bom sinal em qualquer parte do mundo. 

Segue-se o regresso ao Dragão, frente a um Belenenses ao qual não fizemos golos nem na primeira volta nem na Taça da Liga. Serve de aviso. E até ao final da época, já sabemos que não há-de haver empate que nos valha. Pelo menos não no calendário do FC Porto.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O canto de Herrera e a defesa de Casillas

Três coisas diferenciam os dois clássicos que o FC Porto disputou esta época no Estádio do Dragão. Primeira: o FC Porto jogou muito, muito melhor contra o Benfica; Segunda: o erro de Herrera, contra o Benfica, fez notar defeitos nos quais poucos reparariam se o jogo tivesse acabado antes daquele pontapé de canto, enquanto desta vez Casillas evitou uma enxurrada de críticas que provavelmente se seguiriam devido à postura do FC Porto depois do 2x0; por fim, o FC Porto, não jogando bem, consegue um bom resultado contra o Sporting, ao contrário do que aconteceu frente ao Benfica, jogo em que mostrou até determinada altura o melhor futebol da época.

Não é tempo de vitórias morais: o FC Porto precisava de vencer, e venceu. Se era jogo em que se podia jogar mal, desde que se vencesse, era este. Este resultado permite tratar a luta pelo título como um assunto praticamente a 2 até ao final da época, ao mesmo tempo em que deixa o apuramento para a Liga dos Campeões muitíssimo bem encaminhado.


O mérito repete-se: o FC Porto tem mais pontos do que aqueles que tinha em qualquer uma das últimas três épocas, mas tem menos pontos do que o campeão em qualquer uma das últimas sete temporadas. No entanto, há que saudar que em 11 jornadas no Dragão o FC Porto só perdeu 2 pontos, precisamente frente ao Benfica. 

O Sporting é uma equipa extremamente limitada fora de casa. Basta dizer que só ganhou 3 jogos fora de portas no Campeonato, sempre por 1x0, e sempre por um detalhe quase sempre chamado Bas Dost, com dois golos em cima do apito do árbitro. Além de que tem uma diferença de golos negativa fora de casa. O FC Porto não podia falhar. E não falhou. 

Segue-se a primeira de 6 jornadas em que o FC Porto sabe o que tem que fazer para não estar com ouvidos ou esperanças noutros estádios: 18 pontos antes da visita ao Benfica. Aproxima-se o último terço do campeonato e o FC Porto tem, à data de hoje, as melhores condições que já teve esta época para lutar pelo título. Teve, contra o Sporting, a ponta de felicidade que faltou noutras alturas, ainda que seja importante perceber que não hão-de ser muitas as vezes em que se consegue tão bom resultado jogando tão pouco, sobretudo na segunda parte. 





Soares (+) - «Não será de estranhar se NES o utilizar já contra o Sporting, para tentar ganhar o jogador. Se Soares tiver a felicidade de contribuir ativamente para uma vitória no clássico, ganha desde logo um crédito enorme sobre a sua contratação», escrevia O Tribunal do Dragão no post do balanço do mercado. Assim foi, NES lançou logo Soares e foi uma aposta ganha para o clássico, com 2 golos na estreia. De notar que o FC Porto fez apenas 3 remates à baliza em todo o jogo, e desses 2 foram os golos de Soares.

Mas o que mais se fez notar foi a quantidade de vezes que o FC Porto solicitou Soares durante o jogo. Para se ter noção, Soares foi a 38 bolas durante o jogo (André Silva e Diogo Jota, juntos, não costumam ir a tantas num só jogo). É certo que perdeu a maioria dos lances que disputou (24 vezes), mas era difícil pedir mais: arrancou 8 faltas, fez 2 dos 6 passes do FC Porto para situação de finalização e conseguiu 2 golos nos 2 primeiros remates ao serviço do FC Porto. Um estreia de sonho e a confirmação: o clássico serviu para ganhar o jogador, tanto que NES até fez algo que nunca tinha feito esta época - substituir André Silva antes dos 65 minutos.


Casillas (+) - Tremeu num cabeceamento de Bryan Ruiz, não teve punhos de ferro para o remate de Alan Ruiz, e acabou definitivamente com um fantasma chamado... Manuel Neuer. A partir de agora, quando nos lembrarmos de uma exibição sobrenatural de um guarda-redes no Dragão, não nos recordaremos do festival de Neuer pelo Schalke 04. Acabou. Agora pensaremos na exibição de Casillas. Foi apenas uma defesa? Pois foi. Mas foi uma defesa que valeu um clássico, clássico esse que pode valer muito mais nas próximas semanas. No momento em que tudo, literalmente tudo ia cair, Casillas manteve o FC Porto de pé. Que mais se pode pedir a um guarda-redes?

Outra vez, a entrada (+/-) - Dois extremos criativos, dois avançados. Uma ideia clara de começar a pressionar logo no início de construção do Sporting. Abdicar de uma construção mais lenta logo no início para empurrar cedo o Sporting para o seu meio-campo. O FC Porto apresenta-se com unidades e plano de ataque, marca cedo, não deixa o Sporting fazer nada nos primeiros 20 minutos. Tal como contra o Benfica, NES não teve receio de preparar um FC Porto declaradamente ofensivo para o clássico, sem receio do adversário na entrada em campo. Mas uma vez mais, foi uma intenção que se esfumou por completo na segunda parte. A diferença é que desta vez houve Casillas.





Demasiados Rebelos (-) - O Estrela da Amadora tinha, na década de 90, um central chamado Rebelo. Um daqueles dinossauros rijos como já não há no futebol português, guiado pela máxima «ou passa a bola, ou passa o jogador». Rebelo não facilitava: estava lá para chutar a bola para longe. E jogo após jogo, ouvia-se na Reboleira: «Alivia, Rebelo!» E assim era, minuto após minuto: o Rebelo fazia questão de devolver a bola para o meio-campo adversário. Fez bem o seu trabalho.

Houve um fenómeno similar no Dragão: parecia não haver meio-campo, tamanha a insistência em que as bolas era diretamente chutadas em profundidade para as costas das laterais do Sporting. Pode ser uma boa jogada para surpreender o adversário, mas quando o FC Porto não faz outra coisa o jogo todo, é óbvio que há motivos para preocupação.

Danilo, Marcano e Felipe têm uma eficácia de passe acima dos 82% na Liga. São por norma certinhos na saída de bola. Contra o Sporting, Danilo teve 54,2%, Marcano 61,1%, Felipe 78,6%. Mais, Maxi teve 53,3%, Alex Telles 50% e Casillas 39,1%. Isto tem uma justificação: o FC Porto só procurava bater bola na frente para o flanco. Poucas vezes construiu jogadas pelo meio, tanto que Óliver Torres fez apenas 29 passes em todo o jogo e Danilo 24. Em média, Danilo costuma fazer 57 e Óliver 48.

Cada bola longa do FC Porto nas costas das laterais era uma bola entregue ao Sporting. O FC Porto bateu mínimos de posse de bola no campeonato no Dragão, com 34%, mas mais preocupante ainda, errou 37% dos passes que fez. É certo que o 1x0 nasceu, inicialmente, da intenção de uma bola longa, mas houve dois fatores que diferenciaram o lance: primeiro, André Silva ganhou a primeira bola de cabeça, coisa que poucas vezes os avançados do FC Porto conseguiram fazer; depois, Corona soube esperar pelo momento exato para meter a bola no sítio certo na grande área. Foi uma das poucas vezes em que houve cabeça no ataque do FC Porto, em que houve uma jogada desenhada que não fosse um balão para a frente.

O lance do 2x0 ajudou, e muito, a disfarçar uma exibição que estava a ser limitada: o passe de Danilo é soberbo, mas foi a diagonal de Soares a torná-lo ainda melhor. Se é certo que o FC Porto, apesar de tudo, quase não permitiu que o Sporting existisse na primeira parte, na segunda o FC Porto desiste por completo de ter a bola. Apareceram demasiados Rebelos em campo: o que importava era que a bola estivesse longe do meio-campo do FC Porto e que o relógio passasse. O Sporting entra 43 vezes na grande área, faz 18 cruzamentos, e apesar de não ter tido propriamente muitos remates perigosos viu o FC Porto dar-lhe por completo a iniciativa de jogo.

Ganhámos? Sim, que foi o que interessa. Mas bastava Casillas não ter chegado àquela bola, ou Rui Patrício ter chegado a uma das de Soares, que isto e muito mais cairia em cima da exibição da equipa e das opções do treinador. O ideal é que isto tenha sido um meio para um fim: o FC Porto usou armas diferentes para ganhar ao Sporting, mas não tenciona acabar a época a jogar resumido ao chutão para a frente. Se é verdade que no final funcionou, bastava a luva de Casillas ter escorregado e tudo seria diferente. Ganhámos quando importava, mas não vamos ganhar muitas vezes assim. Nem vale a pena tentar.


PS: Um à parte. Se dúvidas existiam para alguns, um exemplo perfeito de como Jorge Jesus nunca, nunca poderá vir a treinar o FC Porto. Nunca. Logo após um clássico, cair em cima de um miúdo que fez a sua estreia pela equipa principal num grande clássico revela um nível de asquerosidade do qual nem Jorge Jesus parecia ser capaz. É certo que o problema maior não é Palhinha: Jorge Jesus estava a deixar uma crítica maior a Bruno de Carvalho do que ao próprio Palhinha. Na prática, o que Jesus estava a afirmar é que não teve os reforços que queria, estava a deixar um recado interno. Por isso, «paga-se um bocadinho caro» ter uma equipa com uma grande base da formação. Acontece que Jorge Jesus estava habituado, no Benfica, a ter todos os jogadores caros que queria. E sem ter compras de luxo, não consegue ir além de um nível mediano que, no final, roça a mediocridade. Um treinador que culpa um jogador de não levar o guião correcto, quando o treinador é que é o responsável por passar o guião aos jogadores, diz tudo sobre o seu nível. Jorge Jesus, no Dragão, nunca. Ou então sim, desde que seja sempre como treinador visitante... e derrotado.