A principal mudança entre 31 de dezembro e 2 de fevereiro foi, definitivamente, esta: a troca de Julen Lopetegui por José Peseiro. E José Peseiro não só herdou a difícil tarefa de ainda lutar por três frentes como acaba, no final do mercado de inverno, por ficar com um plantel enfraquecido face àquele que Lopetegui tinha em mãos no início do mês. É um plantel com menos qualidade... Mas isso não significa necessariamente uma equipa mais fraca.
Saíram Cissokho, Lichnovsky, Imbula, Tello e Osvaldo e entraram José Sá, Marega e Suk. O FC Porto perdeu qualidade. Muita qualidade. Imbula, Tello ou Osvaldo são jogadores com maiores potencialidades do que Marega e Suk. Mas a verdade é que não eram titulares do FC Porto, nem estavam a justificar sê-lo, apesar de sabermos que tinham qualidade para muito mais. Será difícil que Suk ou Marega façam pior em termos de rendimento na equipa principal, pois de facto Imbula, Tello e Osvaldo pouco estavam a acrescentar em termos práticos à equipa.
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| A mesma expressão desde o início |
Para começar, jogando bem ou mal, muito ou pouco, Imbula iria sair no fim da época, com o preço referência de venda de 30M€. Não é um Roberto, é um Ramires: um jogador contratado para jogar apenas um ano e depois ir para uma liga melhor. Mas ao contrário do exemplo de Ramires, que num ano foi sempre titular e ajudou o Benfica a ser campeão, tudo correu mal com Imbula. Porquê? Porque foi um péssimo profissional desde o primeiro dia em que cá pôs os pés.
Nem era suposto Imbula vir para o FC Porto, mas a Doyen chateou-se com os compadres de Milão e o negócio caiu. E o FC Porto procedeu então àquilo que não deve voltar a fazer: ter que convencer um jogador a assinar pelo FC Porto.
Chega disso. Têm que ser os jogadores a convencer o FC Porto a contratá-los, e não o contrário. Ter um convite do FC Porto tem que ser algo encarado como único por qualquer jogador. Com Imbula, até Pinto da Costa teve que persuadir o jogador a assinar. Casillas, que podia ter ido para qualquer equipa do mundo, quis vir para o FC Porto, por mais variadas que fossem as suas motivações; já Imbula, que em 2014 era considerado um flop na liga francesa (convenhamos que isso não quer dizer nada, pois Moutinho estava na mesma lista), não é um internacional A e sempre mostrou mais potencial do que qualidade imediata, teve que ver o FC Porto prestar vassalagens para o contratar.
A história do Ferrari foi muito engraçada, sem dúvida, e Pinto da Costa é inteligente: era preciso criar união e responsabilizar alguém pelos últimos meses. Atirou as culpas para Lopetegui, o que correspondia ao sentimento de 90% dos portistas. Mas Lopetegui é um homem crescido, e pode muito bem apresentar a sua versão. Ele já disse que Imbula não era uma prioridade sua, o que é verdade, mas se calhar também podia ter dito que quem ele queria era Darder, que custava metade de Imbula.
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| O outro Ferrari |
É verdade que Lopetegui não deixou de idealizar planos de equipa A para Imbula. Lógico, pois todos sabem que é um jogador com potencial e caraterísticas interessantes. Rezam as crónicas que, nos primeiros treinos de pré-época, Imbula tinha a mania de pegar na bola, galgar 40 metros e deixar 2 ou 3 jogadores para trás. Isto não é uma mania, isto é uma grande qualidade. O problema é que depois ou rematava mal (marca poucos golos, por mais que lhe queriam associar o estatuto de especialista em meia distância) ou não acertava um bom passe.
Em 2 épocas como titular do Marselha fez apenas 3 golos e 4 assistências. É muito pouco para um médio de 20M€. André André, só este ano, já leva 5 golos e 5 assistências. Podemos então lançar a questão: de que vale ter um jogador que leva tudo à frente no meio-campo se, ao chegar perto da grande área, depois não faz um bom remate ou um bom último passe?
Quando assim é, o treinador tem que fazer uma de duas coisas: ou ajuda o jogador a melhorar o último passe e o remate; ou coloca-o numa função mais recuada do meio-campo. Lopetegui tentou as duas; e Imbula não quis saber de nenhuma, porque estava a borrifar-se para o FC Porto e para este ano de transição na sua carreira. A determinada altura, a sua postura em campo quase pareceu gozo para com o treinador: «Ai não querem que arranque? Então vou jogar a passo, quietinho, cá atrás».
É absolutamente inadmissível o FC Porto admitir nos seus quadros um jogador que desiste das aulas de português logo na primeira semana. Isto mostrou logo ao que vinha Imbula: quem quiser que me entenda. É óbvio que isso complicou a comunicação entre o jogador e a equipa técnica, que dava instruções e Imbula ou as ignorava ou não compreendia.
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| O exemplo |
Não podemos lamentar aquilo que Imbula possa vir a ser. Temos que avaliar aquilo que ele era no FC Porto: um jogador que não trabalhava, não se empenhava em melhorar e que nunca mostrou interesse em singrar no clube. De nada vale ter todo o potencial do mundo se não se trabalha nem com ele nem para evoluir. De qualquer forma, iria sair no fim da época. Assim sendo, antecipa-se a saída e resolve-se um grande problema. Nem com a chegada de Peseiro Imbula pensou «ok, livrei-me do Lopetegui, posso agora mostrar que o problema era o treinador». Mas não, Imbula comportou-se exatamente da mesma maneira. E Peseiro deu-lhe o mesmo tratamento que Lopetegui: banco. Porquê? Porque a culpa sempre foi do jogador.
Em relação ao negócio. Mark Hughes queria muito Imbula no Stoke, e com o novos contrato de direitos televisivos em Inglaterra vamos passar a ver muito isto: os Crystal Palaces, os Norwichs e os Watfords vão passar a ter argumentos financeiros (resta saber se terão desportivos) para contratar os melhores jogadores dos clubes portugueses. No caso de Imbula, resolveu um grande problema ao FC Porto... e à Doyen.
Aconteceu o que era suposto acontecer com Adrián: se o jogador não engata, quem o trouxe leva-o para outro lado, cobrindo os custos. O problema é que nem Jorge Mendes, o melhor empresário do mundo, conseguiu encontrar solução para a borrada que foi a época de Adrián. No caso de Imbula, Mark Hughes foi o melhor aliado do FC Porto, pois fartou-se de insistir junto do Stoke para o contratarem. E assim se fez o negócio - o Stoke anunciou 18,3M de libras, o que dá 24,08M€ (a SAD não acrescentou estes 80 mil euros no comunicado à CMVM). O FC Porto fica ainda com uma mais-valia de 15%, mas para este valor ter algum impacto Imbula terá que ser transferido por uma grande quantia - por exemplo, se sair no futuro por 40M€, o FC Porto recebe 2,4 milhões. Dificilmente esta mais-valia terá grande, ou sequer algum, impacto.
O importante, aqui, era cobrir o investimento inicial, ou pelo menos minimizar as perdas. Não há lucro de 4M€, claro que não, simplesmente porque há outras despesas a ter em conta.
Entre 20M€ que o FC Porto deverá receber, esta parcela vai direta para a Doyen e/ou Marselha. Dizer que os restantes 4M€ são lucro é ignorar outras despesas, como por exemplo as comissões aquando foi contratado (só o pai de Imbula ganhou 2M€), as comissões desta transferência, os mecanismos de solidariedade FIFA e os prémios de assinatura/fidelidade que possam ter sido pagos a Imbula. Isto já para não falar nos salários que Imbula foi recebendo sem justificar um cêntimo. No final a passagem de Imbula pelo FC Porto dá prejuízo, mas o que importava era minimizá-lo tanto quanto possível. E no final das contas, 24M€ por um jogador que não mostrou nada na sua passagem pelo FC Porto é uma salvação caída do céu.
Que o sucesso de Imbula na sua carreira profissional seja proporcional ao quanto ele lutou para ajudar o FC Porto a atingir os seus objetivos.
As chegadas de Suk, Marega e José Sá já tinham sido analisadas. O FC Porto acabou por não conseguir contratar mais ninguém, nem mesmo quando José Peseiro tinha a expetativa de receber reforços - não jogadores, mas sim reforços. Se já era difícil pedir a um treinador que não está habituado a lutar por título corresponder aos objetivos do início de época, mais difícil fica. A SAD delegou a José Peseiro o desafio, a responsabilidade, mas não lhe deu recursos.
Peseiro tem um plantel, do ponto de vista de qualidade e potencial, inferior ao que Lopetegui tinha. Mas como já foi dito, isso não significa que fique com uma equipa pior. Para já, Peseiro só tem que tentar tirar o melhor partido possível das armas que tem à disposição, ele que certamente se irá agarrar a algo como o chavão «só faz falta quem cá está e tenho confiança em todos os meus jogadores». Que remédio!
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| Um trio de classe... nacional |
Sobre os centrais, há algo que importa clarificar: Maicon, Indi e Marcano têm que ser suficientes para consumo interno. Não pode haver dúvidas quanto a isso. Acham que Naldo ou Jardel tinham lugar numa grande equipa europeia? Claro que não. Mas para o campeonato português, serão sempre acima da média. Na prática, a SAD não quis reforçar o setor defensivo: saiu Lichnovsky, que era o 4º central, e só voltará a ser solicitado um central da equipa B caso alguém se lesione na equipa A.
O FC Porto nunca contratou um central para ser titular no mercado de inverno. Não podemos nunca pensar num central, temos que pensar numa dupla. Era difícil proceder a essa troca. Logo, ou se encontrava um central capaz de ser de imediato o patrão, ou não faria sentido. A SAD não encontrou esse nome e, assim, a defesa não sofre alterações. Não temos uma grande dupla de centrais, mas temos a melhor defesa da liga. Mas sendo José Peseiro um treinador que se expõe muito na transição defensiva, vai ser complicado continuar a ter a melhor defesa. Peseiro não se importa, pois o seu futebol é mais propício ao 3-2 do que ao 1-0. Mas terá o FC Porto atacantes de qualidade suficiente para assegurar que o ataque vai compensar os erros da defesa?
Sérgio Oliveira ia ser emprestado, mas acabou por ficar. Vai passar mais meio ano entre a bancada e tempo residual de jogo, o que deixa antever que no fim da época vai muito provavelmente começar a ser emprestado. Quanto a André Silva, a sua continuidade só fará sentido se não lhe derem o tratamento que foi dado a Gonçalo Paciência na segunda metade de 2014-15. Se ficou, que seja para jogar. E felizmente, abortaram o disparate que era emprestar Gudiño - se fosse emprestado por meia época, deixava de ser considerado jogador formado no FC Porto no futuro, e isso é algo de que precisamos nas inscrições para a UEFA.
Quanto ao tal médio criativo que falta(va), o reforço é este: Alberto Bueno. Não deram um único reforço a José Peseiro, nenhum pedido do treinador, logo Peseiro terá que trabalhar com o que tem. Se Bueno não estivesse lesionado já se teria estreado antes. Oxalá possa ser uma boa surpresa.
O FC Porto aproveitou ainda para trazer mais três estrangeiros para a equipa B. Erik Palmer-Brown é emprestado pelo Sporting Kansas City e é o primeiro norte-americano nos quadros do FC Porto (exceção ao jovem Samir Badr, que era sub-19 sem experiência senior). Vai para o lugar de Maurício, que estava emprestado pelo Portimonense e que segue para o Marítimo à boleia do negócio Marega/Sá. Desconhece-se o valor de Palmer-Brown.
Ah, e Wellington, outra daquelas contratações que são feitas não por valor desportivo, mas porque dá jeito a alguém, vai para o Leixões sem ter feito um único jogo pela equipa B. É fácil de explicar: Wellington estava emprestado pelo Grémio Anápolis, clube que é controlado pelo empresário António Teixeira. Até Teixeira viu mais pedidos satisfeitos do que Peseiro no mercado de inverno.
Nassim também chega emprestado pelo V. Guimarães. O que esperar de um jogador que não era titular indiscutível na equipa B do Vitória e que não mostrou nenhum potencial por aí além? Faz lembrar a contratação de Cláudio Ribeiro.
Por fim, chegou Haykeul Chikhaoui, um desconhecido para todos, a não ser que tenham tirado muitos apontamentos dos 4 minutos que ele jogou ao serviço do Sochaux na segunda liga francesa. Assinou um contrato de dois anos e meio.
Não temos um plantel mais forte. Resta lutar para ter uma equipa forte o suficiente para honrar o FC Porto e continuar a lutar pelos objetivos assumidos pelo clube. Força Peseiro e força equipa.
PS: Qual foi o único clube representado na defesa à Doyen Sports num painel de defesa do TPO? A refletir.
PS: Qual foi o único clube representado na defesa à Doyen Sports num painel de defesa do TPO? A refletir.





























