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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Imbula e um plantel enfraquecido

A principal mudança entre 31 de dezembro e 2 de fevereiro foi, definitivamente, esta: a troca de Julen Lopetegui por José Peseiro. E José Peseiro não só herdou a difícil tarefa de ainda lutar por três frentes como acaba, no final do mercado de inverno, por ficar com um plantel enfraquecido face àquele que Lopetegui tinha em mãos no início do mês. É um plantel com menos qualidade... Mas isso não significa necessariamente uma equipa mais fraca.

Saíram Cissokho, Lichnovsky, Imbula, Tello e Osvaldo e entraram José Sá, Marega e Suk. O FC Porto perdeu qualidade. Muita qualidade. Imbula, Tello ou Osvaldo são jogadores com maiores potencialidades do que Marega e Suk. Mas a verdade é que não eram titulares do FC Porto, nem estavam a justificar sê-lo, apesar de sabermos que tinham qualidade para muito mais. Será difícil que Suk ou Marega façam pior em termos de rendimento na equipa principal, pois de facto Imbula, Tello e Osvaldo pouco estavam a acrescentar em termos práticos à equipa.

A mesma expressão desde o início
O mais importante não é ter qualidade: é o que se faz com a qualidade que se tem. E com isto podemos começar a falar de Imbula, que em boa hora saiu do FC Porto.

Para começar, jogando bem ou mal, muito ou pouco, Imbula iria sair no fim da época, com o preço referência de venda de 30M€. Não é um Roberto, é um Ramires: um jogador contratado para jogar apenas um ano e depois ir para uma liga melhor. Mas ao contrário do exemplo de Ramires, que num ano foi sempre titular e ajudou o Benfica a ser campeão, tudo correu mal com Imbula. Porquê? Porque foi um péssimo profissional desde o primeiro dia em que cá pôs os pés.

Nem era suposto Imbula vir para o FC Porto, mas a Doyen chateou-se com os compadres de Milão e o negócio caiu. E o FC Porto procedeu então àquilo que não deve voltar a fazer: ter que convencer um jogador a assinar pelo FC Porto.

Chega disso. Têm que ser os jogadores a convencer o FC Porto a contratá-los, e não o contrário. Ter um convite do FC Porto tem que ser algo encarado como único por qualquer jogador. Com Imbula, até Pinto da Costa teve que persuadir o jogador a assinar. Casillas, que podia ter ido para qualquer equipa do mundo, quis vir para o FC Porto, por mais variadas que fossem as suas motivações; já Imbula, que em 2014 era considerado um flop na liga francesa (convenhamos que isso não quer dizer nada, pois Moutinho estava na mesma lista), não é um internacional A e sempre mostrou mais potencial do que qualidade imediata, teve que ver o FC Porto prestar vassalagens para o contratar.

A história do Ferrari foi muito engraçada, sem dúvida, e Pinto da Costa é inteligente: era preciso criar união e responsabilizar alguém pelos últimos meses. Atirou as culpas para Lopetegui, o que correspondia ao sentimento de 90% dos portistas. Mas Lopetegui é um homem crescido, e pode muito bem apresentar a sua versão. Ele já disse que Imbula não era uma prioridade sua, o que é verdade, mas se calhar também podia ter dito que quem ele queria era Darder, que custava metade de Imbula.

O outro Ferrari
Mas a SAD do FC Porto está agarrada a uma gestão segundo a qual torna-se mais fácil ir buscar o mais caro do que o mais barato. Porquê? Porque os fundos só colaboram na contratação de quem lhes interesse. Se a Doyen tinha Imbula para colocar, algum dia iria abdicar de um jogador do seu catálogo para ajudar o FC Porto a contratar Darder? Lógico que não. Veio então Imbula pelo dobro do preço, comportando-se como se estivesse a fazer um favor a alguém e com um progenitor que nos faz sentir saudades de Washington Alves.

É verdade que Lopetegui não deixou de idealizar planos de equipa A para Imbula. Lógico, pois todos sabem que é um jogador com potencial e caraterísticas interessantes. Rezam as crónicas que, nos primeiros treinos de pré-época, Imbula tinha a mania de pegar na bola, galgar 40 metros e deixar 2 ou 3 jogadores para trás. Isto não é uma mania, isto é uma grande qualidade. O problema é que depois ou rematava mal (marca poucos golos, por mais que lhe queriam associar o estatuto de especialista em meia distância) ou não acertava um bom passe. 

Em 2 épocas como titular do Marselha fez apenas 3 golos e 4 assistências. É muito pouco para um médio de 20M€. André André, só este ano, já leva 5 golos e 5 assistências. Podemos então lançar a questão: de que vale ter um jogador que leva tudo à frente no meio-campo se, ao chegar perto da grande área, depois não faz um bom remate ou um bom último passe?

Quando assim é, o treinador tem que fazer uma de duas coisas: ou ajuda o jogador a melhorar o último passe e o remate; ou coloca-o numa função mais recuada do meio-campo. Lopetegui tentou as duas; e Imbula não quis saber de nenhuma, porque estava a borrifar-se para o FC Porto e para este ano de transição na sua carreira. A determinada altura, a sua postura em campo quase pareceu gozo para com o treinador: «Ai não querem que arranque? Então vou jogar a passo, quietinho, cá atrás». 

É absolutamente inadmissível o FC Porto admitir nos seus quadros um jogador que desiste das aulas de português logo na primeira semana. Isto mostrou logo ao que vinha Imbula: quem quiser que me entenda. É óbvio que isso complicou a comunicação entre o jogador e a equipa técnica, que dava instruções e Imbula ou as ignorava ou não compreendia. 

O exemplo
Depois, andar a passo nos treinos, não percebendo que era precisamente por essa atitude que não jogava, diz tudo sobre a falta de espírito competitivo deste jogador. Em vez de pensar «porra, estou a ser suplente de um gajo que veio do Vitória de Guimarães, que custou 13 vezes menos e que ganha 5 vezes menos do que eu, que vergonha!», pensou: «Porra, estou a ser suplente de um gajo que veio do Vitória de Guimarães, que custou 13 vezes menos e que ganha 5 vezes menos do que eu - o FC Porto não percebe mesmo nada disto!».

Não podemos lamentar aquilo que Imbula possa vir a ser. Temos que avaliar aquilo que ele era no FC Porto: um jogador que não trabalhava, não se empenhava em melhorar e que nunca mostrou interesse em singrar no clube. De nada vale ter todo o potencial do mundo se não se trabalha nem com ele nem para evoluir. De qualquer forma, iria sair no fim da época. Assim sendo, antecipa-se a saída e resolve-se um grande problema. Nem com a chegada de Peseiro Imbula pensou «ok, livrei-me do Lopetegui, posso agora mostrar que o problema era o treinador». Mas não, Imbula comportou-se exatamente da mesma maneira. E Peseiro deu-lhe o mesmo tratamento que Lopetegui: banco. Porquê? Porque a culpa sempre foi do jogador.

Em relação ao negócio. Mark Hughes queria muito Imbula no Stoke, e com o novos contrato de direitos televisivos em Inglaterra vamos passar a ver muito isto: os Crystal Palaces, os Norwichs e os Watfords vão passar a ter argumentos financeiros (resta saber se terão desportivos) para contratar os melhores jogadores dos clubes portugueses. No caso de Imbula, resolveu um grande problema ao FC Porto... e à Doyen.

Aconteceu o que era suposto acontecer com Adrián: se o jogador não engata, quem o trouxe leva-o para outro lado, cobrindo os custos. O problema é que nem Jorge Mendes, o melhor empresário do mundo, conseguiu encontrar solução para a borrada que foi a época de Adrián. No caso de Imbula, Mark Hughes foi o melhor aliado do FC Porto, pois fartou-se de insistir junto do Stoke para o contratarem. E assim se fez o negócio - o Stoke anunciou 18,3M de libras, o que dá 24,08M€ (a SAD não acrescentou estes 80 mil euros no comunicado à CMVM). O FC Porto fica ainda com uma mais-valia de 15%, mas para este valor ter algum impacto Imbula terá que ser transferido por uma grande quantia - por exemplo, se sair no futuro por 40M€, o FC Porto recebe 2,4 milhões. Dificilmente esta mais-valia terá grande, ou sequer algum, impacto.

O importante, aqui, era cobrir o investimento inicial, ou pelo menos minimizar as perdas. Não há lucro de 4M€, claro que não, simplesmente porque há outras despesas a ter em conta.

Entre 20M€ que o FC Porto deverá receber, esta parcela vai direta para a Doyen e/ou Marselha. Dizer que os restantes 4M€ são lucro é ignorar outras despesas, como por exemplo as comissões aquando foi contratado (só o pai de Imbula ganhou 2M€), as comissões desta transferência, os mecanismos de solidariedade FIFA e os prémios de assinatura/fidelidade que possam ter sido pagos a Imbula. Isto já para não falar nos salários que Imbula foi recebendo sem justificar um cêntimo. No final a passagem de Imbula pelo FC Porto dá prejuízo, mas o que importava era minimizá-lo tanto quanto possível. E no final das contas, 24M€ por um jogador que não mostrou nada na sua passagem pelo FC Porto é uma salvação caída do céu.

Que o sucesso de Imbula na sua carreira profissional seja proporcional ao quanto ele lutou para ajudar o FC Porto a atingir os seus objetivos. 

As chegadas de Suk, Marega e José Sá já tinham sido analisadas. O FC Porto acabou por não conseguir contratar mais ninguém, nem mesmo quando José Peseiro tinha a expetativa de receber reforços - não jogadores, mas sim reforços. Se já era difícil pedir a um treinador que não está habituado a lutar por título corresponder aos objetivos do início de época, mais difícil fica. A SAD delegou a José Peseiro o desafio, a responsabilidade, mas não lhe deu recursos

Peseiro tem um plantel, do ponto de vista de qualidade e potencial, inferior ao que Lopetegui tinha. Mas como já foi dito, isso não significa que fique com uma equipa pior. Para já, Peseiro só tem que tentar tirar o melhor partido possível das armas que tem à disposição, ele que certamente se irá agarrar a algo como o chavão «só faz falta quem cá está e tenho confiança em todos os meus jogadores». Que remédio!

Um trio de classe... nacional
O grande reforço acabou por ser a folga na folha salarial. Imbula, Tello e Osvaldo estavam entre os sete mais bem pagos do FC Porto. Na relação custo/rendimento, é difícil que Marega ou Suk façam pior. Mas havia expetativas de que os três nomes fortes que saíram fosse opção para a equipa titular; algo que não acontece com Marega e Suk. Outros tinham a qualidade, mas não o rendimento; quem veio tem menos qualidade, mas será difícil render menos do que quem saiu.

Sobre os centrais, há algo que importa clarificar: Maicon, Indi e Marcano têm que ser suficientes para consumo interno. Não pode haver dúvidas quanto a isso. Acham que Naldo ou Jardel tinham lugar numa grande equipa europeia? Claro que não. Mas para o campeonato português, serão sempre acima da média. Na prática, a SAD não quis reforçar o setor defensivo: saiu Lichnovsky, que era o 4º central, e só voltará a ser solicitado um central da equipa B caso alguém se lesione na equipa A. 

O FC Porto nunca contratou um central para ser titular no mercado de inverno. Não podemos nunca pensar num central, temos que pensar numa dupla. Era difícil proceder a essa troca. Logo, ou se encontrava um central capaz de ser de imediato o patrão, ou não faria sentido. A SAD não encontrou esse nome e, assim, a defesa não sofre alterações. Não temos uma grande dupla de centrais, mas temos a melhor defesa da liga. Mas sendo José Peseiro um treinador que se expõe muito na transição defensiva, vai ser complicado continuar a ter a melhor defesa. Peseiro não se importa, pois o seu futebol é mais propício ao 3-2 do que ao 1-0. Mas terá o FC Porto atacantes de qualidade suficiente para assegurar que o ataque vai compensar os erros da defesa?

Sérgio Oliveira ia ser emprestado, mas acabou por ficar. Vai passar mais meio ano entre a bancada e tempo residual de jogo, o que deixa antever que no fim da época vai muito provavelmente começar a ser emprestado. Quanto a André Silva, a sua continuidade só fará sentido se não lhe derem o tratamento que foi dado a Gonçalo Paciência na segunda metade de 2014-15. Se ficou, que seja para jogar. E felizmente, abortaram o disparate que era emprestar Gudiño - se fosse emprestado por meia época, deixava de ser considerado jogador formado no FC Porto no futuro, e isso é algo de que precisamos nas inscrições para a UEFA.

Quanto ao tal médio criativo que falta(va), o reforço é este: Alberto Bueno. Não deram um único reforço a José Peseiro, nenhum pedido do treinador, logo Peseiro terá que trabalhar com o que tem. Se Bueno não estivesse lesionado já se teria estreado antes. Oxalá possa ser uma boa surpresa.

O FC Porto aproveitou ainda para trazer mais três estrangeiros para a equipa B. Erik Palmer-Brown é emprestado pelo Sporting Kansas City e é o primeiro norte-americano nos quadros do FC Porto (exceção ao jovem Samir Badr, que era sub-19 sem experiência senior). Vai para o lugar de Maurício, que estava emprestado pelo Portimonense e que segue para o Marítimo à boleia do negócio Marega/Sá. Desconhece-se o valor de Palmer-Brown. 

Ah, e Wellington, outra daquelas contratações que são feitas não por valor desportivo, mas porque dá jeito a alguém, vai para o Leixões sem ter feito um único jogo pela equipa B. É fácil de explicar: Wellington estava emprestado pelo Grémio Anápolis, clube que é controlado pelo empresário António Teixeira. Até Teixeira viu mais pedidos satisfeitos do que Peseiro no mercado de inverno.

Nassim também chega emprestado pelo V. Guimarães. O que esperar de um jogador que não era titular indiscutível na equipa B do Vitória e que não mostrou nenhum potencial por aí além? Faz lembrar a contratação de Cláudio Ribeiro.

Por fim, chegou Haykeul Chikhaoui, um desconhecido para todos, a não ser que tenham tirado muitos apontamentos dos 4 minutos que ele jogou ao serviço do Sochaux na segunda liga francesa. Assinou um contrato de dois anos e meio.

Não temos um plantel mais forte. Resta lutar para ter uma equipa forte o suficiente para honrar o FC Porto e continuar a lutar pelos objetivos assumidos pelo clube. Força Peseiro e força equipa.

PS: Qual foi o único clube representado na defesa à Doyen Sports num painel de defesa do TPO? A refletir

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rescaldo da entrevista

Começando por uma curta nota para José Peseiro. Apresentação normal, discreta, com duas coisas a destacar: o assumir de que o objetivo é ganhar as três competições em que o FC Porto ainda está envolvido e a mensagem de apelo a que «os portistas não sejam os adversários». Repetiu umas dez vezes a palavra «ideias», a expressão-chave no post de reação à sua contratação, e agora resta dar tempo e tranquilidade ao treinador para trabalhar com o plantel. 

A entrevista de Pinto da Costa abre com as declarações de Vítor Baía. Fernanda Miranda falou pela primeira vez para atacar o ex-guarda-redes, Fernando Cerqueira emitiu um lençol de texto a reagir e o primeiro quarto de hora da entrevista foi dedicado a esse tema. As declarações de Vítor Baía causaram desconforto, disso ninguém duvida. Mas foi inteligente convidarem Vítor Baía a avançar para a presidência do FC Porto - isto porque sabem que provavelmente nunca será o rosto de uma candidatura, mas pode lançar a passadeira para que outro(s) o faça(m). O primeiro passo foi colocar tudo no mesmo saco da atual estrutura, dizendo que «varria tudo». Um extremismo que incomodou muita gente, mas foi o mais próximo de uma oposição declarada publicamente que o FC Porto teve desde Martins Soares.

14º mandato avança
De qualquer forma, o primeiro grande destaque de Pinto da Costa, e que é uma boa notícia, foi dizer que gostava que o seu sucessor não fosse «ninguém apoiado pelo Correio da Manhã» e que fosse «portista desde pequenino». De uma assentada, podemos então concluir que Alexandre Pinto da Costa e Fernando Gomes estão fora da corrida face ao que o presidente gostaria de ver? 

Juca, dentro dos limites óbvios do contexto, fez algumas perguntas que já cruzavam o limite, mas Pinto da Costa reagiu a todas à Neo. Sobretudo porque Júlio Magalhães não iria insistir num tema ao qual já teve uma primeira resposta.

O caso mais flagrante foi precisamente a questão da existência de conflitos internos. Como é óbvio, jamais o presidente do FC Porto iria admitir qualquer tipo de conflito existente na estrutura. Não é uma pergunta incómoda, pois é uma pergunta facilmente desmentível.

Só que depois Pinto da Costa desvia atenções, e como é óbvio Juca não iria insistir. O presidente diz que Alexandre Pinto da Costa só é empresário de «um rapaz dos juniores», de seu nome Rui Pedro, já agora. Pois, mas ninguém disse que Alexandre Pinto da Costa era empresário de nenhum jogador do FC Porto, porque não é. E o que levanta questões é isso: porque é que Alexandre, não sendo empresário de jogadores como Atsu, Rolando ou Carlos Eduardo, surgiu como intermediário em todos eles?

Assim é fácil. Alexandre Pinto da Costa não representa jogadores de relevo, daí que a Energy Soccer seja a única empresa de agenciamento de jogadores que apresenta esta bem disposta introdução no seu site:


Além disso, por exemplo, em 2013 o Estoril pagou-lhe 123 mil euros de comissão por Carlos Eduardo e o Inter 60 mil por Rolando. Ainda assim, o FC Porto também lhe pagou comissões sobre estes jogadores, entre um total de 430 mil euros de comissões por intermediações entre 2012 e 2013. Esta sim, é a grande questão. E nota-se o padrão: todos os jogadores que ele intermediou saíram do FC Porto ora a mal, ora em transferências pouco esclarecedoras.

Pinto da Costa acaba por não confirmar se foi Alexandre Pinto da Costa a intermediar Suk. Ainda assim, o presidente diz que tratou tudo diretamente com Fernando Oliveira, a pedido de Lopetegui, enquanto Fernando Oliveira disse o contrário, disse que quem tratou as coisas com o FC Porto foi «o empresário». Em que ficamos?

Segundo Pinto da Costa, Suk foi contratado a pedido de Lopetegui. E ainda bem que José Peseiro, aparentemente, gosta dele, caso contrário o pobre do Suk ficava «ali caído nos braços» sem que o FC Porto soubesse o que fazer com ele. E aqui surge outro dos destaques da entrevista: a passagem de responsabilidades a Lopetegui.

A história do Ferrari foi engraçada, sem dúvida. Mas se Lopetegui não fosse treinador do FC Porto, Imbula poderia na mesma ter vindo; mas se Imbula não tivesse ligação à Doyen, não viria de certeza, nem que Lopetegui fosse a Maranello pedir de joelhos. Se Imbula não jogava mais é porque não trabalhava o suficiente para isso. Contam-se pelos dedos os jogadores que diziam ser «mal aproveitados» no FC Porto que acabaram por ter grande sucesso noutros clubes. Porquê? Porque, regra geral, os treinadores do FC Porto têm sempre tido razão sobre a quem dar ou não oportunidades.

Quando Imbula desiste logo na primeira semana de aprender português, não revela grande interesse em adaptar-se ao clube e à cidade. É verdade que Lopetegui disse a Imbula que as suas caraterísticas encaixavam na equipa, o que não parecia ser de todo o caso. De qualquer forma, se Imbula trabalhasse mais, de certeza que jogaria mais.  As caraterísticas de Herrera também não são o protótipo num modelo de posse. Porque é que joga? Porque trabalha mais do que os concorrentes. Se  Imbula trabalhar mais com Peseiro, de certeza que joga mais. 

Curioso é Pinto da Costa ter dito que negócios como o de Adrián López nunca mais, mas o de Imbula não é assim tão diferente. E podemos então falar de Adrián López.

Para começar, a história de que foi Lopetegui a pedir a transferência de Adrián López. Isto sim, teria sido interessante perguntar na entrevista, a propósito de novos leaks.

9 de julho de 2013. É esta a data em que está celebrada a transferência de Adrián para o FC Porto, ainda Paulo Fonseca estava a começar a pré-época e Lopetegui era um desconhecido para 99,99% dos portistas. O documento é assinado por Pinto da Costa e Adelino Caldeira (que, ao contrário de Antero Henrique e Reinaldo Teles, não foi mencionado por Pinto da Costa entre a cúpula de decisões da SAD).



Hipóteses: o documento é falso. Assim sendo, o FC Porto só teria que avançar para instâncias judiciais, pois seria sinal de que o Football Leaks estava a usar a assinatura do presidente do FC Porto para fasificar documentos. É verdade que num canto discreto do documento está a data de 14/07/2014, mas deduz-se que esta tenha sido a data em que o fax foi enviado (dois dias depois de assinar pelo FC Porto). Mas como ninguém pode acreditar que o FC Porto assinaria, por dois máximos responsáveis, um documento de 11M€ em que tem um erro na primeira página, das duas uma: ou o documento é falso; ou Adrián López já tinha sido de facto contratado em 2013, para chegar um ano depois. 

Pinto da Costa critica publicamente Jorge Mendes, confirmando o que O Tribunal do Dragão escreveu muito antes sobre o carro, o stand e a gasolina. O problema é que ninguém imaginaria que Adrián fizesse uma época tão má a ponto de parecer que nem correr sabia. Assim, foi impossível encontrar quem o avaliasse em 11M€. E então vamos ver se também será fácil encontrar alguém que continue a avaliar Imbula acima de 20M€.

Adrián López não custou nada na época 2014-15, mas como O Tribunal do Dragão escreveu não havendo acordo para recolocar o jogador Adrián começaria a dar prejuízo a partir do 1º trimestre de 2015-16. Pinto da Costa confirmou isso mesmo. Agora, delegar a responsabilidade disso mesmo a Lopetegui não parece o mais correto, a não ser que o FC Porto decida desmentir que o mesmo tinha sido contratado já em 2013. Agora, com estas críticas a Jorge Mendes, de quem se dizia que as relações já não andavam a ser as melhores, que vai acontecer? Ainda mais negócios com a Doyen?

Pinto da Costa também responsabilizou Lopetegui pela ausência de títulos, ele que não costuma criticar ex-treinadores. Em vez de realçar que Lopetegui não foi campeão, talvez fosse interesse comentar por que é que o FC Porto, fazendo 82 pontos no campeonato, não foi campeão; podia explicar por que é que só Lopetegui fazia a defesa pública do FC Porto, enquanto a SAD ficava calada enquanto assistia à forma como o Benfica se aguentava no primeiro lugar. Enfim, estamos em plena época 2015-16 e não faz sentido continuar a lamentar o que aconteceu em 2014-15. Mas não queiram que Lopetegui seja o máximo responsável pela época passada, porque nunca o será, não isoladamente.

Outra justificação que não pareceu fazer sentido foi dizer que «Lopetegui não se adaptou». Foi preciso 18 meses para descobrir isso? Se o FC Porto tivesse espetado 3 ou 4 ao Rio Ave, de certeza que Lopetegui continuaria. Não foi um jogo a definir se Lopetegui estava ou não adaptado.

Todos sabem que Peseiro não foi a primeira opção. E não, Peseiro não contradisse a SAD do FC Porto. Como é óbvio, a SAD sondou várias possibilidades depois de despedir Lopetegui. Sondar não é negociar. Que não foi primeira ou segunda opção, todos sabem que não. E pelo currículo dos últimos 10 anos - ou seja, Pinto da Costa não está a apostar no percurso de Peseiro, está a apostar (lá está) nas suas ideias -, ser a 10.ª opção para treinar um clube como o FC Porto já era uma honra.

Interessante quando Juca tentou realçar que a boa época da equipa B se deveria à chegada de vários jogadores estrangeiros. Pinto da Costa impôs-se, ao dizer que isto eram os «frutos» de muito trabalho, e deu o exemplo de... Rúben Neves. Um rapaz que nunca sequer foi chamado para treinar com os juniores, nem sequer na equipa B. A bem da verdade, só Paulo Fonseca o chamou para fazer dois treinos com a equipa A.

Quanto à arbitragem, Pinto da Costa disse que Duarte Gomes é o novo Marco Ferreira. Não é: é o novo Artur Soares Dias. Porquê? Porque há dois anos o presidente dizia que Soares Dias não servia, mas entretanto considerou-o árbitro de top europeu. Já Duarte Gomes, tantas vezes criticado, agora até parecia uma grande perda para a arbitragem. Não se percebe.




Nada de revelador da MEO, a não ser o desmentir de a que a proposta da NOS era melhor (era importante afirmá-lo, mas o que gostávamos mesmo de saber é quem, ou se, foi intermediário do negócio...).

Pinto da Costa assume a recandidatura, e vai obviamente ser reeleito, pois terá eternamente um capital de votos para ser presidente do FC Porto enquanto quiser. Assume pela primeira vez que quer construir um centro de formação no 14º mandato. Quando soubermos mais do projeto poderemos comentar. Mas foi curioso Pinto da Costa revelar que tinha o sonho «há muitos anos» de ter uma equipa de ciclismo. Curioso, desconhecíamos o presidente como fã de ciclismo, tendo em conta que a modalidade foi fechada no FC Porto pouco depois de Pinto da Costa suceder a América de Sá e o regresso só se consumou após «desviarem» o parceiro que tinha tudo acertado com o Sporting.

Notas curtas. Lichnovsky, o quarto central do plantel, vai rodar no Sporting de Gijón, o que convida à entrada de um novo central antes do fim do mercado. Tello está a negociar com a Fiorentina, e não será uma surpresa se Peseiro pedir um extremo, pois Corona, Brahimi e Varela é curto para ganhar 3 competições. Há quem discuta a hipótese do 4x4x2, mas isso só Peseiro saberá. 

Uma entrevista que não acrescentou muito, pouco reveladora, mas que serve para procurar unificar adeptos, plantel e José Peseiro, tentando passar as responsabilidades pelo que se passou nos últimos 18 meses a Lopetegui (um dia há-de responder, como é claro, mas a sua imagem foi tão desgastada que 99% dos portistas reagirão com indiferença ou desprezo). Pela generalidade das reações dos adeptos do FC Porto, que adoraram a entrevista mesmo sem esta ter muito de revelador, assim se percebe que Pinto da Costa consegue, como ninguém, transformar a depressão em euforia: basta falar durante alguns minutos. É por isso que vai ser presidente do FC Porto enquanto quiser. E é por isso que tem que vir a público mais vezes.

PS: O site oficial do FC Porto fez um resumo, tópico a tópico, da entrevista de Pinto da Costa. Fala de todos os temas, exceto um, que omite por completo. Adivinhem lá qual é: precisamente tudo relacionado com Alexandre Pinto da Costa (sendo que também não fala de Antero Henrique, embora este tenha sido pouco focado no discurso). Ou não interessa, ou não querem que interesse.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A Taça e três elefantes na sala

Um dérbi à antiga: um Boavista a jogar sob a máxima «é canela até ao pescoço» e um FC Porto a ter que lutar contra muito mais do que 11 jogadores do outro lado. A equipa sobreviveu e apurou-se para as meias-finais da Taça de Portugal. Faltam 3 jogos para atingir o objetivo de regressar aos títulos esta época, e numa eliminatória a duas mãos (algo feito pela FPF para ajudar os clubes grandes a chegar ao Jamor) não pode haver desculpa nenhuma para admitir outra coisa que não seja eliminar o Gil Vicente (há quanto tempo ninguém ouve o Fiúza falar?).

Lisboa é que é bom
O FC Porto ganhou, mas há muito mais a discutir. Não só a questão do treinador, mas sobretudo o que se passou ontem no Bessa. Tanto a expulsão de Imbula como o penálti de Indi não deixam margem para dúvidas: são boas decisões. O problema foi o critério utilizado por Nuno Almeida, o árbitro algarvio que só serve para apitar nos estádios de Benfica e Sporting.

É ver para crer: Nuno Almeida apitou 12 jogos do Benfica, dos quais 11 em casa. O único que apitou fora foi... o jogo entre Arouca e Benfica, em campo neutro, em Aveiro. A jogar em casa e apitado por Nuno Almeida, o Benfica tinha vencido sempre todos os jogos.

O historial com o Sporting também é maravilhoso: em 15 jogos, 14 em Alvalade. Os 12 primeiros foram todos em Alvalade. Ao 13º, foi a Vizela arbitrar um jogo fácil para o Sporting, da Taça de Portugal. 

Em relação ao FC Porto, foi o 10º jogo, o 4º fora de casa. No espaço de 1 ano, Nuno Almeida já arbitrou dois jogos do FC Porto fora de casa, tantos quanto Benfica e Sporting nos últimos 13 anos em que arbitrou. É um exemplo do critério de Vítor Pereira.

Que faz o FC Porto em relação a isto? Uma piadinha no Dragões Diário. O critério de Vítor Pereira e Nuno Almeida quase atiraram o FC Porto para fora da Taça de Portugal - neste momento o troféu que mais hipóteses temos de conquistar. Que faz o FC Porto? Nada, zero, caladinho. Agora ainda pior, pois já não temos um treinador que se insurja contra isso nas conferências de imprensa.

E agora falamos do nosso Rui Barros. Ele próprio o diz: é um homem grato ao FC Porto, ao serviço do FC Porto, que vai dar sempre o melhor de si. Só há um problema: não é, nunca foi, e nunca quis ser treinador principal de futebol.

Muitos outros ex-jogadores do FC Porto fizeram parte de equipas técnicas do clube, mas a determinada altura quiseram dar os seus próprios passos de treinador. De João Pinto a Domingos, de Pedro Emanuel a Capucho, há muitos exemplos de homens que quiseram efetivamente ser treinadores principais.

Não é o caso de Rui Barros. Ele é portista, sente-se bem no FC Porto e quer contribuir para o clube. Dará sempre o seu melhor. Mas não é treinador principal.

Portista, mas não treinador
Nem vale a pena discutir o perfil técnico-táctico, nem o facto de ter trabalhado de perto com vários treinadores do FC Porto (Nuno, Pedro Emanuel e Costinha são exemplos de treinadores de quem se dizia terem absorvido os conhecimentos de Mourinho, mas saíram pela porta pequena dos clubes por onde passaram). Rui Barros é demasiado boa pessoa e demasiado correto para exercer um cargo desses. Rui Barros não será o tipo de treinador/homem que vai repreender os jogadores do FC Porto, que se vai insurgir contra as arbitragens, que vai ter o punho de ferro que se exige no dia a dia de um treinador do FC Porto. Não é um comunicador, tanto que, na sua humildade, até deixou escapar na flash-interview que ia ser o treinador em Guimarães, tendo depois sido obrigado a corrigir isso na conferência de imprensa. É um amigo, uma pessoa agradável, mas tem pouco ou nada daquilo que caracteriza um grande treinador principal.

Enquanto estiver no cargo de treinador, Rui Barros não vai receber outra coisa que não seja apoio. Porque a responsabilidade não é sua. Não é treinador principal, nunca foi, logo não lhe podemos exigir o quer que seja. Está no cargo que ocupa de alma e coração, mas não será a ele que se podem apresentar as faturas em caso de falhanço de objetivos. Se Lopetegui ainda cá estivesse, de certeza que culpavam Lopetegui. Como já não cá está e Lopetegui já não pode ser culpado (ou será que pode?), não esperem que isso recaia em Rui Barros.

Daí que faça este comentário aqui, e não nos Machados, pois Rui Barros jamais poderá estar associado a algo negativo neste FC Porto: a hesitação após a expulsão de Imbula. O FC Porto estava rebentado fisicamente e não tinha meio-campo. Brahimi estava esgotado, Varela só fechava o flanco e Herrera estava sozinho a segurar o meio-campo todo. Rui Barros demorou 16 minutos a decidir entrar Rúben Neves, e olhava para ele de minuto a minuto, com claro ar de indecisão. Podia ter custado caro, pois aqui é o treinador quem tem que dar a resposta. Mas acontece que Rui Barros, um grande futebolista do FC Porto, não é treinador.

Portanto, quando Pinto da Costa disse que o futuro treinador do FC Porto vai ser «uma pessoa», não foi de todo a resposta ideal. Pelo menos, que seja um treinador.





Herrera (+) - Foi ele, quase sozinho e como pôde, que segurou o meio-campo do FC Porto na segunda parte. Fechava os espaços, segurava a bola e pressionava quase num fenómeno de omnipresença. Ainda conseguia levar a bola ao ataque, como foi exemplo o último remate de Aboubakar. Teve a importante ajuda de Danilo a proteger as suas costas. Desde a saída de Evandro (que até estava muito bem na partida), Herrera teve que jogar por dois: primeiro quando Imbula estava em campo; depois quando Imbula saiu.

Brahimi (+) - Um lance, uma eliminatória. Contra-ataque, deixa dois jogadores para trás e finaliza com eficácia. Fosse sempre assim. Foi o jogador em maior evidência na primeira parte e entendeu-se bem com Layún nas subidas pelo corredor. Bonita a forma como festejou o penalty defendido por Helton.

Varela a defender (+/-) - A atacar, foi quase uma nulidade. A defender, esteve impecável. A verdade é que qualquer lateral gosta de jogar com Varela no seu flanco, pois é um jogador inteligente, certinho taticamente, que está sempre bem posicionado no momento defensivo. O problema é que quando elogiamos um atacante pelo que este faz defensivamente, é porque falta algo no ataque. A Varela, faltou-lhe tudo do meio-campo para a frente. Defensivamente, esteve impecável.

O momento (+) - Primeiro, Indi salvou Helton de uma grande asneira, embora tenha sido mais demérito de Uchebo do que o contrário. Depois, foi a vez de Helton salvar um disparate de Indi. Helton detesta ser suplente, e não é Casillas que muda isso, mas quando é chamado a campo diz presente. Merece ir ao Jamor e ir à tribuna levantar esta Taça.







A entrada de Imbula (-) - Não é só a entrada para a expulsão: é a entrada em campo. Os adeptos têm que meter algo na cabeça: quem se esforça e trabalha ao máximo nos treinos, joga. É sempre assim. Os treinadores são sempre sensíveis ao trabalho desenvolvido pelos seus jogadores ao longo da semana. Imbula não joga mais porque parece que anda cá a passear e a fazer um favor ao FC Porto.

Acorda, rapaz!
Absolutamente inaceitável a sua postura em campo. Quando olhamos para ele, vemos que há ali um touro capaz de pegar na bola, arrancar, deixar dois ou três jogadores para trás e criar logo perigo. Nós já o vimos fazer isso, sabemos que há ali talento - não de 20M€, oh se não, mas há ali coisas boas.

O problema é que o Imbula que vemos em campo é lento, preguiçoso, completamente à margem da equipa. Mesmo que tenha entrado a frio, após a lesão de Evandro, teve o intervalo para aquecer como devia ser. Mas nada mudou. Não recupera bolas, não age com rapidez, não pressiona, não transporta, não mete o pé, nada. 

É certo que nem era suposto Imbula vir para o FC Porto, mas a Doyen não se entendeu com os parceiros de Milão e Imbula veio fazer uma época ao futebol português. Esperavam que chegasse, engatasse e se valorizasse a grande nível. O problema é que para isso é preciso uma coisa muito importante: trabalhar. Imbula anda desinteressado, próprio de quem sabe que, jogando bem ou mal, no fim da época já terá para onde ir. O problema é que é o FC Porto quem lhe paga, todos os meses, o salário. Mas Imbula pouco ou nada se esforça e nem a saída de Lopetegui lhe parece ter dado vontade de acordar. Se não soubéssemos que há ali potencial, ninguém se dava ao trabalho de se preocupar. Mas exigimos muito mais de Imbula pois sabemos que ele pode dar muito mais. Pode e deve, se não que se faça a vontade do pai dele. 

Muitos adeptos, há uma semana, diziam que queriam ver o que Imbula faria com um bom treinador. Eu estou mais interessado em ver o que Imbula faria comportando-se como um futebolista profissional do FC Porto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

É o que dá «inventar»

Três pontos, 1,5 milhões de euros, 18ª vitória consecutiva no Dragão e liderança do Grupo na Champions, à frente do favorito Chelsea, com boas perspetivas de apuramento para os oitavos-de-final. Tudo isto com uma vitória daquelas que enchem os adeptos de orgulho e contentamento, mesmo aqueles que ao conhecer o 11 inicial já acusavam Lopetegui de estar a «inventar» e que ao próximo mau resultado já se vão esquecer da noite de ontem e vão voltar a cair em cima do treinador e dos ódios de estimação do clube. Porque o problema, aos olhos desses adeptos, na verdade não é o treinador, nem os jogadores. É não ganhar. 

André de pé quente
O Chelsea tem um plantel de elite, um treinador que ninguém ousará dizer que não é dos melhores e mais marcantes da história, e ainda assim está em péssima posição na Premier League e ontem foi apertado no pescoço no Dragão. O FC Porto lidera o campeonato nacional e está em boa posição para ir aos 1/8 da Champions - o apuramento decide-se na dupla jornada com o Maccabi e na receção ao Dínamo Kyev, pois não é nada boa ideia ter que ir a Stamford Bridge para garantir o apuramento. Nos próximos três jogos, dois deles no Dragão e um em Israel, estarão em jogo 4,5 milhões de euros e 9 pontos. O FC Porto sério, combativo e empenhado de ontem vai cumprir esse objetivo.

Uma palavra para Lopetegui. Sim, ele gosta de inventar. É um risco. Mas também tem uma coisa boa: não tem medo de inventar. Lopetegui não se preocupa com o que possam dizer das suas opções, antes e depois do jogo. Ele traça as suas opções mediante aquilo que acha que é o melhor para a equipa, que deixa o FC Porto mais perto de vencer. Não se preocupa com mais nada.  Quem olhasse para o 11 diria que foi um FC Porto montado para defender e jogar para o pontinho. Nada mais errado.

Mesmo desta vez tendo menos pose de bola (43%), o FC Porto criou mais situações de perigo do que o Chelsea, e mesmo depois de fazer o 2x1 continuou em cima do adversário e só por alguma falta de felicidade não chegou ao 3x1. Provavelmente, outro treinador recuaria logo e meteria a equipa à defesa. Lopetegui não. Seguiu o plano que estava traçado desde o início do jogo. Insistiu nele e o Chelsea não teve como dar a volta. 

Depois das derrotas marcantes contra Sporting (na Taça) e Benfica (no último clássico de 2014), o FC Porto não mais perdeu pontos em casa. 19 jogos, 19 vitórias. Em todos os jogos, Lopetegui apresentou perante os adeptos do FC Porto uma equipa autoritária, dominadora, que foi sempre mais forte do que os adversários e que nunca deixou de jogar para ganhar. Dirão, e bem, que também é preciso ganhar fora de casa. Nada mais verdadeiro. Fora de casa, o FC Porto de Lopetegui, em 29 jogos, ganhou 15 e empatou 11. O que faz acreditar que fora de casa as coisas correrão melhor? Vitórias como a de ontem.





Rúben Neves (+) - Qual é a cláusula de rescisão, mesmo? Se são os 40M€, já são demasiado curtos. Podemos invocar a crise e a contenção do fair-play financeiro, mas depois de termos visto no verão Sterling valer 62M€, Martial 50M€, Benteke 46M€ ou Firmino 41M€, quanto valerá este protótipo perfeito de Pirlo!? É simplesmente impossível que no verão não apareçam propostas dessa ordem por Rúben Neves. Está mais forte fisicamente, continua a fluir o jogo como poucos, já se liberta mais em progressão e tenta mais o remate, mas ainda assim continua exímio no passe e na distribuição de jogo. É provavelmente o melhor jogador da atualidade de 18 anos. 

Obrigado a Lopetegui, por ter tido a coragem de fazer o que ninguém no departamento de formação do FC Porto idealizou antes: meter Rúben Neves num patamar acima. Dito isto, e sabendo o quão difícil será manter Rúben Neves para lá de 2016, há que tentar. Nas 30 maiores vendas da história do FC Porto, Anderson foi o mais novo a sair (19 anos), de resto foram James Rodríguez e Cissokho, ambos com 21 anos. Rúben Neves, até aos 21 anos, pode e dever ficar no FC Porto. Quanto mais tempo ficar, mais qualidade acrescentará à equipa e mais perto estaremos dos títulos. E quanto mais tempo ficar, mais valorizado ficará. Há que fazer todos os esforços para manter Rúben Neves durante muito tempo. Quem joga como gente grande também deve ser valorizado, do ponto de vista financeiro, como gente grande. Mas o portismo não tem preço, e Rúben Neves é um símbolo disso mesmo.


Aboubakar (+) - Dá gosto ver a elasticidade nos seus pés no domínio, controlo e progressão. É um poço de força e empenho, inteligentíssimo a vir buscar o jogo atrás e a dar linhas de apoio, e tão depressa parece um bom rapaz que não se quer chatear com ninguém como a seguir pega na bola e começa a comer metros e a deixar adversários para trás de forma destemida. Não marcou, mas ontem, em plena Champions e contra uma boa dupla de centrais, mostrou que é o ponta-de-lança de grande categoria que temiam que o FC Porto não tivesse para 2015-16. Antes de o FC Porto pensar em comprar quem quer que seja para 2016-17, os 30% do passe que a SAD tem de Aboubakar têm que engordar. 

Brahimi (+) - O melhor jogo da época. Com André André do lado direito e um meio-campo sem um criativo para zonas adiantadas, toda a criatividade e capacidade de sair no drible teriam que advir dos seus pés. Mais, com Martins Indi no lado esquerdo da defesa, Brahimi ia estar muitas vezes desapoiado e teria que assumir sozinho os lances. Fê-lo na perfeição. Ivanovic parecia um perdido atrás dele. Guardou sempre bem a bola, descoordenou a defesa do Chelsea a partir do seu flanco, e foi mais objetivo do que nunca, não perdendo tempo com voltas de 360º que acabam e começam - logicamente - no mesmo sítio. Que seja para manter, pois massacrar Ivanovic não devia ser mais fácil do que fazê-lo contra o lateral do Moreirense.

Miolo (+) - Com o meio-campo que Lopetegui montou, sabia-se que o FC Porto não teria tanta facilidade em criar lances de perigo. André André é um apoio para jogar no lado direito, não um jogador para fazer sozinho a diferença no meio-campo adversário; jogar com Indi em vez de Layún retira a profundidade no flanco; sobrava Brahimi (e Aboubakar) para desequilibrar. Na primeira parte essas dificuldades estiveram claras (aqui um pouco de Machado), mas a verdade é que os jogadores souberam complementar-se, progredir em linhas e passes curtos, e evidenciar no coletivo o que faltaria em individualidades. Para isso muito contribuíram Danilo e Imbula. O primeiro funcionou muito bem como referência à frente da defesa, embora por vezes ainda se atrapalhe com Rúben Neves no que toca ao posicionamento; Imbula fez o melhor jogo pelo FC Porto: teve a melhor eficácia de passe do meio-campo (91%), transportou jogo e foi essencial ao dar força e músculo ao meio-campo. 

Reação de Lopetegui (+) - Sendo Evandro o único médio no banco, a entrada para o lugar de Rúben Neves foi lógica. Depois houve dedo de Lopetegui: a entrada de Layún, em detrimento de Tello ou Corona, foi uma boa solução, na medida em que é o que melhor defende, mas sem retirar profundidade e agressividade ao ataque; depois entra Osvaldo, desviando Aboubakar para a ala. Com isso garantiu-se um 9 fresquinho, para pressionar os defesas e ajudar a defender no jogo aéreo; e Aboubakar, na ala, serviu perfeitamente para guardar a bola e manter uma referência na saída para o ataque. Provavelmente todos estariam a criticar estas opções se o Chelsea chegasse ao empate nos descontos, mas é assim mesmo o futebol. Bem jogado.

Um golo de canto! (+) - Desde o calcanhar de Jackson à Académica que não se via esta coisa tão simples e tão difícil: cruzamento, desvio de primeira e golo. Muito mérito para Maicon no golo, na antecipação e no golpe de cabeça, e fica desde já aqui o destaque para o bom trabalho de todo o quarteto defensivo, que se bateu contra alguns dos melhores avançados do mundo - embora Maicon, em dois lances, tenha estado à espera que Diego Costa lhe caísse em cima para reagir. Casillas também brilhou com duas defesas, de resto tirando o remate de Diego Costa à trave o Chelsea nada mais fez. Ingrato que o braçinho de Marcano quase pudesse ter borrado a pintura no final. Levanta-se apenas uma preocupação: com Martins Indi na esquerda (solução bem interessante), ficamos sem centrais de equipa A no banco para a Champions.





Falha de comunicação (-) - Foi bom ver Casillas assumir o erro no livre do Chelsea. Mas aquele lance nem nos distritais pode acontecer: se Casillas não está a ver a bola, tem que corrigir a barreira. O árbitro espera. Que grite, que chame um jogador, mas não se pode deixar bater o livre naquelas condições. Além disso, a bola entra pelo lado que o guarda-redes tem que cobrir. Um erro a não repetir. Houve certamente outros aspetos que necessitam de correção, mas isto é a Champions e do outro lado estavam o Chelsea e Mourinho. Teria que haver erros, mas nenhum deles afastou o FC Porto da vitória. É isso que fica deste jogo.

Domingo, em dia de legislativas, vamos à 19ª no Dragão. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Imbulição

35M€ por 95% do passe
Faltava menos de uma hora para o soar do gongo, mas às 23h04 surgiu o fumo branco na CMVM. O FC Porto vende um ponta-de-lança de quase 29 anos por 35 milhões de euros, uma das mais brilhantes transferências (do ponto de vista financeiro, pois no desportivo deixa um enorme vazio) da história da SAD. Temos só um pequenino problema semântico: «Irá exercer a cláusula de rescisão». Irá, mas quando? Melhor das sortes a Jackson Martínez e que no R&C anual não seja necessário avançar para um Show me the money, parte III.

Esta foi uma época verdadeiramente atípica. Foi necessário avançar para a operação Euroantas para cumprir o fair-play financeiro. Não é dinheiro real, mas fará uma grande diferença no balanço para calcular o FPF (em 2017-18 já não poderemos contabilizar o lucro de 20,3M€ de 2012-13 e vamos ter que incluir o prejuízo de 40,7M€ do ano seguinte, sabendo-se que não podem ser apresentadas perdas superiores a 30M€), que foi encarado com muita negligência. 

Além disso, em 2014-15 tivemos contabilizados 97M€ brutos com a venda de três titulares (Mangala, Danilo e Jackson), foram incluídos dois prémios de participação na Liga dos Campeões, uma rara ida aos 1/4 da Champions e ainda outras fontes de receita extraordinária. Em 2014-15 teremos certamente a época com maiores receitas da história da SAD. E isto não vai acontecer todos os anos. Teremos capacidade para vender 3 titulares por pelo menos 30M€ cada todos os anos?  Se calhar até há capacidade para isso. Preocupante é precisar dessa capacidade para subsistir, e de haver quase sempre o mesmo denominador: Jorge Mendes.

Com o patrocinador ainda por resolver (sendo que não vai gerar uma verba muito significativa, por mais que se dramatize esta questão - basta ver o impacto da PT aqui e aqui) e desconhecendo-se ainda, no domínio público, os termos da renegociação/liquidação do maior empréstimo do Novo Banco, a SAD está neste momento com boas condições financeiras, fruto das receitas extraordinárias esta época. E qual é a primeira coisa que se faz com algum dinheiro extra? Imbula. 

Uma loucura, a qualquer preço
20 milhões de euros, o jogador mais caro da história do FC Porto. Apenas mais um milhão do que Hulk, que teve um investimento progressivo, num espaço de 5 anos (5,5M€ + 13,5M€). Começando pela parte desportiva. Imbula, se não tiver problemas de adaptação, tem tudo para singrar no FC Porto, ajudar a ganhar títulos e sair por um bom dinheiro (é difícil querer e ter mística quando já se faz contas à saída de um jogador no momento da chegada). É uma boa contratação, que acrescenta potencial e qualidade ao plantel. E é também uma verdadeira loucura.

O FC Porto não entra, como é lógico, com 20M€. Nem sequer com metade. Com o fim da partilha de passes, a SAD passa a ser obrigada a comprar 100% do passe dos jogadores. Mas os fundos continuam a operar normalmente, e neste caso é a Doyen Sports a permitir ao FC Porto contratar Imbula.

Que quer isto dizer? A Doyen entra com o financiamento e o FC Porto tem que ressarcir o fundo progressivamente. Se em 2016 Imbula não estiver valorizado? Paguem uma tranche. E se em 2017 já evoluiu mas ainda pode render mais? Paguem mais um bocado e aguentem mais um aninho. E se em 2018 já vale 35M€? Esqueçam lá o resto, vendam e passem para cá o lucro. É uma das maneiras de contrariar a limitação da FIFA. 

É uma aposta de imenso risco. Ponto prévio, a apostar grandes quantias em grandes jogadores, que seja em qualidade imediata, que não deixe de ter potencial para o futuro. Para Imbula vai ser chegar, jogar e fazer jogar. Mas há sempre o risco de um jogador - não tem que ser Imbula - contratado a 100% e por uma grande quantia não se afirmar. E aí de certeza que não vai ser o fundo a arder, mas sim a SAD, que tem que pagar. Mas como se sabe, o risco é o modelo de gestão do FC Porto de Pinto da Costa e restante SAD.

Com Walter, que foi contratado por 6M€ com 75% e envolveu um financiamento da For Gool, correu mal, muito mal, tanto que o FC Porto foi obrigado a renovar com ele até 2017, para ainda dar mais uma oportunidade ao ativo para se valorizar e ressarcir o fundo. Como não se valorizou, torna-se um fardo. Isto tudo por causa de 6M€. Imaginem por 20M€. Felizmente, Imbula tem um enorme potencial, tem mercado e tem tudo para dar certo no FC Porto. Mas para cometer estas loucuras vai ser preciso ser altamente incisivo no ataque ao mercado. O fundo dá-nos algo a ganhar. Mas é o clube quem fica com tudo a perder.

Como não é possível fragmentar o passe, o FC Porto não pode, por exemplo, começar por comprar apenas uma parte. A SAD esgotou tanto quanto possível essa possibilidade nos últimos 2 anos, de Reyes a Quintero, de Brahimi a Aboubakar. Agora, é preciso ter a 100%, logo os investimentos vão ser maiores, mesmo que o dinheiro seja pago às tranches a longo prazo. Hulk foi contratado inicialmente por 5,5M€, e 5 anos depois custou mais 13,5M€. Se fosse hoje, o jogador custaria no imediato 19M€ (sendo a SAD perdeu 10% do jogador antes de comprar a última parcela), mesmo que o FC Porto só acabasse de pagar esse valor daqui a 5 anos.

Só duas notas de preocupação. Como é que, segundo a bem informada imprensa francesa que antecipou a transferência, o pai/empresário de Imbula vai receber 2M€ com as novas restrições da FIFA? Com os 3% em vigor, temeu-se aqui que muitas transferências tivessem inflação para, paralelamente, aumentar a chucha dos 3%. Mas isto rebenta a escala e não corresponde ao regulamentado. A esclarecer.

Outra nota é o problema que isto pode trazer a curto prazo na gestão de mais-valias. O FC Porto comprava barato, valorizava e vendia caro. Vendia bons jogadores por 20M€. Agora compra por 20M€. Tendo em conta que em 2014-15 foi necessária uma mais-valia de 66M€ com jogadores (numa época com dupla participação na Champions), quanto mais caras forem as contratações mais difícil será gerar uma mais-valia significativa. Pagar 20M€ também implica que se confie imenso no potencial do jogador e que este investimento possa, no futuro, ser dobrado. Mas pode ser a diferença entre cumprir o orçamento com a venda de dois jogadores... ou precisar do dobro.

Tempo de apoiar Imbula, que não só vai ter que ajudar o FC Porto a conquistar títulos como vai ter nas costas a pressão de ter que evoluir para corresponder a um investimento alto. Um investimento de que o jogador não tem culpa, logo não será a ele que a fatura desta loucura terá que ser cobrada no futuro. Seja pelo lucro, seja pelo prejuízo. É uma loucura. Resta saber se sairá barata ou muito cara.

Pergunta(s): Reações à contratação e ao investimento em Imbula?