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segunda-feira, 11 de abril de 2016

#TodoesculpadeLopetegui

A avaliar pelos comentários dos leitores ao longo dos últimos meses, provavelmente era esta a maior crítica ao Tribunal do Dragão: defender, na opinião de muita gente, excessivamente Lopetegui. É um direito que assiste a qualquer adepto, de achar que um treinador é mais ou menos adequado, desde que haja uma base a sustentá-lo.

Facto: Lopetegui não ganhou nada no FC Porto. Opinião: ninguém, entre os treinadores ao alcance do FC Porto, iria fazer melhor trabalho do que ele nas últimas duas épocas. Realidade: desde a sua saída, Lopetegui já foi alvo de mil e uma culpas, mas a equipa piorou objetivamente em tudo (exceção feita às quatro vitórias de José Peseiro na Grande Lisboa - era penosa a incapacidade do FC Porto, desde 2013, ganhar jogos a sul).

Isto não é um post de defesa a Lopetegui: é comparar o antes e o depois. Quando Lopetegui foi despedido o FC Porto estava a quatro pontos do Sporting e em igualdade com o Benfica; volvidos três meses desde a sua saída, o FC Porto está a 12 pontos do Benfica (não fosse a sofrida vitória na Luz e poderiam ser impensáveis 18) e a 10 do Sporting. 


Não é só a questão dos pontos no campeonato. O FC Porto piorou em tudo. Não marca mais golos, sofre mais do dobro, remata menos, permite que os adversários rematem mais, cria menos ocasiões de golo e falha mais passes. Isto são os factos. Se calhar há quem ache, conforme foi descrito no último R&C da SAD, que a troca de treinadores resultou numa «recuperação exibicional». Estão no seu direito.

Ouviu-se que «um treinador que chega a meio da época não tem objetivos imediatos». Mas estamos a brincar? Mas alguém pode admitir que o FC Porto tenha desistido do campeonato em janeiro, na época em que preparou o seu maior orçamento de sempre, quando o título estava perfeitamente ao seu alcance e ninguém imaginaria outra coisa senão o apuramento direto para a fase de grupos da Champions?

Não tem objetivos imediatos? Se o FC Porto quis trocar de treinador em janeiro, então teria que ser para melhorar a equipa! Mas não foi isso que aconteceu. A equipa não melhorou e encontrou-se um bode expiatório para todo o insucesso dos últimos meses: Lopetegui.

Vejamos. Lopetegui (que para todos os efeitos era um treinador inexperiente, uma aposta de risco e um verdadeiro tiro no escuro - nunca pareceu haver esta compreensão por parte dos adeptos) ganhou 80,39% dos pontos na liga 2014-15. O poderoso Benfica de Jorge Jesus de 2009-10, que só conseguiu ganhar a liga ao SC Braga na última jornada, teve 84,44% de aproveitamento. Em 2013-14 o Benfica fez 82,22%. E na última época o Benfica, naquela que foi possivelmente a época com mais benefícios de arbitragem em torno de uma só equipa de que há memória, ganhou 83,33% dos pontos.

Lopetegui esteve na casa daquilo que têm sido os campeões dos últimos anos: equipas que ganhem acima de 80% dos pontos. O Benfica neste momento lidera com 83,9% dos pontos, por exemplo. Podem alegar que Lopetegui não chegou nunca a tocar nos 82 a 84%, mas é por causa de um aproveitamento de mais de 4% dos pontos que se justifica uma troca de treinadores a meio da época?

Em 2014-15 Lopetegui fez mais do que suficiente para ser campeão. Infelizmente, perpetuou-se o pensamento de que o FC Porto tinha que ganhar 34 jogos em 34 jornadas. E o facto do Benfica ter sido beneficiado em duas dezenas de pontos não era desculpa. É esse o discurso que apreciam na Segunda Circular: legitimar aquilo que foram os últimos tempos e isolar as culpas em Lopetegui. Continuem, que eles gostam.

A análise de Pinto da Costa, jornal O Jogo
Há quem diga que Lopetegui falhou nos momentos decisivos. Admita-se que falhou em alguns, sendo que o maior de todos foi a derrota em casa contra o Dynamo Kyev, já esta época. Não é por perder em Alvalade, onde poucas vezes o FC Porto tem ganho. Não é por não ganhar por dois na Luz, coisa que só Villas-Boas fez. Podem se calhar criticar os pontos deixados pelo FC Porto de Lopetegui na Madeira. Mas esses quase se tornam saudosos quando se perde em casa com Arouca e Tondela. O Tondela!

Podemos culpar Lopetegui por ter trazido fenómenos como Campaña ou Andrés Fernández. Ainda vamos comparar quem sai mais caro, se esses ou Osvaldo ou Marega. Já para não falar que foi numa época com Julen Lopetegui que o FC Porto bateu o seu recorde de mais-valias com vendas de jogadores. Se calhar Alex Sandro, Danilo e Jackson fizeram grandes épocas graças a Fernando Gomes; da mesma forma que o Casemiro evoluiu graças a Alexandre Pinto da Costa; e Rúben Neves foi uma revelação na equipa porque Caldeira avisou Lopetegui atempadamente do talento que ali estava.

Todos têm méritos, menos Lopetegui. E quase ninguém tem culpas, tirando Lopetegui. Há quem diga que o futebol do FC Porto de Lopetegui resguardava-se das suas fraquezas. Mas isso seria uma coisa má? Com uma defesa que não convencia ninguém, o FC Porto teve a melhor defesa das ligas europeias. Ganhou 20 jogos seguidos no Dragão, onde agora o FC Porto perde com Aroucas e Tondelas e borra-se para ganhar a Moreirenses e Uniões de Madeira. Se calhar, Lopetegui não jogava de outra forma por entender que era o melhor que poderia fazer com os jogadores que tinha à disposição. 

Foi para isto que trocámos o futebol enfadonho de Lopetegui, cuja média de golos (2.04) ficava acima da de Mourinho (2.00), Ivic (1.93) ou Jesualdo (1.90), pela recuperação exibicional com José Peseiro, que prometia um futebol mais ofensivo, alegre e vertiginoso?

Lopetegui tinha razão quando se queixou que houve um desinvestimento em termos de qualidade no plantel. Este plantel era, é, mais fraco do que o do ano passado. E nisto o próprio José Peseiro não tem culpa: em janeiro o plantel ficou ainda mais fraco, já para não falar da saída de Maicon em fevereiro.

Na época do maior investimento no plantel, o FC Porto vai buscar Suk, Marega e José Sá em janeiro. Suk é mais agressivo na pressão do que Aboubakar, mas não garante mais golos do que o camaronês (marca menos, até); sobre Marega, quem achou que tinha qualidade para o FC Porto que se explique, sobretudo quando estamos a falar de um jogador de 4M€ e cujas qualidades (ou falta delas) estavam aos olhos e toda a gente; e José Sá, conforme esperado, vem para jogar na equipa B - até porque a baliza tinha, na pré-época, deixado de ser um problema.

José Peseiro não teve um único reforço, no verdadeiro sentido da palavra, para a sua equipa. E disso não tem culpa. Mas se a SAD quis trocar de treinador em janeiro, então era para reforçar a apostar no título; ninguém podia desistir do título e dos objetivos do FC Porto em janeiro. Mas quem contrata José Peseiro em janeiro e não melhora um plantel limitado - pelo contrário, piora-o - desiste dos objetivos do FC Porto, na época de maior investimento de sempre. E de quem é a culpa de tudo isto? De Lopetegui, evidentemente.

A postura de alguns jogadores também dá que falar. Tempos houve, de Vítor Baía a Jorge Costa, de João Pinto a Fernando Couto, em que o FC Porto tinha um balneário que sabia da importância e influência da palavra de Pinto da Costa. Se o presidente descia ao balneário para repreender a equipa, os jogadores borravam-se todos, enchiam a cabeça de vergonha e davam a resposta no campo.

Em Paços de Ferreira não vimos jogadores em quem a última entrevista de Pinto da Costa tenha surtido efeito. O presidente é o mesmo, por isso, das duas uma: ou o discurso de Pinto da Costa perdeu força; ou os jogadores não entendem a mensagem do presidente, nem o que ela significa no historial do FC Porto. 

Podem tentar encontrar os mais diversos méritos e deméritos para Lopetegui ou José Peseiro. Mas o FC Porto trocou de treinadores em janeiro para melhorar a equipa e, desde então, atribui quase todas as responsabilidades e culpas a Lopetegui. Resultado: o FC Porto piorou em tudo desde então.

Deve haver uma justificação, claro: os estragos provocados por Lopetegui foram tão grandes que agora nem Peseiro, nem Mourinho, nem Guardiola conseguiriam reerguer o FC Porto. É a única justificação que resta, claramente. Quem assobiou Lopetegui no dia em que o FC Porto subiu pela última vez à liderança, em dezembro, só tem motivos para estar satisfeito: o espanhol já não cá está. Que bem que tem corrido. O substituto de Lopetegui tinha que ser melhor do que Lopetegui, independentemente de não ter feito uma pré-época, caso contrário não valeria a pena mudar de treinador; e se Lopetegui era um péssimo treinador, então por que é que começou sequer a segunda época ao serviço do FC Porto? E quando dizem que não faz sentido comparar os treinadores, faz sim: a entrada de José Peseiro visa melhorar a equipa e corrigir os erros cometidos com Lopetegui, senão não valeria a pena mudar de treinador.

Lopetegui não é o melhor treinador do mundo, nem sequer é dos melhores que o FC Porto já teve; mas no último ano e meio, nenhum dos treinadores ao alcance do FC Porto teria feito melhor do que ele. Estejam à vontade para desmentir, mas a primeira experiência de substituição de Lopetegui teve resultados... Bem, que os discutam quem achou que trocar Lopetegui por Peseiro, entre todas as mudanças em janeiro, foi uma boa ideia. Só esperemos que no final da próxima época ainda não estejamos a lamentar os estragos todos que Lopetegui fez no FC Porto.

PS: Toda a análise ao jogo de ontem não seria mais do que um Machado gigante. Mas em pré-época não se pode pedir muito, não é?

PS2: A má exibição do FC Porto não invalida que, uma vez mais, o wonderboy Fábio Veríssimo tenha mostrado toda a sua valia para a arbitragem nacional. E a seguir? Será que Tiago Martins já está preparado para arbitrar um clássico?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rescaldo da entrevista

Começando por uma curta nota para José Peseiro. Apresentação normal, discreta, com duas coisas a destacar: o assumir de que o objetivo é ganhar as três competições em que o FC Porto ainda está envolvido e a mensagem de apelo a que «os portistas não sejam os adversários». Repetiu umas dez vezes a palavra «ideias», a expressão-chave no post de reação à sua contratação, e agora resta dar tempo e tranquilidade ao treinador para trabalhar com o plantel. 

A entrevista de Pinto da Costa abre com as declarações de Vítor Baía. Fernanda Miranda falou pela primeira vez para atacar o ex-guarda-redes, Fernando Cerqueira emitiu um lençol de texto a reagir e o primeiro quarto de hora da entrevista foi dedicado a esse tema. As declarações de Vítor Baía causaram desconforto, disso ninguém duvida. Mas foi inteligente convidarem Vítor Baía a avançar para a presidência do FC Porto - isto porque sabem que provavelmente nunca será o rosto de uma candidatura, mas pode lançar a passadeira para que outro(s) o faça(m). O primeiro passo foi colocar tudo no mesmo saco da atual estrutura, dizendo que «varria tudo». Um extremismo que incomodou muita gente, mas foi o mais próximo de uma oposição declarada publicamente que o FC Porto teve desde Martins Soares.

14º mandato avança
De qualquer forma, o primeiro grande destaque de Pinto da Costa, e que é uma boa notícia, foi dizer que gostava que o seu sucessor não fosse «ninguém apoiado pelo Correio da Manhã» e que fosse «portista desde pequenino». De uma assentada, podemos então concluir que Alexandre Pinto da Costa e Fernando Gomes estão fora da corrida face ao que o presidente gostaria de ver? 

Juca, dentro dos limites óbvios do contexto, fez algumas perguntas que já cruzavam o limite, mas Pinto da Costa reagiu a todas à Neo. Sobretudo porque Júlio Magalhães não iria insistir num tema ao qual já teve uma primeira resposta.

O caso mais flagrante foi precisamente a questão da existência de conflitos internos. Como é óbvio, jamais o presidente do FC Porto iria admitir qualquer tipo de conflito existente na estrutura. Não é uma pergunta incómoda, pois é uma pergunta facilmente desmentível.

Só que depois Pinto da Costa desvia atenções, e como é óbvio Juca não iria insistir. O presidente diz que Alexandre Pinto da Costa só é empresário de «um rapaz dos juniores», de seu nome Rui Pedro, já agora. Pois, mas ninguém disse que Alexandre Pinto da Costa era empresário de nenhum jogador do FC Porto, porque não é. E o que levanta questões é isso: porque é que Alexandre, não sendo empresário de jogadores como Atsu, Rolando ou Carlos Eduardo, surgiu como intermediário em todos eles?

Assim é fácil. Alexandre Pinto da Costa não representa jogadores de relevo, daí que a Energy Soccer seja a única empresa de agenciamento de jogadores que apresenta esta bem disposta introdução no seu site:


Além disso, por exemplo, em 2013 o Estoril pagou-lhe 123 mil euros de comissão por Carlos Eduardo e o Inter 60 mil por Rolando. Ainda assim, o FC Porto também lhe pagou comissões sobre estes jogadores, entre um total de 430 mil euros de comissões por intermediações entre 2012 e 2013. Esta sim, é a grande questão. E nota-se o padrão: todos os jogadores que ele intermediou saíram do FC Porto ora a mal, ora em transferências pouco esclarecedoras.

Pinto da Costa acaba por não confirmar se foi Alexandre Pinto da Costa a intermediar Suk. Ainda assim, o presidente diz que tratou tudo diretamente com Fernando Oliveira, a pedido de Lopetegui, enquanto Fernando Oliveira disse o contrário, disse que quem tratou as coisas com o FC Porto foi «o empresário». Em que ficamos?

Segundo Pinto da Costa, Suk foi contratado a pedido de Lopetegui. E ainda bem que José Peseiro, aparentemente, gosta dele, caso contrário o pobre do Suk ficava «ali caído nos braços» sem que o FC Porto soubesse o que fazer com ele. E aqui surge outro dos destaques da entrevista: a passagem de responsabilidades a Lopetegui.

A história do Ferrari foi engraçada, sem dúvida. Mas se Lopetegui não fosse treinador do FC Porto, Imbula poderia na mesma ter vindo; mas se Imbula não tivesse ligação à Doyen, não viria de certeza, nem que Lopetegui fosse a Maranello pedir de joelhos. Se Imbula não jogava mais é porque não trabalhava o suficiente para isso. Contam-se pelos dedos os jogadores que diziam ser «mal aproveitados» no FC Porto que acabaram por ter grande sucesso noutros clubes. Porquê? Porque, regra geral, os treinadores do FC Porto têm sempre tido razão sobre a quem dar ou não oportunidades.

Quando Imbula desiste logo na primeira semana de aprender português, não revela grande interesse em adaptar-se ao clube e à cidade. É verdade que Lopetegui disse a Imbula que as suas caraterísticas encaixavam na equipa, o que não parecia ser de todo o caso. De qualquer forma, se Imbula trabalhasse mais, de certeza que jogaria mais.  As caraterísticas de Herrera também não são o protótipo num modelo de posse. Porque é que joga? Porque trabalha mais do que os concorrentes. Se  Imbula trabalhar mais com Peseiro, de certeza que joga mais. 

Curioso é Pinto da Costa ter dito que negócios como o de Adrián López nunca mais, mas o de Imbula não é assim tão diferente. E podemos então falar de Adrián López.

Para começar, a história de que foi Lopetegui a pedir a transferência de Adrián López. Isto sim, teria sido interessante perguntar na entrevista, a propósito de novos leaks.

9 de julho de 2013. É esta a data em que está celebrada a transferência de Adrián para o FC Porto, ainda Paulo Fonseca estava a começar a pré-época e Lopetegui era um desconhecido para 99,99% dos portistas. O documento é assinado por Pinto da Costa e Adelino Caldeira (que, ao contrário de Antero Henrique e Reinaldo Teles, não foi mencionado por Pinto da Costa entre a cúpula de decisões da SAD).



Hipóteses: o documento é falso. Assim sendo, o FC Porto só teria que avançar para instâncias judiciais, pois seria sinal de que o Football Leaks estava a usar a assinatura do presidente do FC Porto para fasificar documentos. É verdade que num canto discreto do documento está a data de 14/07/2014, mas deduz-se que esta tenha sido a data em que o fax foi enviado (dois dias depois de assinar pelo FC Porto). Mas como ninguém pode acreditar que o FC Porto assinaria, por dois máximos responsáveis, um documento de 11M€ em que tem um erro na primeira página, das duas uma: ou o documento é falso; ou Adrián López já tinha sido de facto contratado em 2013, para chegar um ano depois. 

Pinto da Costa critica publicamente Jorge Mendes, confirmando o que O Tribunal do Dragão escreveu muito antes sobre o carro, o stand e a gasolina. O problema é que ninguém imaginaria que Adrián fizesse uma época tão má a ponto de parecer que nem correr sabia. Assim, foi impossível encontrar quem o avaliasse em 11M€. E então vamos ver se também será fácil encontrar alguém que continue a avaliar Imbula acima de 20M€.

Adrián López não custou nada na época 2014-15, mas como O Tribunal do Dragão escreveu não havendo acordo para recolocar o jogador Adrián começaria a dar prejuízo a partir do 1º trimestre de 2015-16. Pinto da Costa confirmou isso mesmo. Agora, delegar a responsabilidade disso mesmo a Lopetegui não parece o mais correto, a não ser que o FC Porto decida desmentir que o mesmo tinha sido contratado já em 2013. Agora, com estas críticas a Jorge Mendes, de quem se dizia que as relações já não andavam a ser as melhores, que vai acontecer? Ainda mais negócios com a Doyen?

Pinto da Costa também responsabilizou Lopetegui pela ausência de títulos, ele que não costuma criticar ex-treinadores. Em vez de realçar que Lopetegui não foi campeão, talvez fosse interesse comentar por que é que o FC Porto, fazendo 82 pontos no campeonato, não foi campeão; podia explicar por que é que só Lopetegui fazia a defesa pública do FC Porto, enquanto a SAD ficava calada enquanto assistia à forma como o Benfica se aguentava no primeiro lugar. Enfim, estamos em plena época 2015-16 e não faz sentido continuar a lamentar o que aconteceu em 2014-15. Mas não queiram que Lopetegui seja o máximo responsável pela época passada, porque nunca o será, não isoladamente.

Outra justificação que não pareceu fazer sentido foi dizer que «Lopetegui não se adaptou». Foi preciso 18 meses para descobrir isso? Se o FC Porto tivesse espetado 3 ou 4 ao Rio Ave, de certeza que Lopetegui continuaria. Não foi um jogo a definir se Lopetegui estava ou não adaptado.

Todos sabem que Peseiro não foi a primeira opção. E não, Peseiro não contradisse a SAD do FC Porto. Como é óbvio, a SAD sondou várias possibilidades depois de despedir Lopetegui. Sondar não é negociar. Que não foi primeira ou segunda opção, todos sabem que não. E pelo currículo dos últimos 10 anos - ou seja, Pinto da Costa não está a apostar no percurso de Peseiro, está a apostar (lá está) nas suas ideias -, ser a 10.ª opção para treinar um clube como o FC Porto já era uma honra.

Interessante quando Juca tentou realçar que a boa época da equipa B se deveria à chegada de vários jogadores estrangeiros. Pinto da Costa impôs-se, ao dizer que isto eram os «frutos» de muito trabalho, e deu o exemplo de... Rúben Neves. Um rapaz que nunca sequer foi chamado para treinar com os juniores, nem sequer na equipa B. A bem da verdade, só Paulo Fonseca o chamou para fazer dois treinos com a equipa A.

Quanto à arbitragem, Pinto da Costa disse que Duarte Gomes é o novo Marco Ferreira. Não é: é o novo Artur Soares Dias. Porquê? Porque há dois anos o presidente dizia que Soares Dias não servia, mas entretanto considerou-o árbitro de top europeu. Já Duarte Gomes, tantas vezes criticado, agora até parecia uma grande perda para a arbitragem. Não se percebe.




Nada de revelador da MEO, a não ser o desmentir de a que a proposta da NOS era melhor (era importante afirmá-lo, mas o que gostávamos mesmo de saber é quem, ou se, foi intermediário do negócio...).

Pinto da Costa assume a recandidatura, e vai obviamente ser reeleito, pois terá eternamente um capital de votos para ser presidente do FC Porto enquanto quiser. Assume pela primeira vez que quer construir um centro de formação no 14º mandato. Quando soubermos mais do projeto poderemos comentar. Mas foi curioso Pinto da Costa revelar que tinha o sonho «há muitos anos» de ter uma equipa de ciclismo. Curioso, desconhecíamos o presidente como fã de ciclismo, tendo em conta que a modalidade foi fechada no FC Porto pouco depois de Pinto da Costa suceder a América de Sá e o regresso só se consumou após «desviarem» o parceiro que tinha tudo acertado com o Sporting.

Notas curtas. Lichnovsky, o quarto central do plantel, vai rodar no Sporting de Gijón, o que convida à entrada de um novo central antes do fim do mercado. Tello está a negociar com a Fiorentina, e não será uma surpresa se Peseiro pedir um extremo, pois Corona, Brahimi e Varela é curto para ganhar 3 competições. Há quem discuta a hipótese do 4x4x2, mas isso só Peseiro saberá. 

Uma entrevista que não acrescentou muito, pouco reveladora, mas que serve para procurar unificar adeptos, plantel e José Peseiro, tentando passar as responsabilidades pelo que se passou nos últimos 18 meses a Lopetegui (um dia há-de responder, como é claro, mas a sua imagem foi tão desgastada que 99% dos portistas reagirão com indiferença ou desprezo). Pela generalidade das reações dos adeptos do FC Porto, que adoraram a entrevista mesmo sem esta ter muito de revelador, assim se percebe que Pinto da Costa consegue, como ninguém, transformar a depressão em euforia: basta falar durante alguns minutos. É por isso que vai ser presidente do FC Porto enquanto quiser. E é por isso que tem que vir a público mais vezes.

PS: O site oficial do FC Porto fez um resumo, tópico a tópico, da entrevista de Pinto da Costa. Fala de todos os temas, exceto um, que omite por completo. Adivinhem lá qual é: precisamente tudo relacionado com Alexandre Pinto da Costa (sendo que também não fala de Antero Henrique, embora este tenha sido pouco focado no discurso). Ou não interessa, ou não querem que interesse.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Caro Julen,

Nada é mais volátil do que o mundo do futebol. Há menos de duas semanas, após a primeira vez em que foste líder isolado em Portugal, Pinto da Costa não hesitou em vir a público afirmar que os assobios te davam sorte. Dar a cara nas vitórias é fácil, nas derrotas nem tanto. Passadas duas jornadas que se traduziram numa perda de 5 pontos, era necessário tomar uma decisão. A SAD, na palavra do seu presidente, o único que ainda te segurava, optou pelo mais fácil.

A situação tornou-se insustentável. Não eras o maior dos problemas do FC Porto, mas também não estavas a conseguir ser solução. Era necessário mudar alguma coisa. A equipa estava numa espiral regressiva da qual não dava sinais de conseguir sair. Numa jornada prometes que vamos ser campeões, na outra empatas com o Rio Ave e és convidado a sair. Num jogo tudo muda. 

Os treinadores espanhóis estão destinados a não serem os mais felizes no futebol português. Sais estando a 4 pontos da liderança. O teu compatriota Víctor Fernández saiu quando estava empatado com o Sporting no 1º lugar, e já tinha no bolso uma Supertaça, uma Taça Intercontinental e o apuramento para os 1/8 da Champions.

Pinto da Costa tinha que assumir uma decisão, pois as paredes começavam a ficar curtas. De rajada, vemos de um lado Vítor Baía lançar a cana sobre a candidatura à presidência do FC Porto; e António Oliveira, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada (é que nem um jornal falou nessa possibilidade), decide mandar um comunicado a todas as redações, só mesmo para lembrar «olá, estou aqui». 

Os adeptos, na sua generalidade, já não te queriam. Os jogadores, salvo algumas exceções de peso, também não te queriam. O staff técnico do Olival não te queria. O Conselho de Administração não te queria. E Pinto da Costa deixou de te querer. Não havia como continuar, Julen. Mas há coisas que a história de uma passagem pelo FC Porto sem títulos (desde Couceiro que não acontecia - Luís Castro é um caso à parte, que nunca na vida pode ser repetido!) não podem apagar.

Para começar, o FC Porto isola-te como responsável único do mau momento da equipa. Ninguém veio a público falar, ninguém deu a cara. A SAD demite-te ainda antes de saber sequer quem poderá ser o teu sucessor. Se um treinador português, se uma velha raposa mais experimentada, se alguém que conheça a casa. Isso significa que o FC Porto acha que o melhor é saíres já, e depois logo se vê. Vamos ao Bessa com o nosso Rui Barros, um grande portista mas sem a fibra de treinador principal. Pelo menos, vamos ao Bessa com um capital de apoio dos adeptos do FC Porto, coisa que contigo não seria possível.

Não é nada contra ti, Julen, pois o próximo treinador, ao fim de três ou quatro maus resultados, também fica com o pescoço na guilhotina. O FC Porto tem-se habituado a dar mais valor a treinadores depois de eles saírem do que enquanto cá estavam, como são exemplos Jesualdo Ferreira, Vítor Pereira ou até Paulo Fonseca. Não sei se será o teu caso, mas há méritos que ninguém te retira.

Começando pelo princípio. Chegaste e ajudaste a reabilitar competitivamente um clube que vinha de uma época miserável e uma SAD que apresentou o maior prejuízo da sua história. Algo ninguém pode negar: és um excelente manager, telefonista, diretor desportivo. Soubeste convencer a vir para o FC Porto quem, sem a tua intervenção, não viria. E até convencerias a vir quem o FC Porto não conseguiria pagar.

A tua primeira vitória no FC Porto é desconhecida à maioria dos adeptos, mas merece realce: o bate pé às contratações comissionistas, cuja lógica ia muito além do campo desportivo - ou não chegava sequer ao campo desportivo. Podemos falar claramente de Sami. Perguntaste, e bem, por que é que a SAD tinha dinheiro para contratar quem tu não precisavas e não para contratar quem te daria jeito. Podias ter feito o mais fácil: aceitavas o Sami e deixavas muitas famílias felizes, até o ex-cunhado. Mas não. Deixaste claro que tu é que escolhias quem jogava e quem faria o plantel. E muito bem.

Confesso que não percebi algumas contratações tuas. Porquê o Campaña ou o Andrés, por exemplo? Ainda assim, os nomes em quem falhaste saíram bem mais em conta do que todos aqueles em que a SAD tem falhado nos últimos anos.

Dizem que não sabes aproveitar o plantel que o FC Porto tem à disposição. Não concordo. É verdade que tinhas, e tens, obrigação de fazer muito melhor com o que tens. Mas estás longe de ter o melhor plantel em mãos. E se no ano passado o FC Porto tinha um plantel muito melhor, é também teu mérito.

Jackson, Danilo e Alex Sandro já eram matéria-prima de elite, mas foi após uma época contigo que saíram deixando 92,5M€ na Invicta. Com um guarda-redes sempre contestado (Fabiano) e sem ter uma grande dupla de centrais, conseguiste ter a melhor defesa de toda a Europa na época 2014-15. Ganhaste 20 jogos consecutivos no Estádio do Dragão, coisa que não voltaremos a ver nos próximos anos. 

Lançaste o Rúben Neves, que se não fosses tu iria iniciar a época nos sub-19, e sabe lá Deus onde estaria a (não) ser manifestado o seu talento por esta altura. Pegaste num miúdo, Óliver, e num sarrafeiro, Casemiro, e tornaste-os jogadores de equipa grande na liga espanhola. Meteste Herrera e Brahimi a brilharem ao mais alto nível na Champions. Meteste o Tello a marcar e a assistir como nunca em 2014-15. E até fizeste do Quaresma o jogador que nunca foi coletivamente.

Optaste por deixar sair o Quaresma, e bem, pois os adeptos não imaginam o que é ter um balneário com vedetas. Depois seguiu-se uma série de saídas importantíssimas. É verdade que o FC Porto vende 2 ou 3 titulares por época - e foi isso que aconteceu. Saíram Alex, Danilo e Jackson. Óliver e Casemiro não eram nossos e nunca haveria dinheiro para os ter. Logo, acabou por acontecer o normal, que é perder os tais dois ou três jogadores do clube em vendas milionárias. Mas aconteceu o que é normal na gestão da SAD: venda de dois ou três ativos; não aconteceu o que é normal na gestão de um treinador: perda de cinco ou seis titulares.

Uma coisa chocante é a tua revelação de que achavas que a SAD ia aplicar o dinheiro em novas contratações. Das duas, uma: ou ninguém te explicou como funciona a SAD do FC Porto, ou estavas com muita, mesmo muita ilusión. Qualquer uma é grave, mas não pá para acreditar que a SAD não te tenha explicado que não havia tusto para reforços, exceção feita a parcerias com fundos. Por outro lado, sempre questionaste, e bem, como é que havia dinheiro para tantas coisas e não para a maior prioridade: reforçar o plantel. O plantel principal deixou de ser a porta de entrada de contratações que não serviam propósitos desportivos - em compensação, na equipa B e nas camadas jovens dispararam.

O que foi a época 2014-15 desportivamente? Fizeste uma brilhante Champions. Ajudaste a apurar o FC Porto a frio e fizeste 11 jogos consecutivos sem perder na Liga dos Campeões - hão-de passar muitos anos até um treinador de um clube português voltar a fazê-lo. O desastre de Munique foi próprio de quem não tinha laterais suplentes inscritos na UEFA. Aos 75 minutos ainda estávamos a discutir o apuramento para as meias-finais com uma equipa muitíssimo superior a nós.

É verdade, inventaste na Taça de Portugal. Subestimaste o Sporting, e partir daí muitos adeptos ficaram com o pé atrás - e nunca mais o tiraram do sítio. Mas também foi um dos muitos jogos em que foste pé frio. Penaltys falhados, ineficácia a atacar, erros individuais a defender. Detalhes, detalhes e mais detalhes. Mas o detalhes foram-se acumulando e deixaram de ser detalhes para passarem a ter tendência. Foram demasiados jogos em que o FC Porto foi incapaz de dar a volta a uma desvantagem no marcador - apenas uma reviravolta em ano e meio.

No campeonato, ainda assim, fizeste 82 pontos. Tantos como o Mourinho em 2004, mais do que o Co Adriaanse e em três épocas do ciclo do penta. Para aquilo que eras - um treinador sem experiência a nível de clubes na luta por títulos, coisa que muitos pareciam esquecer que eras: inexperiente -, foi bem razoável. Tiveste, aliás, a segunda melhor defesa de sempre num campeonato a 34 jornadas. Podias, e devias, ter sido campeão. Mas os adeptos deixaram-se iludir pela máquina de propaganda que visava lavar o roubo que foi a forma como o Benfica tirou o campeonato ao FC Porto.

Só tu, sozinho, te insurgiste contra isso. Contra-atacaste sozinho, perante tudo e todos. O Jesus, o Manuel José e o Gomes da Silva. Atacaste as arbitragens tendenciosas, as nomeações e a comunicação social que desprezava tudo o que de bom o FC Porto conseguisse. Não é um problema, é tradição. Mas os adeptos deixaram-se levar pela própria propaganda encarnada - e o problema foi esse.

Pinto da Costa elogiou mais vezes publicamente um treinador que só era líder do campeonato devido ao colinho do que defendeu o FC Porto. Tudo calado, tudo no canto. O Benfica ganhou um campeonato da forma mais ilícita de que há memória e ninguém na SAD do FC Porto protestou. Porquê? Por indiferença? Por não ter moral para o fazer? Por outras razões? Não sabemos qual, e também não sabemos qual será a mais grave.

Temos uma SAD paga a peso de ouro. Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Fernando Gomes têm remuneração fixa anual de 287 mil euros, mas nunca saíram a público para defender o FC Porto. Podem alegar que é o presidente que o tem que fazer, mas não há mais ninguém na SAD? Não podem dar a cara pelo FC Porto? É verdade que por vezes, nomeadamente nas intervenções de Fernando Gomes, sai uma mescla que torna o silêncio ouro. E Antero Henrique, o «homem forte do futebol», porque é que só dá entrevistas a jornais estrangeiros a falar sobre o «modelo» e «a estrutura»?

O FC Porto foi atacado por inúmeras frentes em 2014-15, numa época em que muitos queriam que fosse o funeral do clube, depois do desastre que foi 2013-14. Lopetegui defendeu o clube sozinho. Ajudou a manter a SAD de pé. Depois de Lopetegui tanto ter defendido o FC Porto, seria altura de defender Lopetegui. A SAD nunca o fez.

Tu querias ganhar no FC Porto, sei que sim. Em condições normais, já terias ganhado em 2014-15. Esta época não conseguiste segurar o leme, reconheço. Há jogadores que não ajudam, mas não há treinador que passe pelo FC Porto sem ter problemas no balneário - muitos estão de passagem e não pensam na próxima vitória, só pensam no próximo milhão. Há quem diga que és convicto, como um treinador do FC Porto tem que ser. Mas muitas vezes foste casmurro e inflexível, que é algo que dificilmente serás no teu próximo clube. 

Os próprios jogadores sabem jogar com a instabilidade do treinador. Um jogador que sabe que o treinador não é apreciado pelos adeptos, e nem sequer pela própria SAD, é um jogador que sabe que o treinador já não é a voz autoritária inquestionável. Perdeste o balneário também por isso. Quiseste ser punho de ferro quando muitos jogadores sabiam que estavas a prazo. Um treinador só consegue triunfar no FC Porto enquanto tem apoio. Quando deixa de o ter, perde tudo.

Chega a hora de seguir caminhos separados. O FC Porto vai voltar a vencer sem ti. E tu hás-de vencer sem o FC Porto. Como tem sido apanágio nos últimos anos, o tempo confirmará se as culpas se podiam, ou não, resumir ao treinador.

Boa sorte, Julen. E força, FC Porto. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Lugar à disposição

A Wikipédia diz isto sobre a Lei de Murphy: «Lei de Murphy é um adágio ou epigrama da cultura ocidental que normalmente é citada como: 'Qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível.'» Por outras palavras, a Lei de Murphy está a tornar-se numa espécie de Lei do FC Porto 2015-16. 

Vão cada vez mais longe os tempos em que o FC Porto de Lopetegui não dava hipóteses a jogar no Dragão. Foram 20 vitórias consecutivas, sofrendo pouquíssimos golos. Mas seguiram-se empates com Braga e o Rio Ave, derrotas com Dynamo Kiev e Marítimo, resultados altamente penalizadores para três competições diferentes: no campeonato foram 4 pontos, com o Dynamo o adeus à Champions e o Marítimo também o adeus à Taça da Liga.

Podemos queixar-nos de muita coisa. Bola no poste, penalty por marcar, grande exibição do Cássio, o golo fortuito do Rio Ave (se bem que também só marcámos num lance que sofre um desvio)... Mas isto não são só os azares de um jogo: são os azares de já muitos jogos esta época. O FC Porto não deixou de atacar até ao último minuto, tentou, mas não foi suficiente. Continua a não ser suficiente.

Lopetegui já deixou ser o principal foco de contestação. Porquê? Porque as suas declarações foram altamente sugestivas: lugar à disposição. «Sou o máximo responsável por tudo o que de mal acontece.» «Todos temos que melhorar e o primeiro sou eu.» «O presidente sabe que não sou um problema.»

Lopetegui assumiu, nestas frases, responsabilidades pelo mau momento (e diz, e bem, que no FC Porto as derrotas são sempre culpa dos treinadores, mas as vitórias raramente são seu mérito). E se diz que Pinto da Costa sabe que ele não será um problema, é porque já manifestou junto do presidente que aceitará a saída se for essa a sua vontade.

Faz lembrar o caso de Paulo Fonseca. Quando o FC Porto perdeu em Coimbra, Paulo Fonseca não colocou, tecnicamente, o lugar à disposição, mas disse a Pinto da Costa que se fosse ele o problema saíria sem problemas. O presidente do FC Porto disse que nem iria ter aquela conversa. Só três meses depois, depois da derrota em casa com o Estoril, é que Paulo Fonseca formalizou a colocação do lugar à disposição. E nem assim Pinto da Costa deixou-o sair: só o fez ao terceiro pedido.

Lopetegui não está a aproveitar ao máximo o que tem, mas o que tem é um plantel inferior ao do ano passado, e nem de perto um dos melhores que o FC Porto já teve. Que se desfaça esse mito. Na época passada Lopetegui esteve associado à valorização de muitos jogadores (lançou Rúben, Danilo, Jackson e Alex Sandro saíram por 92,5M€, Casemiro e Óliver evoluíram imenso, Brahimi, Herrera e Tello fizeram a sua melhor época de seniores), mas também porque a matéria-prima era bem melhor.

Lopetegui não pode simplesmente dizer «demito-me» porque Pinto da Costa confiou nele. Isso seria trair a confiança do presidente do FC Porto, que se mantém Lopetegui no cargo é porque quer. Lopetegui passou para o mapa dos treinadores europeus graças à aposta de Pinto da Costa. Tem contrato, tem treino para dar hoje. Não pode desistir. Mas pode e deve (e fê-lo) colocar Pinto da Costa à vontade para mudar de decisão se assim o desejar.

Que Pinto da Costa assuma rapidamente o que pretende fazer. Aliás, pagar 3 anos de contrato de Lopetegui custa menos do que falhar o acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões 2016-17... Foi Pinto da Costa quem disse «quando tenho Hulk, Falcao e James na equipa o técnico é-me indiferente». Pois, mas não temos um Hulk, nem um Falcao, nem um James. O treinador não pode ser indiferente. 

Se é para manter, que se mantenha, até porque contam-se pelos dedos as mudanças de treinador a meio da época que deram títulos a algum clube. Mas chega de se esconderem e enviarem recados através de massa adepta ou meios de comunicação. Pinto da Costa, Antero Henrique e restante Conselho de Administração: deem a cara, pois Lopetegui, mais do que a cara, já está é com o corpo todo baleado na praça pública. Falar na hora das vitórias, dos títulos e das transferências milionárias é muito bonito, mas ninguém além do treinador surge na hora das derrotas. Não esperem enquanto os adeptos desesperam.





Com boa vontade (+/-) - O FC Porto tentou. 55 ataques, 24 remates, 18 cantos. Uma bola no poste, um penalty por marcar sobre Brahimi (já alguém se insurgiu contra a arbitragem?), e Cássio esteve num daqueles dias. Houve quem tentasse, embora aquela célebre expressão de fazer a cama/folha ao treinador vá-se encaixando cada vez melhor por aqui e por ali. Maxi lutou ao último suspiro. André André batalhou e tentou empurrar a equipa como pôde. Herrera marcou e tentou dar ao meio-campo a velocidade que não tem. Pouco mais. Muito pouco.

Adeptos (+) - Assim sim. Equipa sob enorme pressão e contestação a ser recebida com apoio. Durante o jogo, 90 minutos de constante apoio e cânticos a puxar pela equipa, inclusive a abafar os assobios daqueles que foram ao estádio para protestar e ajudar o Rio Ave a enervar o FC Porto. No final do jogo, não havia motivos para estarem satisfeitos. E aí assim, assobios e manifestações de insatisfação. Assim é que deve ser: apoiar durante, criticar ou não depois.







Desnorte total (-) - Uma coisa é tentar - o FC Porto tentou. Outra é jogar sob desnorte total e sem qualquer fio de jogo que fizesse sentido: foi o que o FC Porto fez. Bola no flanco, bola para a área. Bola no flanco, bola para a área. Nenhum jogador do FC Porto conseguiu ganhar uma única bola de cabeça aos jogadores do Rio Ave. Porquê? Porque o Rio Ave tinha jogadores muito mais fortes no jogo aéreo! E o FC Porto insistiu, insistiu, insistiu, à espera de um milagre. Era Aboubakar quem ia ganhar uma bola de cabeça a Marcelo? Era Herrera que ia ganhar a Roderick? O Rio Ave tinha jogadores mais altos e fortes no jogo áereo, e tinha sempre a grande área povoada; o FC Porto não tinha nenhum jogador na grande área que fosse forte na disputa de bolas no jogo aéreo. E ainda assim, a equipa cruzou, cruzou e cruzou à espera de um milagre. Absurdo.

Sem ideias (-) - Há um lance de construção do FC Porto que fica na retina. Danilo começa a construção à frente dos centrais. A bola não entra no meio-campo do Rio Ave, então recua André André. A bola não entrou, então vai Herrera à frente dos centrais. No espaço de meio minuto, o FC Porto mete os seus três médios no início de construção, pois não sabia como é que havia de ultrapassar a primeira linha do Rio Ave. Não se vê disto em nenhuma equipa grande: uma equipa que não sabe o que fazer, ou que simplesmente não quer fazer nada do que Lopetegui pede. A limitação do futebol praticado também não conhece evolução: Herrera fazia variações arriscadas, de 30 a 40 metros, para meter a bola no corredor aposto. Quem a recebia, em vez de atacar, fazia recuar e circular a bola até que ela voltasse a Herrera. Brahimi, Corona e Aboubakar estiveram sempre escondidos do jogo, porque o jogo do FC Porto não manifesta ninguém.

Anjinhos! (-) - Não dá para acreditar: a primeira falta do Rio Ave acontece apenas ao minuto 32. E o primeiro cartão visto pelo Rio Ave aconteceu aos 90 minutos. Não quer dizer que a equipa de Pedro Martins (o melhor treinador português sem experiência de grande) seja impecável no desarme. Não, o FC Porto é que atacava com tanta força como um bater de asas de uma borboleta. Lentos, passivos, incapazes de um rasgo em velocidade. O Rio Ave nem teve que defender com uma pinta de agressividade porque o FC Porto não obrigava a isso. O Rio Ave só tinha que manter posição, com duas linhas, e esperar. Os jogadores do FC Porto não assustavam minimamente os do Rio Ave. Pior, Lopetegui sempre pareceu mais preocupado com a marcação a Ukra do que Pedro Martins com a marcação a Brahimi e Corona. Hoje em dia qualquer equipa que vá ao Dragão sabe que pode pontuar. Os adversários já não temem o FC Porto. Lopetegui grita, esbraceja e acaba sempre da mesma maneira: sentado no banco, com as mãos na cabeça. Das duas, uma: ou a mensagem não passa, ou os jogadores já se estão a cagar para a mensagem do treinador.

Por isso, que se faça ouvir a mensagem do presidente e da SAD.


PS: No espaço de duas semanas, o DN consegue proclamar dois campeões de inverno. É obra.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Quem vai ser o treinador do FC Porto em abril?

Está tudo a ser preparado para Pinto da Costa recandidatar-se à presidência do FC Porto - a recolha de assinaturas termina em março, um mês antes da convocatória para eleições. Será o 14º mandato do presidente, extensível até 2020 - altura em que Pinto da Costa irá fazer 83 anos.

Por norma, quando há um candidato à presidência de um clube, esse candidato apresenta um treinador como bandeira eleitoral. Afinal, não é possível imaginar um projeto desportivo sem pensar no treinador - só uma mente aburguesada pode pensar que o treinador é um apêndice que só serve para dar a cara nas derrotas, enquanto na hora das vitórias os louros vão para a estrutura.

Portanto, a pergunta que os portistas devem colocar é esta: quem é o treinador em que Pinto da Costa pensa para o período 2016-2020? Todos sabemos que na gestão de Pinto da Costa os treinadores entram e saem, e dificilmente ficam mais do que três a quatro anos. Por outro lado, tudo tem um fim. Sobretudo o passado.

A aposta em Lopetegui
Não devemos eleger Pinto da Costa por aqui que fez no passado. Devemos elegê-lo por aquilo que pensa fazer no presente e no futuro. Há que apresentar um programa para o 14º mandato, em vez de apresentar apenas um currículo. Não chega o chavão «o objetivo do FC Porto é sempre o mesmo: ganhar». 

Pinto da Costa é um presidente único no futebol mundial. Não só por tudo o que conquistou com o FC Porto, mas por ser o único que pode falhar com 10 treinadores consecutivos, e ainda assim a maioria da massa adepta criticará sobretudo os treinadores, nunca o presidente.

Dos últimos 4 treinadores escolhidos para a equipa principal, todos foram criticados a determinada altura pela massa adepta. Mas Pinto da Costa, em todos os anos que leva de FC Porto, nunca demitiu um treinador por protestos dos adeptos. Não é agora que o vai fazer.

Pinto da Costa só demite um treinador quando acha que este deixa de ter condições para cumprir os objetivos do FC Porto. E por vezes, até quando os treinadores sentem que já não têm condições para o fazer, é o próprio Pinto da Costa quem os segura, como foi exemplo Paulo Fonseca.

Por outro lado, não fará muito sentido reeleger Pinto da Costa mantendo um treinador altamente contestado. Da mesma forma em que não fará sentido reeleger uma direção que passado um mês vai trocar de treinador, pois é suposto o treinador ser o rosto de um projeto. Isso seria o mesmo que dizer que a SAD é mais importante do que o treinador. E se assim é, então não temos que pedir responsabilidades por maus resultados a Lopetegui (ou a qualquer outro treinador), mas sim à SAD.

Se é só Lopetegui quem está a dar a cara perante os maus resultados (é obrigado a isso, na medida em que é obrigado a ir às conferências de imprensa), então não digam que o mais importante é a estrutura. Pinto da Costa tem que falar. Se não fala, que fale Antero Henrique, há anos sem se dirigir aos sócios do FC Porto publicamente. O FC Porto tem que falar a uma só voz, mas não tem que estar limitado às intervenções de uma só pessoa.

Quem vai ser o treinador do FC Porto em abril? Por vezes é preciso muito mais do que um contrato para o dizer. Lopetegui assinou por 3 anos, tem contrato, tudo bem. Mas Pinto da Costa foi reeleito, no 13º mandato, até 2016 - e mesmo assim Pinto da Costa assumiu a contratação de Lopetegui até 2017. Pinto da Costa confiou em Lopetegui para além do período em que os sócios confiaram a presidência do FC Porto a Pinto da Costa.

Ou seja, ou Pinto da Costa dava por garantido que ia continuar na presidência do FC Porto para além de 2016, ou então Lopetegui foi mais do que uma aposta pessoal: foi uma aposta que ele fez para o FC Porto, indo além da ligação contratual de Pinto da Costa à presidência do FC Porto. Assim sendo, não basta que Lopetegui tenha contrato.

É preciso que Pinto da Costa clarifique, de forma muito clara, o presente e futuro de Lopetegui no FC Porto. E não convém esperar pelo fim de março para o fazer.

PS: Repetindo um PS anterior: O Tribunal do Dragão assume-se, desde o primeiro dia, como um espaço de «defesa, crítica e análise ao FC Porto». Tudo é passível de ser defendido, tudo é passível de ser criticado, tudo é analisado. Lopetegui é defendido, criticado e analisado. Depois do jogo com o Rio Ave, quarta-feira, cá estaremos para realçar o positivo e o negativo. Como sempre.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Uma derrota (demasiado) normal

Um detalhe transformou um jogo que prometia ser equilibrado num jogo em que se viu 11 gajos (a palavra jogadores não faz justiça a todos) contra uma equipa. Jorge Jesus e Lopetegui disseram-lo e bem no fim do jogo: a equipa que marcasse primeiro teria uma enorme vantagem. Marcou o Sporting e o FC Porto não conseguiu nunca sequer chegar perto do empate - exceção ao remate de Aboubakar para a mancha de Rui Patrício, já depois do 1x0, o FC Porto não cria uma única boa situação para empatar. Tinha uma hora para o fazer, não o fez, e perdeu bem.

A visita a Alvalade era, teoricamente, a mais difícil das 34 etapas que o FC Porto tem que percorrer no campeonato. Não é por se perder em Alvalade que se perde o título, desde 2000 só dois campeonatos coincidiram com vitórias em Alvalade. E se estamos a defrontar o Sporting com maior investimento e argumentos a nível interno dos últimos anos, o grau de dificuldade sobe forçosamente. Foram 34 jornadas consecutivas sem conhecer o sabor da derrota, que chega no jogo em que mais probabilidades havia de isso acontecer. Se havia jogo para se perder a invencibilidade no campeonato, o mais provável era ser neste.

Vem aí um ciclo difícil: 8 jogos fora de casa nos próximos 11. Dependemos de nós próprios para cumprir os objetivos e chegar ao título. Só não será a jogar como ontem que o vamos conseguir. 





Danilo Pereira (+/-) - Também não ficou bem entre a paragem cerebral da defesa no lance do 1x0 e até no 2x0 mostrou passividade (já lá vamos), mas foi o único médio a exibir-se a bom nível e o único a conseguir impor-se em todos os momentos do jogo. Com o meio-campo do FC Porto raso em criatividade, foi o único a conseguir meter duas bolas em Aboubakar, que falhou isolado em ambos os casos. Lutou como pôde e enquanto pôde.

Brahimi (+/-) - Será possível censurar Brahimi por não passar a bola se a equipa não conseguia fazer absolutamente nada coletivamente? É negativo pois espelha uma equipa que não estava bem preparada para se impor coletivamente em Alvalade. Mas Brahimi, apesar de tudo, ainda foi quem mais tentou. Quatro remates, acertou 8 das 11 jogadas individuais que assumiu (embora no momento de decisão nunca tenha colocado um colega em zona de finalização) e fez provavelmente o melhor jogo no que toca à reação à perda de bola: 10 recuperações. Mais do que os próprios médios do FC Porto. Pequena nota positiva também para Corona.





Erros de distrital (-) - Privei várias vezes com um treinador que preparava assim a marcação à zona: «Quando estás a defender tens que ter um olho no adversário, um olho na bola e outro olho nos teus colegas. Se só tens dois olhos desemerda-te, usa o olho do cu, tens que controlar as três coisas». Indi tirou por momento os olhos de Slimani e deu, claro está, merda. Era impossível o FC Porto não estar prevenido para o perigo que era a redondinha ir parar à cabeça de Slimani. Uma desconcentração de Indi que depois nem Danilo nem Layún, em marcação à zona (se um falha, outro tem que assumir a dobra, senão falham todos) e sem nenhum oponente direto, conseguiram emendar. Esta falha de marcação mudou o jogo.

O lance do 2x0 curiosamente envolve os dois jogadores do FC Porto que melhor estiveram na partida, Brahimi e Danilo Pereira. Isto é um lance em que só há uma coisa: displicência e falta de empenho. Brahimi perde a bola em lance individual e permite o contra-ataque. Depois vê-se Danilo, já esgotado, e o recém-entrado André André a irem quase a passo atrás de Bryan Ruiz (quem nem é dos mais rápidos do Sporting), que tinha uma auto-estrada à sua frente e já tinha o espaço para meter a bola entre Maicon e Maxi. Ninguém foi capaz de um sprint para matar a jogada. Inaceitável.

Setores desligados (-) - O FC Porto quis dominar o jogo em Alvalade, sempre com futebol apoiado, mas nada disso funcionou. Corona e Brahimi ficaram quase sempre entregues ao lance individual, pois Maxi e Layún poucas vezes subiam. Herrera nunca fez bem o apoio entre linhas. Rúben Neves nunca pareceu entender que posição ocupar e chocou não raras vezes com Danilo. Aboubakar esteve quase sempre forçado a vir apoiar os médios, e depois desperdiçou as duas ocasiões que teve. A sua substituição, ao lançar André Silva às feras, pode muito bem sugerir que Lopetegui perdeu a paciência com ele (até porque o problema não estava no ataque, estava na incapacidade em fazer chegar a bola ao ataque). Pior foi, sobretudo na segunda parte, a insistência em chegar à linha de meio-campo e arriscar logo o passe longo para as alas. Tornou-se demasiado previsível. Pior. O FC Porto chegou ao intervalo com 48% de posse de bola. Acabou com 55%. Tendo mais bola, acabou por não criar nem uma única ocasião. Ninguém se pode queixar de perder assim.

Subrendimento geral (-) - Maxi e Layún fizeram dos seus piores jogos: o primeiro fez a falta do 1x0 e deixou Slimani fugir nas suas costas no segundo; já Layún só se viu a bater - e nada bem - as bolas paradas. Maicon fez um jogo altamente sofrível - hoje em dia parece que os adeptos já não têm apreço por nenhum dos centrais do FC Porto, o que torna impossível formar uma dupla titular que seja incontestável. Rúben Neves esteve de facto muito abaixo do habitual, quer no passe, quer no posicionamento. Herrera foi um corpo estranho a tudo o que se passava em campo e André André entrou a acusar uma notória falta de ritmo - se acham que não tinha problemas físicos, esta exibição é própria de quem está sem pedalada. Tello entrou para explorar um espaço que não existia - Varela segura melhor a bola, cruza melhor e apareceria melhor perto de André Silva. Enfim, opções.

PS: André Silva estreou-se na Liga em Alvalade, com o FC Porto a perder. Entretanto, Dani Osvaldo goza férias na Argentina enquanto recebe o seu chorudo salário. E em 2013 o Sporting, tal como o FC Porto, contratou um ponta-de-lança argelino,  mas que custou 10 vezes menos do que o nosso - e o Sporting só se virou para Slimani depois de falhar Ghilas. Só me ocorre isto: foda-se.

PS2: Pinto da Costa (e quem diz Pinto da Costa diz uma voz da SAD) esperou que o FC Porto subisse à liderança do campeonato para finalmente falar sobre a atualidade da equipa e do treinador. Esperemos que não espere pelo regresso ao primeiro lugar para voltar a falar novamente. É que vêm aí eleições e os sócios não querem escolher um currículo de 30 anos, querem escolher um projeto desportivo para o futuro próximo. E o treinador terá que ser parte essencial e um nome muito claro desse projeto, pois ninguém quer eleger uma direção que tem um treinador contestado, nem uma direção que ao fim de um mês de ser (re)eleita troca de treinador.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Dia de ser Porto

Últimos jogos entre Sporting e FC Porto em Alvalade

Alvalade foi-se tornando, ao longo dos últimos anos, no estádio português onde o FC Porto mais dificuldades sente em jogar e vencer. Nos últimos 12 jogos, apenas uma vitória. E se tivermos em conta as quatro vitórias lá alcançadas nos últimos 20 clássicos, vemos que os triunfos passam sempre por detalhes: um golo do fenómeno Pena na segunda parte; um desvio acrobático de Costinha aos três minutos; aquele golo do Jorginho perto do fim; e um livre de Bruno Alves. Quatro detalhes, quatro golos, quatro vitórias.

O Sporting consegue agigantar-se, motivar-se, sempre que recebe o FC Porto. Uma motivação inerente a quem defronta grandes equipas, que opõe quem ganha títulos de vez em quando a quem perde de vez em quando. 

Os adeptos do FC Porto querem algo muito claro: uma postura diferente da apresentada na Luz e em Londres, na qual Lopetegui preocupou-se tanto em travar os adversários que pouco pensou em impôr o FC Porto. Mas há um fator diferenciador: o FC Porto estava obrigado a ganhar a Benfica e Chelsea; neste caso, o empate garante a liderança. É um desafio acrescido para Lopetegui, pois no FC Porto é possível aceitar um empate num clássico; só não é possível aceitar que se jogue para o empate.

O Sporting está sob máxima pressão. Eliminado da Champions, eliminado da Taça e batalhas perdidas também fora de campo. Note-se que o FC Porto nem conseguiu ganhar em Alvalade durante a caótica era Godinho Lopes; então, seria muito difícil ao Sporting explicar, aos seus adeptos, uma derrota perante o FC Porto no ano em que mais estão a investir para ser campeões. E Pinto da Costa não prometeu o primeiro lugar a ninguém, ao contrário de Bruno de Carvalho.

O momento do FC Porto dispensa apresentações. Entre todos os títulos que conquistámos desde 2000, só dois passaram por vitórias em Alvalade. O FC Porto está e vai continuar em quatro frentes após este jogo. Mas os adeptos não tolerariam, uma vez mais, um jogo em que Lopetegui não monte uma equipa à Porto - e não basta montá-la, é preciso que os jogadores a personalizem.

Lopetegui pode e deve pensar em travar os pontos fortes do Sporting (transição rápida, apoio entre linhas e o jogo combativo do Slimani na grande área), mas isso não pode inibir o FC Porto de procurar o golo e os três pontos. O Sporting também vai apostar tudo em fechar os corredores ao FC Porto e entrar a matar no início de construção (isto é tão previsível que não há desculpa para que os jogadores não estejam preparados para isso), mas é quem está sob maior pressão, logo Jesus vai ter que procurar uma exposição que o FC Porto terá que saber aproveitar.

Queremos um FC Porto à Porto. Isso não implica ganhar sempre; mas implica lutar sempre para ganhar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Feliz natal, Marítimo

A opinião d'O Tribunal do Dragão em relação à Taça da Liga já é conhecida. E é permanente: é uma competição que serve como espaço competitivo para as segundas linhas do plantel e para lançar jovens. Mas a partir do momento em que o FC Porto assume que conquistar esta prova é um objetivo, então a análise que fazemos à competição tem que ser forçosamente diferente.

Ao primeiro jogo o FC Porto já está fora da competição (não vale a pena pensar em outra coisa que não seja dar minutos aos menos rodados e aos jovens nos próximos dois jogos). Numa fase de grupos (com duas equipas da II Liga!) a 3 jornadas, e tendo o FC Porto começado em casa, isto só pode ser considerado um enorme fracasso.

Carlos Pereira
Pior: pela primeira vez na sua história, o FC Porto perdeu com o Marítimo em casa. Foram precisos 43 jogos e 84 anos para isso acontecer. Um dia feliz para Carlos Pereira, muito bem recebido na tribuna por Pinto da Costa. Mas enfim, o homem foi importante na vinda de Danilo Pereira, não é? Tão importante que Danilo nem era do Marítimo, mas sim do Portimonense/Teodoro Fonseca.

Em 2015, o FC Porto perdeu 3 jogos nas competições nacionais. Todos com o Marítimo. Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. E se pensávamos que da maldição da Madeira já nos tínhamos livrados, eis que vêm cá os madeirenses para despertar os eternos fantasmas de contestação a Lopetegui.

Já entrando nos Bonés e Machados (não vale a pena individualizar - falar deste jogo é falar de coisas negativas, e só com muito boa vontade mencionar um ou dois pormenores positivos). O 11 escolhido por Lopetegui para este jogo foi bom. Mas isso depende da perspetiva para a competição.

Capitão na baliza, dupla de centrais rodada e experiente, regresso de André André após lesão, jogadores de segunda linha lançados (que, nos casos de Varela e Tello, era também a tentativa de ganhar os jogadores - Ángel tem estado bem sempre que joga, é um caso diferente) e espaço para inserir jovens, nomeadamente Víctor Garcia, André Silva e até Sérgio Oliveira. Quanto ao 11, nada a apontar.

O problema é que uma equipa que quer ganhar uma determinada competição não pode mudar 10 jogadores de um jogo para o outro. Percebemos que é o jogo pós-natal e que há clássico em Alvalade no sábado, mas notou-se claramente que Lopetegui montou um 11 sem rotinas, setores pouquíssimo ligados, jogadores com pouco ritmo. Para quem, como eu, secundariza a Taça da Liga, não pode criticar; para quem quer ganhar a Taça da Liga, então não há outra coisa a fazer. Lopetegui diz no jogo que o seu trabalho é preparar a equipa para todas as competições. Alguém viu hoje uma equipa preparada para ganhar a Taça da Liga?

A primeira parte foi normal. FC Porto mais perigoso, mesmo acusando a falta de rotinas, e não marca por manifesta falta de eficácia. Depois acontece o inesperado. O Marítimo abre a segunda parte com um golo de bola parada (que foi o capítulo em que o FC Porto mais melhorou em relação à época passada - na verdade, o único em que melhorou). Depois, Marcano, que já tinha estado mal com Maicon no primeiro lance, está diretamente ligado mais a dois golos do Marítimo. Um desastre de noite para os nossos centrais. Não há treinador ou equipa que resistam a três lances assim, capitais. Que responsabilidades podemos imputar ao treinador por 3 golos sofridos por erros dos centrais? E com a ineficácia que se verificou até ao último lance do jogo, só podia correr mal.

A contestação ao treinador
O jogo fica marcado pela grande contestação a Lopetegui, claro. Uma coisa é assobiar o treinador quando está a ganhar por 3x0. Outro é fazê-lo quando o FC Porto, pela primeira vez na sua história, está a perder por 3x0 em casa com o Marítimo e fica virtualmente eliminado de uma competição ao primeiro jogo. Pinto da Costa achou que só devia falar dos assobios a Lopetegui logo na semana seguinte à subida à liderança. Neste momento, já todos sabem que as vitórias só significam uma coisa: a contestação a Lopetegui fica no congelador até ao próximo mau resultado. Mas se o próximo mau resultado acontecer no dia 2, a porta do congelador corre o risco de nunca mais fechar.

Dia 2, pela primeira vez, o FC Porto de Lopetegui vai defender a liderança isolada do campeonato. Uma oportunidade, ou talvez a última, para equipa e treinador mostrarem o quão preparados estão e o quão querem conquistar o campeonato. 

PS: Tendo em conta que hoje era dia de jogo, o regresso ao debate sobre os direitos televisivos fica para depois.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Agora vem o mais difícil

Uma vitória com muito do que não se via há uma boa data de tempo. Uma entrada fortíssima em campo, premiada com golo madrugador. Uma equipa a potenciar ao máximo as bolas paradas. Sem tremer após um deslize do rival que permitia, dois anos depois, subir à liderança isolada do campeonato. Uma equipa com um plano de jogo executado à risca e com qualidade. Uma vitória tranquilíssima, de uma equipa que não acusou em momento algum qualquer tipo de pressão.

Plano seguido à risca
Mas o mais difícil não era chegar à liderança: o mais difícil vai ser manter a liderança. A começar por 2 de janeiro, em Alvalade, o estádio português onde o FC Porto mais dificuldades tem em jogar e fazer bons resultados. A equipa revelou estofo para aproveitar uma oportunidade para chegar à liderança. Agora será necessário um estofo ainda maior para não deixar a liderança fugir logo à primeira oportunidade para o rival.

Tempo de descanso, e não há portista que não vá ter um natal mais animado. Lopetegui e os jogadores cumpriram o objetivo de, quatro anos depois, ter o simbólico (e não mais que isso) título de campeão de inverno, juntando isso ao facto de ser a única equipa a nível interno a continuar invicta.

Líder do campeonato, apurado para os 1/4 da Taça de Portugal, invicto nas provas nacionais, 10 pontos na fase de grupos da Champions (que não invalidam o objetivo falhado de ir aos 1/8) e, a partir de fevereiro, iniciar a Liga Europa com uma exigência de Liga dos Campeões. Tomara a muitos clubes estarem numa crise tão grande como esta que o FC Porto atravessa.





A entrada em campo (+) - Foi um regalo ver a forma como o FC Porto entrou em campo. Laterais projetados, Brahimi e Corona desconcertantes, a equipa a chegar à grande área com muita facilidade e Herrera a fazer 30 minutos de luxo: foi o mexicano quem ligou todos os setores, ofereceu sempre a linha de apoio à zona onde circulava a bola, esteve excelente no espaço entre linhas e combinou como há muito não se via com os extremos. Depois, mais um golo de bola parada. A Académica só chega perto da baliza de Casillas aos 40 minutos, quando o FC Porto já há muito ameaçava o 2x0.

Mexican power (+) - Desde Deco que não tínhamos um jogador a cruzar assim, de forma tão influente e decisiva, nas bolas paradas. Layún é um achado, e a prova de que é muito diferente ter um bom marcador de livres para rematar (coisa que Layún não é e que o FC Porto tinha na época passada) e ter um bom marcador de livres para centrar (coisa que Layún é e o FC Porto não tinha na época passada). Mais duas assistências - já é o jogador com mais passes (cruzamentos, na verdade) para golo no campeonato, à frente de Gaitán, o jogador que nos últimos anos mais se destaca neste capítulo. Além de toda a profundidade que ofereceu e do entendimento com Brahimi, Layún fez mais uma excelente exibição.

Afirmação de Danilo
Corona evoluiu já significativamente nestes primeiros meses de FC Porto. Tenta jogar bonito, mas sem perder a objetividade. É o nosso extremo mais rápido a abordar o 1-1, está a aprender a deixar o corredor para Maxi Pereira (mais uma boa exibição) e tem uma receção de bola invejável, como foi exemplo o cruzamento (e, antes, a finta) para o golo de Herrera. Quanto a Herrera, já foi destacado na entrada do FC Porto em campo. Faz meia hora de grande nível, sofre quebra mas depois faz o bonito golo. Lopetegui arriscou lançar Herrera numa fase decisiva da época, com o jogador em clara baixa de forma. Os resultados estão à vista.

Danilo Pereira (+) - O Tribunal do Dragão escreveu, na pré-época, que Danilo tinha tudo para ser a melhor contratação da época. Será sempre subjetivo, mas a sua influência cresce a olhos vistos. Entendeu-se bem com Rúben Neves, soube ocupar zonas mais adiantadas, transportou melhor a bola e não houve jogador que tivesse passado por ele. O passe para Corona é genial. Se Casemiro precisou de uns valentes meses para que se deixasse de falar de Fernando, Danilo, desde que chegou ao FC Porto, fez com que não se fale nem de Fernando nem de Casemiro.







Os pipoqueiros (-) - De notar o que disse Filipe Gouveia: «A nossa estratégia passava por enervar o Porto, por pôr os sócios do Porto contra a equipa, mas não conseguimos.» A Académica não o fez: foram os próprios pipoqueiros a virarem-se contra o treinador numa noite de 3x0 e subida à liderança, dois anos depois. Depois de tantas vozes a reclamar que Bueno tem tido pouco tempo de jogo, decidem embirrar por Lopetegui lhe ter dado precisamente tempo de jogo.

Claro que os assobios não eram, diretamente, para Bueno, mas sim pela não entrada de André Silva. Mas foi um banho de hipocrisia que essas dezenas de pipoqueiros manifestaram. Eu também gostava de ter visto André Silva em campo, mas entendo perfeitamente que tenha jogado Bueno. André Silva aqueceu pela 2ª vez e não entrou; já Bueno já aqueceu 12 vezes esta época para nada. Imaginem que mensagem é transmitida a Bueno: «Olha lá, tu que até foste o melhor marcador espanhol da última Liga BBVA, não te queremos a ti, queremos o miúdo da equipa B». Simplesmente vergonhoso. Não se vê disto em nenhum outro clube. Infelizmente, os clubes não podem escolher os adeptos que têm, mas todos os adeptos contribuem para a imagem exterior de um clube.

Lopetegui seguiu as suas convicções. Podia ter feito o mais fácil: tomar a decisão popular, meter André Silva e deixar os adeptos contentes. Mas se fosse para termos um treinador que mete jovens à toa na equipa, só para ter um mínimo crédito de popularidade entre os adeptos, o treinador do FC Porto seria Rui Vitória, não Lopetegui. André Silva vai ter a sua oportunidade, e vai agarrá-la. Virar-se contra Lopetegui pela não utilização de André Silva é uma hipocrisia. Não foi Lopetegui quem deixou André Silva ir ao Europeu de sub-19 em final de contrato

Felizmente, as pipocas comem-se na bancada e não entram no balneário. Feliz natal.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A história da Taça não reza de boas exibições

A história da Taça de Portugal não reza de quem jogou bem ou mal: reza de quem passou ou não as eliminatórias, de quem foi ou não ao Jamor, de quem ficou com o caneco. Terceira eliminatória consecutiva fora de casa, terceiro jogo contra uma equipa inferior motivada por fazer o jogo das suas vidas, terceira vitória sem sofrer golos.

Não foi uma boa exibição, foi a exibição suficiente. Um canto, um desvio, um golo. Terá sido a primeira vez que o FC Porto de Lopetegui ganhou um jogo assim. O Feirense é uma equipa superior a muitas da primeira liga, o que impunha cautelas, mas o FC Porto esteve sempre exposto aos riscos de gerir/defender/controlar um jogo em que está a vencer apenas por 1x0.

Um golo que deveria tranquilizar a equipa acabou por relaxá-la. Nestes jogos, com alterações em todos os setores, é sempre difícil imprimir uma dinâmica forte e revelar níveis altos de entrosamente, mas não justifica tudo. Muitos cruzamentos (20) mas pouco ou nenhum seguimento na grande área, individualidades improdutivas, poucas ocasiões de golo e circulação lenta e sempre em zonas recuadas.

Já lá vão umas valentes semanas sem que o FC Porto faça uma exibição que leve os adeptos a dizer «assim sim, carago!» Domingo era um bom dia para isso.





Helton (+) - Sempre tranquilo, rápido e ágil na resposta aos cruzamentos e ao jogo aéreo, evitou que o jogo fosse a prolongamento com uma grande defesa. Um guarda-redes do FC Porto não fez 10 defesas por jogo: faz duas ou três, e são essas que podem resolver um jogo. Assim foi.

Danilo Pereira (+) - Está a atravessar um bom momento. Afirmou-se como o pêndulo do FC Porto na zona mais recuada do meio-campo. Referência no início de construção, ganha todos os duelos físicos, limpa tudo pelo ar, nunca perde o sentido posicional. Precisa que os dois médios à sua frente deem mais ofensivamente, seja no transporte, na chegada à grande área e na meia distância, pois essas funções, ainda que pudessem fazer de Danilo um jogador mais completo, não é a ele que lhe competem.

Outros destaques (+) - O regresso de Aboubakar aos golos, mais uma boa resposta de Ángel na Taça (que futuro para Cissokho?), Maicon quase impecável até aos 88 minutos e Corona a entrar bem na partida.





Tello (-) - Vamos chegar a janeiro e Tello ainda só tem 2 golos e uma assistência esta época. Há um ano, por esta altura já tinha estado envolvido em 11 golos da equipa. Uma quebra enorme de rendimento para um jogador que está num ano decisivo: não volta ao Barcelona de certeza e a jogar assim também não vai ficar no FC Porto. Não se viu uma arrancada, um bom cruzamento, um bom remate, nem sequer um drible. Vamos criar o #AcordaTelloCaralho.

A rever (-) - Continuamos a ver mais do mesmo. Todos sabemos que é intenção de Lopetegui fazer uma circulação apoiada, com calma, controlada, em vez de andar a fazer piscinas de campo a campo. Mas uma coisa é fazer uma transição lenta mas tendo a baliza como destino; outra coisa é resumir a circulação a um espaço de 30 metros, entre a linha defensiva e os médios, ignorando que há uma baliza do outro lado para atacar e que um 1x0 é sempre um risco. O FC Porto, ao não querer correr riscos, acaba por correr o maior risco de todos. É pôr-se a jeito.

1/4 da Taça já estão, e restam apenas equipas da primeira liga em prova (exceção feita ao Gil Vicente). Preocupações para 2016, pois para já resta a receção a Académica em casa, antes de pensar no ataque à liderança em Alvalade.