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domingo, 21 de agosto de 2016

André Silva resolve, mas não disfarça tudo

Soube bem. Uma daquelas vitórias em que a qualidade pode só aparecer as espaços, mas que não deixou dúvidas quanto ao empenho e luta da equipa. Desde 2004, o FC Porto ganhou sempre o primeiro jogo da época em casa no campeonato. A última equipa a impedir isso foi o... Estoril, com um 2x2 no Dragão, resultado que envergonhou toda a gente, inclusive um banco de suplentes que tinha Quaresma, Raúl Meireles, Derlei e McCarthy. Comparando com o banco de ontem, certamente dará que pensar. Já lá vamos.

O FC Porto nem sempre jogou bem, mas teve o caudal ofensivo suficiente para justificar a vitória. Cruzou, rematou, pressionou, poucas vezes deixou o Estoril contra-atacar e coube a André Silva mostrar que o FC Porto, mesmo em dias não tão bons, pode contar com ele. Mas depender sempre dele, não. Para bem do FC Porto e do próprio André Silva. Segue-se o dificílimo jogo em Roma e a não muito menos complicada visita ao Sporting. Na antecâmara a esses desafios, a vitória contra o Estoril deixou claro que vamos ter um FC Porto lutador e combativo, mas com opções manifestamente curtas para esperar - ou poder exigir - vitórias que não se vêem desde 1996 (no caso de Itália) ou desde 2008 (no caso de Alvalade). A história existe para ser contrariada, mas sem condições bem podem rezar a todos os Espíritos e Santos. 





Miguel Layún (+) - É impressionante a capacidade de Layún, o lateral, conseguir criar mais situações de golo do que Corona, Varela e Adrián juntos. Tentou 4 vezes o remate, mas destacou-se novamente sobretudo nas assistências, ao fazer 8 passes/cruzamentos para zonas de finalização. Com ele, o FC Porto tem sempre um dínamo constante na asa esquerda, que nunca deixa que a equipa adormeça. Porque perdeu prontamente a titularidade para Alex Telles, só Nuno Espírito Santo o poderá explicar. A intenção de meter os laterais a procurar mais a linha e menos o espaço interior pode ajudar a justificar. Então que faz a Layún? Com 20 metros de corredor pela frente, puxa para dentro, cruza a partir de zona interior e mete a bola redondinha para André Silva fazer o resto. Que se lixe a profundidade, que se lixe a linha. Layún cruza de onde quer e para onde quer. E assim o FC Porto ganhou o jogo.

André Silva (+) - Há quem diga que teve uma noite má. Bom, o que foi a noite má de André Silva? Foi o único capaz de meter uma bola no fundo da baliza do Estoril, marcou pelo 5º jogo oficial consecutivo e garantiu 3 pontos para o FC Porto. Se fez isto numa noite má, mal podemos esperar para ver o que fará em noites boas. Dito isto, é claro que André Silva tem que melhorar a receção (sobretudo orientada - veja e revela vídeos de Jackson quando estava no FC Porto) e decidir melhor no 1x1, mas lá está: é um ponta-de-lança que está sempre, sempre presente. Movimenta-se sempre bem e está sempre à procura da bola, sem que com isso o FC Porto deixe de sentir que tem uma referência na grande área. Se é certo que Layún cruzou a bola redondinha, André Silva foi inteligente a antecipar-se e a atacar o espaço. Um belo golo.


Rúben Neves (+) - Durante anos, houve uma teoria que dizia que o FC Porto perdia muito quando usava Fernando nos jogos em casa. Há quem diga o mesmo de Danilo Pereira, como se o médio mais recuado ainda fosse, aos tempos de hoje, o trinco que só tem que dar sarrafada, cortar a bola e jogar simples para o colega mais próximo. Basta comparar quantos golos o FC Porto sofria no Dragão com Fernando e quantos passou a sofrer desde que Fernando saiu. Não é certamente a única razão, mas o FC Porto esteve 6 anos sem perder no Dragão, sempre com Fernando como o 6 predileto.

Não é portanto por Danilo Pereira não ser pertinente nos jogos em casa que foi para o banco. Está, isso sim, a acusar o facto de ter tido um período de férias mais reduzido e de ter apanhado a pré-época num ritmo avançado. Para quem não se recorda, Danilo apresentou-se no Olival e dois dias depois Nuno meteu-o logo a titular em Guimarães. Danilo Pereira ainda não está no ponto fisicamente, e Rúben Neves dá todas as garantias para, nos jogos em casa, jogar sem problema na posição 6. E de certeza que não foi por ter chorado, pois pobre do treinador que dá a titularidade a um jogador só porque este jogou.

Rúben Neves jogou porque é uma garantia de qualidade. Não tem a dimensão física, nem o jogo aéreo de Danilo, mas todo o jogo do FC Porto começou e passou pelos seus pés (fez mais de 90 passes). A diferença, que favorece Rúben Neves, é a amplitude que o FC Porto ganha com ele em campo. A bola circula mais, os passes longos saem melhor (embora não tenha deixado de falhar alguns - melhorou muito na segunda parte), e dispensa que a bola passe por 4 jogadores para ir de um flanco ao outro. A abertura para Layún foi soberba. Ele e Danilo não são incompatíveis em campo. Mas estando um ou outro, nunca será por aí que o FC Porto terá menos argumentos para vencer. Pelo contrário. Se falta criatividade, não é por quem está na posição mais recuada do meio-campo, mas sim por quem está à frente.

Ataque constante (+) - Contra a Roma, o FC Porto teve muitas dificuldades em entrar na grande área. Contra o Estoril, mudança completa: dos 17 remates que a equipa fez na primeira parte, 15 foram feitos dentro da grande área. Assim, com tanta capacidade de meter bolas na grande área (algo que tem muito a ver com a utilização de Layún), pode entender-se a preferência por um jogador com o perfil (expressão-chave) de Depoitre. Com tantas bolas a cair na grande área, haverá sempre uma ou duas a serem aproveitadas. O FC Porto fez 39 cruzamentos e beneficiou de 17 pontapés de canto. São muitas bolas a cair na grande área, e André Silva não pode estar em todo o lado. No entanto, há também que criar alguma versatilidade. Por exemplo, a determinada altura Nuno só pedia a Corona para meter a bola na área. Corona esteve sempre a fazê-lo, mas dos seus 14 cruzamentos só 3 foram parar a zonas de remate dos colegas. Ainda assim, com tanto caudal ofensivo, será uma raridade para o FC Porto não fazer golos no Dragão.





Pobreza alternativa (-) - Assim que começou a segunda parte, o FC Porto já não tinha mais opções de ataque no banco. É inqualificável que o FC Porto chegue a este jogo tendo apenas Adrián López como opção de ataque no banco. Tudo isto começa na forma como estão condicionas as opções de Nuno Espírito Santo. Sim, acham mesmo que NES não usa Brahimi ou Aboubakar simplesmente porque não quer? É certo que tem que haver alguma concertação entre o treinador e a SAD. Se o treinador sabe que a SAD precisa de vender Aboubakar ou Brahimi, tudo bem. Mas se assim é, há que dar alternativas ao treinador!

Por exemplo, Vítor Pereira sabia que ia perder Falcao e Hulk. Mas pôde usá-los no início de época. Neste caso, Nuno não utiliza Brahimi e Aboubakar e nem sequer tem alternativas. Crítica, talvez, só por ter preterido Gonçalo Paciência, que não conta para NES desde o início da pré-época. E ontem, sem um único ponta-de-lança como alternativa a André Silva, teria certamente dado muito mais jeito do que Sérgio Oliveira, também ele regressado dos Jogos Olímpicos. Aqui, a responsabilidade é de Nuno. Uma coisa é não ter alternativas em número, outra é tê-las mas achar que a qualidade não chega. Mas se assim é, normalmente aproveita-se o que se tem. 

Há também a questionar os casos de Alberto Bueno e João Carlos Teixeira. João Carlos era o maior criativo dos 3 médios que o FC Porto tinha no banco. Então fica João Carlos no banco para entrarem André André e Sérgio Oliveira, ao mesmo tempo em que o FC Porto fica sem o seu médio mais criativo (Otávio)? Não fosse o golo de André Silva e NES já estaria a receber o seu primeiro enxoval de críticas pelas suas opções táticas. Mas na verdade, o golo não passou pelos médios - foi de Layún para André Silva. As mexidas no meio-campo deixaram muito a desejar. João Carlos Teixeira tem tudo para ser um jogador útil, sobretudo não havendo mais opções criativas disponíveis. Assim, como entender o seu papel, sobretudo diante do possível e agradável regresso de Óliver? E o que dizer de Alberto Bueno? Aqui, são opções do treinador, então NES só pode responder por elas. Mas na ausência de alternativas a Aboubakar e Brahimi, a responsabilidade é da SAD. 

O único avançado ontem disponível como alternativa era um jogador que, há um mês, estava dispensado na equipa B. Se o FC Porto quer lutar pelo título e ir à Champions, não pode apresentar uma pobreza tão grandes a nível de alternativas. Em quantidade e qualidade. 

Silvestre (-) - Nunca houve treinador do FC Porto que não gostasse de Varela. Foi assim com Jesualdo, Villas-Boas, Vítor Pereira, Paulo Fonseca. Até Lopetegui o queria muito no arranque para 2014-15. Em 2015-16, percebeu que já não era o extremo que idealizava. E Nuno, com os 45 minutos de ontem, arrisca muito bem concluir o mesmo. Admita-se, não fez sentido nenhum Varela fazer uma pré-época (maioritariamente) a lateral para ontem jogar a extremo. Mas Varela já não é aquele extremo de rasgo, capaz de galgar metros com bola, evitar um ou dois defesas e criar lances de perigo. Varela é cada vez mais um extremo de apoio, por a velocidade já não ser a de outros tempos. Mas jogando em apoio, Varela tem que fazer várias coisas: segurar bem a bola, solicitar o lateral pelas suas costas, ter critérios nos cruzamentos para a grande área e saber procurar os médios no espaço interior. Ontem não fez nada disso. Assim não. Se é certo que poucos extremos trintões são titulares no FC Porto, nenhum a jogar assim mereceria sequer um lugar na ficha de jogo. Pede-se mais ao melhor marcador português da história do Estádio do Dragão.

Duas notas finais. O Tuttosport diz que Rúben Neves foi oferecido por Jorge Mendes à Juventus. Ora os empresários não podem oferecer jogadores sem terem uma procuração atribuída pelos clubes, portanto: a) ou o Tuttosport mentiu; b) ou Jorge Mendes ofereceu ilicitamente o jogador; c) ou o FC Porto permitiu de facto a Jorge Mendes que este oferecesse Rúben Neves à Juventus. Pim-pam-pum.

André Silva renovou até 2021, com cláusula de rescisão de 60 milhões de euros. Felizmente, esta renovação de contrato foi bem mais fácil de fechar do que a renovação de 2014, que quase afastou André Silva do FC Porto. Saúde-se esta excelente notícia, antes de André Silva se estrear na seleção nacional. O FC Porto comunicou a informação básica, não falando sobre a eventual envolvência de Jorge Mendes na renovação de contrato, ou se eventualmente o agente ficou com uma parte (digamos 10%) do seu passe. Seria, sem dúvida, preocupante quanto ao rumo a seguir na aposta na formação. É que a Promosport já tinha 10% de André Silva. Juntando a isto eventuais 10% de Jorge Mendes (que, diga-se, é a percentagem base de Mendes nas vendas a outros clubes), seriam já 20% nas mãos de empresários num atleta que só há bem pouco tempo começou a ganhar o seu espaço no FC Porto. E tendo uma cláusula de rescisão de 60 milhões de euros, estaríamos já a falar de potenciais 12M€ destinados a empresários. Deve ter sido mesmo difícil convencer André Silva a renovar contrato com o clube do seu coração. Que nunca ninguém ganhe nada com uma transferência de André Silva, pois seria sinal de que continuaria muitos e longos anos no FC Porto. É o que todos os adeptos do Futebol Clube do Porto desejam.

sábado, 28 de maio de 2016

Análise 2015-16: os laterais

No dia em que analisamos os laterais, o FC Porto deu a conhecer que «chegou a acordo com o Watford» para a contratação de Layún. Chegar a acordo pressupõe que o Watford esteve envolvido nas negociações, o que indicia que a cláusula de compra não foi batida - o que não significa que Layún não tenha custado 6M€, mas quiçá com um faseamento de pagamento diferente do que estaria previsto na opção de compra. Aliás, desconhecem-se publicamente todos os pormenores (quanto custa, duração de contrato, etc.)

Compra. Reforço?
Layún é uma boa compra do FC Porto, resta saber se será uma contratação para a próxima época. A possibilidade de renegociar o jogador até ao final de junho não é descartável, tendo em conta que Layún fez uma grande época e despertou a atenção de outros clubes e mercados.

Face à necessidade de apresentar resultados com passes de jogadores de 72,59M€ até 30 de junho, ou a SAD já estudou uma forma de fazer as mais-valias necessárias até ao fim do mês (na medida em que apresentar um prejuízo superior a 8,6M€ poderia trazer consequências no fair-play financeiro), ou este investimento em Layún já é feito a contar com uma futura venda. Até porque esta compra de Layún é o oposto da política da SAD nos últimos anos. Aliás, o acordo original com o Watford previa que o FC Porto tinha que pagar 3M€ até 15 dias depois de informar que iria comprar o jogador; se vendesse o jogador nas próximas duas semanas, poderia até pagar Layún com o dinheiro da venda a um terceiro clube. 

Desportivamente, Layún foi uma mais-valia para o FC Porto. Basta dizer que se não tivesse sido contratado no fecho do mercado, os laterais para esta época teriam sido José Ángel e Cissokho (tendo em conta que Rafa não estava integrado na equipa A). Esteve em 26 dos golos marcados pelo FC Porto esta época. Além disso, sempre personificou em campo aquilo a que os adeptos gostam de chamar um jogador à Porto.

É melhor a atacar do que a defender, certamente. Mas num contexto de campeonato português, os nossos laterais passam mais tempo a atacar do que a defender. Não era por causa de Layún que a equipa estava constantemente exposta contra Aroucas, Tondelas e afins. Cometeu alguns erros, como outros cometeram, mas Layún foi sempre mais vezes parte da solução do que do problema.

Neste momento é uma boa compra, pois se a SAD quiser já o vende com lucro e necessita de gerar mais-valias no próximo mês. Mas desportivamente, seria recomendável manter Layún no plantel, por ter tudo aquilo que o FC Porto necessita: qualidade, profissionalismo e dedicação. Se se concretizar a possibilidade de fazer o que o Hellas Verona fez com Iturbe, é necessário identificar outra solução de qualidade. E aí Rafa diz olá.

Contrato até 2018
Do outro lado, Maxi Pereira. Fez uma época bem razoável, embora nas últimas semanas tenha acusado claramente o desgaste (estamos a falar de um jogador de quase 32 anos que nunca sofreu uma lesão grave, e que é sempre titularíssimo por onde passa), com a sua condição física a deixar a desejar (não raras vezes víamos jogadores ganharem-lhe metros em pouco espaço). 

É também ele um jogador caro (podem dizer que não veio para o FC Porto pelo dinheiro, mas também não foi por lhe oferecem menos do que ganhava no Benfica), já sem grandes perspetivas de uma boa venda (só mesmo no Oriente ou nas Arábias), mas que foi influente na equipa. Maxi Pereira fez 13 assistências - em lances de bola corrida, fez mais assistências do que Layún, e foi sempre uma peça importante pela profundidade que dava ao corredor. Defensivamente, cometeu algumas falhas. 

Tem mais dois anos de contrato, por isso a continuidade no plantel parece um passo natural. Há uma boa alternativa na equipa B, chamada Víctor García, que já devia ter sido integrado num plano de rotação com Maxi esta época. Ricardo Pereira tem mais um ano de contrato com o Nice, por isso não entra nestas contas. 

Sobra José Ángel, um dos «patinhos feios» de que os adeptos nunca prescindem. Comete demasiados lapsos defensivamente, o que é uma pena, tendo em conta que é excelente a cruzar. A sua contratação, em 2014, foi boa e teve toda a lógica desportiva: era um lateral com escola, titular em bons campeonatos e boas equipas, jovem e que chegou ao FC Porto sem encargos imediatos (a Roma repartiu o passe com a SAD, que depois cedeu 5% à ARB Sport Asesores, de Alfredo Nora).

José Ángel, jogador que entretanto desapareceu do catálogo de jogadores que a Doyen Sports exibe no seu site, esteve sempre na sombra ora de Alex Sandro, ora de Miguel Layún. Quando era chamado, ora fazia um jogo consistente, ora estava diretamente ligado a um mau resultado no jogo seguinte. Não temos garantias de que Layún vá ficar no plantel, mas perante a promoção de Rafa é natural que José Ángel procure outra solução para o seu futuro. Tem contrato por mais dois anos e dificilmente partirá para uma 3ª época sendo suplente do FC Porto. Não dá garantias para o presente e o futuro não passa por ele. 

Não vale a pena falar de Cissokho, pois não?

Contrato até 2018
À partida, o FC Porto perdia qualidade nos laterais para esta época. Há uma diferença entre ter dois laterais de seleção brasileira vendidos ao Real Madrid e à Juventus, por mais de 55M€, e entre contratar um lateral que após 8 anos de Benfica só teve convite de um rival (Maxi) e outro que na época passada estava na segunda liga inglesa (Layún). Mas não foi, de todo, por Layún e Maxi que o FC Porto fez uma má época.

A primeira função de um lateral, logicamente, é defender bem. Mas os números no ataque são o que mais surpreende: Layún (26) e Maxi Pereira (14) tiveram intervenção direta em 40 golos do FC Porto. Danilo e Alex Sandro, há um ano, tiveram intervenção em 18. Ou seja, com Maxi e Layún, os laterais do FC Porto participaram em mais do dobro dos golos; mas na época passada o FC Porto teve a melhor defesa da Europa, enquanto este ano qualquer equipa, por maior ou menor vocação ofensiva que tivesse, conseguia marcar ao FC Porto com facilidade. Maxi e Layún tiveram as suas culpas no cartório defensivo, mas foram mais vezes solução do que problema.

Pergunta(s): Maxi e Layún devem manter o lugar para 2016-17? Quem deverão ser as alternativas nos corredores?

domingo, 15 de maio de 2016

Aperitivo intragável, almoço satisfatório

Uma manhã que nos fez recuar até 2001. O FC Porto já não ia chegar chegar ao título, pois o Boavista já era campeão, e dentro de uma semana havia final da Taça de Portugal, mas houve um gostinho especial naquela vitória por 4x0. Deco fez um hat-trick nesse jogo, na altura ainda na primeira parte, e deixou água na boca dos adeptos para o futuro. Aqueles quase 50 mil adeptos nas Antas sabiam que estava ali um jogador especial, que iria dar muitas alegrias ao FC Porto.

Ontem, também com um 4x0 ao Boavista em fim de época, vimos o mesmo: a estreia a marcar de André Silva. Resistiu, insistiu, felizmente teve uma aposta firme na equipa A e marcou aquele que se espera ser o primeiro de muitos golos. Ele merecia, e quem acredita nele também. 

No futuro não nos lembraremos desta vitória sobre o Boavista, mas oxalá que recordemos sempre este primeiro golo de André Silva. Que seja o dia em que começou a história de um grande goleador do FC Porto. 


Miguel Layún (+) - De regresso aos grandes jogos. Disponibilidade física e tática para tudo, fez um belo golo, aproveitando a sua capacidade de aparecer em zonas interiores, e ainda criou quatro situações de golo. Defensivamente, esteve quase sempre bem - é certo que Layún não é um lateral que defenda muuuuiito bem, mas quantos jogos é que o FC Porto deixou de ganhar por falhas defensivas de Layún? Em época de estreia num grande clube, esteve diretamente envolvido em 26 dos 88 golos que o FC Porto marcou. Ou seja, teve intervenção direta em 29,5% dos golos do FC Porto esta época. De certeza que já ajudou a resolver muitos mais jogos do que aqueles que complicou. José Mourinho disse um dia que com 11 Azpilicuetas ganhava a Liga dos Campeões. Com 11 Layúns, o FC Porto seria campeão. Mesmo que fosse a ganhar 5-4 em todos os jogos.

Iván Marcano (+) - Regressou a grande nível na semana anterior e voltou a fazer uma grande exibição. Na melhor altura possível, pois necessitaremos de um grande Marcano no Jamor. No total, Marcano teve 16 ações defensivas e foi o principal responsável pelo facto do Boavista não ter marcado. Está também a deixar clara a sua posição na luta pela continuidade no FC Porto. 

Entrada de Brahimi (+) - De uma primeira parte sofrível a uma segunda parte de qualidade, muito graças a Brahimi. Dinamizou por completo o ataque do FC Porto, desequilibrando a defesa do Boavista, marcando e assistindo. Foi o elemento mais perigoso da equipa desde a sua entrada em campo. É caso para dizer: que falta nos fez ter mais vezes este Brahimi. 

André Silva (+) - Continua a destacar-se, acima de tudo, pela capacidade de trabalho e pela forma como desgasta os centrais, sem nunca perder o sentido coletivo - assistiu Layún para o 2x0. E aqui, diga-se, José Peseiro fez bem em não designar André Silva para o bater. Por um motivo simples: André Silva merecia um golo dele, um momento dele, e não uma grande penalidade oferecida por favor. Além de não ser propriamente um exímio marcador de penaltys, André Silva estava a acusar alguma ansiedade para fazer o seu primeiro golo. Se falhasse o penalty, os efeitos negativos seriam maiores do que se os positivos se o marcasse. Felizmente, quase por justiça divina, marcou logo de seguida, num gesto onde revelou sangue frio e inteligência na movimentação. O FC Porto tem uma formação pronta a dar frutos, mas não basta dar 2 ou 3 jogos. André Silva é um exemplo disso. José Peseiro esteve bem no seu caso, ao não desistir do jogador. Oxalá continue a retribuir no Jamor.

Destaque ainda para mais um jogo sólido de Danilo Pereira e Maxi Pereira e para a entrada de Rúben Neves - com ele no meio-campo, a eficácia de passe subiu 4%, ao mesmo tempo em que a fluidez na troca de bola aumentou, e o FC Porto teve mais 8% de posse de bola. 







A primeira parte (-) - Foi sofrível ver a incapacidade do FC Porto em criar lances de perigo. Na primeira parte, apenas um remate na direção da baliza do Boavista, que felizmente deu golo. Corona e Varela passaram quase por completo ao lado do jogo, sem nunca criar grandes lances de perigo, e André André está longe do nível que apresentou na primeira metade da época. Contra o SC Braga, 45 minutos desta envergadura podem custar uma Taça. 

E agora? Agora o FC Porto, nos próximos dois jogos oficiais, pode ganhar dois troféus. Não há muitas equipas que disponham desta conjuntura. Há que aproveitá-la.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Reviravolta anormal

Virar um jogo de 0x2 para 3x2 é raro e difícil. Basta dizer que desde 1999 que não acontecia - na altura o FC Porto eliminou o Famalicão da Taça, por 4x2, com o bis de Quinzinho aos 118 minutos e um golo de Féher aos 119. Se nos restringirmos apenas ao campeonato, não acontecia desde os 3x2 ao Benfica, na Luz, em 1976, graças a um golo de Ademir e a um bis de Júlio Carlos nos minutos finais.

Aliás, em toda a história do campeonato, esta foi apenas a 4ª vez que o FC Porto venceu um jogo depois de estar a perder por 2x0. Mas isto quer acima de tudo dizer uma coisa: é extremamente difícil uma equipa abrir com uma vantagem de 2x0 frente ao FC Porto. E o Moreirense fê-lo com uma naturalidade assustadora.

Fazer 3 golos ao Moreirense deveria ser normal. Anormal foi estar a perder por 2x0 com o Moreirense à meia hora de jogo. Pela sexta vez em sete jogos, o FC Porto entra a perder, e quase sempre com golos apontados nos primeiros 10 minutos.

Nos últimos 2 jogos no Dragão, o FC Porto sofreu quatro golos. Durante a era Lopetegui, o FC Porto, é bom lembrar, esteve um ano inteiro sem sofrer golos no Dragão no campeonato, além de ter vencido 20 jogos consecutivos em casa ao longo de 2015. É normal que a equipa piore defensivamente, não só pela mudança de treinador (o modelo de Peseiro é isto - uma equipa constantemente exposta defensivamente; não é defeito, é feitio, o FC Porto saberia disso quando o contratou) como pelo desinvestimento em termos de qualidade no setor. 

Por muito que uma reviravolta assim seja saborosa, o FC Porto foi forçado a fazer o que só tinha feito 3 vezes em toda a sua história para vencer o Moreirense no Dragão. Uma vitória que deveria ter sido natural apareceu de forma muito suada. É bom ver que a equipa nunca se rendeu apesar das adversidades, mas em 2015 o FC Porto sofreu apenas 6 golos em 26 jogos no Dragão. Nos últimos 2 jogos, foram logo 4. É mera estatística, claro. Mas não é boa.






Layún (+) - Impressionante. Bateu com sangue frio o penalty, assistiu Suk (será que o problema das bolas paradas do FC Porto em 2014-15 seria resolvido com um batedor assim?) e lançou a jogada do 3x2. Mas mais do que isso, foi o dínamo de todo o corredor esquerdo do FC Porto ao longo de 90 minutos. Cruzou 18 vezes (10 deles tiveram resposta dos colegas na grande área!), criou nove situações de finalização e personificou toda a alma da equipa. 

Maxi Pereira (+) - Sempre incisivo na aproximação à grande área, apareceu várias vezes em zonas de finalização, esteve forte nos movimentos interiores e muito da reviravolta passou por ele. Claro, há o lance do penalty. André Micael corta a bola limpinho com o pé direito, facto. O problema é depois: chegar primeiro à bola não dá o direito de logo a seguir varrer o adversário. E é isto que separa Jonas de Maxi: Jonas saltou deliberadamente para o chão para provocar uma simulação; Maxi não. Maxi vai ao chão porque André Micael, com o seu pé esquerdo, atingiu Maxi no pé de apoio. Maxi não se lançou para a piscina, foi derrubado quando tinha o pé de apoio fixo no chão. Mas contacto era inevitável, o que daria ao árbitro justificação para não marcar penalty. Agora, simulação, não, de todo, pois Maxi só vai ao chão porque o atingem no pé de apoio. Não que não fosse capaz de simular, pois em oito anos aprende-se muita coisa. 

Aposta em Evandro (+) - Foi uma alteração extremamente curiosa. Com o Moreirense fechado, de que precisava o FC Porto? De largura pelos flancos. Mas José Peseiro não quis aquilo que tantas vezes era exigido ao FC Porto de Lopetegui: mais velocidade e largura. Preferiu colocar Evandro para reforçar a capacidade de circulação no meio-campo, pois Maxi e Layún estavam praticamente a jogar como extremos e garantiam a tal largura pelos corredores. Foi um risco. E correu bem.

Bola na grande área (+) - O que tantas vezes faltou ao FC Porto nos últimos meses aconteceu ontem em fartura: meter gente na grande área e lá criar situações de finalização. E daqui saiu um recorde no campeonato: 20 remates dentro da grande área. No meio de tantas bolas, alguma havia de entrar. Entraram as suficientes para a reviravolta, mas em lances de jogo algo periféricos (penalty, canto e um inesperado golpe de ninja). Se o FC Porto tiver 20 remates dentro da grande área, não há jogo no campeonato que não ganhe.


Outros destaques (+) - Grande jogo de Suk, que se destacou sobretudo no jogo aéreo: ganhou 6 bolas de cabeça na grande área adversária. Sempre aplicado, ainda está a aprender a jogar tendo uma linha defensiva completa à sua frente, mas vontade não lhe falta. Aproveitou a oportunidade. Grande destaque também para Casillas, que livrou o FC Porto várias vezes do 3º golo. E Herrera chega de forma quase impossível ao lance do 3x2 (se fosse o Ronaldo já estavam a fazer cálculos para descobrir quanto é que ele saltou), embora tenha manchado a sua exibição pela constante hesitação à frente da grande área. Bem a equipa na avalanche ofensiva para chegar à reviravolta.






Factor Chidozie (-) - Para quem tenha memória curta, Chidozie jogava como médio-defensivo nos sub-19 há um ano. E revelou-se um jogador normalíssimo nessa posição, sem nada que recomendasse particularmente a sua contratação. Na equipa B, adaptado a central, evoluiu muito. Mas continua a ser tudo aquilo que era antes e depois do jogo na Luz: um jogador totalmente inexperiente. Chidozie tem falhas de posicionamento graves e gritantes - são 3 em 2 jogos, provocando 3 golos para os adversários. Não é o único culpado, claro que não. E nem sequer o primeiro: está a cometer as falhas esperadas e próprias de um jogador com esta inexperiência. Não é um produto das escolas de centrais do FC Porto, pois só chegou em 2014 e para jogar como médio-defensivo. Já agora, para quem realça a grande escola de centrais do FC Porto: que têm em comum Lima Pereira, Fernando Couto, Jorge Costa ou Ricardo Carvalho? Nenhum deles era titular na defesa do FC Porto aos 19 anos e todos tiveram que ter experiência sénior antes de serem titulares no clube. Se já temos um treinador que nunca teve equipas fortes na transição defensiva, tendo um setor defensivo limitado torna tudo mais complicado.

Subrendimento (-) - A equipa do FC Porto parece esgotada fisicamente, com particular incidência em alguns jogadores. A equipa mudou de preparador físico e, embora não se possa estabelecer uma relação-causa, há jogadores que estão rebentados. André André já vem desde os últimos tempos com Lopetegui: perdeu a influência que teve em outubro/novembro. Não acelerou o jogo, foi quase sempre lento a reagir e foi uma sorte (?) ter feito os 90 minutos. Num jogador como André André, a condição física faz toda a diferença. Herrera, apesar de nunca parar de correr e da forma como inventou o 3x2, foi muitas vezes lento a soltar a bola, e hesitou demasiado quando aparecia à entrada da grande área. Corona não existiu: 45 minutos sem que se revelasse em nenhum lance. Parece ter sido um dos jogadores que acusou mais a troca de treinadores. Tempo, paciência e trabalho, é o que se pede. 


PS: Os factos e o rigor são essenciais para qualquer defesa. Sem eles, perde-se a razão. Isto a propósito do que escreveu o Dragões Diário: «São já muitos os penaltis que (Jorge Ferreira) assinala mal a favor do Benfica em situações decisivas». Não é por nada, mas o penalty em Paços de Ferreira foi o primeiro assinalado por Jorge Ferreira a favor do Benfica na sua carreira. Podiam ter sido evocadas 10 razões para criticar as suas arbitragens, mas o Dragões Diário escolheu logo uma que não é verdade. Assim perde-se a razão. E já não é a primeira vez que a newsletter oficial do clube falha num dos pilares de Pinto da Costa: o rigor.

PS2: As votações MVP dos jogos em atraso foram repostas. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Jogar para perder por poucos

O FC Porto não jogou para não perder: jogou para perder por poucos. Seria muito difícil sair da Alemanha com um resultado positivo, não só dada a qualidade do adversário como as próprias limitações do plantel do FC Porto, que diz querer ganhar uma competição em que se estreia com o extremo a lateral, o lateral a central, um novo meio-campo e um ataque inédito, numa projeção de 4x4x2 que nunca o chegou a ser e que rapidamente voltou ao limbo do 4x3x3.

Mais do que começar a atacar as invenções de José Peseiro - até porque não foi pela readaptação de alguns jogadores que perdeu -, é altura de refletir: os mais recentes treinadores do FC Porto inventam por convicção, ou simplesmente tomam decisões em função da limitação do plantel? Dispensar um central, vice-capitão, para depois ir a Dortmund com esta inovadora defesa só nos melhores sonhos daria bom resultado. Já para não falar que temos um dos mais importantes jogadores da primeira volta (André André) rebentado fisicamente, mas a SAD optou por não reforçar o meio-campo no mercado de inverno.

Mas a verdade é que não foi pela posição de Varela (se tivesse apanhado Jorge Jesus na sua carreira, podem ter a certeza que tentá-lo-ia adaptar a lateral) nem de Layún (o lateral que não defende bem foi o melhor do FC Porto jogando como central) que o FC Porto fez tão pouco em Dortmund. Foi pela estratégia da equipa, que abandonou toda e qualquer identidade para passar a jogar como equipa pequena - ou, se preferirem, reconhecendo toda e qualquer superioridade no adversário.

O FC Porto nunca virou uma eliminatória depois de ter perdido por 2-0 fora de casa. Respeito e consideração por quem comprou, atempadamente, bilhete para a segunda mão é o mínimo e máximo que se pode pedir.






A destacar (+) - Casillas, sem culpas nos golos sofridos, fez o que pôde. Martins Indi fez um bom jogo de marcação a Aubameyang, embora tenha traído Casillas no lance do 2x0. Layún, sabendo-se que como lateral o seu ponto franco é defender, acabou por ser uma boa surpresa no centro da defesa, não cometendo nenhuma falha clamorosa. E Herrera voltou a ser o médio com melhor eficácia de passe do FC Porto, ao acertar 90,9% dos passes, embora, sabe-se lá porquê, ainda alimentem o mito de que Herrera é quem mais passes falha. Tentou ligar os setores e organizar a equipa entre a anarquia tática, em vão. A equipa não merece acusações de falta de empenho, pois esse não faltou. O problema foi outro...






Deixar jogar (-) - Chegou a ser frustrante a forma como o FC Porto se encolhia perante o Dortmund no início de construção. Onze jogadores atrás da linha da bola, sem pressionar. É certo que a equipa não podia abrir espaços para o Dortmund entrar no seu meio-campo, mas a perder e a precisar de marcar o FC Porto fez muitíssimo pouco. Mais do que o facto de só ter tido um terço da posse de bola, choca o FC Porto ter deixado o Dortmund ter uma eficácia de 90% de passe. Isso mostra que a equipa poucas vezes perturbou o Dortmund na troca de bola. Aliás, o Dortmund conseguiu uma sequência de 1m49s sempre a trocar a bola, à largura do campo, sem que o FC Porto a recuperasse.

Sem acutilância (-) - O FC Porto deixou o Dortmund ter bola, mas quando a recuperou pouco fez. O Dortmund só fez 6 faltas em todo o jogo, o que mostra que nunca precisou de ser uma equipa agressiva perante o FC Porto. O FC Porto fez apenas 3 remates em todo o jogo, contra 19 do Dortmund, e o mais perto que esteve de criar perigo foi num remate à figura de Sérgio Oliveira e na última tentativa de Suk, já perto do fim. O FC Porto raramente levou a bola a zonas de perigo, ao fazer apenas 3 passes para ocasião de golo. O Dortmund fez 16. Antes da Luz, Peseiro prometeu que o FC Porto ia manter a sua identidade, e manteve. Em Dortmund, abandonou-a por completo em prol de tentar perder por poucos. 

Outros destaques negativos (-) - Se Varela, aos 31 anos, faz em Dortmund a estreia numa nova posição, não parece correto apontar nada ao jogador. Rúben Neves esteve mal, particularmente no passe (falhou 10), e acusou a falta de dimensão física para um jogo desta natureza e o facto de estar rodeado de uma nova equipa, sem conhecer a dinâmica de passe da mesma. Os próximos meses não serão fáceis para Rúben Neves: passou de um treinador que privilegiava a transição lenta, apoiada e muita circulação de bola (onde Rúben Neves se destacava) para um que prefere transições mais rápidas, onde o médio mais recuado é menos solicitado no papel de circulação, além de ter que partilhar o espaço à frente da defensa com um segundo médio. Há muito para trabalhar.

Brahimi foi inconsequente, e meteu na cabeça que tem que fazer tudo sozinho quando a equipa, coletivamente, nada faz. O problema é que Brahimi não recua para dar linha de passe aos colegas, recua para agarrar-se à bola quando ainda tem 50 metros à sua frente. Nota-se que não sente a maior confiança no coletivo que o rodeia, mas não pode jogar assim. Nem um remate, um passe de rotura ou um cruzamento na linha de fundo para amostra. Aboubakar nunca foi solicitado, é certo, mas esteve sempre cercado pelo Dortmund e não conseguiu um único remate. Marega, numa exibição dentro das expetativas, já tem uma história para contar aos netos: um jogo completo ao serviço do FC Porto, em Dortmund, na UEFA. Um sonho realizado, mas podemos esperar muito mais de um jogador que, segundo o site oficial do FC Porto, «reúne características físicas e técnicas que fazem lembrar Hulk». De facto, quem tem um Hulk consegue ser campeão sem ponta-de-lança, como em 2011-12. Mas tomara que em 2015-16 a única carência fosse um ponta-de-lança. 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Jamor ao virar da esquina

É uma questão de honra e orgulho: voltar a vencer a Taça de Portugal, cinco anos depois, e regressar à conquista de troféus. Depois de uma vitória por 3x0 num campo de uma equipa que não deve muito a várias equipas da primeira liga (o Gil Vicente estava invicto em Barcelos), só podemos assumir, sem que isso reduza a responsabilidade, que o Jamor está ao virar da esquina. Na final teremos, garantidamente, um adversário orientado por um dos melhores treinadores portugueses, que vai ter diversos argumentos para sonhar com o troféu e causar muitas dificuldades ao FC Porto, mas até lá há muito a merecer as nossas preocupações entre outras competições. 

Exibição a merecer nota positiva, com a pontinha de felicidade que faltou a muitos outros jogos - marcar na sequência de um canto, em cima do intervalo, e resistir a duas bolas na trave antes de matar o jogo. José Peseiro não abdicou de rodar a equipa, mas mantendo uma base segura. Por outro lado, e tendo em conta que a SAD não deu a José Peseiro o 10 que ele pretendia, o treinador montou uma possível solução, mas que deixa muito claro que não é assim que poderemos defrontar Benfica ou Dortmund. Já lá vamos.






Miguel Layún (+) - Bate o canto para o 1x0, faz um cruzamento perfeito para o 2x0, por Suk, e arranca o livre que dá o terceiro golo ao FC Porto, além de ter expulsado um jogador do Gil Vicente. São já 16 assistências esta época, uma autêntica barbaridade - no ano passado, os nossos melhores assistentes foram Herrera e Tello, com 11 passes para golo cada. A este ritmo, Layún vai dar mais passes para golo do que os nossos dois melhores assistentes da época passada juntos. Mas o maior desafio está para vir: o seu trabalho defensivo contra Benfica ou Dortmund. Se por cada erro defensivo compensar com uma assistência, ficaremos bem.


Rúben Neves (+) - Jogou mais adiantado, chegando muitas vezes perto da grande área e mantendo-se sempre no corredor central. Manteve uma boa eficácia de passe (90%) e conseguiu regressar aos golos, mais de um ano e meio depois. É um aspeto em que tem que evoluir: o remate, além do jogo aéreo. A primeira parte até nem tinha sido particularmente boa, mas depois do intervalo (ou depois do seu golo) surgiu completamente solto, confiante e a fazer fluir o jogo da equipa.

Outros destaques (+) - Suk estreia-se a marcar num bom gesto técnico, ele que curiosamente destacou-se sobretudo no jogo aéreo. Vai a todas e disputa cada lance na raça, embora ainda esteja claramente inadaptado ao modelo do FC Porto (completou apenas 5 passes enquanto esteve em campo) e tenha dificuldades em jogar sem espaço (quando ficou livre... marcou). Felizmente, aparentemente não será por falta de empenho do jogador que deixará de se adaptar. Bom jogo de Varela, o jogador com mais ataques e cruzamentos em campo, e uma entrada abençoada de Sérgio Oliveira: um toque, um golo (e que belo golo). Não víamos disto desde Lino, contra o Fenerbahçe, na Champions.






Brahimi a 10 (-) - Brahimi não pode jogar a 10. Brahimi não pode jogar a 10. Brahimi não pode jogar a 10. José Peseiro tem que trabalhar com o que tem, é certo. Desde o primeiro dia que está claro que o seu esquema precisa do tal médio-ofensivo, que acabou por não receber no fecho do mercado. Mas Brahimi não pode jogar nesta posição. O número 10, neste esquema, tem que ter a capacidade de soltar a bola rapidamente, em toque curto, de fazer tabelas e de conseguir fazer bem a variação de flancos. Brahimi não oferece nada disto.

Brahimi é um jogador que se amarra muito à bola, é lento a soltá-la e raramente joga ao primeiro toque. Com Brahimi a 10, o FC Porto perde muito mais na ala do que ganha nas costas do ponta-de-lança. Brahimi funciona muito melhor quando joga a partir da linha, através de movimentos interiores, aparecendo de forma circunstancial na zona central e não pré-definidamente. Basta ver a quantidade de passes que Brahimi falhou jogando nessa posição: acertou apenas 51,85% dos passes. E neste esquema, cada bola perdida é um convite ao contra-ataque do adversário. E se o FC Porto vai passar a estar mais exposto no momento defensivo... Brahimi não pode jogar a 10. O FC Porto pode ser Brahimi e mais 10, mas nunca Brahimi a 10.


PS: No final do jogo, Peseiro disse isto sobre a posição 10: «Hoje foi o Brahimi mas também temos Varela, o André que tem jogado ali, o Corona…». Bueno (e até Evandro) foi esquecimento ou parte atrás de todas estas soluções?

domingo, 31 de janeiro de 2016

Controlo em alta rotação

Ao 15º jogo, o FC Porto voltou finalmente a ganhar em Lisboa e arredores. E conseguiu-o com uma reviravolta, coisa tão difícil de completar nos últimos tempos. Ainda com pouco tempo de preparação, José Peseiro já introduziu parte substancial daquilo que pretende para o FC Porto: uma equipa com menos posse de bola, que consiga chegar à baliza adversária com menos passes e que faça uso dos três corredores para o fazer.
Liberdade e influência

A estrutura está clara: um duplo pivô no meio-campo, André André com liberdade para pisar os flancos, extremos muito solicitados na zona central e laterais sempre projetados. O FC Porto tenta ser mais rápido nas transições, o que fez com que acabasse o jogo com menos posse de bola do que o Estoril (apenas 47%) e que até falhasse mais passes do que os adversários, mas a eficácia em momentos chave (contra-ataque, bola parada e recarga) premiou um justo triunfo.

A ditadura da posse de bola e circulação curta e lenta foi posta de parte, mas resta ver como é que o FC Porto se adaptará contra equipas mais fortes no contra-ataque, que aproveitem as dificuldades acrescidas que o FC Porto vai passar a ter no momento de transição defensiva. Por outro lado, a filosofia de José Peseiro assenta muito nisto: o problema não é sofrer dois golos, é não marcar três. E assim foi. O FC Porto sofreu, mas o caudal ofensivo garantiu a reviravolta. Boa vitória.







André André (+) - Ponto prévio: o plantel continua a carecer de um médio criativo. É bom lembrar isto, pois a exibição de ontem de André André pode dizer o contrário. Excelente jogo, a lembrar a boa forma do início de época. Teve liberdade para cair nos flancos (a maior parte das vezes na direita) e chegar a zonas de finalização, sem com isso deixar de baixar no terreno para reforçar o meio-campo - muito bem na disputa e na recuperação. Soube ser o motor da equipa ao longo de todo o jogo, lembrando que muitas vezes a melhor finta é um bom passe. 

Laterais, outra vez (+) - Layún já leva 15 assistências, 12 no campeonato. Arrancou decidido para o 1x1 e bateu o canto que permitiu a Danilo dar a volta ao resultado. Fez uma primeira parte de elevadíssimo nível, inclusive colmatando o apagão dos extremos no ataque. Maxi Pereira entendeu-se muito bem com André André sob a meia direita e soube controlar todas as investidas do Estoril pelo seu flanco, além de ter ganhado 17 disputas de bola (o recorde desta época). E viu o cartão que, à partida, lhe vai permitir defrontar o Benfica na Luz. Será essencial ter o melhor Maxi - este - nesse jogo.


Herrera (+) - Sempre a subir de rendimento ao longo do jogo, até chegar a uma segunda parte em que mostrou o seu melhor futebol. Por norma mais forte no transporte, Herrera foi excelente na circulação de bola, tendo arriscado mais em passes adiantados sem com isso os errar. Continua a ser muito forte na recuperação de bola e na pressão ao adversário, desta vez jogando com maior tranquilidade e confiança. Agora falta aquilo que muitas vezes lhe tem faltado: consistência e continuidade.

Outros destaques (+) - Quem já jogou futebol, sobretudo como ponta-de-lança, percebe o falhanço de Aboubakar. Foi um enorme falhanço, sem dúvida, mas a partir do momento em que a bola ressalta o golo mais simples de fazer pode tornar-se difícil de fazer. Tirando esse momento, voltou às boas exibições. Fez um golo, segurou melhor a bola e desta vez soube ir ao encontro dela quando o contrário não acontecia. Uma palavra para o belo jogo de Marcano na defesa e para Varela - dois minutos após ter entrado em campo, pois quando entrou pareceu estar a dormir, mas depois foi inteligente e útil na circulação e manutenção da bola no meio-campo do Estoril. Danilo falha no golo do Estoril, mas foi ao ataque redimir-se e ofereceu sempre simplicidade e capacidade física ao meio-campo.







Apagão dos extremos (-) - A ação de André André e dos laterais coincidiu com algo poucas vezes visto no FC Porto desde o início da época: o apagão de Corona e Brahimi em simultâneo. Curiosamente, os dois jogadores mais virtuosos da equipa foram aqueles que menos se destacaram. Não é que tenham jogado mal, mas os principais lances de perigo do FC Porto não passaram por eles. Numa visão optimista, só uma equipa com um coletivo e dinâmica fortes consegue fazer três golos e uma reviravolta sem intervenção direta dos seus criativos. Ou houve sorte e eficácia, ou vimos um coletivo que dispensou as individualidades.

Dia 1 de fevereiro fecha o mercado. Depois será feita a análise às entradas e saídas que se consumarão no último dia de inscrições. Segue-se o primeiro de três jogos para o ponto de honra chamado Taça de Portugal. Não há espaço para rotação, nem para experiências: há que tentar matar as esperanças do Gil Vicente já no primeiro jogo.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Agora vem o mais difícil

Uma vitória com muito do que não se via há uma boa data de tempo. Uma entrada fortíssima em campo, premiada com golo madrugador. Uma equipa a potenciar ao máximo as bolas paradas. Sem tremer após um deslize do rival que permitia, dois anos depois, subir à liderança isolada do campeonato. Uma equipa com um plano de jogo executado à risca e com qualidade. Uma vitória tranquilíssima, de uma equipa que não acusou em momento algum qualquer tipo de pressão.

Plano seguido à risca
Mas o mais difícil não era chegar à liderança: o mais difícil vai ser manter a liderança. A começar por 2 de janeiro, em Alvalade, o estádio português onde o FC Porto mais dificuldades tem em jogar e fazer bons resultados. A equipa revelou estofo para aproveitar uma oportunidade para chegar à liderança. Agora será necessário um estofo ainda maior para não deixar a liderança fugir logo à primeira oportunidade para o rival.

Tempo de descanso, e não há portista que não vá ter um natal mais animado. Lopetegui e os jogadores cumpriram o objetivo de, quatro anos depois, ter o simbólico (e não mais que isso) título de campeão de inverno, juntando isso ao facto de ser a única equipa a nível interno a continuar invicta.

Líder do campeonato, apurado para os 1/4 da Taça de Portugal, invicto nas provas nacionais, 10 pontos na fase de grupos da Champions (que não invalidam o objetivo falhado de ir aos 1/8) e, a partir de fevereiro, iniciar a Liga Europa com uma exigência de Liga dos Campeões. Tomara a muitos clubes estarem numa crise tão grande como esta que o FC Porto atravessa.





A entrada em campo (+) - Foi um regalo ver a forma como o FC Porto entrou em campo. Laterais projetados, Brahimi e Corona desconcertantes, a equipa a chegar à grande área com muita facilidade e Herrera a fazer 30 minutos de luxo: foi o mexicano quem ligou todos os setores, ofereceu sempre a linha de apoio à zona onde circulava a bola, esteve excelente no espaço entre linhas e combinou como há muito não se via com os extremos. Depois, mais um golo de bola parada. A Académica só chega perto da baliza de Casillas aos 40 minutos, quando o FC Porto já há muito ameaçava o 2x0.

Mexican power (+) - Desde Deco que não tínhamos um jogador a cruzar assim, de forma tão influente e decisiva, nas bolas paradas. Layún é um achado, e a prova de que é muito diferente ter um bom marcador de livres para rematar (coisa que Layún não é e que o FC Porto tinha na época passada) e ter um bom marcador de livres para centrar (coisa que Layún é e o FC Porto não tinha na época passada). Mais duas assistências - já é o jogador com mais passes (cruzamentos, na verdade) para golo no campeonato, à frente de Gaitán, o jogador que nos últimos anos mais se destaca neste capítulo. Além de toda a profundidade que ofereceu e do entendimento com Brahimi, Layún fez mais uma excelente exibição.

Afirmação de Danilo
Corona evoluiu já significativamente nestes primeiros meses de FC Porto. Tenta jogar bonito, mas sem perder a objetividade. É o nosso extremo mais rápido a abordar o 1-1, está a aprender a deixar o corredor para Maxi Pereira (mais uma boa exibição) e tem uma receção de bola invejável, como foi exemplo o cruzamento (e, antes, a finta) para o golo de Herrera. Quanto a Herrera, já foi destacado na entrada do FC Porto em campo. Faz meia hora de grande nível, sofre quebra mas depois faz o bonito golo. Lopetegui arriscou lançar Herrera numa fase decisiva da época, com o jogador em clara baixa de forma. Os resultados estão à vista.

Danilo Pereira (+) - O Tribunal do Dragão escreveu, na pré-época, que Danilo tinha tudo para ser a melhor contratação da época. Será sempre subjetivo, mas a sua influência cresce a olhos vistos. Entendeu-se bem com Rúben Neves, soube ocupar zonas mais adiantadas, transportou melhor a bola e não houve jogador que tivesse passado por ele. O passe para Corona é genial. Se Casemiro precisou de uns valentes meses para que se deixasse de falar de Fernando, Danilo, desde que chegou ao FC Porto, fez com que não se fale nem de Fernando nem de Casemiro.







Os pipoqueiros (-) - De notar o que disse Filipe Gouveia: «A nossa estratégia passava por enervar o Porto, por pôr os sócios do Porto contra a equipa, mas não conseguimos.» A Académica não o fez: foram os próprios pipoqueiros a virarem-se contra o treinador numa noite de 3x0 e subida à liderança, dois anos depois. Depois de tantas vozes a reclamar que Bueno tem tido pouco tempo de jogo, decidem embirrar por Lopetegui lhe ter dado precisamente tempo de jogo.

Claro que os assobios não eram, diretamente, para Bueno, mas sim pela não entrada de André Silva. Mas foi um banho de hipocrisia que essas dezenas de pipoqueiros manifestaram. Eu também gostava de ter visto André Silva em campo, mas entendo perfeitamente que tenha jogado Bueno. André Silva aqueceu pela 2ª vez e não entrou; já Bueno já aqueceu 12 vezes esta época para nada. Imaginem que mensagem é transmitida a Bueno: «Olha lá, tu que até foste o melhor marcador espanhol da última Liga BBVA, não te queremos a ti, queremos o miúdo da equipa B». Simplesmente vergonhoso. Não se vê disto em nenhum outro clube. Infelizmente, os clubes não podem escolher os adeptos que têm, mas todos os adeptos contribuem para a imagem exterior de um clube.

Lopetegui seguiu as suas convicções. Podia ter feito o mais fácil: tomar a decisão popular, meter André Silva e deixar os adeptos contentes. Mas se fosse para termos um treinador que mete jovens à toa na equipa, só para ter um mínimo crédito de popularidade entre os adeptos, o treinador do FC Porto seria Rui Vitória, não Lopetegui. André Silva vai ter a sua oportunidade, e vai agarrá-la. Virar-se contra Lopetegui pela não utilização de André Silva é uma hipocrisia. Não foi Lopetegui quem deixou André Silva ir ao Europeu de sub-19 em final de contrato

Felizmente, as pipocas comem-se na bancada e não entram no balneário. Feliz natal.


domingo, 6 de dezembro de 2015

A primeira reviravolta

Depois da primeira vitória na Madeira, a primeira reviravolta com Lopetegui. Duas barreiras psicológicas que foram superadas em dois jogos, em cinco dias, embora dificilmente pudesse haver justificações para não ganhar ao União e ao Paços. Não fosse a muita inspiração de Marafona e a ainda maior ineficácia do FC Porto e a vitória teria sido mais gordinha e tranquila.

Pela primeira vez desde dezembro de 2014, o FC Porto sofreu um golo no Dragão no campeonato. É caso para recorrer ao maior dos clichês: algum dia tinha que acontecer. E vai ter que ser esse clichê a motivar o FC Porto para o tudo ou nada na Liga dos Campeões, frente ao Chelsea.

O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra, é verdade. Já teve melhores equipas, melhores treinadores, defrontou adversários muito mais frágeis do que o Chelsea, e nunca ganhou. Não é perspetiva derrotista, é história. Para ir aos 1/8 da Champions, convém ter o triplo da eficácia em Londres, até porque dificilmente teremos um terço das ocasiões de golo que tivemos ontem.





Herrera (+/-) - Certo dia, os mexicanos celebrizaram o #todoesculpadelayun. É uma surpresa que haja portistas que ainda não lançaram o #todoesculpadeherrera. A verdade é que Herrera jamais terá a inteligência de um Pirlo, um Xavi ou um Iniesta, o que o leva a falhar por vezes o mais primário dos passes. É consequência de meter um médio de transição e contra-ataque num modelo de posse, mas claro que não há desculpa para se falhar um passe quando nem está a ser pressionado.

Por outro lado, quem joga bem tem que ser reconhecido como tal. Herrera foi quem mais bolas recuperou no meio-campo do FC Porto (foi o melhor médio de ontem, de longe), fartou-se de pressionar, estancou muitas subidas do Paços e vai ganhar o penalty da vitória num lance de raça. Por vezes (muitas vezes, aliás), tanto quer fazer as coisas rápido que faz mal. Os adeptos do FC Porto podem ter mil e uma deficiências técnicas para lhe apontar, mas apontar o que quer seja em termos de profissionalismo, empenho e tentativa de afirmação a Herrera é simplesmente injustificável. Quando os adeptos escolhem um ódio de estimação, já se sabe, só dão o braço a torcer se marcarem um pontapé de bicleta numa final da Champions. Foi anunciado em junho que Herrera ia ser Dragão de Ouro, mas só se lembraram agora de o contestar. Se tivesse sido Herrera a perder a bola que André André perdeu antes do 1x0, batiam o recorde de decibéis num estádio. #todoesculpadeherrera.
Mexicanos em destaque

Corona (+) - Melhor jogo pelo FC Porto, frente a um dos melhores defesas-esquerdos do nosso campeonato (Hélder Lopes, muito subvalorizado). Soltou-se bem da marcação, ganhou metros, foi forte nos movimentos interiores e fez um belo golo. Tem que melhorar nos cruzamentos, sem dúvida, mas dá às alas do FC Porto o recorte individual que na época passada só existia em Brahimi. 

Layún (+) - Atacar é com ele, já se sabe. Por vezes arranca com tanta determinação que ultrapassa facilmente a linha média do FC Porto e depois não tem a quem passar a bola. Há muito que não tínhamos um jogador que cruzasse tão bem. Bate bem as bolas paradas (foi impressão ou ia escorregando no penalty?) e só a ineficácia dos colegas o impediram de somar mais assistências ao currículo pessoal. Defensivamente, a nível de Champions, pode merecer muitas cautelas. A jogar no Dragão no campeonato vai ser sempre o protótipo de lateral perfeito.

Outros destaques (+) - Maicon muito bem na defesa e forte na grande área adversária - uma vez mais evolução nas bolas paradas, com os centrais do FC Porto a ganharem 3 lances nas alturas na primeira parte. Desta vez, o FC Porto conseguiu criar ocasiões de golo de sobra: não só soube servir Aboubakar na grande área como fez com que o 3º médio (Herrera) surgisse mais vezes em zona de finalização. É essencial ter esta dinâmica nos jogos em casa.





Crise de confiança (-) - Aboubakar é uma espécie de John Coffey. Pode parece intimidador, mas não consegue fazer mal a uma mosca. E isso também se reflete na forma como se está a deixar abater pela falta de golos. O Aboubakar dos primeiros jogos da época era o primeiro a levantar os adeptos do estádio. Sentia-se capaz de fazer tudo. Agora, consegue falhar o mais fácil dos golos. Não é falta de qualidade, é falta de confiança. Se Lopetegui tem que ir gerindo a questão Aboubakar-Osvaldo, também tem que motivar Aboubakar para o regresso às boas exibições. Mas o 9 do FC Porto não se pode dar ao luxo de falhar golos cantados como o de ontem. E isto também se aplica a Tello. O FC Porto confia muito em Aboubakar. É altura de Aboubakar também confiar nele próprio.

A rever (-/+) - Falando sobre as substituições de Lopetegui. Depois de semanas a ser dos mais regulares, André André teria que ter um dia menos bom. E assim o foi. André André estava a ser o menos bom da equipa. A sua substituição é perfeitamente compreensível e justificável. Não choca, foi uma boa decisão de Lopetegui. O que choca foi a forma como o FC Porto, quase automaticamente, sentiu que devia recuar com a entrada de Danilo. Nada mais errado. Não é por formar o duplo pivô que o FC Porto tem automaticamente que defender mais. Mas Herrera já estava desgastado, e já não havia assim tanta força para pressionar o Paços no início de construção, sobretudo com Aboubakar de rastos. O FC Porto deu espaço ao Paços para subir, e isso podia ter custado caro. O Paços foi a única equipa a ir buscar pontos a Alvalade. O respeito é bom, mas o receio não. Novamente a rever por Lopetegui. Por outro lado, desde a entrada de Danilo, o Paços não voltou a criar perigo e o FC Porto ainda teve 3 ocasiões flagrantes para marcar. Não são os peões a ditar a estratégia: é o plano de jogo. Mas os peões têm que perceber em que tabuleiro estão a jogar.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Acerto de eficácia

Podem usar a expressão que quiserem, seja malapata, fantasma ou maldição. Tudo tem uma cura: eficácia. Quem é eficaz ganha (quase) sempre. O FC Porto foi-o e a meio da primeira parte já estava tudo com expetativas de uma goleada, onde nos últimos 2 anos passou sempre com receio primário de não vencer. 

Houve a felicidade que não existiu em outros jogos na Madeira, seja num remate à barra de Maxi no último minuto, nos Barreiros, ou na arbitragem deplorável de João Capela no Nacional-FC Porto de 2014. Ontem, até houve ressaltos e cruzamentos a dar em golo. Vitória tranquila, que deixa o FC Porto com a melhor diferença de golos da liga e a depender de si próprio para recuperar a liderança ao longo do próximo mês.

Um pormenor a merecer destaque: com maior ou menor qualidade, o FC Porto já leva 5 vitórias consecutivas fora de casa, a melhor sequência de Lopetegui no clube. Tendo em conta que nos últimos 12 jogos de 2014-15 o FC Porto só por uma vez ganhou 2 jogos seguidos, é algo que merece ser realçado, ainda que nem 10 vitórias seguidas justificariam perder pontos com o Tondela.





Laterais (+) - É a eterna questão: Maxi e Layún jogaram pouco contra o Dynamo e o Tondela porque a equipa jogou mal, ou a equipa jogou mal nesses jogos porque Maxi e Layún jogaram pouco? Mais três assistências dos laterais (uma de Maxi, duas de Layún), e todos os golos do FC Porto nasceram de investidas pelos flancos. Quando funcionam, a equipa funciona.



Danilo (+) - O golo, o primeiro pelo FC Porto, foi apenas um prémio merecido para uma excelente exibição. Sentido posicional perfeito, bem no início de construção, sempre eficaz a recuperar bolas à frente da defesa. Não há como subestimar o quão importante será que Danilo Pereira esteja (ou continue) na melhor forma ao longo das próximas semanas.

Novas soluções (+) - Quando é para bater, bate-se por tudo e por nada. Lopetegui correu imensos riscos ao lançar Herrera na última semana, é verdade. Arriscou... e recuperou o jogador. Capitão, Dragão de Ouro e titular após uma má exibição. Herrera recebeu a maior injeção possível de confiança. Se não acordava agora, nunca mais o faria. Lopetegui insistiu e o jogador deu a resposta, apesar da forma feliz como chegou ao golo.

Outro destaque foi o golo de Brahimi: fez o que tão poucas vezes faz - decidir com rapidez e objetividade. Desta vez não houve dança, nem um toquezinho a mais, nem a tentação de procurar outro enquadramento com a baliza. Recebeu a bola, puxou a culatra atrás e fez um grande golo.

Por fim, de destacar a melhoria nas bolas paradas. Quem cruza sabe para onde tem que cruzar (muito bem, Layún) e os jogadores sabem que zonas têm que atacar, como foi exemplo o golo de Danilo. Em 2014-15, as bolas paradas (cruzadas, não as rematadas) foram uma miséria: era bombear para a área e quem quiser que apanhasse. Já há melhorias, e há que manter.

De destacar também, uma vez mais, o choque de banco dado por Lopetegui. Tello e Aboubakar não estavam bem, então foi hora de dar oportunidades a Corona e Osvaldo. Uma boa gestão de plantel também tem que passar por aqui, de fazer perceber que ninguém tem a titularidade garantida e que todos têm que se aplicar ao máximo.





Não foi preciso, mas... (-) - Ganhámos 4x0, mas não será sempre possível contar com um ressalto ou um mau cruzamento a dar um bom golo. O FC Porto foi feliz na forma como chegou ao 3x0, o que transformou o que ia ser a estratégia de jogo (imensa circulação e lateralização) numa forma de gerir um jogo resolvido. A verdade é que nos primeiros 10 minutos via-se uma equipa pouco disposta a acelerar e verticalizar o seu jogo. E a equipa até rematou bem menos do que é habitual. Não foi preciso, porque a eficácia sobrepõe-se a tudo.

Peões e estratégia (-/+) - Para começar, lamentar a expulsão de Osvaldo. Não é um lance de quem quer magoar o adversário, é um lance que mostra o quão Osvaldo queria aproveitar a oportunidade. Com a sua equipa a vencer por 3x0, não deixa de disputar um lance na garra, tentando recuperar a bola. A dupla Hélder Malheiro e Bruno Paixão resolveu tornar uma disputa de bola numa expulsão. Ridículo.

Depois, Lopetegui voltou a fazer uma substituição que levantava questões: saiu o ponta-de-lança, então entrou um central. Com isso, desvia dois jogadores de posição (Indi e Layún) e responde de forma defensiva. Tudo depende de como os jogadores interpretam os sinais do treinador, mas Lopetegui, ao apostar numa solução de segurança, pode dar sinais de insegurança aos jogadores. Mas a verdade é que apesar da substituição, com 10 o FC Porto passou o último quarto de hora a pressionar no início de construção e a procurar a baliza (o contrário do que fez contra o Tondela). Ou seja, Lopetegui lançou peões para defender, mas a equipa não passou a defender mais atrás. Estratégia, no final das contas, bem conseguida, ainda que este tipo de alterações nem sempre possa ser o maior crédito de confiança aos jogadores. A rever.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Layún e a política da SAD

Layún terá 28 anos quando o contrato de empréstimo do Watford terminar. E podemos começar precisamente por esta questão da idade: entre as 40 compras mais caras da história do FC Porto, nenhum jogador tinha 28 anos. O jogador mais caro de 28 anos contratado pelo FC Porto foi Marc Janko (solução de mercado de inverno), que ficou meio época. Depois foi Nuno Espírito Santo, trazido por Jorge Mendes e que viveu sempre na sombra ora de Baía, ora de Helton. O 3º foi Jankauskas, depois de uma época no Benfica que agradou a Mourinho.

Os grandes investimentos do FC Porto, em toda a sua história, nunca foram efetuados em jogadores de 28 (ou mais) anos. E quando vemos que o mais caro foi Janko (3M€) e que a opção de compra de Layún é de 6M€, vemos o quão contra-natura face à política da SAD é considerar comprar o mexicano nestes moldes.


É cedo para avançar para a compra de Layún, mas não é cedo para debater em que medida este negócio se enquadradinha na conhecida política da SAD. Quando o FC Porto investe 6 ou mais milhões de euros num jogador, por norma mais tarde há transferência milionária (ou pelo menos que gere mais-valias e cubra o investimento financeiro). Foi assim em 80% dos casos.

Exceção feita aos jogadores que ainda estão ligados aos quadros do clube, entre as contratações por 6 ou mais milhões o FC Porto só falhou com Defour, Pelé (moeda de troca), Rodríguez e Postiga (envolveu moeda de troca) na sua segunda passagem pelo FC Porto. De resto, sempre que avançou com 6M€ por um jogador, o FC Porto conseguiu lucrar. Mas o FC Porto nunca avançou com 6M€ por um jogador de 28 anos. Nem com 5, nem com 4 milhões. Fê-lo sempre com jovens.

No que toca a vendas, o FC Porto já fez transferências bastante lucrativas com jogadores de 28 anos, como foram exemplo Jackson Martínez, Bruno Alves, Lucho González ou até Zahovic. Por outro lado, o FC Porto não tem hábito de vender e comprar no mesmo defeso. Logo podemos tomar por referência os 29 anos que Layún teria em 2017. E com esta idade, não há registo de grandes vendas por parte do FC Porto.

Contratar Layún é inverter a política da SAD. Como é lógico, não vamos comprar Layún a pensar que vamos vendê-lo por 30M€ passados três anos. É uma contratação que foge ao habitual, mas no último verão já vimos o FC Porto fugir à tendência, ao contratar Casillas, Osvaldo e... Maxi Pereira.

E daqui podemos partir para a comparação da dupla Danilo-Alex Sandro e Maxi Pereira-Layún. Já todos vimos as comparações a nível ofensivo, mas há algo que está a faltar na questão do rendimento. Danilo saiu por 31,5M€, Alex Sandro por 26M€, depois de ambos terem custado 22,6M€, além de encargos. Já Maxi Pereira foi contratado em free agent e Layún chegou por empréstimo. 

Todos vão concordando que o FC Porto não perdeu nada a nível de rendimento. Mas se Maxi, saindo do Benfica, só encontrou boas portas para prosseguir a carreira num rival e se Layún estava no Watford não era por serem laterais mais desejados do que Danilo e Alex Sandro. Mas algo fez a diferença: experiência.

O FC Porto substituiu dois dos melhores laterais da Europa, que foram contratados seguindo a política habitual da SAD (contratar jovens caros e vendê-los a bom preço), com o recurso a dois jogadores que contrariam a tal política da SAD: experiência, jogadores feitos, capazes de chegar, jogar e render, em vez de ter que esperar por período de adaptação e que atinjam a maturidade.

Ninguém sente falta de Danilo e Alex Sandro porque o FC Porto contratou jogadores feitos, capazes de pegar de estaca na equipa. Maxi Pereira tinha muitos anos de campeonato português e vasta experiência internacional. Layún, além de também ser experiente, é um lateral que ataca muito bem, algo que encaixa totalmente no modelo de Lopetegui e no futebol português. Nenhum deles seria jogador para gerar mais-valias, mas ambos foram capazes de chegar, jogar e fazer esquecer quem cá estava. Não se nota a saída de Danilo e Alex Sandro porque o FC Porto contratou certezas para o curto prazo. 


Promessas o FC Porto já tinha. Rafa é a maior delas todas, e prova-o a cada semana de trabalho na equipa B, envergonhando quem achou que Kayembé é que era um projeto interessante de lateral. E Rafa é um jogador que tem mais de 10 anos de casa e não houve escalão em que não prometesse ser uma opção de grande futuro. Para a lateral-direita, também já havia Víctor Garcia, jovem que, embora não haja ainda confirmação a nível de R&C, já terá sido bem mais caro do que aquilo que seria esperado aquando do seu primeiro empréstimo ao FC Porto.

O lateral-esquerdo do futuro
Tanto Rafa como Víctor são jovens que podem evoluir no sentido de chegar à equipa A do FC Porto. Não faz sentido que continuem na equipa B para lá de 2015-16. Não podemos cair no romantismo de dizer que já podiam estar a jogar regularmente na equipa A, pois de certeza que não iam formar a dupla com maior produtividade ofensiva da Europa, como são Maxi e Layún. Mas não vale a pena pensar em promessas quando já temos duas assim na equipa B. E são promessas que já têm capacidade para crescer na sombra dos habituais titulares - temos Cissokho e Ángel a discutir um papel para o qual Rafa bastaria. E quando Layún sentou na Champions, quem jogou à esquerda foi Indi. Só a massa salarial implicada por dois jogadores que não jogam, no caso Cissokho e Ángel, já ajudaria e muito a manter Layún.

Ainda sobre Layún. Apesar da opção de compra ser de 6M€, é especulativo tomar esse valor como inflexível. Trata-se de um jogador da rede Pozzo, o que se por um lado pode significar um investimento mais reduzido (veja-se o exemplo do Granada, que ainda só recebeu 500 mil euros por Brahimi, jogador desejado por meia Europa), por outro dificilmente será jogador para ser contratado sem envolver terceiros. Para a SAD, não importa reduzir apenas a dependência de mais-valias, mas também a dependência de envolver terceiros em contratações. Além disso, o Watford só vendeu um jogador em toda a sua história por mais de 6M€ - Ashley Young, internacional inglês do Man. United.

Dito isto, faz todo o sentido que o FC Porto pense em mais Maxis e Layúns: jogadores feitos, capazes de chegar e render, pois jovens promessas já temos em diversos setores nos quadros do clube. Por outro lado, a SAD nunca dependeu tanto de mais-valias como neste momento. E se há um ano tínhamos uma dupla de laterais capaz de render 50M€, neste momento não temos dupla de laterais para mais-valias. Isso vai exigir mais de outros jogadores... ou que a SAD decida de uma vez por todas meter travão e controlar os investimentos: pensar em mais jogadores rodados e menos em promessas para o médio/longo prazo. Não queremos que o FC Porto deixe de ter jovens de grande potencial, claro que não. Precisamos sempre deles. Mas o que muitos não querem perceber é que não precisamos de ir ao mercado se já os temos nos nossos quadros. Assim, deixem o mercado para os jogadores de hoje, porque os de amanhã já cá estão.