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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Prova dos nove

O Dortmund é melhor. Joga melhor. Está mais bem preparado. Cedo impôs as suas armas para continuar na Liga Europa. E o FC Porto nada fez para passar a eliminatória. Com tudo isto, o apuramento do Dortmund e a eliminação do FC Porto da Liga Europa acontecem com toda a naturalidade.

Desistir antes de começar
O FC Porto já ficou praticamente sem hipóteses de passar pelo resultado da primeira mão. Restavam pouco mais do que ilusões. Mas acontece que José Peseiro desistiu da competição ainda antes do jogo no Dragão. É isso que dizem as suas escolhas iniciais, legítimas, mas primeira causa de mais uma derrota no Estádio do Dragão. Tal como aconteceu em Londres: sabia-se que o FC Porto dificilmente resistiria ao Chelsea, mas pelo menos pedia-se que a equipa deixasse claro que fez tudo para ganhar. Não fez, e por isso Lopetegui recebeu justas críticas. Neste caso, o FC Porto também não fez o que estava ao seu alcance frente ao Dortmund. Com a diferença de que, apesar de tudo, deveria ser mais acessível ganhar ao Dortmund no Dragão do que ao Chelsea em Londres.

José Peseiro não é um bom orador, nunca foi. Tem um discurso igual ao de tantos outros no futebol português, feito de clichês e frases para lugares comuns. Isso não é um problema. Ter um bom discurso faz parte de um bom treinador mas não faz um bom treinador. José Peseiro teria, isso sim, que tentar implementar as suas ideias na equipa, sabendo que iria ter sempre a justificação de que estava em fase pós-Lopetegui. Afinal, Lopetegui, ao fim de 18 meses, deixou uma equipa que estava (quase) de rastos; José Peseiro ainda pouco tempo teve, mas como era esperado a mudança de treinador acabou por não surtir ainda grande efeito - a maior diferença é que, comparativamente ao início de janeiro, o FC Porto está mais longe da liderança e fora da Europa. Não só por falta de tempo, como por falta de opções. Em quantidade e qualidade.

Má época nas competições europeias, e veremos o quanto isso se vai refletir perante a necessidade de vender jogadores no final da época. Culpas repartidas entre plantel, Lopetegui, José Peseiro, azar em momentos chave (o jogo do Dortmund foi em fora de jogo, mas neste caso não muda nada na eliminatória) e a construção e gestão do plantel por parte da SAD. O FC Porto falhou em toda a linha na UEFA em 2015-16.






Danilo Pereira (+) - Era fácil prever que era a melhor contratação da época, pois foi tudo aquilo que deveria ser uma contratação à Porto - a viagem até Portimão era dispensável, mas enfim, valia o que estava a custar. E confirma-o a cada dia. Defensivamente, esteve impecável, ganhando 90,9% das bolas divididas e duelos contra jogadores do Dortmund. Acertou 86,7% dos passes, ainda foi ao ataque tentar dois remates (ninguém no FC Porto rematou mais) e foi sempre o primeiro - e muitas vezes único - a tentar empurrar a equipa para a frente. A sua influência também cresce no balneário - no início da época poucas vezes abria a boca, mas agora dá instruções, pede linhas de passe, dá na cabeça aos colegas. O FC Porto 2016-17 tem aqui um dos capitães. Destaque ainda para a exibição de Marcano e para o banco do FC Porto: há muito que não tínhamos tanta qualidade no banco. O problema é que essa qualidade está de braços dados com jogadores rebentados fisicamente, outros com marés de desinspiração e outros que não têm revelado o maior interesse na luta por um lugar no 11.








A abordagem ao jogo (-) - A crítica pode começar em quem deixou que José Peseiro chegasse a este jogo com apenas um central disponível. O FC Porto não pode reclamar ser uma equipa com ambições europeias sem ter sequer uma dupla de centrais para jogar na UEFA. E daqui nasceu o problema: se é certo que Danilo Pereira era essencial no meio-campo, Layún também era essencial pelo seu papel ofensivo no flanco esquerdo. E estando o FC Porto a perder por 0x2 na eliminatória, deixar o seu maior dínamo ofensivo no centro da defesa, acima de tudo preocupado em que o FC Porto não sofra mais golos, mostra que José Peseiro, por muito difícil que fosse montar um 11 consensual, estava acima de tudo preocupado em não sofrer golos. Se é certo que Brahimi e Corona têm estado em má forma e que Herrera e André André não estejam a ter a maior consistência, quem escala esta equipa titular não pode pensar em ganhar ao Dortmund.

Média de golos (-) - Não é que houvesse expetativas de que José Peseiro fizesse o milagre. Não só porque a matéria prima mão é a melhor, mas também por se tratar de um treinador sem um currículo de conquistas. Mas a administração da SAD confiou-lhe a responsabilidade - não pelo trabalho feito, que pouco tem, mas mais pelas ideias do treinador, que vão ao encontro de um futebol mais ofensivo. Era sabido que a equipa iria pior defensivamente com José Peseiro (leva nove jogos), e assim tem sido. Desde António Feliciano, em 1972, que o FC Porto não tinha um treinador com uma média de golos sofridos tão alta (1,44). Em comparação com o passado recente, Vítor Pereira teve 0,72, Paulo Fonseca 0,84 e Julen Lopetegui 0,68. 

Em defesa de Peseiro, importa realçar que está num ciclo de jogos difícil, tendo já jogado contra Benfica e Dortmund. A maioria dos jogos foram difíceis, logo não tem a vantagem que outros treinadores do FC Porto tiveram, ao jogar contra adversários mais acessíveis para equilibrar a balança. Mas é uma conta fácil de fazer: um treinador que trabalha pouco as equipas defensivamente + uma defesa de remendos = a pior média de golos sofridos dos últimos 40 anos. É uma crítica que não vale a pena ser repetida sempre que a equipa sofre golos, mas ou se exige mais do treinador ou condena-se quem não é capaz de formar um plantel que ofereça, pelo menos, uma dupla de centrais para jogar na UEFA.

A chegada de José Peseiro também trouxe expetativas quanto a uma equipa mais ofensiva. Uma vez mais, missão altamente ingrata: não era possível pedir ao FC Porto que marcasse 5 golos ao Dortmund. Mas o rendimento ofensivo da equipa tem que disparar nos próximos jogos. José Peseiro abre com uma média de 1,44 golos por jogo. Nos últimos 50 anos, pior só Víctor Fernández (1,07) e José Couceiro (1), que curiosamente também pegaram na equipa após a demissão de treinadores (um padrão ou infeliz coincidência?). No passado recente, Vítor Pereira e Lopetegui tiveram média de 2,04 e Paulo Fonseca 1,86.

É preciso mais golos deste FC Porto, sobretudo porque muitos adeptos, em defesa de José Peseiro, realçam que este sofre mais golos porque não insiste na posse de bola estéril que era praticada muitas vezes com Lopetegui, preferindo correr mais riscos no ataques. Ok, mas convém que a estatística comece a refletir isso: uma equipa que faça de facto mais golos. Mas volta-se a colocar a questão: problema da estratégia do treinador ou simplesmente jogadores que não estão à altura?

Zero de perigo (-) - O Dortmund só teve que fazer 3 faltas durante todo o jogo.  Três. O FC Porto não teve um único jogador capaz de pegar na bola, ultrapassar um adversário e forçar logo o Dortmund a ter que ir à dobra e a abrir espaço no seu meio-campo. Zero de criatividade nesta equipa. Brahimi e Corona, os mais virtuosos, estavam no banco, mas também não têm estado em grande forma; Evandro não conseguiu capitalizar o efeito pelo seu golo ao Moreirense e poucas vezes pegou no jogo (acabámos agosto a debater a ausência de um médio-ofensivo - e eis onde estamos); Varela é um extremo de apoio, não de rasgo, e não foi capaz de criar perigo em nenhum lance. Marega, enfim, há que continuar a confiar nos muitos portistas que ficaram entusiasmados com a sua contratação, que viram qualidades que mais ninguém vê - se calhar o próprio Marega ainda está à procura delas, ou a guardá-las para um momento Kelvin. Schmelzer disse antes do jogo que não sabia quem era Marega. Provavelmente assim continua, pois Marega não passou nenhuma vez por ele. Não é por falta de empenho, nunca há-de ser. É por outra coisa, chamada qualidade. Se não estiver na Turquia na próxima época vai ser uma grande surpresa. Aboubakar, depois de resolver o clássico na Luz e ir ao banco, esteve sempre sozinho e desapoiado no ataque - sempre que baixou para segurar a bola, as jogadas não tiveram seguimento. Assim ninguém resiste.

Plano negativo (-) - Já todos perceberam que não deverá haver futuro para José Ángel no FC Porto. Está sem confiança e nunca revelou ser no FC Porto o lateral seguro e consistente que se mostrou em Espanha e Itália - e que na altura fez com que a sua contratação fizesse todo o sentido. Por outro lado, a equipa do FC Porto está habituada a que o seu flanco esquerdo seja sempre uma fonte de subidas perigosas do lateral; mas Ángel não é Layún a atacar. E, neste FC Porto, mais ninguém é. Mas Layún estava demasiado ocupado a tentar que o Dortmund não marcasse mais...

O FC Porto teve apenas 37% de posse de bola, o que significa que nunca foi capaz de ser forte na reação à perda e poucas vezes perturbou a gestão do Dortmund (bateu o recorde de número de passes no Estádio do Dragão: 652). A bem da verdade, a determinada altura o FC Porto começou a recuperar mais bolas, tendo que chegou a forçar o Dortmund a uma eficácia de passe que caiu para os 82%. O problema é que equipa recuperava a bola, mas depois... nada. Note-se que Hummels teve três perdas de bola graves logo nos primeiros 10 minutos. A diferença? Quando Boateng e Dante fizeram asneira no Dragão, há um ano, o FC Porto não perdoou e caiu em cima do Bayern; ontem não havia ninguém para castigar o Dortmund.

Era difícil conseguir algo de bom, mas era obrigatório tentar fazer melhor. Com a Taça de Portugal declarada como ponto de honra para esta época, sobram 11 jornadas no campeonato. Se estivéssemos já na 32ª jornada, poderia acontecer o impensável e inaceitável: o Sporting poder ser campeão no Dragão com uma derrota por 1x0. Até lá, há que tentar fazer os (im)possíveis para que esse possa ser um jogo em que haja algo a conquistar, e não algo a evitar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Jogar para perder por poucos

O FC Porto não jogou para não perder: jogou para perder por poucos. Seria muito difícil sair da Alemanha com um resultado positivo, não só dada a qualidade do adversário como as próprias limitações do plantel do FC Porto, que diz querer ganhar uma competição em que se estreia com o extremo a lateral, o lateral a central, um novo meio-campo e um ataque inédito, numa projeção de 4x4x2 que nunca o chegou a ser e que rapidamente voltou ao limbo do 4x3x3.

Mais do que começar a atacar as invenções de José Peseiro - até porque não foi pela readaptação de alguns jogadores que perdeu -, é altura de refletir: os mais recentes treinadores do FC Porto inventam por convicção, ou simplesmente tomam decisões em função da limitação do plantel? Dispensar um central, vice-capitão, para depois ir a Dortmund com esta inovadora defesa só nos melhores sonhos daria bom resultado. Já para não falar que temos um dos mais importantes jogadores da primeira volta (André André) rebentado fisicamente, mas a SAD optou por não reforçar o meio-campo no mercado de inverno.

Mas a verdade é que não foi pela posição de Varela (se tivesse apanhado Jorge Jesus na sua carreira, podem ter a certeza que tentá-lo-ia adaptar a lateral) nem de Layún (o lateral que não defende bem foi o melhor do FC Porto jogando como central) que o FC Porto fez tão pouco em Dortmund. Foi pela estratégia da equipa, que abandonou toda e qualquer identidade para passar a jogar como equipa pequena - ou, se preferirem, reconhecendo toda e qualquer superioridade no adversário.

O FC Porto nunca virou uma eliminatória depois de ter perdido por 2-0 fora de casa. Respeito e consideração por quem comprou, atempadamente, bilhete para a segunda mão é o mínimo e máximo que se pode pedir.






A destacar (+) - Casillas, sem culpas nos golos sofridos, fez o que pôde. Martins Indi fez um bom jogo de marcação a Aubameyang, embora tenha traído Casillas no lance do 2x0. Layún, sabendo-se que como lateral o seu ponto franco é defender, acabou por ser uma boa surpresa no centro da defesa, não cometendo nenhuma falha clamorosa. E Herrera voltou a ser o médio com melhor eficácia de passe do FC Porto, ao acertar 90,9% dos passes, embora, sabe-se lá porquê, ainda alimentem o mito de que Herrera é quem mais passes falha. Tentou ligar os setores e organizar a equipa entre a anarquia tática, em vão. A equipa não merece acusações de falta de empenho, pois esse não faltou. O problema foi outro...






Deixar jogar (-) - Chegou a ser frustrante a forma como o FC Porto se encolhia perante o Dortmund no início de construção. Onze jogadores atrás da linha da bola, sem pressionar. É certo que a equipa não podia abrir espaços para o Dortmund entrar no seu meio-campo, mas a perder e a precisar de marcar o FC Porto fez muitíssimo pouco. Mais do que o facto de só ter tido um terço da posse de bola, choca o FC Porto ter deixado o Dortmund ter uma eficácia de 90% de passe. Isso mostra que a equipa poucas vezes perturbou o Dortmund na troca de bola. Aliás, o Dortmund conseguiu uma sequência de 1m49s sempre a trocar a bola, à largura do campo, sem que o FC Porto a recuperasse.

Sem acutilância (-) - O FC Porto deixou o Dortmund ter bola, mas quando a recuperou pouco fez. O Dortmund só fez 6 faltas em todo o jogo, o que mostra que nunca precisou de ser uma equipa agressiva perante o FC Porto. O FC Porto fez apenas 3 remates em todo o jogo, contra 19 do Dortmund, e o mais perto que esteve de criar perigo foi num remate à figura de Sérgio Oliveira e na última tentativa de Suk, já perto do fim. O FC Porto raramente levou a bola a zonas de perigo, ao fazer apenas 3 passes para ocasião de golo. O Dortmund fez 16. Antes da Luz, Peseiro prometeu que o FC Porto ia manter a sua identidade, e manteve. Em Dortmund, abandonou-a por completo em prol de tentar perder por poucos. 

Outros destaques negativos (-) - Se Varela, aos 31 anos, faz em Dortmund a estreia numa nova posição, não parece correto apontar nada ao jogador. Rúben Neves esteve mal, particularmente no passe (falhou 10), e acusou a falta de dimensão física para um jogo desta natureza e o facto de estar rodeado de uma nova equipa, sem conhecer a dinâmica de passe da mesma. Os próximos meses não serão fáceis para Rúben Neves: passou de um treinador que privilegiava a transição lenta, apoiada e muita circulação de bola (onde Rúben Neves se destacava) para um que prefere transições mais rápidas, onde o médio mais recuado é menos solicitado no papel de circulação, além de ter que partilhar o espaço à frente da defensa com um segundo médio. Há muito para trabalhar.

Brahimi foi inconsequente, e meteu na cabeça que tem que fazer tudo sozinho quando a equipa, coletivamente, nada faz. O problema é que Brahimi não recua para dar linha de passe aos colegas, recua para agarrar-se à bola quando ainda tem 50 metros à sua frente. Nota-se que não sente a maior confiança no coletivo que o rodeia, mas não pode jogar assim. Nem um remate, um passe de rotura ou um cruzamento na linha de fundo para amostra. Aboubakar nunca foi solicitado, é certo, mas esteve sempre cercado pelo Dortmund e não conseguiu um único remate. Marega, numa exibição dentro das expetativas, já tem uma história para contar aos netos: um jogo completo ao serviço do FC Porto, em Dortmund, na UEFA. Um sonho realizado, mas podemos esperar muito mais de um jogador que, segundo o site oficial do FC Porto, «reúne características físicas e técnicas que fazem lembrar Hulk». De facto, quem tem um Hulk consegue ser campeão sem ponta-de-lança, como em 2011-12. Mas tomara que em 2015-16 a única carência fosse um ponta-de-lança.