Mostrar mensagens com a etiqueta Mangala. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mangala. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As diferenças entre Mangala e Ola John

O timing é uma coincidência maravilhosa, é certo. Mangala foi transferido em agosto de 2014, e na altura já se levantavam questões sobre os valores da sua transferência, mas a FIFA só se lembrou agora, neste tempos tão quentinhos para o futebol nacional, de decidir analisar se há base para uma investigação. E também não é inocente o facto de a FIFA, enquanto entidade íntegra e transparente, estar completamente falida, logo terá que atacar alguns clubes e julgar algumas práticas para restaurar alguma credibilidade. 

Muito bem. O que estará em causa é perceber se a Doyen Sports teve influência na transferência de Mangala para o Manchester City. É um dos efeitos secundários dos leaks. E daí percebemos o porquê de só terem sido divulgados, em matéria de Benfica, documentos a envolver a Doyen e Ola John.

A influência da Doyen
Para quem tiver acesso ao Financial and Economic Rights Participation Agreement (ERPA) de Mangala e Ola John, pode notar a grande diferença entre os pontos 6.2 dos dois contratos. Começam exatamente com a mesma frase: «The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain». No caso do ERPA de Mangala, este ponto termina assim. Mas no do Benfica não. O Benfica acrescenta isto:

«The fund shall not share the transfer information with third parties other than its owen advisers while such information remais out of the public domain, and shall be strictly prohibited from contacting or interfering in any way whatsoever, either directly or indirectly, with any of the parties (other than the club) with is directly or indirectly involved in the negotiations of the potencial transfer, except with the written permission of the club».

Voilá. No mesmo artigo (6.2) no contrato do FC Porto, essa informação não aparece. O Benfica está, neste ponto, mais bem protegido no seu acordo do que o FC Porto, o que só levanta uma questão: quem se esqueceu deste pormenor? Se o FC Porto está mais próximo da Doyen do que o Benfica (normal, tendo em conta que Mangala foi um sucesso, tal como vai ser Brahimi, e Ola John uma enorme desilusão para o fundo), como se justifica que o mesmo artigo proteja muito mais o Benfica do que o FC Porto?

Por outro lado, assim se percebe o porquê de a Football Leaks só ter ainda um contrato online: precisamente este de Ola John. Serve isto como termo de comparação para tentar entalar o FC Porto na transferência de Mangala para o City e alegar que a Doyen teve interferência no processo. Mas como veremos mais abaixo, não correu como desejariam.

O que há a fazer? Para começar, não, o FC Porto não pode delegar à Doyen a iniciativa de uma transferência. Todos sabem isso. « (...) Article 18bis par. 1 of the RSTP, which states that “[n]o club shall enter into a contract which enables any other party to that contract or any third party to acquire the ability to influence in employment and transfer-related matters its independence, its policies or the performance of its teams.» O FC Porto só tem que explicar, se a FIFA o convidar a isso, que a Doyen não assumiu iniciativa em nada e somente colaborou com a parte que lhe cabia.

O FC Porto queria vender Mangala. O Manchester City queria comprar Mangala. O Manchester City oferecia uma excelente proposta ao FC Porto. Jorge Mendes estava no papel de intermediário. E então assim se fez a transferência. O que há aqui de errado? Nada.
Nélio Lucas

Levantaram-se questões sobre o valor pelo qual Mangala foi vendido. O FC Porto comunicou a sua parte: 30,5M€ por 56,67% do passe. Deste valor o FC Porto tirou o mecanismo de solidariedade FIFA, a intermediação para Jorge Mendes e os prémios de fidelidade a Mangala. Soube-se que a determinada altura a Robi Plus teria direito a 10%, mas esta sociedade de D'Onofrio e Delmenico deixou de ter esta participação muito antes da transferência para o City (a imprensa belga chegou a falar de uma suposta compra dos 10% por parte da própria Doyen, que as partes não quiseram confirmar). No R&C, o FC Porto acrescentou que «o clube comprador assumiu a obrigação de pagar diretamente à Doyen a proporção que esta entidade detinha sobre os direitos económicos do jogador».

Como se sabe, a Liga Inglesa só admite a inscrição de jogadores se o clube comprador absorver a totalidade do passe. Por isso o Manchester City tinha que comprar os 100% do passe de Mangala. E assim o fez. Comprou a sua parte ao FC Porto e a restante parte à... Doyen. Se a Doyen tinha 33,33% e se a sua quota era necessária à concretização da transferência, como esperavam que a Doyen não interferisse na transferência? É claro que tinha que interferir. E numa liga exigente como a inglesa, onde até é necessário licenças de trabalho, alguém acredita que a inscrição de Mangala teria sido aceite se não estivesse tudo muito bem claro (e logo após a reportagem da France 2, que tantas suspeitas levantou)? 

No acordo, o FC Porto declarou que reservava a um entendimento entre o City e a Doyen a questão da parcela que faltava no passe de Mangala. Ao contrário do que a Bloomberg escreve, não foram 54 milhões, como é lógico, pois não é por os 56,67% do FC Porto terem valido 30,5M€ que a restante parcela tem que ter valor proporcional. Isto é uma não questão, e nem é o que está em causa.

O FC Porto, se a FIFA assim o exigir, só tem que expor que era intenção dos dois clubes, City e FC Porto, transferir Mangala, e que para tal acontecer a Doyen teria que ser implicada nas negociações. Agora, por muito que possa estar limitado a jogadores do catálogo da Doyen, por possíveis dificuldades de investimento a curto prazo, o FC Porto não poderá nunca delegar à Doyen a iniciativa ou total responsabilidade de negociar, por sua conta, um jogador para o FC Porto. Isso não, nunca. Por outro lado, é normal os clubes delegarem a empresários procurações para negociar X jogador com X clube.

20 ou 45M€?
Se a FIFA quiser explicações, o FC Porto só terá que as prestar. De livre e espontânea vontade, pois aqui ninguém pode ficar de rabinho entalado entre as pernas, como basicamente tem sido assumido pelo Benfica nos últimos tempos, desde a Liga Aliança às ofertas ilegais a árbitros. E ao contrário do que se tem verificado neste último, o FC Porto, na questão Doyen/Mangala, não deve ter nada a esconder. 

Ah! O facto do ERPA de Ola John ter sido divulgado e de continuar online tem um propósito claro. Mas atenção àquilo que se possa entender como a influência de um fundo num determinado clube. No contrato do Benfica, está dito que a Doyen e o clube concordam que uma oferta de 20M€ seria mais do que razoável para vender Ola John. Mais, diz que se o Benfica não aceitar uma eventual proposta de 20M€ por Ola John terá que indemnizar a Doyen Sports em 100% do valor.

Mau! Então se a Doyen pretende uma indemnização no caso de o Benfica recusar 20M€, não estará a condicionar ou influenciar o seu futuro? Se João Cancelo e Ivan Cavaleiro, sem terem feito nada de relevante na equipa principal do Benfica, valem 15M€ cada, não me digam que um internacional holandês, que já foi eleito dos melhores jogadores da Eredivisie, até era seguido pelo Manchester United e que até significou um investimento elevado por parte do Benfica não vale um bocadinho mais.

Aliás! Por mais que esta frase esteja batida, Luís Filipe Vieira disse e repetiu isto: «Nenhum jogador sairá sem serem cumpridas as cláusulas de rescisão». Ora Ola John tinha uma cláusula de rescisão de 45 milhões de euros. Então como raio é que o Benfica permite um acordo com a Doyen em que estipula que uma proposta de 20M€ já era um montante razoável para a transferência?

Vá, um bocadinho de rigor. No Regulamento do Estatuto de Transferências de Jogadores sobre o TOP, no artigo 18 a FIFA diz que «No club shall enter into a contract which enbales the counter club/counter clubs, and vice versa, or any third party to acquire the ability to influence in empolyment and transfer related matters its independence, its policies or the perfomance of its teams».

Ora se Vieira só vende pela cláusula, se o Benfica coloca uma cláusula de 45M€ em Ola John e se depois acorda com a Doyen a possibilidade de uma saída por 20M€, em que ficamos? Não está a Doyen também a interferir no Benfica? E não aceitou o Benfica entrar num acordo que levanta estas questões, violando o trecho acima referido? É que a Doyen, pelo menos, não forçou o FC Porto a aceitar propostas de menos de metade do valor da cláusula de rescisão de Mangala.

FIFA, já que estão com a mão na massa, aproveitem e analisem isto também. 

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Mangala e o BES: a arte de saber e poder negociar... com a barriga à mistura

Quando foi anunciada a transferência de Mangala para o City, um dos melhores negócios da história do futebol português, fomos bombardeados com uma informação que já era conhecida há meio ano, mas que só foi lançada no momento da transferência: de «Mangala era do BES» a «Mangala serviu para o FC Porto pagar ao BES», não houve sítio onde isto não fosse notícia.

Na altura, O Tribunal do Dragão reagiu com grande alegria: quem dizia que o dinheiro de Mangala tinha sido direccionado para pagar ao BES fazia do negócio algo ainda melhor do que já era. Como? Porque nunca uma transferência de 30 milhões de euros foi paga a pronto, enquanto o empréstimo indicava que o pagamento ao BES tinha que ser feito em tranche única. Mas sabe-se lá porquê, fartaram-se de «anunciar» que o FC Porto tinha recebido todo esse dinheiro a pronto e que já tinha ido todo direitinho para o BES.

BES não tocou
no dinheiro de Mangala
O R&C traz uma novidade (ou talvez não) para todos: o FC Porto ainda não pagou nem um cêntimo da tranche acordada com o BES para o empréstimo de 30 milhões de euros. Incumprimento? Não. Renegociação? Sim.

O colapso do BES  foi tratado como o fim da torneira para o futebol português. Acabou-se o crédito, diziam por todo o lado. O rival Benfica foi obrigado a vender alguns activos para cumprir com as suas obrigações, por exemplo. Mas afinal, parece que a torneira não se fechou por completo. A torneira mantém-se semi-aberta para clubes que, mesmo num contexto absoluto de crise, continuam a merecer a confiança de parceiros bancários - não excluindo que o Novo Banco nasceu oficialmente depois da renegociação.

O próprio responsável pela pasta financeira, Fernando Gomes, avisou que vai ser necessário encontrar alternativas bancárias e também à PT (cujo patrocínio rendia um valor mínimo de 3,65M€ anuais, ou seja, o preço de 1 ou 2 jogadores jovens). É verdade, os tempos mudam. Mas mesmo em circunstâncias adversas, numa época com 40,7 milhões de euros de prejuízo, houve capacidade para renegociar o maior empréstimo bancário da SAD.

O empréstimo de 30M€ foi renegociado a 30 de Junho de 2014, data limite para o pagamento. O modelo de pagamento acordado foi o seguinte:

1) Tranche de 3 milhões de euros em Setembro de 2014.
2) Tranche de 2 milhões de euros em Outubro de 2014.
3) Tranche de 25 milhões de euros em Setembro de 2015.

Mangala já saiu, então Jackson Martínez mantém-se como a garantia para o empréstimo... e entra Danilo no negócio, também como garantia. Que a saída de Jackson em 2015 já era uma forte possibilidade, era sabido. Agora ainda mais, mas Jackson tem contrato até 2017, enquanto Danilo tem contrato apenas até 2016. Caso venda Danilo ou Jackson antes do termo de maturidade do empréstimo, a SAD terá que reverter o dinheiro para o pagamento imediato das tranches, após excluídas as comissões.

Relatório e Contas Consolidado da SAD, época 2013-14

Esta operação com o BES pode ser vista de duas formas. A vertente positiva e a vertente negativa. Prefiro mencionar ambas, para que gregos e troianos possam jantar juntos.

Negativo (-): É um empurrar de problemas com a barriga, como foi a Euroantas. Fernando Gomes já anunciou que o empréstimo obrigacionista de 30 milhões, com maturidade em Maio de 2015, vai ser renegociado num prazo de 4 a 5 anos. Uma prática normal, mas «empurrar» dívida, numa altura em que é preciso reduzir os custos operacionais ou aumentar as receitas (e há que encontrar alternativas bancárias e patrocínios - o capital estrangeiro é o futuro e a solução), é sempre adiar os problemas para o futuro. E quem adia os problemas deve estar preparado para os resolver no futuro, não para deixar heranças para quem vier a seguir.

Positivo (+): É um empurrar com a barriga, mas o FC Porto tem a única SAD ainda com margem para empurrar com a barriga. A única que mesmo apresentando o seu maior prejuízo de sempre (estamos a falar de um resultado negativo só superado pelo Sporting de Godinho Lopes), encontra margem junto de parceiros bancários para renegociar dívida. E se uma banca à beira do colapso admite tamanha renegociação com o FC Porto, é porque a SAD ainda terá crédito para tal. Que este é o limite, parece que sim.

Há a versão negativa, há a positiva. Certamente que vai convidar a duas interpretações. Pessoalmente, digo que doravante há que evitar empurrar com a barriga. É que o cinto que segura as calças vai forçosamente ter que sofrer uns furos, mesmo que a SAD ainda mantenha a melhor silhueta do futebol português - que não é o mesmo que dizer que está com um peso saudável. Uma análise a prosseguir com um post por dia.

PS: Ivo Rodrigues, tens nos pézinhos o futebol que leva portistas ao estádio e és o grande extremo que a formação não tinha há 10 anos. Mas por favor, não voltes a repetir esta brincadeira. O Jackson explica-te porquê.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Mangala, um dos melhores negócios de sempre. E quanto fica o FC Porto a dever ao BES

«A alienação à DS liberta a venda de Mangala para o City, sendo que os valores podem vir a ser uma grande e boa surpresa - não a verba paga pelos ingleses na totalidade do negócio, mas sim aquela que vai caber ao FC Porto. Lembrem-se que, à partida, seriam apenas 56,67%...», O Tribunal do Dragão, 24 de julho de 2014.

A surpresa confirmou-se. 30,5 milhões de euros por 56,67% do passe. Mangala, que não jogou um único minuto no Mundial 2014, torna-se o central mais caro da história da liga portuguesa numa venda. Rende, por exemplo, 12 vezes mais do que Garay, e sete vezes mais do que alguma vez Rojo poderá render, dois defesas dos rivais Benfica e Sporting e que fizeram um grande Mundial.

Mangala, o defesa mais
caro de sempre em PT
O Manchester City não pagou 53,8 milhões de euros por Mangala. Podia ter pago, porque as cláusulas de rescisão só são válidas quando são pagas a pronto e quando são invocadas unilateralmente por uma das partes envolvidas no contrato. Quer isto dizer que não podia ser o City a pagar a cláusula de rescisão, mas sim Mangala a solicitar a rescisão unilateral, tendo assim que ser o jogador a pagar a cláusula, com uma transferência de verbas do City à ordem do atleta. Um pormenor que importa esclarecer, mas que neste caso não tem relevância, porque não se trata de uma transferência acima da cláusula, mas sim de 40 milhões de euros.

Então, porque é que o FC Porto não recebeu apenas os 22,6 milhões de euros que estavam previstos? Recuemos até 2011, quando a Doyen Sports comprou 33,33% do passe por 2,647 milhões (a Robi Plus ficou com 10%). Quer isto dizer que com a transferência por 40 milhões, o fundo tinha a receber 13,332 milhões de euros, o que significaria cerca de 500% do investimento inicial. Melhor que os juros do BES, certamente. Não há-de ter havido muitos fundos a lucrarem tanto face ao investimento inicial - talvez só o FPFPF, que comprou 35% de Cristiano Ronaldo por 627 mil euros ao Sporting e depois recebeu 737,32% do investimento inicial.

A Doyen Sports tinha em mãos uma valorização extraordinária, mas que só aconteceria se o FC Porto deixasse Mangala ir para o City. Como a Doyen Sports é um fundo que reúne diversos investidores espalhados pelo mundo, desde empresários a ex-dirigentes de futebol, é natural que quem participou no investimento de Mangala há 3 anos salivava por uma valorização que superava todas as expectativas. Mas Pinto da Costa e a SAD mantiveram sempre a fasquia alta quanto à verba a receber por Mangala: «Se querem que ele vá para o City, têm que nos ceder parte da vossa parte». Há quem seja refém de fundos, há quem os aperte a ponto de terem que ceder 8 milhões de euros (basicamente, tanto quanto o encaixe líquido de Garay e Rojo)! É esta a diferença entre o FC Porto e os demais.

Negociação exemplar
A Doyen Sports consegue dobrar o investimento inicial, num negócio que só o futebol oferece, e o FC Porto faz de Mangala o central mais caro de sempre. Além disso, a Doyen Sports foi decisiva para a vinda de Brahimi (alienação de 80% do passe por 5 milhões de euros, e sem esta alienação Brahimi não seria hipótese), tendo também participado nas vindas de Casemiro e José Ángel. O FC Porto saca 7,9 milhões de euros a mais do que teria a receber e ainda consegue apoio para contratar 3 jogadores que melhoram o plantel. Uma chapada de luva branca.

E porque os fundos estão envolvidos, insisto na questão: não concordo com a proibição, porque sem fundos o FC Porto nunca teria Mangala, mas defendo a regulação. O princípio é muito simples: cada alienação deveria incluir uma cláusula de recompra pré-definida e o valor deve ser declarado. Tal resolveria em grande parte o problema de falta de transparência em algumas transacções, sendo que o ideal até seria que a cláusula de recompra não permitisse que os investidores ultrapassassem determinada percentagem de valorização. De qualquer forma, este é um momento para elogiar a SAD por toda a gestão do dossiê Mangala, por saber trabalhar com a pressão dos fundos e com a necessidade de um encaixe, fechando assim uma das melhores transferências da história do FC Porto, mesmo que Jorge Mendes cobre a habitual comissão de 10%.

A Mangala, boa sorte! Será sempre recordado como um dos nossos e oxalá, no final da época, esteja com Fernando a fazer o que melhor sabe: festejar títulos de azul.

As contas do BES

Numa altura em que a ligação do BES aos clubes portugueses está na ordem do dia, um ponto de situação do FC Porto. A verba para a transferência de Mangala, segundo uma cláusula prevista no último R&C, é destinada à liquidação do maior empréstimo do FC Porto junto do BES: 30 milhões de euros. Ou liquidava 23 milhões em julho e 7 em outubro, ou pagava tudo de uma vez no momento da venda de Mangala. Ou seja, enquanto uns têm que vender meio plantel para cumprir as suas obrigações, ao FC Porto basta vender um jogador.

Ainda que no R&C conste que o FC Porto teria a pagar os 30 milhões de euros ao BES no momento da venda de Mangala ou Jackson Martínez, dificilmente terá sido o caso - certamente não o foi. Nenhum clube português abate de forma tão bruta o passivo de uma só vez. A renegociação deverá ter sido tratada em julho, mês em vencia a primeira prestação, mas é algo que só será possível de conferir no R&C do primeiro trimestre 2014-15. Certo é que a nível bancário, o FC Porto tem os seus compromissos mais do que controlados.

Com o referido empréstimo vencido, o FC Porto terá que pagar ao BES:
- 2,1 milhões de euros em abril de 2015; 
- 1,75 milhões de euros até janeiro de 2016 (prestações semestrais de 437,5 mil euros).
- 17 milhões de euros até setembro de 2016 (5,5 milhões em setembro de 2014, 5,5 milhões em setembro de 2015 e 6 milhões em setembro de 2016).

São estes os últimos compromissos do FC Porto com o BES, que neste momento tem o crédito cortado junto dos clubes portugueses. São 20,85 milhões de euros, verba que o FC Porto faria facilmente vendendo um titular. Não meia dúzia, apenas um.

BEStial, FC Porto. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Jackson Martínez, Mangala, o BES, José Ángel e as eleições na Liga

Jackson Martínez disse o politicamente correcto: vai continuar (está contratualmente obrigado a isso, afirmá-lo não é nenhuma declaração de amor ao clube) e está disposto a renovar (possibilidade que lhe foi proposta há mais de um ano, envolveu troca de empresários e que até hoje não se concretizou - lamentável, pois não foi Jackson a exigir uma renovação, mas sim algo que lhe foi sugerido face à elevada cobiça no mercado). A expectativa de uma oferta do Valência mantém-se, mas enquanto Lim não tiver acordo com o Bankia e a Fundacion VCF não há negócio possível.

À espera do Valência
Leonardo Jardim também o aprecia, mas a dupla Pinto da Costa-Lopetegui mantém a posição: Jackson é essencial e para manter. É extremamente difícil imaginar a sustentabilidade da SAD em 2014-15 sem este encaixe, ainda que alguns excedentários possam garantir algumas verbas. A verba líquida a receber de Mangala pode ajudar a esclarecer o ponto de situação para o exercício corrente, sendo certo que é preciso vender mais. Bater 30 milhões de euros limpos por Jackson Martínez, a caminho dos 28 anos e com apenas mais dois anos de contrato, é uma chamada «proposta irrecusável».

Em condições normais, a venda de Mangala terá que ser oficializada até quinta-feira, data em que vence o maior empréstimo bancário do FC Porto: 30 milhões de euros ao BES. Salvo algum acordo que tenha sido alcançado no último trimestre, ou a SAD paga 23 milhões de euros até 31 de julho e mais 7 milhões em outubro; ou terá que liquidar os 30 milhões de euros na totalidade assim que venda Mangala ou Jackson Martínez. Se Mangala não for vendido até quinta-feira, a liquidação do empréstimo deverá entrar por outra via que só os intervenientes conhecerão...

Mangala «vale» tanto como 5 do Benfica na balança da banca

Mangala: quinta-feira
há deadline
Nota: este empréstimo de 30 milhões ao BES é o maior da SAD, ainda que haja outro obrigacionista com maturidade em maio (será quase inevitável renová-lo). De qualquer forma, é de notar que este FC Porto que, dizem, está em «all in» prepara-se para liquidar o seu maior compromisso financeiro recorrendo a uma única venda. Entretanto, na Segunda Circular usa-se a crise do BES como desculpa para a liquidação total do plantel: como se já não se soubesse, atempadamente, que entre empréstimos bancários e obrigacionistas o Benfica tinha a pagar/cobrir mais de 174 milhões de euros só até final de 2014. O Benfica, há um ano, não fez vendas de relevo e gastou 49,3 milhões em reforços. Já o FC Porto, este ano, não ultrapassou ainda os 30 milhões de euros e, contando com Mangala, já fez vendas milionárias. Curiosamente, ninguém ouviu falar em «all in» do Benfica há um ano...

O FC Porto, com Mangala, quase cobre o seu maior empréstimo bancário em vigor. Já o Benfica, para cobrir o seu maior empréstimo com o BES, de 64,3 milhões de euros, com maturidade em abril último, teve que vender quatro titulares (Oblak, Garay, Markovic e Rodrigo) e um jogador que até decidiu uma meia-final contra o FC Porto (André Gomes). E não esquecendo que o melhor jogador (Matic) foi vendido ao valor do Papel Comercial. Adiante.

É cedo para debater as consequências da permanência de Jackson no plantel, uma vez que esta é uma novela candidata até ao final do mercado de transferências, pois não há data para a conclusão do impasse no Valência e a eventualidade do FC Porto falhar a fase de grupos da Champions (para o grupo de trabalho isto nem pode passar pela cabeça, mas para a SAD pode e deve) pode complicar as contas, até porque as previsões para 2013-14 com as receitas da UEFA ficaram oito milhões de euros acima do obtido. E enquanto esta novela não se resolve, outra novela mexicana fica presa. O que seria da silly-season sem isto?

José Ángel até 2018

Como já tinha sido referido, trata-se de uma boa aposta: não só como alternativa como sobretudo como sucessor para Alex Sandro (sim, também há Rafa, a médio prazo). José Ángel assinou por 4 épocas, ficou com cláusula de 30 milhões de euros e é uma garantia de qualidade para as laterais, onde a SAD enfrenta o mesmo dilema que Jackson Martínez: Danilo e Alex têm contrato por mais 2 anos, são dois atletas bem pagos e a renovação impõe-se a curto prazo... ou a saída a médio.

A Roma anunciou que fica com 50% de uma futura transferência e que o negócio foi alcançado a... custo zero. Uma meia surpresa, na medida em que o negócio envolve uma terceira parte famosa neste defeso, que dispensa detalhes.


Novas eleições na Liga

Seara reentra em cena
Há o assassino, há o coveiro... e há o salvador da Liga: o CJ da FPF ditou a repetição das eleições para a presidência da LPFP, um tema quente em altura inoportuna, tendo em conta que há um plantel para fechar e o campeonato começa dentro de 2 semanas. Mário Figueiredo, que de burro e bronco nada tem, não vai largar o osso. Já Carlos Deus Pereira, que já foi apresentado pel'O Tribunal do Dragão neste post, consegue cumprir o sonho de reabrir as portas do Benfica, o clube do coração, após ter violado de forma repugnante e inaceitável o papel democrático que se exige num presidente de uma Mesa da AG.

Fernando Seara conseguiu reunir o apoio do FC Porto (ou, pelo menos, do topo hierárquico) e vai manter a sua lista. É expectável que o sentido de voto não se altere, sobretudo porque mesmo que Rui Alves reentre na corrida não conseguirá competir com os apoios de Seara. E esse sentido de voto pode muito bem condicionar, impedir ou permitir negócio entre os diversos clubes da liga, numa altura decisiva do defeso, onde os excedentários do FC Porto serão apetecíveis. 

PS1: O FC Porto contratou, à data de hoje, 4 espanhóis (vêm mais 2) por 13 milhões de euros (para efeitos contabilísticos, não necessariamente com implicações imediatas na tesouraria): fala-se em espanholização e armada espanhola. O Benfica tem, no seu plantel, 11 brasileiros, dos quais 6 foram contratados esta época (e um já vai ser despachado), por... 13 milhões de euros. «Puxa cara, não é escola de samba não, é normal, né?» 

PS2: O Sporting lamentou que Bruno de Carvalho tenha cumprido um castigo de 29 dias, antes do CJ da FPF ter anulado a suspensão de mês e meio, e crê que isto demonstra que falta «dignificação, transparência, rigor e credibilidade» ao futebol português. Pobres, imaginem como seria se tivessem tido o seu melhor jogador suspenso durante 4 meses, que no final a pena tivesse sido reduzida para 3 jogos e que com isso tivessem perdido um campeonato.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O investimento em Adrián López e o destino do dinheiro de Mangala

Adrián López: genericamente, uma contração aprovada; e naturalmente um negócio cujos números merecem algum nariz torcido. O mais recente reforço do FC Porto é só e apenas a contratação mais cara da história do clube, na perspectiva da avaliação da totalidade do passe com base nos 60% adquiridos por 11 milhões de euros (mesmo que o pagamento, obviamente, seja doseado). Quer à partida dizer que Adrián está avaliado em 18,3 milhões de euros. Ou talvez não.

Pagar o investimento
com golos
Segundo o Mundo Deportivo, o Atlético vendeu os 100% de Adrián, mas um fundo de investimento ficou com 40%. Será que pagou 7,33 milhões de euros por essa parte? É uma situação que, infelizmente, não é nem ficará esclarecida. Se o FC Porto comprasse a totalidade do passe e depois alienasse, os detalhes seriam conhecidos. Assim, se houve a repartição do passe antes da transferência para o FC Porto, é algo que não é do domínio público. Que o jogador é do interesse de Lopetegui, já se sabe. Se interessaria se não houvesse ligação a Jorge Mendes, quem sabe...

Em 2010-11, quando tinha 24 anos e marcou 11 golos na Liga Europa, Adrián López talvez valesse esses 18,3 milhões de euros. Hoje não vale isso, opino, na medida em que fez 7 golos nos últimos 2 anos. As reacções dos adeptos do Atlético têm sido minimamente consensuais: fizeram um grande negócio ao lucrar tanto com Adrián.  Também acho que Adrián não vale os 18,3 milhões de euros, mas também não considerei correcto quando avaliaram um jogador da segunda divisão do Japão em 11 milhões de euros.  Cada caso é um caso e estes nem são comparáveis, mas provou-se que o FC Porto estava certo e oxalá se volte a repetir.

Adrián tem mais valor do que dizem os números das 2 últimas épocas, disso ninguém duvida. Mas vem ocupar o topo da folha salarial do clube e, tendo em conta que tirando Cissokho e Anderson as grandes vendas do FC Porto ficaram sempre pelo menos 2 anos no clube, Adrián em 2016 terá 28 anos e terá que ser vendido por pelo menos 20 milhões de euros para não gerar prejuízo. Ou pelo menos seria assim, se isto fosse uma contratação que encaixasse no modelo compra-valorização-venda. Não é.

Na sequência do que foi dito no último post, trata-se de uma aposta no objectivo e não no modelo. Não me vou focar no custo que Adrián teve financeiramente, mas sim no que vai render desportivamente. De qualquer forma, sendo um jogador excessivamente caro, terá sempre altas expectativas sobre o seu rendimento em campo. O Adrián de 2011-12 tem tudo para ser uma estrela no FC Porto. Oxalá tenha sido esse que o FC Porto comprou. Não gosto do investimento, mas gosto do jogador e há razões para crer que a SAD avaliou devidamente os riscos e os benefícios desta aposta nos 2 campos, desportivo e financeiro. Até porque com Jorge Mendes, há sempre mais cauda para além do rabo.

Dinheiro de Mangala já tem destino

«Vendemos A, B e C por X milhões de euros e depois ficamos com Y para comprar D, E e F.» Quem nunca vestiu a pele de dirigente de bancada e fez estas contas para formar o plantel que gostava de ver no FC Porto? É um exercício habitual, mas muitas vezes o dinheiro que dá entra no clube já tem destino. É o caso de Mangala.

Falta o ok de Manchester
Como já aqui foi explicado, assim que o FC Porto vender Mangala ou Jackson Martínez tem a liquidar um empréstimo de 30 milhões de euros ao BES. Há que fazer a salvaguarda de um eventual acordo no último trimestre, mas desconhece-se e o último relatório e contas explica numa alínea que a liquidação será obrigatória: «Caso a Empresa aliene, ceda ou transfira a propriedade dos direitos económicos dos passes dos jogadores Mangala e Jackson Martinez que detinha à data de abertura do financiamento antes do término da maturidade do mesmo, está obrigada a liquidá-lo imediata e antecipadamente».

Se o FC Porto não vendesse Jackson nem Mangala, tinha que pagar 23 milhões de euros agora, em julho, e 7 milhões em outubro. Como Mangala já fez exames médicos em Manchester e aguarda-se apenas a confirmação oficial, o mesmo vai ser liquidado. Expectativa ainda para ver qual será o encaixe líquido com o jogador.

Neste ponto, realçar que o FC Porto acaba por liquidar o seu maior empréstimo ao BES, o maior «financiador» da SAD no que a banca diz respeito. Face ao impasse em torno da sucessão (não vamos divagar e maçar-vos com o tema) no BES, o acesso a financiamento bancário pode complicar-se nos próximos meses, o que implica que os empréstimos obrigacionistas e os fundos de investimento (admito, com alguma relutância) vão assumir uma importância relevante de modo a que o clube continue a cumprir com os seus compromissos e a formar um grande plantel.

No que toca ao BES, ficam por liquidar um empréstimo de 17 milhões de euros (tranche de 5,5 já em setembro), um de 2,1M (até abril de 2015) e um de 1,75M (até janeiro de 2016). Nota ainda para uma CCC, de 10 milhões de euros, que vence em agosto de 2014 e que tem como garantia o valor a receber de Hulk pela venda ao Zenit - acabou de pagar a última tranche, de 10 milhões de euros, no fim de 2013-14.

Fernando valia por dois. E
vai ser rendido por dois
Independentemente do dinheiro de Mangala já ter destino, o clube vai continuar a investir em nomes fortes para atacar o título e a Champions em 2014-15, sendo que ainda vão chegar jogadores para todos os sectores. O prazo de duas semanas de Lopetegui está a esgotar-se, mas ao longo desta semana que agora começa esperam-se muitas novidades no que toca à construção do plantel, já a trabalhar na Holanda.

Jackson continua a ser a grande dúvida e a leitura às contas continua a dizer que é praticamente impossível mantê-lo, mas só a SAD saberá o que pretende fazer. Certo é que mesmo após a chegada de Adrián, está um novo avançado a caminho. E para o lugar de Fernando, ao contrário do inicialmente previsto (até porque Mikel se lesionou), devem chegar 2 jogadores, nomes que passaram pela imprensa. O que quer dizer que o meio-campo vai ter que emagrecer e que há jogadores que vão sair. Pergunta: quem gostariam de ver entrar e quem não se importariam de ver sair?

PS. Como já foi notícia, o FC Porto atribuiu a procuração a Paul Stefani para negociar Defour com o PSV. Mesmo desconhecendo que planos Lopetegui podia ter para o jogador, uma transferência que cobrisse o investimento já seria bom para todas as partes, mas o PSV não é conhecido por ser um clube propriamente gastador - só por uma vez gastou 10 ou mais milhões com um jogador, Kezman, e foi há 13 anos. A saída é a solução que melhor agradará a todos, mas resta saber se a proposta agrada ao FC Porto.

sábado, 12 de julho de 2014

A diferença entre investir num modelo e investir num objectivo. A chegada de Adrian López e a partida de Mangala

Pergunta simples: qual é o objectivo genérico do FC Porto? «Ganhar», é o que todos respondem. O FC Porto vive para ganhar. Os adeptos seguem e apoiam o FC Porto em todo o lado porque querem ganhar. E os mais leais não viram as costas mesmo na hora da derrota, porque sabem que, com o FC Porto, sob qualquer circunstância, mesmo as mais negativas, é possível recomeçar a reconstruir aquilo para que vivemos: para ganhar.

Oliver, contratação
que se justifica
Para alguns adeptos, versão que não subscrevo, os meios justificam os fins. Quer isto dizer que estão pouco preocupados com o dia-a-dia da gestão económica e financeira da SAD, com algum negócio sem a maior das transparências ou com eventuais quezílias que possam surgir: o que querem, acima de tudo, é ganhar, querem aqueles 90 minutos uma ou duas vezes por semana onde não existe nada mais do que a bola e aquilo que se passa dentro das quatro linhas. Ganhar, ganhar e ganhar.

Mas hoje em dia isso já não sasseia grande parte dos portistas. Já não há apenas os chamados treinadores de bancada, agora temos os dirigentes de banca. Adeptos que discutem se determinado jogador é caro ou barato, se foi bem ao mal vendido, que querem saber como foram aplicados os muitos milhões de transferências em jogadores. E acima de tudo, que querem perceber porque é que em 2014-15 o FC Porto vai ter um plantel com reforços maioritariamente conseguidos por empréstimo ou com recursos a (des)investidores e fundos.

O caso mais discutido é o de Oliver Torres, que chega ao FC Porto sem opção de compra e que é uma operação à margem de Adrian López. Muitos adeptos torceram o nariz, porque só vai ficar um ano no FC Porto e, dizem, vamos estar a valorizar um jogador de um clube que até há bem pouco tempo era carinhosamente tratado por Patético de Madrid. Os próprios adeptos já estão completamente integrados no modelo de comprar-valorizar-ganhar-vender-repetir. Mas este defeso não está a ser dedicado para o FC Porto manter o modelo a funcionar; está a ser dedicado para o FC Porto ser campeão em 2014-15. Oliver não chega para servir o modelo de vendas a médio-prazo: chega para ajudar o FC Porto a conquistar o campeonato.

Então, Adrian López...

Chegou sexta-feira ao final da tarde, para fazer os exames médicos, e está garantido no FC Porto, numa operação que nem a própria imprensa espanhola conseguiu antecipar antes de estarem concluídas as negociações - só se soube que Adrian López vinha para o FC Porto quando ele deixou o estágio do Atlético de Madrid. Acaba por ser a mais surpreendente aquisição do defeso, apesar de só ser possível através de Jorge Mendes, que no Dragão não só tem porta de entrada como de saída.

Uma «bomba» inesperada
Sobre Adrian López, numa altura em que o FC Porto ainda não divulgou os números à CMVM, é falsa a teoria de que vem por 11 milhões de euros e que esse dinheiro é «descontado» através da venda de Rúben Micael e Falcao. Basta abrir o último relatório e contas para ver que isso é mentira.

No final de março, o FC Porto só tinha a receber 3,875 milhões de euros desta venda. E conforme estava previsto, esta última parcela ia ser paga até 30 de junho. Por isso, a não ser que o Atlético entrasse em incumprimento (no passado recente, o único clube que deixou o FC Porto ficar mal quanto a isto foi o Lyon, que está há quase 2 anos para pagar 1,661 milhões pelo Cissokho e pelo Lisandro), este cenário não passa de uma invenção e estaríamos a falar de menos de 4 milhões de euros.

Sobre o jogador, sejamos francos. Se disséssemos que o FC Porto vai investir mais de 8 milhões de euros por um jogador de 26 anos (tirando Cissokho, ou Anderson, o FC Porto nunca fez grandes vendas com jogadores que ficaram menos de 2 anos no clube), que salta logo para o topo da folha salarial do clube e que nos últimos 2 anos marcou 7 golos, todos achariam absurdo. Mas na verdade todos sabem que Adrian tem mais valor do que dizem os números.

Tem a raça que caracteriza os jogadores à Porto, é bom finalizador, versátil e também pode jogar na alas - quiçá não será aí que vai começar a época. Fez uma excelente temporada em 2011-12 e pode vir a ser jogador de selecção espanhola assiduamente (Negredo, Fernando Torres, Llorente, Soldado e Villa são jogadores que não durarão muito mais na selecção, por isso Del Bosque pode vir a dar novas oportunidades a avançados). E mais uma vez, tudo começou com um telefonema de... Lopetegui, segundo disse o pai do jogador ao MaisFutebol. Se não der treinador, pelo menos temos um telefonista mais que aprovado (melhor que as tiradas do Barba e Cabelo d'A Bola, não?).

Um risco já em jogo em agosto

Descobrimos petróleo para confirmar todas estas contratações que se avizinham? Não, não descobrimos. Mangala está de saída para o Manchester City por cerca de 40 milhões de euros, negócio que será fechado nas próximas horas, e o FC Porto terá direito a mais do que os 56,67% a que à partida receberia, pois a Doyen Sports, como compensação, vai participar na vinda de outro jogador para o FC Porto, que deverá ser Brahimi. E Pinto da Costa pode ter prometido a Lopetegui que Jackson era para segurar até que alguém mordesse a cláusula (e por falar em morder, o dinheiro de Suárez vai meter muita coisa a girar, não esquecendo quem foi o clube europeu que tentou contratar Jackson Martínez antes do FC Porto), mas um olhar vertical às contas diz que é preciso vender Jackson. E mesmo que Lopetegui queira o plantel pronto até ao final da próxima semana, será inevitável que o mercado fique bem aberto até ao início de setembro.
Mangala vai para o
City, mas não chega

Perdoem-me a comparação, mas o FC Porto está a assumir o risco que, de certa forma, foi tomado pelo Benfica: investir no objetivo e não no modelo. Em 2013-14, o Benfica apresentou o maior orçamento da história do futebol português (alguma imprensa disse hilariantemente que o orçamento era de 40 milhões de euros - então expliquem-me como é que tiveram custos operacionais de 75 milhões de euros e gastaram 42 milhões em salários só nos primeiros 9 meses) e desportivamente foi recompensado: fez uma boa época e não deu hipóteses ao FC Porto. Mas mesmo a ganhar 3 títulos e a ir a uma final europeia, está a sofrer uma razia no plantel e numa situação financeira precária.

Para o FC Porto não será diferente. 2015 será quase inevitavelmente o ano do adeus a Danilo e Alex Sandro, e não só, atletas que o FC Porto tem a 100% e que precisa de valorizar o máximo possível na próxima época. Mas o desafio virá bem antes: o Tribunal do Dragão fez as contas e o FC Porto, se não o fizer antes, pode ter que vender entre o final de agosto e o início de setembro (o mercado continua aberto para Turquia e Rússia nesta data).

A projecção orçamental para 2014-15 indicia que vá ser necessário novamente 20 milhões de euros com market pool da Liga dos Campeões. Sensivelmente o mesmo que em 2013-14 e que criou um buraco de 8 milhões no orçamento. Por isso, se o FC Porto falhar o play off da Champions, será quase inevitável que tenha que vender em cima do fecho do mercado. Até porque os regulamentos da UEFA preveem, agora, que um jogador possa ser inscrito por outro clube mesmo tendo jogado numa pré-eliminatória. E se o FC Porto vai jogar a cartada de priveligiar o objectivo em detrimento do modelo, não podemos falhar a Champions.

PS: O Sporting, depois de uma época extraordinária (o adjectivo não é meu), fez um treino aberto em Alvalade e valeu uma grandiosa manchete no CM, com «multidão em Alvalade para ver reforços». Um conceito de multidão... curioso.



PS1: Tinha que acrescentar esta genialidade. Mas tecnicamente 2 já é plural. Fazem sentido, os milhares, sim senhor.

sábado, 5 de julho de 2014

O mal que já está feito, os péssimos exemplos de Bolat e Caballero e outras reflexões. E Tello

A questão dos guarda-redes já aqui foi abordada em dois pontos, primeiro há um mês, quando O Tribunal do Dragão ouviu que Lopetegui não confiava nas soluções que o plantel já tinha, e mais recentemente quando Navas passou a alvo prioritário. Uma questão que merece voltar a ser aprofundada, numa altura em que a chegada de Navas conheceu vários entraves.

Fabiano sabe que é
segunda opção
Ao contrário do que escreveu alguma imprensa, Lopetegui não escolheu Navas por causa das exibições no Mundial. Pelo contrário, o Mundial só confirmou aquilo que o treinador já defendia: Navas é melhor do que as soluções que o plantel tem para oferecer. Mas também caro. O guarda-redes rapidamente se mostrou receptível ao convite do FC Porto, pois sabe que aqui seria titular indiscutível - Lopetegui, ao pedir o maior investimento de sempre num guarda-redes da história do FC Porto (nunca um guarda-redes custou mais do que 3 milhões de euros, a proposta que o Levante rejeitou), teria que defender e justificar a sua opção até ao limite. Além disso, 1 milhão de euros líquidos/ano era um salário perfeitamente apetecível - ao contrário do que alguns adeptos pensam, é este o vencimento médio para um jogador internacional contratado no estrangeiro pelo FC Porto, até porque os jogadores são pagos em contratos a 10 meses/época e sem subsídios (que são substituídos pelos prémios colectivos/individuais).

Com ou sem Navas, Lopetegui já criou o seu primeiro desafio: o tal atestado de incompetência aos guarda-redes que já aqui foi tema. Independentemente de Navas chegar ou não ao FC Porto (o Bayern Munique tem o dinheiro, mas não o trunfo da titularidade; o Atlético chegou a poder prometer dinheiro e titularidade, mas virou-se para Oblak; e então será a vez do Benfica agitar o mercado por um guarda-redes...), Lopetegui já deu sinais óbvios a Fabiano, Kadu (que na equipa B até pode tirar espaço a Andorinha e Filipe Ferreira, mais jovens e promissores) e Ricardo de que não conta com eles para número 1 (Helton ainda tem uma longa recuperação pela frente e dificilmente fará mais do que o jogo de «despedida», se fizer).

Fabiano, quando foi interpelado no aeroporto com a possível vinda de Navas, fugiu àquilo que é sempre recomendado pelo departamento de comunicação. Dizer que «estou concentrado no meu trabalho», o «importante é o FC Porto» ou «não sei nada dessas especulações, estou concentrado na equipa». Mas Fabiano disse antes uma frase-chave: «Estou ao corrente dessas notícias». Fabiano já sabe que Lopetegui não conta com ele para número 1, mas depois lá respondeu com elegância, ao prometer que ia lutar para ser titular. No entanto, o mal já está feito: Lopetegui sentenciou antes do primeiro treino que precisa de um guarda-redes melhor. O que está em causa não é a razão para o pedido, até compreensível por algumas lacunas de Fabiano, mas o desafio para lidar com as suas consequências. O tal atestado de falta de qualidade.

De Bolat a Caballero, um mau exemplo

De guarda-redes para guarda-redes, falamos em Bolat. Um exemplo de como a SAD não deve gerir um futebolista nem confundir o mesmo com mercadoria, independentemente de numa possível venda Bolat render algum dinheiro. Vamos seguir os passos. Sem ingenuidade e tabus.

Bolat, exemplo para
não repetir
Bolat foi contratado, em 2013, através da rede Liège-D'Onofrio, que já trouxe o rentável e excelente Mangala, o pouco produtivo Defour, a razoável surpresa Kayembé e mais recentemente Opare e Célestin Djim. Negócios que envolvem a alienação de passes (que em 2011/12 foi uma absoluta necessidade para fazer face às despesas correntes, pois a SAD gastou demasiado em apenas 4 jogadores - Danilo, Alex Sandro, Defour e Mangala - e nenhum deles um match-winner) e que não são exemplos de transparência. Nenhum. Mas falamos apenas em Bolat.

Bolat foi descrito como uma oportunidade de mercado. Afinal, trava-se de um guarda-redes que já foi uma promessa na Bélgica e 24/25 anos é uma idade jovem para um jogador na sua posição. Mas já havia Helton, Fabiano, Kadu, e ainda Stefanovic e Matos (duas contratações que nem merecem comentários) na B. Esteve meio ano encostado, na segunda metade da época foi emprestado à Turquia. Quanto custou o custo zero de Bolat? Boa pergunta.

O Tribunal do Dragão ouviu que o FC Porto não tem 100% do guarda-redes, nunca teve, e que desde a sua transferência uma terceira parte ficou com direitos já a pensar numa futura venda. Como já aqui foi dito, a operação pode até dar lucro ao FC Porto. Mas será que Bolat pode ser vendido por uma verba tão grande que justifique tratarmos um jogador como mercadoria? E será que vai cobrir os custos?

No primeiro trimestre de 2013-14, o FC Porto só contratou 3 jogadores. Quintero, Ghilas e Bolat. O primeiro custou 5 milhões de euros por 50% do passe. O segundo, 3,8 milhões de euros por 50%. Já o nome de Bolat... não aparece. Aparece, isso sim, um encargo de 1,89 milhões de euros, que não é discriminado. E depois, as 3 entidades a quem o FC Porto pagou pelas três transferências: Ricardo Calleri, que é sabido ter sido o responsável pela vinda de Quintero, e as entidades C.B.Nafricatalentssport, Lda. e JOD-Gestão de Carreiras Desportivas, Lda. Então, se é também sabido que Jorge Mendes foi responsável pela vinda de Ghilas (embora não seja o seu empresário) e que Luciano esteve envolvido no negócio Bolat, boa sorte em encontrar as pontas soltas e o outro lado do túnel.

Nem A, nem B
À margem deste mau exemplo, o que preocupa é, como já foi dito, tratar um jogador como mercadoria. Há duas semanas, Bolat disse isto numa entrevista: «Trabalho a força, a condição física e a velocidade de reação. Vou estar mais pronto do que nunca quando voltar ao Porto». Prometia corresponder ao investimento que fizeram nele e até disse que estava a fazer 2 treinos por dia. Então, começou a pré-época... e Bolat nem sequer está na lista para a pré-temporada. Mas há 2 semanas já se sabia que Lopetegui queria outro guarda-redes. Então, porquê alimentar a ilusão de um profissional?  Mas importante: quem a alimentou?

Mais um caso, Mauro Caballero, que em Maio dizia à RR que tinha confiança e esperança em Lopetegui para chegar à equipa A. É sabido que Gonçalo Paciência é o único ponta-de-lança para começar a pré-temporada. Onda está Caballero? Tal como Bolat, nem na lista apresentada pelo FC Porto se encontra, e no Olival nem sinal dele. Só para refrescar a memória. Estamos a falar de um jogador que envolveu um litígio e a FIFA; um jogador que fez capas de jornais a ser apresentado como alternativa imediata a Jackson; e que mal chegou relegou logo André Silva e Gonçalo Paciência, os dois mais promissores avançados portugueses, para segundo plano. 

Mais um refresco: em janeiro de 2013, o advogado Gerardo Acosta garantia que o FC Porto ia pagar 365 mil euros, apenas por direitos de formação. Chegou o Relatório e Contas e o que se viu foi 1,53 milhões de euros pagos à MHD, S.A. Um ajuda a tentar localizá-la: está algures entre a C.B.Nafricatalentssport, Lda. e a JOD-Gestão de Carreiras Desportivas, Lda. E não vamos recordar Quiñones, que custou 2 milhões de euros e não aparece no grupo de trabalho nem da equipa A nem da B, porque já terão percebido a ideia, certo?

Mangala, o melhor exemplo na pior altura

O FC Porto já vendeu jogadores à nata do futebol mundial, Juventus, Barcelona, Real Madrid e Manchester United. Mas nos últimos anos tem sido, sobretudo, um vendedor de jogadores aos chamados novos ricos. Transferências onde o dinheiro diz mais aos jogadores do FC Porto do que propriamente a grandeza do destino. Foi assim com Falcao para o Atlético (que na altura ainda não era de Champions), Hulk para o Zenit ou até James e Moutinho para o Mónaco, num caso mais particular.

City ofereceu 40
milhões de euros
Por isso, talvez nenhum adepto do FC Porto imaginaria que algum jogador pudesse recusar, nesta altura, o Manchester City, o campeão inglês. Mangala foi o melhor exemplo na pior altura: o exemplo de que o FC Porto ainda consegue ter profissionais que não colocam o dinheiro à frente de tudo, e a pior altura porque o FC Porto necessita do dinheiro da sua venda.

Mangala e o City já tinham sido tema de discussão aqui. Não é que Mangala tenha dito, efectivamente, não ao City, mas esperava valorizar-se no Mundial e abrir outras portas. Algo que não aconteceu, pois a França foi eliminada sem que Mangala tivesse jogado, para desalento do jogador e da própria SAD. E agora? Vai Mangala aceitar o convite do City? Ou será que Mourinho conseguirá que o FC Porto seja forçado a vender o jogador por uma verba mais baixa? Certezas, apenas uma: o FC Porto não pode obrigar Mangala a sair contra a sua vontade, pois o contrato é feito para respeitar as duas partes. E Mangala serviu o FC Porto com lealdade, profissionalismo e qualidade nos últimos 3 anos, tendo como único ponto baixo a declaração infeliz em que disse que ia para o PSG a correr. E se o PSG apresentasse os números do City, talvez até ia, por ser adepto de infância do clube, mas já tem a dupla titular do Brasil...

Tozé: sim... e não

O empréstimo de Tozé ao Estoril, que segundo O Jogo fica com 35% do passe, não é uma decisão popular entre os portistas. Um pouco contra a opinião dominante, defendo que é a melhor solução para o jogador.

A solução
possível
Vítor Pereira só lhe deu uma oportunidade num momento de desespero. Paulo Fonseca não lhe deu oportunidades. Luís Castro só o lançou num jogo a feijões. E Lopetegui não contava com ele. Quatro treinadores, nenhum a morrer de amores por Tozé. Se perguntam, podia e devia ter tido mais oportunidades no último ano? Claramente, até porque poucos estavam a fazer melhor na A do que o Tozé ia fazendo na B. Mas tem a qualidade para ser já opção no 11 de Lopetegui? Não. E pelos vistos o treinador acha o mesmo, pois não contou sequer com ele para a pré-época.

A alienação de 35% do passe, essa, já é discutível e merece ser questionada. Evandro, que segundo O Tribunal do Dragão ouviu não virá a 100% do passe, é uma operação à margem de Tozé para os efeitos contratuais e negociais, porque já quando Evandro treinava no Olival Tozé ainda não estava garantido no Estoril. Mas já com Tiago Rodrigues (que está onde?), emprestado ao Guimarães, tivemos o exemplo de que cada vez mais os clubes médios preferem valorizar os próprios jogadores do que depender dos emprestados dos grandes. Por isso, é compreensível que o Estoril tenha salvaguardado os seus interesses futuros, com parte do passe de Tozé. O FC Porto terá que dobrar o investimento na recompra, mas certamente que se Tozé evoluir a ponto de ser um jogador de equipa A poucos se incomodarão. É um negócio que não agrada aos adeptos, mas que agrada ao Estoril, ao FC Porto e ao próprio Tozé.

Tello, fumo branco e caro

A não ser que clubes como Atlético e o Everton se antecipem nas próximas horas e apresentem propostas superiores para a transferência, Tello vai ser jogador do FC Porto. É o extremo favorito de Lopetegui, a prioridade, e como tal será sempre de aplaudir que a SAD corresponda ao desejo do treinador. Isto é, dependendo dos custos...

O caro pode tornar-se
barato
O Tribunal do Dragão ouviu que, ao contrário do que inicialmente era noticiado, o empréstimo com opção de compra já não é hipótese única, após a entrada na jogada de dois investidores dispostos a comprar o jogador com o FC Porto. Numa primeira fase pode custar 9 milhões de euros, mas não pela totalidade do passe. Posteriormente, o FC Porto pode comprar mais Tello, a ponto de quase dobrar o investimento inicial. O tempo dirá se Tello é caro ou barato. Afinal de contas, os 19 milhões de Hulk, o jogador mais caro e mais bem pago da história do FC Porto, não foram assim tão caros, pois não? É a vantagem de ser um match-winner: podem corresponder mais facilmente ao investimento do que um... lateral. 

De referir que Antero Henrique está a liderar as negociações para a aquisição de Tello e que outra opção na liga espanhola, Brahimi, está a cargo de Alexandre Pinto da Costa, também com a participação de um fundo, o mesmo empresário que teve Casemiro pronto para o FC Porto mas que «subitamente» ficou mais perto do futebol italiano. Não vamos aprofundar a discussão da terceira parte aqui pois isso faz parte de um extenso trabalho d'O Tribunal do Dragão que vai sendo publicado aos poucos, tendo para já apresentado apenas a primeira parte.

PS: Não agarrar o costa-riquenho Yeltsin Tejeda, um regista perdido nas Caraíbas, que custa um terço de Prediger e que se revelou no Mundial, é coisa para deixar qualquer adepto de bom futebol chateado.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Palavra de capitão

Contrato até 2016
«Estou concentrado no Mundial, depois vou de férias e volto para fazer a preparação com o FC Porto. O meu contrato vai até 2016. Não sei o que vai acontecer depois mas, neste momento, faço parte da equipa do FC Porto».

«Lopetegui? Ainda não o vi. Como estou aqui ainda não sei. Vou descobrir as suas qualidades e a sua maneira de trabalhar quando regressar ao FC Porto».

Mangala está a recusar o City ou a jogar com o City?

Sob qualquer circunstância e aconteça o que acontecer nos próximos dias, tornou-se um profissional de que se pode orgulhar. E o FC Porto também.