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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Envolvência

A Supertaça voltou a casa, e já deixava saudades. Este é, por razões óbvias, um troféu especial para o FC Porto, não só por ter mais troféus do que todos os outros clubes juntos e ter estado em 30 das 40 finais, mas também porque conquistar a Supertaça significa, muitas vezes, ter uma injeção anímica e de confiança para a longa época que se segue. 


O jogo frente ao Desp. Aves foi um exemplo dos calafrios que o FC Porto vai certamente encontrar muitas vezes no Campeonato, numa altura em que o plantel às ordens de Sérgio Conceição não é, continua a não ser, mais forte do que o da última época. Um jogo no arranque da época não dá atestados de garantias ou insuficiências, mas todos saíram de Aveiro com sentimento de dever cumprido e com a 21ª Supertaça. 





Envolvência (+) - A palavra que define a vitória do FC Porto. Na fase inicial da partida, regressámos às inconsequentes bicadas para a frente (já lá vamos). O golo do Aves obrigou a equipa a acordar e a organizar as suas ideias e os três golos são exemplos perfeitos daquilo que deve ser o futebol da equipa para esta época: envolvência do setor intermédio no processo ofensivo, jogo interior, circulação a toques curtos e transporte.

Primeiro, com Alex Telles no apoio, Brahimi leva a bola até à tabela com Aboubakar, explora o espaço interior e faz golo; no 2-1, é Maxi Pereira, em combinação com Otávio (também a desequilibrar por dentro), a fazer a diferença numa jogada a toque curto; e o lance que mata o jogo nasce do mesmo princípio, com Óliver a ir buscar jogo à linha, apoiando Maxi, e Corona a situar-se na zona central.

Semelhanças? Três golos em que não foi preciso uma bicada para a frente, à espera que alguém apanhasse a bola num espaço que não existia nas costas da defesa do Desportivo das Aves. A velocidade e o jogo direto terão a sua importância e espaço ao longo da época, mas contra os Aves deste Campeonato recomenda-se esta forma de jogar.

Maxi Pereira (+) - Uma boa forma de corresponder à renovação de contrato que, diga-se, esteve longe de ser unânime no universo portista e que talvez nem teria acontecido se Diogo Dalot não tivesse saído. Mas a experiência, inteligência e o espírito competitivo de Maxi Pereira são mais-valias importantes no plantel. Equilibrado a atacar e a defender, procurou sempre apoios curtos com Otávio e foi dessa forma que chegou ao golo da reviravolta. As pernas pesam, e Maxi provavelmente alternará várias vezes a titularidade ao longo da época, mas enquanto estiver em campo é uma garantia de empenho. Não há portista que não goste.

Jesús Corona (+) - Quando Brahimi dava sinais de ter que sair por lesão, Sérgio Conceição começa por mandar Soares aquecer. Era um péssimo sinal para Corona - ver o treinado preferir um ponta-de-lança a um extremo perante a ausência do argelino. Mas Sérgio Conceição mudou de ideias e em boa hora, com Corona a fazer uma segunda parte de grande qualidade. Bom enquadramento com a baliza e a grande área, bem a proteger a bola e a definir os lances e a conseguir fazer um bom golo. Não será um exagero afirmar que a segunda parte em Aveiro foi melhor que qualquer jogo que tenha feito este ano até à data. Agora a eterna questão: conseguirá Corona fazer dois bons jogos seguidos? O mexicano bem precisa, e o FC Porto também. 

Outros destaques (+) - Herrera voltou a ter que trabalhar por dois no meio-campo e fê-lo com distinção. Teve ordens para não avançar muito para zonas de finalização e proteger a retaguarda da equipa, funcionando como pêndulo e referência no eixo do meio-campo. Brahimi, apesar da lesão, foi a tempo de ajudar a desbloquear o jogo e a entrada de Óliver em campo voltou a ser sinónimo do período de melhor qualidade e controlo no jogo. Palavra para a estreia de Diogo Leite, que ganhou o lugar nesta pré-época e vai obrigar Mbemba e Militão a terem que correr atrás do lugar. 





Os eternos balões (-) - Não havia Marega no ataque, o que poderia desde logo significar que o FC Porto procuraria outras soluções na sua construção. Mas não foi isso que a fase inicial da partida demonstrou. A equipa voltou à fórmula tantas vezes usada na última época e não raras vezes vimos a bola ir desde o defesa à linha de fundo. Não funciona, por duas razões: Brahimi, Otávio ou até André Pereira não são jogadores para irem ganhar metros nas costas da defesa; e o Aves, como tantas equipas no Campeonato, não vai conceder espaço suficiente para que o FC Porto possa jogar desta forma. Na Champions é uma coisa, no Campeonato outra.

Cada bola longa para as costas da defesa do Aves foi sinónimo de perda de posse e, conforme já foi defendido, os três golos do FC Porto nascem de momentos em que a equipa preocupa-se mais em transportar a bola, com tabelas e circulação, e menos em tentar ganhar em velocidade e passes longos. Sobretudo num contexto de Campeonato português, é importante ter a paciência e a capacidade para jogar desta forma.

O primeiro objetivo da época está cumprido. Mas porque a partir de setembro será inútil dizê-lo, não custa repetir: as vitórias no arranque de época devem ser celebradas, mas não podem servir de maquilhagem face às necessidades do plantel. Não custa lembrar aquela que havia sido a última Supertaça do FC Porto, ganha em 2013, e da qual muitos saíram a pensar que ia ser Licá e mais 10. Não basta pensar no Aves, no Chaves ou no Belenenses: há que pensar nos clássicos, na Champions, nas pausas internacionais, nas lesões, nos castigos, na óbvia sobrecarga de jogos. Sérgio Conceição precisa de mais soluções e o pior que poderia acontecer seria chegar ao início de setembro e ouvi-lo dizer «reforços são os que cá estão». 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise 2017-18: os laterais

Já transferido
Ricardo Pereira - Talvez o melhor/mais consistente jogador português da I Liga 2017-18. Semana após semana, estivesse o FC Porto num momento mais ou menos positivo, Ricardo manteve uma regularidade e disponibilidade física notáveis ao longo da época. O saldo de golos (2 na Liga) e assistências (5 na Liga, duas na Champions) acaba por ser modesto face à sua influência no ataque. Foi o defesa com mais dribles eficazes da Liga (48 - mais do que qualquer jogador, inclusive os avançados, do Benfica), o 3º jogador com mais desarmes da época (99) e criou 35 ocasiões de golo na Liga, com destaque para o facto de 14 delas terem sido flagrantes (o 2º mais influente no FC Porto). Além disso, foi o jogador do FC Porto com mais ações em campo ao longo da época, com uma média de 79 por partida. Vai deixar saudades, sobretudo tendo em conta que só tivemos Ricardo como lateral-direito praticamente uma época. Mais sobre a saída de Ricardo para o Leicester.

Em final de contrato
Maxi Pereira - Aos 34 anos, o lateral uruguaio conviveu mais do que nunca com o banco na sua carreira e entrou, naturalmente, na parte terminal da mesma. 11 titularidades no Campeonato e duas na Champions representam uma contribuição curta para um jogador com o seu peso salarial. A experiência de Maxi continua a ser apreciada e útil no balneário, e Sérgio Conceição confiou nela em alguns momentos importantes da época, mas numa equipa que depende tanto da profundidade e dos quilómetros dos laterais, o uruguaio, em final de contrato, não parece oferecer condições para «dar» mais uma época inteira como titular. A renovação está a ser discutida como hipótese perante uma baixa no salário, e Maxi tem a seu favor o facto de, com 34 anos, nunca ter tido uma lesão grave e continuar a treinar bem. Mas condições para aguentar uma época do mais alto nível? Dificilmente.

Contrato até 2021
Alex Telles - Quatro golos e 20 assistências para um dos jogadores mais aplaudidos do último ano. Alex Telles teve tudo: evolução, dedicação, capacidade de superação e regularidade, tendo ainda recuperado de uma lesão dura num momento crucial da época. Defensivamente Alex Telles, embora com contribuições mais modestas do que Ricardo, soube sempre cumprir, mas todos sabem que foi no ataque que mais se destacou: foi o recordista de ocasiões de golo criadas na Liga, com 95, que se traduziram em 13 assistências, embora a maior fatia tenha sido em bolas paradas. Foi o jogador com mais cruzamentos eficazes na Liga (41) e disciplinarmente esteve irrepreensível - apenas dois cartões em 30 jornadas. Tem mercado, é o jogador que pode valer mais dinheiro no plantel, mas é intenção do FC Porto segurá-lo. E bem. 

Já transferido
Diogo Dalot - Começou a época na II Liga, foi jogando na Premier League Internacional Cup e na Youth League e em outubro já se tinha estreado na Taça de Portugal, com uma assistência. Curiosamente, foi como lateral-esquerdo que acabou por ter mais espaço, devido à indisponibilidade de Alex Telles, e nunca destoou: assinou duas assistências em seis jornadas da I Liga e esteve à altura no decisivo clássico frente ao Sporting, apesar dos 18 anos. Jogou sempre com uma maturidade acima da média e foi dando provas de que o futuro do FC Porto poderia passar por ele. Entretanto, e como já sabem, Diogo Dalot já fez as malas e foi vendido ao Manchester United, após uma década ao serviço do FC Porto. A sua estadia no plantel principal acabou por saber a pouco, pois havia condições para muito mais. Em tempo e qualidade. Mais sobre a saída de Dalot para o Man. United.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Pentas: Fevereiro de 2018

Foi com um registo imaculado a nível interno que o FC Porto fechou o mês de fevereiro. As vitórias contra SC Braga, Chaves, Rio Ave, Estoril e Portimonense mantiveram a equipa destacada na liderança da I Liga, invicta com os estatutos de melhor ataque e melhor defesa intactos, mesmo perante um ciclo de semanas adverso para Sérgio Conceição, jornada após jornada privado de vários titulares por lesão. Na Taça de Portugal, o FC Porto ganhou vantagem na luta por um lugar no Jamor, ao vencer o Sporting por 1-0, no mesmo mês em que sofreu a maior derrota da história do clube a jogar em casa. Outra realidade, pois nas provas internas tudo decorre com predicados de qualidade. Estes foram os melhores de fevereiro:

5. Maxi Pereira

Com o uruguaio em campo, o FC Porto ainda não perdeu nenhum jogo esta época e leva 10 vitórias consecutivas, para as quais o lateral tem contribuído com segurança defensiva e preponderância ofensiva. Perante a lesão de Ricardo Pereira, o uruguaio, embora já com menos pernas e pulmões para aguentar todo o corredor, não ficou a dever nada ao rendimento do português - Maxi fez três assistências na Liga no último mês, tantas quanto Ricardo Pereira desde o início da época. A sua experiência tem tido uma importância inquestionável nas últimas semanas.

4. Moussa Marega

Um mês de opostos para o maliano, que começou fevereiro com um desempenho desastroso frente ao SC Braga e acabou a fazer o seu melhor jogo da época em Portimão. Marega continua a alternar o sofrível com a utilidade, nomeadamente na respeitável média de golos que continua a manter a nível interno - cinco golos e duas assistências no último mês. Pode não ter dimensão para os grandes palcos (0 golos em 11 jogos entre Champions e clássicos), mas mantém a média de intervenção direta num golo por jornada e já é o melhor marcador do FC Porto num Campeonato desde Jackson Martínez. 

3. Sérgio Oliveira

O melhor mês da sua carreira futebolística. A sua titularidade começou por ser circunstancial, mas ganhou o lugar com exibições equilibradas, seguro no meio-campo e a conseguir desequilibrar no ataque - três golos e duas assistências em fevereiro. Ganhou dimensão física e o problema da falta de intensidade já não se coloca. É verdade que falha mais passes do que Herrera, mas acrescentou à equipa capacidade de cruzar em zonas mais interiores. E mesmo nos momentos em que surge mais escondido do jogo, tem sido essencial para o equilíbrio do meio-campo. Afinal, não é fácil encontrar uma fórmula para substituir Danilo.

2. Alex Telles

Autor de cinco assistências e um golo em fevereiro, Alex Telles já teve intervenção em nada mais, nada menos do que em 20 dos golos marcados pelo FC Porto nesta temporada. A lesão chegou numa altura em que o lateral brasileiro vinha sendo, provavelmente, o mais consistente jogador do 11 portista. Cumpre defensivamente, desequilibra no ataque e é essencial para que Brahimi possa jogar em zonas mais interiores, pois sabe que terá sempre o Expresso Telles a dar profundidade. Lesionou-se numa altura em que, nas Ligas europeias, só De Bruyne e Messi criavam mais situações de finalização. 

1. Tiquinho Soares

A estreia n'Os Pentas e logo no topo das escolhas, fruto da autoria de oito golos e duas assistências, igualando o melhor mês de Aboubakar. Esteve perto de sair em janeiro, mas ficou no plantel para ser alvo de uma profunda reabilitação nos planos do treinador. Oportuno, foram várias as vezes em que estava no sítio certo na grande área para finalizar, com presença e eficácia no jogo aéreo. Teve combinações interessantes com Marega nas últimas semanas e melhorou na capacidade de fazer diagonais e pressionar a linha defensiva. Uma lesão impediu-o de iniciar março da mesma forma que terminou fevereiro, mas Soares mostrou que uma saída abortada pode, muitas vezes, revelar-se um reforço. 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O melhor ataque dos últimos 20 anos

Trivia: qual era, à entrada para a 29ª jornada, o melhor ataque do FC Porto em casa dos últimos 20 anos? A resposta pode chocar: este. Este mesmo FC Porto, ontem incapaz de fazer um golo ao Feirense, mas que tinha, em igualdade com o FC Porto de Villas-Boas, o melhor aproveitamento de golos em jogos em casa (40). 

O mesmo FC Porto que acabou a seco em jogos contra Tondela, Setúbal, Belenenses, Paços de Ferreira e Feirense, que joga um futebol limitado desde as ideias que iam sendo trabalhadas na pré-época (por vezes disfarçado por bolas paradas e pelo talento individual dos jogadores, mas a base foi sempre inegável e nunca mostrou uma equipa com estofo de campeão), tinha o melhor ataque no Dragão. 

Em 30 jornadas, apenas uma derrota. A melhor defesa do Campeonato, que se mantém. E fora de casa, o segundo menor número de golos sofridos dos últimos 30 anos. Como é que uma equipa com estes predicados chega a esta fase a jogar tão sofrível futebol?

O mais frustrante é isto: este FC Porto joga pouco. Mas tinha, tem, condições para ser campeão nacional. É frustrante que numa época de tão pobre futebol, de tão pobres e inconsequentes ideias do seu treinador, de uma série de apostas falhadas (e outras ganhas, com mérito, essencialmente com reforços brasileiros), o título ter estado ali sempre ao virar da esquina, ao alcance.

Nos últimos 5 jogos, o FC Porto ganhou um. Desperdiçou 8 pontos. Esses 8 pontos já teriam arrumado a discussão da luta pelo título, e fariam do FC Porto um relativamente inesperado campeão em 2016-17. 

Este jogo contra o Feirense foi, novamente, um espelho da época. Uma equipa que não jogando particularmente bem não deixou de criar as suas oportunidades, de ter todas as condições para ganhar o jogo. Agora, não digam que estão a fazer tudo para serem campeões, pois quem serve oito pontos de bandeja em cinco jornadas, na decisiva reta final do campeonato, pode ter a ambição, mas não mostra estofo para tal.

Nuno Espírito Santo e os jogadores não têm, é claro, culpa de mais uma arbitragem prejudicial com dois lances de penalty, nem que Brahimi e Corona tenham estado ausentes quando havia (ou então devia haver!) planos para o regresso ao 4x3x3. Mas olhar para campo e ver uma equipa tão mal preparada, sem fio de jogo, com dificuldades contra qualquer equipa do campeonato português, com jogadores desviados das suas posições sem benefício para atletas e equipa...

Esta não foi uma época preparada para fazer do FC Porto campeão - basta recordar todas as incidências da pré-época, desde o atraso na chegada de reforços, as indefinições nas saídas, as lacunas que ficaram por colmatar e as ideias que NES ia demonstrando querer implementar -, mas no final das contas havia hipóteses de lá chegar. E provavelmente foram goradas nas últimas semanas.

Faltam quatro jornadas. E a maior incógnita não é saber se o Benfica vai perder pontos. É saber se o FC Porto não vai desperdiçar os que sobram. Lutar pelo título até ao fim sempre foi a ambição e, admita-se, algo que a determinada altura da época pareceu impossível. O problema é não notarmos que o fim talvez já aí esteja.



Movimentos de Maxi e Alex
Laterais (+) - O mapa ao lado é altamente ilustrativo: Maxi Pereira e Alex Telles passaram o jogo no meio-campo adversário, fizeram quilómetros e corresponderam na perfeição àquilo que NES sempre quis para os seus laterais (máxima profundidade). O problema é que sobem quase sempre numa missão solitária, sem os apoios apropriados no jogo interior, e assistiram a um festival de desperdício entre os 30 (!!) cruzamentos que conseguiram fazer para a grande área. Mas atenção: entre estes 30 cruzamentos, só um resultou num remate à baliza e outros quatro chegaram a zonas de perigo. O problema é que para um cruzamento ser perigoso, há que ter um avançado pronto para finalizar. Se André Silva e Soares andam ocupados a passear-se pelos flancos ou longe da grande área, nada feito. 

Que os adeptos não percebam as ideias de NES é uma coisa. Não é para os adeptos perceberem: é para a equipa perceber, render e ganhar jogos através delas. Que os adeptos não percebam, não há problema. Que os jogadores em campo não pareçam perceber, já é grave. Fica a grande nota de mérito para Maxi Pereira e Alex Telles: por eles, o resultado seria outro. 

Raio de ação de Danilo
Danilo Pereira (+) - O raio de ação de Danilo Pereira diz tudo: esteve em todo o lado, sempre à procura do primeiro momento de construção. Ganhou metros no terreno para empurrar a equipa para cima do Feirense, mas sempre em vão. Ganhou todos os lances pelo ar, tentou descomplicar, a determinada altura tentou ele subir no terreno, procurando um atalho que evitasse que a bola passasse por um miolo sem capacidade para encontrar espaço e servir os avançados. 

Mourinho chegou a dizer que com 11 Paulos Ferreiras ganha-se um campeonato. Com 11 Danilos talvez não fosse diferente. 



Tudo em redor de André Silva (-) - E, consequentemente, o próprio André Silva. Sim, não havia Corona e Brahimi, o que dificultou a tarefa para as alas. Mas uma vez mais, NES quer fazer dos avançados o que eles não são. Desta vez, André Silva até esteve mais vezes em zona interior (Soares caiu mais sobre a esquerda), mas nada, nada funcionou e a exibição de André Silva foi uma nulidade: tocou 2 vezes na bola na grande área, fez 7 passes, não ganhou nenhum lance pelo ar, fez dois dribles (na zona do meio-campo) e não fez um único remate (exceção ao golo anulado por fora de jogo). Alex Telles rematou mais, Casillas tocou mais vezes na bola e Karamanos, o ponta-de-lança do Feirense, fez mais passes e ganhou mais bolas divididas do que André Silva. 

Um dos mais promissores pontas-de-lança da Europa, que andou a carregar a equipa às costas na primeira metade da época, não está a render absolutamente nada nos últimos jogos. O que mudou? Não o jogador, mas a missão que agora lhe dão dentro de campo. Não há milagres, sobretudo recordando o quão felizes foram os avançados de Rio Ave e Valência no passado recente.

Cruzar, repetir! (-) - Ponto prévio: o FC Porto teve oportunidades, várias, para ganhar o jogo. E quando um jogador se exibe ao nível de Vaná, torna-se difícil. O FC Porto fez 14 remates na grande área, o recorde desta época. Mas isto não é um caso de «se uma bola tivesse entrado ninguém falava disso». Não. Foi dito o mesmo em jogos anteriores, onde a bola parada, André Silva, Brahimi ou Soares davam a pincelada que disfarçava muita coisa. 

Foi mais um desses jogos. O FC Porto teve oportunidades, mas os meios para os fins são sofríveis. André André e Óliver Torres poucas vezes encontraram os avançados, a equipa não se entendia no jogo interior, os avançados atropelavam-se no mesmo espaço e tudo acabou por resultar no mesmo: tentar meter a bola diretamente na grande área, usando e abusando da profundidade que Maxi e Alex Telles davam (e deram-la muito bem). 

Neste FC Porto não há ideias no espaço interior, há poucas desmarcações, poucas tabelas que abram o espaço, uma equipa que reagiu várias vezes mal ao momento da perda (algo que já fez bem esta temporada) e incapacidade para aproveitar todo o caudal que, com mais ou menos qualidade, foi levado à grande área. 

E no meio de tantas adversidades, o que mais revolta será sempre isto: o FC Porto tinha, tem, condições para chegar ao título em 2016-17. Não «graças a», mas «apesar de».

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Sobreviver ao jogo do título

Assim pensou o FC Porto na Luz. A equipa e o treinador sentiram que era melhor segurar o empate do que arriscar perder na procura pela vitória. Só os três pontos colocariam o FC Porto a depender de si próprio, mas no final a equipa sentiu mais confiança em esperar que outra equipa - porventura o Sporting - tire pontos ao Benfica, em vez de arriscar sair da Luz sem um ponto (dessa forma, o Benfica doravante teria que escorregar em duas jornadas, enquanto assim continua a bastar uma - que de nada valerá se o FC Porto não fizer o seu trabalho). Mais do que tentar ganhar, o FC Porto mostrou que o que importava era sair daquele jogo vivo. E saiu. 


Foi a primeira vez que o Benfica de Rui Vitória foi superior num clássico, algo que deve merecer claramente preocupação do FC Porto. Mas convém não esquecer este pormenor: o melhor Benfica dos clássicos não marca um golo de bola corrida. Só o consegue de penalty, ainda que para isso tenha voltado a valer San Iker. 

É um tricampeão de carne e osso que está do outro lado, que no clássico foi melhor do que o FC Porto, mas que não tem vindo a fazer um campeonato em nada superior. Mas merece a preocupação que o Benfica, a quem bastava o empate, tenha feito mais na procura pela vitória do que o FC Porto. Sem que lhe tenha valido de muito. 

Demos um passo atrás nas duas últimas jornadas (o FC Porto passa a ter menos um ponto, menos golos marcados e mais sofridos do que na última época em que esteve na luta pelo título até ao final), mas o Benfica também não deu nenhum em frente. Todos os portistas vão ter grandes expetativas de que o Sporting dê uma ajuda, mas para isso há que fazer a nossa parte - o V. Setúbal tem que servir de exemplo, e o resto do calendário vai oferecer jogos bem mais complicados. Sem margem para errar.




Iker Casillas (+) - Casillas é um dos raros históricos do Real Madrid que é relativamente respeitado pelos adeptos do Barcelona. Admirável, tamanha a rivalidade entre os dois clubes, até porque Casillas passou 16 anos no Real Madrid. No FC Porto, não está há sequer há dois anos... e já entende a rivalidade com o Benfica ao extremo. Não é elegante, mas é ilustrativo: aquele gesto mostrou bem o quão Casillas quer ganhar o Campeonato. Não só ganhar o Campeonato, mas também ganhar o Campeonato ao Benfica. E contribuiu tanto quanto pôde, com dois pares de defesas que aguentaram o pontinho. Quando se fala do bom balneário do FC Porto este ano, não é possível ignorar o papel de Casillas: um profissional que fala não pelo seu passado no Real Madrid, mas por entender aquilo que é o FC Porto. Ah, perdeu tempo? Perdeu. Certamente porque lhe disseram que tinha que segurar o empate. E segurou.


Maxi Pereira (+) - Não dá para disfarçar: os quase 33 anos de Maxi Pereira pesam cada vez mais nas pernas. É notório que lhe custa a recuperar cada vez mais no corredor, sobretudo num jogo em que Alex Telles, no flanco oposto, pouco conseguiu subir. Maxi Pereira não está no auge da sua frescura física, mas podem contar com uma coisa: vai continuar a lutar pelo FC Porto até cair para o lado. O que lhe faltou em pernas compensou com determinação, garra e inconformismo. Foi lá à frente, na raça, fazer o golo do empate e manter o FC Porto de pé na luta pelo título. E por ele, o FC Porto continuará de pé nessa luta. Pelo menos até que Maxi caia para o lado.

Yacine Brahimi (+) - Todos os defesas já sabem o que é que Brahimi vai fazer: vai rodar sobre a bola, tentar puxar para a linha de fundo, aproximar-se da pequena área e fazer o passe atrasado. E mesmo assim, caem sempre: poucos conseguem tirar a bola a Brahimi. Tem o dom de ser imprevisível sendo previsível. O ataque do FC Portos só existiu nos seus pés, na forma como arrastou e rasgou a defesa do Benfica, numa noite em que Corona, Soares e André Silva pouco conseguiram fazer em sentido prático. Falta uma coisa no seu futebol, que é a capacidade de rematar mais quando arranja espaço à entrada da grande área, mas nem isso desta vez o impediu de ser o mais rematador em campo. E uma vez mais vimos muito trabalho de Brahimi sem bola, com 16 duelos ganhos e 12 recuperações. Tem sido um símbolo de inconformismo neste plantel e um oásis numa equipa à qual falta rasgo individual. Com Brahimi, haverá sempre uma solução. Se dá para chegar ou não ao título, veremos. Mas com ele dá para acreditar. 

Uma palavra para um bom jogo de André André, o melhor do meio-campo.




Deixar o Benfica crescer (-) - A boa exibição do FC Porto frente ao Benfica, no Dragão, deveu-se sobretudo à forma como a equipa apertava logo o rival no início de construção. Não dava espaço, obrigava o Benfica a falhar na saída de bola, e depois sim apostava nas transições rápidas que NES tanto aprecia. Na primeira volta funcionou enquanto a equipa declarou essa estratégia. Na Luz, nada disso. O FC Porto entrou a medo, nervoso, com as linhas recuadas. Se é certo que ninguém pode entrar na Luz a oferecer espaço nas costas, o Benfica de Rui Vitória treme sobretudo quando se depara com um rival que assume o jogo e que é forte na pressão.

O FC Porto esteve perdido em campo durante os primeiros 20 minutos, altura em que Óliver fez o primeiro remate e a equipa começou a crescer e a ganhar confiança. Não foi o dia mais feliz para o muitos jogadores, desde Felipe a Corona, passando por Danilo, mas uma equipa que quer ser campeã não pode permitir que o Benfica assuma com tanta facilidade o jogo. Sobretudo quando ainda não o tinha conseguido fazer em clássicos com Rui Vitória.

Sozinh9s (-) - Percebe-se a intenção de NES em reforçar o meio-campo. E entre Soares e André Silva, a opção nunca seria totalmente consensual. Mas tanto um como outro passaram por enormes dificuldades frente ao Benfica: quase sempre longe da grande área, descaídos para o flanco sem sucesso (Brahimi, apesar da intenção de fazê-lo passar para a zona interior, acabava sempre por criar o desequilíbrio a partir do lado esquerdo), expostos a um trabalho que não devia ser o seu. O caso de Soares vem sendo discutido há algumas semanas: é sofrível a forma como é invariavelmente desarmado no 1x1. E não é culpa do jogador, pois não tem caraterísticas para aquela função. Soares faz a diferença na grande área, ou a atacar a profundidade (excelente a forma como sentou Nélson Semedo, porventura o único momento em que conseguiu tirar um defesa da jogada), não a servir de bengala do lado esquerdo para um ataque que, assim, fica sem referência no eixo e na grande área. André Silva também não entrou bem na partida, num clássico muito difícil para os pontas-de-lança do FC Porto, e que a dinâmica ofensiva da equipa não facilitou. Ou havia Brahimi, ou tinha que haver Yacine. Não houve outra solução para o FC Porto.

Meio-campo de rastos (-) - André André e Óliver lutaram, lutaram, lutaram tanto quanto puderam. Mas foi notório, sobretudo à entrada para os últimos 20 minutos, que o meio-campo do FC Porto estava completamente rebentado. Nuno tomou a opção de refrescar a linha da frente, sem mexer no trio do meio-campo, mas  o setor já mal dava resposta em campo. E se o FC Porto estava, declaradamente, à procura de segurar o resultado, ter bola era essencial. A opção passou por mudar as peças de um ataque que mal existia, ao invés de refrescar um meio-campo que não estava a conseguir segurar o Benfica. A exibição de Corona ia pedindo a saída, mas não ter reagido à perda do meio-campo podia ter custado muito caro - Pizzi jogou solto e fez 7 passes para zona de remate, mais do que toda a equipa do FC Porto junta. Deixar o playmaker do adversário com tanto espaço não é bom sinal em qualquer parte do mundo. 

Segue-se o regresso ao Dragão, frente a um Belenenses ao qual não fizemos golos nem na primeira volta nem na Taça da Liga. Serve de aviso. E até ao final da época, já sabemos que não há-de haver empate que nos valha. Pelo menos não no calendário do FC Porto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Revolta à Porto


45 minutos do FC Porto que todos querem ver: qualidade, capacidade de reação, determinação, união e a força suficiente não só para dar a volta a um adversário, como a uma escandalosa arbitragem, com um golo mal anulado (mais um a André Silva - quase que já poderia estar a lutar pela Bota de Ouro) e um penalty do tamanho da incompetência de Vasco Santos sobre Maxi Pereira. 

A equipa termina o ano com a quinta vitória consecutiva (falta a Taça da Liga, mas essa competição não deveria servir para mais do que colocar jovens e habituais suplentes em campo), confiante, com o objetivo Champions cumprido, numa das vagas de acesso direto à Champions e na luta pelo título. A Taça de Portugal foi o único objetivo que ficou por terra.  Há ainda muito por fazer e para crescer, mas a equipa está na luta. Como estava no ano do último título. Como estava na época passada. 




Iker Casillas (+) - Muito antes da reação do FC Porto na segunda parte, houve alguém que manteve a equipa de pé na primeira, evitando que ficássemos com o mesmo ar perplexo de quando vimos o Olhanense a ganhar por 2x0 no Dragão em 2010. Uma, duas, três belas defesas de Casillas, sem hipóteses no golo do Chaves. Nem na Champions ou nos clássicos tinha sido solicitado a este nível. Absolutamente decisivo.

Maxi Pereira (+) - Há muito que não cruzava tantas vezes e tão bem: bateu o recorde de eficácia de cruzamentos nesta época, com 41% de acerto (o recorde era de Layún, 35%). Curiosamente até foi Alex Telles a conseguir uma assistência com um cruzamento, mas toda a ação de Maxi Pereira no meio-campo adversário (a fazer lembrar o melhor Danilo nos movimentos interiores e na entrada na grande área) fez dele um dos melhores em campo. 

Danilo Pereira (+) - Personifica tudo o que deve ser não só um jogador à Porto, mas também um capitão: é um líder em campo e uma bússola para todos os momentos. Percebeu que a equipa precisava de si para outras funções na segunda parte e assumiu-as: subiu mais no terreno, progrediu mais com bola e foi lá à frente fazer o golo da vitória num remate de raiva. Na defesa, o habitual: o jogador com mais recuperações e desarmes em campo, além dos sempre assinaláveis 94% de acerto no passe. Um jogador à Porto.


Brahimi (+) - É um jogador que espelha o próprio plantel: nem sempre vai jogar bem, nem sempre vai optar pela melhor solução, mas podem contar com uma coisa - nunca vai desistir de tentar. Este FC Porto não tem a consistência desejada, uns dias joga pior e outros melhor, mas os jogadores nunca desistem de lutar. Brahimi foi assim no prisma individual: antes do golo do empate, era o mais rematador, o principal desequilibrador, o jogador que mais faltas arrancou e o que mais duelos ganhou. Acusou um pouco o cansaço e a enxurrada de faltas que sofreu, mas com ele em campo o FC Porto tem sempre uma via para atacar a baliza.

Reação na segunda parte (+) - O FC Porto, sobretudo através de Maxi Pereira, estava a fazer bons cruzamentos para a grande área; André Silva estava a ganhar bolas de cabeça, mas era curto, sobretudo porque Diogo Jota não estava a ter presença em campo. Há um ponta-de-lança no banco cuja utilidade se resume essencialmente a isso: presença na grande área e jogo aéreo. A decisão era óbvia, NES desta vez optou por ela e o FC Porto não só lançou-se para a reviravolta como Depoitre conseguiu um belo e importante golo. Foi apenas a 2ª vez nos últimos 3 meses que Depoitre jogou no Campeonato e, ao 3º toque na bola, foi decisivo. Oportunidade para tentar aproveitar aquilo que o jogador possa oferecer à equipa, uma vez que o FC Porto não pode vendê-lo para outro clube europeu em janeiro (já jogou por 2 clubes esta época).

Muito antes, o FC Porto já se tinha transfigurado. Mais incisivo no ataque, laterais envolvidos na frente, os próprios centrais a acelerarem no início de construção, Danilo Pereira a libertar-se das funções de pêndulo para passar a ser um todo-o-terreno e Óliver Torres mais interventivo perto da grande área. O FC Porto aumentou a pressão sobre o Chaves, empurrou o adversário para a sua grande área e com isso chegou à reviravolta, com mérito, mas com esforço e naturalidade pela sua supremacia. O problema? Que tenha sido necessário 45 minutos e um golo de desvantagem para o FC Porto abordar o jogo desta forma.

CHUTA! (+/-) - É algo que falta imenso aos médios do FC Porto: capacidade de meia distância. Ontem foi mais um exemplo, com duas ocasiões em que Óliver tem oportunidade de rematar, mas hesita, hesita e perde-se a ocasião. Danilo deu um pontapé nessa tendência e com isso fez o golo da vitória. A rematar é que se faz golo, e os médios têm que perceber que não têm que estar sempre a olhar para Jota ou André Silva: podem olhar diretamente para a baliza. 




A primeira parte (-) - Quando o nosso guarda-redes chega ao intervalo com o triplo das defesas do guarda-redes do Chaves, não é preciso dizer mais nada. O FC Porto foi incapaz de lidar com os perigosos contra-ataques do Chaves e voltou a ser a equipa lenta, sem clarividência e previsível que foi durante grande parte desta época. Diogo Jota e Jesús Corona foram duas unidades que pouco ou nada acrescentaram no ataque, algo que pode levar NES a repensar algumas opções: a consistência na equipa não está em repetir sempre o mesmo 11, mas sim em ter uma base assumida (de 9 ou 10 jogadores) e princípios de jogo enraizados no plantel. A consistência está em trocar 1 ou 2 jogadores e não se sentir diferença, não em repetir sempre o mesmo 11 mesmo quando alguns jogadores estão em baixo de forma. A rever.

Reviravolta e recuo (-) - Vai sendo um hábito: o FC Porto apanha-se a vencer e NES recua. Se é verdade que leu bem o jogo com a entrada de Depoitre (criticável só o facto de só ter assumido essa alteração aos 63 minutos), NES voltou a dar sinais de que não confia na equipa por si própria para continuar a assumir o jogo em terrenos mais adiantados. Pouco após o bom golo de Danilo, sai Óliver, o médio criativo, e entra Rúben Neves, o médio de caraterísticas defensivas que estava no banco. 

«Era preciso equilibrar a equipa», dirão. Mas que desequilíbrio foi esse que existiu? O FC Porto manteve a sua matriz, com a diferença de jogar com a dupla André Silva-Depoitre, em vez de Diogo Jota. E onde estava o perigo do Chaves? No contra-ataque, na transição rápida. Por isso, o que o FC Porto tinha que fazer era continuar a cair no início de construção do Chaves, obrigando o adversário ao pontapé longo não por leitura da movimentação de um colega mas por obrigação. Podem encarar isso como pragmatismo e respeito pelo adversário, mas isto é o Dragão e o adversário era o Chaves. Há que confiar que os jogadores em campo conseguem manter uma vantagem frente ao Chaves sem que seja necessário virem, a partir do banco, sinais de recuo e de defesa do resultado. 

Bom Natal para todos os portistas e que o presente mais desejado chegue em Maio.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Noite de Champions

«Leicester, Club Brugge e Copenhaga. Resumidamente, o FC Porto já passou em grupos mais complicados e já foi eliminado em grupos mais fáceis. O objetivo é ir aos 1/8, algo que já foi assumido. No ano passado o FC Porto parecia ter feito o suficiente, mas 10 pontos não chegaram. Apontemos, pelo menos, aos 11 esta época, embora sempre com a intenção de ganhar todos os jogos. Será certamente um grupo competitivo. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra (15 derrotas em 17 jogos), não ganhou nas três últimas visitas à Dinamarca e na Bélgica perdeu seis jogos em sete. Leicester, Club Brugge e Copenhaga são campeões dos respetivos países e, muito provavelmente, cada uma destas equipas pensa o mesmo que o FC Porto: o grupo podia ser muito mais complicado».
Este foi o comentário d'O Tribunal do Dragão aquando do sorteio dos 1/8 da Champions e podemos falar em objetivo cumprido e expetativas correspondidas. O FC Porto garantiu o apuramento, com os tais 11 pontos, apesar de ter voltado a perder em Inglaterra, não ter ganho na Dinamarca, ter passado por dificuldades na Bélgica (o penalty de André Silva, nos descontos, tudo mudou) e não ter ganho ao Copenhaga no Dragão (a única coisa anormal neste percurso). Foi difícil, mas a equipa cumpriu, deixando para o fim um recital que deixou todos os portistas satisfeitos. No final, são 11 pontos. Tantos quanto os de Benfica e Sporting juntos. 


Champions é Champions: encontrar APOELs, Artmedias e Áustrias de Viena não é garantia de goleadas. É certo que a equipa que ontem visitou o FC Porto nada tem a ver com a que ganhou a Liga Inglesa, mas isso não retira brilho a uma exibição competentíssima, de absoluto controlo do primeiro ao último minuto. Foram cinco, podiam ter sido mais, e nunca ninguém sentiu que o apuramento para os 1/8 estaria em risco. Anormal seria não passar este grupo, um dos mais fáceis que o FC Porto alguma vez encontrou, mas todos os jogos começam 0-0. E nas últimas semanas muitos não saíram daí.

No último jogo da fase de grupos, o FC Porto conseguiu fazer mais golos do que nos 5 anteriores. O Leicester jogou, conforme esperado, com uma equipa de suplentes, mas não levou cinco porque relaxou: simplesmente foi incapaz de parar uma noite em cheio do FC Porto. Foi uma noite em que, mais do que qualquer debilidade do adversário, o que sobressairia sempre seria a qualidade do FC Porto. E isto não tem a ver apenas com eficácia: tem a ver com volume ofensivo, com o não entregar a iniciativa de jogo ao adversário (a grande mudança em relação ao FC Porto de NES ontem), circular a bola, forçar a entrada na grande área e colocar os melhores atacantes a potenciar as suas caraterísticas.

Quanto à Champions os objetivos foram cumpridos (primeiro o playoff, depois os 1/8). A partir daqui, tudo dependerá do sorteio para redefinir expetativas. Quando à Champions, está feito o mínimo e o máximo exigível. Venha o Campeonato.


Postura e plano (+) - Aquele movimento típico do pontapé de saída faz confusão: ponta de saída, bola no Alex Telles, balão para a frente. Podia sugerir mais um jogo de chutão para a frente, mas felizmente não foi isso que aconteceu: o FC Porto controlou o jogo e soube ter bola. Esta equipa reage bem à perda, mas sente dificuldades quando encontra uma equipa que não quer ter bola. Ontem isso não aconteceu pois o FC Porto soube ter bola. Circulou-a a toda a largura do campo, projetou muito os seus laterais (assistências de Alex Telles e Maxi), apostou no jogo interior dos alas (Brahimi e Corona a finalizarem na grande área), conseguiu esmagadores 2/3 da posse de bola, forçou muitas vezes a entrada na grande área (37) e teve uma eficácia de passe muito acima da média, de 88%. Uma exibição completa e irrepreensível, desde o plano à execução.

Dinâmica dos corredores (+) - Um dos riscos neste esquema é o quão o corredor central pode ficar descoberto. Danilo recua, os laterais sobem, e então têm que ser Brahimi e Corona, apoiados pelo recuo de um dos avançados, a preencher essa zona no apoio a Óliver. Ontem não se sentiu esse perigo, pois a equipa esteve sempre equilibrada, e todos os intervenientes tiveram ação direta na goleada do FC Porto. Maxi Pereira, que já tinha sido dos melhores diante do Braga, voltou a fazer todo o corredor, sem que os 32 anos pesassem no momento da recuperação, e Alex Telles cruzou com melhor precisão e também fez uma assistência. A equipa nunca esteve descompensada no momento da perda, e os laterais foram responsáveis por 15 recuperações de bola. 

Brahimi e Corona (+) - Algo que tem falta ao FC Porto é o fator match winner. O momento em que o jogador recebe, encara o defesa, rasga e remata. Corona e Brahimi têm caraterísticas para serem esses jogadores, mas ontem não precisaram de o ser: fizeram um golo de toque único. Sem receção, apenas estar no sítio certo e finalizar ao primeiro toque. E fizeram-lo na grande área depois de cruzamentos dos laterais. Que significa isto? Que o FC Porto soube envolver várias unidades no ataque e povoar a grande área, com jogadas a explorar a profundidade nos corredores e sem o mero chutão para a frente. Não vimos uma grande área deserta por causa dos recuos que André Silva é forçado a fazer. Vimos muita gente na grande área, e com isso os golos surgiram com maior naturalidade. 

Do ponto de vista mais individual, grande jogo de Corona, sobretudo na primeira parte. Uma assistência, um golo, desta vez procurou mais o passe do que a finta. E de resto isto foi algo em comum nos dois extremos do FC Porto: mais passe, menos drible. A eficácia de passe esteve na média da equipa (88%), muito bom para avançados, e Corona fez apenas 3 dribles, metade dos de Brahimi (não perdeu nenhum lance). Ora, acontece que Brahimi e Corona não precisaram de sair tantas vezes no 1x1, pois tinham sempre uma solução de apoio por perto. E com o envolvimento de Maxi e Alex Telles no ataque, puderam estar em zona interior a fazer a diferença, em vez de estarem no flanco à procura de espaço para meter a bola numa grande área deserta. Ah. Brahimi foi ontem pela primeira vez titular na Champions esta época. Que não tenha sido a última, pois isto de colocar os melhores em campo é capaz de ser boa ideia.


André Silva (+) - Dois golos e uma assistência para Diogo Jota, também ele autor de uma boa exibição. Marcou na sequência de um canto, tarefa que tão complicada tem sido nesta temporada, e foi novamente chamado à marcação das grandes penalidades. É certo que André Silva já falhou 3 penaltys este ano, mas continua a ser chamado à responsabilidade e a merecer a confiança. Não tremeu e revelou-se decisivo nesta fase de grupos, ao ter intervenção direta em 66% dos golos que o FC Porto marcou. Para época de estreia na Champions, nada mau, tendo em conta que só Lewandowski, Cavani e Messi marcaram mais. 

Uma palavra para a já aqui muito elogiada defesa do FC Porto, que nos últimos 10 jogos só sofreu um golo. A defesa não tem sido, de todo, um problema, e ontem o ataque revelou as melhores soluções da temporada. Agora, a possibilidade de ganhar pontos em 2 estádios na próxima jornada. Uma vez mais, uma que não podemos desperdiçar.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Terapia a seis toques



Não é nada pessoal, Marafona, mas a tua mãezinha vai ter que viver até aos 120 anos para ter tempo de fazer metade de tudo aquilo de que a acusámos ontem. Foste chato, foste muito chato. Falamos de um FC Porto que passou mais de 8 horas sem marcar um golo, que tentou de todas as maneiras e feitios, falhou um penalty, acertou nos ferros, teve golos anulados por fora de jogo à lupa e que ainda encontrou em ti uma mistela de Zenga, Vítor Baía, Kahn e Buffon. 

Por isso, aquele minuto 95 foi mais do que celebrar um golo contra um Braga que não fez porra nenhuma para pontuar no Dragão. Foi uma descarga de toda a frustração acumulada a cada remate, a cada cruzamento, a cada jogo sem marcar e vencer nas últimas semanas. Foi algo que só fizemos uma vez em 2016 (ganhar 3 pontos ao Benfica na mesma jornada). 

Não muda nada (bastava o jogo acabar aos 94 para a massa adepta manter - ou neste caso aumentar - o descrédito das últimas semanas), mas a carga psicológica de uma malapata ficou por terra. Agora que não haja a ilusão que houve após as vitórias contra a Roma, ou depois dos 3x0 ao Arouca, que levaram NES a chegar ao ponto de dizer que havia «euforia» nos adeptos. Euforia, ontem, sim, mas pelo minuto 95. Não pelos últimos 520. Euforia por aquele momento. Não pelo momento de forma do FC Porto. Coisas diferentes. 

Agora Leicester, equipa que tem sido pouco mais do que banal esta época, que já está apurada na Champions e que deve trazer habituais suplentes ao Dragão. Se der para sofrer menos um bocadinho, a malta agradece. E mãe do guarda-redes do Leicester também.






Luta transcendente (+) - Recordando o que foi escrito depois do empate em Copenhaga: «Na despedida do Dragão na época 2014-15, os Colectivo mostraram uma tarja que falava por si: «Vão de férias? Parecia que já estavam!». Há uma grande diferença entre jogar mal e jogar sem esforço, sem empenho, sem compromisso. Quem representa o FC Porto pode jogar mal - acontece a todos -, mas nunca pode deixar de jogar sem comer a relva e dar tudo em campo. Ora este FC Porto nunca veria aquela tarja. Esta equipa esforça-se, luta, quer ganhar. Mas não joga suficientemente bem.»

São palavras que se repetem. Este FC Porto não desiste. Pode jogar melhor ou pior, mas é uma equipa de jogadores que lutam até ao final. Ontem, com o acréscimo de de facto a equipa ter sido suficientemente produtiva. Foram imensas ocasiões de golo, muitas falhadas de forma lamentável, outras porque Marafona decidiu que era a noite dele. Ontem, sim, podíamos lamentar a eficácia - e não há treinador do mundo que tenha culpa que um jogador falhe um penalty e que se falhem 10 ocasiões de golo na cara do guarda-redes. Foi um jogo transcendente a todos os níveis.

O próprio golo é exemplo disso. Não é uma jogada ensaiada, não nasce de uma ideia de jogo, não nasce de um lance construído. Pontapé de baliza de Marafona, Danilo ganha de cabeça e a bola vai para Jota, que até estava a fazer um jogo pouco positivo. Jota, em três toques, consegue meter a bola para o único jogador que atacou a profundidade: Rui Pedro. A linha defensiva do Braga subiu para o pontapé de baliza, havia finalmente espaço, e o único a reagir à movimentação de Jota (grande passe!) foi o miúdo. Golo, festa, alívio.

Maxi Pereira (+) - O melhor jogo da época. Incrível e constante disponibilidade no corredor direito, do primeiro ao último minuto. Sem nada a fazer na defesa, atacou, cruzou, empurrou a equipa para a frente, fez movimentos interiores, apareceu na zona do ponta-de-lança e lutou por cada bola como se fosse a última. Este foi o Maxi que obrigou os adeptos do FC Porto a apreciá-lo após 8 anos noutras paragens. Que continue assim.

Danilo Pereira (+) - Confessem lá: de certeza que ao vosso lado ouviram qualquer coisa do género, «para quê o Danilo em campo, contra 10, se o Braga já não ataca!?» Por uma razão: equilíbrio e dimensão física no meio-campo. O Braga praticamente não entrou no meio-campo do FC Porto na segunda parte. E não foi por Marcano e Felipe (bom jogo, mais um) estarem imperiais em cima da linha de meio-campo, foi porque Danilo varreu tudo o que lhe apareceu à frente. Ganhou todos os lances pelo ar (inclusive o do 1x0), foi prático na distribuição e não deixou o Braga pensar nunca no contra-ataque. Danilo não ficou em campo para marcar: ficou para dar segurança a quem tinha a missão de marcar. Imprescindível.

Óliver Torres (+) - No momento da sua substituição, estava provavelmente a ser o melhor do FC Porto, ou pelo menos o mais inteligente. Por vezes hesita no momento em que tem que entregar a bola. Isso tem uma justificação: Óliver, por vezes, idealiza jogadas que os seus colegas não seguem. Se não respeitam a movimentação, aguenta e procura outra solução. Criou 3 ocasiões de golo, raramente falhou passes e esteve impecável na pressão: recuperou 10 vezes a bola, quase sempre no meio-campo do SC Braga. O Tribunal do Dragão já tinha comentado que Óliver está a ser pouco influente no ataque (um golo, zero assistências), e precisa de melhorar neste aspeto. Mas na missão de organizar o meio-campo e de colocar a bola nos homens da frente, não há melhor.

Fator Brahimi (+) - Otávio não esteve bem. Não rompeu, não cruzou, não fez diagonais. Saiu lesionado. Na segunda parte, vimos invariavelmente o mesmo: Corona encarava Djavan e perdia a bola. Ou cruzava logo, ou perdia a bola quando tentava ir à linha de fundo. Com Brahimi, as coisas mudam. Brahimi é egoísta, sim. Não tem o melhor remate do mundo, não. Poucas vezes integra a manobra coletiva - que nem sempre é clara - da equipa. Mas com Brahimi, o FC Porto ganha algo que tem faltado: imprevisibilidade e capacidade de rasgo individual.

Quando Brahimi encara o defesa a partir da ponta esquerda, o jogo pára. Há logo um defesa em cima de Brahimi e um segundo para a dobra. Só aqui, são 2 defesas em cima de Brahimi. Aqui já se arrastam marcações. Brahimi consegue avançar com a bola colada ao pé, sabe aguentá-la, tentou algumas vezes o golo e consegue empurrar a equipa para a grande área. São caraterísticas que o FC Porto não pode dispensar. Tirem Pizzi ao Benfica e Gelson ao Sporting: é a mesma coisa que não aproveitarem Brahimi no FC Porto. É retirar o jogador que pode conseguir aquele rasgo de imprevisibilidade que desfaz um 0-0. Ontem não marcou, mas não foi por falta de situações criadas. E sem uma aposta consistente no jogador - sem Otávio, tem que jogar contra o Leicester! -, não esperem que ele possa voltar a ser o jogador deslumbrante que vimos em 2014-15. Aproveita, Nuno, que não sabes se depois de janeiro terás melhor. 

Rui Pedro (+) - Quando um miúdo de 18 anos, na estreia na Liga, marca o golo da vitória aos 95 minutos, não precisa de mais nada para receber um Boné. Neste caso, todo o golo é de um mérito imenso: ainda Jota tem a bola e já Rui Pedro está a atacar as costas da defesa. Ou seja, não foi Jota a obrigar Rui Pedro a correr com o seu excelente passe: Rui Pedro já estava a fazer o movimento. Depois, a finalização é sublime. É extremamente difícil finalizar naquelas circunstâncias. Rui Pedro teve nervos de aços. Soube qual era a melhor forma de bater Marafona, em vez de rematar em desespero. Excelente golo.


Claro que isto levanta questões, desde Depoitre a Areias. Sim, porque conforme foi aqui opinado, é absurdo encostar Rui Pedro na equipa B para meter a jogar um jogador emprestado pelo V. Guimarães que não tem um décimo da sua qualidade e potencial (além de não ser jogador do FC Porto).  Tal como o risco de perder um talento que, conforme comentou BB na Rádio 5, não renovou enquanto «não assinou por quem eles queriam». Rui Pedro não nasceu ontem: mostrou apenas um pouco daquilo que vem prometendo desde que chegou ao FC Porto. Não vale a pena compará-los, mas Pepjin considerava que, entre Gonçalo, André e Rui, Rui Pedro era o melhor. Quanto a isso, não sabemos. Mas que é melhor do que Depoitre ou Areias, não restam dúvidas. Ah, já agora: Leandro Campos. Anotem, que daqui a um par de anos vamos estar a falar dele. A formação do FC porto está a produzis 9s como há muito não o fazia. Aproveitemos.





A rever (-) - O Braga nunca foi uma ameaça no Dragão. Nunca. Mas é verdade que o FC Porto só começou a carregar a partir do momento da expulsão e da entrada de Brahimi. Até então, poucas jogadas de perigo tinham sido criadas. Mas a forma como o FC Porto entrou em campo foi, uma vez mais, passiva e pouco esclarecedora até ao momento da expulsão. André Silva não está bem. Como é de esperar com qualquer jogador jovem, é natural ter um período menos bom durante a época, sobretudo se tem feito quase sempre os 90 minutos e tentando ser a referência numa equipa com pouca apetência para o golo. Era aqui que devia entrar o tal ponta-de-lança mais experiente que o FC Porto nunca chegou a contratar, e que alguém achou que seria Depoitre. Quanto a isto, estavam avisados desde o início da época: André Silva tem qualidade suficiente para ser titular, mas não tem o estofo suficiente, ainda, para ser titular toda a época. 

Corona precisa de aprender a jogar cansado. Invariavelmente, perdia a bola pelo corredor direito, na segunda parte, por não ter pernas para ultrapassar Djavan. Corona complica quando deve jogar simples. Tem que aprender a gerir melhor o esforço e melhorar urgentemente a sua objetividade no 1x1. Jota não esteve bem durante grande parte do jogo, mas acabou por inventar a assistência para o golo. Por fim, que ontem tenham falhado todos os golos que ainda havia para falhar. Usem os alemães do Bielsa, pinos, cones, nem que comecem com a baliza aberta, mas essa finalização tem que ser treinada. Senão, facilmente se encontra um miúdo de 18 anos que mostra como se faz.


sábado, 28 de maio de 2016

Análise 2015-16: os laterais

No dia em que analisamos os laterais, o FC Porto deu a conhecer que «chegou a acordo com o Watford» para a contratação de Layún. Chegar a acordo pressupõe que o Watford esteve envolvido nas negociações, o que indicia que a cláusula de compra não foi batida - o que não significa que Layún não tenha custado 6M€, mas quiçá com um faseamento de pagamento diferente do que estaria previsto na opção de compra. Aliás, desconhecem-se publicamente todos os pormenores (quanto custa, duração de contrato, etc.)

Compra. Reforço?
Layún é uma boa compra do FC Porto, resta saber se será uma contratação para a próxima época. A possibilidade de renegociar o jogador até ao final de junho não é descartável, tendo em conta que Layún fez uma grande época e despertou a atenção de outros clubes e mercados.

Face à necessidade de apresentar resultados com passes de jogadores de 72,59M€ até 30 de junho, ou a SAD já estudou uma forma de fazer as mais-valias necessárias até ao fim do mês (na medida em que apresentar um prejuízo superior a 8,6M€ poderia trazer consequências no fair-play financeiro), ou este investimento em Layún já é feito a contar com uma futura venda. Até porque esta compra de Layún é o oposto da política da SAD nos últimos anos. Aliás, o acordo original com o Watford previa que o FC Porto tinha que pagar 3M€ até 15 dias depois de informar que iria comprar o jogador; se vendesse o jogador nas próximas duas semanas, poderia até pagar Layún com o dinheiro da venda a um terceiro clube. 

Desportivamente, Layún foi uma mais-valia para o FC Porto. Basta dizer que se não tivesse sido contratado no fecho do mercado, os laterais para esta época teriam sido José Ángel e Cissokho (tendo em conta que Rafa não estava integrado na equipa A). Esteve em 26 dos golos marcados pelo FC Porto esta época. Além disso, sempre personificou em campo aquilo a que os adeptos gostam de chamar um jogador à Porto.

É melhor a atacar do que a defender, certamente. Mas num contexto de campeonato português, os nossos laterais passam mais tempo a atacar do que a defender. Não era por causa de Layún que a equipa estava constantemente exposta contra Aroucas, Tondelas e afins. Cometeu alguns erros, como outros cometeram, mas Layún foi sempre mais vezes parte da solução do que do problema.

Neste momento é uma boa compra, pois se a SAD quiser já o vende com lucro e necessita de gerar mais-valias no próximo mês. Mas desportivamente, seria recomendável manter Layún no plantel, por ter tudo aquilo que o FC Porto necessita: qualidade, profissionalismo e dedicação. Se se concretizar a possibilidade de fazer o que o Hellas Verona fez com Iturbe, é necessário identificar outra solução de qualidade. E aí Rafa diz olá.

Contrato até 2018
Do outro lado, Maxi Pereira. Fez uma época bem razoável, embora nas últimas semanas tenha acusado claramente o desgaste (estamos a falar de um jogador de quase 32 anos que nunca sofreu uma lesão grave, e que é sempre titularíssimo por onde passa), com a sua condição física a deixar a desejar (não raras vezes víamos jogadores ganharem-lhe metros em pouco espaço). 

É também ele um jogador caro (podem dizer que não veio para o FC Porto pelo dinheiro, mas também não foi por lhe oferecem menos do que ganhava no Benfica), já sem grandes perspetivas de uma boa venda (só mesmo no Oriente ou nas Arábias), mas que foi influente na equipa. Maxi Pereira fez 13 assistências - em lances de bola corrida, fez mais assistências do que Layún, e foi sempre uma peça importante pela profundidade que dava ao corredor. Defensivamente, cometeu algumas falhas. 

Tem mais dois anos de contrato, por isso a continuidade no plantel parece um passo natural. Há uma boa alternativa na equipa B, chamada Víctor García, que já devia ter sido integrado num plano de rotação com Maxi esta época. Ricardo Pereira tem mais um ano de contrato com o Nice, por isso não entra nestas contas. 

Sobra José Ángel, um dos «patinhos feios» de que os adeptos nunca prescindem. Comete demasiados lapsos defensivamente, o que é uma pena, tendo em conta que é excelente a cruzar. A sua contratação, em 2014, foi boa e teve toda a lógica desportiva: era um lateral com escola, titular em bons campeonatos e boas equipas, jovem e que chegou ao FC Porto sem encargos imediatos (a Roma repartiu o passe com a SAD, que depois cedeu 5% à ARB Sport Asesores, de Alfredo Nora).

José Ángel, jogador que entretanto desapareceu do catálogo de jogadores que a Doyen Sports exibe no seu site, esteve sempre na sombra ora de Alex Sandro, ora de Miguel Layún. Quando era chamado, ora fazia um jogo consistente, ora estava diretamente ligado a um mau resultado no jogo seguinte. Não temos garantias de que Layún vá ficar no plantel, mas perante a promoção de Rafa é natural que José Ángel procure outra solução para o seu futuro. Tem contrato por mais dois anos e dificilmente partirá para uma 3ª época sendo suplente do FC Porto. Não dá garantias para o presente e o futuro não passa por ele. 

Não vale a pena falar de Cissokho, pois não?

Contrato até 2018
À partida, o FC Porto perdia qualidade nos laterais para esta época. Há uma diferença entre ter dois laterais de seleção brasileira vendidos ao Real Madrid e à Juventus, por mais de 55M€, e entre contratar um lateral que após 8 anos de Benfica só teve convite de um rival (Maxi) e outro que na época passada estava na segunda liga inglesa (Layún). Mas não foi, de todo, por Layún e Maxi que o FC Porto fez uma má época.

A primeira função de um lateral, logicamente, é defender bem. Mas os números no ataque são o que mais surpreende: Layún (26) e Maxi Pereira (14) tiveram intervenção direta em 40 golos do FC Porto. Danilo e Alex Sandro, há um ano, tiveram intervenção em 18. Ou seja, com Maxi e Layún, os laterais do FC Porto participaram em mais do dobro dos golos; mas na época passada o FC Porto teve a melhor defesa da Europa, enquanto este ano qualquer equipa, por maior ou menor vocação ofensiva que tivesse, conseguia marcar ao FC Porto com facilidade. Maxi e Layún tiveram as suas culpas no cartório defensivo, mas foram mais vezes solução do que problema.

Pergunta(s): Maxi e Layún devem manter o lugar para 2016-17? Quem deverão ser as alternativas nos corredores?

domingo, 24 de abril de 2016

A memória de um golo

Aqui está uma frase provavelmente nunca antes construída: Rúben Neves fez lembrar Pepe. Em 2006, em plena pré-época, o FC Porto defrontou o Manchester United. Provavelmente, poucos se lembrarão desse jogo, de quem jogou, do resultado, mas lembram-se do balázio que Pepe enfiou na baliza inglesa.

Um golo para recordar
O dia de ontem (curiosamente também um jogo de pré-época), daqui a 10 anos, não será muito diferente. Um passe para dentro da baliza, um passe de Rúben Neves para as redes. Que grande golo. Poucos se recordarão da exibição, da equipa, mas lembrarem-se-ão desta obra prima de Rúben Neves, o mais parecido que vimos desde aquele golo de Lucho González em Hamburgo

Pouco mais haverá a reter. O FC Porto garantiu matematicamente o 3º lugar e não há mais a fazer do que conquistar a Taça de Portugal. O clássico deve ser encarado como ponto de honra e é para ganhar, obviamente. A luta pelo título já não diz respeito ao FC Porto, não interessa se quem vai ser campeão é o Benfica ou o Sporting. O que se sabe é que, no dia 30 de Abril, 11 jogadores vão subir ao relvado com o símbolo do FC Porto e que do outro lado vai estar o Sporting. Qualquer sentimento de desvalorização por perder com o Sporting, alegando que assim podem tirar o título ao Benfica, seria o maior atestado de pequenez da história do clube - bem mais vergonhoso do que os que festejaram o golo de Kelvin na casinha

Uma nota antes da análise ao jogo. Subitamente já há críticas a José Peseiro por fazer exatamente o mesmo que fazia Lopetegui: dizer que todos os jogos são difíceis, que todos os adversários são bons. Mas depois dos elogios maioritariamente injustificados ao Nacional, vimos José Peseiro dizer isto sobre a Académica: «Jogámos contra uma equipa que sofre poucos golos». Uma coisa é valorizar o seu trabalho com recurso aos chavões do costume, como por vezes Lopetegui fazia, outra é dizer inverdades destas, pois a Académica tem a 2ª pior defesa da liga e é a equipa que sofre mais golos em casa. José Peseiro é um otimista, mas pede-se um pouco mais de rigor nestas questões, mister. Pelo menos até 22 de maio.






Maxi Pereira (+) - O que define um jogador à Porto não é a ausência de erros, pois todos erram: é a forma como se reage a esse erro. Maxi esteve na origem do golo da Académica, com uma má cobertura defensiva, mas depois tomou-se por um inconformismo que o levou a ser um poço de força no corredor direito. Atacou, tabelou, cruzou, entrou na grande área, procurou o remate e não descansou enquanto não se redimiu do erro. No final do jogo, o merecido descanso.



Danilo Pereira (+) - A Académica foi apenas mais uma equipa que, com apenas dois homens no contra-ataque, consegue logo intimidar a defesa do FC Porto. Mas Danilo chegou para (quase) tudo. Muito bem nas dobras, a impor a capacidade de física e a ser referência não só no início de construção como na grande área adversária. Tudo isto aliado a uma capacidade de liderança que se faz sentir cada vez mais - Corona e Sérgio ficaram com as orelhas a arder durante o jogo.

Outros destaques (+/-) - Finalmente, Rúben Neves a apostar mais na meia distância. É um capítulo que precisa de melhorar no seu jogo - e curiosamente, os seus 2 golos esta época nascem de remates de longe. Imaginem o que seria Pirlo sem a capacidade de rematar. José Ángel continua a ser o jogador que melhor cruza de primeira e de forma tensa - o problema é que os outros aspetos do seu jogo não se aproximam da sua capacidade de cruzar. André Silva esteve incansável na pressão ao início de construção da Académica e movimentou-se sempre bem na grande área, embora vá sendo tempo de materializar o seu empenho num golo, que vai aparecer. Corona precisa de melhorar imenso a recepção de bola, mas está a melhorar bastante no passe - 85% de acerto e fez cinco passes para zonas de finalização (mais do que os 3 médios), além do seu papel defensivo, com sete ações de recuperação/desarme; faltou-lhe mais objetividade na procura do remate e no um para um. 






Condição física (-) - Estamos em abril, pelo que é normal que alguns jogadores já não estejam no seu melhor fisicamente. Mas José Ángel é pouco utilizado, e o próprio André Silva só tinha feito 89 minutos nas últimas duas semanas e meio. Ainda assim, vários jogadores estavam rebentados, inclusive com Ángel e André a sentirem cãibras. Por um lado, é bom: mostra que os jogadores estavam a dar tudo. Por outro, a condição física dos jogadores tem vindo a cair nos últimos dois meses - bem diferente do que aconteceu em 2014-15, em que a equipa estava muito melhor fisicamente. Não querendo associar isso diretamente à troca de preparadores físicos, uma equipa que luta por várias frentes tem que ter a certeza que está o melhor servida possível neste aspeto. Estará?

Descompensação (-) - A Académica não precisou de meter muita gente na frente para criar perigo, o que vem sendo crónico nos adversários do FC Porto. Só marcaram numa bola parada, mas a cobertura defensiva do FC Porto deixou sempre a desejar, sendo também um reflexo da ausência de Danilo do meio-campo - Rúben Neves não tem a capacidade física e defensiva do compatriota, embora dê outra capacidade de circulação à equipa. A linha defensiva do FC Porto nem sempre esteve - passe a redundância - alinhada da melhor forma, tanto que apesar da Académica procurar muitas vezes o espaço nas costas da defesa nenhum dos seus jogadores caiu na armadilha do fora-de-jogo. Depois quando faltam pernas, como faltou a Maxi no lance do livre, pode sair caro.

Subrendimento (-) - Varela apoia sempre bem as subidas dos laterais e procura bem o espaço interior, mas objetivamente não criou nenhum lance de perigo - nem um cruzamento ou um remate na retina. Para um jogador que está a queimar as últimas oportunidades de ir ao Euro 2016, esperava-se mais. Herrera, desta vez, acusou a falta de espaço no meio-campo da Académica e não conseguiu dar tanto nas vistas no ataque - à imagem de Sérgio Oliveira, muitas vezes a ir atrás pegar no jogo, mas sem servir os avançados, abrir espaços ou até tentar a meia distância. André André fez mais em menos tempo, com menos ritmo. Está a ter a sequência de jogos que Lopetegui achava que não merecia, por isso só depende dele próprio.

Uma semana para preparar um clássico em que nada mais interessa do que a honra de vencer. Muita coisa pode ter mudado no FC Porto, mas repugna imaginar que algum portista possa encontrar conforto num empate ou numa derrota num clássico. Primeiro o FC Porto, depois o FC Porto, depois o FC Porto. Só depois dos rivais.