Mostrar mensagens com a etiqueta Mercado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mercado. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Um coelho em 23 cajadas: viagens pelo Brasil

O FC Porto B está na sua sétima participação consecutiva na II Liga. Já se sagrou campeão nesse escalão, mas tem estado muito, muito distante daquilo que era idealizado como «viveiro» de jogadores para a equipa A. Uns por falta de oportunidades, outros por falta de qualidade. A determinada altura, por exemplo, era necessário um lateral-esquerdo na equipa principal, estavam a negociar Zakarya com o Belenenses e nessa mesma altura estavam quatro defesas-esquerdos a fazer a pré-temporada na equipa B (Diogo Bessa, Inácio, Oleg e Luís Mata).

André Silva acaba por ser o caso mais bem sucedido desde 2012, na medida em que cumpriu quatro dos cinco patamares que deveriam existir neste processo - a saber, 1) qualidade; 2) promoção; 3) rendimento; 4) êxito coletivo, que acabou por não existir, face à ausência de títulos; 5) transferência/valia financeira.

Mas serve isto como ponto de partida para uma análise diferente, um olhar sobre aquilo que tem sido o FC Porto B desde a sua criação, com particular incidência num mercado que é muito querido ao FC Porto: o Brasil. Desde que a equipa B foi recuperada, já foram recrutados diretamente 23 jogadores a clubes brasileiros. Poderíamos falar de africanos, sul-americanos, portugueses, mas para já vamos analisar apenas uma parcela: o mercado brasileiro com destino à equipa B. 23 jogadores, ou seja, um plantel inteiro. Desses 23 jogadores brasileiros contratados, conseguem adivinhar quantos chegaram a jogadores de equipa A?

...

Um. Otávio. Entre 23 jogadores contratados no Brasil, o FC Porto só acertou num: Otávio, que não foi propriamente um achado, pois já custou 7,5 milhões de euros por 68% do passe (foram cedidos posteriormente 0,5%) e era um jogador sobre o qual havia sentido desportivo em ser aposta. Já tinha  60 jogos de Brasileirão nas pernas e, embora a sua contratação não tivesse passado por um pedido/desejo da equipa técnica da altura, sabíamos que havia ali talento. Caro, mas material para se trabalhar, tanto que com outro treinador poderia até eventualmente ser logo acolhido na equipa A.

Passamos agora um olhar sobre os jogadores que foram contratados a clubes brasileiros nas respetivas épocas:

2012-13: Diogo Mateus, Víctor Luís, Anderson Santos, Guilherme Lopes, Sebá, Dellatorre;
2013-14: -
2014-15: Diego Carlos, Otávio, Roniel, Anderson Dim;
2015-16: Rodrigo Soares, Maurício, Wellington Nascimento, Ronan, Enrick Santos, Gleison;
2016-17: Inácio, Galeno;
2017-18: Luizão, Danúbio, Anderson Canhoto;
2018-19: Diego Landis, Emerson Souza. 

Pergunta: quantos destes jogadores estão, neste momento, a jogar numa I Liga europeia, em clubes minimamente conhecidos ou com presenças nas provas da UEFA? É certo que nem todos estão condenados ao insucesso (Galeno, por exemplo, começou agora a jogar com regularidade no Rio Ave), mas a maioria destes jogadores «desapareceu» do mapa depois de ter representado o FC Porto B.

Otávio contra a maré, à quinta época em Portugal
Otávio é, efetivamente, o único que ficou no plantel principal para ser opção, ao contrário por exemplo de Sebá, que teve um tempo de participação mínimo na equipa A. E o próprio Otávio não só foi uma contratação cara como vai para a quinta época em Portugal, ainda à procura da afirmação. 

Tomemos o exemplo da primeira «fornada». O jogador que mais se destacou, Sebá, acarretava custos completamente injustificados e em boa hora não ficou no FC Porto - está atualmente na China. Dellatorre, que passou a época como titular na posição 9, está agora no APOEL, após ter jogado na Tailândia. Víctor Luís regressou ao Brasil e por lá continua, tendo evoluído ao serviço de Botafogo e Palmeiras. E o que é feito de Diogo Mateus, Anderson Santos e Guilherme Lopes?

O pioneiro de uma saga pouco proveitosa
Anderson Santos, desde que regressou ao Brasil, já esteve dois anos sem clube e está atualmente ao serviço do São Mateus, clube dos escalões inferiores. Diogo Mateus pertence ao Ferroviária, da Série D. E Guilherme Lopes... acabou a carreira. Estamos a falar de um jogador que, ao longo da sua estadia no FC Porto B, jogou o total de... um minuto na II Liga. Um minuto. Regressou ao Brasil e terminou a carreira aos 24 anos.

Mas não foi o único que passa de bom o suficiente para merecer um lugar no FC Porto para tão mau que tem que deixar o futebol. Enrick Santos, contratado em 2015, jogou apenas 23 minutos, na última jornada da época. Na época seguinte não arranjou clube e deixou o futebol aos... 20 anos. Há vidas piores: passam um ano a treinar no FC Porto, com tudo pago, jogam um ou dois jogos e voltam ao Brasil. Não deve haver programas de Erasmus melhores.

Vejamos Anderson Dim, contratado em 2015. Na época seguinte foi logo cedido ao Freamunde. E correu tão bem que ficou sem clube até 2018, ano em que foi contratado pelo Coimbra Esporte Clube. Nada mais, nada menos que o clube ao qual Otávio foi «contratado» e que é controlado pelo bem conhecido BMG. Um talento incompreendido, por certo. Igual exemplo foi o Anderson Canhoto, na época passada. Jogou 20 minutos em toda a época, voltou ao Brasil e está agora no quarto escalão. Ou Ronan, que chegou, jogou dois jogos e está agora no estimável Nova Iguaçu.

É certo que nenhum clube acerta em todas as contratações. O Real Madrid também não vai buscar todos os jogadores ao Castilla, e o Barcelona não dá oportunidades a tudo o que sai de La Masia. Mas isto não é apenas o olhar a dois ou três negócios que correram mal: são 23 jogadores contratados, sete anos de trabalho de scouting/prospeção (?) e dos quais só se aproveita, até hoje, um jogador para a equipa A.

Mas afinal, quem são os responsáveis por tanta importação de jogadores de qualidade duvidosa oriundos do Brasil? Não estamos a falar de jogadores que possamos dizer «olha, tinha talento, mas não se adaptou». Estamos a falar de rapaziada que regressa ao Brasil pela porta pequena, para jogar nos escalões inferiores, e que termina a carreira aos 20s. 

Em Abril de 2016, Pinto da Costa anunciou que estava a dividir a estrutura em seis setores. Passando a citar o presidente do FC Porto: 

«De acordo com os estatutos que foram discutidos e aprovados em Assembleia Geral, e em que eu não interferi em nada, foi decidido que os 14 vice-presidentes passavam a seis e os dez diretores passavam a seis. Nesse sentido, dividi o clube em seis setores: o financeiro, do qual será responsável o dr. Fernando Gomes; o jurídico, que estará a cargo do dr. Adelino Caldeira; o futebol de formação será da responsabilidade do sr. Antero Henrique; o Património será da competência do eng.º Eduardo Valente; as casas, filais e delegações serão da competência do sr. Alípio Jorge. E introduzi um novo setor, que é o do planeamento dos novos projetos e do qual será responsável o professor Emídio Gomes, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte.»

Portanto, seis setores com intervenção da cúpula da SAD: financeiro, jurídico, formação, património, casas/filiais e novos projetos. Alguém notou a falta de alguma coisa? Prospeção? Contratações? Era sabido que Antero Henrique tinha sido designado o responsável pelo «futebol de formação». Entretanto veio Luís Gonçalves, para ocupar o cargo de Antero, mas sem nunca ter sido especificado/esclarecido se assumiria também todo o controlo da formação. 

Nota: Chidozie é o único jogador do plantel campeão da II Liga que está na equipa A
Então, até quando o próprio FC Porto colocará a si próprio a questão: todo este investimento na equipa B e, em concreto, no mercado brasileiro, valeu a pena? Quem está a identificar estes craques incompreendidos? Como são observados jogadores que, em alguns casos, nem jogam no Brasil? 

E a verdade é que, ao observar estes 23 jogadores, podem observar um padrão um tanto dominante que envolve muitas vezes as mesmas entidades. Começamos pelo Algarve. A SAD do Portimonense tem como accionista maioritário Teodoro Fonseca, que saltou para a ribalta como empresário de Hulk e que enriqueceu/cresceu às custas da proximidade com o FC Porto.

Ora, Maurício, Gleison e Inácio são exemplos de jogadores que chegaram ao FC Porto por via do Portimonense, clube com quem o FC Porto fez o negócio mais estranho do defeso: a compra e consequente dispensa de Ewerton, de volta ao ponto de partida. Ewerton, curiosamente, chegou a Portugal após ter deixado o Desportivo Brasil

O Desportivo Brasil foi fundado pela Traffic, empresa que ficou conhecida em Portugal quando assumiu o controlo do Estoril, e em 2014 foi comprada pelo grupo chinês Luneng. Este mesmo clube foi a porta de entrada de Dellatorre ou Diego Carlos para o futebol português e também serviu o propósito de «armazenar» jogadores até transferi-los para a Europa.

E neste Campeonato, ninguém bate o Grêmio Anápolis, um clube controlado pelo empresário António Teixeira (sim, esse), dono da Promosport e que todos os anos distribui vários jogadores do clube brasileiro por equipas portuguesas. Roniel, Wellington (que nem chegou a jogar pelo FC Porto - foi logo cedido ao Leixões), Rodrigo Soares, Galeno e Danúbio (o nome mais sugestivo da história do futebol) chegaram ao FC Porto através do referido clube. 

No último verão, foi a vez de Diego Landis e Emerson Souza assinarem pelo FC Porto. Landis é oriundo do já mencionado Desportivo Brasil, enquanto Emerson jogou um total de 109 minutos de futebol em 2018. Esteve em Israel, ingressou no Rio Branco de Venda Nova e estava sem jogar praticamente desde o início do ano.

Chegou ao FC Porto B como um ilustre desconhecido e já recebeu guia de marcha, tendo sido emprestado ao Fafe. Como exatamente é que avaliaram um jogador que não jogava, fica a questão, mas o site brasileiro Tribuna Online tem uma versão: «O caminho dele até Portugal começou na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017, quando atuou pelo Nacional/SP e foi descoberto pelos empresários portugueses Pedro Silva e Jorge Boas, que prepararam um DVD com lances do jogador.» OK. Não jogou em 2018, mas tem um DVD com os lances de 2017. Bem dizem que a qualidade não tem prazo de validade.

Emerson, o 23º brasileiro na equipa B, chegou, viu e já saiu
Mas o que mais há a destacar de Emerson é a sua franca humildade e sinceridade. Estamos numa era em que todos os jogadores querem ganhar mais, procuram melhores condições financeiras e tentam sempre puxar o salário. Uma ambição normal, não só em qualquer futebolista como em qualquer trabalhador de qualquer área. Mas Emerson não. Emerson é um caso único, citando o próprio jogador:

«"Não esperava ganhar tão bem em tão pouco tempo. Todo mês eu ajudo minha família”, comentou o capixaba, que também elogia a estrutura do clube português: “Eles gostam muito de brasileiros e dão todo o suporte”». Ficamos com grande expetativa em acompanhar a evolução de Emerson, o jovem craque que não esperava ganhar tão bem em tão pouco tempo, e de vê-lo espalhar magia no Municipal de Fafe.

Até lá, sobra a questão: que género de scouting é este no mercado brasileiro que se limita a catálogos de três ou quatro clubes/empresários? Um país tão grande, um viveiro de talentos tão conhecidos, e vêm sempre pela mão dos mesmos? Em 23 contratações, ao longo de sete anos, só acertamos num jogador com vista à equipa A? Como é que há jogadores que têm qualidade para atravessarem o Atlântico e assinarem pelo FC Porto, mas logo a seguir nem clube conseguem arranjar e terminam a carreira? Brasileiros e talentos, sim, são bem vindos. Mas a via que os tem trazido e o proveito do passado recente não combinam com o futuro que todos (?) queremos para o FC Porto.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Reforços ao custo possível

O encerramento do mercado de transferências trouxe duas novas e importantes opções para Sérgio Conceição: um que entra para já como alternativa a Alex Telles, outro que pode dar novas soluções para o meio-campo. Jorge e Bazoer chegam por empréstimo, com opção de compra no final da época, e constituem duas opções de qualidade, que mostram que era possível encontrar boas soluções de baixo custo (pelo menos no médio prazo), mesmo com as prioridades algo trocadas - Jorge só vem porque Zakarya chumbou nos exames médicos e Bazoer chega já depois de Ewerton ter entrado e saído. 

Começamos por Jorge, lateral-esquerdo. Há duas épocas, aos 20 anos, Jorge já era o melhor lateral-esquerdo do Brasileirão, tendo-se destacado ao serviço do Flamengo. Veio para a Europa pela mão de Deco, em parceria com Jorge Mendes, com destino ao AS Mónaco, que se sagrou campeão nessa época. Na temporada passada jogou com uma regularidade interessante, mas uma lesão em janeiro acabou por lhe tirar espaço na segunda metade da época.

Ao contrário do estereótipo comum de lateral brasileiro - melhor a atacar do que defender -, Jorge é um exemplo contrário, destacando-se sobretudo pela solidez defensiva. Na época passada, na Liga francesa, foi o 2º jogador com maior média de interceções por jogo e o oitavo com mais desarmes. Em termos ofensivos, até pela própria estratégia do AS Mónaco, Jorge sempre se revelou bem mais resguardado - embora não nos possamos esquecer que o próprio Alex Telles, aquando da sua chegada ao FC Porto, não era metade do jogador que é neste momento na vertente ofensiva da equipa.

Um «velho» referenciado, melhor a defender do que a atacar
Embora tenha chegado ao FC Porto perto do fecho do mercado, Jorge já é um nome conhecido no Dragão. Já estava referencido quando despontou no Brasil e, inclusive, chegou a ser proposto a título definitivo no início do defeso, mas a um preço incomportável - pediam 12 milhões de euros. Sem colocação, acabou por chegar ao FC Porto por empréstimo e tem um ano para mostrar serviço como alternativa a Alex Telles... e quiçá sucessor, pois no final da época Alex estará certamente na montra para a saída. 

Da mesma forma chegou Bazoer, uma contratação atípica no FC Porto. Não só o FC Porto não costuma apostar em jogadores holandeses (Bruno Martins Indi foi o único até hoje) como é muito raro e difícil contratar na Bundesliga. Mas Bazoer representa um perfil interessantíssimo para o meio-campo, uma vez que é igualmente capaz de encaixar no 4x4x2 e no 4x3x3.

Capaz de jogar a médio-defensivo ou na posição 8 (a ideal para ele neste momento - opinião), Bazoer foi um dos principais talentos a sair das escolas do PSV e do Ajax nos últimos anos e estreou-se na seleção da Holanda quando era ainda sub-19. É um bom distribuidor de jogo, que gosta de jogar em profundidade (como Sérgio Conceição tanto gosta que sirvam os avançados) e que joga com grande amplitude no meio-campo - na Bundesliga, o passe médio de Bazoer é de 19 metros, acima da média habitual de Herrera e Sérgio Oliveira (17 metros no FC Porto). Tem rotinas como médio-defensivo, mas é melhor a distribuir e a avançar do que a proteger meramente a retaguarda. 

Solução para todas as variantes da equipa
É certo que Bazoer não se adaptou da melhor forma à sempre difícil Liga alemã, mas num contexto de campeonato português pode revelar-se uma ótima solução para o meio-campo. Se, tal como Jorge, poderá ser uma opção a título definitivo para lá do fim da época, só o tempo o dirá. 

Certo é que os moldes das contratações de Jorge e Bazoer também acabam por se confirmar o que já se sabia: que não havia disponibilidade financeira imediata na SAD para reforçar o plantel no fecho do mercado. É sempre difícil de compreender como é que há dinheiro para o jogador A e não há para o jogador B, mesmo que a opção B custe menos, mas tem sido algo recorrente nos últimos anos. 

Por exemplo, o FC Porto teve avanços concretos por Daniele Verde e Roger Guedes, opções para o ataque. Mas acabou por não chegar nenhum jogador para a posição de extremo. Certamente que Sérgio Conceição não afirmou «quero o Verde, o Guedes ou então não quero ninguém». O FC Porto negociou estes alvos porque necessitava de soluções para o ataque, mas acabou por não as conseguir - mas lá está, pois não havia condições financeiras para investir, e o Relatório e Contas do primeiro semestre de 2018-19 poderá confirmar que as contas vão ao encontro dos limites traçados pela UEFA e que não havia margem para muito mais. 

O FC Porto também tentou Bissouma e Ntcham, médios na casa dos 10 milhões de euros, mas acabou por ficar com Bazoer. Já a posição de lateral-esquerdo foi sempre sendo secundarizada até perto do fecho do mercado, a ponto de ficarem convencidos com 90 minutos de um lateral de 29 anos recém-contratado pelo Belenenses. 

As continuidades de Herrera e Brahimi, mesmo em final de contrato e com poucas perspetivas de renovação de contrato, acabam também por ser contraproducentes àquilo que eram os planos anteriormente traçados pela SAD. Por exemplo, em outubro de 2018, a SAD terá que pagar 12 milhões de euros ao Novo Banco por um empréstimo que tinha como garantias os passes precisamente de Herrera e Brahimi. A saída do mexicano ou do argelino poderiam gerar uma verba que seria canalizada para o reembolso deste empréstimo, mas ambos continuaram no Dragão, pelo que a SAD terá que gerar receitas por outra via. Mas outubro será mês da SAD publicar o Relatório e Contas de 2017-18 e a proposta de orçamento para a próxima época, oportunidade para uma visão bem mais detalhada e completa sobre o presente e futuro do FC Porto. 

Até lá, boas-vindas a Jorge e Bazoer e oxalá todos estejam a suspirar pela sua continuidade a título definitivo no final da época.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Não há milagres (duas vezes)

Como futebolista ou treinador, Sérgio Conceição sempre privilegiou o contacto direto com Pinto da Costa. Não raras vezes ao longo da última época ouviram-lo dizer: «Isso é entre mim e o presidente». Gestão do grupo de trabalho, questões diárias, construção do plantel: foi sempre entre treinador e presidente.

Posto isto, só podemos questionar o quão Sérgio Conceição terá chegado ao limite para, após um simples jogo de pré-época e com 15 dias de trabalho, ter colocado o dedo na ferida e falado abertamente dos constrangimentos que existem neste momento no plantel do FC Porto. 

Estamos a falar de um treinador que, ao longo de toda a época 2017-18, sempre comeu e calou - aliás, comeu e trabalhou. Não havia reforços? Pegou na lista de dispensas. Danilo lesionou-se? Muda-se a matriz de jogo. Troca aqui, adapta acolá e a época terminou com o título ganho, com recorde de pontos no Campeonato e objetivos cumpridos na Champions. Sérgio Conceição nunca se queixou. Não fez omeletes sem ovos: fez um banquete. 

E agora, em plena pré-época, não precisou de mais de duas semanas para dar um murro na mesa. E como é óbvio, jamais Sérgio Conceição sentiria necessidade de vir a público falar abertamente desse problema se tivesse garantias de que os reforços chegariam muito bem breve. Que ganharia Sérgio Conceição em vir agora queixar-se se soubesse que, dentro de um par de dias, já teria caras novas e poderia dispensar algumas unidades do grupo de trabalho?

Sérgio Conceição renovou contrato a 24 de maio, há quase dois meses. Desde então, o FC Porto contratou três jogadores: João Pedro, Saidy Janko e Ewerton. Só o brasileiro chegou ao Dragão com a concordância do treinador. 

Por isso, desde logo, questiona-se como é que, desde que o treinador campeão nacional renovou contrato, já chegaram mais jogadores de que ele não precisava do que aqueles de que necessita. 

A saga do pensamento da massa adepta em relação à contratação de Janko foi uma autêntica montanha russa. Primeiro fazia sentido, pois Sérgio Conceição treinou cinco meses em França e por isso passou a conhecer todos os jogadores da Liga francesa - até aqueles que, como Saidy, não tinham mostrado mais do que medianas qualidades. Primeiro era para jogar a lateral-direito, no lugar de Ricardo Pereira. Depois afinal poderia ser para lateral-esquerdo. Mas pouco depois já era solução para jogar mais à frente, no meio-campo. Voltas e mais voltas a tentar compreender o porquê desta contratação. A conclusão parece iminente: afinal não era um desejo do treinador e vai muito provavelmente seguir por empréstimo.

Poderão dizer que dois milhões de euros não constituem uma compra muito extravagante. Mas são. São para um clube que continua sob restrições da UEFA para o cumprimento do fair-play financeiro e que não investe no treinador que fez do FC Porto campeão em 2017-18. Como se sente um treinador que vê que não há dinheiro para umas coisas mas aparenta haver para outras? 

Ewerton, tal como Saidy, não foi um pedido de Sérgio Conceição. E francamente, se não fosse um jogador do Portimonense, ou mais concretamente do clube cuja SAD tem como accionista maioritário Teodoro Fonseca, provavelmente nunca teria assinado pelo FC Porto. 

Isto não pode ser confundido com desprimor pelo jogador. Se calhar não deve haver jogador mais feliz do que Ewerton por, neste momento, estar a trabalhar no FC Porto. Mas estamos a falar de um jogador que se exibiu a um nível não mais do que mediano na última época e que não é melhor do que os que já cá estavam. «É para o lugar de André André», dirão. Claro. André André foi titular três vezes no último Campeonato, teve uma utilização residual e o FC Porto tem uma equipa B cara e sob constante investimento (em agosto entraremos com maior profundidade neste assunto e aproveitaremos para analisar alguns negócios que têm envolvido a equipa B...). A sério que o papel que André André desempenhou em 2017-18 necessitava de uma ida ao mercado? Por certo que não. 


Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Depois enumerou sete nomes (Oleg, Mikel, Diogo Leite, Saidy Janko, Ewerton, Bruno Costa e André Pereira - todos lançados na segunda parte) e concluiu que eram necessárias condições. Entre estas 7 unidades, nenhuma delas tem em vista a titularidade ou um papel minimamente ativo na equipa base. A estes nomes poderíamos juntar Chidozie, Hernâni, Paulinho, Adrián ou até Waris.

Olhando ao plantel, neste momento o FC Porto está mais fraco do que a época passada. João Pedro, naturalmente, não tem ainda nem de perto nem de longe o nível de Ricardo Pereira. Iván Marcano, o melhor central do FC Porto, saiu e ainda não tem substituto. E isto não implica mudar apenas um jogador, mas sim uma dupla de centrais. Basicamente Sérgio Conceição perdeu apenas dois jogadores. Não é o fim do mundo: é natural isso acontecer no FC Porto. Não deve haver treinador que não tenha perdido pelo menos 2 titulares de uma época para a outra no FC Porto. O problema é que saíram dois jogadores que não têm, ainda, alternativas do mesmo nível num plantel que por si só já era curto.

Sérgio Conceição quer soluções porque sabe que necessita de outra forma de jogar em 2018-19. Não podemos estar novamente dependentes das bolas paradas de Alex Telles, dos lances individuais de Brahimi e de bolas despejadas para Marega ganhar na dimensão física. A determinada altura o futebol praticado pelo FC Porto na época passada foi previsível e limitado, mas de facto não havia muitas mais soluções. Sérgio Conceição quer evoluir, quer novas formas de jogar, quer mais qualidade. Merece essas condições. 

Poderíamos discutir a questão financeira, recordar que é difícil comprar antes de vender... Mas isso deixa de fazer sentido quando vemos que, das 3 contratações já efetuadas em 2018-19, duas delas não serviram pedidos do treinador para fazer face às necessidades do futuro próximo.

Além disso, poucos dias após Sérgio Conceição ter renovado contrato, ouvimos o diretor de comunicação do FC Porto afirmar isto: «Neste preciso momento em que estou a falar o FC Porto já pode gastar 34 milhões de euros. O FC Porto já tem 22 milhões de euros garantidos de Ricardo Pereira, dado que vendeu por 20 mas dois já estão garantidos. Mais os 12 milhões de euros de Boly. Não quer dizer que vá gastar, mas já pode. Querem sempre passar a ideia de que o FC Porto está refém do 'fair-play financeiro'. Não é verdade. Teve um aperto, mas está a sair dele graças às medidas da administração que resultaram muito bem».

É de recordar que esta afirmação foi feita ainda antes da saída de Diogo Dalot para o Manchester United. E foi feita no mesmo dia em que ouvimos isto: «Na época passada [a SAD] fez 63 milhões de euros e podia ter gasto o mesmo valor. Não o fez por uma decisão da administração». Ok. Podia ter gastado 63 milhões de euros, mas vá, ficaram-se pelo Vaná, segundo algumas teorias para evitar que fosse para o Benfica - boa lógica, de todos os jogadores que poderiam desviar do Benfica, desvia-se um terceiro guarda-redes. 

Francisco J. Marques não faz parte do Conselho de Administração da SAD, não é a pessoa indicada para falar ou responder a estas questões, mas também não ouvimos Pinto da Costa ou Fernando Gomes falar da realidade financeira e das expetativas para 2018-19. Então afinal há dinheiro? Há condições para dar condições a Sérgio Conceição? 

É imperativo. O plantel necessita de reforços - reforços, não contratações! - em todos os setores. Não é preciso imaginar quais: Sérgio Conceição sabe e já os pediu. Os mais otimistas não tardarão em dizer: «Na época passada também diziam que o plantel não servia e fomos campeões com recorde de pontos!» É verdade, sim senhor. Mas Sérgio Conceição, o primeiro a acreditar na época passada, não hesitou em ser o primeiro a desacreditar face às condições que tem agora em mãos. Não pode haver maior alerta do que este. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A saída de Diogo Dalot

Esta notícia, publicada na altura pelo jornal O Jogo, tem pouco mais de um ano. Diogo Dalot renovava contrato, ou seria transferido por um valor na ordem dos 20 milhões de euros, a verba da sua cláusula de rescisão.


Um ano depois, o que aconteceu? O que o FC Porto sabia que aconteceria. Se Dalot não renovasse, sairia por 20 milhões de euros - o valor comunicado à CMVM acabou por ser um pouco superior, de 22 milhões de euros, pois a cláusula de rescisão do contrato do lateral português não foi batida.

Quer isto dizer que, para todos os efeitos contratuais, não foi Diogo Dalot a ativar a sua cláusula de rescisão - FC Porto e Manchester United negociaram, isso sim, a transferência do futebolista para Inglaterra, facto esclarecido no comunicado à CMVM: «Chegou a um acordo», escreveu o FC Porto. Ora, quando se batem cláusulas de rescisão, não há negociações nem acordos. 

O FC Porto acaba de transferir aquele que era, neste momento e na ótica da gestão de mais-valias, provavelmente o segundo jogador mais valioso do plantel. Alex Telles é, neste momento, o jogador com mais mercado e de maior valia financeira. De resto, considerando percentagens de passes, percentagens de terceiros, amortizações, mecanismos de solidariedade FIFA e afins, qualquer jogador transferido pelo FC Porto nesta altura dificilmente rende uma mais-valia acima de 20 milhões de euros. 

Por exemplo, no mapa de percentagens de passes divulgado pela SAD no Relatório e Contas do primeiro semestre (que, diga-se, não inclui todos os profissionais dos quadros do clube - apenas aqueles que implicaram investimentos considerados «relevantes» pela SAD), havia apenas 8 jogadores cuja totalidade do passe percente/pertencia à SAD do FC Porto. São eles Aboubakar, Alex Telles, Boly, Soares, Quintero, Layún, Marega e Govea. Entre esses jogadores, Boly já saiu, Quintero está a ser negociado, Layún iria ficar em Sevilha mas o clube recuou na opção de compra e Govea não está no plantel principal. Sobram Alex Telles, Soares, Aboubakar e Marega, mas nem nestes casos os 100% de direitos económicos garantem todo o bolo numa eventual transferência - basta dizer que, caso venda Marega, o FC Porto terá de atribuir 30% da mais-valia ao Vitória de Guimarães.

Por isso, é muito difícil para o FC Porto fazer mais-valias significativas com o elenco atual. No caso de Dalot, é um elemento da formação do FC Porto, não implica amortizações de passes e, salvo alguma operação que se desconheça por parte da SAD, não há percentagens de passes a atribuir a familiares ou empresários próximos. Logo, o valor pago pelo Manchester United corresponderá quase na totalidade à mais-valia.

Por isso, não valerá a pena fingir ou alimentar teorias de que o FC Porto é um enganado ou vítima no meio deste processo. Pelo contrário. A SAD sabia que isto ia acontecer: ou renovava ou Dalot saía. Teve mais de um ano para prolongar o vínculo. Não o fez. 

É de recordar que Dalot renovou em 2016. Na altura não o poderia fazer por mais de 3 épocas, por ser menor de idade. Diogo Dalot completou o 18º aniversário em março de 2017. Desde essa altura já tinha clubes como Bayern, Real e Barcelona à perna. A SAD sabia, devia saber, perfeitamente o diamante que tinha em mãos. 

Deixar prolongar esta situação, depositando as esperanças contratuais em apelos ao portismo e à paciência em que vez de materializar isso em vínculos assinados, roça o amadorismo, não representa a dimensão de uma estrutura que sabe que vive num mercado extremamente competitivo gerido ao ritmo dos milhões. O romantismo é para nós, adeptos, e nos gabinetes não pode ser trocado pelo pragmatismo. 

O mundo do futebol já conhecia Dalot, já sabia a grande promessa que era e é, mas lançar o miúdo em jogos contra Sporting ou Liverpool, sem contrato renovado, era um risco óbvio... mas necessário. Que poderia fazer o FC Porto neste caso? Proibir Sérgio Conceição de utilizar Dalot? Claro que não. O treinador tinha que ser livre nas suas opções, independentemente dos vínculos contratuais. Foi assim com Marcano, com Maxi, com Reyes, com Dalot. Colocámos Dalot numa montra que já era vasta, sem as garantias necessárias com vista à sua permanência. 

E agora? Agora o FC Porto faz um bom negócio naquilo que é o curto prazo e o contexto do fair-play financeiro da UEFA. A venda de Dalot podia não ser o plano A, mas dificilmente alguém na administração do FC Porto ficará incomodado com a verba paga pelo Man. United. Há metas para cumprir, que ainda não estão cumpridas, e a saída de Dalot aproxima a SAD dos resultados que tem que apresentar no fecho de 2017-18 (possivelmente ainda terá que sair mais um jogador - não esquecendo que entre Brahimi e Herrera, ou renovam ou terão que sair neste mercado, caso contrário poderão sair a custo zero).

E conforme foi analisado no post da saída de Ricardo Pereira, o mercado de laterais-direitos não é o mais valioso no futebol mundial. Dalot, com 8 de jogos de equipa principal, passa diretamente a ser o 9º lateral-direito mais caro da história do futebol. A questão é: valeria mais daqui a um ano? Muito provavelmente, sim. E tal como foi comentado aquando da saída de Ricardo, o mercado de laterais-direitos está a ficar mais caro - entre os 10 laterais mais caros do futebol, sete foram transferidos desde 2017.

Mas tal como com Rúben Neves, as necessidades do presente comprometem as possibilidades de tirar maior proveito no futuro. Vale com tudo: com os futebolistas, com as receitas da UEFA, com as antecipações do contrato de direitos televisivos, com contratos de factoring diversos... Antecipar, antecipar, antecipar. É a receita que reina. 

Depois, há o lado do jogador. E pensar que jogador algum no FC Porto ou no Campeonato português recusaria o Manchester United é querer viver numa realidade à parte. Nenhum jogador recusa o Manchester United. Nem Brahimi, nem Herrera, nem Dalot. No passado recente, vimos alguns dos nossos melhores jogadores irem para clubes como Lyon, Marselha, Mónaco, Zenit, Atlético ou até Manchester City. São clubes que, no peso do futebol europeu, não têm mais história do que o FC Porto. Mas têm outros argumentos financeiros, jogam em campeonatos mais atrativos. Então imaginem o que é ter em carteira um histórico como o Manchester United, treinado por José Mourinho.

«Pôs-se a andar à primeira oportunidade», dirão. Pois, mas há um detalhe: normalmente, os miúdos de 19 anos que jogam no FC Porto não têm uma proposta em mãos do Manchester United. Dalot foi um caso à parte: teve-a, não fosse ele talvez o melhor lateral do mundo no seu escalão.

Dalot vai para onde todos querem ir. E o FC Porto não pode esconder que faz um negócio que satisfaz a SAD nas suas metas financeiras e que não pode deixar ninguém surpreendido - afinal, há um ano que sabiam que ou renovavam com Dalot, ou o lateral teria compradores pelo preço da cláusula. De todas as coisas que nos possam surpreender de há um ano para cá, esta deve ser das últimas. A não ser que dê para alimentar a versão de que Carlos Gonçalves, empresário que não é dos mais próximos do FC Porto, e o pai do jogador, um miúdo de 19 anos, conseguiram ludibriar e enganar toda a estrutura da SAD. Era obra. É que se estivesse assim tão difícil renovar com Dalot, Sérgio Conceição não teria assumido, em espaço público, que Maxi e Dalot lhe dariam garantias perante a saída de Ricardo. 

Mais. Passámos toda a época passada a ouvir e a compreender que a SAD estava sob restrições financeiras, que complicaram o ataque ao mercado e renovações contratuais, mas ao ouvirmos o diretor de comunicação a afirmar, e citando, que o FC Porto «podia ter gasto, sem entrar em incumprimento, 63 milhões», mas «não o fez por decisão da administração para equilibrar as finanças», então afinal estávamos todos enganados. Foram 35,3 milhões de euros de prejuízo em 2016-17, e no orçamento para 2017-18 foi definido um prejuízo de 17,27 milhões de euros, mas afinal havia aí pelo meio algumas dezenas de milhões de euros para gastar «sem entrar em incumprimento». 

Jogador satisfeito, SAD satisfeita, sobra o mais importante: os adeptos. E como é natural, não haverá satisfação em vez mais um jovem talento do FC Porto sair do clube de forma tão precoce. Diogo Dalot sai muito cedo, por vontade própria do jogador, mas também o FC Porto não soube salvaguardar os seus interesses. Não é com juras de amor e beijinhos no símbolo: é com contratos assinados. Por isso, a SAD não deveria ter permitido a saída de Ricardo Pereira sem antes ter o futuro de Diogo Dalot 100% assegurado no clube. 

Felizmente, perante um problema surgiu rapidamente a resposta com uma solução, a rápida contratação de João Pedro, e Sérgio Conceição dispõe de uma nova e interessante solução para as laterais. O brasileiro passa a ser presente (e esperemos que futuro), enquanto Diogo Dalot passa a ser passado, numa história que termina sem vítimas ou vilões: Dalot segue os seus interesses e o FC Porto não salvaguardou os seus, pois embora a sua venda represente um encaixe útil e importante para a SAD no curto prazo, não serve nem maximiza os interesses do clube. 

Para terminar. Estarão por certo recordados que a bandeira da candidatura de Pinto da Costa para este mandato foi «um grande centro de formação». Portanto, ao invés de questionar onde está esse projeto anunciado há mais de dois anos e do qual pouco ou nada se sabe, talvez possamos é refletir se valerá mesmo a pena esse investimento, se as pérolas da formação continuarem a sair de forma tão precoce. A não ser que formação deixe de rimar com campeão e passe a rimar somente com milhão. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

A permanência de Iker e a saída de Ricardo

Caminhos opostos para duas figuras importantíssimas na caminhada do FC Porto para o título 2017-18. Iker Casillas fica mais um ano, Ricardo Pereira já assinou pelo Leicester City e torna-se a primeira de várias saídas - umas com mais impacto do que outras, naturalmente - que inevitavelmente terão lugar neste plantel. 

Começando pela renovação de Iker, que aceitou uma redução salarial para permanecer no FC Porto. Não é qualquer atleta que o faz. Embora o guarda-redes seja um futebolista mais do que afortunado, com mais dinheiro do que aquele que possa contar, a verdade é que é comum os futebolistas em final de carreira optarem por um futebol mais periférico para acumularem mais alguns milhões antes da reforma. Casillas, aos 37 anos, trocou isso por mais uma época de FC Porto, mais uma época de Champions, mais uma época a tentar lutar por títulos. 

De qualquer forma, o FC Porto não poderia decidir, ao final do terceiro ano de contrato, que afinal Iker Casillas era caro. Isto já foi explicado neste post. Quando o espanhol foi contratado, em 2015, Pinto da Costa garantiu que Casillas ganhava tanto como Andrés Fernández (que já saiu) e Fabiano (que está longe de integrar a fileira dos mais bem pagos) juntos. A diferença entre ter um grande guarda-redes e dois guarda-redes razoáveis. 


Caso Iker Casillas tivesse saído, a baliza tornar-se-ia um problema, pois não há, no atual plantel, um guarda-redes com o estofo necessário para assumir desde já o posto de número um. Assim, temos guarda-redes para mais um ano, e mais um ano para trabalhar a sucessão, até porque a herança das balizas costuma ser um tema complicado para o FC Porto. Veja-se o exemplo de Vítor Baía: o FC Porto só conseguiu verdadeiramente substituir Baía quando voltou a ir buscar Baía ao Barcelona; e quando o português se retirou, aí sim, o presente estava assegurado com Helton, que já era campeão e internacional brasileiro e tinha já considerável experiência e provas dadas na I Liga. Agora, um guarda-redes que era suplente do atual suplente do Sporting, ou outro que tem uma época de Feirense, são rédeas curtas. 

A continuidade de Iker Casillas é uma boa notícia. Já a saída de Ricardo Pereira, como é natural, não pode ser vista da mesma maneira, pelo menos na dimensão desportiva. E na financeira?

O FC Porto anunciou a transferência por 20 milhões de euros, mais eventuais 5 milhões em variáveis. Como as variáveis por norma são apenas para inglês ver, tanto que as SAD muitas vezes nem se dão ao trabalho de explicar como podem ser atingidos esses objetivos, teremos como referência os 20 milhões de euros. 

Ricardo Pereira, a um ano do final de contrato, sai basicamente pelo mesmo valor de Paulo Ferreira e Bosingwa, um transferido em 2004, outro quatro épocas depois. O mercado de transferências, desde então, inflacionou consideravelmente. Mas poderá o mesmo ser aplicável ao mercado dos laterais-direitos em particular?

Vejamos o top 12 dos laterais-direitos mais caros de sempre:


Desde logo, assinala-se o facto de quatro dos 12 laterais-direitos mais caros da história terem sido transferidos pelo FC Porto. E tirando Dani Alves, não vêem por aqui nenhum nome consagrado do futebol mundial.  O segundo em termos de palmarés será por certo Paulo Ferreira, seguido por Bosingwa.

O mercado de laterais-direitos é, por norma, propício a valores baixos. Mas vemos que a tendência é isso estar a mudar, como são exemplos as transferências recentes de Aurier, Zappacosta, Conti ou Nélson Semedo - nenhum deles é melhor do que Ricardo Pereira e todos eles foram transferidos por valores superiores. 

Por isso, 20 milhões de euros, considerando a qualidade e potencial atuais de Ricardo Pereira, são um número capaz de satisfazer os adeptos em plenitude? Provavelmente não, sobretudo quando tivermos em conta que a mais-valia poderá ser mais bem reduzida.  

Ricardo foi comprado ao Vitória de Guimarães em Abril de 2013, por 1,6 milhões de euros a troco de 80% do passe, mais 100 mil euros de encargos. No último R&C semestral da SAD, o FC Porto anunciou ter 88% do passe do lateral-direito. Na altura da transferência, Júlio Mendes disse que o Vitória de Guimarães ficou com uma parte de uma futura venda, mas não esclareceu se se estaria a referir à percentagem dos direitos económicos ou mesmo a uma futura transferência. 

Por exemplo, o FC Porto tem efetivamente 88% do passe de Ricardo, mas aquando da salgalhada que foi a transferência de Carlos Eduardo e de um dos irmãos Djim para as Arábias (leia-se, o facto de o FC Porto ter permitido/precipitado um negócio quando o Nice tinha direito de preferência sobre Carlos Eduardo) o Nice acabou por ficar com 15% de uma futura venda. 

Ou seja, o Nice não tem, na prática, direitos económicos de Ricardo Pereira, mas tem direito a receber 15% da futura venda do FC Porto. O caso de Marega também é ilustrativo: o FC Porto tem 100% dos direitos económicos do maliano, mas o Vitória de Guimarães tem direito a 30% da futura venda, percentagem que ficou definida aquando da transferência de Soares. 

Agora resta saber: o Leicester é quem paga os 12% do Vitória e os 15% do Nice?; o Leicester é quem paga o mecanismo de solidariedade FIFA?; o Leicester é quem paga as mais do que esperadas comissões pela concretização do negócio? A definição de todas estas parcelas é que ajudará a decidir quão boa - ou menos má - pode ter sido esta venda de Ricardo Pereira.


De qualquer forma, há que considerar ainda o factor «tempo». Sim, o FC Porto é campeão nacional. Mas a situação económica da SAD não mudou. Ser campeão em Portugal, por si só, não dá dinheiro - pelo contrário, acaba por dar é ainda mais despesa, pois a SAD tem que pagar os prémios pela conquista do Campeonato aos jogadores.

Logo, não é o facto de ser campeão em Portugal que melhora a situação financeira - o que permite isso é o factor UEFA, nomeadamente a qualificação direta para a Liga dos Campeões, que a partir de 2018-19 vai multiplicar os prémios e permitir um maior encaixe financeiro (ainda que, em contrapartida, a qualificação para a fase de grupos da Champions e para os próprios 1/8 de final se torne mais complicada de atingir).

Ora, e «tempo» era algo que o FC Porto não tinha no dossier Ricardo Pereira. O lateral ia entrar em final de contrato e a SAD não poderia permitir que um ativo chegasse a janeiro nesta condição contratual (Herrera e Brahimi estão na mesma situação, por isso ou renovam ou saem já). Logo, havia pressa em vender, sobretudo porque a SAD tem metas a cumprir por ter falhado o fair-play financeiro da UEFA. Há quem defenda que o Mundial 2018 poderia ser uma montra, mas sejamos francos; primeiro, não há garantia de que Ricardo seja titular na Rússia; segundo, os clubes interessados passaram uma época inteira a observar Ricardo, logo não haveria de ser por 2 ou 3 jogos num Mundial que iam decidir dobrar as suas propostas.

É de recordar que a SAD orçamentou, para 2017-18, um prejuízo de 17,27 milhões de euros. No final do primeiro semestre, o resultado negativo era de quase 24 milhões. Nos proveitos operacionais definidos a SAD não deverá ter dificuldades em cumprir as principais alíneas, mas há um setor sempre alarmante: os proveitos com transações de passes de jogadores.

Excerto do acordo entre a UEFA e o FC Porto para o FPF
No final do R&C do primeiro semestre 2017-18, a SAD teve proveitos de apenas 8,4 milhões de euros, tendo basicamente tido apenas uma venda relevante - a transferência de Bruno Martins Indi para o Stoke. 

Tendo em conta que a SAD projetava custos operacionais de 19,7 milhões de euros negativos, mais 35,5 milhões de euros em amortizações de passes, o FC Porto teria que registar, em 2017-18, 55 milhões de euros em proveitos com transações de passes de jogadores. Ora, a venda de Ricardo Pereira mantém o FC Porto longe desse valor, por isso podemos esperar que mais um titular possa ser alvo de uma transferência a curto prazo.

Para já despedimo-nos de Ricardo Pereira, com votos de sucesso em Inglaterra, e deixamos uma sugestão para o lugar de lateral-direito. Há por aí um miúdo bem jeitosito, de apenas 19 anos, mas com qualidade para o curto prazo e potencial enormes; anda há meses a ser observado por clubes como Bayern e Barcelona, e apesar de ter pouca experiência de equipa A já houve um clube a acenar com uma proposta bem próxima dos 20 milhões de euros da sua modesta cláusula de rescisão. Chama-se Diogo Dalot. E está também a entrar em final de contrato. Renovar com Dalot colmata, desde logo, a saída de um titular e assegura um lateral de qualidade e portismo inquestionáveis para as próximas épocas. Querem melhor? 

domingo, 28 de janeiro de 2018

O que pode Gonçalo Paciência trazer à equipa

O FC Porto não tem grande tradição em repescar jogadores no mercado de inverno. Quem está emprestado, por norma, termina a época longe do Dragão. Kelvin, por exemplo, voltou ao FC Porto em 2017 para jogar 21 minutos na I Liga e Hélder Barbosa interrompeu a sua evolução na Académica, em 2008, para jogar pouco mais no regresso ao Dragão. 

Mas quando não há disponibilidade para investir e há o fair-play financeiro da UEFA à perna, algo que limita o FC Porto a empréstimos ou oportunidades muito específicas de negócio, há que olhar para dentro. E subitamente, com a Taça da Liga, o nome de Gonçalo Paciência regressou ao debate portista, agora que está finalmente a fazer a primeira época consistente na carreira sénior. 

Em 2014-15, Lopetegui quis que Gonçalo ficasse no plantel para a segunda metade da época, mas revelou-se um erro, pois acabou por não haver espaço para que fosse aposta. Seguiu-se o empréstimo a uma Académica medíocre, com um plantel fraco e mau futebol. Difícil esperar que Gonçalo fosse o milagreiro no meio daquele caos.

A cedência ao Olympiacos revelou-se uma solução ainda pior. Ainda que tenha sido uma solução encontrada por quem o representa - a ProEleven -, o clube grego iria, logicamente, tentar rentabilizar os seus próprios ativos em vez de dar minutos a um jogador emprestado, que chegava ao clube por intermédio do seu representante. Felizmente, a cedência foi interrompida em dezembro. Entre o fantasma das lesões e da falta de minutos, Gonçalo chegou ao Rio Ave, mas na altura o plantel vila-condense já estava formado e só encontrou protagonismo como suplente utilizado. 

No Vitória de Setúbal, enfim, Gonçalo Paciência tem finalmente o espaço desejado. E tem também números para acompanhar o seu rendimento: 11 golos e 6 assistências. A questão é: faria sentido o FC Porto promover o seu regresso se não fosse para jogar? Agora que Gonçalo está finalmente a jogar com continuidade, deveria o clube correr o risco de o fazer regressar para, depois, talvez ser a última opção da linha para o ataque?

Tudo passa, naturalmente, pela vontade de Sérgio Conceição. Mas olhando aos jogadores já recrutados no mercado de inverno - Paulinho e Waris -, ambos servem os propósitos já ensaiados no 4x4x2: avançados a jogar em profundidade. Ora, Gonçalo Paciência não pode ocupar essa função. Não é jogador para ganhar metros nas costas da defesa. É muito forte fisicamente, não deve muito nesse âmbito a Aboubakar ou Marega, mas não tem a velocidade e a capacidade de comer metros no último terço que os avançados africanos do FC Porto têm. 

Então, o que poderia acrescentar Gonçalo Paciência ao FC Porto?


Desde logo, a capacidade individual que, muitas vezes, se resume a Brahimi no ataque do FC Porto. Gonçalo Paciência é o 3º principal driblador do Campeonato, neste momento só atrás de Brahimi e Gelson Martins. Gonçalo tem 36 dribles eficazes na Liga - Marega e Aboubakar, juntos, têm 38. 

Há que ter em conta que o Vit. Setúbal é uma das 5 equipas que menos tempo tem a bola em seu poder no Campeonato. Logo, cada ação de Gonçalo com bola tem valor acrescido nesse aspecto. Por exemplo, na quantidade de faltas que consegue arrancar: já leva 57 no Campeonato, mais do que o jogador mais castigado do plantel do FC Porto, Brahimi, com 51. O mesmo é dizer que Gonçalo Paciência sofre mais faltas do que Marega e Aboubakar juntos (53). Numa equipa como o FC Porto, que sobretudo nos grandes jogos depende bastante das bolas paradas para chegar ao golo, é sempre bom ter um jogador a arrancar faltas nos últimos 30 metros. 

No 4x4x2 do FC Porto, muitas vezes, Aboubakar baixa para junto da linha média, para ir buscar jogo, enquanto Marega se prepara para atacar as costas da defesa. Gonçalo Paciência só poderia desempenhar a primeira função, a de jogar mais recuado, pois é nisso que é mais forte: receber, aguentar a pressão, explorar situação de 1x1 ou apostar desde logo no remate de meia distância. É pouco habitual ver o FC Porto rematar de fora da grande área com os seus avançados: Brahimi, Aboubakar e Marega têm 24 tentativas em conjunto... tantas quanto Gonçalo. Mas a verdade é que também são poucas as vezes em que esses remates se traduzem em golo. 

Gonçalo Paciência é o 6º mais rematador do Campeonato, com 47 disparos, menos do que Aboubakar (57) ou Marega (63), mas comparando com os avançados do FC Porto recebe muito menos vezes a bola na grande área. Daí que, embora remate mais de longe, tenha muitas poucas oportunidades para disparar nos últimos 15 metros. 

Mas nem tudo é um mar de rosas no rendimento de Paciência no Bonfim, havendo claramente alguns dados que o limitam enquanto opção para o que resta da época. Desde logo, o facto de ser o jogador com mais perdas/receções de bola falhadas no Campeonato, com 71, à frente do reforço de inverno Paulinho. O facto de jogar muitas vezes desapoiado no ataque do Vit. Setúbal não ajuda, claro. 

Além disso, tirando os guarda-redes, Gonçalo Paciência é o jogador da I Liga com maior percentagem de passes falhados: falhou 46% dos seus passes. Mas tendo em conta que Marega (continua a ser o pior passador do plantel, mas subiu para uma eficácia de 68,6%) liderou durante várias jornadas esta estatística, também não haveria de ser isso a riscar Gonçalo do mapa de possibilidades.

Porém, há algo que ajuda a explicar isso mesmo. No Vitória de Setúbal de Couceiro, Gonçalo Paciência é exposto muitas vezes à seguinte situação: receber mais atrás, rodar e tentar o passe em profundidade. Ou seja, Gonçalo não recua para fazer tabelas, jogar para trás ou ser um mero apoio: recua para segurar a bola e ser ele próprio o lançador do ataque. 

Isso explica porque é que 65,3% dos passes de Gonçalo Paciência são feitos para a frente, enquanto no FC Porto a maior parte dos passes de Marega e Aboubakar são feitos para trás - 55,1% para o maliano e 51,9% para o camaronês. Além disso, os africanos do FC Porto jogam num raio de ação mais curto, com passes médios de 14 a 15 metros, enquanto Gonçalo tem uma média de passe de 18 metros. Ou seja, é muito mais exposto ao risco e não tem tantas soluções para jogar curto. 

Por fim, as ocasiões de golo criadas na Liga. Aboubakar leva 15, Marega 14 e Gonçalo Paciência... 14. Ou seja, numa equipa que tem menos posse de bola, que ataca menos e que tem menos qualidade, o avançado português consegue, ainda assim, criar tantas ocasiões de golo como os ponta-de-lança do FC Porto. Diferente, muito diferente, mas não menos produtivo. 

Agora tem a palavra Sérgio Conceição. 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Um municiador e uma seta

Depois de uma importante e difícil vitória frente ao Tondela, com um golo que caiu do céu, e da atípica visita ao Estoril, num jogo em que o FC Porto entra em campo com 4 laterais e vê-se forçado a deixar o resultado em suspenso durante cinco semanas, eis que Sérgio Conceição conta finalmente com duas novas unidades no Olival. 

Waris e Paulinho são contratações que despertam diferentes expetativas. Se o médio brasileiro já não é uma novidade - já interessava em maio, bem antes da chegada de Sérgio Conceição, e já era expectável que a SAD recrutasse pelo menos um jogador ao Portimonense -, o avançado ganês é uma surpresa absoluta e que foge por completo ao tipo de contratações levadas a cabo pelo FC Porto nos últimos anos.

Antes de uma breve apreciação aos dois jogadores, uma retrospetiva sobre as contratações de inverno do FC Porto nos últimos anos:

2017 - Soares
2016 - Suk, Marega, José Sá
2015 - Hernâni
2014 - Quaresma
2013 - Liedson e Izmaylov
2012 - Lucho, Janko e Danilo (já previamente contratado)
2011 - 0
2010 - Rúben Micael e David Addy
2009 - Cissokho e Andrés Madrid
2008 - 0
2007 - Lucas Mareque e Rentería.
2006 - Anderson e Adriano.
2005 - Leandro, Léo Lima, Ibson, Leandro Bonfim, Pitbull.
2004 - Sérgio Conceição, Carlos Alberto e Maciel. 

O padrão é claro: em janeiro, o FC Porto tem por hábito contratar apenas jogadores já totalmente familiarizados com o futebol português. Nos últimos 10 anos, excetuando o caso específico de Danilo (que já tinha sido contratado ao Santos, mas a sua chegada ao Dragão foi adiada para janeiro), apenas dois jogadores não tinham experiência de I Liga - Janko, ponta-de-lança que correspondia a um perfil desejado por Vítor Pereira para o ataque, e David Addy, uma contratação que não teve base desportiva. 

Outro pormenor que se destaca é que o FC Porto não tem sido, de facto, feliz nas suas compras de inverno. Nos últimos 5 anos, apenas Quaresma e Soares conseguiram ter impacto como verdadeiros reforços de inverno. José Sá e Marega estão atualmente a ser titulares, mas em 2015-16 não acrescentaram nada ao plantel. 

Porque um reforço de inverno implica isso mesmo: ser capaz de dispensar o período de adaptação e encaixar logo na equipa. Nesse âmbito, Paulinho é uma boa adição ao plantel. Chega ao FC Porto já adaptado à I Liga e com muita rodagem competitiva, restando saber que lugar Sérgio Conceição terá para ele no plantel.


Os melhores jogos de Paulinho no Portimonense foram feitos no miolo, mas o brasileiro pode jogar descaído para os flancos - e deverá ser precisamente por aí, como alternativa a Corona, que Sérgio Conceição pensará no brasileiro, pelo menos para o 4x4x2. É sabido que Sérgio Conceição não dispensa a dimensão física no meio-campo, por isso Paulinho poderá ter dificuldades em fazer o papel de Herrera, mas pode entrar no 4x3x3. 

Paulinho, na apresentação, disse que espera acrescentar algo ao FC Porto no capítulo do último passe. E é precisamente esse o cartão de visita do brasileiro: a capacidade de meter a bola em zonas de finalização. O atleta de 23 anos é o médio que mais ocasiões de golo cria em todo o Campeonato, com 2,3 passes para finalização por jogo e um total de 44 ocasiões criadas. Em toda a Liga, melhor só Alex Telles, com 56.

No entanto, Alex Telles destaca-se sobretudo nas bolas paradas, daí que crie tantas ocasiões de golo. Excluindo as bolas paradas e pensado apenas nos passes curtos no último terço, Paulinho é jogador da Liga que mais ocasiões de golo já criou: 37, à frente de Bruno Fernandes (29), Alex Telles e Brahimi (28). 

Paulinho é, por isso, um jogador que vai «alimentar» os avançados do FC Porto e ajudar a colocar muitas vezes a bola em zonas de perigo. Mas embora não seja um jogador veloz, Paulinho também acrescenta qualidade individual - é o 2º jogador com mais dribles completos na Liga, com 43, só atrás de Brahimi, que já leva 101. Gelson Martins também tem 43 dribles eficazes, mas já falhou 33 tentativas, enquanto Paulinho falhou apenas 16. 

É este o cartão de visita de Paulinho, restando saber quanto custará a sua eventual inclusão a título definitivo no plantel. Tendo em conta que a SAD do Portimonense é controlada por Teodoro Fonseca, e que o clube de Portimão não iria simplesmente emprestar um jogador-chave ao FC Porto sem garantias de nada, resta saber quanto terá o FC Porto, no futuro, que desembolsar por esta operação - e se será (apenas) efetivamente Paulinho a ser contratado. 

Convém recordar que o Portimonense nunca vendeu um jogador por mais de 1 milhão de euros, logo, ouvir falar em valores de 6 a 10 milhões de euros por jogadores como Paulinho ou Nakajima, que têm 20 jogos de I Liga na carreira num clube que está 4 pontos acima da linha de água... Não combina. Contratar qualidade sim, sobrevalorizar na hora da compra não. 

Paulinho é, assim, uma boa adição ao plantel. Já Waris... é uma incógnita, uma surpresa total, um tipo de contratação que não é habitual ver o FC Porto fazer. Waris estava na II liga francesa e praticamente não joga desde o início de novembro - fez apenas 26 minutos desde então. Não é um jogador com o ritmo competitivo recomendável para encaixar já na equipa. 

Waris começou no futebol sueco e estreou-se em 2012 na Europa. Não se adaptou minimamente ao Spartak Moscovo e também teve uma experiência pouco produtiva no Trabzonspor, da Turquia. Só na Liga francesa deu algum ar da sua graça, com 29 golos em 72 partidas. Pode não parecer muito, mas é, por exemplo, uma média de golos muito superior à que Aboubakar trouxe de França (26 golos em 108 partidas). Logo, o registo passado pode significar muito pouco: Waris pode perfeitamente marcar muito mais pelo FC Porto do que marcava pelo Lorient.


Na pré-época, Waris esteve perto de ir para a Premier League, para o Burnley, mas a transferência gorou-se e isso contribuiu para que a sua permanência no Lorient não fosse pacífica, até porque era o jogador mais bem pago do plantel. E como é claro, um jogador que passa da hipótese de ir para a Inglaterra à Segunda Liga francesa não fica particularmente satisfeito. 

Waris faz todas as posições do ataque, polivalência que não existia no plantel do FC Porto, embora em França tenha jogado quase sempre no eixo central. Não tem a dimensão física de Aboubakar e Marega, mas é um avançado bastante veloz, forte nas diagonais e bom a explorar o espaço nas costas da defesa, caraterísticas que são do agrado de Sérgio Conceição. No entanto, taticamente não é um jogador particularmente evoluído e sempre apresentou algumas dificuldades no 1x1, fazendo sobretudo da velocidade a sua principal arma, não tendo a capacidade de Aboubakar ou Marega para segurar a bola. Enquanto Aboubakar e Marega conseguem ganhar metros no choque com os defesas, Waris procurará fugir dos defesas e atacar o espaço. 

É portanto um avançado com caraterísticas diferentes. Neste momento é essencial perceber se Waris está bem fisicamente e com ritmo competitivo para entrar na equipa, além de ter que se adaptar a uma nova realidade - em França, no Lorient, jogava para o pontinho e em contra-ataque; aqui terá que se encaixar numa equipa dominadora, que nem sempre terá o espaço que Waris procura nas costas da defesa adversária. 

Sérgio Conceição diz que conhece Waris da Liga francesa. Posto isto, só podemos mesmo esperar que Conceição conheça e deseje Waris mais do que Nuno Espírito Santo conhecia ou desejava Depoitre. 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A ausência de reforços (nunca) explicada

Começando por uma pequena nota de lamento pela ausência recente, que incluiu a apreciação sobre a bela vitória do FC Porto em Braga. O mercado fechou e, pela primeira vez em décadas de FC Porto, não houve nenhum reforço oriundo do mercado de transferências. Sobra a questão: não vieram reforços por SAD e/ou treinador acharem que não era necessário; ou porque não havia meios para os contratar? Tudo vai ao encontro da segunda opção.

Mas recuemos até ao dia da apresentação de Sérgio Conceição no FC Porto. Pinto da Costa deixou esta intervenção: «Os dois reforços que me pediu, não haverá possibilidade, porque me pediu o Messi e o Ronaldo. Não pode ser, embora lhe tenha custado a aceitar. Não estou preocupado com isso, porque foi por isso que escolhi o Sérgio, para poder, com os jogadores que tivermos, fazer uma equipa competitiva para ganhar».

Talvez nem o próprio Pinto da Costa imaginaria o quão sincero estava a ser. Sérgio Conceição teve que fazer precisamente isso: pegar no que tinha e fazer uma equipa competitiva. Soares lesionou-se e teve que pegar em Marega, um jogador que encabeçava qualquer lista de dispensas; passou o mês de agosto sem uma única alternativa ao eixo do ataque no banco; foi forçado a mexer na estrutura e tática da equipa quando não podia, simplesmente, mudar apenas um jogador. Sérgio Conceição fez o máximo que podia fazer com o que tinha. E fê-lo bem. 

Sérgio Conceição adora desafios, e este é o maior que pode ter. Certamente que não terá maior gozo do que se tornar no treinador a que menos investimento teve direito na história do FC Porto, mas ainda assim chegar ao título. Mas a revelação de Valentin Rongier, médio do Nantes que afirmou que Sérgio Conceição o convidou para ir para o FC Porto, levanta uma grande questão. Ou o jovem francês está a mentir, ou então de facto Sérgio Conceição queria uma adição ao seu plantel. Mas queria o quê? Especificamente Rongier? Ou queria um médio, e Rongier correspondia a esse perfil?

Ninguém acreditará que Sérgio Conceição não queria reforços. Não há treinador no mundo que não queira adições ao seu plantel, sobretudo numa equipa onde não há sequer o requisito mínimo de ter dois jogadores por posição. Sim, temos a equipa B, e há muito que os adeptos ansiavam em ver a equipa B complementar a equipa principal. Mas repare-se que, mesmo perante a ausência de avançados, Sérgio Conceição nem sequer considerou ir buscar alguém à equipa B para fazer número. O que deixa desde logo antever que, mesmo que falte alguém na equipa A, Sérgio Conceição não aparenta estar convencido de que haja alternativas à altura na equipa B. 

Enquanto a equipa ganha tudo está bem para as massas, é um clássico. Mas não há maior erro do que não aprender com os erros do passado. O FC Porto também abriu o pós-Vítor Pereira com chocolate, a ganhar uma Supertaça e a arrancar com seis vitórias consecutivas. Mas mais à frente, no decorrer da época, concluiu-se que se calhar Josué e Licá não eram os melhores substitutos para as saídas de Moutinho e James. Esperemos que, dentro de três meses, o otimismo não se deixe tomar por uma realidade em que André André, Hernâni ou Marega se calhar são curtos para recuperar de um mau resultado. 

Mas neste caso, o FC Porto não perdeu nenhum Moutinho ou James. Saiu André Silva, mas Aboubakar pode garantir sem problemas os mesmos números do agora jogador do AC Milan. Saiu Rúben Neves, que não era titular, logo também não se pode falar aqui de uma baixa no 11 base da época passada. Então, qual é o problema? Profundidade, alternativas de melhor qualidades aos elementos da equipa A, dar condições a Sérgio Conceição, dar algo mais do que uma lista de dispensas a um treinador que largou tudo para se vir meter no meio da fogueira. E há que considerar a mudança de sistema tático, que pede mais alternativas no ataque e um perfil mais específico no meio-campo. 

A SAD não prestou explicações depois da última época. Nenhuma palavra sobre a saída de Nuno Espírito Santo ou um balanço da última temporada. E depois do ponto mais baixo da história recente do FC Porto - não, bater no fundo não é perder com o Tondela, é ser o único clube a ser punido pela UEFA na última temporada por falhar o FPF -, seria importante explicar os constrangimentos que existiram no mercado esta época.

Por exemplo, para 2017-18, o FC Porto só pôde inscrever 22 jogadores na lista A da Liga dos Campeões, menos 3 do que o normal. Se é certo que o clube raramente preenche sequer uma das quatro vagas para jogadores da formação (o prolongamento do falhanço que já vem desde o V611), o plantel torna-se ainda mais curto. Por exemplo, para o primeiro jogo já está garantido de que não haverá ponta-de-lança suplente no banco, pois Aboubakar está castigado. Não há uma alternativa natural. Como arrisca não haver quando qualquer jogador do meio-campo para a frente não estiver disponível. 

Mas o que mais se destacou do comunicado da UEFA, e que não teve a atenção devida, foi este detalhe:


O FC Porto aceitou, segundo as restrições da UEFA, reduzir «significativamente» os seus gastos no mercado de transferências. Quão? Aparentemente, para valores bem próximos do zero. A SAD não investiu porque não podia, porque a gestão financeira falhou redondamente, uma vez mais, na última temporada. E agora? Agora esperam que Sérgio Conceição não se limite a fazer omeletes com os ovos que tem: ainda lhe vão pedir uns quantos bolos. 

Agora o clássico quando o ataque ao mercado parece curto: a história de que os reforços são os jogadores que se conseguiu segurar no plantel. Mas entre todos os ativos que estavam no clube, provavelmente só Danilo Pereira (Ricardo Pereira também, embora não estivesse no plantel na temporada passada) seria candidato a uma boa venda. E ainda assim, de todo o bolo numa eventual transferência, o FC Porto provavelmente só chegaria a gerar pouco mais de metade de mais-valia com a saída de Danilo. E o mesmo vale para Ricardo Pereira. 

Mas a concluir, um pormenor que também faz a diferença. Diz-se que «o FC Porto só gastou com Vaná». Não, o FC Porto não gastou só com Vaná. O FC Porto desperdiçou com Vaná. O que diz a compra de Vaná é que o FC Porto tinha um pouco de dinheiro para investir. Então e o que fez o FC Porto com o pouco que tinha? Comprou um jogador que não era necessário, nem sequer como suplente. Se é certo que era muito difícil encontrar um médio ou um avançado por um valor na casa do milhão de euros, no pouco que o FC Porto poderia gastar, gastou onde não era necessário. Que lógica tem isto?

E agora sobra a expetativa de ver que mérito poderá ter a SAD este ano que não tenha tido o ano passado, porque o plantel é quase o mesmo. Saídas? As únicas relevantes foram ambas tratadas por Jorge Mendes (Rúben Neves e André Silva). Reforços? Nada. A SAD praticamente não mexeu no plantel desta época, e ainda não renovou com 3 ativos em final de contrato (Reyes, Marcano e Aboubakar). Que mérito se poderá ter este ano que não se teve no ano passado? Provavelmente, dirão que «não se gastou dinheiro com Depoitres». A sério que o mérito que sobra é esse? O não errar? Pois, quem não tenta acertar, também não erra. 

A luta desta época é com Sérgio Conceição e com o grupo por si orientado. São eles que merecem o apoio dos adeptos nos meses que se seguem, e que não estarão dependentes do mês de maio para serem alvo de apreciação. Não se pode exigir nada a quem não teve nenhuma das suas exigências preenchidas. 

Sérgio Conceição não teve um único reforço por consequência da péssima gestão financeira que se apoderou da SAD nos últimos anos. E o que faz ele? Está a preparar a equipa para a 5ª vitória consecutiva e para se manter na liderança da Liga. Vontade de trabalhar e vencer nunca faltará. E esperemos que também não sobrem papas na língua no final da temporada. 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Uma conversa entre Mística e Cifrão

Mística - Um dia triste para o Futebol Clube do Porto...

Cifrão - Calma, Mística, que eu tenho uma coisa para te animar: vendemos um suplente por cerca de 18 milhões de euros! Não é incrível?

Mística - Essa é a tua alegria, Cifrão? O menino que deliciava os adeptos aos 17 anos, que carregou a braçadeira de capitão aos 18 e que foi apresentado pelo próprio presidente como o sucessor de João Pinto, é descrito por ti como o «suplente»? Isso leva-me a pensar em todos os outros grandes negócios que perdemos por não termos vendido suplentes como João Pinto, Jaime Magalhães ou Domingos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. O Rúben Neves estava há 3 anos a trabalhar com o plantel principal. Só se revelou com Lopetegui, e mesmo assim, assim que Casemiro esteve pronto, Lopetegui não mais prescindiu dele. De resto, Rúben Neves nunca esteve perto de ser um titular indiscutível...

Mística - É esse o problema dos talentos precoces. Tu, Cifrão, e tantos outros esquecem-se que esta foi a primeira época de sénior de Rúben Neves. A primeira!

Cifrão - E então? Diz-me lá: achas que Rúben Neves foi mais importante na posição 6 do que foram Paredes, Costinha, Paulo Assunção ou Fernando? Não brinques, Mística, há que ser pragmático: o Rúben Neves sai por mais dinheiro do que todos estes juntos, sem ter feito um terço do que esses fizeram!

Mística - Curioso que fales desses nomes, Cifrão. Rúben Neves tem 20 anos feitos em março. A mesma idade com a qual Paredes era suplente do Olimpia e Paulo Assunção do Palmeiras. Costinha estava no Oriental. Fernando chegava do Brasil para ser emprestado ao Estrela da Amadora. Por alguma razão, muitos esperavam que Rúben Neves fizesse o que poucos fizeram no FC Porto: ser titularíssimo aos 20 anos. 

Cifrão - Percebe uma coisa, Mística. Com a saída do Rúben Neves, é possível segurar o Danilo Pereira! E tens que concordar que, neste momento, o Danilo não só é o melhor 6 do futebol português como assenta que nem uma luva na descrição de jogador à Porto! O que é melhor: sair o Rúben ou o Danilo?

Mística - É aí que erras, Cifrão. Noutros tempos, o FC Porto pensaria no Rúben Neves como o sucessor de Danilo, em vez de estar a pensar em vender o Rúben Neves para segurar o Danilo. O que vemos é Rúben Neves a pagar a fatura dos erros da administração da SAD do FC Porto, cujo responsável financeiro dá passadas largas para meter os tempos áureos do Sporting de Godinho Lopes no bolso. 

Cifrão - Sê realista, isto é negócio! Imagina que o Rúben passava mais uns meses no banco, ou que se lesionava? Já não havia negócio para ninguém!

Mística - Bem, nesse caso é melhor vender já todo o plantel, não vá alguém lesionar-se na pré-temporada. Após tanto termos condenado a teia da qual a formação do Benfica e Jorge Mendes fazem parte, queres rejubilar com esta venda do Rúben Neves, que sai por pouco mais do que um tal de Hélder Costa?

Cifrão - E então? Imagina lá o que devem preferir os benfiquistas: ter um plantel com Bernardo Silva, João Cancelo e Hélder Costa ou serem tetracampeões? Queremos jogadores ou títulos?

Mística - Não é uma questão de jogadores vs. títulos, pois estás a comparar meios com fins. Rúben Neves é o tipo de jogador que ajudaria o FC Porto a ganhar troféus. Neste caso, sai muito antes de poder meter as mãos num caneco. Outrora, os jogadores cumpriam o ciclo de valorização, que coincidia com a conquista de títulos, antes da saída; agora saem antes de conquistar títulos e muito antes de atingirem o seu pico de valorização. Não é por acaso que o FC Porto nunca se preocupou em vender Fernando, Paulo Assunção ou Costinha num pico de valorização: eram jogadores que interessavam mais desportivamente do que financeiramente.

Cifrão - Mas talvez nunca nenhum desses jogadores tenha tido a proposta que teve Rúben Neves, senão também teriam saído. Insisto, o Rúben Neves está a sair por mais dinheiro que todos os grandes médios defensivos que tivemos, e não teve metade da importância que cada um desses teve! Como pode isto ser um mau negócio?

Mística - É um mau negócio não pelo rendimento que Rúben Neves teve na equipa principal, mas por aquele que já não o vão deixar ter. Não estamos a falar de um jogador com talento que podia resultar ou não, de um sul-americano que precisa de um longo período de adaptação ou de um jogador a precisar de evoluir taticamente. Rúben Neves estava pronto e preparado para render mais. Poderia até haver compatibilidade com Danilo no meio-campo.

Cifrão - E quem deixava de jogar? Temos variadas opções para o meio-campo, desde Óliver a Herrera...

Mística - O mesmo Herrera por quem rejeitaram 30 milhões de euros para agora estar a vender Rúben Neves por pouco mais de metade? Questiono esta lógica de gestão. Rejeitam 60 milhões por André Silva para depois o vender por 38. Rejeitam 30 pelo Herrera para depois vender Rúben Neves por cerca de 18. 

Cifrão - Sabes, o FC Porto não comanda todo o mercado... Pode haver uns meses em que uns clubes estão a oferecer mais, outros em que oferece menos. Infelizmente, a SAD tem que decidir no momento, enquanto os adeptos têm a facilidade de poderem mudar de opinião de um mês para o outro, dependendo do momento de forma de cada jogador. 

Mística - Mas o que decide a SAD? Até agora, a única coisa que se viu foi Jorge Mendes a levar dois dos seus jogadores, Rúben Neves e André Silva, e Sérgio Conceição com zero reforços. Que fez a SAD no meio destas operações? Já sei. Deu 10% do passe de André Silva (ou 10% da mais-valia - os jogadores da formação geram sempre mais valias mais elevadas, por não haver direitos de formação a pagar a outros clubes) a António Teixeira, quando a Promosport nem o representava. E sobre Rúben Neves? Deu 5% ao irmão de Adelino Caldeira, além de lhe ter pago 225 mil euros só pela renovação e uma soma de 100 mil euros por 20 jogos disputados. Sendo que José Caldeira podia ganhar mais 5% dependendo da concretização de uma proposta. A isto junta agora as comissões que Jorge Mendes vai receber das duas vendas. De facto, isto tem sido uma trabalheira para a SAD. 

Cifrão - Eh pah, outra vez a falar nisso? Preocupa-te é com os e-mails e com os esquemas de corrupção a envolver o Benfica. Temos que apontar as armas para fora, não é para dentro!

Mística - Sabes, Cifrão, por mais graves que as práticas do Benfica sejam, isso não vai resolver os problemas do FC Porto internamente. Continuamos a ter graves problemas financeiros, continuamos a ter o fair-play financeiro à perna, continuamos com problemas na gestão de ativos do plantel. Nada, nada dos problemas internos do FC Porto mudou com a divulgação dos e-mails. A não ser que a Gmail seja apresentada como reforço e que garanta 30 golos esta época, desportivamente, não te iludas: isto não muda nada no FC Porto, apenas condiciona o modus operandi do Benfica dos últimos 4 anos. Se acham que a única forma de fortalecer o FC Porto é enfraquecendo o Benfica, isso constata que se preocupam mais com a casa dos outros do que com a nossa. Não me parece o caminho correto.

Cifrão - Inacreditável. Repara, com as saídas de André Silva e Rúben Neves, devemos garantir uma mais-valia acima dos 40/45 milhões de euros com dois jogadores que não estavam a ser, sequer, titulares indiscutíveis! Num passado bem recente, era normal o FC Porto vender dois ou até três titulares por época. E a máquina funcionava! Já vendemos melhores por bem menos! Neste caso, não sai nenhum titular verdadeiramente indiscutível, e ainda assim queixam-se?

Mística - Sim, pois estas vendas são consequências de erros gravíssimos de questão. A forma como têm relativizado o falhanço do fair-play financeiro é altamente preocupante. Eu ainda me lembro de ouvir Fernando Gomes dizer, no início de 2016, que o contrato com a PT ia permitir «gerir o FC Porto de outra forma». É esta a forma de que falavam? Desde então, o que fizeram? Apresentaram o maior prejuízo da história da SAD, de quase 60 milhões de euros; falharam o FPF; venderam Rúben Neves e André Silva em saldos (atenção, não digo que os 38 milhões tenham sido maus, não foram - mas se o presidente diz que antes rejeitou 60 milhões por ele, então não foi o melhor negócio possível), e já cometeram a proeza de antecipar 57 milhões de euros do contrato com a PT, que só devia começar em junho de 2018. São pelo menos 12,5% já utilizados de um contrato que só arrancava dentro de um ano. Os treinadores vão saltando e os responsáveis por este caos seguem imaculados. 

Cifrão - Não te desvies do essencial, Mística. Para a história, fica que vendemos um suplente por 18 milhões de euros. O mais próximo disso ter acontecido foram as vendas do Imbula e do Iturbe, que não permitiram grandes mais-valias mas cujo bolo total foi bem apetecível. A venda de Rúben Neves foi ainda melhor. Concluo, o FC Porto está mais rico.

Mística - Não, Cifrão. O portismo está mais pobre.