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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quercus Suber L.

«O Rui Pedro só está no FC Porto em virtude da empresa onde Alexandre Pinto da Costa era sócioJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Retemos esta frase do presidente do FC Porto na sua entrevista ao JN. Sensivelmente 24 horas depois de um trabalho particularmente interessante da Mediapart ter sido publicado em França. Leituras aqui e aqui.
O valor da cortiça

Descobrimos que Alexandre Pinto da Costa é um herói, o responsável pela presença de Rui Pedro no plantel do FC Porto. O ramo da cortiça é muito valioso em Portugal. Representa cerca de 0,7% das exportações do PIB. Mas desconhecia-se que a cortiça pudesse ter tamanha valia.

«Si le joueur Rui Pedro Silva participe à dix matchs, Alexandre touchera 100 000 euros. Cela peut singulièrement compliquer la tâche de l’entraîneur du club, qui cherche à préserver son poste. Doit-il engraisser la famille du président? Ou sélectionner la meilleure équipe possible?»

Diz portanto a investigação da Mediapart que Alexandre Pinto da Costa receberá 100 mil euros após 10 jogos que Rui Pedro fizer na equipa principal, levantando ainda suspeitas sobre se isso não irá interferir nas opções de Nuno Espírito Santo (algo que é grave). Não admira que Américo Amorim seja o homem mais rico de Portugal. Aparentemente, a cortiça sai mesmo cara.

Apenas uma outra frase, que nos leva para um tema mais abrangente: «Vamos aproveitar cada vez mais os que nascem cá em vez de jogadores da Nigeria, Malásia, MaliJorge Nuno Pinto da Costa, 12-12-2016

Uma mudança de política que já tinha sido associada à entrada de Luís Gonçalves na estrutura. Curioso é que o FC Porto, que tem vários nigerianos ligados ao clube que implicaram investimentos recentes (Chidozie, Ezeh, Moses, Mikel, Musa - que nunca jogou pela B mas é muitas vezes chamado para treinar na A), assuma esta posição 24 horas depois de isto ter sido publicado.

Quando foi divulgado o mapa de intermediários da FPF, O Tribunal do Dragão assinalou a polivalência do empresário Edmund Chu, intermediário de Ezeh e Chidozie. «Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente.»

Agora a referida investigação conta que em 2012 o FC Porto assinou um contrato com a RAMP, que tinha como missão indicar jogadores ao FC Porto de Gana, Congo, África do Sul, Zâmbia e Nigéria. A RAMP fica com uma comissão de 18 mil euros, torna-se parte interessada de uma futura venda do jogador e até 2015 assume 25% do passe do atleta. Um exemplo comprovado já tinha sido o caso de Fidélis, agora no Portimonense, o clube que mais tem recebido/trocado nigerianos com o FC Porto. 

A investigação da Mediapart, feita com documentos através do Football Leaks (que muitos parecem preferir fingir que não existem a desmenti-los), diz que com o fim da partilha de passes com terceiros o FC Porto passou a remunerar melhor os intermediários: 75 mil euros por cada vez que um jogador fizer cinco jogos pela equipa B (por norma só são considerados jogos em que o jogador atue pelo menos 45 minutos) e o direito de ser agente do jogador no futuro.

Isto levanta questões. Lembram-se de Mbola? Integrou a equipa B em 2012, ano em que o suposto acordo com a RAMP foi assinado. É um jogador da Zâmbia, um dos países referidos no acordo de observação.

Mbola era um jogador sem qualidade. Basta recordar a sua estreia na equipa B: 5 minutos em campo e foi expulso. Desde então, tornou-se uma opção fantasmagórica na equipa B. Fez um jogo a titular em novembro, outro em dezembro, outro em março. Chegamos a maio e às duas últimas jornadas do campeonato. Mbola faz os dois jogos a titular e, com isso, chega aos 5 jogos como jogador do FC Porto, precisamente a quantidade referida pela Mediapart. Foi embora no final da época e nunca mais ouviram falar dele. Até onde sabemos, coincidências. Na proveniência do jogador, no número de jogos. Coincidências. Muitas. 

A Mediapart fala detalhadamente sobre Chidozie. Diz que o FC Porto pagou 500 mil euros ao Riverlande Youth Club e 75 mil euros de comissão «em nome próprio» a Edmund Chu. «Um montante superior aos 10% autorizados». Calculam então que cada jogador menor pode permitir um encaixe de 975 mil euros à RAMP. 

Porquê? São acusações gravíssimas que aparecem nesta investigação e que, perante qualquer ato de transparência, princípio ético e legalidade, só têm que ser desmentidas pelo FC Porto. A saber: «Na correspondência a que tivemos acesso, o agente Saif Rubie, descontente com a forma como o FC Porto tratou o jovem ganês Christian Atsu, ameaçou contar aos media a maneira como o clube se comporta de início ao fim, incluindo os acordos com a RAMP e todas as vantagens usufruídas pelo clube com os contratos assinados com jogadores africanos jovens vulneráveis». 

Passando depois a um caso já aqui conhecido, o de Generoso Correia, um negócio muito... generoso. Questionando ainda o envolvimento de D'Onofrio, que no último verão trouxe Depoitre e que segundo estas contas já faturou 10 milhões de euros em comissões com o FC Porto, com o Benfica também envolvido. Dinheiro esse que terá sido escondido em offshores, mas quanto a isso os adeptos do FC Porto só podem estar descansados. Afinal Pinto da Costa deixou claro que o FC Porto não opera em offshores e em paraísos fiscais. 

O presidente anunciou então o fim da aposta em jogadores de países como Nigéria, Malásia e Mali, para passar a privilegiar a aposta em portugueses. Fica por perceber uma questão: qual o balanço desta parceria com a RAMP que se desconhecia? Quem teve a ideia? Que assume os frutos/resultado desta parceria? Quando custou e quanto rendeu ao FC Porto?

Agora, segundo afirma Pinto da Costa, é passado. Mas se o preço da cortiça não baixar, não parece que vá servir de muito. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

38 passos para a transparência

Chegou o dia em que O Tribunal do Dragão tem um elogio para a Federação Portuguesa de Futebol. Na verdade, nem chega a ser um elogio, pois não está mais do que a cumprir a sua obrigação, mas tecnicamente, com as novas regras para intermediários de jogadores, cada empresário passaria a ter direito a receber apenas 3% de uma transferência ou 3% do contrato do jogador que intermediasse. Não é isso que se tem verificado na esmagadora maioria dos clubes. 

Com as novas regras da FIFA, todas as Federações passam a estar obrigadas a declarar a que intermediários os clubes pagaram por cada jogador. Só não estão discriminados os valores envolvidos por cada jogador. Era pedir muito, talvez.

De qualquer forma, a FPF já divulgou a lista, que compreende o primeiro ano em análise, de 1 de abril de 2015 a 31 de março de 2016. Mas aparentemente isto não foi notícia em nenhum órgão de comunicação social. Não era de interesse público? Sim, é. E por isso cá vai:


Sem surpresa, FC Porto e Benfica são os clubes que mais comissões pagam. O FC Porto é quem mais gasta, com 11,789M€, e o Benfica também supera os 10M€. O Sporting gastou quase um terço do FC Porto no mesmo período, com pouco mais de 4M€. 

Curiosamente, 9 jogadores apareceram no papel de outorgante, contratualizando um total de 65,8 mil euros em comissões. O mais conhecido é Coates, do Sporting.


Esta lista mostra relações entre jogadores e empresários que se desconheciam dos R&C das diversas SAD. No universo FC Porto, que é o que mais importa, destaca-se o facto de terem sido feitos 38 pagamentos diferentes a empresários que trataram de transferências ou renovações de contrato de jogadores do FC Porto.

Por ordem alfabética, Alexandre Zahavi foi o intermediário das renovações de Héctor Herrera e Bruno Costa, dos sub-19. Deco, que agora trabalha próximo de Jorge Mendes, foi o intermediário da renovação de João Graça, um dos melhores da equipa B. Tanto Zahavi como Deco são empresários já conhecidos, mas também surge a intervenção de nomes desconhecidos para o grande público.

É o caso de Ben Aissa Abdelaziz, o intermediário de Marega. Carlo Cutropia trouxe Casillas e a Cantera Latina intermediou Jesús Corona (um exemplo de informação que já se conhecia dos R&C do FC Porto). 

Carlos Gonçalves foi o responsável pela renovação de Gonçalo Paciência e pela vinda de Miguel Layún. Delmenico Maurizio, conhecido parceiro de Luciano D'Onofrio, trouxe Imbula. Edmund Chu, ligado à Vela (empresa do universo Doyen), foi o responsável por Chidozie e Chidera Ezeh. Confirma-se também a intervenção de Paco Casal por Maxi Pereira.

Frank Justin Trimboli, com este nome, só podia ter o intermediário de um jogador: Pablo Osvaldo. Frederico Mathias Moraes intermediou dois brasileiros: a venda de Kléber e a chegada de Ronan, para a equipa B.

Gines Carvajal Seller trouxe Alberto Bueno, Hélio Martins tratou da renovação de Andorinha e a Gopro Sport Management foi responsável pela compra de Víctor García. O empresário João Pedro Cardoso Araújo interveio na contratação de André André e na renovação de Diogo Leite, um dos campeões europeus de sub-17. 

Jorge António Berlanga Amaya esteve envolvido no negócio Gudiño e na contratação de Miguel Layún, ao qual também esteve associado Carlos Gonçalves. 

José Caldeira, além da já conhecida intervenção na renovação de Rúben Neves, também tratou da renovação de outro jovem da formação, Sérgio Ribeiro. José Pedro Silva Maia Pinho, da Energy Soccer (de Alexandre Pinto da Costa), surge aqui como intermediário na vinda de Fede Varela. Já Jussara Mary Silva Correia, da Onsoccer, tratou da renovação de Rafa Soares. 

Kevin Caruana foi o intermediário da vinda de Sérgio Oliveira e Luís Machado esteve encarregado da renovação de Silvestre Varela. Matías Bunge, muito ativo no mercado mexicano, também esteve a cargo do empréstimo de Ismael Díaz. Palmer-Brown, emprestado à equipa B, veio pela mão de Michael Gartland.

Mohamed Afzal, conhecido pela proximidade com Antero Henrique, intermediou a vinda de Aly Cissokho. Oliver Cabrega surge confirmado como o intermediário por Danilo Pereira. Paulo Duarte Dias intermediou Suk e Pedro Regufe trouxe Ayoub do Barcelona. A Proeleven recebeu uma comissão pela cedência de Josué ao Bursaspor. 

Curiosidade para a RAMP Management, que esteve envolvida na compra/renovação de Chidozie. Edmund Chu já tinha sido mencionado como intermediário de Chidozie. Confuso, até o próprio identificar-se nas redes sociais como sendo presidente... da RAMP. Ou seja, cobram comissão a empresa e o presidente. 

Ricardo Rivera também surge confirmado como tendo tido intervenção em Jesús Corona, tal como a Cantera Latina. A terminar, aparece em último lugar da lista a Vela, pela renovação de contrato com Brahimi. 

Uma lista por certo muito incompleta, mas que ajuda um pouco à transparência do nosso futebol, nomeadamente no mercado de transferências.

Para download da lista completa.

PS: Nuno Espírito Santo e a sua equipa técnica já foram confirmados e apresentados no FC Porto. Nada mais resta do que esperar pela pré-época. Até lá há um plantel para (re)construir e uma época para preparar. Não foram declarados objetivos concretos para os próximos 2 anos (ao contrário do que fez José Peseiro quando chegou em janeiro), o que até seria prematuro fazer, tendo em conta todo o trabalho que haverá a desenvolver nas próximas semanas. Como disse Nuno, «Porto é muito mais do que palavras», por isso feitas as apresentações e cerimónia dos habituais lugares-comuns, é tempo de trabalhar, pois agosto já será um mês de grandes decisões. Até lá, continuamos a análise ao plantel de 2015-16 e ao recém-publicado Relatório e Contas do 3º trimestre da SAD

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Verdades de 1 de abril

Saúde-se a prontidão de Alexandre Pinto da Costa. No dia seguinte a ver a sua cara chapada no CM, a Energy Soccer emite de pronto um comunicado e o empresário dá uma entrevista de grande destaque ao JN. Coisa rara nos tempos que correm.

O Correio da Manhã pegou em informações que já eram do domínio público e deu uma injeção de sensacionalismo no tema. E como seria de esperar, cometeu imprecisões, que foram de pronto identificadas pela Energy Soccer no seu comunicado.

O caso de Ricardo Quaresma é um exemplo. Já se sabia, desde a época 2013-14, que havia uma despesa de 500 mil euros associada à sua contratação. O CM escreveu que Alexandre Pinto da Costa recebeu 500 mil euros de comissão, enquanto o empresário desmente e diz isto: «Na contratação do jogador a Energy Soccer não emitiu qualquer factura ao FC Porto SAD por este negocio.»

De realçar a insistência de afirmar que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto. Tem uma explicação, porque é verdade. Conforme se pôde ver no R&C, o FC Porto não tinha nenhuma dívida à Energy Soccer, mas sim à DNN.

Dívidas a outros clubes e entidades - Relatório e Contas 2014-15
Por isso, neste dia 1 de abril, Alexandre Pinto da Costa não mentiu: de facto, a Energy Soccer não passou nenhuma fatura ao FC Porto, pois quem o fez foi a DNN (uma empresa fundada em 1999, de Pedro Pinto, e que está ligada a dois treinadores do FC Porto, Luís Castro e José Peseiro).

E aqui é que surge o fenómeno Football Leaks, que publicou um acordo entre a Energy Soccer (Segundo Outorgante) e a DNN (Primeiro Outorgante), para que a DNN transferisse para a Energy Soccer metade do dinheiro que viesse a receber do FC Porto.

Acordo entre a Energy Soccer e a DNN na transferência de Quaresma
Assim se explica como é que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto e diz ter recebido apenas 596 mil euros, ao contrário dos cerca 2M€ que foram noticiados. É verdade, ninguém mentiu. Tal como o FC Porto também não pagou nada por Casemiro à Energy Soccer: o FC Porto pagou à Vela, do Universo Doyen, e depois a Vela transferiu dinheiro para a Energy Soccer e a Pesarp. Tudo explicado. 

Do comunicado da Energy Soccer não há muito mais a destacar, mas a empresa diz que entre as transferências de Atsu, Rolando e Álvaro Pereira ajudou a SAD a ter um encaixe de 16,6 milhões de euros. Atsu e Rolando saíram por valores reduzidos (1,5M€ cada), enquanto Álvaro Pereira saiu por 10M€, mais variáveis. E aqui é curioso que a venda de Álvaro Pereira seja usada para aumentar o bolo do encaixe. Porque se é verdade que a Energy Soccer não colaborou, diretamente, na compra de Quaresma, também é verdade que a Energy Soccer não emitiu nenhuma fatura ao FC Porto na venda de Álvaro Pereira - quem fez o pagamento foi a IG Teams & Players, no valor de 25 mil euros (por, segundo o documento divulgado, um serviço prestado em setembro de 2012, no mês seguinte à venda de Álvaro Pereira ao Inter). 

A IG Teams & Players é uma empresa bem mais conhecida no universo do Benfica: metade dos seus ativos são jogadores que estão ligados ao Benfica ou que já passaram pelo clube, casos de Derlis González, Claudio Correa, Francisco Vera, Urreta e Funes Mori (não tem nenhum jogador atualmente ligado ao FC Porto).

Na entrevista ao JN Alexandre Pinto da Costa não diz nada de revelador na parte dos negócios, mas admite que também faz negócios de prospecção para o FC Porto «ou qualquer outro clube». O empresário diz que tem uma carteira com muitos clientes, que negoceia com vários clubes e que só não revela quem representa por que não quer.

O que torna a Energy Soccer «tão diferente e especial»
É um caso único no nosso futebol. Todos os empresários da nossa praça gostam de publicitar as suas carteiras de jogadores e divulgarem, publicamente, que negoceiam com vários clubes. Seja uma Onsoccer ou uma Promosport, uma International Foot ou uma US11. Mas a Energy Soccer é um caso único que prima pela discrição. Isso já será uma preferência de Alexandre Pinto da Costa, e a maneira como a gere só a ele lhe dirá respeito, mas de facto todas as notícias de transferências que são mencionadas no site da Energy Soccer têm a intervenção do FC Porto. Todas do FC Porto, nenhuma a envolver qualquer outro clube. A nível de imprensa, também nunca houve notícias a envolverem Alexandre Pinto da Costa em negócios que não contassem com o FC Porto. Mas o empresário garantiu que é assim porque é assim que quer.

E é aqui que a análise pode ser aprofundada. O que têm em comum Atsu, Rolando ou Álvaro Pereira? Todos saíram, digamos, a mal do FC Porto, ou como disse a Energy Soccer, não faziam parte do projeto desportivo. É um padrão algo comum. Mas como de facto o FC Porto não emitiu nenhuma fatura à Energy Soccer por Álvaro Pereira, então talvez não faça sentido associar a venda ao Inter à Energy Soccer. A não ser que ela tenha trabalhado de borla - isso seria louvável. 

Portanto, qual foi a maior venda do FC Porto com intermediação de Alexandre Pinto da Costa? Tendo em conta que o próprio admitiu que não recebeu comissões na saída de Carlos Eduardo (diz que recebeu 100 mil euros no total «das duas operações», mas isso foi a comissão no momento da compra ao Estoril), então as maiores vendas a envolver diretamente a Energy Soccer foram Atsu e Rolando, por 1,5M€ cada (o Besiktas informou que pagou 1,2M€ por Quaresma, a Energy Soccer diz que o FC Porto recebeu 1,5M€).

O jogo das diferenças
E aqui vemos o quão ridículo é comparar estas operações com, por exemplo, os negócios de Jorge Mendes. O chavão «todos os clubes pagam comissões» e «todos os empresários recebem comissões» é de uma leviandade que não pode estar presente na discussão destes temas. Por exemplo, o desafio de calcular quanto já recebeu Jorge Mendes de comissões do FC Porto seria de facto interessante. Mas antecipando a conclusão: é o empresário que mais dinheiro deu ao FC Porto.

A experiência mais recente nem é boa, com Jorge Mendes a deixar o FC Porto a arder no negócio Adrián López, por quem a SAD já pagou quase 8M€ ao Atlético. Mas Jorge Mendes é, de longe, o empresário que mais bons negócios já fez com o FC Porto. James, Falcao, Mangala, Anderson, Danilo, Pepe, Ricardo Carvalho, tantos outros.

Jorge Mendes nem sequer era o empresário de alguns destes jogadores, mas surgiu como intermediário. E nisso não há problema nenhum, desde que o empresário chegue à SAD do FC Porto e apresente boas propostas. No dia em que Alexandre Pinto da Costa chegar à SAD e bater ali uma proposta de 20 ou 30M€ por algum jogador do FC Porto, maravilha, pode e deve levar a comissão a que tem direito, e de certeza que ninguém se insurgirá contra isso (pelo contrário, até será elogiado). Mas enquanto estivermos a negociar jogadores por 1,5M€, a custo zero ou a recrutar jogadores para a equipa B dos quais a SAD só assume parte do passe, comparações com Jorge Mendes são um sacrilégio. Além de que há inúmeras notícias de negócios de Jorge Mendes com clubes um pouco por todo o mundo, não apenas com o FC Porto.

Também se tem insistido muito que, se Alexandre Pinto da Costa tiver algum jogador que interesse ao FC Porto, a SAD não deixará de querer o jogador. Óbvio. Mas como não se conhece a carteira de jogadores de Alexandre Pinto da Costa, nunca se sabe ao certo. Aliás, a maioria dos negócios em que Alexandre Pinto da Costa surgiu associado ao FC Porto foram vendas, não compras. Não se conhece nenhum jogador que o empresário, neste momento, represente que possa interessar ao FC Porto. O resto são chavões para lugares comuns. Votos para que cheguem das mãos de Alexandre Pinto da Costa à SAD muitas propostas de 20M€ para cima, pois o FC Porto bem necessita delas, e que esses serviços de scouting continuem a descobrir muitos craques. O perfume do futebol de Fede Varela tem deslumbrado na equipa B.

Sobre as acusações do Football Leaks para a elaboração de contratos pré-datados não houve comentários. A Doyen também reagiu junto da imprensa, orgulhando-se que «o FC Porto teve sempre lucro em negócios por nós intermediados». A Doyen só foi fundada em 2011, ainda não há muitos exemplos de negócios - Mangala, que até foi intermediado com o City por Jorge Mendes, foi o melhor de todos e um dos melhores da história da SAD; Imbula e Defour cobriram basicamente os custos; Brahimi está na calha para sair e vamos ver se a receita será assim tão grande. 

Que os negócios gerem lucro para o FC Porto não é favor nenhum: é uma obrigatoriedade. Com o tipo de gestão que pratica, o FC Porto precisa de vendas para sobreviver. Mas precisa de grandes vendas. A vender Defours ou Atsus, a SAD não durava muito. É preciso grandes negócios, como Mangala, por exemplo. Pode ser a diferença entre só ter que vender dois jogadores ou ter que vender meia dúzia deles. Além de que, escusado será dizer, o risco dos negócios está sempre em cima do FC Porto, que é quem tem que fazer evoluir os jogadores e pagar os salários. Os fundos nunca têm prejuízo.

A Doyen também não comentou diretamente as dúvidas sobre os contratos pré-datados, mas considera que se não fosse a Vela, com o seu contrato de scouting assinado em janeiro de 2015, Casemiro nunca teria vindo para Portugal. Por isso aqui fica o agradecimento à Vela, que conseguiu descobrir um jogador do Real Madrid que poucos conheciam. Portanto quando Casemiro agradeceu a Pinto da Costa e Lopetegui o seu papel na sua transferência para o FC Porto, esqueceu-se de mencionar a Vela. Ficou-te mal, Miro, pois não era qualquer um que te ia descobrir ali perdido no modesto Real Madrid - daí que por exemplo o Benfica, que não te conhecia, nem te tenha tentado desviar na semana em que assinaste pelo FC Porto. Depois das acusações do Football Leaks, a Energy Soccer reagiu, a Doyen reagiu, e acaba por não surgir nada mais de revelador.

Candidatura(s) admitida(s)
Ainda em relação à entrevista de Alexandre Pinto da Costa, o que mais se destaca é não descartar ser um futuro candidato à presidência do FC Porto, dizendo que tem sido abordado por muita gente que lhe reconhece «capacidade». Oxalá que essa lista de pessoas apoiantes de Alexandre não seja como a carteira de jogadores da Energy Soccer, se não permanece tudo em segredo. Alexandre Pinto da Costa diz ainda que tem «no sangue o melhor professor possível». É verdade, mas como disse Pinto da Costa, «o FC Porto não é uma monarquia», pelo que certamente isso nunca será um cartão de visita. Até porque se para uns está no sangue, outros trabalham há anos, ininterruptamente, ao lado de Pinto da Costa na SAD, e não é por isso que têm valias para virem a ser presidentes do FC Porto. 

Mas para já só Pinto da Costa se chega à frente, pelo que não faz sentido falar noutros nomes para a presidência do clube - até porque mais do que nomes, o que interessa é o projeto e as soluções de presente e futuro. Já agora, a três semanas da eleição para a presidência do FC Porto, falta ainda conhecer o programa para o 14º mandato. É uma ânsia conhecê-lo.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Onde há fumo há fogão

Energy Soccer, empresa de agenciamento de Alexandre Pinto da Costa, fundada em 2012

--- ROLANDO--- 
100 mil euros de comissão pelo empréstimo ao Nápoles
Comissão acrescida de IVA: 123 mil euros
Comissão de 60 mil euros pelo empréstimo ao Inter (que por sua vez pagou 75 mil à ES)

Valor pago pelo FC Porto acrescido de IVA: 73,8 mil euros
10% do valor a receber pela venda de Rolando ao Marselha (150 mil euros de 1,5M€)

--- CHRISTIAN ATSU ---

150 mil euros de comissão pela venda ao Chelsea

Valor acrescido de IVA: 184,5 mil euros

--- RICARDO QUARESMA ---

Pagamento de 500 mil euros de comissão na transferência a «custo zero»

Garantia de receita de 10% do valor pago pelo Besiktas em variáveis
Pagamento de 156 mil euros de comissão pela venda ao Besiktas

--- ÁLVARO PEREIRA --- 


Pagamento (pela IG Teams & Players) de comissão + IVA pela venda de Álvaro Pereira

--- CARLOS EDUARDO ---
100 mil euros de comissão pela compra ao Estoril
Pagamento por parte do Estoril, de 180 mil euros

Pagamento do FC Porto acrescido de IVA: 123 mil euros

Mais-valia de 10% atribuída pelo Estoril

--- FEDERICO VARELA (EQUIPA B) ---

Pagamento de 70 mil euros por um jogador «livre». SAD só tem 50% do passe

--- EXTRA TRANSFERÊNCIAS: AÇÕES DA FC PORTO, SAD ---



À margem das transferências: a Investiantas SGPS (que chegou a deter 12% do capital da SAD), aqui representada por Pinto da Costa e Adelino Caldeira, transferiu todas as suas ações da SAD do FC Porto para a Energy Soccer, de Alexandre Pinto da Costa, em dezembro de 2014, por 1,254 euros (60 cêntimos por ação).

--- CASEMIRO ---

Resumo do Record: o Football Leaks entretanto já publicou todos os documentos
O Football Leaks acusou o FC Porto de colaborar num «esquema para financiar Alexandre Pinto da Costa». Num clube tão preocupado - ou com gente tão preocupada - com blogues anónimos, só podemos esperar que amanhã o FC Porto esteja a título oficial a reagir e desmentir esta acusação do Football Leaks, que é gravíssima.

Em relação ao negócio Casemiro, o Football Leaks diz haver uma celebração de contratos pré-datados. Os contratos começaram a ser discutidos em setembro, foram assinados em dezembro/janeiro de 2015 e ficaram com datas anteriores à sua celebração, de modo a mostrar que eram algo já pensado e planeado e não uma justificação montada para a transferência de dinheiro. Uma acusação gravíssima do Football Leaks, portanto.

Ou seja, segundo o Football Leaks, o facto de o Real Madrid ter acionado a cláusula de retorno de Casemiro não tem nada a ver com os contratos de scouting (a tal moda que já tinha sido comentada) que o FC Porto fez com a Vela, que por sua vez transferiu o dinheiro para a Energy Soccer e para a Pesarp SGPS. É fácil também identificar esta segunda entidade:

Energy Soccer, informação legal disponível
Casemiro já era jogador do FC Porto e já começava finalmente, após muita insistência de Lopetegui e muito desespero dos adeptos, a render a um nível aceitável. Finalmente percebia-se que estava ali a surgir um jogador capaz de jogar numa equipa grande. E aí sim terão sido celebrados estes contratos de scouting. Mal podemos esperar para ver todos os craques que a Vela, leia-se Doyen, vão apresentar ao FC Porto por 300 mil euros em despesas de observação. Não é preciso José Peseiro ou os olheiros do FC Porto se preocuparem mais: a Vela faz a papinha toda.

De recordar que o FC Porto informou, no R&C de 2014-15, que os «custos com serviços de prospecção de mercado» enquadravam-se na secção «Trabalhos especializados», nos Fornecimentos e Serviços Externos. Ora em 2010-11, ano de conquista da Liga Europa e de uma época memorável, esses «Trabalhos especializados» custaram 3,595M€. Em 2014-15, os «Trabalhos especializados» tiveram custos de 11,813M€.

Se O Tribunal do Dragão já teve honras de repreensão oficial, então o Football Leaks, que acusa o FC Porto de atos gravíssimos que não se enquadrariam em nenhum tipo de gestão legítima, está tramado: o FC Porto vai certamente desmentir todo e qualquer tipo de irregularidade, reivindicar a legitimativamente de todas estas operações e agir judicialmente contra o atentado ao bom nome da SAD do FC Porto. A não ser, claro, que O Tribunal do Dragão seja o culpado de tudo isto. Nunca se sabe.

Recordando a palavra do presidente, há dois meses: «O meu filho não é pelo facto de ser meu filho que não pode ter a profissão que entender. Entrou numa sociedade de agenciamento de jogadores. Se tiver jogadores que interessem ao FC Porto a todos os níveis, não é por ele ser o agente que eu vou deixar de os contratar. Mas digo-lhe francamente, creio que não há nenhum jogador do FC Porto, tirando um miúdo dos juniores - que eu sei que foram eles que o trouxeram, esse sei porque foi tratado comigo porque era um jogador que nos interessava e que ainda hoje é júnior -, creio que não há nenhum jogador do FC Porto no nosso plantel de que ele seja agente ou empresário, como queira considerar».

De facto, Pinto da Costa disse a verdade: Alexandre Pinto da Costa não é empresário de nenhum dos jogadores da equipa A. Mas a Energy Soccer, que foi fundada apenas em 2012 (após pai e filho se terem reaproximado e feito as pazes) e tem um capital social de 10 mil euros, já recebeu, diretamente ou indiretamente, da SAD do FC Porto cerca de 2M€, excluindo eventuais futuras receitas por variáveis e verbas pagas por outros clubes/entidades a envolver jogadores do FC Porto. E fê-lo intermediando transferências de jogadores que inicialmente não eram, sequer, agenciamentos pela Energy Soccer, embora esta tivesse sido delegada para os efeitos de intermediação dos contratos, ou através deste negócio Casemiro.

Aqui fica o aplauso a Alexandre Pinto da Costa, um empresário de sucesso (embora se desconheça que alguma vez tenha feito um negócio relevante sem envolver o FC Porto, até porque a Energy Soccer oculta a sua lista de jogadores). Bernardino Meireles passou toda a sua vida enganado: o futebol é que é. De facto, há os que querem dividir o clube, e há os que enriquecem às custas do clube, ao mesmo tempo em que este não conquista títulos, assume prejuízos recorde e distancia-se da sua identidade, dentro e fora de campo. Ou isto é tudo uma grande invenção do Football Leaks para desestabilizar o FC Porto. Está tudo bem. Pelo menos na rua Rua António Nicolau de Almeida, está tudo bem. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Elefantes na sala da família

A FIFA deu razão ao FC Porto no caso Caballero. Foi um advogado do jogador, Fernando Villa, a revelar o desfecho do processo. E fê-lo com uma frase que desperta algumas questões.

«En la mañana de hoy recibimos la notificación de la FIFA. La demanda de Libertad fue rechazada, Maurito Caballero con el Oporto como jugador libre».

Ora segundo o advogado, Caballero chegou ao FC Porto livre de contrato com qualquer outro clube. E é aqui que começam as questões. Se Caballero era um jogador livre, por que é que a SAD pagou 1,53 milhões de euros, na época desportiva 2012/13, à sociedade MHD, S.A.? Curiosamente, esta era praticamente a quantia que o Libertad exigia ao FC Porto pela transferência de Caballero.


Mas outro dos advogados de Caballero disse, há 3 anos, que o FC Porto só teria a pagar 365 mil euros por direitos de formação. Então, porquê estes 1,53M€ pagos a outra daquelas empresas? - o Google ajuda como pode e diz-nos que a MHD é provavelmente um escritório situado em Chardonne, na Suíça.

Um jogador «livre»
De facto, poderia dar-se o caso do Libertad ter apenas em sua posse os direitos desportivos (o direito de inscrição, que só um clube pode ter) e os direitos económicos pertencerem a terceiros. Mas o Libertad alegava que não era o caso, que Caballero era jogador deles. O Libertad não poderia alegar o direito a receber dinheiro pela transferência se não tivesse direitos económicos do jovem paraguaio, que foi despachado para o Liechtenstein.

Assim sendo, e repetindo, se a FIFA diz que o Caballero era um jogador livre, por que é que se pagou 1,53M€ por ele a uma empresa da qual nada se sabe? Faz lembrar o caso de Kayembé, que tinha acabado contrato com o Standard Liège e cujo custo já vai em 3,165M€. Demagogia, dirão alguns, mas estes 4,7M€ pagos por dois miúdos que estavam livres já davam para comprar um central jeitosito...

Curiosamente, o Football Leaks chegou a divulgar um contrato de acordo entre o FC Porto e Ricardo Rivera, de janeiro de 2013, que trazia informações diversas sobre o negócio. Mas o mesmo não foi analisado, pois faltavam as assinaturas que validariam o documento, que também não estava timbrado. 

Entre as diversas cláusulas que estavam previstas: o FC Porto pagaria 30% da mais-valia futura de Caballero acima de 2M€ ao seu agente; o FC Porto inicialmente não ficaria com 100% do passe, mas teria opções de compra progressivas, por valores assustadores: mais 10% por 2M€; se Caballero fizesse 20 jogos pela equipa A, mais 10% por 2M€; por mais 20 jogos, mais 2M€ por 10%. Ou seja, só por 30% do passe, Caballero custaria 6M€. Felizmente, até onde se sabe, não se seguiu por esta via. Das duas, uma: ou o agente era louco por apresentar uma proposta assim ao FC Porto, ou então achava que havia duas pessoas loucas o suficiente para assinar este acordo na SAD do FC Porto.

Mas este documento mostrou também o envolvimento da Northfields Sports BV, uma empresa que se sabe ser ligada a Marcelo Simonian, empresário próximo de Antero Henrique para diversos negócios na América do Sul, desde Lucho González a Víctor García. Empresa essa que está diretamente associada a uma novidade que hoje se conhece. 



O R&C do primeiro trimestre mostrou que o FC Porto pagou uma mais-valia sobre Jackson Martínez à Northfields Sports BV, cerca de 2M€, sem se perceber porquê. A SAD sempre declarou ter 100% dos direitos económicos de Jackson Martínez, até que depois de Jackson ter renovado a SAD atribuiu 5% da futura transferência ao felizardo Henrique Pompeo - que depois andou a ameaçar publicamente o FC Porto pelo impasse nas negociações com o Atlético.

Mas o Football Leaks mostrou hoje uma carta enviada por um representante da Northfields Sports à SAD, a 14 de julho de 2015, a notificar o FC Porto para o pagar de 10% da mais-valia acima de 9,57M€ (Jackson Martínez tinha custado, no total, 9,63M€ - 8,887M€ por 100% do passe e 750 mil euros de encargos). E na carta é dito que este acordo foi celebrado a 15 de julho de... 2012. Ou seja, uma semana depois de Jackson Martínez ter sido contratado ao Jaguares. Se o negócio com o Jaguares foi fechado a 7 de julho, porquê a celebração deste acordo para cedência de uma mais-valia de 10% uma semana depois? Os documentos também mostram o que se suspeitava: o Atlético não bateu a cláusula de rescisão de Jackson; pagou, isso sim, os 35M€ numa só tranche. São coisas diferentes, pois se o Atlético tivesse batido a cláusula o FC Porto não teria que pagar mecanismos de solidariedade, nem comissões à Gestifute (aliás, note-se que o FC Porto, aquando da venda de Jackson, pagou comissões a pelo menos 3 entidades diferentes: Pompeo, Gestifute e Northfields Sports. Que trabalheira!).

Entretanto, foi também divulgada a situação da partilha de passes de uma série de atletas do FC Porto na data de encerramento do relatório e contas semestral de 2014-15. Há muitos casos que merecem análise, mas um acima de todos: Rúben Neves. Já tinha sido noticiado, aquando da sua renovação de contrato, que José Caldeira tinha tido intervenção na assinatura do novo acordo. Mas não nos termos que o Football Leaks dá a conhecer - e que o FC Porto está, desde o primeiro dia, à vontade para desmentir.

A renovação de Rúben Neves
A SAD cedeu 5% do passe de Rúben Neves a José Caldeira pela renovação de contrato. O curioso é que na altura foi noticiado que foi a Unifoot a surgir no papel de intermediária, mas não, terá sido outra empresa ligada a Caldeira, a Prestige Sports. E aqui se levantam questões: porquê ceder 5% do passe do nosso maior valor da formação numa renovação de contrato?

Alguém imagina que foi Rúben Neves a sentar-se à mesa na SAD e a fazer a seguinte exigência: «Ora bem eu concordo em renovar contrato, mas quero que o José Caldeira, irmão do administrador da SAD Adelino Caldeira, seja compensado e bem compensado»?. Isto não é uma transferência internacional. Não envolve conversações entre clubes, nem com fundos, nem sequer com partilhas de passes ou múltiplos empresários. Rúben Neves era um atleta da formação do FC Porto, que nem tinha empresário quando assinou o seu primeiro contrato profissional. Então porquê meter José Caldeira no papel de intermediário, se as coisas seriam facilmente resolvidas entre atleta e clube?

5% podem parecer réstias, mas não são. Rúben Neves continua a ser um dos jovens de 18 anos mais promissores do planeta, e não será difícil imaginá-lo a ver ser transferido por 40M€ a médio prazo. Ora 5% de 40M€ são 2 milhões de euros. Dar potenciais 2M€ a um empresário numa renovação de contrato de um jovem de 17 anos é coisa que se calhar nem o Real Madrid ou o Barcelona fazem. É uma renovação, não uma contratação.


Isto já para não falar do eterno possível conflito de interesses. José Caldeira é irmão de Adelino Caldeira, administrador da SAD. Ninguém pode ficar chocado só por este negócio, pois não é um caso isolado. Alexandre Pinto da Costa intermedeia vários negócios do FC Porto, mesmo sem ser o empresário dos jogadores em causa. Afzal, aqui descrito como o ex-cunhado de Antero Henrique, também já fez muitos negócios como intermediário para o FC Porto. E até o genro de Pinto da Costa já foi associado a negociações em nome do FC Porto.

José Peseiro disse hoje que o caso de Maicon vai ser tratado «dentro da família». Ironicamente, parece mesmo que há muitas coisas a ser tratadas em família no FC Porto. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Profissão: intermediário de jogadores

És menor de idade? Não tens formação ou qualificação em nenhuma área? Já tens cadastro criminal? Nada temas, rapaz. O dia 1 de Abril de 2015 será um bom dia para ti, pois é o dia em que nada disto te impedirá de passares a ter uma profissão que te dá milhares de euros num curto de espaço de tempo, com pouco ou nenhum trabalho: intermediário de jogadores.

Um presentinho
Vai abrir-se uma nova era: acabaram os agentes de jogadores. A partir de 1 de Abril, a FIFA passa a reconhecer nos estatutos os «intermediários de jogadores». Quer isto dizer que a partir de agora qualquer pessoa pode participar em transferências de jogadores. Não é preciso licença, exame, garantia bancária ou registo criminal. Nada. Basta aparecer no dia em que o contrato do jogador é assinado, depositá-lo na Federação com a assinatura do representante intermediário, e está feito. Não precisamos de voltar a ver o jogador na vida - e nem é preciso tê-lo visto antes.

Em Portugal, oficialmente há cerca de 70 empresários de jogadores. Têm licença, fizeram exames, têm carteiras de jogadores. Mas a FIFA notou que havia um grande problema: grande parte das pessoas que participavam nas transferências de jogadores eram sujeitos «comuns», sem licenças. Segundo a Associação Europeia de Clubes, no espaço de 4 anos só 5,5% de agentes licenciados participaram em transferências em clubes europeus. A uma escala global, cerca de 25 a 30%. Por isso é que se consultarem esta lista, que é a lista oficial dos empresários licenciados na FPF, vão notar que falta aqui muita gente de quem certamente já ouviram falar.

Então a FIFA entendeu que o sistema de licenciamento de empresários não funcionava. Então em vez reformar ou mudar de sistema... acabou com o licenciamento. A partir de 1 de Abril, deixa de haver empresários licenciados. Qualquer pessoa pode participar numa intermediação de uma transferência. A FIFA reconhecia cerca de 6000 empresários licenciados. Agora estes números multiplicam-se incalculavelmente.

Fácil, barato, dá milhões
Porque é que isto é grave? Por mais sanguessugas ou mal-intencionados que alguns empresários possam ser, muitos deles acompanhavam a carreira de jogadores desde pequenos. Os empresários (alguns) são mais do que homens de negócios, são também olheiros, tutores e conselheiros. Muitos deles acompanham miúdos que «tiram» de famílias humildes até chegarem a grandes carreiras. A partir de agora, não é necessário fazer acompanhamento nenhum (já não o era, mas agora este fenómeno tem tudo para se propagar), nem ter carteira de jogadores, nem sequer conhecer o jogador. Basta aparecer, rubricar e receber o cheque. Vai haver cada vez mais gente simplesmente interessada em receber a sua comissão do que em acompanhar o crescimento do jogador.

Esta é a parte (muito) má. Há outra que tem tudo para ser uma (muito) boa notícia para os clubes: os novos limites aplicados às intermediações/comissões. O Regulamento de Intermediários de Jogadores que entra em vigor diz que qualquer pessoa singular ou colectiva (também esta uma nova alteração) só pode receber 3% do valor da transferência numa comissão ou 3% do valor total dos salários brutos que o jogador tenha a receber. E uma notícia ainda melhor: os intermediários não podem receber dinheiro com contratos com menores de idade (vai estar tudo a bombar com Europe no MP3 até chegar ao 18º aniversário. It's the final countdown, turururu).

A percentagem que pode mudar
tudo para melhor
São excelentes notícias, mas infelizmente a FIFA não dá cerejas vermelhinhas sem caroços podres. A FIFA abriu as portas do negócio do futebol a qualquer sujeito, dos mais variados (des)interesses. A boa notícia é que, apesar de qualquer um poder entrar, só tem direito a sair com 3% no bolso. Tendo em conta que as intermediações médias nas Ligas Europeias são de 14,5% (mais conservador do que possa parecer), é uma medida que vai disciplinar os clubes, reduzir os custos forçosamente. Porque aumentar os custos das transferências e os contratos dos jogadores só para a proporção dos 3% subir dava uma trabalheira nada sustentável.

O problema está na ambiguidade dos 3%, pois os regulamentos da FIFA não são esclarecedores e cada Federação terá margem para uma flexibilidade na sua gestão. Por exemplo, na Federação Inglesa já vemos que todos os interessados em ser intermediários vão ter que ter atestados de boa reputação, testes de carácter, documentação completa e vão ter que pagar taxas. Ora e em Portugal? Que esperar da Federação Portuguesa de Futebol, cujo presidente acabou de ser o mais votado para o Comité Executivo da UEFA? Nada. Nem uma palavra. Teve que ir Artur Fernandes, da ANAF, para a RTP para se ouvir alguma coisa.

Há ainda os conflitos de interesse. Aliás, não há. Acumular um cargo com o papel de intermediário que gere um conflito de interesse passa a ser admissível, desde que a terceira parte assim o aceite. Ou seja, os empresários (seja em título ou actividade) podem ter interesses em transferências que envolvam terceiras partes e que os beneficie, a eles ou a outrem, desde que estejam todos de acordo. Luz verde para empresários que colaborem com fundos que têm percentagens de passes de jogadores que representem (aqui o semáforo ainda pode fechar).

Apesar desta ambiguidade nos 3%, para terminar há outra óptima notícia: segundo o regulamento as Federações vão passar a estar obrigadas, anualmente, a publicar o nome de todos os intermediários registados, a que jogadores estiveram associados e as quantias. É um excelente passo para a credibilidade e transparência nas transferências de jogadores à escala mundial. Tão bom que se recomenda uma série de alongamentos. Não vá haver cãibras antes do passo ser dado.