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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

No momento certo

Ganhar 6 pontos em 2 jornadas ao rival direto, logo após uma derrota na Luz, é tão raro quanto satisfatório. Somar 5 vitórias consecutivas, algo que o FC Porto ainda não tinha conseguido em 2018, é igualmente motivador. Mas não é motivo para farfalhar, pois as duas últimas jornadas da Liga se calhar dizem mais sobre a competitividade do Campeonato que temos pela frente do que de eventuais facilidades na luta pelo título. Belenenses e Moreirense tiraram pontos ao Benfica como o fizeram ao FC Porto na época passada, e testemunham o exemplo de um Campeonato em que basta um ou dois jogos para mudar as disposições e motivações dos candidatos ao título, os perfis de favoritismo e a maneira como se olha para a abundância ou falta de soluções no plantel. 


Na Madeira, ao longo de 70 minutos, o FC Porto dividiu-se num misto de paciência e de falta de ideias até desfazer o 0x0. Mas não foi apenas esperar: foi procurar a oportunidade. Foi mexer na equipa com sinais claros de que não era jogo para se empatar, foi ser eficaz nos momentos em que pôde matar o Marítimo, foi saber trancar o jogo e não mais perder o controlo perante uma vantagem de 2x0.




Óliver Torres (+) - Esteve na génese dos dois golos do FC Porto: primeiro, é ele quem senta Bebeto e se liberta da pressão de 3 jogadores do Marítimo antes de lançar Brahimi no corredor; depois, intercetou a bola e lançou a corrida de 50 metros até à conclusão do 2x0. Tudo isto numa exibição em que foi o jogador com mais ações com bola (85), completou 91% dos passes, acertou 11 das 14 bolas longas que tentou e ainda recuperou 14 vezes a posse de bola. Foi a primeira vez que jogou duas jornadas completas consecutivas com Sérgio Conceição e só há motivos para continuar.

Otávio (+) - Entrou, marcou e deu a marcar, tudo isto num espaço de cinco minutos e num jogo no qual o FC Porto não estava a criar ocasiões de golo - e a situação poderia agravar-se pela sempre negativa carga psicológica de desperdiçar uma grande penalidade. Mesmo sem ser sempre regular e consistente, e muitas vezes desligando-se da partida e da equipa, Otávio já leva 6 participações em golos na Liga - o dobro das que conseguiu em toda a época passada. E fica também a nota por a sua entrada para o lugar de Maxi Pereira ter sido uma ordem para puxar a equipa para a frente e para a vitória. Empatar na Madeira numa jornada em que o Benfica perde em casa não seria desdenhado por muitos treinadores, mas Conceição teve ambição e com ela a recompensa mais desejada. 

Trancar o jogo (+) - Tendo em conta que já vimos o FC Porto desperdiçar uma vantagem de 2x0 esta época, foi revigorante ver a equipa gerir e controlar com total tranquilidade o resultado logo após o segundo golo. Calma, circulação no meio-campo adversário e muita segurança na posse - em todo o jogo, só por uma vez o Marítimo conseguiu desarmar um jogador do FC Porto no meio-campo defensivo. É certo que a equipa madeirense tem-se revelado muito pobre em termos ofensivos (tem o pior ataque da Liga), mas controlo foi a palavra dominante na equipa.




Com vista a Braga (-) - Noite quase para esquecer para Soares. Arrancou uma falta para grande penalidade e teve um toque precioso na jogada do 2x0 (bem também Marega no lance), mas ao longo dos 74 minutos em que esteve em campo poucas vezes conseguiu entrar no jogo. Falhou 5 dos apenas 9 passes que tentou, perdeu 8 dos 10 duelos que disputou e teve uma única tentativa de remate, à figura. Não estará com a equipa na receção ao Lokomotiv, mas é essencial que Soares esteja ao melhor nível na receção ao SC Braga, equipa que ainda não sabe o que é perder esta época.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Três pontos e Danilo

O FC Porto iniciou a corrida atrás do prejuízo causado pela 3.ª jornada da única forma possível: com uma vitória, embora muito pouco convidativa a uma Enologia de qualidade. Olhamos para os 13 golos marcados em 4 jornadas e vemos que o FC Porto não fazia tantos golos desde 1951, embora esta época com a vantagem da calendarização pouco habitual que ditou dois jogos consecutivos no Dragão. 


Mas o momento em que vemos a «roda» formar-se na segunda parte, mesmo com a equipa a vencer por 2x0, é demonstrativa de que a equipa sabia que havia muito mais a merecer a preocupação do que o resultado. Na segunda parte, o que aconteceu não foi muito diferente daquilo que antecedeu os golos de Vitória de Guimarães ou Belenenses: a equipa deixou de ter bola, deixou de controlar o jogo e perdeu soluções na saída para o ataque. O Moreirense não aproveitou, também porque Iker não deixou, mas é a terceira jornada consecutiva em que o FC Porto se coloca a jeito quando a vantagem e a sua superioridade já deveriam deixar a vitória encaminhada.

Valeu, sobretudo, o regresso às vitórias e o de Danilo Pereira, elemento essencial para o ciclo de jogos que se iniciará depois da pausa para as seleções. 




Iker Casillas (+) - Terminou o jogo com mais defesas do que o guarda-redes do Moreirense: três. Com um par de boas intervenções na segunda parte, segurou a vantagem do FC Porto e evitou que o fantasma das jornadas anteriores voltasse a assombrar a equipa (o bom trabalho de Felipe, em estreia com Éder Militão como parceiro, também ajudou). Bem, também, na reposição da bola em campo, sendo neste momento o guarda-redes da Liga com melhor aproveitamento neste capítulo.

Héctor Herrera (+) - Mais uma exibição a encher o campo e a ter que jogar por ele e por Sérgio Oliveira (novamente muito distante do nível exigível para o 11). Inaugurou o marcador num lance oportuno, esteve perto de bisar e assumiu-se sempre como o motor do meio-campo, destacando-se ainda o momento em que puxa da braçadeira para dar um abanão à equipa na segunda parte. Sempre disponível no processo defensivo e a ganhar metros no meio-campo.

As zonas de ação de Héctor Herrera
Otávio (+) - Esteve no lance do 2x0 (muito bem trabalhado por Marega, a ganhar a primeira bola de Casillas, e Aboubakar, no toque para Otávio e na corrida para a grande área), e abriu o livro no último lance da segunda parte, ao ultrapassar dois jogadores antes de servir Marega para o 3x0. Foram os pontos altos de uma exibição na qual Otávio tentou sempre «mostrar-se» ao jogo: foi o jogador que mais duelos disputou (16) e o que mais desarmes conseguiu (4). Pecou pela ausência de tentativas de remate e por algumas más decisões no último terço, mas esta época já teve intervenção direta em quatro golos na I Liga. Em toda a época passada, teve apenas três.




Apanha! (-) - Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Aconteceu, na segunda parte, aquilo que tanto queremos que o FC Porto evite ao máximo. A determinada altura, parecia que a equipa não sabia o que fazer. Cada posse de bola era uma tentativa de passe longo para Marega. Não houve jogo interior, não houve progressão em posse. A equipa percebeu que não estava bem, Sérgio Conceição reforçou o meio-campo, mas não há necessidade absolutamente nenhuma de jogar assim, até porque raramente o FC Porto consegue criar real perigo quando joga desta forma.

O FC Porto já é a equipa com mais foras-de-jogo no Campeonato, 13 em quatro jornadas. Que indica isto? Que está a tentar forçar muito a entrada na linha defensiva com o último passe, mas também que as defesas adversárias estão a saber «apanhar» o FC Porto nesta armadilha. O regresso de Marega ao 11 coincidiu com um abuso desta fórmula (ou melhor, motivou), que certamente terá o momento de (ter que) ser utilizada ao longo da época. Mas em casa? Contra o Moreirense? A ganhar por 2x0? Quando acabamos um jogo com mais foras-de-jogo do que remates enquadrados com a baliza adversária...

Há também um dado deveras curioso. Pensar em Alex Telles e Brahimi é pensar num flanco ofensivo, criativo, capaz de fabricar diversas ocasiões de golo, certo? Mas estatisticamente, o FC Porto é neste momento a equipa que menos usa o flanco esquerdo para atacar em todo o Campeonato. Nas primeiras quatro jornadas, o FC Porto canalizou apenas 31% dos seus ataques por esse corredor. Em contrapartida, é a equipa que mais usa o direito, com 43% de investidas por esse lado. Já vimos bons momentos e combinações por esse lado nesta época, em particular com Maxi e Otávio, mas isto muito se deve à quantidade de vezes que despejaram a bola pelo lado direito à procura da profundidade. 

E o mais irónico é que, uma vez mais, vemos que o FC Porto não precisa de passes de 40 metros para colocar um elemento nas costas da defesa. O lance do 2x0 é um exemplo: Otávio, com um passe curto e na linha da marca de grande penalidade, conseguiu colocar Marega nas costas da defesa. Não é preciso balões e corridas a partir da linha de meio-campo: só é preciso saber decidir e encontrar o espaço certo no último terço.

Sérgio Conceição sabe isso. A equipa sabe isso e, mais importante, sabe fazê-lo. Então, basta fazer. E repetir. 

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Análise 2017-18: os médios

Contrato até 2022
Danilo Pereira - Um dos maiores elogios à época do FC Porto é recordar que a equipa esteve privada durante quase meia época do médio-defensivo, possivelmente o mais importante e valioso jogador no arranque da pré-época. Adaptou-se ao esquema de dois médios de Sérgio Conceição, sem nunca perder a sua preponderância defensiva: nas 19 jornadas em que alinhou na Liga, apenas foi driblado em 5 ocasiões por adversários. Danilo foi também o médio de toda a competição com maior percentagem de duelos ganhos (63%) e de duelos aéreos ganhos (72%). Marcou apenas uma vez na Liga, mas esteve em quatro dos golos do FC Porto na Champions. Estava na calha para a saída no fim da época, mas a lesão obrigou a SAD a rever os seus planos para o médio - e ainda bem para a equipa, que conserva um dos melhores jogadores, profissionais e candidato a integrar o grupo de capitães.

Contrato até 2020
Sérgio Oliveira - A surpreendente escolha de Sérgio Conceição para os jogos grandes estava longe de correr bem, pois entre seis jogos de Champions e clássicos, o FC Porto venceu apenas um com o médio no 11. Mas Sérgio Oliveira acabou por aproveitar o espaço com a lesão de Danilo Pereira para entrar no 11, e por lá se manteve até ao final da época. Esteve a um nível muito elevado em fevereiro, com 3 golos e 2 assistências na Liga, mas apesar da notória evolução esta época continua a faltar a consistência que possa fazer dele um jogador «de época». Ganhou intensidade e já não é apenas o médio que chutava e batia livres, tendo sido o 5º maior criador de ocasiões de golo do FC Porto, mas muitas vezes «desliga-se» do jogo. A continuidade de Danilo e Herrera deve remetê-lo ao papel de alternativa válida para a próxima época, sendo que a sua situação contratual terá que ser revista muito em breve. 

Contrato até 2019
André André - Cumprida a terceira época no FC Porto, é tempo de dizer adeus a André André. Os dois bons meses que realizou com Lopetegui já vão longe e, a caminho dos 29 anos e a uma época do final de contrato, o médio português não apresenta o nível desejado para jogar num FC Porto campeão. Jogou apenas 331 minutos no Campeonato, apenas três vezes como titular, e apesar do apreço mantido pela massa adepta por jogadores portugueses e portistas - sobretudo os não saem nem são vendidos à primeira oportunidade - não faz sentido manter André André no plantel para mais uma época a alternar entre banco, bancada e minutos residuais de jogo. O seu regresso a Guimarães está a ser negociado e resta desejar boa sorte a André André e felicidades futuras, menos nos jogos contra o FC Porto. 

Contrato até 2019
Héctor Herrera - Porquê sempre ele? Foi, por razões óbvias, um dos rostos da conquista do título. Mais do que o golo na Luz, que mudou a história do Campeonato, Herrera distinguiu-se pela forma incansável com que se apresentou jogo após jogo, encaixando na perfeição no papel idealizado por Sérgio Conceição para o meio-campo. No FC Porto, Herrera foi o médio com mais desarmes (83), o 3º principal criador de oportunidades de golo (50) e o médio que mais duelos ganhou (221). Numa época de grande exigência para o mexicano, muitas vezes a ter que trabalhar por dois no meio-campo, destaca-se o facto de ter sido desarmado apenas 22 vezes em 29 jornadas, estatística que contraria a imagem de displicência que tantas vezes lhe foi associada, bem como o facto de ter sido o 3º jogador com mais passes para o meio-campo adversário e o 5º com mais passes no último terço. 

A defender ou a atacar, foi uma época completa e de bom nível de Herrera, que agora levanta questões para o futuro. Aos 28 anos, está a uma época do final de contrato; já atingiu o seu pico de valorização, mas Sérgio Conceição não pode perder meia equipa. Logo, está entre a saída e a possibilidade de passar a ser «mobília», pois dificilmente haverá contexto mais favorável para uma transferência e tão grande estado de graça entre os adeptos. Com Sérgio Conceição, e esta forma de jogar, é essencial que permaneça, mas a grande oportunidade de uma venda pode não voltar a aparecer. 

Contrato até 2021
Óliver Torres - Foi o principal dinamizador do bom futebol praticado pelo FC Porto no início da época, mas deixou de ser opção para Sérgio Conceição, sobretudo quando a aposta em dois médios passou a ser mais declarada. Chegou a ser expectável que pudesse sair em janeiro, a tempo de encontrar uma solução que contornasse a avultada verba que teria que começar a ser paga ao Atlético (a SAD pagou 5 dos 20 milhões de euros no primeiro semestre), mas o espanhol permaneceu na Invicta. Que Óliver tem nos pés futebol e ideias de jogo que não existem em mais nenhum jogador do FC Porto, ninguém pode duvidar; mas que as suas caraterísticas não eram as mais ideais para o meio-campo de Sérgio Conceição, também não. Agora, ou Sérgio Conceição tem um papel ativo para Óliver em 2018-19, ou o seu posicionamento no clube terá que ser revisto. Óliver não pode ser uma mera alternativa, um jogador que vai para o banco ou entra para os 20 minutos finais e que só joga perante a indisponibilidade de um ou dois colegas. Não é um estatuto condizente com o seu custo. Óliver tem que jogar na próxima época, pois um dos maiores investimentos da história do FC Porto não pode estar «parado». As escolhas de Sérgio Conceição não têm que obedecer a durações de contrato ou dinheiro investido, mas o caso de Óliver não pode ser tratado como apenas mais um - de recordar que na informação prestada à CMVM o FC Porto referiu-se à cláusula de compra como sendo opcional, não obrigatória. Óliver tem que jogar na próxima época, seja aqui ou noutro clube, ou pelo menos ser um jogador para o qual Sérgio Conceição terá planos mais ativos, mesmo que isso demore mais alguns meses de trabalho. 

Compra obrigatória
Paulinho - Não conseguiu entrar no «comboio» da equipa e acabou por ter um papel irrelevante na segunda metade da época. Não foi um pedido expresso de Sérgio Conceição, mas tinha caraterísticas que poderiam ter sido úteis ao FC Porto (nomeadamente a forma como coloca bolas em zonas de finalização), sobretudo quando pensamos o quão inconsistentes jogadores como Hernâni, Otávio ou Corona foram sendo. Os três jogadores que chegaram ao FC Porto por empréstimo em janeiro fizeram-lo meramente por contingências no fair-play financeiro, por isso à partida Paulinho fica no FC Porto a título definitivo - a que preço, é a questão, pois é um jogador que tem várias limitações na dimensão física. É demasiado frágil para jogar no miolo do meio-campo, mas não é rápido e explosivo o suficiente para pressionar na frente e dar largura ao jogo do FC Porto. O pior que poderia acontecer é Paulinho ficar no FC Porto não por aquilo que Sérgio Conceição viu nos últimos meses, mas pelo que ficou acordado com o Portimonense em janeiro. Mas tendo em conta que vimos, com Sérgio Oliveira, a grande diferença que pode ser para Sérgio Conceição ter um jogador em janeiro e tê-lo numa pré-época, esperemos que Paulinho se revele reforço e não um fardo

Contrato até 2021
Otávio - Esteve longe da desejada época de afirmação - acabou por ter apenas pouco mais de metade do tempo de utilização da temporada 2016-17. Numa época em que a SAD decidiu reforçar a aposta em Otávio (comprou 15% do seu passe à GE Assessoria, em novembro, por 2,1 milhões de euros - uma verba que se calhar poderia ter desbloqueado uma renovação de contrato bem mais pertinente no plantel...), o brasileiro nunca conseguiu encher as medidas aos olhos do treinador, apesar de ter sido titular na reta final da temporada. Embora não duvidem que Otávio é um jogador de potencial e talento, andou muitas vezes perdido entre a meia direita e a zona central, e acabou por ter mais cartões (5) do que intervenção em golos (3) na Liga. Foi sendo alternativa, curta, num plantel em que a concorrência não deveria ser a mais feroz para o brasileiro. Acabou por fazer melhores jogos em 2016-17 do que nesta temporada. 

É de recordar que Otávio custou inicialmente 2,5 milhões por 33% do passe (a SAD entretanto passou a declarar ter apenas 32,5%). Em outubro de 2016, a SAD comprou mais 20% de Otávio, por 2,9 milhões de euros. E no primeiro semestre comunicou a compra de mais 15%, a troco de 2,1 milhões de euros - e é deveras curioso que a GE Assessoria, uma empresa que tinha apenas 20% do passe de Otávio quando o brasileiro foi negociado para o FC Porto, já conseguiu vender 35% à SAD. Contas feitas, são já 7,5 milhões de euros investidos em Otávio, de quem o FC Porto tem 67,5% do passe, proporção que faz dele um dos ativos mais caros do clube. A aposta em Otávio foi reforçada em época de contenção financeira e de incumprimento do fair-play financeiro, algo que terá que dizer muito da aposta no brasileiro no médio prazo. 

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um amargo superar de expetativas

A duas jornadas do final do Campeonato, aconteceu o que chegou, a determinada altura da época, a parecer improvável: o FC Porto assegura a qualificação direta para a Liga dos Campeões. Motivo para celebrar? Não, porque ainda está para nascer o dia em que o FC Porto celebre o primeiro dos últimos lugares - ainda que o passado recente obrigue a concordar que já esteve mais longe. Mas por incrível que possa parecer, a surpresa em ver este FC Porto ir diretamente à Liga dos Campeões não é menor do que desilusão de ver o Benfica a um passo de ser tetracampeão pela primeira vez.

Não há portista que não sonhe alto, nem que não queira mais. Mas desde o início da época a realidade era esta: não foi uma temporada preparada para fazer do FC Porto campeão. Desde a escolha do treinador a toda a gestão da pré-temporada. No meio de tudo isto, o mais admirável é que o FC Porto tenha mesmo conseguido (a diferença de golos em relação ao Sporting já o assegura), sob o comando de Nuno Espírito Santo, ir diretamente à Liga dos Campeões. 

Todos temos que concordar que as arbitragens foram más esta temporada. Muito más. Sonegaram vários lances que poderiam ter ajudado o FC Porto a desbloquear alguns jogos difíceis. Por vezes as equipas não crescem e se constroem apenas com boas exibições: é preciso ter aquela pontinha de sorte num mau jogo, trocar a ópera pelos pontos, sofrer para vencer. 

Mas a verdade é só uma: este FC Porto, versão 2016-17, joga demasiado pouco. Demasiado pouco para poder clamar que tinha estofo de campeão. Como já aqui foi dito, o mais frustrante é mesmo isso: mesmo numa época de mau futebol, o FC Porto tinha todas as condições para ser campeão. Não o foi por motivos diversos: falta de algumas soluções no plantel (e outras desaproveitadas a determinado momento, começando por Aboubakar, passando por Brahimi e acabando em Layún), a falta de qualidade de Nuno Espírito Santo, as más arbitragens, um Benfica bem mais feliz na hora de apitar. Podemos também falar da bola que vai ao poste, do jogador que falha de baliza aberta, de infelicidades próprias do jogo. Também acontece. Mas as quatro coisas anteriormente referidas eram possíveis de se antecipar, ao contrário das meras incidências de jogo.

Vários leitores criticaram O Tribunal do Dragão por ter defendido muitas mais vezes Lopetegui do que o vez em relação a Nuno Espírito Santo. Não só é uma crítica válida como é verdade: houve muitos mais momentos de defesa a Lopetegui do que a NES. Mas há uma grande diferença na hora de avaliar os dois treinadores.

Lopetegui era um absoluto tiro no escuro. Praticamente nenhum adepto o conhecia. Foi uma aposta de Pinto da Costa da qual não sabíamos o que esperar. Ninguém podia afirmar «não vai resultar», porque pouco ou nada sabíamos de Lopetegui.

No caso de NES, já estava aos olhos de todos aquilo que podíamos esperar no FC Porto. Letra por letra. NES não tem qualidade para ser treinador do FC Porto. Pode vir a ter? Não sabemos, pode um dia evoluir bastante. Mas à data de hoje, não tem. Como não tinha após ter concluído - ou deixado por concluir - os seus trabalhos no Rio Ave e no Valência. Não fossem as expulsões da Roma no play-off e possivelmente nem à fase de grupos da Champions o FC Porto teria chegado. Ter começado logo desde o início da época a usar essa vitória como um atestado de crescimento e qualidade foi das piores coisas que se poderiam fazer.

São já seis pontos a menos do que os da época 2014-15. Menos golos marcados, mais sofridos. O FC Porto de Lopetegui, a tal equipa que falhava em momentos decisivos, fez uma belíssima Champions, lutou pelo título (quase) até ao final, valorizou um punhado de jogadores e teve melhor futebol. Muito melhor, sobretudo na época celebrizada pelo colinho. Ainda assim, muitos adeptos vaticinaram logo que não dava. E agora, dá?





Otávio (+) - Esteve mal no passe, mas conseguiu cumprir na função que lhe cabia no último terço: o momento do desequilíbrio. Fez um golo, conseguiu ter alguma objetividade na primeira parte e ainda quis mostrar trabalho defensivo, com um total de 13 ações na defesa. Soube medir bem os momentos em que tinha que sair para o drible (algo que conseguiu fazer duas vezes, enquanto Brahimi tentou 15) e adaptou-se bem ao caos híbrido que é o FC Porto 2016-17.

Outros destaques (+) - Primeira parte bastante boa de Héctor Herrera, que esteve sempre bem nos apoios no jogo interior. Esteve por todo o lado e ofereceu sempre soluções ao portador da bola, na melhor fase do jogo do FC Porto. Quando a equipa recuou, jogando da forma pequena como NES a idealiza, perdeu-se Herrera e perdeu-se o FC Porto. Até lá, Fernando Fonseca (há dois anos alvo de uma análise d'O Tribunal do Dragão que o apontava como um valor seguro - quanto a laterais-direitos estamos perfeitamente servidos, desde Ricardo Pereira a Diogo Dalot) e Brahimi (embora pecando demasiado no lance individual - mas a sério, quem o condena perante o que se passa à sua volta?) também iam fazendo pela vida. 





Não aprender com os erros (-) - Isto é um problema que transcende o FC Porto e a forma como NES aborda as bolas paradas defensivas, mas que afetou uma vez mais equipa. A «velha escola» do futebol ensinava uma coisa que se aprendia desde a formação: nos pontapés de canto, é preciso meter um jogador a cobrir o poste. Isto poderia, por exemplo, ter evitado o golo de Lisandro no Dragão, no FC Porto x Benfica da primeira volta. E também teria evitado este golo do Marítimo.

É preciso notar que o FC Porto tem os 11 jogadores na grande área a defender neste pontapé de canto (com Brahimi na quina da grande área, a evitar o canto curto, e Otávio na meia lua). E no meio de tantos jogadores, ninguém se preocupou em cobrir o poste... e o próprio marcador do golo do Marítimo. Djoussé está completamente sozinho no momento em que o pontapé de canto é batido! E André André pareceu ser o único a aperceber-se disso - o jogador que estava na outra ponta da jogada e que começou a correr que nem um perdido na grande área, numa missão, em vão, de tentar evitar o cabeceamento. Bolas paradas defensivas é uma coisa que se trabalha nos treinos e que obriga a coisas básicas, como saber cobrir os postes e ter atenção a um tipo forte fisicamente e no jogo aéreo, como Djoussé. Esta jogada ignorou tudo isso.

Nada. Não jogam nada (-) - Sabem aquele bronco que aparece nos estádios todos e cujo vocabulário de análise tática não vai muito além de «estes gajos não jogam nada»? Não precisa de dizer mais nada: é uma análise adequada a este FC Porto. NES não sabe nada do que é jogar à Porto. Joga no FC Porto como tentou fazê-lo no Rio Ave e no Valência. Tem culpa disso? Não, está a fazer um trabalho idêntico ao que fez noutras paragens. Culpa - ou responsabilidade - tem quem apostou nisso mesmo. NES está a ser igual a si próprio desde o início da época. Que responsabilidades lhe podemos imputar por fazer um trabalho de acordo com as suas ideias e valia?

Não há ideias para nada neste FC Porto. Ou se procura Alex Telles na profundidade para cruzar para terra de ninguém, ou bombeia-se diretamente a bola para a frente. O FC Porto tem extremas dificuldades em encontrar espaço no jogo interior e decide muitíssimo mal no último terço (algo que também é da responsabilidade dos atletas). É penosa ver a hesitação dos jogadores sempre que chegam à entrada da grande área: não sabem se hão-de dar mais um ou dois toques, se devem jogar em apoio, se devem aguentar a posse, se devem dar mais uma fintinha. Rematar é que nada. O guarda-redes do Marítimo fez duas defesas em todo o jogo. Duas! Num jogo em que se não houvesse vitória servíamos de bandeja o primeiro tetra da história do Benfica. 

Isto não é o tempo do Eusébio. Podemos invocar todos os Salazariamos, mas à época havia uma verdade insossa: o Benfica era melhor do que o FC Porto. Por isso ganhava mais vezes, por isso estivemos tantos anos sem ser campeões. Nos últimos 30 anos, o FC Porto habituou o mundo a ser melhor do que o Benfica. Mas agora, ver o Benfica ser tetracampeão nesta era? Nestas circunstâncias? Uma equipa que não consegue fazer ponta na Europa, mas que se prepara para fazer um póquer de títulos entre colinhos e campos inclinados? Um Benfica que à 8ª jornada de 2015-16 estava morto e que esta época não mostrou melhor futebol? E ainda assim, vão ser tetracampeões? Chegámos a esta fase: a fase em que o Benfica nem precisa de fazer muito para ser campeão. Ou lhe fazem a papinha, ou o FC Porto não consegue também ele servir um prato à altura. 

Ser 2.º classificado esta época é um superar de expetativas, pelo menos face às análises feitas neste espaço no início da época. Mas ver o Benfica ser tetracampeão desta forma? Inaceitável.  E agora, pagam a fatura os lesados do NES? Não. Porque se há algo que Nuno Espírito Santo fez esta época, foi algo que tem faltado a muita gente no seio do FC Porto: não ficou abaixo das expetativas, pois não era, à partida, particularmente expectável ganhar algo sob o seu comando esta época. A não ser que anseiem pela repetição do ciclo «a culpa é do treinador». 

Pró ano é que é. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Feito, próximo

A Taça de Portugal é como o Martelinho: pode ser uma faca de dois legumes, muito em função do resultado. Nuno Espírito Santo optou por colocar a base dos melhores jogadores em campo, preferindo não correr muitos riscos (se é que era possível correr grandes riscos contra o Gafanha, em campo neutro, jogasse sem jogasse).

Não é propriamente incomum os treinadores do FC Porto usarem uma base mais consolidada de jogadores no primeiro jogo de Taça, ao invés de mudar meia equipa. Até Villas-Boas não prescindiu de Hulk contra o Limianos. Nuno fez a sua escolha, a equipa passou o jogo-treino sem dificuldades e a única interrogação em torno das suas escolhas é o que se dirá a jogadores como Sérgio Oliveira, João Carlos Teixeira ou Varela: se não servem para jogar contra o Gafanha, a que momento da época é que poderão mostrar utilidade à equipa dentro de campo?

Nuno também optou por dar continuidade ao 4x4x2 que tão bem funcionou contra o Nacional, ainda que dificilmente seja contra o Gafanha que uma equipa consolida ou deixa de consolidar o modelo e dinâmicas de jogo. O jogo contra o Club Brugge, amanhã, já será um teste bem mais difícil, no país onde todos aprendemos a detestar o Anderlecht. Aí sim, já será possível tirar sinais mais conclusivos, até porque em caso de um mau resultado (um empate dificilmente saberá bem) o apuramento para os 1/8 pode complicar-se. Bem mais do que ganhar ao Gafanha, pelo menos.




Iván Marcano (+) - Desta vez com Boly ao lado, voltou a fazer uma exibição irrepreensível e sai deste jogo como um dos melhores do FC Porto. Dizer que o nosso central foi o melhor contra o Gafanha, num jogo de Taça, não quer dizer que o adversário atacou muito, mas sim que Marcano soube ser prático e ajudar a equipa nos processos ofensivos: passou rapidamente no início de construção, controlou sempre o espaço em profundidade, deu indicações a Boly (bom ver Marcano assumir-se e ter voz na defesa), fez a assistência para o 2x0 e foi mais rápido e agressivo na recuperação. Contra o Gafanha, um bom ou um não tão bom Marcano podem não fazer diferença, mas contra o Club Brugge acreditem que fará.

Otávio (+) - Dá ao FC Porto o que tem faltado: rasgo individual. Aquele jogador que, qual Madjer, Deco ou Hulk, pega na bola, assume o lance individual, com objetividade, encontra um atalho para a baliza e faz golo. Brahimi pode fazer isso, Corona pode fazer isso, mas não o estão a fazer. Esse papel está a ser um exclusivo de Otávio esta época. Um belo golo e uma vez mais a destacar-se na forma como consegue distribuir jogo e crescer a partir do lado esquerdo. Os lances de perigo nasciam sempre dos seus pés.


A entrada de Corona (+) - Esteve com problemas físicos, teve 25 minutos para mostrar serviço, faz um golo e uma assistência. Objetivamente, não dá para pedir mais. Oportuno no 2x0, atento à movimentação de Depoitre no 3x0, volta a mostrar mais nos minutos em que é suplente utilizado do que nos jogos em que é titular. Nota para um bom regresso de Maxi Pereira à equipa. 




A rever (-) - Muitas vezes, jogar na Taça é uma missão ingrata para jogadores pouco utilizados. Admita-se isso. Se um jogar faz o primeiro jogo pelo FC Porto, por mais frágil que seja o adversário, se não revelar já bom entendimento com os colegas as coisas podem correr mal. Herrera não teve essa desculpa. Do meio-campo para a frente, Nuno Espírito Santo não mexeu, mas Héctor pareceu muitas vezes um corpo estranho à equipa. Muita hesitação na progressão e a soltar a bola, sem conseguir acelerar o jogo e pouco participante na circulação. Se o FC Porto rejeitou uma proposta de 30M€, não foi pelo jogador que vimos contra o Gafanha. Há também que insistir na melhoria da capacidade de meia-distância. Contra equipas que enfiam o Boeing 777 na grande área, ter capacidade de remate à entrada da grande área pode resolver muitos problemas.

Está feito, venha o próximo.

PS: O FC Porto, num salutar ato de transparência, publicou uma imagem de um contrato assinado por Helton e administradores da SAD que visa demonstrar que a rescisão já foi feita a 15 de Setembro. Há que acabar com o ruído, sem dúvida, pois criar ou alimentar polémicas com ex-capitães, independentemente dos argumentos de cada parte, nunca traz nada de bom. Só não se percebe o porquê do FC Porto fazer questão de mostrar uma rescisão assinada a 15 de Setembro, se no R&C de época 2015-16 o FC Porto já dava conta de uma rescisão ocorrida até 30 de Junho de 2016. Um R&C anual já deveria ser fonte de informação suficientemente esclarecedora para evitar dúvidas ou polémicas.



Helton é passado, um passado que será sempre recordado com carinho enquanto foi o número 1 da baliza do FC Porto, vencer o Club Brugge tem que ser o futuro. 

sábado, 24 de setembro de 2016

Reação, reviravolta e regressão

A velha máxima de que os clássicos / derbys não se jogam, ganham-se, serve para rever positivamente esta vitória. Mais um erro grave de arbitragem obrigou o FC Porto a reagir e a dar a volta à desvantagem ainda na primeira parte. Foi uma boa reação, que simplificou o que poderia tornar-se difícil. Já a segunda parte voltou a mostrar tudo o que de menos bom tem feito o FC Porto em 2016-17, a quatro dias da dificílima visita a Inglaterra.

Ficam os três pontos, bons apontamentos de algumas unidades e uma reação suficiente para responder às circunstâncias e à injusta desvantagem. Mas comparativamente aos jogos anteriores, no final só mudou o resultado. Em Leicester vai ser preciso muito, muito mais.




Danilo Pereira (+) - Uma escorregadela aqui, um ou dois lances em que pareceu alhear-se do jogo... e uma exibição monstruosa. Com Nuno Espírito Santo novamente a mexer em todos os setores, coube a Danilo agigantar-se no meio-campo, numa das exibições mais completas que já fez. Além de ter tentado três vezes o golo (foi, a par de André Silva, o mais rematador), recuperou 13 vezes a bola, fez 6 cortes, ganhou todos os lances pelo ar (5/5), ganhou 11 de 13 disputas de bola e esteve sempre irrepreensível no passe (93% de eficácia). Tudo isto com a particularidade de ter conseguido, a par de Otávio, ser o jogador do FC Porto com mais dribles eficazes em campo. Ontem, pareceu o Fernando mais alto e entroncado.

Otávio & André (+) - Tem nome de dupla musical brasileira, mas foi simplesmente a sociedade que permitiu ao FC Porto desbloquear um jogo que poderia ter-se tornado muito complicado. Logo no lance do golo do empate (em que há um penalty cometido sobre Marcano, que uma vez mais não foi assinalado), Otávio não se limita a meter a bola ao calhas na grande área. Levanta a cabeça e vê que estão a entrar 3 jogadores ao segundo poste, para apenas um do Boavista. André Silva finalizou muito bem nas costas do segundo defesa. 

O 2x1 nasce diretamente de um lançamento de linha lateral. Otávio, o pequenino, é que foi aguentar a bola na grande área, diretamente vinda do lançamento, mesmo com três jogadores do Boavista a cercá-lo (normalmente, quem vai receber é um jogador mais forte fisicamente). Arrancou o penalty e André Silva aproveitou da melhor maneira. Sair a vencer para os balneários foi importantíssimo. Ah: André Silva leva, para já, um golo a cada 185 minutos na Liga. Para já, média superior à de Derlei, Postiga, Jankauskas ou Kostadinov. Vai certamente melhorar.


Outros destaques (+) - Mais um grande jogo de Iván Marcano, que torna absolutamente incompreensível por que é que se lançou Boly no jogo anterior, para se voltar novamente a refazer a dupla anterior. Pelo chão, pelo ar, na marcação e no primeiro passe, esteve sempre irrepreensível e está a ser dos melhores jogadores do FC Porto neste arranque da época. Alex Telles novamente bem na profundidade dada ao corredor, apesar do golo ter sido uma oferta do guarda-redes (e foi preciso isso para se acabar definitivamente com as dúvidas sobre o desfecho do jogo...), e a conseguir entrar em zonas mais interiores. Bom enquadramento de Óliver na equipa, em particular na circulação de bola na primeira parte, e as entradas de Jota e Brahimi agitaram imenso o jogo (os dois criaram mais situações de perigo em 15 minutos do que o FC Porto desde o intervalo). 




Mais do mesmo (-) - Podia o FC Porto deixar de se encolher e acobardar a partir do momento em que está a vencer? Podia, mas não parece estar minimamente interessado nisso. A partir do momento em que se apanha a vencer por 2x1, o FC Porto desiste de pressionar. Deixa o Boavista ter bola, deixa o adversário ter iniciativa de jogo, e faz isso mesmo já tendo na memória recente exemplos de que jogar assim, estando a vencer apenas por um golo, é um risco enorme. Já para não falar que ninguém se pode rever neste estilo de jogo de equipa pequena. A partir do momento em que está a vencer por 2x1, o FC Porto joga como se esperaria que fosse o Boavista a jogar no Dragão: linhas mais recuadas, preocupação em preencher e ocupar os espaços no meio-campo, deixar o adversário avançar e só depois tentar recuperar a bola e sair rapidamente para o contra-ataque. A reincidência deste fator em todos os jogos já deu para entender que isto não é defeito: é feitio. É assim que o FC Porto está apostado em jogar esta época.

Um FC Porto que não pressiona, não vai tentar ganhar a bola no início de construção do Boavista e pareceu sempre ter mais receio de sofrer o 2x2 do que ambição em fazer o 3x1. O Boavista, que ao intervalo tinha 22% de posse de bola, consegue ter mais 10% de posse na segunda parte, o que demonstra que o FC Porto nunca se incomodou em deixar o adversário ter bola. 

Além disso, na segunda parte o FC Porto só aos 76 minutos conseguiu criar um lance de perigo, já depois de Diogo Jota ter entrado. Se é certo que o Boavista também nunca esteve muito perto de chegar ao empate - tomara, em que planeta é que podemos estar receosos que este Boavista marque dois golos no Dragão? -, a postura do FC Porto na segunda parte não espelha em nada a grandeza do clube e de um candidato ao título.

A rever (-) - Ou André André decide acordar ou vai saltar para o banco num piscar de olhos. Está disponível para todos os momentos do jogo, sempre com fibra e energia, mas acaba sempre por não se diferenciar particularmente em nenhum aspeto. Não houve um último passe a sair bem, um bom remate, um lançamento rápido, uma tabela... É preciso muito mais. 

Outro aspeto: viram o guarda-redes do Boavista a tremer por todos os lados quando tinha que agarrar a bola? O FC Porto, aparentemente, não viu. O guarda-redes do Boavista estava claramente sem confiança, a tremer por todos os lados, como se tivesse caído ali de pára-quedas por acidente. Agayev chegou ao Boavista há 10 dias, nem português sabe falar, não se entendia com os seus defesas e ficava em pânico sempre que tinha que se fazer à bola. O que fez o FC Porto para aproveitar a sua insegurança? Nada. A primeira defesa de registo que o guarda-redes tem que fazer é aos 76 minutos. Antes disso, o FC Porto só tinha acertado duas vezes na baliza, nos dois golos de André Silva. Não houve ninguém capaz de acertar na meia distância e de aproveitar a insegurança do guarda-redes, que acabou por oferecer a Alex Telles o 3x1. Numa Liga onde os Salins, os Bracallis e os Cássios, quando engatam, costumam tramar a vida ao FC Porto, não aproveitar os Agayevs para matar o jogo cedo revela pouca matreirice.

Pré-época em fins de setembro (-) - Quando o FC Porto ganha, (quase) ninguém se importa com quem joga e como a equipa joga. Foi o que valeu ontem, se não Nuno Espírito Santo já estaria a ouvir o dobro do que Lopetegui ouviu por culpa da rotatividade. Novamente de um jogo para o outro, muda o esquema tático, mexe em todos os setores e a equipa volta a jogar com outras peças, noutro modelo, a quatro dias de um difícil jogo de Champions. Rotatividade sim, mas que seja feita dentro de uma base já criada e consolidada, que saibamos que funciona. Assim não. O FC Porto nunca ganhou em Inglaterra, se o fizer em Leicester será histórico (um empate, à partida, já seria um excelente resultado), mas ir a um jogo de Champions sem ainda sabermos muito bem como ou com quem vamos jogar não tranquiliza ninguém. Vários reforços chegaram tarde, já com a competição a decorrer, outros não vieram e Nuno Espírito Santo não terá tido o tempo de fazer todas as experiências que pretendia. Mas já não é tempo de experiências, mas antes de apostar nas certezas que se tem, por mais curtas que possam ser.

sábado, 17 de setembro de 2016

Otávio by BMG

Otávio não foi um pedido de Lopetegui, nem de qualquer outro treinador. Otávio foi uma aposta da SAD, numa oportunidade de fazer uma transferência com um parceiro do FC Porto, no caso o Banco BMG, através do Coimbra Esporte Clube.

Este é um exemplo de como pode ser fácil contornar a proibição da partilha de passes de jogadores por terceiros. Se os agentes não podem controlar os jogadores, controlam os clubes. 

Ricardo Guimarães, presidente do BMG e antigo presidente do Atlético de Mineiro, decidiu começar a investir em jogadores, criando para o efeito o BR Soccer, registado na CVM e que em 2013 já tinha uma carteira de mais de 100 jogadores, muitos deles protagonistas de transferências muito caras (como Marquinhos, Óscar ou Bernard). Ora o fundo controla a empresa Vevent, que por sua vez assumiu o comando do CEC.
O Jogo, 17.09.2016

Como o Coimbra Esporte Clube serve apenas para manter e transferir os direitos dos jogadores, esses jogadores são espalhados por clubes como Corinthians, Atlético, Cruzeiro, Vasco, São Paulo, Internacional, Fluminense...

A partir daqui, a modalidade de compra é conhecida. No primeiro negócio, o BMG comprou 50% do passe de Otávio por cerca de 1,35 milhões de euros, e adquiriu também 15% que estavam na posse de um fundo japonês. Isso totalizou os 65% que o Coimbra Esporte Clube tinha de Otávio.

No fecho de mercado de 2014, o Inter transferiu os direitos desportivos para o FC Porto. Os direitos de inscrição podem ser transferidos livremente, o que foi o caso. A imprensa, ao consultar o contrato que foi celebrado, chegou a noticiar que a transferência se tinha processado sem custos. Conforme foi explicado aqui, não foi o caso.

Não foi ao Internacional que o FC Porto comprou Otávio, mas sim ao Coimbra Esporte Clube. E ao contrário do que escreveu hoje O Jogo, o FC Porto não comprou 32,5% do passe por 2,5 milhões de euros. Comprou 33%.

«Uma diferença de 0,5% não é nada». É sim, é uma questão de rigor. O FC Porto comprou 33% de Otávio, por 2,5M€, e cedeu 0,5% a uma parte desconhecida. 

Por exemplo, ninguém terá reparado que no terceiro trimestre da última época o FC Porto comprou mais 0,5% do passe de Diego Reyes. Inicialmente tinha comprado 95%, alienou metade e tinha ficado com 47,5%. Nos últimos valores declarados, a SAD já informou ter 48%. Qual foi a pertinência de aumentar, de 47,5% para 48%, a percentagem do passe de um jogador que acabou novamente dispensado? 

Podem não ser quantias muito significativas em empresas que têm receitas e gastos superiores à centena de milhões de euros. Mas no caso de Otávio, desses 0,5% já estaríamos a falar de mais de 37 mil euros, tendo em conta o valor que o FC Porto gastou por 33% do passe. E no caso de Reyes, por esses 0,5%, à luz do que foi pago na transferência inicial, também estamos a falar de 35 mil euros.

Há empresários que não faturam 72 mil euros. E pode não ser uma quantia muito significativa, mas isso dependerá sempre do destino do dinheiro. Por exemplo, por mil euros o FC Porto comprou André Silva. Por 35 mil euros Jorge Mendes comprou 40% de Diogo Jota. Por 750 euros o Benfica comprou Renato Sanches. Por 30 mil euros o Sporting comprou Gelson Martins. E 72 mil euros pagam duas rendas anuais do centro de treinos do FC Porto no Olival. Com pouco é possível fazer muito. Como nota de curiosidade, também foram comprados mais 10% de Hernâni antes de ter sido sem surpresa dispensado. Com que sentido?

Portanto Otávio custou 2,5M€ e foi uma transferência tratada por Reinaldo Teles e Adelino Caldeira. Quando os adeptos discutem o mercado, fala-se um pouco de tudo, de Pinto da Costa a Antero Henrique, de Alexandre Pinto da Costa a Jorge Mendes, da Doyen a Luciano, mas esquecem-se que basta (aliás, é necessário) a assinatura de dois membros do Conselho de Administração para validar uma transferência. Neste caso, no contrato entre o FC Porto e o Internacional para a transferência dos direitos federativos de Otávio, foram Caldeira e Reinaldo a formalizarem o acordo.


O que O Jogo não explicou hoje foi quanto custa comprar mais de Otávio. Neste caso, o FC Porto tem a opção de comprar mais 35% do passe de Otávio por 5 milhões de euros, às entidades GE Assessoria Esportiva (20%) e ao pai de Otávio (15%). Importa dizer que estes 35% já estavam na posse das referidas entidades quando Otávio chegou ao FC Porto. Ou seja, o FC Porto não vai tocar na percentagem que toca ao Coimbra Esporte Clube/BMG, que assim continuará a ter 32% - isto desconhecendo a quem cedeu o FC Porto os restantes 0,5%.

Otávio ficaria assim a um custo de 7,5 milhões de euros por 68% (passados a 67,5%) do passe, além de encargos de 400 mil euros no momento da compra. É uma compra inflacionada, pois Otávio era um suplente do Internacional, sem percurso nas seleções brasileiras, no momento em que foi contratado.

Mas conforme foi opinado na altura, havia sentido desportivo na contratação de Otávio. Não era um Zé Manuel, um Sami ou um Anderson Dim (que chegou depois de Otávio, também via BMG, e a maioria dos adeptos já nem deve saber por onde ele anda - ou sequer que cá esteve). A qualidade, a classe e o potencial eram visíveis. Faltava o mais importante, e Otávio está a tê-lo: empenho, disponibilidade e humildade para aprender.

Sendo jogadores diferentes, tem qualidade como Quintero tinha, mas com uma mentalidade competitiva muito superior. Otávio não é um brinca na areia, não é o craque que pensa que já sabe tudo e o FC Porto tem todas as razões para estar satisfeito com o seu profissionalismo.

Obviamente que, há dois anos, Otávio não valia a avaliação de 7,5M€. São os riscos de começar por avançar para uma percentagem do passe e deixar as cláusulas de compra posteriores com uma grande inflação. Os otimistas poderão dizer que isso é uma maneira de proteger o investimento («É melhor ter dado apenas 2,5M€, e esperar para ter a certeza de que ia evoluir, do que dar logo 7,5M€»). Isso é altamente relativo. Não há partilha de risco no futebol, o risco está sempre em cima dos clubes. Walter é o perfeito exemplo disso - jogou pela última vez pelo FC Porto em 2011, mas no R&C do primeiro semestre ainda tinha contrato com a SAD, que tinha 15% do seu passe. 

Otávio não custou nada na primeira época, pois a dívida ao CEC manteve-se inalterável até ao R&C do primeiro semestre de 2015-16. Os 2,5M€ entretanto já foram pagos, além dos 400 mil euros de encargos. Agora, a maioria dos portistas admitirá que Otávio merece o tal investimento de mais 5M€ por 35% do passe. Pois, mas talvez mereça pelo que é hoje, não pelo que era há 2 anos. Foi graças ao trabalho desenvolvido pelo FC Porto (e neste caso com uma pequena ajuda do V. Guimarães) que Otávio atingiu este nível. Agora, o custo de Otávio dobrou.  E há casos em que até pode triplicar, como o de Gleison.

Otávio tem contrato por mais 3 anos, pelo que neste momento não há pressas para aumentar a percentagem do passe (nem a SAD devia comprar mais percentagem de passes antes de ter em mãos grandes propostas para venda). Mas é tempo de rever a forma como se permite que a percentagem do passe dos jogadores para compras futuras seja tão inflacionada. De 2,5M€ por 33% para 5M€ por 35% vai uma grande diferença. A avaliar por aquilo que eram as cláusulas das partes que não o FC Porto e o CEC, Otávio não estava a ser avaliado em 7,5M€ em 2014, mas sim em quase 15M€

Que o Otávio siga a sua evolução e continue com a mesma e louvável postura. Se continuar assim, o investimento progressivo será um passo natural. Mas o FC Porto não tem que calcular a sua gestão de hoje para ontem, mas sim de hoje para amanhã. 

PS: Luís Filipe Vieira disse durante o jantar de deputados benfiquistas com assento parlamentar que a sua SAD vai apresentar lucros pelo 3º ano consecutivo, o que disse ser um «feito único para os principais clubes portugueses.» Mentiu, pois a SAD do FC Porto conseguiu gerar lucros 5 anos consecutivos, entre 2006 e 2011. Os ares parlamentares fazem mesmo a boca fugir da verdade.

PS2: O empresário de Otávio, na sua entrevista a O Jogo, disse algo importantíssimo. «Ele diz que não há grupinhos no balneário». Mas por mais importante que isso seja, não basta haver sintonia no balneário, é preciso haver sintonia dentro de campo. E é algo que teremos forçosamente que ver contra o Tondela. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Em Roma sê Porto

Já era difícil, agora tornou-se ainda mais. Não foi um problema de falta de empenho, de todo. Antes de falta de eficácia, cabeça e bastante clarividência em alguns momentos do jogo. O caudal ofensivo esteve lá, mas houve demasiada precipitação, tanto que em mais de 60 minutos a jogar contra 10 o FC Porto só marcou de penalty. E numa segunda parte que até foi bem conseguida, além do penalty (não esquecendo outro que ficou por marcar), o FC Porto só fez mais um remate na direção da baliza adversária. A parra foi vasta, a uva nem tanto e ainda não se percebe muito bem o que pretende Nuno Espírito Santo semear e colher, sabendo que os terrenos que tem à disposição não são os mais férteis. Os ventos de Roma ameaçam levar tudo. Pensemos nisso depois de vencer o Estoril.





Movimentações de André Silva
André Silva (+) - André contra o mundo. Se é certo que não foi particularmente incisivo no remate (apenas 2 em 8 à baliza), André Silva garante uma coisa que, por exemplo, Aboubakar não conseguia fazer: presença permanente. O FC Porto sente sempre que André Silva está ali. Sente sempre que há uma referência para segurar a bola, para vir buscar jogo, para atacar o espaço na grande área. É um ponta-de-lança completo, desinibido. Estreou-se na Europa com um golo, aos 20 anos. Fernando Gomes tinha 22. Não errou um único passe (15/15), arrancou 5 faltas e correu todo o meio-campo adversário, nunca tendo deixado de marcar presença na grande área, ligeiramente descaído para a direita. Vejam o heat map. Será muito difícil ir à Champions, mas se o FC Porto tiver hipóteses de ir as mesmas passarão muito por André Silva.

Movimentações de Otávio
Otávio (+) - Outro menino em estreia em noites de Champions. Também contribuiu para muito desacerto nos remates (1/6, capítulo a melhorar), mas foi sempre a gota de criatividade e capacidade individual no FC Porto. Foi o mais solicitado durante toda a partida (tocou 80 vezes na bola), meteu 5 bolas em zona de finalização e foi dos poucos a ter capacidade para, num rasgo, abrir a defesa da Roma. Está a acrescentar - e a disfarçar - muitas coisas neste arranque de época, e é cada vez mais claro que faz a diferença em zonas interiores. Quando, ou se, chegar um extremo ao plantel, desviá-lo para ser o homem mais adiantado do meio-campo será um passo natural.




Não foi discreto, foi péssimo (-) - Nuno analisou que o FC Porto teve «20 minutos discretos». Não foram discretos. Na verdade deram bem nas vistas, de tão maus que foram. O FC Porto iniciou a partida como uma equipa incapaz de assumir o jogo, de construir uma jogada, de fazer circular a bola. A pressa de meter a bola na frente era tanta que o chutão para André Silva chegava a ser irrisório. O FC Porto quer ser uma equipa de transição rápida, mas isto não é transição rápida, isto é dar a bola ao adversário e não perceber que tem que ter calma para construir, calma para perceber que para jogar em transição rápida é preciso ter espaço; e por vezes é preciso criar esse espaço antes de isso acontecer. Este trio de meio-campo - melhor, a organização deste trio - dificilmente durará muitos jogos (Herrera não pode jogar tão atrás, André não pode jogar tão à frente), ainda que o FC Porto tenha esboçado um 4x4x2. O FC Porto chega aos 35 minutos com 30% de posse de bola. Nunca vimos uma equipa vir ao Dragão ter tanta posse de bola aos 35 minutos. Dirão que isso, por si só, não ganha jogos. Mas a verdade é que a Roma massacrou durante todo esse período e, não fosse a expulsão de Vermaelen, as coisas poderiam ter ficado ainda mais feias. 

Chuta, cruza, chuta, cruza (-) - O FC Porto teve oportunidades para ganhar o jogo. Atacou muito (67 vezes), mas muitas vezes sem nexo. Os remates de fora da grande área (13) quase nunca levaram perigo. O FC Porto teve sempre dificuldades em entrar ou aproximar-se da grande área em progressão. Na segunda parte, a equipa descobriu espaço nos corredores, mas os jogadores poucas vezes conseguiam ir à linha, optando por cruzar ainda com alguma distância. O FC Porto fez 30 cruzamentos na partida, 22 dos quais na segunda parte, mas há limites para André Silva; e o FC Porto perdeu muito com a saída de Adrián López, cujas movimentações estavam a beneficiar André Silva (e o espanhol teve ações importantes no ataque). O mais irónico é que, a determinada altura, o FC Porto está sempre a meter bolas na grande área e faltava lá mais alguém para ganhar nas alturas, para bater os centrais. Depoitre, Aboubakar e Gonçalo Paciência, por diferentes razões, não deram um contributo que podia ter sido útil. 

A tradição (-) - 13 minutos de competições europeias 2016-17 e o FC Porto já tem um lance para o Watts da Eurosport. Casillas tremeu (depois salvou várias vezes o FC Porto), Alex Telles salvou, mas os fantasmas da época anterior continuam: o FC Porto treme pela mais pequena coisa na defesa. O autogolo de Felipe é um infortuito, mas em 2 jogos são já 2 golos sofridos em pontapés de canto. Na transição defensiva, o FC Porto está demasiadas vezes exposto e desequilibrado, sendo lento a recuperar. Na Roma, a maioria dos jogadores do seu 11 seriam titulares no FC Porto, o que diz muito da sua qualidade, mas uma vez mais o FC Porto sofre mais por erros próprios do que por imposição do adversário. Marcano vai sendo o melhor elemento da defesa. Isso se calhar diz muito.

O banco (-) - Nuno Espírito Santo não tem culpa da escassez de opções no banco. É inaceitável que um jogador valioso como Brahimi, o principal desequilibrador do FC Porto, não conte para o playoff da Champions. Para os mais esquecidos, foi muito graças ao argelino que o FC Porto passou o playoff de 2014-15. Para que raio foi Brahimi apresentado, então? Para não desvalorizar o ativo da Doyen? Para quê, se depois não conta para jogos importantes? Outrora o FC Porto vendia jogadores depois de eles darem o seu importante contributo à equipa; agora não só os jogadores não saem como não dão o seu contributo. No meio de tudo isto, Nuno fica com opções curtas para ir à Champions. A jogar contra 10, com a Roma completamente encostada às cordas, o FC Porto não teve opções para dar companhia a André Silva; e então que faz o FC Porto quando tem hipóteses de matar a eliminatória? Tira o jogador mais criativo da equipa (Otávio) e mete Evandro. Isto não é um FC Porto que explorou todas as suas opções para ganhar. Também porque, na verdade, não havia muito por onde escolher. Uma eliminatória começa a perder-se assim. E a culpa não foi de Nuno, nem de Felipe, nem de Herrera, nem de Depoitre. 

Duas notas. Rúben Neves não é o primeiro, nem o último jogador que está para entrar, mas depois o treinador muda de ideias. Não sabemos o que se passou durante a semana. Não sabemos se Rúben treinou sempre com os titulares, ia jogar de início e depois, em cima da hora, Nuno mudou de ideias; não sabemos o que lhe disse Nuno ao intervalo; nem sabemos o que levou Nuno a mudar de ideias. O treinador diz que num minuto as coisas mudam, e só ele saberá o que é, aos seus olhos, mudou naquele momento. Mas Rúben Neves, naquele momento, não foi o Rúben profissional; foi o Rúben adepto. Queria ver o FC Porto ganhar, queria ajudar, e deixou-se levar pela emoção. Está a viver uma nova realidade, pois saiu um treinador que favorecia as suas caraterísticas (Lopetegui) e tem tentado, nos últimos meses, encaixar em dinâmicas diferentes. Mas Rúben tem que ser mais rijo. A sua oportunidade vai chegar novamente. Rúben Neves não está aqui de passagem. É presente e futuro do FC Porto. Teve uma quebra, assumiu-o e vai fortalecer-se. À Porto.

A titularidade de Adrián López, que curiosamente foi relevada antecipadamente na TSF, por João Ricardo Pateiro, que também já tinha confirmado Nuno Espírito Santo como treinador do FC Porto atempadamente. Qual é o primeiro dado a retirar desta titularidade? É que Adrián tem que ser titular frente ao Estoril. Nenhum adepto do FC Porto admitirá que isto tenha sido uma titularidade à Cristian Rodríguez vs Barcelona na Supertaça Europeia, com a intenção de valorizar o jogador para uma venda. Por isso, a opção de Nuno visa recuperar o jogador, recuperar o ativo. E assim é, agora há que mantê-la.

Não valerá de nada Adrián ter jogado de início frente à Roma para agora voltar para o banco. Se é para recuperar o jogador, vamos recuperá-lo, mantendo uma aposta fixa. Por exemplo, teria sido demasiado fácil atirar André Silva para o banco depois das suas dificuldades iniciais até chegar ao primeiro golo pelo FC Porto. Mas José Peseiro, com a sorte de não haver uma alternativa a garantir mais, manteve a aposta em André Silva e os resultados estão à vista. Adrián teve ações interessantes frente à Roma, não foi de todo a tábua rasa que chegámos a ver em 2014-15, e é um ativo caro no plantel. Por isso, se é para recuperar o jogador, que se tenha a certeza que o FC Porto fez tudo o que era possível. Passar da titularidade para o banco ou para a bancada seria um sinal de que a titularidade de Adrián visava a sua valorização no mercado, e não a sua reintegração no FC Porto. Ninguém admitiria isso. Por isso, vamos Adrián, de início contra o Estoril. 

E esta é para calar os críticos, que dizem que o FC Porto não dá oportunidades aos jogadores da equipa B. Adrián López, há um mês, estava na equipa B e agora foi titular no play-off da Champions. Tomem lá!

domingo, 14 de agosto de 2016

Para moralizar, não para iludir

A história é sempre a mesma. Na primeira jornada, não importa se há ópera [inserir estilo musical favorito], o que importa é ganhar. Na 2ª vai ser igual. E na 3ª. E em qualquer jornada em que seja essencial ganhar pontos, ora para aumentar ou encurtar distâncias em relação aos rivais, ora para mantê-las. Nunca chega a haver muito bem uma necessidade de futebol deslumbrante, mas sim de pontos e vitórias. Sabendo que bom futebol deixa sempre qualquer equipa mais próxima de vencer.

O FC Porto fez o que importava, estreando-se a vencer, mas sem deixar de espelhar as dificuldades próprias de uma pré-época que deixa imenso a desejar, inclusive e sobretudo na gestão de ativos. Os casos de Brahimi e Aboubakar, que deixam Nuno Espírito Santo a ter que responder perante questões incómodas, são ilustrativos. O FC Porto não deveria nunca deixar de tirar partido dos seus ativos, estando eles ou não próximos da saída. Vejam-se os casos de Falcao e Hulk, que iniciaram a época antes de serem transferidos. 

Poderão dizer que Brahimi e, sobretudo, Aboubakar não têm a influência que Hulk ou Falcao tiveram. Mas outrora o FC Porto vendia jogadores quando atingiam o pico de valorização e já tinham ajudado a equipa a conquistar títulos. Nos casos de Indi, Brahimi e Aboubakar, não só não atingiram o tal pico como saem sem colaborar na conquista de títulos; além de que saem primeiramente pela necessidade do FC Porto de vendas, não por já serem, à imagem de Falcao ou Hulk, jogadores com imenso mercado e procura. 

A 15 dias do final do mês, a construção e redefinição do plantel continua atrasada de forma muito preocupante (palavra mais simpática possível neste contexto), mas a primeira vitória já cá está. Com a balda defensiva já tradicional, mas com uma reviravolta, palavra essa tão estranha ao FC Porto no passado recente. Agora vamos ao mais difícil, com a certeza de que o FC Porto conseguiu responder às adversidades no primeiro jogo da época. 





Otávio (+) - Num só jogo, Otávio quase consegue ir a mais disputas de bola do que Quintero em toda a sua carreira no FC Porto. E é aí que vai nascendo a diferença. Otávio tem a capacidade de conseguir colocar a bola onde quer, mas com o upgrade de saber ser agressivo no meio-campo adversário. Otávio fez 6 desarmes na partida, o que não é muito próprio num médio-ofensivo (emprestado à ala esquerda - o tempo o dirá se por convicção de NES, ou por ausência do substituto de Brahimi), pressiona, corre, não se esconde do jogo. Mais do que saber ler o jogo, sabe ler os companheiros - já sabe de cor as movimentações de André Silva. O seu talento nunca suscitou dúvidas, restava saber se haveria lugar para ele num contexto de equipa. Não só há como o FC Porto não pode, neste momento, dispensar o seu virtuosismo.


Efeito mexicano (+) - Mesmo encondendo-se do jogo muitas vezes, Corona foi objetivamente dos mais perigosos do FC Porto. Fez um bonito golo e procurou dar sempre o corredor a um algo desgastado Maxi Pereira, com quem nem sempre combinou da melhor forma. Ainda assim, meteu duas bolas em zonas de finalização e as vezes em que arriscou no 1x1 foram bem sucedidas (6 em 8). Quando Corona aparece, aparece bem. Mas precisa de aparecer muito mais. Já Héctor Herrera, numa posição mais recuada do que o recomendável (já lá vamos), foi o poço de energia habitual, abriu e transportou jogo, também faturou e foi o mais esclarecido do meio-campo.

Outros destaques (+) - Ao primeiro jogo oficial, um efeito positivo de meter os laterais a procurar a linha em vez do espaço interior (foi assim que Alex Telles cruzou para o 1x1). André Silva jogou com a disponibilidade e versatilidade habitual e marcou o ponto, mas se for para bater penaltys vai ter que praticar muito, pois nunca foram uma especialidade sua. Jogo bastante sereno e positivo de Marcano.





Meio caminho (-) - Resumidamente: André André não pode jogar tão à frente e Herrera não pode jogar tão atrás. Pode ser circunstancial, pois a chegada de um extremo pode levar NES a rever os seus planos para Otávio, mas André André é uma formiguinha de trabalho, talhado para jogar na posição 8 quando está bem fisicamente; mas nunca vai ter aquele palmo de criatividade necessária para jogar mais próximo de André Silva. Por outro lado, Herrera melhorou muito na segunda metade de 2015-16 por ter subido no terreno. É certo que Herrera, jogando mais recuado, tem mais soluções para pegar no jogo, mas não pode ficar tão próximo do raio de ação de Danilo. Além de que Herrera é o melhor médio do FC Porto a aparecer em zonas de finalização e também aquele que mais rapidamente consegue recuperar posição numa transição. Esta estrutura de meio-campo dificilmente desbloqueará jogos mais difíceis ao longo da época.

Passividade (-) - Os primeiros 30 minutos foram francamente maus para o FC Porto. A equipa melhorou, mas sem deixar de permitir ao Rio Ave mais ousadia do que seria admissível. O Rio Ave meteu 9 bolas em zona de finalização, contra 8 do FC Porto. Felizmente, a eficácia fez a diferença a favor do FC Porto. Além disso, por 29 vezes o Rio Ave conseguiu meter a bola na grande área do FC Porto (que meteu 30 na área adversária). No passado recente, vimos qualquer equipa a marcar facilmente ao FC Porto, nem que só atacasse uma vez. Dar tanta iniciativa ao Rio Ave (que fez 13 remates, contra 12 do FC Porto, ainda que grande parte de meia distância) não é um bom presságio.

A rever (-) - Não é que se possa esperar que Felipe, com 27 anos, pouco mais de dois de futebol a sério e em estreia na Europa, não vá ter algumas dificuldades na adaptação ao futebol europeu. Mas a insegurança e o nervosismo foram claros - e Felipe não tem em Marcano um central que vá, propriamente, assumir-se como patrão durante a sua adaptação. Felipe sentiu o dilema entre pontapear ou tentar construir. Coisas que terá que melhorar num ciclo de jogos dificílimo. Ingenuidade de Alex Telles na expulsão (e simultaneamente perceber que aqui pode ver cartões com muita facilidade), Maxi Pereira (13ª época sempre a jogar, sem lesões graves) acusou algum cansaço. É bom lembrar que Maxi Pereira recusou um período de férias, depois da Copa América, para começar a trabalhar mais cedo no FC Porto. Esperemos que o descanso não lhe faça falta, pois será difícil Maxi Pereira voltar a fazer uma época com 40 jogos. Por fim, pede-se um pouco mais de rapidez e destreza no ataque do FC Porto, que obrigue o Rio Ave a recorrer mais vezes à falta (o Rio Ave só fez 9 faltas em todo o jogo e 5 foram sobre Otávio, enquanto o FC Porto fez o dobro).

Neste momento, o FC Porto é líder da Primeira Liga. O mais difícil não é chegar à liderança, é mantê-la. Mas o primeiro passo já foi dado.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Três semanas depois

Três semanas após o último post, as contas do plantel do FC Porto só tiveram subtrações. Desde a confirmação da compra de Alex Telles, Nuno Espírito Santo tem passado as semanas e jogos de pré-época a riscar quem considera que não serve, quem realmente não serve, a treinar quem no dia seguinte poderá já não estar no clube e à espera de reforços seus.

Não surpreende, na medida em que era facílimo prever, através do orçamento projetado para a última época e do R&C do terceiro trimestre, que não haveria compras significativas no FC Porto enquanto não houvesse vendas (desde a saída de Alex Sandro que o FC Porto não gera uma mais-valia considerável). É normal que os adeptos questionem, então, como é que Alex Telles e Felipe chegam por mais de 12M€. Simples, negócios com condições específicas, só possíveis através de determinado parceiro. E esperamos que, com a chegada de Alex, a defesa do FC Porto não se torne numa escola de samba, como dizia Pedroto.

De certa forma, até também por ser tratar de uma operação ligada ao BMG (em forma nesta pré-temporada), fazem lembrar o caso de Otávio, um dos jogadores que mais têm agradado na pré-temporada. Otávio assinou contrato no final de agosto de 2014, mas no seu primeiro ano não custou um cêntimo ao FC Porto. Assinou não porque a SAD tivesse disponibilidade para investir no jogador naquele momento (até porque não era um pedido do treinador), mas porque permitia assegurar desde logo um miúdo com talento, sem grandes implicações financeiras no ano que se seguia (algo que por vezes pode correr mal, como foi o caso com Adrián López, mas estava em causa um valor bem mais reduzido), e negociando com parceiros habituais. 

Entretanto, no segundo trimestre de 2015-16, a SAD pagou os 2,5M€ (correspondentes a 33% do passe - a SAD tem agora 32,5%) ao Coimbra Esporte Clube, clube usado pelo BMG para transferir jogadores. Otávio não deixará nunca de ser um jogador caro (os 2,5M€ por 33% do passe não significam que o jogador estava avaliado em 7,5M€ - era ainda mais caro, pois a opção de compra de mais 35% do passe é de 5M€), mas foi um exemplo de um negócio sem custos imediatos, conseguido só através de determinada parceria.

Além de Felipe e Alex Telles, só Miguel Layún foi comprado para a nova época (João Carlos Teixeira, uma aposta interessante, chegou a custo zero e Zé Manuel, o dono da velocidade vertiginosa, foi uma contratação que só pode envergonhar quem o levou para o FC Porto). A opção de compra por Layún previa que o FC Porto teria que pagar 3M€ agora e mais 3M€ até o final de 2016-17. Valia bem o investimento, tendo em conta que o FC Porto já poderia ter lucrado com Layún (numa espécie de Iturbe-Hellas-Roma). Se não o fez, é porque tem bons planos para o jogador.

De resto, ainda não houve compras, mas houve saídas de jogadores que haviam sido anunciados como reforços. Depois de Rafa, foi a vez de Josué e Hernâni receberem guia de marcha, deixando assim Otávio como o único jogador prometido por Pinto da Costa que vai, de facto, integrar o plantel principal. E não deixa de ser (pausa para encontrar a palavra mais apropriada)... Discutível como é que, da equipa do FC Porto B que ganhou a Segunda Liga, não há nenhum jogador promovido definitivamente à equipa A (Chidozie e André Silva foram promovidos a meio da última época).
Contrato até 2019

Mas as dispensas mais recentes - Josué, Hernâni e Quintero - merecem uma análise mais profunda. Começando por Hernâni, jogador cuja contratação ao Guimarães foi na altura avaliada negativamente pel'O Tribunal do Dragão, por considerar que Hernâni estava para aquele Guimarães como Licá estava para o Estoril. Assim foi, sem surpresa, pois Hernâni nunca revelou ter caraterísticas para jogar no FC Porto, nem para valer o investimento de mais de 3M€. Há muitos portistas que tinham/têm algum apreço por Hernâni, mas talvez por de facto nunca ter tido assim tantas oportunidades. Ainda assim, não é surpresa nenhuma que esteja desde já condenado a empréstimos sucessivos. O FC Porto, em alguns casos, tem-se deixado entusiasmar muito por pouco com alguns jogadores em Guimarães. Assim foi com Tiago Rodrigues, assim foi com Hernâni. Que não se volte a cometer o mesmo erro já neste mercado.

Contrato até 2017
O caso de Josué também tem um desfecho previsível, mas por motivos diferentes. É um jogador com qualidade e caraterísticas que são úteis para ser ter num plantel. Mas o FC Porto decidiu prescindir dele, e após três empréstimos diferentes, Josué tem todo o direito de recusar um quarto. E fossem todos assim: não faz sentido o FC Porto andar a renovar sucessivamente com jogadores para os emprestar. Que haja mais Hugos Leais - após meio ano cedido à Académica, percebeu logo que não tinha futuro no FC Porto e quis sair, apesar de ter mais três anos de contrato. E a única coisa que pediu para rescindir foi três lugares no camarote, abdicando de todo o dinheiro que teria a receber. E seguiu o seu caminho. 

Veja-se o exemplo de Mikel, que já tem mais renovações de contrato do que jogos na equipa A. Ou Abdoulaye, que anda desde 2010 a ser emprestado e que voltou a renovar contrato para continuar a rodar por outros clubes. Lá para 2024 deve estar no ponto para resolver os problemas na defesa.

Josué está no seu direito de não querer renovar. Vai fazer 26 anos, já fez três empréstimos, já fez parte do plantel principal e, neste caso, ouviu da boca de Pinto da Costa que iria fazer parte do plantel. Quem tem que decidir quem faz parte do plantel é o treinador, não é o presidente, mas Josué cresceu num FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa sempre foi sagrada e suprema. Se ouve o presidente garantir-lhe um lugar no plantel e acaba dispensado, é normal que não sinta motivação em renovar. Josué, provavelmente, nunca conheceu um FC Porto em que a palavra de Pinto da Costa não fosse cumprida. 

Se marcou na final da Taça, a culpa foi de quem o deixou ir para Braga, pois um jogador, quando está em campo, defende a camisola que tem vestida, não o clube que tem o seu passe. Josué poderia ser útil ao plantel, embora dificilmente tivesse espaço cativo na equipa titular. Resta tentar garantir o melhor encaixe possível com uma venda imediata - eventualmente garantindo uma parte significativa de uma futura transferência, pois é um jogador que se pode valorizar, e estando a um ano do final do contrato nenhum clube vai querer pagar muito por ele.

E com isto chegamos a Quintero, com vontade de bofetear uma cabeça que não faz jus aos pés que tem. Nuno Espírito Santo tentou, mas Quintero não quer saber. Sobra a questão: como é que, desde 2013, houve tanta incapacidade em antecipar que Quintero era um caso perdido e o porquê de tanto investimento progressivo num jogador que não correspondia?

Contrato até 2021
O caso mais preocupante já nem é a compra dos restantes 50% do passe, por 4,5M€, durante a curta (e única) boa sequência de jogos que Quintero fez com Lopetegui. O problema foi, em janeiro, renovar com Quintero por mais 4 anos, para ele logo depois ser afastado pelo Rennes. Foram cerca de 10M€ investidos num jogador sem retorno. E a renovação de contrato já não vai ao encontro da teoria da proteção do investimento, pois a SAD já pagou tudo o que tinha a pagar por Quintero. Concluir que Quintero não ia a lado nenhum era algo que deveria ter acontecido antes de se renovar por mais 4 anos e ter mais despesas com uma renovação de contrato, não depois de se ter reforçado, por duas vezes, o investimento nele.

E agora? O que se faz a um jogador com contrato por mais 5 anos que desperdiçou todas as oportunidades que lhe foram dadas no FC Porto? Dá para garantir royalties com todos os CDs de reggaeton que lançar até 2021? Já se recuperava uma parte do investimento. Neste caso, neste momento não resta mais do que tentar recuperar tanto quanto possível o investimento feito em Quintero. Até lá, metam-lo a dar voltas ao Olival e liguem o sistema de rega. Pode ser que a cabeça refresque.

Pergunta(s): Concordam com o afastamento de Quintero, Josué e Hernâni? Que temas gostariam de ver serem abordados nos próximos posts?