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segunda-feira, 24 de julho de 2017

A contratação e os reforços

Já lá vai mês e meio desde a contratação de Sérgio Conceição, mais três semanas de trabalho de pré-temporada, com o ciclo habitual - muita motivação, sede vencer e uma pressa descomunal em querer ver algo de diferente em relação à última época (os treinadores anteriores também passaram por isso - e neste caso, pegou a imagem de um FC Porto mais rematador e incisivo na proximidade da grande área, algo impossível de concluir após dois jogos particulares numa digressão pelo México). Irrelevante, como em muito do que se possa passar durante uma pré-temporada - o ideal, nesta fase e por mais irónico que possa ser, é expor tantas fragilidades quanto possível, de modo a que não deixem dúvidas de que necessitam de ser colmatas (seja com mais tempo de trabalho, seja com recurso ao mercado). Só conta a partir do dia 9 de agosto. 

Porém, a amostra nos primeiros 45 minutos em Guimarães já revelou um FC Porto muito, muito próximo do que se poderá idealizar para a época 2017-18. Maior facilidade para jogar ao primeiro toque e procurar a tabela perto da grande área; maior movimentação e versatilidade no último terço; capacidade de colocar mais gente na frente sem que isso implique a perda de equilíbrio no momento do contra-ataque; e uma dinâmica forte e funcional na tentativa de assegurar, simultaneamente, a profundidade através da subida dos laterais e presença no jogo interior. 

Muito positivo, restando apenas acrescentar um detalhe que pode fazer a diferença ao longo da época: quando há uma presença forte no ataque, os golos podem acabar por surgir em lances isolados, e não necessariamente através do que se construiu. Foi o caso dos golos de Aboubakar e Soares, que não nascem das melhores jogadas que o FC Porto fez na partida, mas que revelam o oportunismo que vai ser necessário muitas vezes para somar pontos - forçar o erro do adversário ao invés de tentar seguir o plano de construção da própria equipa. Sem dúvida, uma exibição que aguça a vontade de todos em ver mais deste FC Porto, apesar da expulsão de André André ter tornado a segunda parte atípica. 

Enquanto isso, o mercado. Até ver, o FC Porto fez uma contratação e ainda não foi buscar reforços ao mercado, mas já os tem. Vamos por partes.

Vaná foi o único jogador comprado pelo FC Porto até ao momento, um nome que não garante nada além de mais uma alternativa a Iker Casillas para a época 2017-18. Foi contratado para ser suplente de Peçanha no Feirense, mas saltou para a titularidade à 8ª jornada e foi um nome determinante para que o Feirense se aguentasse na primeira liga. 

Fez portanto uma época interessante, como é habitual vermos muitos outros guarda-redes da Primeira Liga o fazerem - foi isso que fez com que guarda-redes como Fabiano ou Bracalli saltassem para o FC Porto. Se garante alguma coisa para o FC Porto na época 2017-18, não garante, pois Iker Casillas tem a titularidade assegurada, salvo alguma eventual lesão.

Contrato até 2021
Quem não se lembra do muito criticado Fabiano, que foi só e apenas o guarda-redes menos batido das Ligas europeias na época 2014-15, e ainda assim não faltou quem lhe passasse o atestado de insuficiência para as balizas do FC Porto? O que Vaná fez no Feirense Fabiano fez no Olhanense, por exemplo. Agora, ser o guarda-redes menos batido das Ligas europeias (algo que se torna sempre mais fácil de alcançar quando há uma grande defesa à frente), isso já não é algo que se testemunhe frequentemente. 

Vaná é portanto uma contratação, não um reforço. E foi precisamente esta a premissa do post Contratações ou Reforços, feito há ano e meio que centrava outro nome implicado nesta contratação de Vaná: José Sá.

Conforme perspetivado, José Sá tem passado a sua estadia no FC Porto a conviver mais com o banco do que com a hipótese de jogar. Neste caso, não interessa o nome ser José, Miguel ou Artur: enquanto Iker Casillas estiver no FC Porto, o lugar será dele. E embora José Sá nunca tenha evidenciado ser um guarda-redes particularmente acima da média na sua geração, só terá hipóteses de evoluir jogando regularmente na próxima época. No FC Porto não o conseguirá, logo, a entrada de Vaná convida à sua saída, apesar de Sérgio Conceição não ter aberto o jogo quanto a isso. 

A baliza, no entanto, estará no fundo da lista de preocupações. Se Casillas renova por mais um ano, é para assegurar a titularidade ao longo da temporada. Há sempre o risco de uma lesão, mas já o havia o ano passado. Dentro de um ano a sucessão será provavelmente um tema de grande preocupação, mas para já o FC Porto volta a ter um nome que, desportivamente, dá garantias. 

Temos então a primeira e única contratação até ao momento, mas não é o mesmo que dizer que não há reforços. Há, e apesar de Vaná ser a única compra, o plantel não está de todo mais fragilizado do que o da temporada passada, que é o que por norma acontece quando o FC Porto começa a vender jogadores.

Entre os jogadores que caberiam nos planos para 2017-18 sem margem para dúvidas, destacam-se obviamente as saídas de Rúben Neves e André Silva. Rúben Neves, cuja operação já foi aqui descrita à melhor maneira de um prós e contras (que os há, sem dúvida), é um dos maiores talentos à escala mundial, mas dificilmente emergiria como primeira escolha para 2017-18, essencialmente devido à permanência de Danilo Pereira. Ainda que não haja uma alternativa ao nível de Rúben Neves, não é por aqui que o FC Porto, para o curto prazo, ficou fragilizado.

Quanto a André Silva, a venda ao AC Milan, por 38 milhões de euros, só é má se tivermos em conta que Pinto da Costa garantiu aos sócios que tinha rejeitado uma proposta de 60 milhões por ele. Se não fosse isso, seria uma venda bastante boa, próxima dos valores pelos quais foram saindo grandes avançados do FC Porto, como Falcao ou Jackson. André Silva poderia, sem dúvida, evoluir e render mais após mais uma época no FC Porto, mas dificilmente um jogador do futebol português se valoriza além da fasquia dos 40/45 milhões de euros. 

Desportivamente, e apesar de ter sido uma boa venda, o FC Porto perdeu um jogador importante, muitas vezes mais pelo trabalho que desenvolvia do que pelos golos que marcava. Mas objetivamente, André Silva fez 11 golos de bola corrida em 2016-17 no Campeonato. Ora, são números que um Aboubakar de cabeça limpa ultrapassa com facilidade. E se é certo que André Silva dava outras coisas ao FC Porto, Aboubakar também tem caraterísticas únicas no futebol português. 

Dois reforços sem ir ao mercado
Todos se recordarão que Aboubakar disse que não queria voltar ao FC Porto. São declarações que ninguém gosta de ouvir, mas que têm um contexto. Inicialmente, era suposto o Besiktas ficar com Aboubakar - só não o fez por causa do Fair-Play Financeiro da UEFA. Assim, o que tinha sido prometido ao jogador era que seria comprado no final do empréstimo. Não foi isso que aconteceu.

Além disso, é bom recordar que Aboubakar foi afastado do plantel do FC Porto por causa de um tal de Laurent Depoitre. Aboubakar ficou fora da lista da Champions de um dia para o outro, para que pudesse ser inscrito Depoitre. Então imaginem o ridículo quando se conclui que, na verdade, Depoitre nem sequer poderia ser inscrito para o play-off com a Roma. 

Aboubakar tem tudo para ser um reforço em toda a linha, mas há uma situação contratual para resolver o quanto antes. Nenhum jogador sub-30 do plantel principal deve iniciar uma época em final de contrato, sob pena de o ver assinar em janeiro por outro clube. Aboubakar é um jogador com mercado e potencial, tornando-se ainda mais apetecível por não haver CAN em 2018 a atrapalhar. Pelo dinheiro que renderia numa eventual transferência, o FC Porto não só dificilmente recuperaria o que já investiu em Aboubakar como não teria garantia nenhuma de ir buscar um avançado melhor ao mesmo preço.

Outro reforço, a todos os níveis, é também Ricardo Pereira, que torna Maxi Pereira num pequeno grande problema. No plantel, Maxi é um dos poucos jogadores que sabe o que é ser campeão, ainda que o tenha sido pelo rival. O seu espírito competitivo deixa-o em condições de fazer mais uma época, sem dificuldades, mas há que lembrar o quão raro e difícil é vermos um lateral de 33 anos no FC Porto. 

A um ano do final de contrato, que presente para Maxi Pereira? Ricardo dá todas as garantias para jogar a lateral-direito (tem a margem de progressão e a disponiblidade física para recuperar no corredor que Maxi já não tem), embora Sérgio Conceição já tenha deixado claro que tem também algumas expetativas sobre Ricardo numa zona mais adiantada. Seja qual o for o problema, ainda assim, Ricardo será parte da solução. 

Rafa vai ter mais dificuldades em jogar em 2017-18, tendo em conta que há várias opções para as laterais, mas é interessante traçar o paralelismo com os investimentos de 2011-12, quando o FC Porto investiu mais de 25 milhões de euros em Danilo e Alex Sandro; neste caso, já há dois laterais de presente e futuro que não implicaram nenhuma loucura.

Ainda na defesa, há Diego Reyes e Martins Indi, mas provavelmente só um ficará no FC Porto. Jogaram com regularidade na última época, mas aproximam-se do final de contrato, implicaram investimentos caros (no caso de Reyes, há ainda o problema de o seu passe ter sido partilhado, desde o início, com uma offshore de Pini Zahavi) e por isso quem ficar tem que renovar. Em cada um deles há um problema no seu perfil enquanto central: Diego Reyes, sendo ectomorfo, continua a ter dificuldades na dimensão física, mas continua a ter um punhado de caraterísticas que podem fazer dele um belíssimo central; no caso de Martins Indi, tem um grande problema no jogo aéreo, a única coisa a limitá-lo enquanto central. Cabe a Sérgio Conceição e às oportunidades de mercado decidir quem fica. 

Entre os recuperados para o plantel principal, destaque ainda para três nomes: Sérgio Oliveira, Mikel Agu e Hernâni. Sérgio Oliveira foi treinado por Sérgio Conceição no Nantes, mas não foi uma única vez titular com ele, tendo jogado apenas 109 minutos na Liga francesa, apesar de só não ter sido convocado para 3 jornadas. Se Sérgio Conceição não viu grande espaço para Sérgio Oliveira no Nantes, dificilmente acontecerá no FC Porto, tornando-o um forte candidato a ser vítima da sobrelotação do meio-campo. 

Mikel anda a trabalhar perto do plantel principal do FC Porto desde os tempos de Jesualdo Ferreira e é um dos jogadores oriundos da formação que mais oportunidades - e contratos - tem tido (melhor só mesmo Abdoulaye, emprestado pela 8ª vez - mais 7 ou 8 empréstimos e fica no ponto para ser opção no FC Porto). Após uma má experiência na Bélgica, jogou com regularidade em Setúbal, a médio defensivo, ele que curiosamente fez os seus melhores jogos pelo FC Porto B quando jogou a central. Veremos se ficará no plantel, embora pouco leve a crer que possa ser mais do que a sombra de Danilo e que encontre algum espaço nas Taças. A seu favor, o facto de poder ser inscrito na lista A da UEFA como jogador da formação. 

Sobra Hernâni, que nunca revelou créditos para ser opção no FC Porto, para além do trunfo que é a sua velocidade. Fez uma boa época em Guimarães, mas não é jogador para ultrapassar o campo da rotatividade e da utilidade em alguns jogos no FC Porto; sem ter estofo para ser opção regular no 11 inicial, cabe ao FC Porto estudar uma solução de mercado que garanta dois jogadores - um extremo com qualidade para entrar no 11 e «puxar» o melhor de Corona, Brahimi ou até Otávio e mais um ponta-de-lança, sobretudo se o 4x4x2 for para manter. Dois jogadores que hão-de chegar, de preferência dentro das próximas duas jornadas, pois a sua necessidade é clara. Tanto quanto o facto de nem valer a pena andarmos a tentar enganar alguém com Marega.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rafa e o resto

A opinião d'O Tribunal do Dragão foi dada a conhecer ainda antes do futuro de Rafa ficar definido, e mantém-se - as avaliações, depois de conhecido o futuro de um jogador, podem ser sempre influenciáveis. Portanto, foi feita antecipadamente. E de todas as más notícias que o FC Porto possa ter nesta pré-época, não contratar Rafa, num potencial negócio de 20 milhões de euros, é provavelmente a última delas.

Problema seria não haver alternativa
O problema não é a não chegada de Rafa. É ter esperado, esperado, esperado por Rafa e, uma vez mais, o FC Porto ficar a arder. Aconteceu com Bernard, aconteceu com Lucas Lima, aconteceu com Rafa. António Salvador estava exigente? Partia-se para o plano B. Rafa não estava convencido em assinar pelo FC Porto? Partia-se para o plano B. Custava sequer metade de 20M€? Nem valia a pena sentarem-se à mesa, partia-se para o plano B.

A questão é: há plano B? Faz esta semana um mês que Nuno Espírito Santo, após a derrota contra o PSV, disse que todos os reforços estavam «identificados». Um mês depois, só chegou Depoitre, e nem sequer chegou a tempo do playoff, o objetivo para acelerar a sua contratação (se já estava identificado e demorou tanto tempo a ser contratado, pior ainda).

Não há Rafa, há mais jogadores. Certamente mais baratos. Mas torna-se muito difícil explicar aos adeptos que o FC Porto não está numa posição favorável financeiramente quando se contrata Felipe, Alex Telles e Depoitre por cerca de 20 milhões de euros. Voltamos à questão: o FC Porto queria um jogador com as caraterísticas do Rafa... ou queria o Rafa? Por outras palavras, às vezes pagar 5M€ pelo Manel sai «mais barato» (expressão traiçoeira) do que pagar 3M€ pelo Zé. Como assim? Tudo pode depender da modalidade de pagamento, do custo imediato, da envolvência de determinado empresário. Coisas que não combinam com total autonomia.

Torna-se impossível afirmar que não há dinheiro para cometer loucuras quando Layún, Depoitre, Felipe e Alex Telles foram todos comprados tendo como preço base os 6M€. Agora, se o FC Porto tinha dinheiro para o Rafa, nenhum adepto vai aceitar que não haja dinheiro para uma alternativa. 

Portanto, a notícia de que Rafa vai para o Benfica não é incomodativa. Rafa não valia, à data de hoje, o que custava. Importa não esquecer que a SAD tinha que fazer mais-valias superiores a 70M€ em 2015-16, e não fez. Importa não esquecer que a SAD previa entrar na Champions diretamente em 2016-17, e não entrou. Importa não esquecer que Indi, Aboubakar e Brahimi foram afastados do plantel com vista a vendas, e ainda não foram transferidos. Importa não esquecer que a SAD do FC Porto não é auto-sustentável, por isso continuarão a ser necessárias vendas em 2016-17. Importa não esquecer que vai transitar um prejuízo que pode muito bem ultrapassar os 40M€ para 2016-17. 

Importa não esquecer que vence, em setembro, um empréstimo de 17M€ que tem como garantias Herrera ou Brahimi. Importa não esquecer que o FC Porto terá, ao longo do próximo ano, 79M€ de dívida à banca para pagar/renegociar. Importa não esquecer que o FC Porto tinha previstas despesas de 36M€ com jogadores que já estavam no clube para 2015-16. Importa não esquecer que o FC Porto não acaba hoje, e que não podemos hipotecar o futuro por um presente que nem sequer é garantido

Portanto, não fico preocupado por Rafa não ter vindo para o FC Porto. Fico, isso sim, preocupado por a 19 de agosto ainda não haver «o» extremo que o mercado deveria trazer. Se o FC Porto não passar em Roma, será muito por culpa da escassez de opções disponíveis para estes jogos. Repare-se que a expressão não é escassez de contratações, mas de opções. Ter Brahimi, Aboubakar ou até Depoitre ou Gonçalo Paciência disponíveis para esse jogo já daria qualquer coisa mais.

Mas para alguns portistas, isto já não foi apenas falhar a contratação de Rafa. Isto foi perder uma batalha com o Benfica. Embora entendendo o lamento, mas afinal o que queríamos? Rafa era encarado como um reforço para o plantel ou como um braço de ferro para mostrar que o Benfica ainda não vence as batalhas todas? Sinceramente, não faz sentido encarar isto como nenhum tipo de derrota perante o Benfica. O FC Porto queria Rafa antes do Benfica. Queria-o para reforçar o plantel, não era para dizer que desviou um jogador do Benfica. Logo, ter ido para o Benfica é igual a ter ido para o Sporting, para o Zenit ou para o Agrário, onde Vítor do Poste estaria sempre atento ao limite do fora-de-jogo. 

Mas sim, há um padrão que preocupa com naturalidade os adeptos. Todos se lembram de casos que vão desde Lisandro a Falcao, Alex Sandro a Mangala, Danilo a Álvaro Pereira. Jogadores que o Benfica queria e que o FC Porto desviou - pagando mais, logicamente. Sobretudo de 2013 para cá, o FC Porto não mais desviou jogadores do Benfica (Maxi Pereira pode ser considerada a exceção). Começou a prestar mais atenção, coincidência ou não, aos alvos do Sporting (Danilo Pereira foi o único desvio realmente bem sucedido, ainda que nunca tenha estado efetivamente com um pé no Sporting). E desde 2013, o Benfica é tricampeão e o FC Porto nada vence.

Antero Henrique chegou a dizer que o FC Porto não roubava jogadores, mas sim que era «mais rápido» a agir. E era verdade. Cristian Rodríguez assinou em 5 minutos, Álvaro Pereira assinou em 4. E agora, o que é feito dessa rapidez do FC Porto? Quanto tempo terá demorado Rafa a assinar pelo Benfica? Onde está aquela sagacidade que até levava Pinto da Costa a dar gozo ao Benfica, agradecendo o trabalho dos olheiros do rival? Já agora. Se não há Rafa, onde estão as equipas sombra/virtuais do FC Porto, que permitiam identificar rapidamente uma solução no mercado? Onde está a rapidez do FC Porto na resposta às necessidades da equipa? Curiosamente, a última grande venda do FC Porto, Alex Sandro, foi dado como exemplo, numa entrevista de Antero de 2013, da eficácia das equipas sombra. 

Alguns adeptos reclamam que o FC Porto deveria ter-se pronunciado publicamente sobre o caso Rafa. Não concordo. Primeiro, porque admitir publicamente o interesse no jogador pode correr mal, como foi exemplo Raúl Jiménez em 2014. Depois, porque admitir o interesse no jogador iria criar (ainda mais) expetativas nos adeptos. O FC Porto deve sempre que possível tratar as transferências em sigilo e apresentar os jogadores quando já estão assegurados. Neste caso, não podia falar sobre Rafa, pois não sabia se ia conseguir o jogador (se havia tantos adeptos que viam em Rafa a encarnação de D. Sebastião, a desilusão podia ser maior); por outro, não podia desmenti-lo, porque estava de facto interessado. Neste caso, nada a apontar ao clube. Só esperemos que não tomem ninguém por ignorante e que agora finjam que nunca quiseram o jogador. Estamos em 2016. O FC Porto não tem que desmentir o Rafa, nem lamentar que ele não tenha vindo. Tem simplesmente que ir procurar uma alternativa igualmente boa. Ou melhor. 

O desfecho do costume
Mas agora falemos, uma vez mais, de um homem que definitivamente nunca poderá ser presidente do FC Porto: António Salvador. Porquê? Porque com ele o FC Porto nunca ganha nada. Nada, zero. Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto nunca sacou um bom jogador de Braga. Nem um! É que já nem o sentido de voto nos órgãos de decisão do futebol português é comum. 

Desde que António Salvador é presidente do SC Braga, o FC Porto já lhes jogadores como Paulo Santos, Cândido Costa, Maciel, César Peixoto, Jorginho, Alan, Luís Aguiar, Renteria, Diogo Valente, Adriano, Ukra, Hélder Barbosa, Miguel Lopes, Beto, Emídio Rafael, Sami ou Josué. A maioria não tinha lugar no FC Porto, mas eram jogadores mais do que úteis para o SC Braga, já para não falar de antigos jogadores da formação do FC Porto, como André Pinto ou Ricardo Ferreira.

E durante estes 13 anos, o que foi buscar o FC Porto a Braga? Andrés Madrid, Kieszek e Orlando Sá. Que proveitoso tem sido tudo isto. Enquanto o FC Porto nunca consegue nada das relações com o SC Braga, Luís Filipe Vieira leva sempre a melhor junto de António Salvador. Enquanto presidente do SC Braga, certamente que faz bem o seu trabalho: vende os jogadores pelas melhores propostas e farta-se de sacar jogadores à pala no FC Porto, enquanto mantém relações privilegiadas com o Benfica e tem Jorge Mendes a ajudar a fazer a papinha. Voltar a emprestar jogadores ao SC Braga seria perto de inaceitável. Por outro lado, isso não implica que agora se vá buscar tudo o que mexe a Guimarães, ok?

Perder Rafa não é um problema. Aceitar um negócio de 20M€ por Rafa, isso sim, seria um problema. E não ter uma alternativa a Rafa, para ontem, seria o maior problema de todos. Contra o Estoril, a mesma receita do Rio Ave: é para vencer e moralizar, mas não para iludir. E se a SAD não reagir, as ilusões não chegam ao final do mês.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Velocidade vertiginosa

É mais ou menos consensual que falta um extremo ao plantel do FC Porto para atacar a época 2016-17. Um extremo, ou o extremo. Mas que falta ali alguém, falta. Agora imaginemos que era possível contratar um extremo com as seguintes caraterísticas:

a) Alta velocidade;
b) Dono de assinaláveis recursos técnicos;
c) Muito destemido no momento de arriscar o um-contra-um;
d) Faz habitualmente a diferença;
e) Aparece com sucesso em zonas de finalização.

Parece, sem dúvida, interessante. Agora imaginemos que esse extremo já estava no plantel do FC Porto. E não se trata de Brahimi, Corona ou Varela. Trata-se de Zé Manuel, pois foi com todas estas caraterísticas que o reforço jogador contratado a custo zero foi apresentado no site do FC Porto, com destaque para esta frase: «Se o sistema da carta de condução por pontos se aplicasse nos relvados, Zé Manuel já teria perdido muitos por excesso de velocidade».

Sami  Zé Manuel
Nenhum portista vai poder ver essa velocidade vertiginosa de Zé Manuel no Dragão, pois já foi, sem qualquer tipo de surpresa, dispensado. Desde do primeiro dia que toda a gente sabe que Zé Manuel iria ser dispensado. Não é uma questão de adaptação, de esperar para ver, de afirmação tardia, de utilidade, de oportunidade de negócio... É simplesmente um jogador sem qualidades para jogar no FC Porto. E isso estava aos olhos de toda e qualquer pessoa que visse jogos do Boavista. Ou, pelos vistos, nem de todas. 

Ninguém, ninguém acerta nas análises a todos os jogadores. Mas há casos tão flagrantes, tão claros, que choca que possam ver o contrário. Não é por acaso que nunca ninguém imaginou que o FC Porto tivesse uma dupla de centrais formada por Sérgio Lomba e Alfredo Bóia. 

De todos os aspetos que possam tentar justificar esta contratação, nenhum se enquadra no campo desportivo. É até de questionar o porquê de Felipe e João Carlos Teixeira terem tido direito a apresentação no Dragão, com direito a foto com o presidente. Já Zé Manuel não teve direito ao mesmo tratamento. Apareceu por lá no primeiro treino, discretamente. Indisponibilidade do presidente para se apresentar ao lado de Zé Manuel (neste caso, Alex Telles não teve a companhia do presidente por Pinto da Costa estar de férias)? Ou ninguém se quis mostrar ao lado desta contratação?

Estamos a falar de um jogador que teve um contrato de cinco anos quando até tinha dificuldades para se impor numa equipa cuja concorrência era Luisinho ou Renato Santos. Quem achou que Zé Manuel era jogador para o FC Porto? Só resta uma teoria possível: era um pedido de José Peseiro e, com a saída do treinador, o Zé Manuel ficou ali caído nos braços. Os portistas questionam qual será então o propósito da contratação de Zé Manuel. Ou então o propósito terá sido cumprido no dia da assinatura do seu contrato.


Entretanto o FC Porto confirmou a contratação de Alex Telles. E é interessante ver a forma como o brasileiro se descreveu nas apresentação: um «lateral de vocação ofensiva», que sobressai nas «assistências, cruzamentos e nas bolas paradas». Ou seja, esta descrição é perfeita para... Miguel Layún.

Bom. Necessário?
Como se pode então enquadrar esta compra? É sabido que Nuno Espírito Santo prefere que os seus laterais deem profundidade, em vez de procurarem o jogo interior. Ora um dos pontos fortes de Layún é o jogo interior, o que faz com que Layún nunca vá conseguir exibir à direita a influência, em termos ofensivos, que tem quando joga à esquerda, por ser destro. Alex Telles (cujo custo leva o FC Porto, uma vez mais, a bater recordes - é a 4ª maior venda da história do Galatasaray, que nunca tinha vendido um defesa por tanto dinheiro) representa um perfil diferente, que se enquadra mais no que deseja o treinador.

Alex Telles é um lateral bastante razoável, de qualidade, uma boa opção. É muito rápido, sobe bem, apoia bem o extremo, progride com bola e procura a linha. E é um jogador que já está no mapa do FC Porto há 3/4 anos, na altura quando a Juventude, em parceria com o banco BMG, já negociava outros voos para o lateral, referenciado como possível sucessor de Alex Sandro. Ou seja, não é nenhuma descoberta de Nuno Espírito Santo, pois é um jogador já há muito conhecido pelo FC Porto. 

Mas embora que seja um jogador que cruza razoavelmente bem, Alex Telles faz poucas assistências e é um lateral que não tem golo (Layún marcou e assistiu mais esta época do que Alex em toda a sua carreira). Não é muito forte fisicamente e, por vezes, falta-lhe alguma agressividade e maior critério a soltar a bola. Terá capacidade para dar mais do que Layún deu em 2015-16? 

Até porque Alex Telles, quando se apresenta, destaca sobretudo o seu papel no ataque, não defensivamente. E há muitos portistas que consideram que Layún, defensivamente, não dá garantias. Resta torcer para que, no final da época, não estejamos a dizer o mesmo sobre Alex Telles: bom a atacar, inseguro a defender. 

Embora seja uma boa contratação, o timing lança naturalmente dúvidas. Isto porque a posição de lateral-esquerdo era das poucas que não estava carenciada no plantel. O FC Porto já estava servido, e bem, com Layún e Rafa (que sai depois de ter sido garantido, pelo presidente, que faria parte do plantel). Logo, se a SAD ainda vai investir 6,5M€ num lateral-esquerdo, escolham uma das quatro: a) má gestão de recursos; b) precaver uma venda de Layún a curto ou médio prazo; c) falta de confiança em Rafa; d) não falta dinheiro à SAD, por isso até pode começar por gastar 6,5M€ numa posição que não está carenciada. 

O FC Porto decidiu avançar para a compra de Layún no final de maio, numa altura em que já se limavam as arestas para que Nuno Espírito Santo fosse o novo treinador do FC Porto. Logo, comprando nessa altura Layún, o FC Porto já tem que saber que planos Nuno teria para ele no plantel. A contratação de Alex Telles não pode mudar nada.

Rafa era, é, um projeto perfeito para pegar de estaca no FC Porto. Vai jogar um ano no Rio Ave, um bom clube para rodar (mãos à obra, mister Capucho), embora considere que já estaria pronto para integrar e ter responsabilidades no plantel principal.

Só tem 4 meses de primeira liga, sim. É pouco? Bem, imaginemos que em 2009 o FC Porto teria achado o mesmo em relação a Cissokho. Não teria preenchido uma grande carência no plantel (na altura a concorrência era fraca, com Benítez e Lino - havia Fucile para jogar à esquerda); não teria tido um papel importante na luta pelo título; não teria feito jogaços contra Atlético e Manchester na sua estreia na UEFA; e não teria saído por 15M€. 

Com a diferença que Cissokho tinha pouca experiência de futebol sénior, sem grande percurso nos escalões de formação, enquanto Rafa está há anos, época após época, a demonstrar que tem tudo para ser o lateral do futuro. Oxalá que o futuro esteja reservado para o final da época, pois o presente já bateu à porta.

Boas vindas a Alex Telles, boa sorte a Rafa e felicidades a Zé Manuel, que nunca poderá deixar de estar grato o suficiente a quem o levou a assinar pelo FC Porto. Quem o fez viu o que mais ninguém viu e que ninguém chegará a ver. Velocidade vertiginosa, só mesmo na rapidez com que recebeu guia de marcha. 

domingo, 10 de abril de 2016

Rafa: um projeto perfeito

Rafa nem chegou a precisar de uma dúzia de jogos na primeira liga para confirmar aquilo que ia prometendo em cada escalão no FC Porto: é o protótipo perfeito de lateral do futuro para o FC Porto. Qualidade, mística, potencial, portismo, valor (desportivo e financeiro). Rafa tem tudo.

Uma década a crescer
A capacidade de fazer assistências de Layún surpreendeu tudo e todos, mas também vai sendo o momento de destacar Rafa: desde que chegou à Académica, tornou-se o jogador (não apenas o lateral, o jogador) com maior eficácia de cruzamentos em todo o campeonato: 46% de acerto, segundo o Goalpoint (Layún, a referência do FC Porto nas assistências, não chega aos 30%).

É simplesmente notável, se tivermos em conta que a Académica é a 4ª equipa que menos cruzamentos faz no campeonato e a 4ª que menos golos faz. Se Rafa, numa equipa de pouca produtividade no ataque, consegue emergir como o jogador que melhor cruza, só podemos imaginar o quão útil poderá ser a um FC Porto de ataque, sobretudo numa equipa que depende imenso dos laterais (algo que teve o seu expoente no FC Porto de Lopetegui - não sabemos ainda que treinador ou que modelo teremos para 2016-17).

Certo é que Pinto da Costa já se antecipou e prometeu Rafa no plantel para 2016-17, além de ter dado a entender que Layún é para segurar. A contratação de Layún, conforme foi analisado há cinco meses, contraria por completo aquilo que vem sendo a política da SAD nos últimos anos. Mas depois de o presidente ter dito que o contrato com a Meo vai permitir segurar os jogadores mais tempo - e consequentemente com isso reduzir a dependência de mais-valias -, então já temos uma base para sustentar a compra de Layún sem pensar no modelo de compra-venda-lucro. Boas notícias para quem quer manter Layún - não deve haver portista que não o queira no plantel para 2016-17.

Mas enquanto não há Layún garantido, já há Rafa. Está no FC Porto desde 2005 e não houve escalão em que não se destacasse. O mesmo para a seleção, onde já joga desde os sub-16 e já tem mais de 70 internacionalizações. Começou a jogar na equipa B quando ainda era Sub-19, o que é sempre bom (os melhores jogadores podem e devem sempre jogar em escalões acima), e logo no primeiro ano de sénior já firmou os seus créditos na equipa B.

A época 2015-16 é o mero passo natural para um jogador que já fabricou 16 golos esta época, com 6 golos e 10 assistências. E não é nenhum acidente: Rafa foi o único defesa a integrar o entretanto esquecido projeto do Potencial Jogador de Elite, de Pepijn Lijnders.

Além disso, Rafa só agora saiu do FC Porto para ir rodar noutro clube. Isso significa que, confirmando-se o seu regresso a casa, poderá no futuro contar como jogador formado no FC Porto nas inscrições para a UEFA. De recordar que o FC Porto não teve um único jogador formado no clube inscrito na UEFA esta época, pois não havia.

Rafa, que é agenciado pela Onsoccer de António Araújo, renovou em janeiro até 2020. Na época 2014-15 a SAD detinha 100% do seu passe. Tudo foi reunido para que Rafa se torne num caso de sucesso no FC Porto. Só falta começar a tirar proveito.

Falando ainda nas laterais, há a destacar a grande evolução de Ricardo Pereira no Nice. Mas o Nice tem direito a manter o jogador até 2017, o que impede que seja um nome considerado para a próxima época. Já José Ángel torna-se um jogador quase descartável.

A sua contratação, em 2014, fez todo o sentido. Na altura ligado à Doyen Sports, Ángel chega ao FC Porto quando não havia suplente para Alex Sandro. Além disso, já tinha nas pernas épocas a titular em Espanha e Itália. Havia sentido desportivo na sua contratação. Infelizmente, pelas mais diversas razões, nunca singrou à altura no FC Porto. Tem contrato por mais dois anos mas não é difícil imaginar que o seu futuro esteja em cima da mesa no fim da época - até porque se Layún é para manter e Rafa é promovido, não há espaço para Ángel.

Tendo sido uma contratação a custo zero (a Roma ficou com 50% e o FC Porto cedeu 5% à ARB Sport Asesores, de Alfredo Nora), o clube não está preso à necessidade de rentabilizar ou recuperar um investimento. É um lateral a quem certamente não faltará mercado, pois é internacional sub-21 espanhol e já fez boas épocas na carreira (curiosamente, em 2013-14 fabricou tantos golos na liga espanhola como Brahimi). Laterais-esquerdos espanhóis e futebol português tardam em combinar (quem não se lembra de ver o campeão mundial Capdevilla espalhar magia no Benfica - e agora Grimaldo segue-lhe os passos).

Com a silly season ao virar da esquina, dispensam-se rumores que envolvam laterais-esquerdos: o FC Porto está muito bem servido. E Rafa também está pronto a servir.