A época 2014-15 é particularmente importante para o FC Porto por dois motivos: responder desportivamente a uma das piores temporadas da era Pinto da Costa; recuperar financeiramente do maior prejuízo da história da SAD e sustentar o maior orçamento de sempre. Normalmente, a vertente desportiva e financeira estão interligadas no FC Porto. Mas não necessariamente este ano.

Com o apuramento para os 1/4 na Champions, caso se confirme, o FC Porto supera as expectativas orçamentais e na Champions supera também as desportivas. No que toca ao campeonato, vencer o clássico no Domingo deixa o apuramento directo para a Champions 2015-16 praticamente garantido. Simultaneamente, o principal activo do FC Porto mantém-se com cotação alta (Jackson Martínez), outros valorizaram-se nos últimos meses (Danilo, Herrera, Brahimi) e começaram a aparecer nomes de presente e futuro (Rúben Neves e Gonçalo Paciência os principais rostos). Financeiramente, está tudo encaminhado para os objectivos serem cumpridos.
Em termos de campeonato. Do último 11 que foi campeão nacional o FC Porto só mantém 3 titulares (Danilo, Alex Sandro e Jackson). O Benfica mantém mais (Maxi, Luisão, Salvio, Gaitán e Lima). O Benfica mantém o mesmo treinador há quase 6 anos, o FC Porto mudou a equipa técnica. Em termos de investimento, os custos operacionais, despesas com pessoal e investimento em contratações são pouco superiores aos do Benfica. O Sporting, como é defendido desde o início, não tem treinador, plantel e estrutura para competir a curto prazo com Benfica e FC Porto. Pode intrometer-se na luta pelo título (tirou pontos aos 2), mas não ser campeão.
Depois há os factores externos, que Lopetegui e os jogadores não podem controlar. Psicologicamente, é extremamente desgastante andar jornada após jornada a tentar recuperar do prejuízo, sabendo que do outro lado não deixam cair quem treme. Que os adeptos do rival procurem sobrepôr o mérito às circunstâncias, é normal. Que os portistas ignorem as circunstâncias na hora de avaliar o mérito do FC Porto, não.
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| Fonte: zerozero.pt |
Olhando para esta tabela, o FC Porto tem o melhor ataque desde os anos do penta e uma das melhores defesas dos últimos 20 anos. Podemos falar nos pontos perdidos contra o Boavista ou contra o Marítimo, mas podemos resumir tudo isto a um jogo: o clássico com o Benfica. Ganhando, teríamos o melhor ataque dos últimos 20 anos, uma das melhores defesas nesse período e ainda a liderança isolada, frente a um dos Benficas mais fortes das últimas décadas. E por força não falamos necessariamente de qualidade de jogo ou de plantel. De todo. O tempo dos campeonatos em piloto automático, com dois dígitos de pontos de avanço, acabou.
Isto diz tudo da importância de um clássico. Domingo há que ganhar, pois é a única forma de continuar a lutar pelo título. Financeiramente, ganhando ao Sporting os objectivos ficam praticamente todos cumpridos. Mas isso não é desculpa para se continuar a assistir serenamente ao assalto desportivo na temporada 2014-15. Lá porque financeiramente estará tudo cumprido, não significa que desportivamente as coisas não possam ter uma nota negativa. Sobretudo face à passividade com que a SAD tem assistido ao desenrolar da época.
O objectivo do FC Porto ainda é, ou devia ser, o sucesso desportivo, não o financeiro. A componente financeira ajuda a reforçar as condições para o sucesso desportivo. E o sucesso desportivo por sua vez retribui com activos para reforçar a condição financeira. Está tudo interligado. Esta época, o FC Porto pode cumprir os objectivos financeiros e ficar curto nos desportivos. Poderá ser considerada uma época bem sucedida?
Há dois objectivos fulcrais para já. Um é ir aos 1/4 da Champions, o que seria um atestado de qualidade para Lopetegui e para o plantel. No Campeonato, ninguém pode excluir da equação como foi forjado o líder ao fim de 22 jornadas. Em condições normais, o FC Porto seria líder. Mas isso não invalida que seja necessário fazer um pouco mais, a começar por vencer o clássico de Domingo. É que 4 clássicos consecutivos sem vencer, 3 deles no Dragão, torna-se difícil de justificar.
O projecto de Lopetegui não se esgota numa época. Se é um projecto de 3 anos, o treinador não pode ficar refém do saldo do primeiro ano, sobretudo dadas todas as circunstâncias já enumeradas acima. Há um motivo para o FC Porto estar a disputar a passagem aos 1/4 da Champions, invicto, enquanto o líder do campeonato português fez a sua pior Champions de sempre. E não é apenas, nem sobretudo, devido à diferença de qualidade entre as equipas nas fases de grupos.
Sendo cedo para fazer o balanço desportivo, Lopetegui já deu provas mais do que suficientes da sua valia. É verdade que desconhecia o futebol português, abusou da rotatividade e não consolidou o sistema no início. Mas o que se tem visto desde então é um treinador a adaptar-se às circunstâncias e a evoluir.
Conhecimento do futebol português? Existe cada vez mais, daí a contratação de Sérgio Oliveira, Hernâni e André André. Aposta na formação? Muito acima de qualquer outro treinador neste contexto (no verão teremos cerca de 10 portugueses, pelo menos, a fazer a pré-época). Rotatividade? Acabou. Tanto que o melhor central, Martins Indi, não entra no 11 pois Marcano e Maicon estão a atravessar uma boa fase e mexer na dupla de centrais é sempre delicado. Espanholização? A nacionalidade não obedece aos seus critérios de escolha, tanto que Andrés e Campaña quase não são opção. Discurso? Começou por ser cordial, mas percebeu que mais ninguém iria defender o FC Porto do que tem sido a desvirtualização da Liga; mudou o discurso, passou a contra-atacar e marcou uma posição firme, cada vez mais identificado com o que precisa de ser um treinador do FC Porto (daí que seja cada vez mais um alvo). Gestão de balneário? Sem casos, sem indisciplina, a ponto de dizer quem sabe que Quaresma é hoje um dos melhores profissionais do FC Porto e que não há quem não leve os treinos a sério (coisa que não é tão simples como possa aparentar). Qualidade de jogo? Podia ser melhor. Mas a apresentada é suficiente para estar na luta pelos 1/4 da Champions e devia ser suficiente para liderar o campeonato. Para primeiro ano e dadas todas as circunstâncias, é um nível bem aceitável.
Na próxima época será melhor. Domingo é dia de dar mais uma forte razão para acreditar nisso.
PS: O Tribunal do Dragão partilha abaixo o texto de opinião de Pinto da Costa, via JN, que sairá na próxima Revista Dragões e que merece subscrição quase total. E sobretudo que lhe deem eco.