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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

No momento certo

Ganhar 6 pontos em 2 jornadas ao rival direto, logo após uma derrota na Luz, é tão raro quanto satisfatório. Somar 5 vitórias consecutivas, algo que o FC Porto ainda não tinha conseguido em 2018, é igualmente motivador. Mas não é motivo para farfalhar, pois as duas últimas jornadas da Liga se calhar dizem mais sobre a competitividade do Campeonato que temos pela frente do que de eventuais facilidades na luta pelo título. Belenenses e Moreirense tiraram pontos ao Benfica como o fizeram ao FC Porto na época passada, e testemunham o exemplo de um Campeonato em que basta um ou dois jogos para mudar as disposições e motivações dos candidatos ao título, os perfis de favoritismo e a maneira como se olha para a abundância ou falta de soluções no plantel. 


Na Madeira, ao longo de 70 minutos, o FC Porto dividiu-se num misto de paciência e de falta de ideias até desfazer o 0x0. Mas não foi apenas esperar: foi procurar a oportunidade. Foi mexer na equipa com sinais claros de que não era jogo para se empatar, foi ser eficaz nos momentos em que pôde matar o Marítimo, foi saber trancar o jogo e não mais perder o controlo perante uma vantagem de 2x0.




Óliver Torres (+) - Esteve na génese dos dois golos do FC Porto: primeiro, é ele quem senta Bebeto e se liberta da pressão de 3 jogadores do Marítimo antes de lançar Brahimi no corredor; depois, intercetou a bola e lançou a corrida de 50 metros até à conclusão do 2x0. Tudo isto numa exibição em que foi o jogador com mais ações com bola (85), completou 91% dos passes, acertou 11 das 14 bolas longas que tentou e ainda recuperou 14 vezes a posse de bola. Foi a primeira vez que jogou duas jornadas completas consecutivas com Sérgio Conceição e só há motivos para continuar.

Otávio (+) - Entrou, marcou e deu a marcar, tudo isto num espaço de cinco minutos e num jogo no qual o FC Porto não estava a criar ocasiões de golo - e a situação poderia agravar-se pela sempre negativa carga psicológica de desperdiçar uma grande penalidade. Mesmo sem ser sempre regular e consistente, e muitas vezes desligando-se da partida e da equipa, Otávio já leva 6 participações em golos na Liga - o dobro das que conseguiu em toda a época passada. E fica também a nota por a sua entrada para o lugar de Maxi Pereira ter sido uma ordem para puxar a equipa para a frente e para a vitória. Empatar na Madeira numa jornada em que o Benfica perde em casa não seria desdenhado por muitos treinadores, mas Conceição teve ambição e com ela a recompensa mais desejada. 

Trancar o jogo (+) - Tendo em conta que já vimos o FC Porto desperdiçar uma vantagem de 2x0 esta época, foi revigorante ver a equipa gerir e controlar com total tranquilidade o resultado logo após o segundo golo. Calma, circulação no meio-campo adversário e muita segurança na posse - em todo o jogo, só por uma vez o Marítimo conseguiu desarmar um jogador do FC Porto no meio-campo defensivo. É certo que a equipa madeirense tem-se revelado muito pobre em termos ofensivos (tem o pior ataque da Liga), mas controlo foi a palavra dominante na equipa.




Com vista a Braga (-) - Noite quase para esquecer para Soares. Arrancou uma falta para grande penalidade e teve um toque precioso na jogada do 2x0 (bem também Marega no lance), mas ao longo dos 74 minutos em que esteve em campo poucas vezes conseguiu entrar no jogo. Falhou 5 dos apenas 9 passes que tentou, perdeu 8 dos 10 duelos que disputou e teve uma única tentativa de remate, à figura. Não estará com a equipa na receção ao Lokomotiv, mas é essencial que Soares esteja ao melhor nível na receção ao SC Braga, equipa que ainda não sabe o que é perder esta época.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Faltou um remate, e tanto mais

Falemos do Benfica-FC Porto. O nervosismo e a ansiedade a sobreporem-se à necessidade de uma ideia de jogo mais clarividente e dominadora. Pouquíssimas chegadas à grande área adversária. O mais próximo de uma ocasião de golo que se viu em toda a segunda parte foi um remate em arco de Brahimi, a passar perto do poste. Um Benfica que pouco incomodou Casillas, mas que também pouco se deve ter sentido incomodado. A última substituição a limitar-se a uma troca de pontas-de-lança. Apenas uma defesa por parte do guarda-redes do Benfica em 90 minutos. Mas, para grande alegria dos adeptos do FC Porto, apareceu o golo de Héctor Herrera, ao cair do pano, a mudar a história do jogo e do Campeonato.

Confusos? É simples: este primeiro parágrafo é uma descrição do Benfica-FC Porto da época passada. Um jogo exatamente (bom, quase) igual ao que testemunhámos nesta tarde de domingo na Luz. A diferença? Desta vez não caiu aquela bola nos pés de Herrera. Desta vez foi o Benfica, numa única ocasião, a conseguir resolver o clássico e a levar para casa os três pontos. Mas o filme do jogo, esse, foi praticamente o mesmo. O que sentimos agora é o mesmo que teríamos sentido se o golo de Herrera não tivesse aparecido em abril - com a pequena diferença de que estar a dois pontos do primeiro lugar à 7ª ou à 30ª jornadas é bem diferente. 


Não são paninhos quentes, nem desculpas, nem conformismo. É a verdade. Este FC Porto não se distingue por ser o mais elegante ou clarividente nos jogos grandes. Isso mesmo ficou patente no seu percurso na Champions na época passada, em que cumpre os seus objetivos muito graças a lances de bola parada - e, pasmem-se, de onde nasceram os 4 pontos já somados na Champions esta época? De um penálti e de um canto. Não é coincidência: é identidade.

Nos clássicos, o FC Porto de Sérgio Conceição foi também isto. Uma equipa que consegue limitar os adversários a pouquíssimas ocasiões de golo. Em 3 clássicos contra o Benfica, foi a primeira vez em que sofreu um golo. E contra o Sporting, em cinco jogos, sofreu apenas dois. O problema é que este FC Porto é tão eficaz a limitar os adversários como a limitar-se a si próprio.

Não há evolução na ideia de jogo do FC Porto. E não houve investimento para isso. Neste momento, a única alternativa que o plantel oferece e que pode garantir melhorias imediatas na equipa é a presença de Óliver Torres, que ainda não foi ao 11 esta época e que deve ser o pior jogador do mundo nos treinos, tamanha a resistência de Sérgio Conceição em enquadrá-lo na equipa. Óliver tem ideias de circulação, de controlo, de variação de flancos, de progressão em posse. Não é só «passar para trás e para o lado».

E isso nem precisa de ser tão necessariamente mau. Olhamos agora sim para o desempenho do FC Porto na Luz, para constatar que a equipa teve uma mísera eficácia de 38% em bolas jogadas para a frente. Quer isto dizer que, nesta média, a cada 100 tentativas do FC Porto em fazer um passe para a frente, entrega a bola ao adversário em 62 ocasiões. Perante esta amostra, será assim tão benéfico limitar o FC Porto a bicadas para a frente? Não é melhor esperar, circular, criar espaço e então sim atacar, em vez de procurar sempre atalhos que não existem?

A verdade é que é este o modelo de Sérgio Conceição. O modelo que funcionou em grande parte da época passada. Mas não foi este modelo que trouxe bons jogos na Champions e nos clássicos. Aí, à margem daquilo que eram e são as bolas paradas, as ideias ofensivas do FC Porto são francamente escassas. Mas lá está: uma bolinha na gaveta no minuto 90 consegue mudar a história de muita coisa.


Sérgio Conceição precisa de ideias novas para a equipa. Não vamos ser campeões a limitarmo-nos a bicadas para a frente, à espera que o Marega atropele 3 defesas de cada vez. Sim, cá vai: «Na época passada também disseram que não éramos campeões com este plantel! O plantel é quase o mesmo!»

Não é. Saiu Ricardo Pereira e a lateral-direita ficou entregue a um lateral que no final de maio estava dispensado. Saiu o melhor central do FC Porto, Marcano, e Felipe voltou à forma horrenda da primeira metade da época passada. Danilo Pereira recupera de lesão, Soares salta de uma para outra, Aboubakar já de rastos também ficou fora de combate. Herrera e Brahimi estão muito longe do nível da época passada e esperemos bem que ninguém tenha o descaramento de os acusarem de traição ou algo do género se saírem a custo zero no verão - a SAD é que permitiu a chegada a esta situação. Alex Telles também uns furos abaixo, Corona a caminho de mais uma época de «para o ano é que é» e Hernâni no plantel. Quando o jogador que mais tem alimentado o ataque do FC Porto se chama Otávio, desculpem, mas algo de errado se passa. Quando saímos de um jogo arbitrado por Fábio Veríssimo no Estádio da Luz e só nos podemos culpar a nós próprios, algo de muito errado se passa

Não passem a Sérgio Conceição faturas que não lhe dizem respeito. Ele deixou claro na pré-época: era preciso subir o nível do plantel. Temos a entrada de Éder Militão, que está a ter impacto imediato, mas de resto não entrou ninguém no 11 do FC Porto. A equipa inicial não foi reforçada. Pelo contrário, foi enfraquecida! Não há jogada individual do Brahimi, o que limita a equipa a pouco mais do que bolas paradas e despejadas no Marega. Foi assim na época passada. Está a ser assim esta época, também com uma diferença notória: Aboubakar teve uma grande série goleadora até dezembro; esta época, não só não engatou como se lesionou gravemente. Falta pensador de jogo, falta desequilibrador, falta homem-golo. Por outras palavras, temos um bólide sem volante, pedais e motor. 

O que pode Sérgio Conceição mudar? Sem dúvida que a entrada de Óliver Torres no 11 é a cartada que ninguém, ou quase ninguém, percebe como permanece no baralho. Óliver não é um Deco nem um Lucho, mas é o único jogador neste plantel que tem ideias diferentes para a equipa. O único que não obriga a equipa a ter alergia à posse de bola, que tem que transformar cada momento de construção numa bicada para Marega. Já o vimos e repito: o melhor futebol do FC Porto de Sérgio Conceição foi o praticado no arranque da época passada, com Óliver no 11.

Agora, cada vez mais as equipas percebem o quão limitado está o FC Porto no seu processo de «construção». É certo que o Benfica não fez um bom jogo, como não o fez o FC Porto. A isso muito se deveu o facto de as duas equipas terem sempre estado mais interessadas em «trancar» os pontos fortes do adversário do que em imporem a sua própria força. 

Tomemos o exemplo do rendimento de Maxi Pereira e Alex Telles, que juntos só conseguiram completar 24 passes em todo o jogo. A cada duas vezes em que tocavam na bola, uma era perdida. O Benfica não os deixou envolverem-se no momento de tabela/profundidade da equipa. Com isso, praticamente secou os corredores da equipa e tirou-lhe toda a largura.

Além disso, o FC Porto quase não existiu na grande área do Benfica. Reparemos no mapa de todas as zonas em que o FC Porto tentou o passe:

Zonas de passe e construção: inexistente nas proximidades da grande área
O FC Porto não existiu nos últimos 20 metros. Exceções? O jogo aéreo de Danilo e Éder Militão, já nos últimos minutos, e pouco mais. Não houve tentativas de último passe, de rasgo, de procurar uma solução entre linhas. Zero. Ou Marega forçava a entrada (ganhou 2 cartões e nada mais pôde/conseguiu fazer), ou Brahimi fazia o movimento individual interior (tirando o remate em arco, não mais esboçou jogadas de perigo), ou esperava-se pelas bolas paradas. Joga-se muito pouco neste FC Porto. 

E se é certo que não deram a Sérgio Conceição condições apropriadas para lutar pelo bicampeonato, depois do milagre de superação e empenho que foi a época passada, o treinador campeão deve a si próprio e aos portistas a certeza de que está a esgotar todos os recursos disponíveis. O futebol da equipa não tem que ser uma manada de sprints: pode ser uma maratona bem gerida, com todos os momentos que isso implica. No final da época, o pior que pode acontecer a Sérgio Conceição é continuar a ser o principal responsável por não estarmos 6 anos a seco. 

E agora? Novamente a correr atrás do prejuízo, e a depender de si próprio. Foram mais os Campeonatos que o FC Porto conquistou do que os jogos em que venceu no Estádio da Luz, por isso uma derrota em casa do Benfica não tira o título a ninguém. Muito menos à 7ª jornada. O Benfica vai perder mais pontos, tal como o Sporting, tal como o Sp. Braga. Mas o FC Porto não pode estar refém dos deslizes dos rivais e deve a si próprio uma reorganização das ideias da equipa e do seu treinador. Afinal, não podemos mesmo contar com mais do que isso. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Três pontos e Danilo

O FC Porto iniciou a corrida atrás do prejuízo causado pela 3.ª jornada da única forma possível: com uma vitória, embora muito pouco convidativa a uma Enologia de qualidade. Olhamos para os 13 golos marcados em 4 jornadas e vemos que o FC Porto não fazia tantos golos desde 1951, embora esta época com a vantagem da calendarização pouco habitual que ditou dois jogos consecutivos no Dragão. 


Mas o momento em que vemos a «roda» formar-se na segunda parte, mesmo com a equipa a vencer por 2x0, é demonstrativa de que a equipa sabia que havia muito mais a merecer a preocupação do que o resultado. Na segunda parte, o que aconteceu não foi muito diferente daquilo que antecedeu os golos de Vitória de Guimarães ou Belenenses: a equipa deixou de ter bola, deixou de controlar o jogo e perdeu soluções na saída para o ataque. O Moreirense não aproveitou, também porque Iker não deixou, mas é a terceira jornada consecutiva em que o FC Porto se coloca a jeito quando a vantagem e a sua superioridade já deveriam deixar a vitória encaminhada.

Valeu, sobretudo, o regresso às vitórias e o de Danilo Pereira, elemento essencial para o ciclo de jogos que se iniciará depois da pausa para as seleções. 




Iker Casillas (+) - Terminou o jogo com mais defesas do que o guarda-redes do Moreirense: três. Com um par de boas intervenções na segunda parte, segurou a vantagem do FC Porto e evitou que o fantasma das jornadas anteriores voltasse a assombrar a equipa (o bom trabalho de Felipe, em estreia com Éder Militão como parceiro, também ajudou). Bem, também, na reposição da bola em campo, sendo neste momento o guarda-redes da Liga com melhor aproveitamento neste capítulo.

Héctor Herrera (+) - Mais uma exibição a encher o campo e a ter que jogar por ele e por Sérgio Oliveira (novamente muito distante do nível exigível para o 11). Inaugurou o marcador num lance oportuno, esteve perto de bisar e assumiu-se sempre como o motor do meio-campo, destacando-se ainda o momento em que puxa da braçadeira para dar um abanão à equipa na segunda parte. Sempre disponível no processo defensivo e a ganhar metros no meio-campo.

As zonas de ação de Héctor Herrera
Otávio (+) - Esteve no lance do 2x0 (muito bem trabalhado por Marega, a ganhar a primeira bola de Casillas, e Aboubakar, no toque para Otávio e na corrida para a grande área), e abriu o livro no último lance da segunda parte, ao ultrapassar dois jogadores antes de servir Marega para o 3x0. Foram os pontos altos de uma exibição na qual Otávio tentou sempre «mostrar-se» ao jogo: foi o jogador que mais duelos disputou (16) e o que mais desarmes conseguiu (4). Pecou pela ausência de tentativas de remate e por algumas más decisões no último terço, mas esta época já teve intervenção direta em quatro golos na I Liga. Em toda a época passada, teve apenas três.




Apanha! (-) - Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Posse de bola. Bicada para a frente. Aconteceu, na segunda parte, aquilo que tanto queremos que o FC Porto evite ao máximo. A determinada altura, parecia que a equipa não sabia o que fazer. Cada posse de bola era uma tentativa de passe longo para Marega. Não houve jogo interior, não houve progressão em posse. A equipa percebeu que não estava bem, Sérgio Conceição reforçou o meio-campo, mas não há necessidade absolutamente nenhuma de jogar assim, até porque raramente o FC Porto consegue criar real perigo quando joga desta forma.

O FC Porto já é a equipa com mais foras-de-jogo no Campeonato, 13 em quatro jornadas. Que indica isto? Que está a tentar forçar muito a entrada na linha defensiva com o último passe, mas também que as defesas adversárias estão a saber «apanhar» o FC Porto nesta armadilha. O regresso de Marega ao 11 coincidiu com um abuso desta fórmula (ou melhor, motivou), que certamente terá o momento de (ter que) ser utilizada ao longo da época. Mas em casa? Contra o Moreirense? A ganhar por 2x0? Quando acabamos um jogo com mais foras-de-jogo do que remates enquadrados com a baliza adversária...

Há também um dado deveras curioso. Pensar em Alex Telles e Brahimi é pensar num flanco ofensivo, criativo, capaz de fabricar diversas ocasiões de golo, certo? Mas estatisticamente, o FC Porto é neste momento a equipa que menos usa o flanco esquerdo para atacar em todo o Campeonato. Nas primeiras quatro jornadas, o FC Porto canalizou apenas 31% dos seus ataques por esse corredor. Em contrapartida, é a equipa que mais usa o direito, com 43% de investidas por esse lado. Já vimos bons momentos e combinações por esse lado nesta época, em particular com Maxi e Otávio, mas isto muito se deve à quantidade de vezes que despejaram a bola pelo lado direito à procura da profundidade. 

E o mais irónico é que, uma vez mais, vemos que o FC Porto não precisa de passes de 40 metros para colocar um elemento nas costas da defesa. O lance do 2x0 é um exemplo: Otávio, com um passe curto e na linha da marca de grande penalidade, conseguiu colocar Marega nas costas da defesa. Não é preciso balões e corridas a partir da linha de meio-campo: só é preciso saber decidir e encontrar o espaço certo no último terço.

Sérgio Conceição sabe isso. A equipa sabe isso e, mais importante, sabe fazê-lo. Então, basta fazer. E repetir. 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Colheita 2018-19

Perder depois de chegar ao intervalo a vencer por 2x0 é atípico. Há poucas coisas mais invulgares do que um desfecho destes na história do FC Porto. Tanto que, até à noite de sábado, só tinha acontecido duas vezes na I Liga: uma em 1943, contra o Fabril Barreiro, e a outra em 1970, contra a Académica. A juntar a estes dois casos, houve o desaire europeu contra o Artmedia, em 2005. De resto, nunca o FC Porto tinha acabado batido após ir para o intervalo a vencer por 2x0.

Este resultado, por si só, já era uma raridade, mas as circunstâncias que antecederam os golos do Vitória de Guimarães tornam-lo ainda mais incomum. Uma entrada absolutamente desmiolada de Sérgio Oliveira na grande área, Maxi Pereira a não ter pernas para fechar o corredor no 2x2 (num lance em que o FC Porto tem 8 jogadores na grande área no momento do remate de Tozé), e um lance que começa num lançamento de linha lateral e no qual voltam a ser suficientes dois jogadores do Vitória para fazer frente a uma grande área povoada pelo FC Porto. Os sucessivos desperdícios em tempo de compensação acabaram por confirmar o que se testemunhava: era uma noite atípica a todos os níveis.

Brahimi e mais 10... com poucas ideias sem o argelino
Mas o problema não é apenas este jogo. Estamos à 3ª jornada, a um ponto da liderança. Sporting e Benfica vão perder mais pontos, o próprio FC Porto vai perder mais pontos. O drama não está aqui. Está naquilo que já todos (???) estão fartinhos de saber desde a temporada passada: que este plantel é curto e que lhe faltam soluções de maior qualidade. E isso não iliba o facto de o modelo de jogo do FC Porto estar distante daquilo que entendemos ser um futebol de qualidade e que a equipa tão bem chegou a mostrar na jornada inaugural da Liga.

«Pois, já diziam isso na época passada, que o plantel não chegava, e fomos campeões!». Este argumento não faltará ao longo da época. E podem usá-lo até maio, estejam à vontade. É verdade que o FC Porto chegou ao título, com um plantel ao qual eram reconhecidas várias limitações. Mas não nos podemos esquecer que o primeiro a acreditar na época passada - Sérgio Conceição - foi o primeiro a desacreditar após um simples jogo de pré-época com o Portimonense e a reivindicar a necessidade de reforços. É o próprio milagreiro que não quer estar sujeito a um segundo milagre.

O FC Porto teve um ataque bastante produtivo na época passada. E não é justo dizê-lo que tenha deixado de ter, pois a verdade é que fez 10 golos em 3 jornadas - desde 1975 que não arrancava com uma dezena de golos. Mas também sofreu 5 em 3, algo que não sucedia desde 1969. Isto é muito mais do que uma questão golos marcados vs. sofridos. Tem a ver com a qualidade de jogo e com as próprias soluções do plantel.

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Muita luta, poucas pernas
Começando com a defesa, é lógico que vai ser uma época difícil. O FC Porto perdeu o seu melhor central e o lateral-direito, e Maxi Pereira passou da saída à permanência por culpa da transferência de Diogo Dalot. O uruguaio luta muito, apoia bem o ataque e até começou a época com um par de boas exibições, mas aos 60 minutos da 3ª jornada já não conseguia correr. Já não é uma questão de saber se Maxi Pereira aguenta uma época: é saber se aguenta um jogo completo no qual vai ter que correr para defender e não apenas subir para combinar com o extremo no ataque. Maxi é inteligente no relvado, posiciona-se bem, mas quando tem que correr para trás os 34 anos já pesam. E estamos, neste momento, a falar de Chaves, Belenenses ou Vitória. Não estamos a falar de clássicos ou de Champions, com dois jogos por semana. 

Diogo Leite, jovem promissor, entrou na equipa e fê-lo bem. Mas não é por acaso que estamos a falar de um jogador de 19 anos que está a cumprir a primeira época de sénior. O que faz um miúdo dessa idade? Comete erros. De posicionamento, de marcação, de antecipação. Há 30 anos que o FC Porto não tinha um central tão jovem na equipa - o último tinha sido Fernando Couto. E para quem não estiver recordado, Fernando Couto estreou-se mas foi logo depois emprestado por duas vezes. Só depois voltou para se afirmar. 

Diogo Leite foi lançado às feras (ou não, pois ainda não chegámos aos clássicos e à Champions) e ganhou o lugar com mérito. Mas tudo isto começa na lentidão da SAD em assegurar atempadamente e prontamente o sucessor para o eixo da defesa. Já sabiam que Marcano iria sair e que Diego Reyes não ficava. Isto era uma situação que poderia, deveria estar a ser preparada há meses. As negociações por Mbemba (cujo perfil faz lembrar Bruno Martins Indi) demoraram bem mais de um mês, e quando chegou, aí sim, houve o azar inesperado de o central congolês se ter lesionado. Isso pode acontecer, foi um azar. Mas que teve que fazer Sérgio Conceição desde então? Preparar o miúdo para o 11. Foi isso que fez, e manteve logicamente a sua aposta. 

«Poderia ter jogado o Chidozie», dirão. Aqui entramos no campo da opinião, logicamente, mas Chidozie esteve emprestado ao Nantes, equipa onde o melhor central era Diego Carlos, brasileiro que no FC Porto revelou pouco mais do que qualidades medianas. E aqui temos um possível exemplo da saúde financeira que a SAD portista respira neste momento: 

Recorte do jornal O Jogo
Um clube que rejeita 13 milhões de euros por Chidozie é um clube sem urgência em vendas e sem dificuldades financeiras. Só pode, embora esta proposta deva ter estado na mesma mesa onde o West Ham colocou 40 milhões de euros por Marega, com mandatários de Emerald City, Tardis e Valhalla.

Entretanto chegou o também jovem Éder Militão, proveniente do São Paulo, que apesar de rotulado de polivalente vem como opção para o eixo da defesa. E qualquer jovem brasileiro que chega à Europa precisa de tempo até entrar na equipa, muitas vezes só se conseguindo afirmar a partir da segunda época. Basta recordar os casos recentes de Fernando, Danilo ou Alex Sandro. Ainda assim, nota também para o facto de Éder Militão implicar um investimento de cerca de 7 milhões de euros - grande parte para empresários -, apesar de só ter contrato com o São Paulo até 11 de janeiro de 2019. Com tanto dinheiro investido para «antecipar» a transferência alguns meses, só podemos esperar que Éder Militão possa emergir como opção mais depressa do que o previsto, até porque não havia assim tanta concorrência pelo jogador, pelo menos ao nível da imprensa brasileira (que chegou a sugerir que o PSG poderia comprá-lo para emprestá-lo de imediato ao... Vitória de Guimarães).

Falando ainda do setor defensivo, a iminente chegada de Zakarya, do Belenenses, ao FC Porto sugere meramente uma coisa: desnorte completo na construção do plantel. O lateral-esquerdo, que cumpre 30 anos em janeiro, jogou sempre em clubes medianos ao longo da sua carreira e estava no Sochaux, da II Liga francesa. Assinou pelo Belenenses em julho e, segundo o jornal O Jogo, convenceu o FC Porto a avançar para a sua contratação depois do jogo no Jamor.

Portanto. Temos um lateral de 29 anos que estava livre, em julho, e que não seria nem primeira, nem segunda, nem terceira opção para as laterais do FC Porto. E de repente, por causa de um jogo, passa a ser prioridade e alternativa a Alex Telles, um dos jogadores mais importantes na manobra coletiva do FC Porto. Alguém acredita que no relatório de pré-época de Sérgio Conceição, que identificava seis pontos a reforçar no plantel, o nome de Zakarya aparecia por lá?

Tivemos meses e meses para preparar a época. Uma pré-época inteira. Temos um enorme departamento de scouting e prospeção, camadas jovens, equipa B. E no meio de tudo isto, porque fez um bom jogo contra o FC Porto, de repente Zakarya passa a ser a solução. Rúben Lima deve estar a lamentar que o jogo do Moreirense com o FC Porto não seja disputado antes de sexta-feira, caso contrário ainda se habilitava a uma transferência. 

Não é um problema com Zakarya, o jogador: é um problema com o modelo, com a preparação da época, e com uma gestão que nos faz lembrar os tempos em que se descobriam laterais-esquerdos do calibre de Ezequias, Lucas Mareque, Nelson Benítez ou Lino. Todos eles com motivações muito semelhantes. E todos eles campeões pelo FC Porto, mesmo pouco ou nada jogando. Tomara que com Zakarya também seja assim. 

Não há moral/justificação para alegar contingências financeiras (que, diga-se, a SAD nunca assumiu publicamente na construção ou preparação desta época - o máximo que tivemos foi a história da carochinha de que é possível gastar tanto quanto o FC Porto encaixar em transferências) quando já se celebraram os magníficos negócios da compra e consequente dispensa de Janko ou Ewerton. Seria interessantíssimo ouvir a explicação do FC Porto para a motivação por trás destes negócios. E perceber em que universo é que constrangimentos financeiros podem coexistir com negócios com notáveis empresários e homens do futebol como Alexandre Pinto da Costa, Teodoro Fonseca ou Luciano D'Onofrio. 

Do meio-campo para a frente, praticamente não houve alterações no plantel. Jogadores como Bruno Costa, Hernâni ou Adrián só estão no grupo de trabalho por não haver mais ninguém, e os dois últimos porque não têm propostas de compra no mercado. André Pereira acaba por ser um caso também muito ilustrativo: está a jogar porque não há mais soluções. Está certamente a trabalhar para isso, esteve nos dois golos frente ao Vitória de Guimarães (um deles irregular, é certo, mas já houve precedentes de falhas no VAR, nomeadamente num Aves x Benfica), mas certamente que Sérgio Conceição gostaria de ter outras soluções para o seu 4x4x2.

4x4x2 ou 4x3x3?
Embora, aqui, Sérgio Conceição também tenha que dar o braço a torcer e perceber que tem que haver um limite. Porque não dar uma oportunidade ao 4x3x3? Que mais tem Óliver Torres que fazer para entrar no 11? Quantos créditos tem Sérgio Oliveira para se aguentar no 11? Há assim tão pouca confiança em limitar o eixo do ataque a Aboubakar ou outro ponta-de-lança?

Mas aqui entramos naquilo que é a relação direta entre Sérgio Conceição e a administração. Quando renovou, Sérgio Conceição deixou claro que ia trabalhar a época em 4x4x2? A SAD garantiu que iria ter opções para isso? Uma coisa é a flexibilidade do treinador, que terá sempre que ter, por mais fiel que queira ser às suas ideias. Outra é o próprio investimento da SAD no treinador. 

Como tantas vezes foi comentado, o FC Porto da época passada nem sempre se distinguiu por ser uma equipa que jogava um grande futebol. Era uma equipa de guerreiros, lutadores, que teve sem dúvida semanas de bom futebol ao longo da época, mas muitas vezes esteve limitada a duas coisas: bolas diretas na frente, à procura da profundidade dos avançados, e as bolas paradas. Isto além do principal fator de desequilíbrio neste arranque de época: Brahimi, sempre ele. E reparem que não estamos há dois ou três meses a suspirar por uma solução match-winner para as alas, mas sim até antes da chegada de Sérgio Conceição. Mantêm-se Hernâni, pouco mais do que para fazer número, e esperanças de um ano de afirmação para Corona ou Otávio. Muito curto.

Quanto vale Marega?
E Marega? É de facto um dos mistérios deste defeso. Primeiro, há que separar aquilo que é a especulação típica de pré-época na imprensa, sobretudo quando envolve clubes ingleses, e aquilo que chegou realmente à mesa da SAD. Pinto da Costa diz que nunca teve uma proposta concreta e voltou à conversa para boi dormir da cláusula - estamos em 2018, o FC Porto nunca vendeu um jogador pela cláusula de rescisão (não esquecer, para uma cláusula ser ativada, tem que ser uma das partes, entre clube e jogador, a invocar esse direito - tal como o fez André Villas-Boas, por exemplo), e de certeza que Marega não seria o primeiro. 

Não é do domínio público quanto foi ao certo a eventual proposta do West Ham, mas que era intenção de Sérgio Conceição manter Marega. Mas porquê? Por considerar que o maliano era assim tão fulcral na equipa? Ou porque não tinha garantia nenhuma de que, caso Marega saísse, não viria ninguém melhor? Tudo o que fosse acima de 20 milhões de euros - assumindo que alguém chegaria a esses valores - por Marega seria uma das melhores vendas da história do FC Porto. A verdade é que Marega é um jogador tão fulcral que esteve encostado 19 dias a treinar sozinho. Não há memória de isto ter acontecido no FC Porto. Jogadores a pedir para sair ou a forçar transferências é ementa diária no futebol, sobretudo em clubes vendedores como os portugueses. Sérgio Conceição tem que ter tido motivos muitos fortes para encostar Marega desta forma, embora as suas passagens por Marítimo e Guimarães já tenham revelado histórias de mau profissionalismo. 

Marega acabou por ser reintegrado, restando saber agora se vai renovar ou não (antes de ser afastado do grupo, tinha a proposta de renovação nas mãos) e que jogador será em 2018-19. Porque na época passada, Marega era o ex-dispensado. Cada golo que marcava surpreendia, era colocá-lo acima das expetativas. Foi um jogador a garantir duas dezenas de golos em contexto de I Liga. Mas entre um ex-dispensado que só fica no plantel por não haver mais ninguém e um jogador pelo qual se rejeita a saída por números alegadamente muito mais do que generosos... Há uma enorme diferença. 

Quando o FC Porto assume todas as recusas por Marega, só pode esperar que o seu rendimento seja muito superior esta época. Na temporada passada, apesar de sofrível nos clássicos e na Champions, conseguiu garantir a média de um golo por jornada na Liga - falhava mais do que acertava, mas entre os pontas-de-lança do plantel também ninguém acertava mais do que ele. Ou esperamos um Marega a elevar a fasquia esta época, ou passámos ao lado da possibilidade de um grande negócio. Certo é que não podemos contar com mais uma época a tentar ganhar jogos com bolas que dependem da dimensão física de Marega. 

Sérgio Conceição fez milagres na época passada. Não lhe peçam a mesma receita. O treinador não teve sucesso nem ficou por ser um treinador muito evoluído taticamente, pois não foi essa a força do FC Porto na época passada. Foi a união, a superação, o pragmatismo e a sempre essencial sorte (outra vez, bastava não haver o pontapé do Herrera na Luz e poderia ser mais um ano a seco - ou bastava que tivessem validado o golo limpo a Herrera no jogo do Dragão, e aí talvez já não fosse necessário vencer na Luz).

E conforme foi comentado no post da vitória sobre o Belenenses: sempre que o FC Porto vencer, os adeptos vão ver um plantel bem aproveitado; quando os maus resultados aparecerem, afinal é um plantel curto e ao qual falta qualidade. Neste momento, este plantel não foi reforçado, no sentido em que não está mais forte. Sejamos francos, antes dos resultados, pois totobola à segunda-feira nunca deu nada a ninguém: este plantel é curto para uma equipa que ambiciona o bicampeonato e que tem que lutar por um lugar nos 1/8 da Liga dos Campeões. Na pré-época, Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Neste momento, numa altura em que Danilo e Soares ainda recuperam de lesões, o que apetece mesmo dizer é que falta mais meia dúzia de jogadores com capacidade para jogar no FC Porto. Porque em algo teremos que concordar: seja em 4x3x3 ou 4x4x2, o treinador campeão merece e precisa de melhores soluções. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vinho de tasca

Sérgio Conceição falou numa exibição de «vinho de tasca». E assim foi, com as uvinhas uma vez mais espremidas ao máximo. É a antecâmara de uma época na qual a maioria verá sempre qualidade e opções de sobra sempre que o FC Porto vencer, mas ao primeiro mau resultado (re)surgirão de pronto os alertas do óbvio: de que faltam soluções, sobretudo no ataque, num plantel que praticamente não foi reforçado com idas ao mercado.


Saíram Ricardo, Marcano e Reyes (além de Diogo Dalot), entraram João Pedro, Mbemba e Militão. E tendo em conta que nenhum deles, por diferentes razões, entrou ainda na equipa titular, não podemos afirmar que este elenco seja mais forte do que o da temporada passada.

E é agora que é importante repetir e reafirmar isto, pois no final da próxima semana, com o mercado fechado, já será inútil dizê-lo. No Jamor tivemos a felicidade que faltou na época passada nos jogos contra Aves ou Moreirense, por exemplo, e valeu a raridade que é ver uma equipa de arbitragem manter o critério nas suas decisões. Mas que vai ser preciso muito mais nas próximas deslocações, vai, embora este Belenenses tenha mostrado no passado recente ser uma das equipas que melhor se organiza frente aos grandes.




Alex Telles (+) - Ganhou e bateu o livre do 1x0 e decidiu, ele próprio, o jogo com a marcação irrepreensível de um penálti capaz de fazer tremer qualquer sangue frio. O lateral brasileiro acabou por se destacar nos cruzamentos (acertou 5 em 8) e nos duelos disputados (4/5), além de ter criado três situações de finalização. Num jogo em que o FC Porto teve muitas dificuldades na bola corrida, a fórmula Alex/bolas paradas voltou a fazer a diferença.

Héctor Herrera (+) - O Belenenses tomou conta do meio-campo durante parte significativa do jogo, mas o mexicano sempre remou contra a maré. Foi o elemento com mais ações com bola (63), ganhou 11 dos 14 duelos que disputou e criou duas situações de golo, tendo ainda atirado uma bola ao ferro. Fartou-se de fazer quilómetros e tentou redobrar-se em todo o campo, tentando muitas vezes lançar ataques aos quais as unidades da frente não deram sequência.


Iker Casillas (+) - Um calafrio com um atraso de Felipe, mas acabou por somar um par de defesas importantíssimas na segunda parte, que evitaram (melhor, adiaram) o empate do Belenenses.




Falta de controlo (-) - O Belenenses terminou o jogo com mais posse de bola, mais passes e nunca perdeu o controlo do meio-campo em toda a partida. Há que reconhecer que se tratou de um adversário com boa organização, cujas marcações nunca foram baralhadas pelos avançados do FC Porto e que raramente cedeu espaço nos últimos 25 metros. O FC Porto não conseguiu construir jogo e os golos acabam por nascer em lances à margem das dinâmicas da equipa - duas bolas paradas e um erro de um adversário. Comparando o caudal ofensivo e a qualidade demonstrada pelo FC Porto na 1ª jornada, foi do 80 ao 8 - o primeiro remate da equipa à baliza surgiu já a meio da primeira parte, e Muriel fez tantas defesas como Casillas.

Minuto 58 (-) - Como diriam os treinadores da velha guarda, «esta nem nos infantis». Uma bola batida diretamente pelo guarda-redes do Belenenses, Muriel, é dominada por Fredy (Sérgio Oliveira a dormir neste lance) à entrada da grande área do FC Porto. Isto não existe a este nível: com um simples passe de 80 metros, o adversário fica na cara do golo. O avançado do Belenenses (que tantas dores de cabeça deu a Felipe) tocou para Licá e Casillas acabou por evitar o golo, mas este é o tipo de jogada capaz de fazer qualquer treinador arrancar cabelos. 

Não esperemos o mau resultado (-) - Sérgio Conceição valoriza muito o trabalho nos treinos. É certamente por isso que André Pereira ganhou o lugar neste arranque de época - por isso e pela falta de uma solução/reforço de maior qualidade. É um jovem avançado fisicamente interessante, que tenta trabalhar para a equipa, mas cuja aposta neste momento não está a funcionar da melhor forma. Volta a ser o primeiro a ser substituído e pouco conseguiu produzir em campo - apenas 8 passes completos, falhou os 2 dribles que tentou, tentou o remate apenas uma vez e perdeu 10 dos 17 duelos que tentou. É certo que o companheiro de ataque, Aboubakar, esteve em modo amorfo, mas André Pereira não terá ainda a estaleca que possa fazer dele uma solução de 11 inicial para o curto prazo. 

Mas dirão: e soluções? Adrián? Marius? Marega? Com Soares lesionado e sem mais soluções para o ataque, a verdade é que provavelmente André Pereira não deixa de ser aquele que mais tem lutado e feito por merecer um lugar no ataque do FC Porto aos olhos de Sérgio Conceição. E assim sendo não é possível censurar as opções do treinador, que dificilmente terá intenções de abdicar do esquema de dois avançados neste arranque de época. Sérgio Conceição tem que «rentabilizar os que tem», dizem, mas não se queixem se o que tem se revelar insuficiente a breve trecho. Vinho de tasca pode desenrascar numa refeição mas não vai matar a sede nos dias de maior calor. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ideia ao serviço do plantel

Sem nenhuma das contratações para a nova época no 11 inicial. Sem Danilo, Marega ou Soares. E sem bicadas para a frente. Foi com uma exibição de enormíssima qualidade que o FC Porto despachou o Desportivo de Chaves e conseguiu os três primeiros pontos da época. Foram 5-0, poderiam ter sido bem mais, tamanha a qualidade de jogo que o FC Porto conseguiu apresentar e a capacidade de criar ocasiões de finalização. 


Exibições de grande qualidade a nível individual e coletivo, futebol que empolgou os adeptos e deu para terminar com a inimaginável dupla de ataque Adrián López-Marius Mouandilmadji a ser aplaudida pelo Dragão. Com esta amostra, dizer que Sérgio Conceição tem que continuar a «rentabilizar» os ativos que tem é o equivalente a dizer a um tipo no topo do Evereste que tem que continuar a escalar. E esse tipo, se se chamasse Sérgio, era capaz de esticar os braços e meter-se em bicos de pés.




Sem bicada, sem balão (+) - Pode ser «birra» cá do burgo, mas há mesmo que começar por aqui: cinco golos, cinco jogadas que dispensam a bola despejada diretamente pelos defesas na linha da frente. E o lance do 2x0 é um exemplo de que não é preciso muito espaço para colocar um jogador nas costas da defesa adversária: basta fazê-lo na altura correta, quando as circunstâncias do jogo a isso o convidam e não como jogada padrão. Num curto passe, Sérgio Oliveira rasga uma linha de 6 jogadores do Chaves e Otávio fica em posição livre para cruzar para três jogadores em zona de finalização. É refrescante e importantíssimo ver o FC Porto e Sérgio Conceição apostarem nestas bases, e é notoriamente mais vantajoso colocar esta matriz de jogo ao serviço do plantel em vez de uma matriz de jogo ao serviço de um único jogador. Depender de uma equipa para desbloquear jogos é sempre melhor do que depender de um jogador. 

Tudo na defesa (+) - Iker Casillas não deve ter sujado as luvas, tamanha que foi a eficácia defensiva da equipa, em especial para Diogo Leite e Felipe no jogo aéreo. O jovem português, no lugar de Marcano, ganhou 7 das 8 bolas disputadas pelo ar no setor defensivo e Felipe só perdeu 2 duelos em todo o jogo, não tendo cometido uma única falta, além de ter criado uma ocasião de golo. Alex Telles esteve muito acima do nível demonstrado na Supertaça, mas Maxi Pereira esteve novamente uns furos acima, ao criar quatro ocasiões de golo num jogo em que quase só teve preocupações ofensivas. 

Sérgio Oliveira (+) - Muito abaixo do nível exigível na Supertaça, Sérgio Oliveira afirmou-se agora como um dos melhores em campo e um dos principais dinamizadores da grande exibição do FC Porto. Descobriu Otávio no lance do 2x0 e esteve no golo de Marius, tendo criado 6 ocasiões de finalização, duas delas flagrantes, entre uma exibição com 93% de eficácia no passe e oito ações defensivas. Curiosamente, desta vez não arriscou no remate e só por uma vez tentou o passe longo. Reduziu a sua amplitude de jogo e jogou mais curto, mas isso não o impediu de estar em todo o lado. Curiosamente, desta vez foi Herrera quem teve a missão de abrir mais o jogo, e acabou por ter sucesso, com 7 de 9 passes longos eficazes e 92% de eficácia no passe, mas desta feita o mexicano não esteve tão forte nas bolas divididas e esteve longe das zonas de finalização, apesar de ter sido o elemento com mais ações com bola (98).

Desequilíbrio (+) - Otávio na assistência para os dois primeiros golos (o 1x0 com uma boa simulação de André Pereira - apesar da inteligência em algumas movimentações e de muita vontade, é porventura o principal candidato a 'cair' do 11 em breve), Brahimi novamente a faturar em lance individual, Corona a entrar e a marcar, Aboubakar a bisar (e a ficar a dever a si próprio bem mais noutras ocasiões), Adrián e Marius a entrarem e a terem ocasiões para marcar. Todas as unidades do setor ofensivo do FC Porto marcaram, deram a marcar ou tiveram oportunidades para o fazer, fosse em jogadas pelo corredor, no espaço interior ou através de lances individuais. 

Quando é criado um volume tão grande de ocasiões, com nove situações em que não havia opositor entre o jogador do FC Porto e o guarda-redes adversário (e falharam sete delas), não há forma de vacilar: mesmo com um punhado de grandes ocasiões desperdiçadas, o FC Porto não deixou de golear. Procurou sempre mais, praticamente dispensou a meia distância (16 dos 19 remates foram obtidos dentro da grande área) e rapidamente assimilou um futebol que resumia tudo a uma questão: a vitória é certa, falta saber por quantos. 

Tópico para reflexão, a entrada de Adrián López. Se tivesse sido Lopetegui a lançar Adrián, talvez fosse a «espanholização». Se fosse Nuno Espírito Santo, talvez fosse «um frete ao amigo Mendes». Mas como foi Sérgio Conceição a lançá-lo, então é porque o treinador se calhar pode recuperar o jogador. Isto diz tudo sobre o crédito que Sérgio Conceição ganhou no clube. E que continua a fazer por merecer. E praticamente com o mesmo plantel do meio-campo para a frente da época passada, tem um exemplo de que afinal é possível jogar bom futebol, com circulação, apoio e momentos de desequilíbrio individual e coletivo, sem que isso implique ter como jogada padrão jogadores a correr e a caírem nas costas da defesa com passes de 40 metros. Sem imprescindíveis, com uma ideia que se sobrepõe à individualidade. Não é um recado para Marega: é para todo o plantel.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Envolvência

A Supertaça voltou a casa, e já deixava saudades. Este é, por razões óbvias, um troféu especial para o FC Porto, não só por ter mais troféus do que todos os outros clubes juntos e ter estado em 30 das 40 finais, mas também porque conquistar a Supertaça significa, muitas vezes, ter uma injeção anímica e de confiança para a longa época que se segue. 


O jogo frente ao Desp. Aves foi um exemplo dos calafrios que o FC Porto vai certamente encontrar muitas vezes no Campeonato, numa altura em que o plantel às ordens de Sérgio Conceição não é, continua a não ser, mais forte do que o da última época. Um jogo no arranque da época não dá atestados de garantias ou insuficiências, mas todos saíram de Aveiro com sentimento de dever cumprido e com a 21ª Supertaça. 





Envolvência (+) - A palavra que define a vitória do FC Porto. Na fase inicial da partida, regressámos às inconsequentes bicadas para a frente (já lá vamos). O golo do Aves obrigou a equipa a acordar e a organizar as suas ideias e os três golos são exemplos perfeitos daquilo que deve ser o futebol da equipa para esta época: envolvência do setor intermédio no processo ofensivo, jogo interior, circulação a toques curtos e transporte.

Primeiro, com Alex Telles no apoio, Brahimi leva a bola até à tabela com Aboubakar, explora o espaço interior e faz golo; no 2-1, é Maxi Pereira, em combinação com Otávio (também a desequilibrar por dentro), a fazer a diferença numa jogada a toque curto; e o lance que mata o jogo nasce do mesmo princípio, com Óliver a ir buscar jogo à linha, apoiando Maxi, e Corona a situar-se na zona central.

Semelhanças? Três golos em que não foi preciso uma bicada para a frente, à espera que alguém apanhasse a bola num espaço que não existia nas costas da defesa do Desportivo das Aves. A velocidade e o jogo direto terão a sua importância e espaço ao longo da época, mas contra os Aves deste Campeonato recomenda-se esta forma de jogar.

Maxi Pereira (+) - Uma boa forma de corresponder à renovação de contrato que, diga-se, esteve longe de ser unânime no universo portista e que talvez nem teria acontecido se Diogo Dalot não tivesse saído. Mas a experiência, inteligência e o espírito competitivo de Maxi Pereira são mais-valias importantes no plantel. Equilibrado a atacar e a defender, procurou sempre apoios curtos com Otávio e foi dessa forma que chegou ao golo da reviravolta. As pernas pesam, e Maxi provavelmente alternará várias vezes a titularidade ao longo da época, mas enquanto estiver em campo é uma garantia de empenho. Não há portista que não goste.

Jesús Corona (+) - Quando Brahimi dava sinais de ter que sair por lesão, Sérgio Conceição começa por mandar Soares aquecer. Era um péssimo sinal para Corona - ver o treinado preferir um ponta-de-lança a um extremo perante a ausência do argelino. Mas Sérgio Conceição mudou de ideias e em boa hora, com Corona a fazer uma segunda parte de grande qualidade. Bom enquadramento com a baliza e a grande área, bem a proteger a bola e a definir os lances e a conseguir fazer um bom golo. Não será um exagero afirmar que a segunda parte em Aveiro foi melhor que qualquer jogo que tenha feito este ano até à data. Agora a eterna questão: conseguirá Corona fazer dois bons jogos seguidos? O mexicano bem precisa, e o FC Porto também. 

Outros destaques (+) - Herrera voltou a ter que trabalhar por dois no meio-campo e fê-lo com distinção. Teve ordens para não avançar muito para zonas de finalização e proteger a retaguarda da equipa, funcionando como pêndulo e referência no eixo do meio-campo. Brahimi, apesar da lesão, foi a tempo de ajudar a desbloquear o jogo e a entrada de Óliver em campo voltou a ser sinónimo do período de melhor qualidade e controlo no jogo. Palavra para a estreia de Diogo Leite, que ganhou o lugar nesta pré-época e vai obrigar Mbemba e Militão a terem que correr atrás do lugar. 





Os eternos balões (-) - Não havia Marega no ataque, o que poderia desde logo significar que o FC Porto procuraria outras soluções na sua construção. Mas não foi isso que a fase inicial da partida demonstrou. A equipa voltou à fórmula tantas vezes usada na última época e não raras vezes vimos a bola ir desde o defesa à linha de fundo. Não funciona, por duas razões: Brahimi, Otávio ou até André Pereira não são jogadores para irem ganhar metros nas costas da defesa; e o Aves, como tantas equipas no Campeonato, não vai conceder espaço suficiente para que o FC Porto possa jogar desta forma. Na Champions é uma coisa, no Campeonato outra.

Cada bola longa para as costas da defesa do Aves foi sinónimo de perda de posse e, conforme já foi defendido, os três golos do FC Porto nascem de momentos em que a equipa preocupa-se mais em transportar a bola, com tabelas e circulação, e menos em tentar ganhar em velocidade e passes longos. Sobretudo num contexto de Campeonato português, é importante ter a paciência e a capacidade para jogar desta forma.

O primeiro objetivo da época está cumprido. Mas porque a partir de setembro será inútil dizê-lo, não custa repetir: as vitórias no arranque de época devem ser celebradas, mas não podem servir de maquilhagem face às necessidades do plantel. Não custa lembrar aquela que havia sido a última Supertaça do FC Porto, ganha em 2013, e da qual muitos saíram a pensar que ia ser Licá e mais 10. Não basta pensar no Aves, no Chaves ou no Belenenses: há que pensar nos clássicos, na Champions, nas pausas internacionais, nas lesões, nos castigos, na óbvia sobrecarga de jogos. Sérgio Conceição precisa de mais soluções e o pior que poderia acontecer seria chegar ao início de setembro e ouvi-lo dizer «reforços são os que cá estão». 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Não há milagres (duas vezes)

Como futebolista ou treinador, Sérgio Conceição sempre privilegiou o contacto direto com Pinto da Costa. Não raras vezes ao longo da última época ouviram-lo dizer: «Isso é entre mim e o presidente». Gestão do grupo de trabalho, questões diárias, construção do plantel: foi sempre entre treinador e presidente.

Posto isto, só podemos questionar o quão Sérgio Conceição terá chegado ao limite para, após um simples jogo de pré-época e com 15 dias de trabalho, ter colocado o dedo na ferida e falado abertamente dos constrangimentos que existem neste momento no plantel do FC Porto. 

Estamos a falar de um treinador que, ao longo de toda a época 2017-18, sempre comeu e calou - aliás, comeu e trabalhou. Não havia reforços? Pegou na lista de dispensas. Danilo lesionou-se? Muda-se a matriz de jogo. Troca aqui, adapta acolá e a época terminou com o título ganho, com recorde de pontos no Campeonato e objetivos cumpridos na Champions. Sérgio Conceição nunca se queixou. Não fez omeletes sem ovos: fez um banquete. 

E agora, em plena pré-época, não precisou de mais de duas semanas para dar um murro na mesa. E como é óbvio, jamais Sérgio Conceição sentiria necessidade de vir a público falar abertamente desse problema se tivesse garantias de que os reforços chegariam muito bem breve. Que ganharia Sérgio Conceição em vir agora queixar-se se soubesse que, dentro de um par de dias, já teria caras novas e poderia dispensar algumas unidades do grupo de trabalho?

Sérgio Conceição renovou contrato a 24 de maio, há quase dois meses. Desde então, o FC Porto contratou três jogadores: João Pedro, Saidy Janko e Ewerton. Só o brasileiro chegou ao Dragão com a concordância do treinador. 

Por isso, desde logo, questiona-se como é que, desde que o treinador campeão nacional renovou contrato, já chegaram mais jogadores de que ele não precisava do que aqueles de que necessita. 

A saga do pensamento da massa adepta em relação à contratação de Janko foi uma autêntica montanha russa. Primeiro fazia sentido, pois Sérgio Conceição treinou cinco meses em França e por isso passou a conhecer todos os jogadores da Liga francesa - até aqueles que, como Saidy, não tinham mostrado mais do que medianas qualidades. Primeiro era para jogar a lateral-direito, no lugar de Ricardo Pereira. Depois afinal poderia ser para lateral-esquerdo. Mas pouco depois já era solução para jogar mais à frente, no meio-campo. Voltas e mais voltas a tentar compreender o porquê desta contratação. A conclusão parece iminente: afinal não era um desejo do treinador e vai muito provavelmente seguir por empréstimo.

Poderão dizer que dois milhões de euros não constituem uma compra muito extravagante. Mas são. São para um clube que continua sob restrições da UEFA para o cumprimento do fair-play financeiro e que não investe no treinador que fez do FC Porto campeão em 2017-18. Como se sente um treinador que vê que não há dinheiro para umas coisas mas aparenta haver para outras? 

Ewerton, tal como Saidy, não foi um pedido de Sérgio Conceição. E francamente, se não fosse um jogador do Portimonense, ou mais concretamente do clube cuja SAD tem como accionista maioritário Teodoro Fonseca, provavelmente nunca teria assinado pelo FC Porto. 

Isto não pode ser confundido com desprimor pelo jogador. Se calhar não deve haver jogador mais feliz do que Ewerton por, neste momento, estar a trabalhar no FC Porto. Mas estamos a falar de um jogador que se exibiu a um nível não mais do que mediano na última época e que não é melhor do que os que já cá estavam. «É para o lugar de André André», dirão. Claro. André André foi titular três vezes no último Campeonato, teve uma utilização residual e o FC Porto tem uma equipa B cara e sob constante investimento (em agosto entraremos com maior profundidade neste assunto e aproveitaremos para analisar alguns negócios que têm envolvido a equipa B...). A sério que o papel que André André desempenhou em 2017-18 necessitava de uma ida ao mercado? Por certo que não. 


Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Depois enumerou sete nomes (Oleg, Mikel, Diogo Leite, Saidy Janko, Ewerton, Bruno Costa e André Pereira - todos lançados na segunda parte) e concluiu que eram necessárias condições. Entre estas 7 unidades, nenhuma delas tem em vista a titularidade ou um papel minimamente ativo na equipa base. A estes nomes poderíamos juntar Chidozie, Hernâni, Paulinho, Adrián ou até Waris.

Olhando ao plantel, neste momento o FC Porto está mais fraco do que a época passada. João Pedro, naturalmente, não tem ainda nem de perto nem de longe o nível de Ricardo Pereira. Iván Marcano, o melhor central do FC Porto, saiu e ainda não tem substituto. E isto não implica mudar apenas um jogador, mas sim uma dupla de centrais. Basicamente Sérgio Conceição perdeu apenas dois jogadores. Não é o fim do mundo: é natural isso acontecer no FC Porto. Não deve haver treinador que não tenha perdido pelo menos 2 titulares de uma época para a outra no FC Porto. O problema é que saíram dois jogadores que não têm, ainda, alternativas do mesmo nível num plantel que por si só já era curto.

Sérgio Conceição quer soluções porque sabe que necessita de outra forma de jogar em 2018-19. Não podemos estar novamente dependentes das bolas paradas de Alex Telles, dos lances individuais de Brahimi e de bolas despejadas para Marega ganhar na dimensão física. A determinada altura o futebol praticado pelo FC Porto na época passada foi previsível e limitado, mas de facto não havia muitas mais soluções. Sérgio Conceição quer evoluir, quer novas formas de jogar, quer mais qualidade. Merece essas condições. 

Poderíamos discutir a questão financeira, recordar que é difícil comprar antes de vender... Mas isso deixa de fazer sentido quando vemos que, das 3 contratações já efetuadas em 2018-19, duas delas não serviram pedidos do treinador para fazer face às necessidades do futuro próximo.

Além disso, poucos dias após Sérgio Conceição ter renovado contrato, ouvimos o diretor de comunicação do FC Porto afirmar isto: «Neste preciso momento em que estou a falar o FC Porto já pode gastar 34 milhões de euros. O FC Porto já tem 22 milhões de euros garantidos de Ricardo Pereira, dado que vendeu por 20 mas dois já estão garantidos. Mais os 12 milhões de euros de Boly. Não quer dizer que vá gastar, mas já pode. Querem sempre passar a ideia de que o FC Porto está refém do 'fair-play financeiro'. Não é verdade. Teve um aperto, mas está a sair dele graças às medidas da administração que resultaram muito bem».

É de recordar que esta afirmação foi feita ainda antes da saída de Diogo Dalot para o Manchester United. E foi feita no mesmo dia em que ouvimos isto: «Na época passada [a SAD] fez 63 milhões de euros e podia ter gasto o mesmo valor. Não o fez por uma decisão da administração». Ok. Podia ter gastado 63 milhões de euros, mas vá, ficaram-se pelo Vaná, segundo algumas teorias para evitar que fosse para o Benfica - boa lógica, de todos os jogadores que poderiam desviar do Benfica, desvia-se um terceiro guarda-redes. 

Francisco J. Marques não faz parte do Conselho de Administração da SAD, não é a pessoa indicada para falar ou responder a estas questões, mas também não ouvimos Pinto da Costa ou Fernando Gomes falar da realidade financeira e das expetativas para 2018-19. Então afinal há dinheiro? Há condições para dar condições a Sérgio Conceição? 

É imperativo. O plantel necessita de reforços - reforços, não contratações! - em todos os setores. Não é preciso imaginar quais: Sérgio Conceição sabe e já os pediu. Os mais otimistas não tardarão em dizer: «Na época passada também diziam que o plantel não servia e fomos campeões com recorde de pontos!» É verdade, sim senhor. Mas Sérgio Conceição, o primeiro a acreditar na época passada, não hesitou em ser o primeiro a desacreditar face às condições que tem agora em mãos. Não pode haver maior alerta do que este. 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Campeões e recordistas

Não há maior testemunho da reabilitação competitiva que Sérgio Conceição injetou no FC Porto: ainda adeptos, jogadores e clube estavam na «ressaca» da conquista do Campeonato e já o treinador se tinha proposto ao recorde de pontos num Campeonato a 34 jornadas. Ninguém entrou em campo em Guimarães já a festejar, com cara e cabelo pintados e meramente para cumprir calendário. Não, havia um recorde a alcançar.

E o FC Porto tornou-se a equipa com maior pontuação de sempre num Campeonato a 34 jornadas (não confundir com aproveitamento máximo de pontos - essa marca foi estabelecida em 2010-11, com 93,3% de pontos conquistados). O Benfica também fez 88 pontos em 2015-16, certo, mas com uma vantagem de apenas dois pontos sobre o segundo classificado. Logo, os 88 pontos do FC Porto ganham especial relevância por terem deixado o Benfica a um Celta de Vigo de distância, leia-se, a sete pontos. 

Concluiu-se assim uma época que pode ser resumida numa palavra: superação. Sérgio Conceição não teve pudor em assumi-lo: não tinha o melhor plantel, não tinha os melhores jogadores, não teve reforços no mercado de verão. Não passou a ter um plantel vasto e completo no decorrer da 
época. Mas construiu uma equipa, que jogou até ao limite. É certo que a qualidade exibicional do FC Porto decresceu bastante desde o final de fevereiro - desde então, a esmagadora maioria das vitórias foram conseguidas pela margem mínima -, mas isso não retirou os estatutos de melhor ataque e melhor defesa ao plantel. Nem de melhor futebol.

Campeões nacionais com 7 pontos de avanço, objetivos cumpridos na Liga dos Campeões, e as finais da Taça da Portugal e da Taça da Liga ficaram à distância de um pouco mais de felicidade nas grandes penalidades. Plantel valorizado em várias unidades e comunhão absoluta entre adeptos e equipa. Segue-se um merecido descanso, com a garantia de que na próxima época será muito, muito difícil fazer melhor; mas que ninguém duvide que a meta de Sérgio Conceição será precisamente essa - mais e melhor.




Iván Marcano (+) - Na sua mais do que provável despedida do FC Porto, assinou o golo da vitória e entrou para a lista dos 10 defesas mais goleadores da história do clube. Exibição muito sóbria na defesa, com os atacantes do Vitória a não darem muito trabalho, por isso foi na grande área adversária que Marcano mais se distinguiu, tendo ainda criado uma ocasião de golo. A caminho de completar 31 anos, está no pico de maturidade e experiência, e arrisca deixar um vazio que o plantel, neste momento, não tem condições para preencher.


Alex Telles (+) - Fechou a época com a 14ª assistência no Campeonato, 20ª na época, e termina a temporada como o jogador que mais ocasiões de golo criou em toda a época - 95 no total. É certo que o brasileiro bate as bolas paradas, algo que ajuda a reforçar os números, mas é mais do que Brahimi (50 ocasiões) e Herrera (40), o 2º e 3º mais influentes, juntos. Certinho na defesa, disponível no ataque, voltou a estar na génese das principais jogadas de perigo dos dragões. Termina a época como uma das tentações do mercado de verão... e um forte candidato a ver o seu estatuto reforçado no Dragão em 2018-19.

Héctor Herrera (+) - Nem parecia que estava na ressaca de uma semana de festa e relaxamento. Foi de longe o jogador com mais ações com bola (90), ganhou 9 dos 14 duelos que disputou, criou uma ocasião de golo e esteve surpreendentemente bem no passe longo, ao acertar 6 das suas 7 tentativas. Encheu o meio-campo e acumulou um total de 16 intervenções na defesa, entre cortes, desarmes e recuperações de bola. Um jogo de pulmão cheio.

O regresso de Fabiano (+) - Um pouco à margem do jogo, mas é um momento que merece ser assinalado. Para quem não se recorda, Fabiano foi o guarda-redes menos batido das Ligas europeias em 2014-15. Uma prova de que o futebol e as balizas podem ser mundos tão complexos que o mais difícil - não sofrer golos - pode não ser de todo suficiente para encher as medidas a treinadores e adeptos. Perdeu a titularidade e o lugar no clube depois dos 6x1 de Munique. O mesmo jogo onde também estiveram jogadores como Marcano, Herrera ou Brahimi, agora «heróis» da época 2016-17.

Fabiano foi dispensado e emprestado ao Fenerbahçe, depois de Casillas ter sido contratado (ao contrário do que chegou a dizer Pinto da Costa ao El País, tendo afirmado que a hipótese Casillas só surgiu depois de Fabiano ter ido para a Turquia). O brasileiro dificilmente teria muito espaço para jogar no Fenerbahçe, pois Demirel é quase intocável para o clube e adeptos. Esteve duas épocas no Fenerbahçe, mas sofreu uma lesão grave. Voltou a Portugal e ao FC Porto meramente para tratar da lesão, mas Sérgio Conceição decidiu incluí-lo no plantel como sendo jogador da equipa A. Um ano depois da grave lesão, voltou a jogar, para ser campeão. A emoção no final não é indiferente a nenhum adepto: ver um jogador superar tamanho calvário, até à emoção de voltar a ser campeão no FC Porto, chega a ser simbólico e algo no qual cada adepto se pode rever. 

Terminou a época 2017-18, que será sempre recordada com orgulho e satisfação. A época do «Mar Azul».

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A obra completa de Conceição

Há três anos, numa entrevista de Pinto da Costa ao El País, uma agora célebre frase ficou marcada. «Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar». Uma declaração na altura infeliz, por desvalorizar aquilo que foi o trabalho dos últimos treinadores campeões pelo FC Porto (AVB e Vítor Pereira), mas que agora pode ser parafraseada face àquele que é o desfecho da época 2017-18.

Com Sérgio Conceição como treinador, foi o contrário: foi indiferente o plantel que lhe calhou em mãos. Não tinha um Hulk, não tinha um James, não tinha um Falcao. Herdou um grupo de jogadores sem cultura de campeão, a lista de dispensas da época passada, não teve um único reforço na pré-época e nem sequer pôde ter o requisito básico de ter dois jogadores por posição. Sérgio Conceição pegou em tudo isto... e fez uma equipa. Uma equipa que acaba de conquistar um dos títulos mais marcantes da história do FC Porto. Não por marcar o fim de um jejum ao qual as últimas gerações não estão habituadas, mas pelas circunstâncias que rodearam o futebol português nos últimos anos. 


O que acontece nas últimas jornadas tem sempre o poder de mudar a perspetiva sobre como os adeptos olham para o resto da época, mas insiste-se no que foi dito no início da época: esta não foi uma época preparada para ganhar o Campeonato. Não foi. A administração do FC Porto foi a única a ser alvo de uma punição por parte da UEFA por ter violado o fair-play financeiro em 2016-17. Logo, a prioridade ficou clara, embora nunca assumida pela administração: não havia margem para investir, havia que capitalizar os recursos já existentes e a prioridade seria cumprir com as metas da UEFA para evitar males maiores. 

E Sérgio Conceição escolheu encarar isso como o maior desafio. Não chegou ao FC Porto trazendo com ele uma ideia de jogo particularmente sedutora nos clubes por onde passou. Cumpriu objetivos por onde andou, mas sem nunca mostrar um futebol condizente com quem tem que assumir jogos e que não pode jogar para o pontinho. Mas tudo isso ficou à porta do Olival. 

O treinador olhou para o plantel a aplicou-lhe o conceito de jogo possível. Temos bons laterais? Então vamos aproveitar a sua profundidade e projeção ofensiva. Brahimi é o que mais se aproxima de um match-winner no plantel? Tudo bem, vamos metê-lo a tirar um, dois, três do caminho e a tentar o último passe. Herrera não se adapta a jogar em posse? Não faz mal, vai ser box-to-box. Corona, Hernâni ou Otávio são demasiado intermitentes para garantir um 4x3x3? Sem problema, temos avançados fortes e velozes, vamos metê-los a cair em cima da linha defensiva adversária, a massacrar os defesas e a jogar em profundidade. 

Sérgio Conceição não fez ometeles sem ovos. Fez bolos, fez o banquete inteiro. Cometeu erros? Certamente, mas teve a sensibilidade e inteligência de saber quando ou como os podia ou devia corrigir. Iker voltou à baliza; Felipe saiu do 11 quando tinha que sair e voltou quando estava bem para regressar; mudou o meio-campo e a forma de jogar em vez de tentar descobrir um novo Danilo - que não havia - no plantel; pegou em Marega, que pouco mais oferecia do que força e velocidade, e fez com que não precisasse de mais do que força e velocidade para ser o melhor marcador portista na Liga; Soares, que podia ter ido para a China em ruptura com o treinador, foi transformado no melhor «reforço» de inverno. E podíamos continuar a enumerar exemplos que só reforçam um treinador que, perante uma enxurrada de problemas, respondeu sempre com soluções. 

É um título de Sérgio Conceição, do grupo liderado por Sérgio Conceição e de constantes provas de superação. Cumpriu os objetivos na Liga dos Campeões, ficou às portas das finais da Taça de Portugal e Taça da Liga devido às grandes penalidades e garantiu matematicamente a conquista do título de campeão nacional quando ainda faltavam disputar dois jogos. E agora está a uma vitória de bater o recorde de pontos do FC Porto numa Liga a 34 jornadas. Sem exigências, sem queixas, sem desculpas, mas com muito trabalho. 

Haverá muito mais a discutir sobre a construção do plantel e sobre o trabalho de Sérgio Conceição no final da temporada, mas para já é tempo de celebrar o feito deste grande grupo de trabalho, responsável pela alegria de milhões de portistas nas últimas horas. Nem padres, nem missas, nem afins: 2017-18 será sempre a época do FC Porto de Conceição.






Yacine Brahimi (+) - Foi o responsável pelo momento alto da noite no jogo de consagração do título, ao marcar com mestria o 2x0. Além do golo, Brahimi criou mais duas situações de finalização, teve 7 dribles eficazes e totalizou 81 ações com bola. Foi o principal agitador de um jogo em que, admita-se ou não, os efeitos de uma noite de festa não poderiam deixar de se fazer sentir.


Sérgio Oliveira (+) - Jogo com grande disponibilidade para chegar à grande área adversária - apareceu cinco vezes em zonas de finalização para tentar o remate, mais do que Soares, Marega e Aboubakar juntos. Foi dessa forma que conseguiu inaugurar o marcador, numa partida em que teve 89% de acerto no passe e priveligiou uma circulação mais segura e curta. 

Ricardo Pereira (+) - Não estava a brincar quando, no meio dos festejos, alertou que no dia seguinte havia jogo. Para Ricardo, foi como se os três pontos em causa fossem determinantes para a conquista do Campeonato. Aos 90 minutos ainda andava a percorrer todo o corredor com grande fulgor, ele que contribuiu com 13 ações defensivas e reforçou o seu estatuto de jogador com melhor eficácia de desarme no Campeonato (99 em 119 tentativas). Além disso, ainda criou duas ocasiões de golo, uma delas flagrante.

Tempo de celebrar e desfrutar, mas sem esquecer que ainda há um jogo para se disputar, em Guimarães. O FC Porto está a uma vitória de se tornar o clube com melhor desempenho num Campeonato a 34 jornadas. Que a sede de ganhar seja para manter. Por outras palavras: que Sérgio Conceição seja para manter, por muitas e boas épocas!