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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ideia ao serviço do plantel

Sem nenhuma das contratações para a nova época no 11 inicial. Sem Danilo, Marega ou Soares. E sem bicadas para a frente. Foi com uma exibição de enormíssima qualidade que o FC Porto despachou o Desportivo de Chaves e conseguiu os três primeiros pontos da época. Foram 5-0, poderiam ter sido bem mais, tamanha a qualidade de jogo que o FC Porto conseguiu apresentar e a capacidade de criar ocasiões de finalização. 


Exibições de grande qualidade a nível individual e coletivo, futebol que empolgou os adeptos e deu para terminar com a inimaginável dupla de ataque Adrián López-Marius Mouandilmadji a ser aplaudida pelo Dragão. Com esta amostra, dizer que Sérgio Conceição tem que continuar a «rentabilizar» os ativos que tem é o equivalente a dizer a um tipo no topo do Evereste que tem que continuar a escalar. E esse tipo, se se chamasse Sérgio, era capaz de esticar os braços e meter-se em bicos de pés.




Sem bicada, sem balão (+) - Pode ser «birra» cá do burgo, mas há mesmo que começar por aqui: cinco golos, cinco jogadas que dispensam a bola despejada diretamente pelos defesas na linha da frente. E o lance do 2x0 é um exemplo de que não é preciso muito espaço para colocar um jogador nas costas da defesa adversária: basta fazê-lo na altura correta, quando as circunstâncias do jogo a isso o convidam e não como jogada padrão. Num curto passe, Sérgio Oliveira rasga uma linha de 6 jogadores do Chaves e Otávio fica em posição livre para cruzar para três jogadores em zona de finalização. É refrescante e importantíssimo ver o FC Porto e Sérgio Conceição apostarem nestas bases, e é notoriamente mais vantajoso colocar esta matriz de jogo ao serviço do plantel em vez de uma matriz de jogo ao serviço de um único jogador. Depender de uma equipa para desbloquear jogos é sempre melhor do que depender de um jogador. 

Tudo na defesa (+) - Iker Casillas não deve ter sujado as luvas, tamanha que foi a eficácia defensiva da equipa, em especial para Diogo Leite e Felipe no jogo aéreo. O jovem português, no lugar de Marcano, ganhou 7 das 8 bolas disputadas pelo ar no setor defensivo e Felipe só perdeu 2 duelos em todo o jogo, não tendo cometido uma única falta, além de ter criado uma ocasião de golo. Alex Telles esteve muito acima do nível demonstrado na Supertaça, mas Maxi Pereira esteve novamente uns furos acima, ao criar quatro ocasiões de golo num jogo em que quase só teve preocupações ofensivas. 

Sérgio Oliveira (+) - Muito abaixo do nível exigível na Supertaça, Sérgio Oliveira afirmou-se agora como um dos melhores em campo e um dos principais dinamizadores da grande exibição do FC Porto. Descobriu Otávio no lance do 2x0 e esteve no golo de Marius, tendo criado 6 ocasiões de finalização, duas delas flagrantes, entre uma exibição com 93% de eficácia no passe e oito ações defensivas. Curiosamente, desta vez não arriscou no remate e só por uma vez tentou o passe longo. Reduziu a sua amplitude de jogo e jogou mais curto, mas isso não o impediu de estar em todo o lado. Curiosamente, desta vez foi Herrera quem teve a missão de abrir mais o jogo, e acabou por ter sucesso, com 7 de 9 passes longos eficazes e 92% de eficácia no passe, mas desta feita o mexicano não esteve tão forte nas bolas divididas e esteve longe das zonas de finalização, apesar de ter sido o elemento com mais ações com bola (98).

Desequilíbrio (+) - Otávio na assistência para os dois primeiros golos (o 1x0 com uma boa simulação de André Pereira - apesar da inteligência em algumas movimentações e de muita vontade, é porventura o principal candidato a 'cair' do 11 em breve), Brahimi novamente a faturar em lance individual, Corona a entrar e a marcar, Aboubakar a bisar (e a ficar a dever a si próprio bem mais noutras ocasiões), Adrián e Marius a entrarem e a terem ocasiões para marcar. Todas as unidades do setor ofensivo do FC Porto marcaram, deram a marcar ou tiveram oportunidades para o fazer, fosse em jogadas pelo corredor, no espaço interior ou através de lances individuais. 

Quando é criado um volume tão grande de ocasiões, com nove situações em que não havia opositor entre o jogador do FC Porto e o guarda-redes adversário (e falharam sete delas), não há forma de vacilar: mesmo com um punhado de grandes ocasiões desperdiçadas, o FC Porto não deixou de golear. Procurou sempre mais, praticamente dispensou a meia distância (16 dos 19 remates foram obtidos dentro da grande área) e rapidamente assimilou um futebol que resumia tudo a uma questão: a vitória é certa, falta saber por quantos. 

Tópico para reflexão, a entrada de Adrián López. Se tivesse sido Lopetegui a lançar Adrián, talvez fosse a «espanholização». Se fosse Nuno Espírito Santo, talvez fosse «um frete ao amigo Mendes». Mas como foi Sérgio Conceição a lançá-lo, então é porque o treinador se calhar pode recuperar o jogador. Isto diz tudo sobre o crédito que Sérgio Conceição ganhou no clube. E que continua a fazer por merecer. E praticamente com o mesmo plantel do meio-campo para a frente da época passada, tem um exemplo de que afinal é possível jogar bom futebol, com circulação, apoio e momentos de desequilíbrio individual e coletivo, sem que isso implique ter como jogada padrão jogadores a correr e a caírem nas costas da defesa com passes de 40 metros. Sem imprescindíveis, com uma ideia que se sobrepõe à individualidade. Não é um recado para Marega: é para todo o plantel.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Análise 2017-18: os médios

Contrato até 2022
Danilo Pereira - Um dos maiores elogios à época do FC Porto é recordar que a equipa esteve privada durante quase meia época do médio-defensivo, possivelmente o mais importante e valioso jogador no arranque da pré-época. Adaptou-se ao esquema de dois médios de Sérgio Conceição, sem nunca perder a sua preponderância defensiva: nas 19 jornadas em que alinhou na Liga, apenas foi driblado em 5 ocasiões por adversários. Danilo foi também o médio de toda a competição com maior percentagem de duelos ganhos (63%) e de duelos aéreos ganhos (72%). Marcou apenas uma vez na Liga, mas esteve em quatro dos golos do FC Porto na Champions. Estava na calha para a saída no fim da época, mas a lesão obrigou a SAD a rever os seus planos para o médio - e ainda bem para a equipa, que conserva um dos melhores jogadores, profissionais e candidato a integrar o grupo de capitães.

Contrato até 2020
Sérgio Oliveira - A surpreendente escolha de Sérgio Conceição para os jogos grandes estava longe de correr bem, pois entre seis jogos de Champions e clássicos, o FC Porto venceu apenas um com o médio no 11. Mas Sérgio Oliveira acabou por aproveitar o espaço com a lesão de Danilo Pereira para entrar no 11, e por lá se manteve até ao final da época. Esteve a um nível muito elevado em fevereiro, com 3 golos e 2 assistências na Liga, mas apesar da notória evolução esta época continua a faltar a consistência que possa fazer dele um jogador «de época». Ganhou intensidade e já não é apenas o médio que chutava e batia livres, tendo sido o 5º maior criador de ocasiões de golo do FC Porto, mas muitas vezes «desliga-se» do jogo. A continuidade de Danilo e Herrera deve remetê-lo ao papel de alternativa válida para a próxima época, sendo que a sua situação contratual terá que ser revista muito em breve. 

Contrato até 2019
André André - Cumprida a terceira época no FC Porto, é tempo de dizer adeus a André André. Os dois bons meses que realizou com Lopetegui já vão longe e, a caminho dos 29 anos e a uma época do final de contrato, o médio português não apresenta o nível desejado para jogar num FC Porto campeão. Jogou apenas 331 minutos no Campeonato, apenas três vezes como titular, e apesar do apreço mantido pela massa adepta por jogadores portugueses e portistas - sobretudo os não saem nem são vendidos à primeira oportunidade - não faz sentido manter André André no plantel para mais uma época a alternar entre banco, bancada e minutos residuais de jogo. O seu regresso a Guimarães está a ser negociado e resta desejar boa sorte a André André e felicidades futuras, menos nos jogos contra o FC Porto. 

Contrato até 2019
Héctor Herrera - Porquê sempre ele? Foi, por razões óbvias, um dos rostos da conquista do título. Mais do que o golo na Luz, que mudou a história do Campeonato, Herrera distinguiu-se pela forma incansável com que se apresentou jogo após jogo, encaixando na perfeição no papel idealizado por Sérgio Conceição para o meio-campo. No FC Porto, Herrera foi o médio com mais desarmes (83), o 3º principal criador de oportunidades de golo (50) e o médio que mais duelos ganhou (221). Numa época de grande exigência para o mexicano, muitas vezes a ter que trabalhar por dois no meio-campo, destaca-se o facto de ter sido desarmado apenas 22 vezes em 29 jornadas, estatística que contraria a imagem de displicência que tantas vezes lhe foi associada, bem como o facto de ter sido o 3º jogador com mais passes para o meio-campo adversário e o 5º com mais passes no último terço. 

A defender ou a atacar, foi uma época completa e de bom nível de Herrera, que agora levanta questões para o futuro. Aos 28 anos, está a uma época do final de contrato; já atingiu o seu pico de valorização, mas Sérgio Conceição não pode perder meia equipa. Logo, está entre a saída e a possibilidade de passar a ser «mobília», pois dificilmente haverá contexto mais favorável para uma transferência e tão grande estado de graça entre os adeptos. Com Sérgio Conceição, e esta forma de jogar, é essencial que permaneça, mas a grande oportunidade de uma venda pode não voltar a aparecer. 

Contrato até 2021
Óliver Torres - Foi o principal dinamizador do bom futebol praticado pelo FC Porto no início da época, mas deixou de ser opção para Sérgio Conceição, sobretudo quando a aposta em dois médios passou a ser mais declarada. Chegou a ser expectável que pudesse sair em janeiro, a tempo de encontrar uma solução que contornasse a avultada verba que teria que começar a ser paga ao Atlético (a SAD pagou 5 dos 20 milhões de euros no primeiro semestre), mas o espanhol permaneceu na Invicta. Que Óliver tem nos pés futebol e ideias de jogo que não existem em mais nenhum jogador do FC Porto, ninguém pode duvidar; mas que as suas caraterísticas não eram as mais ideais para o meio-campo de Sérgio Conceição, também não. Agora, ou Sérgio Conceição tem um papel ativo para Óliver em 2018-19, ou o seu posicionamento no clube terá que ser revisto. Óliver não pode ser uma mera alternativa, um jogador que vai para o banco ou entra para os 20 minutos finais e que só joga perante a indisponibilidade de um ou dois colegas. Não é um estatuto condizente com o seu custo. Óliver tem que jogar na próxima época, pois um dos maiores investimentos da história do FC Porto não pode estar «parado». As escolhas de Sérgio Conceição não têm que obedecer a durações de contrato ou dinheiro investido, mas o caso de Óliver não pode ser tratado como apenas mais um - de recordar que na informação prestada à CMVM o FC Porto referiu-se à cláusula de compra como sendo opcional, não obrigatória. Óliver tem que jogar na próxima época, seja aqui ou noutro clube, ou pelo menos ser um jogador para o qual Sérgio Conceição terá planos mais ativos, mesmo que isso demore mais alguns meses de trabalho. 

Compra obrigatória
Paulinho - Não conseguiu entrar no «comboio» da equipa e acabou por ter um papel irrelevante na segunda metade da época. Não foi um pedido expresso de Sérgio Conceição, mas tinha caraterísticas que poderiam ter sido úteis ao FC Porto (nomeadamente a forma como coloca bolas em zonas de finalização), sobretudo quando pensamos o quão inconsistentes jogadores como Hernâni, Otávio ou Corona foram sendo. Os três jogadores que chegaram ao FC Porto por empréstimo em janeiro fizeram-lo meramente por contingências no fair-play financeiro, por isso à partida Paulinho fica no FC Porto a título definitivo - a que preço, é a questão, pois é um jogador que tem várias limitações na dimensão física. É demasiado frágil para jogar no miolo do meio-campo, mas não é rápido e explosivo o suficiente para pressionar na frente e dar largura ao jogo do FC Porto. O pior que poderia acontecer é Paulinho ficar no FC Porto não por aquilo que Sérgio Conceição viu nos últimos meses, mas pelo que ficou acordado com o Portimonense em janeiro. Mas tendo em conta que vimos, com Sérgio Oliveira, a grande diferença que pode ser para Sérgio Conceição ter um jogador em janeiro e tê-lo numa pré-época, esperemos que Paulinho se revele reforço e não um fardo

Contrato até 2021
Otávio - Esteve longe da desejada época de afirmação - acabou por ter apenas pouco mais de metade do tempo de utilização da temporada 2016-17. Numa época em que a SAD decidiu reforçar a aposta em Otávio (comprou 15% do seu passe à GE Assessoria, em novembro, por 2,1 milhões de euros - uma verba que se calhar poderia ter desbloqueado uma renovação de contrato bem mais pertinente no plantel...), o brasileiro nunca conseguiu encher as medidas aos olhos do treinador, apesar de ter sido titular na reta final da temporada. Embora não duvidem que Otávio é um jogador de potencial e talento, andou muitas vezes perdido entre a meia direita e a zona central, e acabou por ter mais cartões (5) do que intervenção em golos (3) na Liga. Foi sendo alternativa, curta, num plantel em que a concorrência não deveria ser a mais feroz para o brasileiro. Acabou por fazer melhores jogos em 2016-17 do que nesta temporada. 

É de recordar que Otávio custou inicialmente 2,5 milhões por 33% do passe (a SAD entretanto passou a declarar ter apenas 32,5%). Em outubro de 2016, a SAD comprou mais 20% de Otávio, por 2,9 milhões de euros. E no primeiro semestre comunicou a compra de mais 15%, a troco de 2,1 milhões de euros - e é deveras curioso que a GE Assessoria, uma empresa que tinha apenas 20% do passe de Otávio quando o brasileiro foi negociado para o FC Porto, já conseguiu vender 35% à SAD. Contas feitas, são já 7,5 milhões de euros investidos em Otávio, de quem o FC Porto tem 67,5% do passe, proporção que faz dele um dos ativos mais caros do clube. A aposta em Otávio foi reforçada em época de contenção financeira e de incumprimento do fair-play financeiro, algo que terá que dizer muito da aposta no brasileiro no médio prazo. 

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A obra completa de Conceição

Há três anos, numa entrevista de Pinto da Costa ao El País, uma agora célebre frase ficou marcada. «Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar». Uma declaração na altura infeliz, por desvalorizar aquilo que foi o trabalho dos últimos treinadores campeões pelo FC Porto (AVB e Vítor Pereira), mas que agora pode ser parafraseada face àquele que é o desfecho da época 2017-18.

Com Sérgio Conceição como treinador, foi o contrário: foi indiferente o plantel que lhe calhou em mãos. Não tinha um Hulk, não tinha um James, não tinha um Falcao. Herdou um grupo de jogadores sem cultura de campeão, a lista de dispensas da época passada, não teve um único reforço na pré-época e nem sequer pôde ter o requisito básico de ter dois jogadores por posição. Sérgio Conceição pegou em tudo isto... e fez uma equipa. Uma equipa que acaba de conquistar um dos títulos mais marcantes da história do FC Porto. Não por marcar o fim de um jejum ao qual as últimas gerações não estão habituadas, mas pelas circunstâncias que rodearam o futebol português nos últimos anos. 


O que acontece nas últimas jornadas tem sempre o poder de mudar a perspetiva sobre como os adeptos olham para o resto da época, mas insiste-se no que foi dito no início da época: esta não foi uma época preparada para ganhar o Campeonato. Não foi. A administração do FC Porto foi a única a ser alvo de uma punição por parte da UEFA por ter violado o fair-play financeiro em 2016-17. Logo, a prioridade ficou clara, embora nunca assumida pela administração: não havia margem para investir, havia que capitalizar os recursos já existentes e a prioridade seria cumprir com as metas da UEFA para evitar males maiores. 

E Sérgio Conceição escolheu encarar isso como o maior desafio. Não chegou ao FC Porto trazendo com ele uma ideia de jogo particularmente sedutora nos clubes por onde passou. Cumpriu objetivos por onde andou, mas sem nunca mostrar um futebol condizente com quem tem que assumir jogos e que não pode jogar para o pontinho. Mas tudo isso ficou à porta do Olival. 

O treinador olhou para o plantel a aplicou-lhe o conceito de jogo possível. Temos bons laterais? Então vamos aproveitar a sua profundidade e projeção ofensiva. Brahimi é o que mais se aproxima de um match-winner no plantel? Tudo bem, vamos metê-lo a tirar um, dois, três do caminho e a tentar o último passe. Herrera não se adapta a jogar em posse? Não faz mal, vai ser box-to-box. Corona, Hernâni ou Otávio são demasiado intermitentes para garantir um 4x3x3? Sem problema, temos avançados fortes e velozes, vamos metê-los a cair em cima da linha defensiva adversária, a massacrar os defesas e a jogar em profundidade. 

Sérgio Conceição não fez ometeles sem ovos. Fez bolos, fez o banquete inteiro. Cometeu erros? Certamente, mas teve a sensibilidade e inteligência de saber quando ou como os podia ou devia corrigir. Iker voltou à baliza; Felipe saiu do 11 quando tinha que sair e voltou quando estava bem para regressar; mudou o meio-campo e a forma de jogar em vez de tentar descobrir um novo Danilo - que não havia - no plantel; pegou em Marega, que pouco mais oferecia do que força e velocidade, e fez com que não precisasse de mais do que força e velocidade para ser o melhor marcador portista na Liga; Soares, que podia ter ido para a China em ruptura com o treinador, foi transformado no melhor «reforço» de inverno. E podíamos continuar a enumerar exemplos que só reforçam um treinador que, perante uma enxurrada de problemas, respondeu sempre com soluções. 

É um título de Sérgio Conceição, do grupo liderado por Sérgio Conceição e de constantes provas de superação. Cumpriu os objetivos na Liga dos Campeões, ficou às portas das finais da Taça de Portugal e Taça da Liga devido às grandes penalidades e garantiu matematicamente a conquista do título de campeão nacional quando ainda faltavam disputar dois jogos. E agora está a uma vitória de bater o recorde de pontos do FC Porto numa Liga a 34 jornadas. Sem exigências, sem queixas, sem desculpas, mas com muito trabalho. 

Haverá muito mais a discutir sobre a construção do plantel e sobre o trabalho de Sérgio Conceição no final da temporada, mas para já é tempo de celebrar o feito deste grande grupo de trabalho, responsável pela alegria de milhões de portistas nas últimas horas. Nem padres, nem missas, nem afins: 2017-18 será sempre a época do FC Porto de Conceição.






Yacine Brahimi (+) - Foi o responsável pelo momento alto da noite no jogo de consagração do título, ao marcar com mestria o 2x0. Além do golo, Brahimi criou mais duas situações de finalização, teve 7 dribles eficazes e totalizou 81 ações com bola. Foi o principal agitador de um jogo em que, admita-se ou não, os efeitos de uma noite de festa não poderiam deixar de se fazer sentir.


Sérgio Oliveira (+) - Jogo com grande disponibilidade para chegar à grande área adversária - apareceu cinco vezes em zonas de finalização para tentar o remate, mais do que Soares, Marega e Aboubakar juntos. Foi dessa forma que conseguiu inaugurar o marcador, numa partida em que teve 89% de acerto no passe e priveligiou uma circulação mais segura e curta. 

Ricardo Pereira (+) - Não estava a brincar quando, no meio dos festejos, alertou que no dia seguinte havia jogo. Para Ricardo, foi como se os três pontos em causa fossem determinantes para a conquista do Campeonato. Aos 90 minutos ainda andava a percorrer todo o corredor com grande fulgor, ele que contribuiu com 13 ações defensivas e reforçou o seu estatuto de jogador com melhor eficácia de desarme no Campeonato (99 em 119 tentativas). Além disso, ainda criou duas ocasiões de golo, uma delas flagrante.

Tempo de celebrar e desfrutar, mas sem esquecer que ainda há um jogo para se disputar, em Guimarães. O FC Porto está a uma vitória de se tornar o clube com melhor desempenho num Campeonato a 34 jornadas. Que a sede de ganhar seja para manter. Por outras palavras: que Sérgio Conceição seja para manter, por muitas e boas épocas!


segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Pentas: Fevereiro de 2018

Foi com um registo imaculado a nível interno que o FC Porto fechou o mês de fevereiro. As vitórias contra SC Braga, Chaves, Rio Ave, Estoril e Portimonense mantiveram a equipa destacada na liderança da I Liga, invicta com os estatutos de melhor ataque e melhor defesa intactos, mesmo perante um ciclo de semanas adverso para Sérgio Conceição, jornada após jornada privado de vários titulares por lesão. Na Taça de Portugal, o FC Porto ganhou vantagem na luta por um lugar no Jamor, ao vencer o Sporting por 1-0, no mesmo mês em que sofreu a maior derrota da história do clube a jogar em casa. Outra realidade, pois nas provas internas tudo decorre com predicados de qualidade. Estes foram os melhores de fevereiro:

5. Maxi Pereira

Com o uruguaio em campo, o FC Porto ainda não perdeu nenhum jogo esta época e leva 10 vitórias consecutivas, para as quais o lateral tem contribuído com segurança defensiva e preponderância ofensiva. Perante a lesão de Ricardo Pereira, o uruguaio, embora já com menos pernas e pulmões para aguentar todo o corredor, não ficou a dever nada ao rendimento do português - Maxi fez três assistências na Liga no último mês, tantas quanto Ricardo Pereira desde o início da época. A sua experiência tem tido uma importância inquestionável nas últimas semanas.

4. Moussa Marega

Um mês de opostos para o maliano, que começou fevereiro com um desempenho desastroso frente ao SC Braga e acabou a fazer o seu melhor jogo da época em Portimão. Marega continua a alternar o sofrível com a utilidade, nomeadamente na respeitável média de golos que continua a manter a nível interno - cinco golos e duas assistências no último mês. Pode não ter dimensão para os grandes palcos (0 golos em 11 jogos entre Champions e clássicos), mas mantém a média de intervenção direta num golo por jornada e já é o melhor marcador do FC Porto num Campeonato desde Jackson Martínez. 

3. Sérgio Oliveira

O melhor mês da sua carreira futebolística. A sua titularidade começou por ser circunstancial, mas ganhou o lugar com exibições equilibradas, seguro no meio-campo e a conseguir desequilibrar no ataque - três golos e duas assistências em fevereiro. Ganhou dimensão física e o problema da falta de intensidade já não se coloca. É verdade que falha mais passes do que Herrera, mas acrescentou à equipa capacidade de cruzar em zonas mais interiores. E mesmo nos momentos em que surge mais escondido do jogo, tem sido essencial para o equilíbrio do meio-campo. Afinal, não é fácil encontrar uma fórmula para substituir Danilo.

2. Alex Telles

Autor de cinco assistências e um golo em fevereiro, Alex Telles já teve intervenção em nada mais, nada menos do que em 20 dos golos marcados pelo FC Porto nesta temporada. A lesão chegou numa altura em que o lateral brasileiro vinha sendo, provavelmente, o mais consistente jogador do 11 portista. Cumpre defensivamente, desequilibra no ataque e é essencial para que Brahimi possa jogar em zonas mais interiores, pois sabe que terá sempre o Expresso Telles a dar profundidade. Lesionou-se numa altura em que, nas Ligas europeias, só De Bruyne e Messi criavam mais situações de finalização. 

1. Tiquinho Soares

A estreia n'Os Pentas e logo no topo das escolhas, fruto da autoria de oito golos e duas assistências, igualando o melhor mês de Aboubakar. Esteve perto de sair em janeiro, mas ficou no plantel para ser alvo de uma profunda reabilitação nos planos do treinador. Oportuno, foram várias as vezes em que estava no sítio certo na grande área para finalizar, com presença e eficácia no jogo aéreo. Teve combinações interessantes com Marega nas últimas semanas e melhorou na capacidade de fazer diagonais e pressionar a linha defensiva. Uma lesão impediu-o de iniciar março da mesma forma que terminou fevereiro, mas Soares mostrou que uma saída abortada pode, muitas vezes, revelar-se um reforço. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cinco no jogo mais importante da semana

Era essencial vencer, pelas mais variadas razões: para reabilitar o moral da equipa e dos adeptos depois da Champions, para responder à pressão dos rivais e para assegurar que, aconteça o que acontecer na Amoreira, o FC Porto vai iniciar a 24ª jornada da Liga na liderança isolada do Campeonato. Os 45 minutos frente ao Estoril vão, assim, definir se o FC Porto vai ganhar alguma margem de erro à entrada para a reta final do Campeonato. 


A receita terá que ser a mesma de hoje: uma entrada forte, agressiva, com uma linha de pressão alta e incansável na recuperação de bola e eficácia na hora de atirar à baliza. Não há margem/tempo para esperar pelo erro ou desgaste do adversário, pois tal não acontecerá, e se já estamos habituados a jogar contra equipas fechadas com 0x0 no marcador, neste caso tudo aponta para um Estoril a defender com tudo e todos. Nada que 45 minutos à Porto não possam resolver. 




Entrada a matar (+) - Brahimi a solicitar Alex Telles nas costas; o cruzamento para a grande área, já com três unidades para três jogadores do Rio Ave; Soares não domina da melhor forma (ou conta como assistência?), mas apareciam logo três jogadores à entrada da grande área para a sobra; Sérgio Oliveira arriscou o remate, mas também já tinha Maxi isolado pela direita. Uma jogada com diversas soluções e que resultou num golo madrugador, que deu tranquilidade ao FC Porto rumo à goleada. A equipa soube pressionar bem e praticamente não deixou o Rio Ave entrar com perigo na grande área, limitando a equipa visitante a remates de meia distância.

Sérgio Oliveira (+) - Abriu o marcador com um remate colocado, mas foi sobretudo nas tarefas mais recuadas que se destacou, ajudando a equilibrar a equipa com uma boa ocupação de espaço e contribuindo com 10 ações defensivas, além de ter ganho 8 dos 11 duelos que disputou. Não apareceu muito na circulação de bola (fez apenas um passe a cada 3 minutos), mas compensou com um bom sentido posicional e uma pressão forte sobre o adversário. Prolongou o bom momento no Campeonato. 

Soares (+) - O reforço de inverno da época passada parece querer repetir a dose. Teve intervenção direta em 6 golos nos últimos 3 jogos internos - se no lance do 1x0 o passe para Sérgio Oliveira pareceu um mau domínio de bola, no 2x0 correspondeu com um belíssimo cabeceamento e soube ser oportuno para fechar o marcador, além de ter arrancado um vermelho que ficou por mostrar a Tarantini. Ainda criou mais duas situações de perigo e voltou a ter movimentações interessantes nas diagonais curtas. Sérgio Conceição avisou que dependeria de Soares decidir se a porta se abria ou fechava. O brasileiro parece decidido em arrombá-la.


A entrada de Óliver (+) - Na segunda parte, o FC Porto controlou sobretudo o espaço e não estava a conseguir fazer circular a bola. A entrada de Óliver significou o melhor momento do FC Porto na partida - tabelas, jogadas ao primeiro toque, maior velocidade de circulação e a obrigar o Rio Ave a correr atrás da redondinha. A jogada com Brahimi ficou na retina, tão boa que nem o argelino acreditou na oferta. Vinte minutos que mostraram que Óliver pode ser um oásis de tranquilidade quando é preciso guardar e circular a bola, em vez de fechar as linhas e limitar a equipa a bolas em profundidade.

Palavra também para mais duas assistências de Alex Telles de bola parada - são já 11 no Campeonato. Em toda a Europa, só Neymar (12) e De Bruyne (14) têm mais. 




Definição e discrição (-) - Notou-se que Brahimi precisava de um golo. Estava à procura da jogada, do momento que lhe daria confiança a nível individual. A verdade é que as coisas não saíram particularmente bem ao argelino - falhou 6 dos 11 dribles que tentou, criou apenas uma ocasião de golo e atirou uma bola à trave. Já quando o resultado estava feito, Brahimi pareceu querer sempre escolher o caminho mais complicado, trocando o jogo coletivo pela tentativa do lance individual.

Corona ajudou muitas vezes Maxi no corredor e teve alguns pormenores interessantes, mas uma vez mais não conseguiu ter efeitos práticos no ataque - não fez nenhum passe para finalização, falhou os 4 cruzamentos que tentou e não conseguiu nenhum drible eficaz. Muitas vezes a movimentação/iniciativa correta, mas faltava o momento de definição.

Já Marega voltou a marcar, chegando aos 17 golos na Liga, e bem pode agradecer o bom cruzamento de Alex Telles e o desvio de Marcelo para a própria baliza, caso contrário teriam sido 90 minutos de quase total anonimato: Marega fez apenas 5 passes em todo o jogo, tocou16 vezes na bola (metade das de Iker Casillas) e não fez nenhum passe para finalização nem nenhum cruzamento em 90 minutos. O maliano picou o ponto de bola parada, mas no jogo jogado raramente conseguiu aparecer. 

Segue-se então o Estoril e a necessidade de 45 minutos à Porto. Literalmente.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Pareceu fácil

Uma das mais assinaláveis vitórias nesta temporada, não só pelo volumoso resultado como por todas as circunstâncias a envolver este jogo. Desde logo, a ausência de Marcano, Danilo e Aboubakar da ficha de jogo; depois, as presenças de Ricardo e Brahimi no banco, como forma de gestão do treinador (e gestão não significa estar a poupar jogadores para a Champions, mas sim lidar com as consequências físicas do pós-clássico). 

Ora, se juntarmos Alex Telles a este lote, temos aqui os seis melhores jogadores da primeira volta. Cinco deles não entraram no 11 do FC Porto, frente a um Chaves que não perdia em casa há meio ano e que está a bater às portas dos lugares europeus. E o melhor elogio é sempre este: ninguém deu pela falta deles, face a uma exibição sólida e a revelar a melhor face de «segundas linhas», de Maxi a Soares, de Sérgio Oliveira a Otávio.

Este contexto revela diversas soluções, mas o plantel nunca deixou de ser curto; a diferença é que o treinador está a tirar o máximo proveito dele. Há naturalmente sempre casos em que os adeptos sabem que os jogadores em causa podiam, deviam, dar algo mais (não esquecendo que para tal é preciso continuidade no 11), como Óliver ou Corona, mas genericamente o plantel está a ser valorizado. 

São já 90 golos esta época, em 36 jogos. Na época passada, o FC Porto tinha feito apenas 88 em 49. E o mais notável é que todo o plantel está envolvido nesta marca - tirando os reforços de inverno, todos os elementos integrantes do plantel já participaram diretamente em pelo menos 2 golos esta época. Se tirarem Jonas ou Bas Dost aos rivais, os resultados - ou a falta deles - ficam à vista; já o FC Porto dá uma prova de superação num jogo em que entra sem 5 jogadores-chave. 




Soares (+) - Esteve com pé e meio fora do FC Porto (daí a repescagem de Gonçalo Paciência e o facto de o brasileiro já nem ter integrado este post de comparação entre os avançados do clube), mas a mudança acabou por não se concretizar, apesar de o mercado na China ainda estar aberto. E em boa hora para Sérgio Conceição, que viu o brasileiro dizer «presente» numa altura em que Aboubakar está de fora, Marega num péssimo momento de forma e os reforços de inverno com as dificuldades típicas em entrar no 11.

O brasileiro fez dois golos, o 2x0 num fabuloso remate, mas o melhor da sua exibição foi a forma como conseguia desmarcar-se em diagonais curtas, permitindo que os médios fizessem passes em profundidade curtos e não a habitual bola longa para os avançados africanos na frente. A sua exibição pecou apenas pela fraca qualidade de passe (perdeu metade das bolas que disputou), apesar de ter chegado a servir Marega de bandeja para o 3x0. 

Meio-campo (+) - Algumas dificuldades de entendimento na primeira parte, com ambos a pisarem muitas vezes o mesmo espaço, mas Sérgio Oliveira e Herrera partiram para mais uma exibição sólida a meio-campo. A equipa trocou a posse por transições rápidas e a verdade é que a estratégia funcionou, com os 2 médios a criarem 5 ocasiões de golo e apenas um passe falhado (de Sérgio) no próprio meio-campo. Sérgio Oliveira fez a assistência para o 1x0 e fechou, com um grande golo, o resultado, após uma bela combinação com Herrera. 

Outros destaques (+) - Tirando dois ou três lances em que se põe a jeito para a amostragem de cartão ou mesmo para uma grande penalidade, exibição sólida de Maxi Pereira, com grande disponibilidade a atacar e a assistir Soares para o 2x0, além de só ter perdido uma bola nos primeiros 50 metros. Otávio, sobretudo na primeira parte, mostrou finalmente qualidade esta época - bem a movimentar-se nas costas de Soares e Marega e a baralhar as marcações da equipa do Chaves, tendo ainda criado duas ocasiões de golo. 




Mais controlo (-) - Foi estratégia: ter menos bola, jogar de forma mais direta e deixar o Chaves circular no seu meio-campo (tirando os 3 grandes, o Chaves é a equipa que melhor passa a bola na Liga, mas muitas vezes de forma inconsequente). Foi o caso: o Chaves teve mais bola, fez mais passes, mas o único remate com algum perigo dentro da grande área foi a tentativa de Tiba na primeira parte.

Por outro lado, o FC Porto fez muitas mais faltas do que é hábito (23, contra 8 do Chaves). E se é certo que não fez nenhuma nos primeiros 30 metros, o que reforça que se tratava de estratégia, é natural que deixar o adversário ter tanta bola vá forçar a equipa a mais faltas. E a média de faltas da equipa disparou desde que Danilo saiu da equipa. Num Campeonato em que se apita com facilidade contra o FC Porto, isto é pôr-se a jeito, e o Chaves podia mesmo ter inaugurado o marcador com uma grande penalidade. Uma das raras vezes em que o FC Porto conhece o benefício, mas já se sabe que basta uma má jornada para perder a liderança. E certamente que, frente ao Liverpool, não poderemos dar-lhes a bola como demos ao Chaves. 

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Agora com um final feliz

Quarto clássico da época. Quarta vez em que o FC Porto é superior ao rival. Quarto jogo sem sofrer golos. A primeira vitória, que não deixou de pecar por escassa - e o histórico recente de meias-finais da Taça de Portugal é um exemplo de que um 1x0 em casa não é garantia de nada. Mas quatro clássicos em que o FC Porto parece ser a única equipa a querer assumir-se como grande e a jogar para ganhar, isso sim, é a melhor garantia de que o trabalho desenvolvido por esta equipa está recheado da matéria que faz campeões. 




Ricardo Pereira (+) - Chega a ser irrisório que este jogador nunca tenha feito um jogo oficial pela seleção nacional e que tenha jogado apenas 54 minutos em jogos de preparação. Numa altura em que a fadiga física se faz sentir no plantel, Ricardo continua com uma frescura física invejável e cada vez mais confiante/acutilante no último terço. Galga metros com ou sem bola, garante a profundidade no flanco mas não se inibe ele próprio de explorar o espaço interior. A cobertura defensiva continua a ser a lacuna a corrigir - e podia ter custado caro no minuto 90 -, e pode e deve melhorar os cruzamentos, mas com Ricardo o FC Porto tem, neste momento, um dos melhores laterais da Europa. Alguém se lembra de Danilo?

Sérgio Oliveira (+) - Muita gente - inclusive/sobretudo o treinador - pensou nele como o 3º médio para o 4x3x3 da equipa nos grandes jogos. A verdade é que essa fórmula não estava a funcionar na hora de garantir vitórias. Mas o problema talvez não estivesse no jogador em si, mas sim no seu papel em campo. É no 4x4x2, e numa excelente dupla com Herrera, que Sérgio Oliveira faz os seus 2 melhores jogos com a camisola do FC Porto, ele que não fazia 2 jogos completos seguidos há dois anos - o que não deixa de ser surpreendente, sobretudo por se tratar de um jogador que, no passado recente, nunca dava ares de aguentar 90 minutos e ser pouco intenso. Está mais agressivo, ocupa melhor o espaço e conseguiu assinar o cruzamento para o golo da vitória numa jogada que não é hábito ver o FC Porto fazer (cruzamento do médio antes dos últimos 22 metros). De suplente do Nantes a titular do FC Porto com o mesmo treinador: Sérgio Conceição sabia, de facto, o que estava a fazer. 


Estratégia (+) - Ouvir a conferência de Jorge Jesus no final da partida era entrar numa realidade paralela. O Sporting voltou a ser vulgarizado frente ao FC Porto e completamente anulado naquilo que são os seus princípios - profundidade pelos flancos, bola para a grande área (leia-se, para Bas Dost). O FC Porto secou o adversário pelos corredores e limitou o Sporting a duas ou três investidas do sempre perigoso Gelson Martins. Pouco mais. 

Além disso, a estratégia do Sporting para este jogo pressupunha, com a linha defensiva reforçada, ter mais soluções na saída de bola. Mas não funcionou, pois o FC Porto nunca recuou e soube sempre fechar todos os espaços - Sérgio Oliveira juntava-se a Marega e Soares na linha de pressão, enquanto Brahimi e Corona (bem a colocar as bolas na grande área) fechavam os corredores. Herrera ficava exposto no eixo, mas a equipa nunca se desequilibrou. O Sporting fez 5 remates à baliza do FC Porto em 270 minutos de clássicos. Tudo dito.




Faltou matar (-) - Na época 2013-14, quando o FC Porto venceu o Benfica por 1x0 nas meias-finais, Quintero mandou uma bola ao poste nos descontos. Muitos portistas temeram: «Espero que esta bola não nos faça falta». Fez. Abril ainda vai distante, FC Porto e Sporting atravessarão diferentes momentos de forma até lá e a equipa adversária não poderá apequenar-se como tem feito até aqui. Mas poderíamos, sem dúvida, ter dado já uma machadada na eliminatória, tamanha que foi a subserviência do adversário. O Sporting tentou quanto possível minimizar os estragos e levar a eliminatória para Alvalade, algo que acaba por conseguir. Cabe ao FC Porto ir à procura do golo e obrigar o Sporting a expor-se de uma maneira que não o fez nos três clássicos já disputados. 

Agora o Chaves, equipa que não perde em casa há meio ano. Fica o aviso. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Expresso Telles dá-te asas

«Os 45 minutos que faltam disputar frente ao Estoril eram uma oportunidade para reforçar a liderança da Liga. Agora são a oportunidade para recuperá-la. Basta uma jornada para tudo mudar novamente. Para o bem ou para o mal

O post anterior d'O Tribunal do Dragão terminava desta forma. E aí está: bastou uma jornada para tudo mudar novamente, agora para o bem. Se na jornada anterior o FC Porto perdeu 2 pontos em relação ao Sporting, agora ganhou 3 e recuperou a liderança isolada do Campeonato, sabendo que se vencer o Estoril pode ganhar uma vantagem de 5 pontos sobre os rivais. A derrota do Sporting não deixa de ser um aviso para o quão difíceis serão os 45 minutos frente ao Estoril, mas o FC Porto, em termos pontuais, está melhor do que estava antes de defrontar o Moreirense. Quem diria?


Três cruzamentos de Alex Telles, três cabeçadas, três pontos. A mesma fórmula funcionou três vezes e foi o suficiente para assinar uma vitória difícil mas merecida, apesar das condicionantes provocadas pelas ausências de Marcano e Danilo, o desgaste físico em vários jogadores-chave e o ciclo complicado que se antevê no calendário. 

O SC Braga foi ao Dragão rematar muito mais vezes do que é normal (14 - como termo de comparação, note-se que o Benfica rematou 7 vezes quando foi à Invicta, e o Sporting, na totalidade dos 2 clássicos já disputados esta época, também disparou apenas 7 vezes), José Sá teve o dobro do trabalho que tem sido hábito, mas o FC Porto soube ser superior e inteligente frente ao SC Braga. 





Alex Telles (+) - Vamos uma rodada de números para se perceber a influência que o lateral-esquerdo tem no FC Porto. Alex Telles é, neste momento, o 5º jogador com mais passes para finalização das Ligas europeias, com 64, só atrás de De Bruyne (78), Özil (70), Fàbregas e Payet (67). Mas claro, aqui estamos a falar de médio ofensivos. Considerando apenas os laterais, a diferença é abismal na Europa: os mais próximos de Alex são Kolarov (53) e Kimmich (42), que também podem jogar no meio-campo, ao contrário do lateral do FC Porto. 

É claro que o facto de Alex Telles bater as bolas paradas ajuda-o nesta estatística (tal como ajudou Layún a ser o maior assistente da Europa em 2015-16), mas a verdade é que o brasileiro também se encontra entre os 8 maiores assistentes das Ligas Europeias, com 9 passes para golo, a par de Messi e Pogba e a apenas dois passes decisivos de Neymar e De Bruyne (11 cada). 

Se aliarmos tudo isto à competência defensiva de Alex Telles e à incansável forma como percorre o corredor durante os 90 minutos, conclui-se que estamos perante um lateral de calibre europeu e que dá continuidade à linhagem de grandes laterais-esquerdos no FC Porto, muito bem secundado pelo sempre competente Ricardo Pereira no flanco oposto.


José Sá (+) - Desde que assumiu a titularidade no FC Porto, José Sá vem tendo uma vida relativamente tranquila nas balizas do Campeonato, praticamente exposto à média de apenas uma defesa por jornada. Claro que há outras variáveis a ter em conta, como as saídas a cruzamentos e a reposição da bola em jogo, mas José Sá tem sido sempre um guarda-redes com relativo pouco trabalho (tem um total de 16 defesas, 8 delas a remates de fora da grande área). Certo é que ontem fez duas excelentes defesas, que ajudaram o FC Porto a manter-se na frente em momentos importantes. Ter pouco trabalho, mas dizer «presente» no pouco que tiver: nunca se pedirá muito mais a um guarda-redes.

Sérgio Oliveira (+) - Pela primeira vez desde a vitória no Mónaco, o FC Porto venceu com Sérgio Oliveira no 11, e com o médio a fazer uma das suas melhores exibições com esta camisola. Dividiu as despesas do meio-campo com Herrera e foi o jogador mais influente na bola corrida, com 72 ações com bola e uma interessante média de 23 duelos disputados (14 ganhos), mais do que é hábito no meio-campo do FC Porto. Falhou alguns passes (78% de acerto), mas fez dois passes para finalização, acertou todos os dribles que tentou (4/4), teve 9 ações defensivas e conseguiu um golo, tornando a sua exibição no equilíbrio perfeito - bem na recuperação, mas também a fazer a diferença no ataque. Provavelmente ganhou a titularidade para o próximo jogo. 




Escolha facilitada (-) - Ainda no jogo passado se questionava como é possível Marega fazer sucessivamente os 90 minutos (e já lá iremos outra vez), mas admitindo que as alternativas para a asa direita - Hernâni e Corona - quase ajudavam a compreender e aceitar essa opção. E voltou a ser o caso com o extremo mexicano. Se há plantel em que Jesús Corona deveria conquistar a titularidade no FC Porto, era este. E não será muito audaz dizê-lo: se é não é titular consistentemente este ano, então provavelmente nunca o será. E assim torna-se bem mais difícil para Sérgio Conceição escolher. Ou então mais fácil, pois Corona não ganha o lugar num plantel em que os seus concorrentes faziam parte da lista de dispensas do FC Porto.

Corona parece ser atraído sempre pela hipótese mais complicada - Brahimi também nem sempre escolhe o melhor caminho, mas sabe proteger e colar a bola ao pé, enquanto Corona a perde com maior facilidade. O mexicano criou apenas uma jogada de algum perigo, conseguiu apenas um cruzamento e perdeu a maioria dos duelos que disputou (6/11). O facto de Ricardo estar sempre a subir também deveria ajudar Corona a criar desequilíbrios no corredor, mas voltou a não ser o caso. 

Alternativa, por favor? (-) - Há noites, exibições, em que os números falam por si próprio e nem aquelas variáveis que não são calculadas (o empenho, a garra, a vontade) servem de atenuante. Passando a enumerá-los:

- 0 remates enquadrados com a baliza;
- 0 dribles eficazes;
- 0 passes para finalização;
- 0 cruzamentos;
- 9 passes certos (o pior dos 22 titulares);
- 7 duelos perdidos;
- 1 ocasião flagrante falhada;
- 4 maus controlos de bola;
- 5 faltas cometidas, 2 sofridas;
- 1 corte sobre a linha de baliza;
- 90 minutos em campo. 

Agora a sério. Dá para experimentar dar soluções à equipa sem Marega no ataque? Mister? Corona? Hernâni? Alguém, por favor?

Segue-se a Taça de Portugal e uma difícil receção ao Sporting, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal. E como já se percebeu, basta um jogo para mudar ou inverter a disposição dos dois clubes. No entanto, após 270 minutos de clássicos sem sair do 0x0, e agora recuperada a liderança isolada da I Liga, é a oportunidade para uma afirmação de força e personalidade.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Defeito e feitio com vista para os oitavos

Sérgio Conceição resumiu tudo, sem falsas modéstias ou arrogância: «Nem o mais otimista» esperaria que o FC Porto chegasse à última jornada da fase de grupos a depender de si próprio para seguir para os 1/8 da Champions, enquanto lidera a I Liga de forma imaculada e responde com soluções a cada problema provocado por não terem dado um único reforço ao treinador. Mérito inabalável de Sérgio Conceição e do grupo por si liderado, sobretudo quando temos em conta o quão difícil tem sido para o FC Porto jogar esta Champions. 


Se era impensável que o FC Porto chegasse a esta fase com notórias hipóteses de se qualificar, também é difícil imaginar que o FC Porto tenha tanta dificuldade em tratar a bola na Champions, sendo a 2ª equipa que mais passes falha, só atrás do APOEL, e praticamente só as bolas paradas permitem à equipa estar no 2º lugar (7 dos 10 golos nesta fase de grupos foram obtidos desta forma, e os restantes divididos entre um lance de contra-ataque, uma bola em profundidade e uma jogada com vários ressaltos). 

O FC Porto de Conceição não nega as suas limitações, convive com elas, e está a apenas uma vitória de cumprir um difícil objetivo de época. O que é muito diferente de já se poder cantar vitória, pois a receção ao Zenit de 2011-12 deve ser sempre mantida como exemplo.




A equipa a defender (+) - Este FC Porto convive mal com a bola, mas isso não retira à equipa o mérito de saber controlar o espaço e a profundidade. O Besiktas teve momentos de grande superioridade, mas o FC Porto limitou o adversário a três únicas entradas perigosas na grande área, duas por Quaresma e uma por Pepe, - além, claro, do golo, um lance que deixou Felipe mal na fotografia (a única falha numa exibição de sentido prático quase irrepreensível) e no qual Sérgio Oliveira (o melhor do meio-campo) pareceu ter parado para coçar as jóias da família em vez de fazer o acompanhamento a Tosun quando este correu para o flanco. Não tivesse ocorrido esta falha e o FC Porto teria feito um jogo perfeito defensivamente, ainda que também José Sá, na sua melhor exibição desde que chegou ao clube, tenha feito 3 defesas de elevado grau de dificuldade.

Brahimi (+) - À imagem da equipa, teve dificuldades em criar perigo objetivo para a baliza adversária (além do golo, só ficaram na retina um remate de Aboubakar e a tentativa de trivela de Ricardo), mas sempre que recebia a bola parecia que o jogo parava. Brahimi arrastava a bola, descobria zonas novas, permitia à equipa subir, partia as linhas do Besiktas que iam aparecendo e foi sempre o único escape de criatividade da equipa. Foi o elemento com maior facilidade em manter e passar a bola, mesmo jogando em zonas mais recuadas e sempre com 2 jogadores do Besiktas em cima dele.




Demasiada alergia à bola (-) - Pode ser mais feitio do que defeito, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O FC Porto divide-se demasiado entre a pressa de querer atacar rapidamente e jogadas perdulárias por querer acelerar demasiado o jogo. Sérgio Conceição pode querer isso, e a forma como monta a equipa, por exemplo jogando com Herrera em vez de Óliver, é um exemplo desse modelo, mas o FC Porto deita demasiadas vezes a perder a posse de bola gratuitamente. Estamos entre as equipas que menos controlam os jogos na Champions, ficando sempre à mercê da eficácia adversária e ficando demasiado limitados aos lances de bola parada. Apesar de o FC Porto gostar de acelerar o jogo, só fez dois golos de bola corrida dessa forma na Champions, o 0x2 no Mónaco e o 3x1 ao Leipzig. De resto, valem as bolas paradas, que são um trunfo, mas não podem significar 70% dos golos que o FC Porto marca.

Atacar as linhas (-) - Ok, o FC Porto é forte nas bolas paradas. E sai de Istambul sem um único pontapé de canto? Faltou forçar a ida à linha, obrigar o Besiktas a cortar para onde estivesse virado. O FC Porto foi forçado a 38 jogadas em que os defesas tiveram que, simplesmente, dar uma bicada ou cortar para a linha, enquanto o Besiktas esteve apenas exposto a 8 dessas situações. Alex Telles não teve a oportunidade de ir nenhuma vez à linha fazer um cruzamento, e o FC Porto conseguiu apenas cruzar 2 vezes com perigo, ambas por Ricardo. E não é por acaso que 2 das 3 jogadas de maior perigo do FC Porto nasceram por intermédio de cruzamentos de Ricardo. O Besiktas ganhou o meio-campo, mas poderia ter sido bem mais explorado pelos corredores. 

Verborreia (-) - «Às vezes não necessito de um treinador como Lopetegui. Quando tenho na equipa Hulk, Falcao e James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores, nem capacidade económica para os substituir, e o trabalho é diferente. (...) No primeiro ano esteve bem, mas no próximo [esta época] vai ser melhor. Não ganhou nada, mas estou satisfeito. Na Liga, um estudo demonstrou que o Benfica foi favorecido com sete pontos. E na Liga dos Campeões foi o Bayern de Munique que nos eliminou nos quartos de final». Pinto da Costa, julho de 2015

Ontem ficámos a descobrir que o FC Porto não foi campeão nos últimos anos não por causa do colinho, do polvo e de tudo aquilo que vem sendo denunciado e combatido no Porto Canal. Descobrimos que o FC Porto não foi campeão porque Pinto da Costa decidiu ir buscar Lopetegui em 2014, um treinador com o qual afinal não era para ganhar. Dirão alguns portistas que Pinto da Costa lembrou-se só agora de vir falar, nas vitórias. Nada mais errado, pois o FC Porto ainda não ganhou nada. E se ganhar não será por certo por enxurradas de disparates, falta de coerência e fugas à responsabilidade como estas. Deprimente. Sérgio Conceição disse recentemente que não queria o diretor de comunicação a falar em nome da equipa. O melhor mesmo é limitar essa faculdade ao treinador.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A contratação e os reforços

Já lá vai mês e meio desde a contratação de Sérgio Conceição, mais três semanas de trabalho de pré-temporada, com o ciclo habitual - muita motivação, sede vencer e uma pressa descomunal em querer ver algo de diferente em relação à última época (os treinadores anteriores também passaram por isso - e neste caso, pegou a imagem de um FC Porto mais rematador e incisivo na proximidade da grande área, algo impossível de concluir após dois jogos particulares numa digressão pelo México). Irrelevante, como em muito do que se possa passar durante uma pré-temporada - o ideal, nesta fase e por mais irónico que possa ser, é expor tantas fragilidades quanto possível, de modo a que não deixem dúvidas de que necessitam de ser colmatas (seja com mais tempo de trabalho, seja com recurso ao mercado). Só conta a partir do dia 9 de agosto. 

Porém, a amostra nos primeiros 45 minutos em Guimarães já revelou um FC Porto muito, muito próximo do que se poderá idealizar para a época 2017-18. Maior facilidade para jogar ao primeiro toque e procurar a tabela perto da grande área; maior movimentação e versatilidade no último terço; capacidade de colocar mais gente na frente sem que isso implique a perda de equilíbrio no momento do contra-ataque; e uma dinâmica forte e funcional na tentativa de assegurar, simultaneamente, a profundidade através da subida dos laterais e presença no jogo interior. 

Muito positivo, restando apenas acrescentar um detalhe que pode fazer a diferença ao longo da época: quando há uma presença forte no ataque, os golos podem acabar por surgir em lances isolados, e não necessariamente através do que se construiu. Foi o caso dos golos de Aboubakar e Soares, que não nascem das melhores jogadas que o FC Porto fez na partida, mas que revelam o oportunismo que vai ser necessário muitas vezes para somar pontos - forçar o erro do adversário ao invés de tentar seguir o plano de construção da própria equipa. Sem dúvida, uma exibição que aguça a vontade de todos em ver mais deste FC Porto, apesar da expulsão de André André ter tornado a segunda parte atípica. 

Enquanto isso, o mercado. Até ver, o FC Porto fez uma contratação e ainda não foi buscar reforços ao mercado, mas já os tem. Vamos por partes.

Vaná foi o único jogador comprado pelo FC Porto até ao momento, um nome que não garante nada além de mais uma alternativa a Iker Casillas para a época 2017-18. Foi contratado para ser suplente de Peçanha no Feirense, mas saltou para a titularidade à 8ª jornada e foi um nome determinante para que o Feirense se aguentasse na primeira liga. 

Fez portanto uma época interessante, como é habitual vermos muitos outros guarda-redes da Primeira Liga o fazerem - foi isso que fez com que guarda-redes como Fabiano ou Bracalli saltassem para o FC Porto. Se garante alguma coisa para o FC Porto na época 2017-18, não garante, pois Iker Casillas tem a titularidade assegurada, salvo alguma eventual lesão.

Contrato até 2021
Quem não se lembra do muito criticado Fabiano, que foi só e apenas o guarda-redes menos batido das Ligas europeias na época 2014-15, e ainda assim não faltou quem lhe passasse o atestado de insuficiência para as balizas do FC Porto? O que Vaná fez no Feirense Fabiano fez no Olhanense, por exemplo. Agora, ser o guarda-redes menos batido das Ligas europeias (algo que se torna sempre mais fácil de alcançar quando há uma grande defesa à frente), isso já não é algo que se testemunhe frequentemente. 

Vaná é portanto uma contratação, não um reforço. E foi precisamente esta a premissa do post Contratações ou Reforços, feito há ano e meio que centrava outro nome implicado nesta contratação de Vaná: José Sá.

Conforme perspetivado, José Sá tem passado a sua estadia no FC Porto a conviver mais com o banco do que com a hipótese de jogar. Neste caso, não interessa o nome ser José, Miguel ou Artur: enquanto Iker Casillas estiver no FC Porto, o lugar será dele. E embora José Sá nunca tenha evidenciado ser um guarda-redes particularmente acima da média na sua geração, só terá hipóteses de evoluir jogando regularmente na próxima época. No FC Porto não o conseguirá, logo, a entrada de Vaná convida à sua saída, apesar de Sérgio Conceição não ter aberto o jogo quanto a isso. 

A baliza, no entanto, estará no fundo da lista de preocupações. Se Casillas renova por mais um ano, é para assegurar a titularidade ao longo da temporada. Há sempre o risco de uma lesão, mas já o havia o ano passado. Dentro de um ano a sucessão será provavelmente um tema de grande preocupação, mas para já o FC Porto volta a ter um nome que, desportivamente, dá garantias. 

Temos então a primeira e única contratação até ao momento, mas não é o mesmo que dizer que não há reforços. Há, e apesar de Vaná ser a única compra, o plantel não está de todo mais fragilizado do que o da temporada passada, que é o que por norma acontece quando o FC Porto começa a vender jogadores.

Entre os jogadores que caberiam nos planos para 2017-18 sem margem para dúvidas, destacam-se obviamente as saídas de Rúben Neves e André Silva. Rúben Neves, cuja operação já foi aqui descrita à melhor maneira de um prós e contras (que os há, sem dúvida), é um dos maiores talentos à escala mundial, mas dificilmente emergiria como primeira escolha para 2017-18, essencialmente devido à permanência de Danilo Pereira. Ainda que não haja uma alternativa ao nível de Rúben Neves, não é por aqui que o FC Porto, para o curto prazo, ficou fragilizado.

Quanto a André Silva, a venda ao AC Milan, por 38 milhões de euros, só é má se tivermos em conta que Pinto da Costa garantiu aos sócios que tinha rejeitado uma proposta de 60 milhões por ele. Se não fosse isso, seria uma venda bastante boa, próxima dos valores pelos quais foram saindo grandes avançados do FC Porto, como Falcao ou Jackson. André Silva poderia, sem dúvida, evoluir e render mais após mais uma época no FC Porto, mas dificilmente um jogador do futebol português se valoriza além da fasquia dos 40/45 milhões de euros. 

Desportivamente, e apesar de ter sido uma boa venda, o FC Porto perdeu um jogador importante, muitas vezes mais pelo trabalho que desenvolvia do que pelos golos que marcava. Mas objetivamente, André Silva fez 11 golos de bola corrida em 2016-17 no Campeonato. Ora, são números que um Aboubakar de cabeça limpa ultrapassa com facilidade. E se é certo que André Silva dava outras coisas ao FC Porto, Aboubakar também tem caraterísticas únicas no futebol português. 

Dois reforços sem ir ao mercado
Todos se recordarão que Aboubakar disse que não queria voltar ao FC Porto. São declarações que ninguém gosta de ouvir, mas que têm um contexto. Inicialmente, era suposto o Besiktas ficar com Aboubakar - só não o fez por causa do Fair-Play Financeiro da UEFA. Assim, o que tinha sido prometido ao jogador era que seria comprado no final do empréstimo. Não foi isso que aconteceu.

Além disso, é bom recordar que Aboubakar foi afastado do plantel do FC Porto por causa de um tal de Laurent Depoitre. Aboubakar ficou fora da lista da Champions de um dia para o outro, para que pudesse ser inscrito Depoitre. Então imaginem o ridículo quando se conclui que, na verdade, Depoitre nem sequer poderia ser inscrito para o play-off com a Roma. 

Aboubakar tem tudo para ser um reforço em toda a linha, mas há uma situação contratual para resolver o quanto antes. Nenhum jogador sub-30 do plantel principal deve iniciar uma época em final de contrato, sob pena de o ver assinar em janeiro por outro clube. Aboubakar é um jogador com mercado e potencial, tornando-se ainda mais apetecível por não haver CAN em 2018 a atrapalhar. Pelo dinheiro que renderia numa eventual transferência, o FC Porto não só dificilmente recuperaria o que já investiu em Aboubakar como não teria garantia nenhuma de ir buscar um avançado melhor ao mesmo preço.

Outro reforço, a todos os níveis, é também Ricardo Pereira, que torna Maxi Pereira num pequeno grande problema. No plantel, Maxi é um dos poucos jogadores que sabe o que é ser campeão, ainda que o tenha sido pelo rival. O seu espírito competitivo deixa-o em condições de fazer mais uma época, sem dificuldades, mas há que lembrar o quão raro e difícil é vermos um lateral de 33 anos no FC Porto. 

A um ano do final de contrato, que presente para Maxi Pereira? Ricardo dá todas as garantias para jogar a lateral-direito (tem a margem de progressão e a disponiblidade física para recuperar no corredor que Maxi já não tem), embora Sérgio Conceição já tenha deixado claro que tem também algumas expetativas sobre Ricardo numa zona mais adiantada. Seja qual o for o problema, ainda assim, Ricardo será parte da solução. 

Rafa vai ter mais dificuldades em jogar em 2017-18, tendo em conta que há várias opções para as laterais, mas é interessante traçar o paralelismo com os investimentos de 2011-12, quando o FC Porto investiu mais de 25 milhões de euros em Danilo e Alex Sandro; neste caso, já há dois laterais de presente e futuro que não implicaram nenhuma loucura.

Ainda na defesa, há Diego Reyes e Martins Indi, mas provavelmente só um ficará no FC Porto. Jogaram com regularidade na última época, mas aproximam-se do final de contrato, implicaram investimentos caros (no caso de Reyes, há ainda o problema de o seu passe ter sido partilhado, desde o início, com uma offshore de Pini Zahavi) e por isso quem ficar tem que renovar. Em cada um deles há um problema no seu perfil enquanto central: Diego Reyes, sendo ectomorfo, continua a ter dificuldades na dimensão física, mas continua a ter um punhado de caraterísticas que podem fazer dele um belíssimo central; no caso de Martins Indi, tem um grande problema no jogo aéreo, a única coisa a limitá-lo enquanto central. Cabe a Sérgio Conceição e às oportunidades de mercado decidir quem fica. 

Entre os recuperados para o plantel principal, destaque ainda para três nomes: Sérgio Oliveira, Mikel Agu e Hernâni. Sérgio Oliveira foi treinado por Sérgio Conceição no Nantes, mas não foi uma única vez titular com ele, tendo jogado apenas 109 minutos na Liga francesa, apesar de só não ter sido convocado para 3 jornadas. Se Sérgio Conceição não viu grande espaço para Sérgio Oliveira no Nantes, dificilmente acontecerá no FC Porto, tornando-o um forte candidato a ser vítima da sobrelotação do meio-campo. 

Mikel anda a trabalhar perto do plantel principal do FC Porto desde os tempos de Jesualdo Ferreira e é um dos jogadores oriundos da formação que mais oportunidades - e contratos - tem tido (melhor só mesmo Abdoulaye, emprestado pela 8ª vez - mais 7 ou 8 empréstimos e fica no ponto para ser opção no FC Porto). Após uma má experiência na Bélgica, jogou com regularidade em Setúbal, a médio defensivo, ele que curiosamente fez os seus melhores jogos pelo FC Porto B quando jogou a central. Veremos se ficará no plantel, embora pouco leve a crer que possa ser mais do que a sombra de Danilo e que encontre algum espaço nas Taças. A seu favor, o facto de poder ser inscrito na lista A da UEFA como jogador da formação. 

Sobra Hernâni, que nunca revelou créditos para ser opção no FC Porto, para além do trunfo que é a sua velocidade. Fez uma boa época em Guimarães, mas não é jogador para ultrapassar o campo da rotatividade e da utilidade em alguns jogos no FC Porto; sem ter estofo para ser opção regular no 11 inicial, cabe ao FC Porto estudar uma solução de mercado que garanta dois jogadores - um extremo com qualidade para entrar no 11 e «puxar» o melhor de Corona, Brahimi ou até Otávio e mais um ponta-de-lança, sobretudo se o 4x4x2 for para manter. Dois jogadores que hão-de chegar, de preferência dentro das próximas duas jornadas, pois a sua necessidade é clara. Tanto quanto o facto de nem valer a pena andarmos a tentar enganar alguém com Marega.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Balanço do mercado e a força que resta

Fechou o mercado de inverno, e com ele chega a questão à qual importa sempre responder nesta altura: o FC Porto termina o mês mais ou menos forte? Na época passada, o FC Porto chegou ao final de janeiro claramente mais fraco, algo que acabou por se confirmar no fecho da temporada. Desta vez, o FC Porto chega ao início de fevereiro com menos variedade de soluções no plantel, com apenas mais uma opção no ataque... mas não necessariamente mais fraco.

Soares foi a única contratação, mas Nuno Espírito Santo teve outro reforço de luxo do qual ninguém tem falado: não perdeu nenhum titular. Todos os jogadores que saíram (Sérgio Oliveira, Evandro, Adrián e Varela) não estavam a ser nem primeiras nem segundas opções no FC Porto. Poupa-se na folha salarial e, desta forma, outros jogadores que não têm jogado muito mas que estavam no plantel, casos de Rúben Neves ou João Carlos Teixeira, teoricamente podem ter mais chances de serem opção. 

Entre os que saíram, Evandro era aquele que mais útil poderia ter sido ao FC Porto. Um médio completo, capaz de corresponder a qualquer momento do jogo e que seria útil em qualquer fase da temporada. No Hull, já jogou mais em duas semanas do que em meia época no FC Porto. 

NES nunca olhou para ele como opção, por isso a sua saída não acaba por surpreender, ainda que saia como um jogador que o FC Porto não aproveitou da melhor forma. Com o mesmo número de oportunidades, faria igual ou melhor do que outros concorrentes na sua posição. 

A saída de Sérgio Oliveira só merece subscrição. Passou meio ano só a treinar, pois entre o fecho do mercado de verão e o de inverno não jogou um único minuto. O Tribunal do Dragão comentou, na época passada, que Sérgio Oliveira tinha que aproveitar ao máximo os tempos com José Peseiro, pois provavelmente não voltaria a ter um treinador no FC Porto a dar-lhe tanto tempo de jogo. Assim foi. NES até o utilizou no início da época em 2 jogos, mas rapidamente se percebeu que nunca seria opção válida. A mentalidade competitiva também ajuda a evoluir, coisa que Sérgio Oliveira não revelou nos últimos meses. Vai jogar no Nantes, uma boa colocação por parte do FC Porto. No final da época há que rever a sua situação, mas dificilmente algum dia será opção inicial no clube. 

Chegou também o fim da era de Silvestre Varela no FC Porto. Oficialmente, pois já tinha acabado muito antes. Curiosamente, um dos primeiros posts d'O Tribunal do Dragão defendia que Varela devia ter saído em junho de 2014, terminando um ciclo no clube no momento apropriado. Já sai tarde, já bastante longe dos seus melhores tempos no FC Porto.

Varela é o melhor marcador português do Estádio do Dragão. Foi tricampeão, ganhou a Liga Europa, Taças e Supertaças. Abriu os 5x0 contra o Benfica, matou o Sporting na Taça, marcou no Jamor, resolveu no dilúvio de Coimbra e foi essencial para qualquer treinador que tenha passado no FC Porto desde 2009, exceção agora a Nuno Espírito Santo. Para quem não se recorda, foi um jogador contratado a custo zero, depois de uma época no Estrela da Amadora e dispensado pelo Sporting.  Fez 236 jogos, marcou 50 golos, fez 38 assistências, ganhou 11 títulos. Foi uma excelente contratação do FC Porto, que só pecou pelo momento tardio da saída. Maiores felicidades para o último jogador campeão pelo FC Porto a deixar o plantel. Faz parte da história do FC Porto e será recordado como tal. 

Sobra Adrián López, novamente de regresso ao Villarreal. NES tentou uma espécie de reabilitação logo em agosto (de certeza que Jorge Mendes agradeceu, pois revelou-se incapaz de encontrar uma solução para Adrián, e parece cada vez mais limitado aos milhões da treta no raide Rio Ave-Benfica-Atlético-Valência-Mónaco-Wolves), quando não tinha muito mais por onde escolher e não havia reforços à vista, mas infelizmente não correu bem. Há uma barreira, sobretudo psicológica, que impede Adrián de vingar no FC Porto. Não resta muito mais do que desejar o mesmo que na época passada: que se valorize em Espanha e seja possível o FC Porto fazer um encaixe com uma transferência, embora sejam poucas as vezes em que o FC Porto consegue de facto fazer bom dinheiro com excedentários.

Quanto a entradas, temos então Soares. Não será de estranhar se NES o utilizar já contra o Sporting, para tentar ganhar o jogador. Se Soares tiver a felicidade de contribuir ativamente para uma vitória no clássico, ganha desde logo um crédito enorme sobre a sua contratação. A sua contratação sugere que NES vai continuar no esquema de 2 avançados até ao final da época, restando saber qual a composição do meio-campo. Se o FC Porto não contratou nenhum médio e dispensou 2, não faz sentido ser agora que passe a jogar com 4, como contra o Estoril. Com Brahimi e Otávio de regresso, NES já tem todas as condições para formar um 11 muito forte, ainda que o plantel não tenha a profundidade e alternativas idealizadas. Mas sem lesões e castigos até ao final da época, e sem um calendário particularmente sobrecarregado, o FC Porto tem pelo menos uma base de 13 ou 14 jogadores que tem que jogar para ganhar em qualquer estádio em Portugal. 

Há que assinalar também a reintegração de Kelvin, mas não será surpresa nenhuma se NES nunca o considerar como opção. O minuto 92 aconteceu há quase 4 anos. Kelvin não evoluiu nada desde então e para as alas parte como última opção. E se por acaso faltarem extremos, o mais provável é NES fazer o mesmo que fez contra o Estoril: preferir abdicar de extremos e reforçar o meio-campo. Dificilmente será opção para o que resta da época, nem com NES nem com qualquer outro treinador no FC Porto. 

O FC Porto chega ao início de fevereiro com menos soluções, mas não com um plantel mais fraco. Não saiu nenhum titular, e ao contrário do que aconteceu no início da época, em que nem era claro se NES podia utilizar Brahimi, desta vez já não há a ameaça de uma saída antes do fim da época. E com isto conclui-se: neste momento, o FC Porto está com melhores condições para lutar pelo título. 


O FC Porto chega ao início de fevereiro novamente com uma das melhores defesas da Europa. Marcano e Felipe tornaram-se, com todo o mérito, uma dupla de centrais que dá todas as garantias. André Silva já deixou para trás todas as suspeitas (se é que elas ainda existiam) sobre se seria capaz de se assumir como o goleador da equipa. Brahimi está totalmente reabilitado. Danilo é neste momento um dos melhores trincos da Europa. Ou seja, em todos os setores temos elementos fulcrais que estão num excelente momento de forma. Mas não é tempo para continuar num limbo tático, com um sistema híbrido que acaba por não funcionar em parte alguma. NES não pode inventar no que resta da época. Já sabe que não vai perder ninguém, já sabe que tem jogadores dos quais não pode prescindir. Já não restam mais desculpas para errar, inventar ou ter mentalidade pequenina - livrem-se de, no caso de fazerem o 1x0 frente ao Sporting, fazerem o mesmo que fizeram contra o Benfica. 

O mais difícil foi conseguido: o FC Porto volta a depender de si próprio. Começámos janeiro a 4 pontos do Benfica. Neste momento, estamos a um. Mais: aos 78 minutos do Estoril x FC Porto, muitos já temiam ficar a 6 pontos do Benfica. As coisas mudam muito rapidamente. Tal como podem mudar nas próximas duas jornadas: os jogos contra Sporting e Guimarães vão ser extremamente difíceis.

Neste momento, não temos que olhar para o Benfica: só temos que pensar em chegar ao fim da 21ª jornada com 50 pontos. O rival vive um período de enorme instabilidade. Repare-se que o Benfica não conseguiu ganhar um único jogo em que tenha sofrido o primeiro golo da partida. Nem um. Quando sofre primeiro, o Benfica é incapaz de dar a volta ao jogo. É uma equipa que se enerva com muita facilidade. 

Além disso, o Benfica não conseguiu resistir ao mês de janeiro sem vender um titular. E pior do que isso: Luís Filipe Vieira teve que andar pela China e por Inglaterra a fazer leilão, a ver se pegavam em algum. Ao contrário de NES, Rui Vitória perdeu um jogador importantíssimo. E qualquer balneário fica desestabilizado ao perceber que vai haver alguém a ter que sair, quer queira quer não, porque o clube precisa de vender. Não é por acaso que o Benfica piorou precisamente no momento crucial do mercado de transferências. E agora já sente o bafo do FC Porto na nuca, e sabem que ao mínimo deslize podem perder a liderança.

Do lado do FC Porto, o momento é de concentração e responsabilidade. Basta perder com o Sporting e tudo entra novamente num estado depressivo. Para o Sporting, esta vai ser a sua derradeira palavra na luta pelo título: se perdem, adeus. É uma oportunidade tão grande para o FC Porto como para o Sporting. E só um pode estar satisfeito no final. 

A grande força do FC Porto 2016-17 está no balneário, no grupo de jogadores. É o espírito de união e crer que se formou no grupo de trabalho que nos permite estar, neste momento, numa posição que deixa o FC Porto com condições na luta pelo título, algo que é assinalável depois de toda a preparação e gestão da pré-época. São os jogadores, mais do que nunca, que fazem os adeptos acreditar. Faltam 15 finais até ao final da época, e este grupo de jogadores merece o apoio dos adeptos até ao final. Sábado será um bom dia para mostrar isso mesmo. Alguém vai sair do Dragão de rastos. Que seja quem já lá ajoelhou.