Mostrar mensagens com a etiqueta Soares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Soares. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (2)

Contrato até 2021
Vincent Aboubakar - No início da época, perspetivava-se que Aboubakar, sendo titular, conseguiria sem problemas superar as contribuições em golos de André Silva na última época. E assim foi, com o camaronês a conseguir 26 golos e 7 assistências. Mas o mais notório é que Aboubakar praticamente fez isso em meia época, o que diz muito do elevado rendimento que teve até janeiro e da grande quebra que sofreu desde então. 

Entre problemas físicos e quebra de rendimento, Aboubakar fez apenas um golo e uma assistência nos últimos quatro meses da época. Até então, os seus golos foram sendo sempre sinónimo de vitórias - o FC Porto venceu 18 dos 19 jogos em que Aboubakar marcou. O camaronês, além dos golos que marcou, criou tantas ocasiões de golo flagrantes como Soares e Marega juntos (13), mas dos três foi aquele que teve menor eficácia em duelos ganhos (41%) e dribles eficazes (53%). Embora grande parte dos golos de Aboubakar pareçam quase sempre obtidos em esforço (há quase sempre um ressalto ou um desvio ao barulho), terminou a época como melhor marcador da equipa, mas a sua época teve claramente um «antes» e «depois». O mesmo é dizer que o Aboubakar da primeira parte da época tem tudo para se manter como referência goleadora da equipa, mas o Aboubakar pós-janeiro não pode carregar as dependências ofensivas da equipa. 

É de recordar que a SAD comprou a totalidade do passe de Aboubakar no decorrer da época, elevando o seu custo total a 11,5 milhões de euros, além da operação de renovação de contrato ter custado 5,1 milhões de euros (verba que inclui prémio de assinatura e comissões, tendo sido uma das renovações contratuais mais caras da história da SAD). É um ativo que tem que continuar a ser rentabilizado, até porque não aparenta haver compradores (pelo menos que agradem a todas as partes) que cubram o investimento em Aboubakar, mas o avançado tem que ser mais do que um jogador de meia época, embora ter tido interferência direta em 33 golos sejam números que muitos avançados não conseguem numa temporada inteira. 

Contrato até 2019
Gonçalo Paciência - Repescado no mercado de inverno, na altura quando a saída de Soares estava a ser negociada, o avançado português acabou por ser remetido a um papel secundário no FC Porto, até porque o brasileiro acabou por ficar no plantel. Foi apenas duas vezes titular, uma contra o Sporting (o único jogo em que conseguiu ter interferência decisiva, no passe para Brahimi), e de resto foi suplente utilizado de forma residual. A segunda metade da época acabou por quebrar o rendimento que estava a ter em Setúbal e, neste momento, parte no último lugar da hierarquia de opções para o ataque e dificilmente o FC Porto terá interesse em ir ao mercado pescar um jogador para ser suplente de Gonçalo Paciência. Ainda assim, face às caraterísticas e talento reconhecido por todos os que já trabalharam com o avançado, a um ano do final de contrato justificar-se-ia a renovação, pois o avançado, mesmo não ficando no plantel, pode perfeitamente ser titular na grande maioria das equipas da I Liga. Tudo dependerá do aval do Sérgio Conceição, sendo certo que ou joga com regularidade em 2018-19, ou arriscar-se-á a carregar o rótulo de eterna promessa. 

Contrato até 2020
Moussa Marega - O inesperado melhor marcador da equipa no Campeonato. Semana após semana, Marega conseguia combinar os mais sofríveis números no contacto com bola com a garantia de que ia fazendo um golo por jornada. Sérgio Conceição encontrou uma forma de encaixar a dimensão física de Marega na equipa e fazer com que o maliano, embora poucas vezes conseguisse acertar uma diagonal ou um cruzamento, tivesse sempre presença no ataque, ajudasse a esticar o jogo e a pressionar a linha defensiva adversária. Não é assim tão comum conseguir 22 golos no Campeonato - o último a fazê-lo foi Jackson, em 2013 -, por isso Marega distingue-se pela média de golos que conseguiu na Liga, uma surpresa que talvez não encontra paralelo desde os tempos de Pena. 

E agora? Agora seria a oportunidade perfeita para conseguir uma grande venda com Marega. Um jogador pelo qual ninguém dava dois tostões (daí que a SAD tenha dado 30% do passe de Marega ao Vitória de Guimarães aquando da contratação de Soares), que só não foi dispensado no início da época porque não sobravam mais opções e que foi reabalitado. O próprio jogador, mesmo sendo aclamado pela massa adepta, não se inibiu de afirmar que gostaria de ir para Inglaterra, mesmo sem saber se haveria propostas: Marega sabe que esta época foi única. Tem 27 anos, dois anos de contrato para cumprir e há que ter em conta o desempenho nos jogos grandes.

Entre Champions, clássicos e até os jogos com o SC Braga, foram 15 partidas em que Marega não só ficou em branco como foi sendo invariavelmente a unidade de menor rendimento na equipa - exceção à exibição no Mónaco, onde fez duas assistências. É certo que a I Liga não tem apenas quatro equipas, por isso Marega pode continuar a ter golo contra a maioria dos adversários, mas é altamente improvável ultrapassar este pico de valorização. O jornal O Jogo já deu conta de uma alegada recusa de 25 milhões de euros por Marega e, sendo verdade, seria apenas e só uma das três melhores (não confundir com maiores) vendas da história do FC Porto. A média de golos é um mérito intocável, mas Marega desperdiçou tantas ocasiões de golo flagrante como Soares e Aboubakar juntos (21 - 9 delas em clássicos), embora dos três o maliano tenha sido o jogador que melhor eficácia de dribles (65%) e duelos ganhos (48%) teve, tendo sido também o mais rematador (96 disparos na Liga, contra 77 de Aboubakar e 53 de Soares). Ainda assim, e apesar da evolução desde o início da época, foi o pior passador do plantel (67%) e o jogador com maior percentagem de perdas de posse nas provas da UEFA. Continuar a apostar num esquema de jogo tão dependente da dimensão física de Marega é uma fórmula que pode não surtir o mesmo sucesso na próxima época. Por isso, sim, se houver propostas, poderá ser a altura ideal para Marega sair... Restando saber se Sérgio Conceição planeia, ou não, continuar a apostar num esquema que privilegie - ou que faça mesmo depender - a presença de Marega.

Contrato até 2021
Tiquinho Soares - Se Aboubakar só durou até janeiro, Soares só durou em fevereiro. Esteve à beira de sair no mercado de inverno, mas o negócio falhou e Soares acabou por permanecer no plantel, tendo de imediato sido puxado para a titularidade por Sérgio Conceição, que recuperou bem o avançado. Soares entrou a matar, com 10 golos em fevereiro, mas desde então não mais voltou a marcar, vítima de uma lesão que lhe tirou um mês de competição numa altura em que estava em excelente forma. O brasileiro já tinha tido o azar de perder a titularidade logo no arranque da época, fruto de nova lesão, e a sua produtividade ofensiva acabou por se revelar curta nas últimas semanas da temporada. Dificilmente terá mercado para sair e tudo aponta para a sua continuidade no FC Porto, com o desafio de ter que melhorar a sua média de golos na Liga (um a cada duas jornadas).

segunda-feira, 5 de março de 2018

Os Pentas: Fevereiro de 2018

Foi com um registo imaculado a nível interno que o FC Porto fechou o mês de fevereiro. As vitórias contra SC Braga, Chaves, Rio Ave, Estoril e Portimonense mantiveram a equipa destacada na liderança da I Liga, invicta com os estatutos de melhor ataque e melhor defesa intactos, mesmo perante um ciclo de semanas adverso para Sérgio Conceição, jornada após jornada privado de vários titulares por lesão. Na Taça de Portugal, o FC Porto ganhou vantagem na luta por um lugar no Jamor, ao vencer o Sporting por 1-0, no mesmo mês em que sofreu a maior derrota da história do clube a jogar em casa. Outra realidade, pois nas provas internas tudo decorre com predicados de qualidade. Estes foram os melhores de fevereiro:

5. Maxi Pereira

Com o uruguaio em campo, o FC Porto ainda não perdeu nenhum jogo esta época e leva 10 vitórias consecutivas, para as quais o lateral tem contribuído com segurança defensiva e preponderância ofensiva. Perante a lesão de Ricardo Pereira, o uruguaio, embora já com menos pernas e pulmões para aguentar todo o corredor, não ficou a dever nada ao rendimento do português - Maxi fez três assistências na Liga no último mês, tantas quanto Ricardo Pereira desde o início da época. A sua experiência tem tido uma importância inquestionável nas últimas semanas.

4. Moussa Marega

Um mês de opostos para o maliano, que começou fevereiro com um desempenho desastroso frente ao SC Braga e acabou a fazer o seu melhor jogo da época em Portimão. Marega continua a alternar o sofrível com a utilidade, nomeadamente na respeitável média de golos que continua a manter a nível interno - cinco golos e duas assistências no último mês. Pode não ter dimensão para os grandes palcos (0 golos em 11 jogos entre Champions e clássicos), mas mantém a média de intervenção direta num golo por jornada e já é o melhor marcador do FC Porto num Campeonato desde Jackson Martínez. 

3. Sérgio Oliveira

O melhor mês da sua carreira futebolística. A sua titularidade começou por ser circunstancial, mas ganhou o lugar com exibições equilibradas, seguro no meio-campo e a conseguir desequilibrar no ataque - três golos e duas assistências em fevereiro. Ganhou dimensão física e o problema da falta de intensidade já não se coloca. É verdade que falha mais passes do que Herrera, mas acrescentou à equipa capacidade de cruzar em zonas mais interiores. E mesmo nos momentos em que surge mais escondido do jogo, tem sido essencial para o equilíbrio do meio-campo. Afinal, não é fácil encontrar uma fórmula para substituir Danilo.

2. Alex Telles

Autor de cinco assistências e um golo em fevereiro, Alex Telles já teve intervenção em nada mais, nada menos do que em 20 dos golos marcados pelo FC Porto nesta temporada. A lesão chegou numa altura em que o lateral brasileiro vinha sendo, provavelmente, o mais consistente jogador do 11 portista. Cumpre defensivamente, desequilibra no ataque e é essencial para que Brahimi possa jogar em zonas mais interiores, pois sabe que terá sempre o Expresso Telles a dar profundidade. Lesionou-se numa altura em que, nas Ligas europeias, só De Bruyne e Messi criavam mais situações de finalização. 

1. Tiquinho Soares

A estreia n'Os Pentas e logo no topo das escolhas, fruto da autoria de oito golos e duas assistências, igualando o melhor mês de Aboubakar. Esteve perto de sair em janeiro, mas ficou no plantel para ser alvo de uma profunda reabilitação nos planos do treinador. Oportuno, foram várias as vezes em que estava no sítio certo na grande área para finalizar, com presença e eficácia no jogo aéreo. Teve combinações interessantes com Marega nas últimas semanas e melhorou na capacidade de fazer diagonais e pressionar a linha defensiva. Uma lesão impediu-o de iniciar março da mesma forma que terminou fevereiro, mas Soares mostrou que uma saída abortada pode, muitas vezes, revelar-se um reforço. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A Clockwork Orange

Sérgio Conceição e os seus drugues continuam a semear o pânico nas balizas adversárias e superaram a marca dos 100 golos em jogos oficiais, tornando-se a quinta equipa da Europa a consegui-lo (depois de PSG, Man. City, Real Madrid e - quem diria? - Liverpool). Mas a nível interno, este registo só pode ter particular agrado acrescido para o treinador, que se tornou o timoneiro com a melhor média de golos no FC Porto ao fim de 40 jogos dos últimos 40 anos


Os 64 pontos em 24 jornadas (melhor só os 68 do FC Porto de Villas-Boas) mantêm o FC Porto numa boa posição para a reta final da temporada, mas vem aí o jogo mais importante da época: a receção ao Sporting. É um jogo de importância vital, pois em caso de vitória o FC Porto arruma um candidato da luta pelo título; por outro lado, um empate pode permitir ao Benfica passar a depender dele próprio na luta pelo Campeonato. As contas fazem-se jornada a jornada, mas não dá para secundar a importância de vencer na sexta-feira. 

O Portimonense não era, nem de perto nem de longe, um dos jogos mais complicados até ao final da época, mas a pressão e o cansaço são cada vez maiores e o calendário mais curto. A equipa respondeu com eficácia e controlo, mesmo perante a ausência de 5 dos 11 jogadores mais utilizados por Sérgio Conceição. Nunca deixamos de realçar que o plantel do FC Porto é curto, mas a uma equipa que goleia quando falta meia equipa titular... que mais se pode pedir?




Marega e o volume ofensivo (+) - Os melhores 45 minutos ao serviço do FC Porto. Marega começou com uma boa finalização, de primeira, a passe de Soares, e pouco depois acertou finalmente um cruzamento na I Liga, ao servir Otávio para o 2x0. A fechar a primeira parte, voltou a finalizar de primeira, novamente bem posicionado, após cruzamento de Maxi Pereira.

No entanto, houve algo a diferenciar a primeira parte de Marega dos demais jogos ao serviço do FC Porto: foi muito mais eficaz nas suas ações com bola. Só falhou um passe no primeiro tempo, acertou os 2 dribles que tentou, marcou nas 2 únicas vezes em que rematou e foi apenas desarmado uma vez pelos adversários, além de ter ganho 7 dos 10 duelos que disputou. Na segunda parte esteve bem menos ativo, mas foi a primeira vez ao serviço do FC Porto em que teve saldo positivo em todas as suas intervenções na partida.


E em semana de FC Porto x Sporting, podemos aproveitar para aprofundar um tema: Marega tem 20 golos, tantos quanto Bas Dost. Mas há um detalhe a fazer a diferença: o holandês já marcou 4 golos de penalty na Liga, enquanto o maliano não marcou nenhum desta forma (ainda que a Liga tenha oferecido um golo a Marega, ao considerar o auto-golo de Marcelo na jornada passada como sendo da autoria do avançado do FC Porto - e se é este o registo oficial, então há que segui-lo). Marega está, por isso, a marcar mais do que Bas Dost.

Como se explica isto? O holandês do Sporting é, sem dúvida, mais eficaz: tem 20 golos em 45 remates, enquanto Marega já rematou 78 vezes. A diferença? O FC Porto cria muitas mais ocasiões de golo e coloca muitas mais vezes a bola nos seus avançados do que o rival de sexta-feira. Bas Dost, no Sporting, é obrigado a ser mais eficaz, pois não recebe tantas vezes a bola. Já no FC Porto, seja com Aboubakar, Soares ou Marega, o volume ofensivo da equipa permite a criação de tantas ocasiões de golo que, eventualmente, elas acabam por entrar. Isto só valoriza o trabalho ofensivo realizado por Sérgio Conceição, um treinador que sempre dizia preferir o 1x0 ao 5x4. A verdade é que o FC Porto de Conceição é um dos mais concretizadores da história do clube. 

Já agora, um pouco de trivia no mesmo âmbito: o Estoril, o mesmo Estoril que muitos deram como desaparecido na quarta-feira, tem mais passes para finalização na I Liga do que o Sporting (246 dos canarinhos contra 224 dos leões). E o mesmo Portimonense que foi agora goleado pelo FC Porto também tem números mais favoráveis do que o Sporting, com um total de 231 ocasiões criadas. Logo, não é que os dois últimos adversários do FC Porto não tenham querido atacar: a equipa portista é que não deixou e impôs a sua superioridade.

Soares (+) - Vai fechar o mês de fevereiro com intervenção direta em 10 golos, igualando o mês de dezembro de Aboubakar. Assistiu Marega para o golo inaugural e respondeu com um belo golpe de cabeça a um cruzamento de Diogo Dalot. Teve algumas dificuldades nos duelos contra os defesas do Portimonense (foi desarmado 8 vezes), mas voltou a entender-se com Marega e a saber movimentar-se a toda a largura em cima da linha defensiva adversária. Não contava em janeiro, agora deixou todos apreensivos face a uma eventual lesão que o pode afastar do clássico.

Laterais (+) - Nervoso nos primeiros minutos, Diogo Dalot foi ganhando confiança e metros pelo corredor e brilhou na segunda parte, primeiro com um grande cruzamento para Soares, depois com alguma sorte a servir Brahimi. Bom, estamos habituados a que o lateral-esquerdo do FC Porto faça assistências - e cá estão mais duas. A questão é: vale a pena ficarmos entusiasmados com o futuro de Dalot? É que o seu contrato acaba em 2019, ainda não foi renovado, está a ser observado desde os sub-17 por grandes clubes mundiais e a questão de Rúben Neves não deixou nenhum adepto confiante face à forma como a SAD olha para a formação e para o futuro. Renovar, para ontem. Maxi Pereira também voltou a fazer um jogo certinho, com destaque para a assistência para Marega, e tem compensado com experiência aquilo que já lhe falta em frescura nas pernas. 

Fator Iker (+) - O guarda-redes espanhol esteve 422 minutos sem sofrer golos nas balizas do FC Porto, e a sequência só foi quebrada de bola parada, num lance muito consentido pela defesa. Tendo em conta que José Sá saiu da baliza do FC Porto com uma média de um golo sofrido a cada 92 minutos, isto, por si só, já revela a importância de ter o melhor e mais experiente guarda-redes no 11 titular. Casillas dá segurança, voz de comando e estabilidade à baliza e à defesa à sua frente. E por mais incrível que possa parecer, fez 5 defesas em Portimão - o guarda-redes da equipa da casa fez apenas uma, até porque o Portimonense rematou mais (13-8). 

Outros destaques (+) - Sérgio Oliveira e Herrera voltaram a controlar o meio-campo, desta vez com e sem bola. Não se aproximaram muito da grande área adversária, mas foram eficazes e seguros no controlo do miolo - o mexicano particularmente bem no passe e na circulação (95% de acerto), o português melhor nas ações defensivas (10 intervenções). Otávio foi aparecendo a espaços, mas lançou a jogada do 1x0 e marcou ele próprio um golo, tendo sempre procurado a bola ora à direita, ora mais em zonas interiores. 

Faltam 10 jornadas, 10 finais. Melhor ataque, melhor defesa, melhor futebol. Venha o Sporting.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Foi mesmo mais do que 45 minutos

«Até metia dó ver o Estoril em campo. Não conseguia dar dois toques na bola. (...) quando se prepara 45 minutos e não se consegue dar três toques na bola, não se ganha uma bola, não se ganha uma segunda bola (...)». Foram declarações muito, muito fortes as expressadas por Ivo Vieira no final da partida. Não é hábito vermos um treinador rasgar assim a sua equipa, a quente, no final das partidas. Mas houve um rasgão ainda maior: dentro de campo. 

O FC Porto devorou completamente o Estoril em campo. O Estoril não conseguiu fazer nada porque o FC Porto não deixou, com uma exibição que quase apetece a dispensa de circulação, espaço entre-linhas, profundidade e os conceitos habituais. Foi, simplesmente, um massacre.

Fortíssimos na reação à perda da bola, rápidos a definir e a atacar, sistematicamente a levar a bola à grande área e a criar ocasiões de golo. Lances ganhos pelo ar, pelo chão, no corpo a corpo, fosse como fosse. O FC Porto sufocou por completo o Estoril e personificou, na perfeição, a vontade em chegar ao título de campeões nacionais.

Eram precisos dois ou três golos e o FC Porto fê-los com facilidade. E nem havia assim tantas razões para duvidar que isso seria possível. Afinal, estamos a falar do segundo melhor ataque do FC Porto dos últimos 32 anos à 23ª jornada - melhor só o FC Porto de Robson, em 1996, que levava 62 golos, mais um do que os marcados até ao momento nesta época. Foram três, podiam ter sido muitos mais. Em 45 minutos, nos quais o FC Porto aplicou uma intensidade e criou uma quantidade de ocasiões que poucas equipas conseguem em 90'.

Cinco pontos de vantagem a 11 jornadas do final. Que significa isto? Nada. Basta o clássico com o Sporting correr mal e, aí, já damos ao Benfica a oportunidade para tentar chegar ao primeiro lugar quando os dragões forem à Luz. Por isso, nada está ganho, nada está garantido. Garantia apenas esta: é essencial vencer o Portimonense.




Iván Marcano (+) - O massacre ofensivo começou cá atrás: na forma como Marcano se fartou de lançar ataques com passes longos e bolas metidas na perfeição nos flancos. Inteligentíssimo a colocar as bolas ora em Marega, ora em Brahimi, ora ele próprio a ganhar alguns metros e a empurrar a equipa para o meio-campo do Estoril. Com os avançados do Estoril a darem pouco trabalho, serviu basicamente como o primeiro construtor de jogo.

Héctor Herrera (+) - Para a frente, para trás, para a direita, para a esquerda. Herrera pressionou, desarmou, cortou, passou, criou, sempre de dentes cerrados e em máxima intensidade. Foram 45 minutos de alta rotação nos quais Herrera esteve em todo o lado, inclusive na génese dos dois golos de Soares, depois de ele próprio ter ficado perto de inaugurar o marcador.

Soares (+) - Terceira jornada consecutiva a bisar, desta feita em dois lances oportunos, nos quais cumpriu a máxima dos pontas-de-lança: estar na grande área para o último toque. Mas não se limitou a isso, pois não raras vezes descaiu para os flancos, baralhou as marcações e criou ainda duas ocasiões de golo. Já leva sete golos em fevereiro, está com a confiança renovada e agarrou o lugar no 11, perante a ausência de Aboubakar das opções. Uma vez mais, Sérgio Conceição recupera um jogador que esteve de malas feitas. 


Estratégia (+) - De encontro aos parágrafos iniciais: o FC Porto engoliu por completo a equipa do Estoril, empurrando os 11 jogadores para a sua grande área e encontrando sempre superioridade em todos os momentos do jogo, quer nos duelos, quer nas bolas divididas, quer no jogo aéreo. A equipa soube levar a bola até à grande área do Estoril como nunca, tanto que, da totalidade dos 23 remates na partida, apenas um foi obtido de fora da grande área. A velocidade de execução, as constantes quedas dos avançados nos flancos e a pressão constante sobre o Estoril foram chaves para uma vitória importante, categórica e curta, tamanha que foi a superioridade do FC Porto. Negativo, muito negativo, só mesmo as lesões de Alex Telles e Corona.

Segue-se o Portimonense. Dá para fingir que são só 45 minutos?

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cinco no jogo mais importante da semana

Era essencial vencer, pelas mais variadas razões: para reabilitar o moral da equipa e dos adeptos depois da Champions, para responder à pressão dos rivais e para assegurar que, aconteça o que acontecer na Amoreira, o FC Porto vai iniciar a 24ª jornada da Liga na liderança isolada do Campeonato. Os 45 minutos frente ao Estoril vão, assim, definir se o FC Porto vai ganhar alguma margem de erro à entrada para a reta final do Campeonato. 


A receita terá que ser a mesma de hoje: uma entrada forte, agressiva, com uma linha de pressão alta e incansável na recuperação de bola e eficácia na hora de atirar à baliza. Não há margem/tempo para esperar pelo erro ou desgaste do adversário, pois tal não acontecerá, e se já estamos habituados a jogar contra equipas fechadas com 0x0 no marcador, neste caso tudo aponta para um Estoril a defender com tudo e todos. Nada que 45 minutos à Porto não possam resolver. 




Entrada a matar (+) - Brahimi a solicitar Alex Telles nas costas; o cruzamento para a grande área, já com três unidades para três jogadores do Rio Ave; Soares não domina da melhor forma (ou conta como assistência?), mas apareciam logo três jogadores à entrada da grande área para a sobra; Sérgio Oliveira arriscou o remate, mas também já tinha Maxi isolado pela direita. Uma jogada com diversas soluções e que resultou num golo madrugador, que deu tranquilidade ao FC Porto rumo à goleada. A equipa soube pressionar bem e praticamente não deixou o Rio Ave entrar com perigo na grande área, limitando a equipa visitante a remates de meia distância.

Sérgio Oliveira (+) - Abriu o marcador com um remate colocado, mas foi sobretudo nas tarefas mais recuadas que se destacou, ajudando a equilibrar a equipa com uma boa ocupação de espaço e contribuindo com 10 ações defensivas, além de ter ganho 8 dos 11 duelos que disputou. Não apareceu muito na circulação de bola (fez apenas um passe a cada 3 minutos), mas compensou com um bom sentido posicional e uma pressão forte sobre o adversário. Prolongou o bom momento no Campeonato. 

Soares (+) - O reforço de inverno da época passada parece querer repetir a dose. Teve intervenção direta em 6 golos nos últimos 3 jogos internos - se no lance do 1x0 o passe para Sérgio Oliveira pareceu um mau domínio de bola, no 2x0 correspondeu com um belíssimo cabeceamento e soube ser oportuno para fechar o marcador, além de ter arrancado um vermelho que ficou por mostrar a Tarantini. Ainda criou mais duas situações de perigo e voltou a ter movimentações interessantes nas diagonais curtas. Sérgio Conceição avisou que dependeria de Soares decidir se a porta se abria ou fechava. O brasileiro parece decidido em arrombá-la.


A entrada de Óliver (+) - Na segunda parte, o FC Porto controlou sobretudo o espaço e não estava a conseguir fazer circular a bola. A entrada de Óliver significou o melhor momento do FC Porto na partida - tabelas, jogadas ao primeiro toque, maior velocidade de circulação e a obrigar o Rio Ave a correr atrás da redondinha. A jogada com Brahimi ficou na retina, tão boa que nem o argelino acreditou na oferta. Vinte minutos que mostraram que Óliver pode ser um oásis de tranquilidade quando é preciso guardar e circular a bola, em vez de fechar as linhas e limitar a equipa a bolas em profundidade.

Palavra também para mais duas assistências de Alex Telles de bola parada - são já 11 no Campeonato. Em toda a Europa, só Neymar (12) e De Bruyne (14) têm mais. 




Definição e discrição (-) - Notou-se que Brahimi precisava de um golo. Estava à procura da jogada, do momento que lhe daria confiança a nível individual. A verdade é que as coisas não saíram particularmente bem ao argelino - falhou 6 dos 11 dribles que tentou, criou apenas uma ocasião de golo e atirou uma bola à trave. Já quando o resultado estava feito, Brahimi pareceu querer sempre escolher o caminho mais complicado, trocando o jogo coletivo pela tentativa do lance individual.

Corona ajudou muitas vezes Maxi no corredor e teve alguns pormenores interessantes, mas uma vez mais não conseguiu ter efeitos práticos no ataque - não fez nenhum passe para finalização, falhou os 4 cruzamentos que tentou e não conseguiu nenhum drible eficaz. Muitas vezes a movimentação/iniciativa correta, mas faltava o momento de definição.

Já Marega voltou a marcar, chegando aos 17 golos na Liga, e bem pode agradecer o bom cruzamento de Alex Telles e o desvio de Marcelo para a própria baliza, caso contrário teriam sido 90 minutos de quase total anonimato: Marega fez apenas 5 passes em todo o jogo, tocou16 vezes na bola (metade das de Iker Casillas) e não fez nenhum passe para finalização nem nenhum cruzamento em 90 minutos. O maliano picou o ponto de bola parada, mas no jogo jogado raramente conseguiu aparecer. 

Segue-se então o Estoril e a necessidade de 45 minutos à Porto. Literalmente.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Pareceu fácil

Uma das mais assinaláveis vitórias nesta temporada, não só pelo volumoso resultado como por todas as circunstâncias a envolver este jogo. Desde logo, a ausência de Marcano, Danilo e Aboubakar da ficha de jogo; depois, as presenças de Ricardo e Brahimi no banco, como forma de gestão do treinador (e gestão não significa estar a poupar jogadores para a Champions, mas sim lidar com as consequências físicas do pós-clássico). 

Ora, se juntarmos Alex Telles a este lote, temos aqui os seis melhores jogadores da primeira volta. Cinco deles não entraram no 11 do FC Porto, frente a um Chaves que não perdia em casa há meio ano e que está a bater às portas dos lugares europeus. E o melhor elogio é sempre este: ninguém deu pela falta deles, face a uma exibição sólida e a revelar a melhor face de «segundas linhas», de Maxi a Soares, de Sérgio Oliveira a Otávio.

Este contexto revela diversas soluções, mas o plantel nunca deixou de ser curto; a diferença é que o treinador está a tirar o máximo proveito dele. Há naturalmente sempre casos em que os adeptos sabem que os jogadores em causa podiam, deviam, dar algo mais (não esquecendo que para tal é preciso continuidade no 11), como Óliver ou Corona, mas genericamente o plantel está a ser valorizado. 

São já 90 golos esta época, em 36 jogos. Na época passada, o FC Porto tinha feito apenas 88 em 49. E o mais notável é que todo o plantel está envolvido nesta marca - tirando os reforços de inverno, todos os elementos integrantes do plantel já participaram diretamente em pelo menos 2 golos esta época. Se tirarem Jonas ou Bas Dost aos rivais, os resultados - ou a falta deles - ficam à vista; já o FC Porto dá uma prova de superação num jogo em que entra sem 5 jogadores-chave. 




Soares (+) - Esteve com pé e meio fora do FC Porto (daí a repescagem de Gonçalo Paciência e o facto de o brasileiro já nem ter integrado este post de comparação entre os avançados do clube), mas a mudança acabou por não se concretizar, apesar de o mercado na China ainda estar aberto. E em boa hora para Sérgio Conceição, que viu o brasileiro dizer «presente» numa altura em que Aboubakar está de fora, Marega num péssimo momento de forma e os reforços de inverno com as dificuldades típicas em entrar no 11.

O brasileiro fez dois golos, o 2x0 num fabuloso remate, mas o melhor da sua exibição foi a forma como conseguia desmarcar-se em diagonais curtas, permitindo que os médios fizessem passes em profundidade curtos e não a habitual bola longa para os avançados africanos na frente. A sua exibição pecou apenas pela fraca qualidade de passe (perdeu metade das bolas que disputou), apesar de ter chegado a servir Marega de bandeja para o 3x0. 

Meio-campo (+) - Algumas dificuldades de entendimento na primeira parte, com ambos a pisarem muitas vezes o mesmo espaço, mas Sérgio Oliveira e Herrera partiram para mais uma exibição sólida a meio-campo. A equipa trocou a posse por transições rápidas e a verdade é que a estratégia funcionou, com os 2 médios a criarem 5 ocasiões de golo e apenas um passe falhado (de Sérgio) no próprio meio-campo. Sérgio Oliveira fez a assistência para o 1x0 e fechou, com um grande golo, o resultado, após uma bela combinação com Herrera. 

Outros destaques (+) - Tirando dois ou três lances em que se põe a jeito para a amostragem de cartão ou mesmo para uma grande penalidade, exibição sólida de Maxi Pereira, com grande disponibilidade a atacar e a assistir Soares para o 2x0, além de só ter perdido uma bola nos primeiros 50 metros. Otávio, sobretudo na primeira parte, mostrou finalmente qualidade esta época - bem a movimentar-se nas costas de Soares e Marega e a baralhar as marcações da equipa do Chaves, tendo ainda criado duas ocasiões de golo. 




Mais controlo (-) - Foi estratégia: ter menos bola, jogar de forma mais direta e deixar o Chaves circular no seu meio-campo (tirando os 3 grandes, o Chaves é a equipa que melhor passa a bola na Liga, mas muitas vezes de forma inconsequente). Foi o caso: o Chaves teve mais bola, fez mais passes, mas o único remate com algum perigo dentro da grande área foi a tentativa de Tiba na primeira parte.

Por outro lado, o FC Porto fez muitas mais faltas do que é hábito (23, contra 8 do Chaves). E se é certo que não fez nenhuma nos primeiros 30 metros, o que reforça que se tratava de estratégia, é natural que deixar o adversário ter tanta bola vá forçar a equipa a mais faltas. E a média de faltas da equipa disparou desde que Danilo saiu da equipa. Num Campeonato em que se apita com facilidade contra o FC Porto, isto é pôr-se a jeito, e o Chaves podia mesmo ter inaugurado o marcador com uma grande penalidade. Uma das raras vezes em que o FC Porto conhece o benefício, mas já se sabe que basta uma má jornada para perder a liderança. E certamente que, frente ao Liverpool, não poderemos dar-lhes a bola como demos ao Chaves. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Chave avançada

O FC Porto ainda não tinha chegado ao intervalo sem estar a vencer. Demorou 4 minutos a corrigir essa situação e, após uma primeira parte francamente má - o Chaves fechou bem os corredores e o espaço no jogo interior, limitando assim o FC Porto a pouco mais do que as diagonais de Brahimi -,  a equipa conseguiu a 16ª vitória em 16 receções frente ao Chaves, mantendo o percurso imaculado no Campeonato. 

Estamos perante um Campeonato que será extremamente competitivo e em que as equipas ditas pequenas vão, muitas vezes, tirar pontos aos candidatos ao título, ou então ficar a um minuto, uma falta, um penalty ou uma decisão do VAR de o fazerem. A visita a Alvalade ainda vai longe no calendário, mas restam apenas duas jornadas a separar o FC Porto da possibilidade de poder defrontar o Sporting invicto e a jogar diretamente para a liderança isolada. 


Para já segue-se a Champions, num grupo em que existe a responsabilidade de o FC Porto ter mais presenças na Liga milionária do que Besiktas, Mónaco e Leipzig juntos, mas sem esquecer que qualquer equipa pode ambicionar a qualificação direta neste lote e que Iker Casillas e Maxi Pereira, juntos, representam praticamente metade da experiência internacional deste plantel. 

Por enquanto, Sérgio Conceição e o plantel têm respondido a cada dificuldade com uma vitória. E embora não tenha sido pela defesa que o FC Porto falhou os últimos títulos, continuar sem sofrer golos é sempre um bónus que atesta um bom trabalho desenvolvido (não esquecer que a equipa, quase com a mesma defesa, acabou a última época a sofrer 9 golos em 10 jogos oficiais). 





Óliver Torres (+) - Já fez mais assistências do que em toda a última época, e fê-lo com um conhecimento perfeito de tempo e espaço: antes de Óliver cruzar, não havia ninguém na grande área; depois da bola sair do seu pé, rapidamente apareceram quatro jogadores na grande área, o último dos quais pronto a finalizar. Uma vez mais, o que mais se destacou em Óliver é a forma como está a apostar mais no passe longo - falhou apenas um em toda a partida, e quase nunca precisou de baixar para lá do meio-campo para pegar no jogo. Criou ainda duas ocasiões de golo e destacou-se na primeira linha defensiva, com 11 momentos de desarme/recuperação. Uma exibição completa. 

Marega (+/-) - O melhor jogo com a camisola do FC Porto, essencialmente pelo trabalho desempenhado na segunda parte. Se no primeiro tempo o seu melhor lance foi um em que tropeçou na bola, na segunda parte fartou-se de ganhar metros no terreno e de arrastar a equipa para a frente. A sua inabilidade técnica é clara (voltou a ser o jogador com mais perdas de posse - 21, depois das 22 em Braga - e só 3 jogadores do Chaves tiveram pior eficácia no passe em campo), mas o facto de ter atacado mais vezes o espaço livre, evitando o 1x1 e a zona central, permitiu-lhe galgar terreno e empurrar a equipa quando o Chaves concedeu mais espaço. O facto de se esperar tão pouco deste jogador até contribui para que se lhe reveja qualidade no que deviam ser requisitos básicos (a luta, a garra, o empenho), mas trabalhou muito para a equipa e fez por merecer o bom golo que marcou.


Yacine Brahimi (+/-) - A única luz na equipa durante a primeira parte, embora desta vez tenha sido particularmente ineficaz no drible (acertou apenas 3). Ainda assim, foi 2º o jogador em campo que mais tocou na bola, tentou arrastar a defesa e ainda surpreendeu por ter sido o jogador que mais bolas recuperou (11 no total). Esteve novamente muito bem no passe, mas objetivamente o seu futebol só rendeu uma ocasião de golo à equipa, o que o impediu de sair com uma nota mais elevada de uma partida em que, apesar de tudo, voltou a ser dos melhores.

A entrada de Soares (+) - Saiu Corona. Sérgio Conceição poderia lançar Hernâni, Otávio ou até Ricardo Pereira, mas optou por apostar logo em Soares. E foi uma escolha audaz - com isso, Marega foi puxado para o lado direito e o próprio Soares jogou sobretudo descaído para os flancos, mais longe da grande área. Isso implicava menor criatividade e capacidade de 1x1, mas deu mais presença à equipa no ataque e teve efeitos práticos - Soares fez o passe para o 1x0, ganhou o penalty (batido de forma denunciada mas felizmente corrigida) e foi o mais rematador da equipa, com 5 tentativas (embora duas tenham sido no penalty, nenhum outro jogador rematou mais do que duas vezes). 




Toda a primeira parte (-) - O Chaves teve mérito: soube anular a manobra ofensiva do FC Porto. Mas haverá cada vez mais equipas a posicionarem-se da mesma forma, por isso será necessário encontrar soluções além da capacidade individual de Brahimi. Em toda a primeira parte, o único lance de algum perigo saiu de um remate do argelino. De resto, equipa e jogadores em subrendimento, em relações variadas de causa/efeito. Aboubakar só tocou 3 vezes na bola do meio-campo para a frente, Layún não chegava ao último terço, Danilo sentiu muitas dificuldades a meio-campo, Corona voltou à forma intermitente que lhe é caraterística e houve apenas 3 bolas colocadas em posição de remate.

Dificuldades que a equipa ultrapassou na segunda parte, com um golo algo feliz de Aboubakar (mérito e qualidade no movimento, sorte no remate - mas diz-se que a sorte passou a ser um requisito para o prémio Puskas), mas Sérgio Conceição e os jogadores terão por certo muito para rever nestes 45 minutos. E em bom momento: é melhor aprender sobre os erros nas vitórias do que nas derrotas.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Salazar estaria orgulhoso

Despedida do Estádio do Dragão da época 2016-17, com a garantia de que se completará um ciclo de, pelo menos, cinco anos sem que voltemos a festejar um título na nossa fortaleza. A mesma fortaleza em que o FC Porto não consentiu uma única derrota esta época, mas em que somou três empates que comprometeram seriamente a luta pelo título.

Mas ao contrário do que se possa fazer crer, este não é um título que se perde em casa - o FC Porto, na época 1999-2000, somou 49 pontos em 51 possíveis e mesmo assim não deu para chegar ao título. Este é um título que se perdeu por muitas vias: começando pela pré-época, com uma má escolha para o cargo de treinador e uma má abordagem na gestão/reforço/definição do plantel; perdeu-se com sucessivos erros arbitrais que impediram o FC Porto de ganhar pontos e confiança preciosas em algumas jornadas; perdeu-se com a falta de crescimento da equipa e de qualidade individual em alguns momentos; perdeu-se porque o FC Porto falhou em quase todos os momentos decisivos, enquanto o Benfica raramente tremeu quando o FC Porto pressionou - mesmo que tenha havido fatores externos a reforçarem-lhes as varetas na hora da pressão. Inegável, mas para a história fica sempre o mesmo: o FC Porto perdeu este título de campeão para o Benfica. Mais um. 

E agora? E agora há quem clame que o Benfica pode ser tetra pela primeira vez, mas que o FC Porto continua a ser o único penta. Quem diria, um portista cada vez mais agarrado ao passado para combater a realidade do presente. Talvez ignorem é que, dentro de um ano, o penta pode muito bem deixar de ser um exclusivo, sobretudo se não houver melhorias necessárias de forma gritante, desde a equipa técnica à postura da SAD em todas as posições do futebol profissional (desde o mercado aos órgãos de poder), bem como reajustes no plantel em todos os setores. E acima de tudo, não pensar que é com uma troca de treinadores que se resolvem todos os problemas, sobretudo quando conseguem escolher um pior do que o que já cá estava, sem quaisquer valias ou currículo que o recomende para o FC Porto.

Esta vitória sobre o Paços de Ferreira não será recordada nos livros de história, infelizmente, mas não deixa também de ser curioso a facilidade com que desta vez se apitaram duas grandes penalidades a favor do FC Porto. Ainda assim, a maior história do jogo não é essa. Já lá vamos.





Héctor Herrera (+) - Um golo atípico na sua carreira, de cabeça, e uma bela assistência para Diogo Jota. Sem Danilo de início e com André André a baixar muitas vezes no início de construção, aproveitou para se libertar e foi o jogador mais interventivo em campo, tendo não só chegado várias vezes a zonas de finalização como tido diversas ações defensivas (16 no total). Uma boa exibição, mas ainda assim não deve continuar a haver muitas pessoas que teriam recusado uma proposta de 30M€ por ele no último verão. Fica também uma palavra para mais uma exibição bastante razoável de Otávio no meio-campo. 

Diogo Jota (+) - Entrou, agitou o ataque, fez um golo, arrancou um penálti e confirmou um estatuto invulgar para um jogador emprestado no seu primeiro ano de equipa grande: é o jogador do FC Porto com maior influência direta em golos por minuto no Campeonato. Diogo Jota faz um golo ou assistência a cada 110 minutos, uma média excelente para um menino que completou apenas 20 anos em dezembro. E agora? Agora terá a palavra o FC Porto, o Atlético de Madrid e Jorge Mendes. Não necessariamente por esta ordem. 





Será que chega? (-) - Quando Soares chegou ao FC Porto e teve uma entrada a matar, não tardaram as comparações com grandes goleadores da história do FC Porto. Uns falaram em Derlei, outros chegaram a Jardel. Mas talvez a comparação mais ajustada seria esta: Adriano. Não necessariamente pela qualidade técnica dos jogadores, mas por terem tido o seguinte papel: excelentes como reforços de inverno, mas talvez não o suficiente para serem considerados titulares no FC Porto a longo prazo.

Soares superou claramente as expetativas no FC Porto - 12 golos em 16 jogos é sempre excelente, apesar de nos últimos 9 jogos ter apontado apenas 3. Mas será necessário ponderar seriamente se terá a capacidade de se assumir como um titular indiscutível e decisivo no FC Porto. Adriano (que curiosamente também foi determinante num clássico contra Sporting, este sim verdadeiramente decisivo e a valer o título) também chegou, foi determinante na luta pelo título, mas a longo prazo viu-se que não deu para mais. 

Soares, que teve uma exibição francamente má no seu último jogo no Dragão (nenhum remate, nenhuma jogada de perigo), pode e deve ter a oportunidade de fazer a pré-época com a equipa, quiçá com um treinador que saiba trabalhar avançados, e com isso talvez até consiga evoluir e afirmar-se como uma solução de créditos de médio prazo, em vez de ser apenas um reforço de inverno com impacto imediato. No entanto, o presente recomenda que ninguém entre na próxima época a pensar que o FC Porto será Soares e mais 10. 

A cuspidela de Nuno (-) - Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Nuno Espírito Santo deu os parabéns ao Benfica. Sim. O mesmo Benfica que se aguentou na liderança ao som do apito, que tem ostracizado o FC Porto em todas as ocasiões, que vários portistas tentaram combater ao longo do último ano, com um revoltante sentimento de injustiça. Não, o FC Porto não jogou futebol de campeões em 2016-17, mas que ninguém diga que o Benfica jogou muito mais. Não foi um campeão incontestável. Nunca saberemos o que aconteceria em campos menos inclinados.

Mas o que faz NES? Cospe em toda a luta dos portistas ao longo da época, ao felicitar o Benfica. Percebe-se, de certa forma, que o faça. Afinal, os comentadores afetos ao Benfica em espaço televisivo têm feito questão de elogiar, e muito, NES desde o início da época. Por uma dupla razão: não só têm todo o interesse desportivo em manter NES no FC Porto como mantêm de pé o bom nome de um cliente de Jorge Mendes. E podem ter a certeza: não faltarão, nos próximos dias, benfiquistas a enaltecerem que fez um excelente trabalho e que merece continuar. Nem é preciso cartilha para o antecipar. Preocupante é que também haja portistas a partilharem dessa opinião, mas é um direito que lhes assiste. O problema é que as consequências, depois, tocarão a todos. 

O orgulho de Salazar (-) - Muitos portistas - e o próprio clube nas suas vias oficiais - decidiram chamar a este Campeonato a Liga Salazar. Mas muito possivelmente o que mais honra o legado de António Salazar não é o tetra do Benfica: foi o que se passou nas bancadas do Estádio do Dragão, com os Colectivo 95 a serem impedidos de fazer o que já se fez em tantas outras ocasiões - manifestarem o total e legítimo direito à crítica. À crítica. Não à ofensa, não à difamação, não ao insulto. À crítica. 

Os Colectivo não são a claque mais popular de Portugal, todos sabem isso. Mas são tudo aquilo que deve ser uma claque. Não priorizam merchandising ou proximidade com dirigentes/funcionários em detrimento da sua postura de adeptos independentes no Estádio do Dragão. Apoiam. Sofrem pela equipa. Viajam com a equipa. Estão lá nos maus momentos. Mas também têm algo fundamental: ter posição crítica. Essa mesma posição que, note-se, foi censurada por quem tem no seu cargo uma função que inclui a «ligação» entre adeptos. Os C95 esperaram pelo final da época para assumirem essa posição crítica. Ao longo da temporada, nunca faltou apoio à equipa. E agora, no final da temporada e numa fase em que se impõe a análise e o balanço, querem inibir o direito de opinião a quem sempre batalhou pelo FC Porto!?

O próprio presidente do FC Porto já tinha feito a distinção entre os verdadeiros portistas e os demais, entre os bons e os maus. Este episódio foi nesse sentido: bom portista, aparentemente, é aquele que fecha os olhos a tudo o que está mal, que come e cala, e que começa cada vez mais a invocar o passado em vez de se preocupar com presente e futuro. Não é uma conversa nova: já vem desde o milagre de Kelvin. São quatro - a caminho de cinco - anos a seco.

Nenhum, nenhum dos portistas que vibraram com o golo de Kelvin, há quatro anos, imaginaria que esta seria a realidade do presente: o Benfica se calhar está mais perto de ganhar o quinto Campeonato consecutivo do que o FC Porto o primeiro em cinco anos. 

Fica aqui uma total de manifestação de solidariedade para com os C95, como não poderia deixar de ser num espaço que também sempre fez uso da crítica legítima, sustentada e construtiva. Ainda assim, a tarja erguida não parece corresponder totalmente à verdade: o espírito de campeão já não parece viver em todos os portistas. 


Pró ano há mais. Do mesmo?

segunda-feira, 13 de março de 2017

Vamos à décima

Sem espinhas. Nona jornada consecutiva a vencer, sem sofrer golos nas últimas cinco, e a confirmação/continuação do melhor momento da época, com o tónico perfeito para as últimas nove jornadas do campeonato. Faltam 27 pontos em disputa, e o FC Porto acaba de somar 27 em 27 possíveis, acrescentando eficácia ofensiva a uma equipa há já muito sólida defensivamente.


O Arouca não é nenhum exemplo de poderio (vem de 5 derrotas seguidas), mas estamos numa fase em que o mais pequeno deslize pode custar as esperanças na luta pelo campeonato até ao fim. A pressão é enorme, mas o grupo de trabalho tem sabido lidar com ela. 

No final da época, aconteça o que acontecer, ninguém poderá afirmar que faltou Porto a este grupo de jogadores. Ser Porto não é ganhar sempre, mas é lutar sempre para ganhar. Este grupo não tem lutado por outra coisa.




Brahimi (+) - O melhor FC Porto desta época teve sempre o melhor Brahimi. Regressou à dimensão que parece bem maior do que o campeonato português, com o altruísmo que tantas vezes lhe faltou. Prova disso é que não rematou nenhuma vez em Arouca (e devia!), mas criou seis situações de golo e fez da defesa do Arouca faca quente em manteiga, sobretudo na primeira parte. Está longe dos números da primeira época quer em golos, quer em assistências, mas carrega, mais do que nunca, as esperanças do FC Porto no seu virtuosismo.


Meio-campo (+) - O FC Porto continua a ganhar metros no terreno: é capaz de circular a bola mais à frente, o que não só empurra o adversário para trás como não obriga os avançados a jogarem tão longe da grande área. Danilo foi o pêndulo habitual, essencial na dimensão física do jogo e certinho na saída de bola, além de ter inaugurado o marcador. Óliver voltou a ridicularizar os momentos em que acharam que a sua presença no banco podia combinar com um melhor FC Porto: 92% de acerto no passe, excelente no controlo do ritmo de jogo e a fazer parecer tão simples jogar com a cabecinha levantada, como foi exemplo o passe para o 2x0. Sobre André André, já aqui foi muitas vezes descrito como sendo um jogador que dificilmente ultrapassará o campo da utilidade no FC Porto. É verdade. Mas que nos últimos jogos tem sido útil, tem, sem dever muito ao que foi o melhor rendimento de Herrera esta época. 

A presença de Soares (+) - Nove golos em seis jornadas, que renderam seis vitórias? Perfeito. É inegável que Soares não é um prodígio técnico - é sempre o jogador com mais perdas de bola em campo e raramente ganha um lance de 1x1. Mas tem revelado um talento não menos importante e muitas vezes difícil de encontrar: a capacidade de estar no sítio certo para finalizar. Ou Soares vai ter com a bola, ou a bola vai ter com Soares. Muito bem não só na presença na grande área como na sua capacidade para atacar o espaço. Falhou algumas boas ocasiões, mas lá está: estava sempre bem colocado para a criar. O futuro dirá se o seu momento é uma espécie de Pena v2.0; o presente diz que é um reforço que está a ser absolutamente determinante nas aspirações do FC Porto. Mérito a quem viu nele uma solução para o mercado de inverno, porque, para esse efeito, acertou em cheio.

Solidez defensiva (+) - Casillas voltou a ser um mero espectador, sem ter feito qualquer defesa durante o jogo. O Arouca raramente existiu em termos ofensivos e o FC Porto esteve sempre perfeitamente equilibrado, com Maxi e Marcano particularmente em destaque na defesa. Quando a equipa não dá abébidas na defesa e produz ocasiões em abundância no ataque, as vitórias apareceram com naturalidade. 

Amanhã, Turim. Não sabemos o que vai acontecer contra a Juventus, mas sabemos o que tem que acontecer no domingo: vencer o V. Setúbal. Independentemente do resultado em Turim, há que chegar a esse jogo com confiança, cabeça levantada e novamente determinados na luta pelo título.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Derby à moda do Porto

Estas sabem melhor do que qualquer recital que termine em goleada. Um derby no verdadeiro sentido da palavra. A raça, a garra e o crer a terem que se sobrepor à qualidade durante grande parte do jogo. A motivação e determinação que crescem à medida que o campo inclina, com o patrocínio do jovem árbitro a quem um dia chamámos «um wonderboy apropriado para Maxi Pereira» - e que agora ironicamente o expulsou.

Boavista, aquele Boavista de que tanto gostamos: sarrafeiros, sujos, a olharem para nós como se tivessemos canela até ao pescoço. Esta é a imagem de marca do Boavista nos derbys. E que gozo nos dá vencê-los após estas circunstâncias. Não imaginamos um Boavista de nenhuma outra forma. Ajudam a apimentar os derbys desta forma, diga-se. 

Este tipo de jogos só servem para enrijecer os jogadores. Não viram ninguém a encolher-se, a tirar o pé, a deixar-se afetar pela pressão. Pelo contrário: foi uma prova cabal do espírito deste grupo de trabalho, que teve como consequência uma boa vitória.




Óliver e o golo (+) - Tão simples, tão difícil, tão bom: toda a inteligência de Óliver neste lance, mas também um exemplo de como toda a equipa foi capaz de estar bem colocada nesta jogada. É Marcano, longe de grande área, que vai junto à linha obrigar a puxar o lateral-esquerdo. Com isso, abriu-se um enorme espaço na zona interior para Corona - que está sempre em posição regular pois Brahimi e Soares estão a empurrar a linha defensiva. O passe de Óliver é sublime, pois foi capaz de esperar pelo melhor momento para aproveitar a melhor solução. O seu passe deixa para trás 3 jogadores do Boavista e coloca Corona numa posição perfeita para cruzar. Nuno pode imaginar mil e uma formas para o FC Porto jogar, mas pode ter a certeza de uma coisa: Óliver e mais 10. E com Óliver em campo, quem está à sua volta jogará sempre melhor.

As zonas de ação de Óliver contra o Boavista
A partir daqui, o cruzamento de Corona foi perfeito, a fazer a bola cair entre o guarda-redes e o último defesa, para Soares aparecer. E este não é um golo em que era preciso encostar: Soares está sozinho na grande área. Corona só o tinha a ele para finalizar. A bola foi lá direitinha, mas Soares soube atacar o espaço certo - Brahimi já estava, também ele muito bem, pronto para a segunda bola nas costas. Um excelente golo, e com uma boa jogada ganhou-se o derby.


Iván Marcano (+) -  O Boavista teve quatro tentativas de remate à baliza: duas foram defendidas por Casillas... e as outras foram cortadas por Marcano. Continua numa forma irrepreensível: o seu sentido posicional é simplesmente perfeito. Tem estado sempre bem colocado, chega a todas as bolas, voltou a ganhar todos os lances pelo ar e ajudou a que Boly também fizesse um jogo positivo. Um percurso à Pedro Emanuel: chega ao FC Porto numa idade já avançada, sem que dêem muito por ele, começa de forma algo intermitente na equipa, agarra o lugar e torna-se indiscutível não só pela sua qualidade, mas pela forma como personifica tudo o que os adeptos querem ver num central. Se quiser bater um penaltyzinho decisivo, a malta também agradece. 

Brahimi (+) - Brahimi completou 10 dribles durante a partida - a equipa toda do Boavista teve 9 e os jogadores do meio-campo para a frente do FC Porto também 9. Isto mostra bem a influência e o que distingue Brahimi. Mas não são fintas inconsequentes, ou voltas de 360º: Brahimi vai para cima dos defesas com objetividade, a partir do lado esquerdo, descompõe toda a defesa adversária e tentou sempre servir os colegas - não rematou nenhuma vez, algo que também lhe faltou, pois andou sempre à procura de alguém na grande área. Como é que conseguimos chegar até meio da época sem tirar proveito do seu talento, e mantendo-se na luta pelo título, será sempre um mistério.

A corrida de NES (+) - O melhor momento de Nuno Espírito Santo ao serviço do FC Porto: a forma como se impôs, de imediato, na defesa a um dos seus. Corona foi anjinho, podia ter ali arranjado sarilhos dos grandes (Talocha devia ter sido expulso, mas Corona podia ter prejudicado toda a equipa por ter reagido a quente - e acabou por estar na origem da expulsão do treinador), mas foi muito bom ver NES a reagir, de pronto, na defesa a um dos seus jogadores. Treinador que esteja sempre na linha da frente na defesa ao seu plantel, independentemente de todas as limitações táticas, terá sempre apreço pela sua liderança. Um gesto que valeu mais do que 50 conferências de imprensa monocórdicas e politicamente corretas. NES foi mais Porto naquele sprint do que em 70 repetições de «Somos Porto» ou «o Dragão é a nossa fortaleza». Um gesto vale mais do que mil palavras. 




A rever (-) - Brahimi estava a ser forte nos movimentos interiores - e com isso, ia abrir-se espaço do lado esquerdo. Normalmente, essa lacuna é preenchida com a subida do lateral-esquerdo. Mas o que vimos foi que Soares passou a maior parte do jogo encostado ao lado esquerdo. Uma vez mais, isso é expor Soares a um trabalho que não deveria ser o seu. Esse desvio de posição fez dele o jogador com mais perdas de bola e com apenas um lance ganho em 1x1 entre os 14 que tentou disputar.

Soares está de pé quente, tem que ser aproveitado na grande área. A primeira e única bola que lhe deram deu em golo. Estar sucessivamente encostado ao flanco acaba por o prejudicar, embora seja nítido, desde o início da época, que NES vai sempre pedir isso ao seus avançados. Soares está a superar as expetativas neste seu arranque no FC Porto, mas se querem fazer dele o que não é, isso acabará por prejudicar o jogador. Entre os 14 golos de Soares na Liga, 13 foram marcados no enquadramento entre a marca de penalty e a baliza (a exceção foi o golo ao Tondela). Junto ao flanco, está a ser o jogador com mais perdas de bola. Quanto mais perto estiver da grande área, melhor. 

Ainda neste âmbito, o FC Porto perdeu muito na segunda parte com a saída de Corona. Pois Corona estava a conseguir dar muita largura do lado direito. Com a entrada de Jota, o FC Porto afunilou demasiado o seu jogo - forçou Maxi Pereira a subir mais vezes e a falta de pernas fez-se notar na segunda parte. É certo que o FC Porto não tem outro extremo direito no plantel, não com as caraterísticas de Corona, mas era necessário procurar dar maior largura naquela fase.

Além disso, houve pouca gente a chegar a zonas de finalização. Entre os médios do FC Porto, só houve um toque na grande área adversária, de Óliver. Os três médios passaram a maior parte do jogo atrás da linha de meio-campo (André André começou por pressionar muito à frente, mas adiantava-se apenas no momento defensivo, deixando sempre um vazio que só Brahimi preenchia com os movimentos interiores). Corona e Brahimi não remataram nenhuma vez, o que mostra que o FC Porto, apesar de ter tido boas oportunidades, meteu pouca gente em zonas de finalização e faltou mais gente a rematar.

O Boavista, aliás, foi mais vezes à grande área do FC Porto do que o contrário - ainda que tenha criado menos lances de perigo, mas Casillas revelou-se, uma vez mais, decisivo no pouco que teve que fazer. Num derby, sobretudo jogado da forma a que o Boavista obrigou, é sempre complicado e o que importa é vencer. Mas vêm aí jogos em que a raça, o crer e a determinação não vão chegar. Não é preciso muito: basta multiplicar aqueles 15 minutos iniciais. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O Tondela não merecia isto

As críticas foram bem audíveis nos últimos dias. E trata-se, de facto, de uma grande injustiça. O Tondela, na visita ao estádio de um grande do futebol português, perdeu por 4-0. Mas o problema não esteve apenas no resultado final, mas em dois lances nos quais o Tondela foi claramente prejudicado.

Falamos de um penalty e de uma expulsão, imerecidas e injustificadas, que acabaram por prejudicar o Tondela no jogo em causa. Jogar no estádio de um grande do futebol português já é, por si só, complicado. Mas quando a equipa da casa beneficia de um penalty mal assinalado, e vê um jogador do Tondela ser mal expulso, só se pode lamentar o tratamento de que o Tondela foi alvo.

Passando às imagens, o lance em causa é este:


Neste lance, André Almeida não sofre qualquer falta de Pica na grande área. Não havia grande penalidade a favorecer o Benfica, nem o Tondela ficaria sem um dos seus defesas. O Benfica acabou por vencer por 4-0. Venceria de qualquer maneira? Certamente. Mas custa sempre ver um clube modesto, como o Tondela, ser assim prejudicado pela arbitragem em casa de um grande. Felizmente, Gilberto Coimbra, presidente do Tondela, reagiu de pronto a esta injustiça...

Hmm, afinal não. Criticou o Sporting e o Jorge Jesus depois de ir a Alvalade e queixou-se imenso da arbitragem agora que o Tondela perdeu com o FC Porto, também por 4-0. Contra o Benfica, por incrível que possa parecer, Gilberto Coimbra não se lembrou de condenar a arbitragem.

De certeza que não terá nada a ver com isto.


No que diz respeito ao FC Porto, uma vitória sem sobressaltos, ainda que não há-de ser sempre que, no espaço de 3 minutos, a equipa beneficie de um penalty e uma expulsão, momentos que certamente ajudaram a que, na segunda parte, o 4x0 até tenha sido pouco para todas as ocasiões que a equipa construiu. 

53 pontos em 22 jornadas, um saldo bastante positivo e acima das expetativas, sobretudo tendo em conta que, nas últimas 12 épocas, só por 3 vezes o FC Porto tinha mais pontos nesta fase: no segundo ano com Jesualdo Ferreira, na época com Villas-Boas e na segunda época com Vítor Pereira. Três épocas que acabaram em festa nos Aliados. Se há momento para acreditar é este, independentemente do que se passar na eliminatória com a Juventus.




Rúben Neves (+) - Tem que haver algo de extraordinário para Rúben Neves não ser titular no FC Porto. E há: chama-se Danilo Pereira, imprescindível pelo que acrescenta à equipa. Mas Rúben Neves tem a capacidade de dar ao meio-campo do FC Porto uma qualidade de circulação de bola, de amplitude de jogo e de cabecinha a construir (sem Óliver em campo, a sua importância neste aspeto foi ainda maior) incomuns.

Um exemplo. Nos últimos 4 jogos, Danilo Pereira fez 36 passes no meio-campo adversário. Rúben Neves, que joga na mesma posição, fez mais contra o Tondela. 

Rúben Neves vs. Tondela
São jogadores de caraterísticas muito diferentes, o que ajuda a explicar a diferença. Mas Rúben Neves tem essa capacidade: de empurrar a equipa para os últimos 45 metros. O facto do Tondela ter jogado com 10, e ter deixado de pressionar tanto, ajudou a essa subida, claramente, mas é uma capacidade intrínseca no futebol de Rúben Neves: obriga todas as linhas a subir, pela forma como circula a bola. Defensivamente, também não esteve longe do rendimento habitual de Danilo, com 19 ações defensivas, entre recuperações, desarmes e intercepções. O único problema de Rúben é este: só podem jogar 11 de cada vez. Mas pode ter o que nem todos tiveram: muitos anos de FC Porto pela frente.


André André (+) - O seu melhor jogo esta época. Esteve literalmente por todo o lado, impecável no passe (93%), recuperou várias vezes a posse no meio-campo adversário e manteve, em sintonia com Rúben Neves, a equipa equilibrada no meio-campo na transição defensiva. Uma exibição a fazer lembrar o seu grande momento de forma em outubro/novembro de 2015, tamanho que foi o pulmão que foi capaz de mostrar em campo.

André André vs. Tondela
A capacidade de criar (+) - Sim, jogar em superioridade numérica, contra uma das equipas com maiores fragilidades do campeonato, ajuda. Mas foi um dos jogos em que o FC Porto mais capacidade teve de levar a bola a zonas de finalização. Foram efetuados 18 passes que deixaram um colega em situação privilegiada para atirar à baliza e fazer jogo. Foi o recorde desta época, também com grande destaque para o número de entradas na grande área do Tondela (51). Dos 24 remates, 15 foram feitos dentro da grande área do Tondela, o que mostra a facilidade para criar situações de finalização. Além disso, foram efetuados 33 cruzamentos, ainda que desses só 8 tenham tido seguimento direto na grande área. Quando se cria oportunidades desta forma, ninguém terminará o jogo a lamentar a ineficácia: no meio de tantos lances, pelo menos um há-de entrar.

Outros destaques (+) - Mais dois golos para a dupla André Silva/Soares, a revelar um bom entendimento - Soares mais fixo no eixo central, André Silva sempre mais recuado e a cair muitas vezes nas faixas. O golo de Soares foi uma delícia de finalização, a colocar a bola onde quis. Já leva 4 jogos em 3 jogos, uma excelente média - os «dois pares de golos» que se pediam para ajudar o FC Porto na luta pelo título podem já estar feitos -, embora haja ainda muita coisa para melhorar quando é forçado a ir para o 1x1 (foi o único, a par de Rúben Neves, que não fez nenhum drible - não que tenha precisado para marcar) e na forma como tem que perceber as movimentações dos colegas (algo que o levou a ser o jogador com mais perdas de bola em campo). 

Há ainda a destacar que, dos 10 remates que André Silva e Soares fizeram, nove foram efetuados dentro da grande área. Ou seja, a bola está a chegar à grande área e aos pontas-de-lança. Quando assim é, tudo é mais fácil. Palavra ainda para um bom jogo de Corona.




A rever (-) - Os golos e a superioridade numérica na segunda parte ajudam a que isso se «esqueça», mas no primeiro tempo foi nítido, uma vez mais, o fosso que é criado entre o meio-campo e a linha avançada. Faltava muitas vezes alguém para ir receber a bola entre linhas e uma referência no eixo central. André André tinha limites para subir, pois só sobraria Rúben Neves no meio-campo, e Otávio aparecia poucas vezes em zonas interiores. Jogar com apenas dois médios obriga a uma disciplina e versatilidade na dinâmica da equipa que o FC Porto, com estas unidades, ainda não revelou da forma desejada. Isto provocou, algumas vezes, um desequilíbrio na zona central, algo que poderia ter sido muito perigoso - aos 30 minutos já tínhamos os centrais e o médio defensivo amarelados.

Quando se criam muitas oportunidades, a bola acaba por entrar. Mas a forma como foram desperdiçadas várias ocasiões, com André Silva, Soares e Otávio à cabeça, não é coisa para se repetir. Foram ocasiões que, falhadas noutro jogo qualquer, poderiam ter custado caro. Como por exemplo contra a Juventus.