Sempre que a Choupana está metida ao barulho é coisa para suspeitar. Há dois anos, o Benfica deixou lá dois pontos, no mesmo dia em que o FC Porto recebia o Olhanense. O FC Porto tinha a oportunidade de se isolar na liderança, mas não conseguiu ganhar em casa ao Olhanense. Nesse campeonato, o pontapé do Kelvin salvou o título. Mas desde então aquela máxima que diz que «o FC Porto não falha nos momentos decisivos» vai ficando tremida.
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| Ponto ganho? Dois perdidos |
Marítimo, Benfica e Nacional, três jogos que nos custaram 8 pontos, por falta de eficácia, sorte e também competência, e não por factores externos. Já há um ano, é bom lembrar, foi no Estádio da Luz que perdemos a liderança, e nessa mesma época perdemos duas meias-finais contra o rival. Este ano, a Taça também se foi à primeira, contra o Sporting. É importante e urgente ir ao baú do clube descobrir a determinação que nos levava a não falhar nos momentos decisivos.
É tudo uma questão de perspectiva. A partir desta jornada o FC Porto depende matematicamente de si próprio. Quando perdeu com o Marítimo, estava em risco de ficar a 9 pontos. Mas não podemos ficar agarrados a ses anteriores. Esta era a oportunidade para ficar a um ponto da liderança. Era a jornada em que o Benfica tinha mais possibilidades de perder pontos. Depois disto, acaba por ficar mais difícil e vamos ter que pensar não só em 24 pontos como em golos, muito golos, pois não podemos confiar que um 1x0 chegue na Luz. Sabendo perfeitamente que a jogar como hoje nem esse 1x0 vai aparecer.
O Benfica vai ter 2 jogos consecutivos na Luz e 6 dos últimos 8 jogos vão ser disputados em Lisboa. Ficou mais difícil porque estávamos à espera de um deslize do Benfica, mas agora teremos que esperar por 2 ou acreditar numa reviravolta épica como na Taça de 2010-11 (não vale a pena pensar em 2-0 porque na Luz o Benfica nunca fica em branco no campeonato, logo será sempre necessário fazer 3 golos). Mas vencer o clássico por si só já seria difícil, agora tornou-se ainda mais. Um jogo para pensar e preparar depois, porque até lá faltam 3 jornadas e uma eliminatória com o Bayern, na qual o FC Porto não terá hipóteses de deixar uma boa imagem se jogar como hoje na Madeira.
Hoje há desilusão porque Lopetegui e os jogadores fizeram tudo e todos acreditar que era possível ser campeão, mesmo num campeonato sujinho. Mas para a história da 26ª jornada fica uma derrota do Benfica, com penalty e expulsão, e um jogo que o FC Porto não conseguiu ganhar por culpa própria. Fomos combatendo o que não podemos controlar, mas hoje falhámos no que estava ao nosso alcance. A luta não acabou, mas ficou mais difícil. Ficou mais difícil, mas ainda não acabou. Copo meio cheio ou meio vazio, certo é que temos que ganhar 8 finais até ao fim do Campeonato, ou morrer a lutar por cada final. Hoje nem ganhámos, nem lutámos o suficiente.
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| Sete golos na liga |
Tello (+) - Fez mais ataques que Brahimi e Quaresma juntos, mais um bom golo e serviu de bandeja o 2-1 a Aboubakar, mas infelizmente Gottardi estava lá. Notou-se que teve dificuldades para arrancar naquele mau relvado, mas combinou várias vezes com Danilo e teve a objectividade e prontidão que Brahimi e Quaresma nunca tiveram. Não entrou bem na segunda parte, mas quem entrou?
Quaresma (+/-) - Uma vez mais, Quaresma não é capaz de meter uma bola de primeira na grande área, está sempre a fugir para a linha com o defesa em cima em vez de jogar rápido, é lento soltar a bola e não tem velocidade para ser o extremo do FC Porto que rompe no ataque. E uma vez mais, dito isto, volta a ser o mais inconformado, o mais interventivo, por muito que demore a cruzar a verdade é que meteu boas bolas na grande área e agitou o jogo. Está em melhor forma que Brahimi, e já que ainda ninguém percebeu para que foi Hernâni contratado em Janeiro, então que se aproveite ao máximo o bom momento de Quaresma.

Não deu para perceber (-) - Não sei se Casemiro pediu para sair, nem se Quintero tem treinado com grande intensidade no Olival ou se se passou o contrário com Óliver. Lopetegui é homem de convicções fortes e há-de ter tido as suas razões para gerir o jogo como geriu. Mas de facto as alterações feitas nada trouxeram ao jogo. Com a saída de Casemiro perdeu-se a dimensão física no meio-campo. Quintero não jogava há um mês e é o jogador mais lento do plantel, era suposto ser ele o abre-latas tendo Óliver no banco? E por fim, Aboubakar não consegue estar simultaneamente a jogar fora da grande área e a chegar a tempo dos cruzamentos. Faltava presença na grande área, faltava a ajuda de Gonçalo. Mas Lopetegui já tinha feito 2 alterações, e o que se diria se tivesse deixado Quaresma no banco? Quaresma devia ter entrado antes e a última alteração devia servir para meter Gonçalo, para arriscar, ou segurar o resultado após fazer o 2-1. Foi o jogo em que Lopetegui pior mexeu esta época, ou pelo menos aquela cujas alterações menos proveitos deram (nenhum). Não houve plano B e estivemos 90 minutos à espera que algo acontecesse.
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| Carrossel para lado nenhum |
Levar a bola para casa (-) - Lopetegui confiou até ao limite que
Brahimi ia sacar qualquer coisa da cartola. Mas hoje Yacine nem uma finta ou um cruzamento conseguiu acertar, quanto mais um momento que pudesse decidir o jogo. Tem uma coisa boa, que é mesmo jogando mal consegue segurar a bola e arrastar marcações. E quando isso acontece tem que aprender a soltar a bola para zonas interiores. Brahimi pode jogar mal, mas tem que aprender a jogar mal.
Pela milésima vez ... (-) - Já estive mais longe de fazer um levantamento do aproveitamento nos pontapés de canto. E arrisco dizer que o FC Porto é a equipa que pior aproveita os cantos no Campeonato. É bola na área de qualquer forma, para o molho, e quem quiser que lá chegue. Não há lances estudados, não há movimentações padrão, não há ninguém que se destaque ou seja referência ao primeiro e segundo postes. Se este é o calcanhar de aquiles de Lopetegui, a equipa técnica tem urgentemente que ser reforçada com alguém ou algo que potencie as bolas paradas, porque não há memória de um FC Porto tão fraco nestes lances. Que marquem cantos curtos ou devolvam a bola à primeira fase de construção, porque de bola directa não há uma que funcione.
Ingratidão para Aboubakar (-) - Aboubakar não esteve bem, não. Mas não é fácil fazer o papel de Jackson (que falta fez...), ao alcance de poucos no futebol mundial. Já evoluiu muito nesse sentido, mas hoje foram visíveis as dificuldades em jogar de costas para a baliza, longe da linha defensiva, e simultaneamente ter que chegar a tempo e às zonas certas na grande área. Tirando um cruzamento de Tello para Aboubakar, não houve mais nenhum lance assim. Precisava de apoio, mas Quaresma não podia ficar no banco e o sacrificado foi Gonçalo. De certeza que Lopetegui não voltará a cometer este erro nas substituições. Alex Sandro, Evandro e Herrera pareciam rebentados fisicamente e isso impediu-os de tomar as decisões mais acertadas. Jogo mal conseguido.
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A culpa não é do treinador |
Queres sair? (-) -
Quintero é menino para ter ficado chateado no dia do parto da mãe. Não dá para compreender, rapaz. Desde o primeiro que treinou no Olival, dizia quem via: «Tem um potencial fenomenal, mas julga que é craque e não leva os treinos a sério». Nós já te vimos fazer grandes coisas, Quintero, já vimos a bola sair dos pés com olhinhos. Mas hoje foi mais uma demonstração do porquê de não ter mais oportunidades. Lento, sem garra, sem se assumir sem bola, chateado com o mundo. O FC Porto investiu mais 4,5M€ no seu passe esta época, e desde então nada se viu de Quintero. Se não quer jogar no FC Porto, então que o seu futuro vá à mesa no fim da época. Mas se o jogador não tem sido opção, era hoje que Lopetegui esperava uma reação de Quintero? Certo é que não funcionou e foi uma substituição queimada. E uma vez mais vemos muito potencial a ser queimado, com culpas próprias. Está mais perto de ser o novo Iturbe do que o novo James.
Pausa para as Selecções. Não há equipas que passam de bestiais a bestas, mas é possível passar de jogos bons a jogos maus. Hoje foi um mau dia, coincidente com o desperdício da oportunidade que há muito ansiávamos. Não estamos obrigados a ser campeões, mas quem veste a camisola do FC Porto está obrigado a suar sangue por esse objectivo. Não fizemos a segunda parte, então ficamos mais distantes da primeira. Dia 2 há nova visita à Madeira. Nem quero saber da Taça da Liga: quero é que corrijam a miséria que têm sido os jogos do FC Porto na Madeira.
Quem os viu na Madeira a festejar... Nós é que já não lá festejamos há um bom bocado. Já é hora, FC Porto.