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terça-feira, 6 de junho de 2017

Para afixar e refletir

«Adoro o futebol realista, pragmático, com velocidade em direção à baliza adversária. Isso é o mais difícil no futebol (...) É por isso que adoro o Mónaco, a equipa mais completa, a melhor do campeonato. Mas tenho diferenças em relação a Jardim. Ele acha que é melhor ganhar 4-3, eu penso que é melhor ganhar 1-0 (...) A única coisa que garante pontos é não sofrer golos». Sérgio Conceição, 21-03-2017, Ouest France

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A luta de Sérgio

Estamos no defeso de 2014, marcado pela saída de Paulo Fonseca e pelo período de transição de Luís Castro. Os adeptos estavam fartos de um treinador que, no entender de muitos, não percebia «a mística». Queriam um «discurso à Porto». Queriam «garra». Queriam um treinador que parasse de confundir os nomes dos clubes e que batesse menos palmas no banco de suplentes.

Chegou Lopetegui. Época e meia depois, Lopetegui saía. E saía com os adeptos a suspirarem por alguém que representasse todos os lugares comuns: a mística, a garra, o ser Porto, o não jogar resguardado contra o Benfica.  

Depois José Peseiro chegou, viu e partiu. E adivinhem que conclusão deixou nos adeptos: que era necessário um treinador com mais garra, que não fosse mosquinha morta, que jogasse sempre para ganhar, que entendesse o ser Porto.

Chega então depois Nuno Espírito Santo, que muito apreciavam por ser um treinador «da casa», que entendia «a mística», que representava o ser Porto. NES revela-se então um treinador manso, de pouca determinação, pouca ambição e mais preocupado em ser politicamente correto do que em contra-atacar pelo FC Porto. A que conclusão chegaram muitos adeptos? Que falta garra, que falta mística, que falta o ser Porto. Que estão cansados de ver um treinador mansinho. 

Uma, duas, três vezes... E nasce o padrão. Os adeptos acabam sempre a pedir a mesma coisa. Nem todos: há quem entenda que a competência é mais importante do que a paixão, sendo certo que competência sem paixão dificilmente rima com sucesso. Mas podem ter a garantia de uma coisa: dentro de um ano, já ninguém andará a suspirar pela falta de mística ou pela falta de garra. Porque com Sérgio Conceição encontramos o expoente máximo disso mesmo: a garantia de garra, de ambição, de entendimento e conhecimento da mística. No final da época que se avizinha, só se poderá pedir uma de duas coisas: ou a sua continuidade, ou o fim da história da mística e da garra, passando a suspirar por competência. Não necessariamente apenas do treinador. 

Sérgio Conceição é então o escolhido para comandar o FC Porto, faltando todavia acertar a rescisão com o Nantes, processo naturalmente demorado e que tem muito que se lhe diga. Isto confirma, desde logo, que a SAD não tem planos de mudar e que se revela incapaz - ou desinteressada - em contratar um treinador habituado a ganhar. Podemos começar por recordar este excerto escrito a 1 de junho de 2016, dia da confirmação de NES como treinador do FC Porto. 
«No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.
Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira. 
Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?»
Basta substituírem o nome de Nuno Espírito Santo pelo de Sérgio Conceição. Ou a SAD não quer, ou não consegue contratar um treinador de um perfil superior

O FC Porto não é, neste momento, um clube ganhador, que esteja a conquistar títulos e troféus. Não é um clube onde os treinadores chegam, veem e vencem. Vamos cumprir um período de pelo menos cinco anos sem títulos. Temos então o nome de Sérgio Conceição: é um treinador ganhador? Também não, ainda não conseguiu troféus na sua carreira de treinador.

Dirão que foi esse padrão que fez do FC Porto um clube vitorioso: treinadores jovens, sem títulos, que chegaram às Antas ou ao Dragão para ganhar pela primeira vez. Falta é reconhecerem que os tempos mudaram: nenhum treinador chegou ao FC Porto de Pinto da Costa após um período de seca de quatro anos sem títulos, com um Benfica tetracampeão e numa crise financeira grave na SAD. Sérgio Conceição não encontra o mesmo que José Mourinho ou André Villas-Boas encontraram: encontra um desafio muito, muito maior pela frente. 

Então. Clube que não está a ganhar + treinador que nunca ganhou... O que faz os adeptos acreditarem? Nada mais do que a mística e a vontade intrínseca de vencer. Pois se o clube não está, atualmente, numa fase vitoriosa, que exigências podem ser apresentadas a Sérgio Conceição para que ganhe no FC Porto pela primeira vez? E que condições terá ele para isso?

Não é o início de uma análise depreciativa. Pelo contrário. Para quem aprecia resultados, Sérgio Conceição deu goleada a Marco Silva, por muito boa imprensa que este último tenha tido. Quando Marco Silva chegou ao Hull, a equipa estava a três pontos da linha de água. Acabou a seis. Quando Sérgio Conceição chegou ao Nantes, a equipa estava na zona de despromoção. Deixou-a no 7º lugar, às portas da zona de qualificação europeia. Para quem privilegia os resultados como base de avaliação de um treinador, nem há discussão, pelo menos face à época 2016-17 (lógico que Marco Silva fez mais no Estoril do que Sérgio Conceição nos clubes portugueses que treinou). 

Mas a maior questão é: porquê Sérgio Conceição? É bom recordar o que disse Pinto da Costa nesta entrevista: «Quando tenho na equipa Hulk, James e Falcao, o treinador é indiferente. Com eles é difícil não ganhar. Mas entrámos num período em que não tínhamos esses jogadores nem capacidade económica para substituí-los». 

Este comentário, além de desvalorizar imenso o bom trabalho que Villas-Boas e Vítor Pereira (sem coincidência, os últimos treinadores campeões pelo FC Porto) fizeram, antecipa a questão: Sérgio Conceição vai ter um Hulk, um James ou um Falcao? Se não, então será Sérgio Conceição aquele treinador que vai elevar a qualidade de um plantel razoável, ao invés de ter um plantel que eleva a qualidade do próprio treinador?

Se o contexto económico da SAD não é favorável, não havendo perspetivas de Hulks ou Falcoes, a SAD pedirá a Sérgio Conceição aquilo que ainda não conseguiu na sua carreira: vencer como treinador. E o que faz Sérgio Conceição? Corre em direção às balas.

Ao contrário de Nuno Espírito Santo, que não fez nada na sua carreira (quer como guarda-redes, quer como treinador) sem Jorge Mendes, Sérgio Conceição subiu a pulso e trata as dificuldades por tu. Até há bem pouco tempo, Sérgio Conceição era um treinador aclamado e adorado em Nantes. E não foi fácil encontrar isso na sua carreira.

Estamos a falar de um técnico que teve problemas por todos os clubes por onde passou, não só no balneário como com os dirigentes. No Nantes, pelos bons resultados que apresentou, tornou-se um nome indiscutível e aclamado. E que faz ele agora? Tenciona abdicar de tudo isso em prol de se juntar à luta pelo FC Porto, onde sabe que qualquer treinador corre o risco de se queimar.

A vitória de Sérgio Conceição começa aqui: larga zonas de confronto para enfrentar o risco. Quer ser ele o treinador a pôr fim ao maior jejum de troféus nos últimos 30 anos. Ninguém lhe vai prometer um Hulk, um Falcao ou um James. Ou então, num contexto mais atual, ninguém lhe vai prometer um Casillas, um Maxi, um Brahimi ou um André Silva. Que faz ele? Quer abraçar o desafio. Sem pensar duas vezes, quiçá sem saber muito bem o que vai encontrar no FC Porto. 

Nenhum adepto sabe ainda se Sérgio Conceição vai jogar em 4x4x2 ou 4x2x3x1. Se vai jogar em posse, em transição rápida, se vai ser híbrido. Não é, até à data, um treinador que tenha diferenciado os clubes por onde passou com um estilo de jogo particularmente brilhante ou positivo. O Paços de Paulo Fonseca jogou melhor futebol que o Braga ou o Guimarães (apenas 8 vitórias em 2015-16) de Conceição, por exemplo. O que não é garantia de nada, mas que sugere uma coisa: o FC Porto não está, com Sérgio Conceição, a contratar um modelo ou uma ideia de jogo

Está, isso sim, a contratar sede de vencer e um homem que vai ao encontro das dificuldades, trocando o conforto pelo risco. Sérgio Conceição não é, provavelmente, a melhor escolha para treinador. Mas como homem, já começou a vencer pelo FC Porto: está disposto a queimar-se a ele próprio para tentar a reerguer o clube que aprendeu a respeitar e a amar.

Sérgio Conceição, o homem e o treinador, terá todo o apoio ao longo da sua estadia no FC Porto, sempre que esteja envolvido no compromisso de crescer e vencer. Se Sérgio Conceição falhar, não é o falhanço nem do homem, nem do treinador, mas sim do modelo e da estrutura que gere o FC Porto. Não há, por isso, pressão para Sérgio Conceição. Mas não duvidem: não será homem para fugir dela.

Força, Sérgio!

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Atual

«De qualquer forma, não vale a pena trocar de treinador só por trocar, que é o que muitos sugerem, com escolhas de nomes que não lembram ao Espírito Santo (pun intended).

No dia em que o FC Porto quiser escolher um novo treinador, terá que mudar de perfil. Chega de projetos de apostas de risco. Será necessário um treinador experiente. Habituado a lutar por títulos e a ter vedetas no balneário. Um treinador que saiba que tem que jogar quase sempre contra equipas fechadas, em maus relvados e a deparar-se contra o anti-jogo. Um treinador que saiba potenciar e evoluir jovens e ter que reconstruir a equipa ano após ano. E por fim, um treinador que saiba que vai ser mais criticado por uma derrota do que elogiado por 10 vitórias, um treinador que saiba que vai ter muita gente a não gostar dele - e não só clubes rivais. Quem achar que há alguém deste perfil livre, por aí, telefone ao presidente».

Um texto escrito n'O Tribunal do Dragão em 2015, ainda era Julen Lopetegui o treinador do FC Porto e já se prognosticava, à distância, uma eventual e indesejada chegada de Nuno Espírito Santo ao Dragão. 

Agora, mais do que nunca, é o momento do FC Porto, na palavra do seu presidente, responder à questão: vão assumir a mudança, privilegiando a aposta num treinador de créditos firmados (algo difícil de encontrar no mercado nacional, certo) ou continuar nas apostas de risco que não têm funcionado nos últimos anos? 

Vem isto a propósito da interessante manchete do jornal O Jogo, que escreve que o FC Porto quer investir numa equipa forte para convencer Marco Silva a rumar ao Dragão. O que sugere a repetição de erros do passado. Acabou a era dos campeonatos em piloto-automático: não precisamos de criar condições para fazer de um treinador campeão; precisamos sim de um treinador que potencie, ao máximo, as condições já existentes (não esquecendo que, até ao final do próximo mês, há inúmeros problemas para resolver quando ao orçamento da época e ao fair-play financeiro). 

A questão é: esse treinador existe? Quem apresentou Nuno Espírito Santo para a época que agora findou tem a oportunidade de se redimir. E quem sabe quantas mais haverá. 

É também a oportunidade de se recuperar esta célebre intervenção de Pinto da Costa: «Às vezes não é preciso um treinador como Lopetegui. Quando se tem Hulk, Falcao ou James, é-me indiferente quem é o treinador. Com eles é difícil não ganhar.» Certo. Então vamos só recordar que neste plantel não há Hulks, nem Falcoes, nem James. E desconhecem-se quantos destes craques nasceram com a visão de Marco Silva. 

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Manifesto da fé possível

No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.

A escolha de Pinto da Costa
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.

Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira. 

Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?

Tomemos o exemplo de Rui Vitória. Não era um treinador para chegar a uma equipa grande e ser campeão. Prova disso é que os seus primeiros meses foram um desastre e esteve à beira de sair do Benfica. Mas conforme foi analisado aqui, aguentou-se com circunstâncias que dificilmente existiriam no FC Porto. Ter a influência que o Benfica tem na Federação, na Liga e nas pastas da arbitragem ajuda. E não ser isolado sempre como o único/principal responsável pelos maus resultados da equipa também. 

Não deixa de ser curioso que quem subscreve esta contratação de Nuno Espírito Santo fala essencialmente sobre uma coisa: sobre a garra, sobre a mística, sobre o Ser Porto. Isso é tudo muito, muito importante. Mas não basta o ADN do Ser Porto: é preciso o ADN da competência.

Pinto da Costa não chegou a melhor presidente da história do futebol por ser portista: fê-lo por ser um portista competente. Nomes sagrados da nossa história, como João Pinto, André, Fernando Gomes ou Baía, não se tornaram ícones do futebol apenas por serem portistas: mas sim por serem portistas competentes. Jesualdo Ferreira ou José Mourinho não eram portistas: mas eram competentes. Licá é um grande portista: mas a nível técnico-tático não é suficiente.

Portanto, não vale a pena alimentar os romantismos e imaginar que basta entender a tal mística. Não basta Nuno Espírito Santo chegar à apresentação e falar da mística e do Ser Porto (expressão que por certo vai repetir algumas vezes). É fácil empolgar os adeptos do FC Porto no curto prazo, basta gritar as tais palavras de ordem, falar da garra e da mística. Mas no médio prazo, o que fará a diferença será sempre a competência de Nuno Espírito Santo naquilo que possa controlar. Quando o play-off da Champions terminar, já vai haver muita gente a mudar a opinião sobre Nuno; resta saber se para o bem ou para o mal. 

Mais do que discutir neste momento o portismo, interessa discutir o que pode Nuno oferecer ao FC Porto nas funções de treinador. É um treinador pouco experiente, e não é por ter trabalhado junto a José Mourinho que isso muda (quantos ex-jogadores ou adjuntos de José Mourinho estão a ter grandes carreiras a solo? E porque é que Rui Faria nunca quis arriscar? Pois...). Há uma teoria que diz que guarda-redes nunca chegam a grandes treinadores, mas a regra só existe até haver exceções.

A época 2013-14 de Nuno, no Rio Ave, foi francamente má. Depois de um início bastante razoável em 2012-13, onde foi 6º classificado (o mesmo que Pedro Martins este ano, portanto), o Rio Ave foi uma das equipas que pior futebol praticava. Foi apenas 11º no campeonato, com destaque para o facto de ter ganho apenas 2 jogos em casa e de ter marcado apenas 10 golos. É muito pouco.

Fora de casa, o Rio Ave era mais forte, porque jogava como Nuno queria: linhas mais baixas, transições rápidas. Sempre que jogava em campos sem espaço, o Rio Ave de Nuno tinha imensas dificuldades. É por isso que era uma equipa que não conseguia assumir o jogo quando jogava em casa. Fez uma boa campanha na Taça de Portugal, ao ir à final, mas essa competição não foi a regra, foi a exceção. A Taça até Pedro Emanuel ganhou-a.

No Rio Ave, Nuno teve condições sem igual. Jorge Mendes colocou ou estava ligado a muitos jogadores no Rio Ave (Marcelo, Felipe Augusto, Tiago Pinto, Ederson, Ukra, Diego Lopes, Alberto Rodríguez, Roderick, Luis Gustavo...), o que não é surpresa. Jorge Mendes é um empresário que está a apostar muito em Nuno. A amizade deles já é conhecida. 

Rezam as crónicas que se conheceram numa discoteca em Caminha, tinha Jorge Mendes 30 anos e não mais do que um pequeno clube de vídeo e um acordo publicitário no Lanheses. Nuno foi o primeiro jogador que ele ajudou a intermediar, e a partir daí nasceram os laços que se conhecem. Colocou Nuno duas vezes no FC Porto, e de todas essas passagens só se guarda uma grande exibição de Nuno (em Braga, na noite do hat-trick de Jankauskas), com destaque para o facto de ter ganho a Intercontinental sem ter feito uma única defesa (pé frio não deve ser, de certeza). 

Que outro treinador, em plena conferência de imprensa, telefona ao empresário a dizer que o adora? Só Nuno. E que outro treinador admite, sem rodeios, que só foi para determinado clube por causa de Jorge Mendes? Nuno, que admitiu que só foi para o Rio Ave e, posteriormente, Valência por ser representado por Mendes. 

A ligação de Jorge Mendes a Nuno Espírito Santo não há-de ser a coisa mais prejudicial para o FC Porto. O FC Porto só contrata jogadores ligados à Gestifute se assim o quiser. Aliás, o FC Porto poucas vezes contrata jogadores da Gestifute - o que faz é recorrer a Jorge Mendes quando chega a hora de vender os jogadores, por ser o empresário que melhores negócios faz. De certeza que o facto de Nuno ter Mendes como empresário não há-de gerar mais conflitos de interesse do que pagar comissões a irmãos ou filhos de membros do Conselho de Administração. 

O trabalho de Nuno no Rio Ave não recomenda em nada a sua ida para o FC Porto. E no Valência? Na primeira época houve claramente uma grande evolução. O seu Valência já era capaz de assumir-se a jogar em casa (onde só perdeu uma vez na Liga), e acabou por cumprir os objetivos no limite. Se é verdade que ficou a um ponto do 3º lugar, também é verdade que só chegou ao 4º lugar por um ponto. Menos um ponto e tinha falhado os objetivos no Valência.

A segunda época no Valência foi francamente má, e Nuno acabou por sair. Veio Neville, e foi ainda pior. Faz lembrar a questão Lopetegui vs. Peseiro. O primeiro pode não ter feito um bom trabalho, mas se o sucessor era pior só podia ser... pior. E o Valência, tal como o FC Porto do passado recente, não é o clube mais estável para um treinador. Uma nota: esperemos que o FC Porto tenha feito muito bem o trabalho de casa sobre o relacionamento de Nuno com os jogadores no balneário do Valência e do Rio Ave. O FC Porto não pode ter craques, vedetas, mas também necessita de um treinador que seja bem acolhido pelo grupo, que resolva problemas e não que os crie. 

No Valência, Nuno também teve recursos sem igual. Nas duas pré-épocas de Nuno no Valência, o clube investiu mais dinheiro que nas últimas 7 épocas juntas. É verdade que os orçamentos não ganham campeonatos, mas Nuno teve, até hoje, a sorte de estar em dois clubes que estão em fase de investimento pela ligação a Jorge Mendes. 

Certamente que Jorge Mendes não poderá ser tão interventivo no FC Porto como foi no Rio Ave ou no Valência. O empresário está aí para sugerir jogadores (e deve fazê-lo à SAD, não ao treinador) e para negociá-los se tiver procuração para tal. Não é para torcer que jogue A em vez de B, nem  fazer nada que possa interferir no trabalho diário do treinador.

No Rio Ave, Nuno saiu após uma má época no campeonato. Foi para o Valência, de onde acabou por sair no fim de novembro, também por maus resultados (e por alguns lhe terem querido fazer a cama, algo a que qualquer treinador do FC Porto tem que estar habituado). As duas passagens anteriores de Nuno recomendam a ida para o FC Porto? Não, de todo. Mas é exatamente o tipo de escolha que Pinto da Costa sempre fez. Não muda o seu registo.

É sem dúvida questionável como é que se vai buscar Peseiro em janeiro (o mesmo mês em que se criticou a postura de Jorge Mendes no negócio Adrián), quando Nuno estava livre, para ir agora buscar Nuno. E tendo em conta que Peseiro não veio de graça, mais questionável ainda. Ou seja, Nuno Espírito Santo, em janeiro e estando livre, não interessou; mas nestes meses que passou sem clube passou a interessar. Já nasceu a teoria de que Nuno estava a trabalhar por fora há algum tempo. Se fosse verdade, o lógico teria sido fazer o que se fez com José Mourinho em 2001-02, não ir buscar Peseiro. 

Nuno Espírito Santo passará hoje a ser o treinador do FC Porto. Foi a escolha de Pinto da Costa, o mesmo presidente que 79% reelegeram em abril. Como Pinto da Costa não definiu nenhum treinador para o 14º mandato, foi uma vez mais demonstrado que a estrutura é mais importante do que o treinador; é por isso que reelegeram Pinto da Costa, e não um presidente que tinha um treinador previsto (que é o que acontece nas eleições de muitos outros clubes). 

Não é uma escolha que mereça subscrição, mas se Nuno Espírito Santo é a resposta de Pinto da Costa ao seu pior mandato à frente do FC Porto, e a um dos momentos mais críticos da história do clube... Tem que acertar. Como teria quando foi dispensado o treinador bicampeão. Como teria quando fomos buscar um treinador sem experiência em clubes. Como teria quando Lopetegui foi dispensado em janeiro.

A Nuno Espírito Santo, enquanto defender os superiores interesses do FC Porto, e conseguir que o portismo e a competência estejam juntas, será defendido neste espaço. Será sempre defendido, julgado ou analisado pelas suas funções enquanto treinador, apenas e só. Como é um treinador que nunca ganhou nada nem chega ao FC Porto com bagagem que o justifique, o seu sucesso será louvável e recheado de mérito; o contrário não será uma derrota sua, do treinador, mas de outrém, e um mero espelho do trabalho antes de chegar ao FC Porto. 

PS: A análise ao R&C do 3º trimestre será publicada depois, uma vez que impunha-se o post antes da apresentação do treinador.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Rui Vitória não seria campeão no FC Porto

No futebol português, os treinadores são bestiais quando ganham e bestas quando perdem. Rui Vitória é apenas mais um exemplo. Em fins de outubro já se discutia a sua saída, que poderia muito bem ter sido carimbada à 11ª jornada, em caso de derrota em Braga. Perdeu 7 jogos na primeira parte da época, dos quais 4 clássicos, e à 8ª jornada levou 3x0 em casa do Sporting e já estava a 7 pontos da liderança. Isto depois de uma pré-época sem ganhar um único jogo. Acabou campeão.

No FC Porto, Rui Vitória não seria campeão. E o que está em causa nem é a valia técnico-tática do treinador, nem o aparo dado por Vítor Pereira e pelo sistema encarnado, mas sim algo mais.

Quando o Benfica estava a perder 3x0 com o Sporting na Luz, ficando já a 7 pontos da liderança e no 6º lugar, vemos uma grande onda de apoio ao treinador e à equipa no minuto 70. 

Ser protegido nas derrotas
Já quando o FC Porto estava a vencer a Académica por 3x0, subindo pela primeira vez à liderança isolada do campeonato nos últimos dois anos... Os adeptos decidem brindar o treinador com uma grande assobiadela, por ter preferido lançar um jogador em vez de outro. Os mesmos adeptos que assobiam ao primeiro passe falhado. Os mesmos que assobiaram Brahimi antes de este marcar o penalty no último jogo no Dragão, por preferirem que tivesse sido André Silva a marcar.

O Estádio do Dragão deixou de ser um estádio temido pelos adversários. Deixou de sê-lo porque os adeptos da casa pressionam mais o FC Porto do que os adversários. Vejam-se as intervenções de treinadores como Jorge Simão e Filipe Gouveia quando foram ao Dragão: explicaram que a intenção das suas equipas era aguentar até os adeptos do FC Porto começarem a assobiar e a pressionar os seus jogadores. E dizem isto sem rodeios, sem hesitação. 

Rui Vitória não seria campeão no FC Porto porque, em outubro, já teria mil e um pedidos de demissão. Não chegaria a terminar a época, tamanha que seria a pressão sobre ele. 

Quem não se lembra da primeira derrota de Paulo Fonseca no campeonato? Depois de perder em Coimbra, tinha 200 adeptos à espera no Dragão, com tochas e insultos. Estava a 2 pontos da liderança. Imaginem como seria se já tivesse perdido 7 jogos e estivesse no 6º lugar do campeonato (não desvalorizando o fator Liga dos Campeões e os empates, que numa perspetiva de um candidato ao título são quase tão negativos como derrotas).

Paulo Fonseca, apesar de tudo, ainda aguentou mais do que Vítor Pereira, que em setembro de 2011, depois de uma derrota com o Zenit, já era altamente contestado e insultado. E num passado mais recente temos Lopetegui, que à primeira derrota foi eliminado da Taça pelo Sporting; Rui Vitória também foi eliminado da Taça pelo Sporting, mas o tratamento foi bem diferente. Antes de Lopetegui perder o seu primeiro clássico já Rui Vitória tinha perdido 4.

Os treinadores do Benfica, ao contrário dos do FC Porto, não são sob eterno escrutínio e crítica por parte da imprensa. Os do Sporting também são mais protegidos, embora sem comparação com o Benfica. Quem treina o FC Porto, à primeira derrota, fica marcado. O problema é que grande parte da massa adepta, ao invés de combater esse fenómeno, contribui para ele.

O sentido crítico tem que estar sempre presente. Mas uma coisa é fazê-lo no final dos jogos, de forma sustentada e legítima. Outra é pressionar a própria equipa ao longo dos 90 minutos, começando bem cedo a assobiar os jogadores. O FC Porto pode ter jogadores mais ou menos talentosos, mas de certeza que nenhum deles quis deixar de singrar no FC Porto. A diferença entre o razoável jogador e o bom jogador está, muitas vezes, na força anímica que lhe é transmitida. Até Rui Vitória Carlos Carvalhal percebeu isso

Na última época, vimos o treinador do Benfica aplaudido na hora da derrota e o do FC Porto assobiado na hora da vitória. Em novembro, foi notícia que um grupo de adeptos do Benfica forçou a entrada no Seixal para dar um aperto aos jogadores. Coincidência ou não, depois desse aperto o Benfica ganhou 22 de 24 jornadas, e a única que perdeu foi graças à grande exibição de Casillas na Luz.

Quando falamos em aperto, não é intimidação, nem insulto. Esses só merecem repúdio. Por aperto entenda-se deixar uma mensagem clara aos jogadores, de que exigimos esforço máximo da parte deles, e que os adeptos só estarão com eles se sentirem esse esforço. Por outro lado, se um plantel sabe que os adeptos e até membros do próprio clube estão contra determinado treinador, esse treinador perde força sobre o plantel. 

Rui Vitória esteve sempre protegido. Uma questão: quantas vezes ouviram Rui Costa falar publicamente durante esta época? Bastou uma: em novembro, para dizer que em Rui Vitória não se tocava. Quem, no FC Porto, poderá fazer esse papel, de declarar confiança num treinador na hora da derrota? É que falar na hora da vitória é fácil e pouco necessário. 

Mobilizar os adeptos: uma necessidade já para a próxima época
Há outra questão que deveria merecer mais preocupação por parte do FC Porto: a capacidade de mobilizar os seus adeptos. O Sporting, 3º força do futebol português, conseguiu levar mais 120 mil adeptos ao seu estádio do que o FC Porto, tendo uma média de ocupação de 78,07%, contra os 64,48% do FC Porto.

Poderão dizer que isso deve-se ao facto de o Sporting ter lutado pelo título até ao fim, enquanto o FC Porto ficou fora da luta mais cedo. Nada mais errado. Na grandiosa época de 2010-11, em que o FC Porto varreu tudo, tivemos uma média de 35 379 adeptos/jogo. Na época, seguinte, baixou para 33 574. E na última época do tri, a média baixou ainda mais, para 28 205. Como se explica que o FC Porto, em qualquer uma das épocas em que foi campeão, tenha menos adeptos do que o Sporting (39 mil por jogo esta época), que não ganhou nada além de uma Supertaça?

Até 2013, o FC Porto teve sempre, sempre mais adeptos do que o Sporting. Desde o golo de Kelvin, a tendência inverteu-se, e agora o Sporting leva mais gente ao seu estádio, com a maior taxa de ocupação do nosso futebol (78.07%). Isso explica-se pelo pouco empenho do FC Porto em mobilizar a sua massa adepta. Não vemos incentivos suficientes à criação de novos sócios, mais promoções na venda de bilhetes, mais iniciativas de proximidade clube-adeptos. 

Por que não propor-se ao desafio de, a partir da próxima época, o FC Porto tentar atingir a média de assistências de 40 mil adeptos? De certeza que mais promoções na venda de bilhetes não vão empobrecer a SAD, na medida em que as receitas de bilheteira não representam uma grande fatia nas receitas operacionais. Se fosse um fator decisivo, então bem que se podia tentar acabar com a venda ilegal de bilhetes em redor do Dragão, esse sim um fator que lesa o clube financeiramente. A capacidade de mobilizar os adeptos é, também, um espelho da gestão do clube; e se há cada vez menos adeptos portistas nos estádios, nenhum administrador da SAD pode estar satisfeito ou sequer rever positivamente o seu trabalho neste campo. 

Pressionar o rival, não o FCP
Por outro lado, os adeptos do FC Porto devem propor-se ao desafio de voltarem a fazer do Estádio do Dragão um estádio temido. Porque a identidade de um estádio não está no seu treinador, nem nos jogadores: está nos adeptos!

Quando pensam no estádio do Dortmund, a primeira coisa em que pensam não é no Reus nem no Aubameyang: é nas coreografias dos adeptos, na muralha amarela. Quando pensamos em Anfield Road, não pensamos em outra coisa senão naquele You'll Never Walk Alone. Quem pensa no Estádio do Dragão, tem que pensar que, além de ter que defrontar o FC Porto, ainda tem que levar com a pressão de milhares de adeptos que vão puxar pela sua equipa até ao final e tentar perturbar o adversário ao máximo.

Fica o desafio. O FC Porto tem que voltar a ser um clube temido, e isso começa pela postura que os adeptos vão ter perante o treinador e os jogadores ao longo dos 90 minutos de cada jogo, nunca esquecendo que tem que haver retribuição do outro lado. 

Não será no Dragão, mas nos próximos 2 jogos oficiais o FC Porto pode ganhar 2 troféus. Não há melhores circunstâncias para (re)começar. Voltemos a ser um clube uno, temido e cujos adeptos lutam ao lado da equipa até ao minuto 90, ou até ao minuto 92. Um clube de raça e orgulho. Um clube onde qualquer Rui Vitória conseguisse ser campeão.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Uma questão para a France Football e um prémio

Portanto, Pinto da Costa quer Vítor Pereira (perante a eventual indisponibilidade de Jorge Jesus), Antero Henrique quer Marco Silva... e Alexandre Pinto da Costa quer Paulo Sousa. Foi isto que a France Football escreveu. Uma notícia que merece particular curiosidade por ter sido escrita por Nicolas Vilas Boas, um jornalista luso-descendente que tem alguma proximidade com o FC Porto.

E disto, aquilo que mais curiosidade desperta não é saber quem vai ser o treinador do FC Porto para 2016-17. É saber por que raio Alexandre Pinto da Costa teria opinião nesta matéria.


De um lado temos o presidente do FC Porto, que tem sempre a palavra na escolha do treinador. Do outro temos o recentemente promovido a membro do Conselho de Administração e diretor-geral da SAD. E por fim temos um empresário que, de acordo com o próprio Pinto da Costa, é um «agente independente», que exerce a sua função de empresário livremente e sem qualquer ligação ao FC Porto. 

Então, temos que perguntar à France Football: por que haveria de interessar a opinião de Alexandre Pinto da Costa sobre o futuro treinador do FC Porto? Vão perguntar aos restantes 200 e tal empresários do futebol português quem é que eles gostariam de ver no FC Porto? Seria um exercício de rigor. Se a opinião de Alexandre Pinto da Costa é importante, também deveriam perguntar a todos os outros empresários que estão registados na FPF. Uma questão de coerência. 

Neste momento, discutir sobre quem será o futuro treinador do FC Porto não é mais do que especulação. Há dois anos, passou-se o mês de abril a debater a sucessão de Luís Castro, enquanto Lopetegui já andava no Dragão a ver os jogos e a tirar notas. 

Que se repita a história, até porque por esta altura a SAD já tem que saber se José Peseiro fica ou não. Pinto da Costa disse, e bem, que nenhum treinador pode estar dependente de uma final de uma Taça de Portugal, pela imprevisibilidade que 90 minutos podem ter. É verdade. Mas isso serve para o bem e para o mal. Jesualdo Ferreira acabou 2009-10 a ganhar 10 jornadas consecutivas e conquistou a Taça de Portugal, mas a decisão já estava tomada. Que volte a ser o caso com José Peseiro. 

Entretanto, algo que merece a nossa curiosidade. Nuno Vicente está longe de ser um dos melhores árbitros assistentes em Portugal. Na verdade, tem sido dos piores. Depois de ter sido 23º classificado em 2013-14, na última época foi o 38º classificado. 
Nuno Vicente

Mas Nuno Vicente tem sido injustiçado e tem uma visão periférica. Por exemplo, no Benfica B-Freamunde, em que o Benfica B desceria de divisão se não ganhasse, conseguiu ver o que mais ninguém viu: quando o marcador estava 0x0, disse a Bruno Paixão que a falta que ele tinha assinalado fora da grande área era, afinal, penalty. E reparem que ele nem sequer era árbitro auxiliar: era quarto árbitro. O bandeirinha não sugeriu a Bruno Paixão que mudasse a sua decisão, mas o 4º árbitro, que nem sequer acompanhava a jogada, decidiu fazê-lo. Brilhante. 

Hoje recebe o prémio merecido: foi nomeado para a final da Taça da Liga... como árbitro assistente. E adivinhem quem será o 4º árbitro: António Godinho, precisamente um dos assistentes no Benfica B-Freamunde. Mas o árbitro, desta vez, não é Bruno Paixão... mas sim o wonderboy Fábio Veríssimo, um dos internacionais promovidos por Vítor Pereira contra as diretrizes da FIFA.

Vítor Pereira merece deixar o Conselho de Arbitragem em ombros. Há quem diga que merece um lugar no Museu Cosme Damião. Discordemos: merece é que abram o Museu Vítor Pereira, e que metam lá os troféus conquistados pelo Benfica durante o seu mandato no CA. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

José Peseiro

Pinto da Costa dará uma entrevista ao Porto Canal na próxima quinta-feira, onde se espera que aborde, finalmente, a generalidade das questões que têm inquietado, e com muita razão, os adeptos do FC Porto. Tendo em que conta que faltam dois dias até lá, não há por que não falar já sobre José Peseiro.

Não é o treinador de sonho da generalidade dos adeptos. Mas sinceramente, que esperavam aqueles que pediam a cabeça de Lopetegui? Que a seguir vinha o Mourinho ou o Villas-Boas? Em abono da verdade, não foi ninguém da SAD a prometer esses nomes de sonho. Foram novelas dos próprios adeptos e, em alguns casos, da comunicação social.

Faria todo o sentido sondar Villas-Boas, mas já era garantido de antemão que não seria possível. Oxalá não comecem a desenhar já a novela que é no fim da época que vem. Leonardo Jardim e Marco Silva, além de estarem agarrados a outros compromissos, têm cláusulas anti-FC Porto - o primeiro seria uma boa aposta, o segundo, neste momento, não. Rui Faria não tem experiência como treinador e deve ser riscado de vez desse mapa de especulações, pois se nunca quis treinar a solo é porque não pretende sair debaixo da asa de José Mourinho. Promover Luís Castro não seria cometer um erro: seria repetir um erro. 

Peseiro: ideias e pouco mais
Surgiu então Sérgio Conceição, que estava apalavrado para substituir Rui Barros, mas o calendário foi um problema que as partes não conseguiram ultrapassar. Depois de bater o FC Porto, Sérgio Conceição foi também posto de parte. Sinceramente, o que esperavam? «Ah, ok, vençam lá a minha equipa no domingo, eu sento-me na bancada e na terça-feira apresento-me no Porto». Sérgio Conceição não é um treinador preparado para o FC Porto, mas esteve bem: defendeu as pessoas e o clube com quem tem um compromisso declarado e assumido. No que toca ao FC Porto, possivelmente vão fingir que nunca passou de especulação.

Aparece então José Peseiro. Não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira, nem a quarta opção. Fingir o contrário seria gozar com a inteligência dos adeptos do FC Porto. A generalidade dos adeptos pedia a demissão de Lopetegui, pois não tem consciência do quão difícil seria substituir um treinador a meio da época. Mas a administração do FC Porto tinha que ter essa consciência, e não teve. Não havia plano B preparado e foram necessários 12 dias até chegar um novo treinador ao clube.

Agora, José Peseiro vai estar sujeito ao mesmo que estava Lopetegui: vai ser elogiado pelo que de bom fizer e criticado construtivamente pelo que não estiver a fazer tão bem. Veremos que objetivos assume o treinador aquando da sua apresentação. Não lhe vou pedir o título de campeão, pois essa fatura passa a ser responsabilidade da SAD do FC Porto, que decidiu romper o projeto anterior e não tinha solução preparada para ele. A Taça de Portugal tem que ser nossa. Na Liga Europa, o Dortmund não permite pensar em assumir objetivos antes dessa eliminatória. Valorizar jogadores e colocar o FC Porto a praticar um melhor futebol são as metas a alcançar.

Sobre José Peseiro. É um treinador com excelentes ideias, mas que em toda a carreira nunca conseguiu metê-las em prática. Tem 55 anos e vem somando maus trabalhos em todos os clubes desde que deixou o Sporting. De facto, não fez nada nos últimos 10 anos que justifique minimamente assumir este cargo no FC Porto.

Em 2005 foi despedido do Sporting. Foi para o Al Hilal e despediu-se. Em 2007-08, demitiu-se do Panathinaikos quando estava a ser contestado.  Em 2008-09 foi para a Roménia, mas foi despedido pelo Rapid. Seguiu-se o cargo de selecionador da Arábia Saudita, mas foi despedido por maus resultados. Em 2012 foi para Braga. Ganhou a Taça da Liga ao FC Porto, mas a meio da época já via lenços brancos e rescindiu após ficar atrás do Paços de Paulo Fonseca. Depois passou pelos Emirados, nos quais foi despedido pelo Al Wahda.

Com 55 anos e apenas uma Taça da Liga para amostra, Peseiro não tem nada no currículo que justifique esta contratação. Tempos houve que o FC Porto fazia de treinadores sem currículo campeões. Mas estes tempos são outros, são tempos em que o FC Porto necessitava de um treinador com currículo para fazer do FC Porto campeão, e não o contrário.

O FC Porto até pode passar a marcar mais golos com Peseiro, que tem uma ideia de jogo muito ofensiva. Mas há um grande problema: as equipas de Peseiro são péssimas a defender. Quem o diz... é o próprio. Leiam esta explicação de quando ele estava em Braga, onde sofria muitos golos.

«Preocupa, mas não alarma nem perturba. Já se perguntaram porque é que o Manchester United sofre tantos golos? Porque ataca muito! Uma equipa com uma matriz mais ofensiva é natural que sofra mais golos. Outra questão é o processo de organização da equipa, porque quando estamos num momento defensivo, dificilmente nos criam situações de golo, mas o nosso momento de menor fortaleza é na transição defensiva, quando perdemos a bola».

Ora, só aqui há duas coisas que deixam muito a desejar. O FC Porto não tem uma grande dupla de centrais. Então, faria sentido pensar num treinador bom defensivamente (sem subtrair a importância do ataque, claro), mas o FC Porto contrata o contrário. Depois, as equipas de Peseiro são genericamente fracas no momento de transição defensiva. E tendo em conta que a maioria dos adversários vão defrontar o FC Porto em contra-ataque, nada disto faz sentido. Por outro lado, um treinador que privilegia o ataque pode ajudar as nossas unidades mais ofensivas.

As ideias de José Peseiro são sempre agradáveis, mas nunca as conseguiu meter em prática. Já esteve em muitas palestras, com Power Points bonitos, a mostrar planos de jogo que são de facto muito bem pensados. O problema é que nunca vimos as equipas dele fazer isso. Veremos se no FC Porto, com melhor matéria prima, a história muda. O FC Porto é uma equipa que, há anos, nunca prescinde do controlo do jogo. As equipas de Peseiro são sempre mais impulsivas do que controladoras.

O facto de José Peseiro ser um assumido benfiquista não é impeditivo de nada. A competência não tem clube. O último treinador benfiquista que tivemos foi tricampeão e foi sempre aos 1/8 da Liga dos Campeões, e foi quem deu o peito às balas durante o Apito Dourado. Mas obviamente, seria mais fácil para os adeptos ver no banco um treinador com o qual se pudessem identificar mais. Peseiro é um treinador com muitas ideias, mas pouco sucesso e poucas provas dadas.

De qualquer forma, Peseiro não tem que conquistar os adeptos do FC Porto: tem é que montar uma equipa que conquiste os adeptos do FC Porto. O seu sucesso será o sucesso do FC Porto. O seu demérito, será o demérito da administração do FC Porto, com um erro em cima de outro, em cima de outro. E já agora, Peseiro é o tipo de treinador que necessita de uma estrutura forte por trás de si, preocupada com o presente e futuro do FC Porto e não com eleições ou projetos de sucessão. 

Enquanto defender o FC Porto, José Peseiro será, aqui, defendido. O seu sucesso será o sucesso do FC Porto, e para esta época não há outra solução. Assim sendo, mãos à obra. Domingo já há 3 pontos para conquistar.

sábado, 9 de janeiro de 2016

O futuro treinador do FC Porto

«No dia em que o FC Porto quiser escolher um novo treinador, terá que mudar de perfil. Chega de projetos de apostas de risco. Será necessário um treinador experiente. Habituado a lutar por títulos e a ter vedetas no balneário. Um treinador que saiba que tem que jogar quase sempre contra equipas fechadas, em maus relvados e a deparar-se contra o anti-jogo. Um treinador que saiba potenciar e evoluir jovens e ter que reconstruir a equipa ano após ano».

A isto, escrito no consequências pós-Champions, podemos acrescentar: um treinador capaz de reerguer um balneário com o moral em baixo; capaz de competir com um rival que leva 4 pontos de avanço e que conseguiu já consolidar um coletivo superior ao do FC Porto; capaz de formar essa base numa questão de dias, sem recurso a pré-época ou período de adaptação ao futebol português.

E agora sobra a pergunta: que treinador se encaixa neste perfil? Provavelmente nenhum dos que estão à disposição do FC Porto neste momento. De qualquer forma, é uma solução que tem que ser encontrada por quem assumiu, a meio da época (na verdade, no espaço de menos de duas semanas), uma rutura com o projeto anterior.

O que se depreende é que o FC Porto identificou que Lopetegui era o problema. Só isso explica como se demite um treinador sem já antes ter um sucessor encaminhado. De qualquer forma, Lopetegui era parte do projeto do FC Porto; não podia nunca ser todo o projeto do FC Porto.

Por isso, o FC Porto necessita, para ontem, de um treinador para retomar o caminho. Não precisamos nem de um interino, nem de uma solução de 5 meses só para aquecer o banco até ao verão.

Estamos nos 1/4 de final da Taça de Portugal, que não ganhamos há 5 anos; estamos a recuperáveis quatro pontos da liderança do campeonato; há um apuramento direto para a Champions 2016-17 para garantir; há uma Liga Europa para disputar, e logo contra uma das equipas mais fortes da competição; há uma série de jogadores para valorizar e investimentos em atletas que têm que ser rentabilizados - e muitas vezes, o melhor investimento em atletas não é dinheiro, é um bom treinador.

Ninguém pode pensar em 2016-17 quando ainda há tanto para fazer, tanto para conquistar em 2015-16. Precisamos, para ontem, de um treinador que encaixe no perfil dos dois primeiros parágrafos. Será uma utopia reunir todas aquelas caraterísticas, mas quem toma a decisão de interromper um projeto tem que apresentar uma solução que lhe dê continuidade. Neste caso, que dê melhorias.

Resta aguardar o que decide Pinto da Costa, pois escolher um treinador é algo que requer tempo. Tempo que o FC Porto, neste momento, não tem.