No processo de escolha do treinador, é mais ou menos consensual que a escolha não seria... consensual. Nunca é, diga-se. Mas há perfis que correspondem mais às necessidades do presente do que outros.
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| A escolha de Pinto da Costa |
Neste caso, a escolha de Pinto da Costa, Nuno Espírito Santo, mostra que
o FC Porto não vai mudar. Vai continuar a apostar num treinador que vem para o FC Porto para tentar vencer pela primeira vez, em vez de procurar apostar num treinador já experimentado, com títulos, com experiência internacional (algo que é difícil conjugar com um bom conhecimento do campeonato nacional, diga-se), capaz de apostar em jovens enquanto faz evoluir jogadores e capaz de se ajustar a um plantel sob constantes alterações.
Não é que o FC Porto não seja capaz de os ir buscar. Claro que é, pois quem teria dinheiro para cobrir o contrato de Jorge Jesus com o Sporting, ou teve dinheiro para comprar Marega em janeiro, então tem dinheiro para um bom treinador. Não vai porque não quer, não é por não haver capacidade financeira.
Mas Pinto da Costa insiste na sua fórmula de sempre. Como Mourinho, como Villas-Boas, como Paulo Fonseca, como Lopetegui: treinadores sem títulos a nível de clubes, com pouca experiência, que vêm para o FC Porto para tentar ganhar pela primeira vez. A questão é: o FC Porto é um clube que proporcione essas condições?
Tomemos o exemplo de Rui Vitória. Não era um treinador para chegar a uma equipa grande e ser campeão. Prova disso é que os seus primeiros meses foram um desastre e esteve à beira de sair do Benfica. Mas conforme foi analisado
aqui, aguentou-se com circunstâncias que dificilmente existiriam no FC Porto. Ter a influência que o Benfica tem na Federação, na Liga e nas pastas da arbitragem ajuda. E não ser isolado sempre como o único/principal responsável pelos maus resultados da equipa também.
Não deixa de ser curioso que quem subscreve esta contratação de Nuno Espírito Santo fala essencialmente sobre uma coisa: sobre a garra, sobre a mística, sobre o Ser Porto. Isso é tudo muito, muito importante. Mas não basta o ADN do Ser Porto: é preciso o ADN da competência.
Pinto da Costa não chegou a melhor presidente da história do futebol por ser portista: fê-lo por ser um portista competente. Nomes sagrados da nossa história, como João Pinto, André, Fernando Gomes ou Baía, não se tornaram ícones do futebol apenas por serem portistas: mas sim por serem portistas competentes. Jesualdo Ferreira ou José Mourinho não eram portistas: mas eram competentes. Licá é um grande portista: mas a nível técnico-tático não é suficiente.
Portanto, não vale a pena alimentar os romantismos e imaginar que basta entender a tal mística. Não basta Nuno Espírito Santo chegar à apresentação e falar da mística e do Ser Porto (expressão que por certo vai repetir algumas vezes). É fácil empolgar os adeptos do FC Porto no curto prazo, basta gritar as tais palavras de ordem, falar da garra e da mística. Mas no médio prazo, o que fará a diferença será sempre a competência de Nuno Espírito Santo naquilo que possa controlar. Quando o play-off da Champions terminar, já vai haver muita gente a mudar a opinião sobre Nuno; resta saber se para o bem ou para o mal.
Mais do que discutir neste momento o portismo, interessa discutir o que pode Nuno oferecer ao FC Porto nas funções de treinador. É um treinador pouco experiente, e não é por ter trabalhado junto a José Mourinho que isso muda (quantos ex-jogadores ou adjuntos de José Mourinho estão a ter grandes carreiras a solo? E porque é que Rui Faria nunca quis arriscar? Pois...). Há uma teoria que diz que guarda-redes nunca chegam a grandes treinadores, mas a regra só existe até haver exceções.
A época 2013-14 de Nuno, no Rio Ave, foi francamente má. Depois de um início bastante razoável em 2012-13, onde foi 6º classificado (o mesmo que Pedro Martins este ano, portanto), o Rio Ave foi uma das equipas que pior futebol praticava. Foi apenas 11º no campeonato, com destaque para o facto de ter ganho apenas 2 jogos em casa e de ter marcado apenas 10 golos. É muito pouco.
Fora de casa, o Rio Ave era mais forte, porque jogava como Nuno queria: linhas mais baixas, transições rápidas. Sempre que jogava em campos sem espaço, o Rio Ave de Nuno tinha imensas dificuldades. É por isso que era uma equipa que não conseguia assumir o jogo quando jogava em casa. Fez uma boa campanha na Taça de Portugal, ao ir à final, mas essa competição não foi a regra, foi a exceção. A Taça até Pedro Emanuel ganhou-a.
No Rio Ave, Nuno teve condições sem igual. Jorge Mendes colocou ou estava ligado a muitos jogadores no Rio Ave (Marcelo, Felipe Augusto, Tiago Pinto, Ederson, Ukra, Diego Lopes, Alberto Rodríguez, Roderick, Luis Gustavo...), o que não é surpresa. Jorge Mendes é um empresário que está a apostar muito em Nuno. A amizade deles já é conhecida.
Rezam as crónicas que se conheceram numa discoteca em Caminha, tinha Jorge Mendes 30 anos e não mais do que um pequeno clube de vídeo e um acordo publicitário no Lanheses. Nuno foi o primeiro jogador que ele ajudou a intermediar, e a partir daí nasceram os laços que se conhecem. Colocou Nuno duas vezes no FC Porto, e de todas essas passagens só se guarda uma grande exibição de Nuno (em Braga, na noite do hat-trick de Jankauskas), com destaque para o facto de ter ganho a Intercontinental sem ter feito uma única defesa (pé frio não deve ser, de certeza).
Que outro treinador, em plena conferência de imprensa, telefona ao empresário a dizer que o adora? Só Nuno. E que outro treinador admite, sem rodeios, que só foi para determinado clube por causa de Jorge Mendes? Nuno, que admitiu que só foi para o Rio Ave e, posteriormente, Valência por ser representado por Mendes.
A ligação de Jorge Mendes a Nuno Espírito Santo não há-de ser a coisa mais prejudicial para o FC Porto. O FC Porto só contrata jogadores ligados à Gestifute se assim o quiser. Aliás, o FC Porto poucas vezes contrata jogadores da Gestifute - o que faz é recorrer a Jorge Mendes quando chega a hora de vender os jogadores, por ser o empresário que melhores negócios faz. De certeza que o facto de Nuno ter Mendes como empresário não há-de gerar mais conflitos de interesse do que pagar comissões a irmãos ou filhos de membros do Conselho de Administração.
O trabalho de Nuno no Rio Ave não recomenda em nada a sua ida para o FC Porto. E no Valência? Na primeira época houve claramente uma grande evolução. O seu Valência já era capaz de assumir-se a jogar em casa (onde só perdeu uma vez na Liga), e acabou por cumprir os objetivos no limite. Se é verdade que ficou a um ponto do 3º lugar, também é verdade que só chegou ao 4º lugar por um ponto. Menos um ponto e tinha falhado os objetivos no Valência.
A segunda época no Valência foi francamente má, e Nuno acabou por sair. Veio Neville, e foi ainda pior. Faz lembrar a questão Lopetegui vs. Peseiro. O primeiro pode não ter feito um bom trabalho, mas se o sucessor era pior só podia ser... pior. E o Valência, tal como o FC Porto do passado recente, não é o clube mais estável para um treinador. Uma nota: esperemos que o FC Porto tenha feito muito bem o trabalho de casa sobre o relacionamento de Nuno com os jogadores no balneário do Valência e do Rio Ave. O FC Porto não pode ter craques, vedetas, mas também necessita de um treinador que seja bem acolhido pelo grupo, que resolva problemas e não que os crie.
No Valência, Nuno também teve recursos sem igual. Nas duas pré-épocas de Nuno no Valência, o clube investiu mais dinheiro que nas últimas 7 épocas juntas. É verdade que os orçamentos não ganham campeonatos, mas Nuno teve, até hoje, a sorte de estar em dois clubes que estão em fase de investimento pela ligação a Jorge Mendes.
Certamente que Jorge Mendes não poderá ser tão interventivo no FC Porto como foi no Rio Ave ou no Valência. O empresário está aí para sugerir jogadores (e deve fazê-lo à SAD, não ao treinador) e para negociá-los se tiver procuração para tal. Não é para torcer que jogue A em vez de B, nem fazer nada que possa interferir no trabalho diário do treinador.
No Rio Ave, Nuno saiu após uma má época no campeonato. Foi para o Valência, de onde acabou por sair no fim de novembro, também por maus resultados (e por alguns lhe terem querido fazer a cama, algo a que qualquer treinador do FC Porto tem que estar habituado). As duas passagens anteriores de Nuno recomendam a ida para o FC Porto? Não, de todo. Mas é exatamente o tipo de escolha que Pinto da Costa sempre fez. Não muda o seu registo.
É sem dúvida questionável como é que se vai buscar Peseiro em janeiro (o mesmo mês em que se criticou a postura de Jorge Mendes no negócio Adrián), quando Nuno estava livre, para ir agora buscar Nuno. E tendo em conta que Peseiro não veio de graça, mais questionável ainda. Ou seja, Nuno Espírito Santo, em janeiro e estando livre, não interessou; mas nestes meses que passou sem clube passou a interessar. Já nasceu a teoria de que Nuno estava a trabalhar por fora há algum tempo. Se fosse verdade, o lógico teria sido fazer o que se fez com José Mourinho em 2001-02, não ir buscar Peseiro.
Nuno Espírito Santo passará hoje a ser o treinador do FC Porto. Foi a escolha de Pinto da Costa, o mesmo presidente que 79% reelegeram em abril. Como Pinto da Costa não definiu nenhum treinador para o 14º mandato, foi uma vez mais demonstrado que a estrutura é mais importante do que o treinador; é por isso que reelegeram Pinto da Costa, e não um presidente que tinha um treinador previsto (que é o que acontece nas eleições de muitos outros clubes).
Não é uma escolha que mereça subscrição, mas se Nuno Espírito Santo é a resposta de Pinto da Costa ao seu pior mandato à frente do FC Porto, e a um dos momentos mais críticos da história do clube... Tem que acertar. Como teria quando foi dispensado o treinador bicampeão. Como teria quando fomos buscar um treinador sem experiência em clubes. Como teria quando Lopetegui foi dispensado em janeiro.
A Nuno Espírito Santo, enquanto defender os superiores interesses do FC Porto, e conseguir que o portismo e a competência estejam juntas, será defendido neste espaço. Será sempre defendido, julgado ou analisado pelas suas funções enquanto treinador, apenas e só. Como é um treinador que nunca ganhou nada nem chega ao FC Porto com bagagem que o justifique, o seu sucesso será louvável e recheado de mérito; o contrário não será uma derrota sua, do treinador, mas de outrém, e um mero espelho do trabalho antes de chegar ao FC Porto.
PS: A análise ao R&C do 3º trimestre será publicada depois, uma vez que impunha-se o post antes da apresentação do treinador.