O FC Porto falhou um dos grandes objetivos de época, o apuramento para os 1/8 da Liga dos Campeões. Financeiramente vai abrir um buraco nas contas da SAD, mas não tão grave quanto se poderia prever. Desportivamente, a equipa cai para a Liga Europa, competição em que pode assumir uma meta mais distante, e abateu-se um grande descrédito sobre Julen Lopetegui.
Não por perder em Londres - uma vez mais, é normal, o FC Porto perdeu 15 de 17 jogos em Inglaterra, e os dois que empatou foi com golos ao cair do pano -, mas pela forma como Lopetegui geriu o jogo contra o Dynamo (este sim, era o jogo decisivo, e a derrota foi inadmissível) e pelo 11 que apresentou contra o Chelsea.
Fazer 10 pontos numa fase de grupos da Liga dos Campeões é positivo, e por norma dá para passar. Do ponto de vista global, a pontuação na Champions foi razoável. O problema foi fazer apenas um ponto contra o segundo classificado. Assim torna-se muito difícil traçar o apontamento como meta. Acabou, o FC Porto falhou, é tempo de redefinir objetivos. A Liga Europa não é necessariamente mais fácil desportivamente - se fôssemos aos 1/8 da Champions podíamos defrontar o Gent, na Liga Europa pode calhar o Dortmund -, mas é uma competição que desperta mais expetativas de ir longe.
Para já, importa calcular o efeito que a eliminação terá na contas da SAD. Para já, esperemos que não saiam desculpas de que agora é preciso vender um jogador titular em janeiro. Não é. O FC Porto orçamentou ganhos de 27,437M€ com a UEFA. No primeiro trimestre já entraram 6,544M€. Entretanto a equipa ganhou duas vezes ao Maccabi (3M€). A SAD vai receber receitas de market pool (garantidamente sabe-se que vão entrar pelo menos mais 2,84M€, pois este valor vai direto a um pagamento ao IBD). Participar nos 16 avos de final da Liga Europa dá 0,5M€. Juntando-se isto ao objetivo de garantir o acesso direto à Champions 2016-17 (ou seja, ganhar o campeonato tem o dobro da importância de ir aos 1/8 da Champions, pois o apuramento renderia apenas 5,5M€), já temos um encaixe de 24,884M€, que ainda pode aumentar mediante a entrada de mais receitas da UEFA.
Tendo em conta que estavam orçamentados 27,437M€ da UEFA, esta margem está quase alcançada. Mesmo que não entrassem mais receitas (o que pode acontecer na Liga Europa, desde a bilheteira aos direitos televisivos), nada justificaria vender um jogador da equipa titular em janeiro por um buraco de 3M€. Se tivéssemos arranjado patrocinador para as camisolas, por exemplo, estava o problema resolvido. É época após época a pedir a treinador e jogadores para darem à SAD a maior fatia das receitas operacionais. Os atletas e a equipa técnica são pagos para isso, claramente, mas a volatilidade do futebol impede que possamos dar sempre o apuramento para os 1/8 da Champions por garantido. Aliás, nos últimos 5 anos, a equipa falhou 3 vezes o apuramento. Tempo de começar a fazer contas sem dar a receita da UEFA por garantida.
Desportivamente, Pinto da Costa fez o que sempre fez: jamais despediu um treinador por falhar os 1/8 da Champions. Lopetegui não é caso único. Foi assim com Carlos Alberto Silva, Robson, Oliveira, Fernando Santos, Co Adriaanse, Vítor Pereira e Paulo Fonseca. Por isso, quem acha que Pinto da Costa está a gerir de forma diferente o caso Lopetegui, não está: está a fazer exatamente o mesmo que faz há anos. Falhar os 1/8 da Champions nunca deu direito a demissão.
A prioridade é o campeonato, claro. De todos estes treinadores, só Paulo Fonseca acabou por não ser campeão ao serviço do FC Porto. Pinto da Costa não despede treinadores que estão na luta pelo título, nunca. Nem que estão há 27 jogos sem perder no campeonato, como Lopetegui hoje o lembrou, embora isto seja muito relativo - é mais vantajoso ganhar dois jogos e perder um do que ganhar um e empatar dois. A invencibilidade é importante, mas não é a invencibilidade que dá títulos, é o maior número de pontos.
Lopetegui, obviamente, não colocou o lugar à disposição. A notícia lançada serve para tentar fragilizar ainda mais a posição de treinador do FC Porto, ou um mero wishful thinking de alguém. A partir do momento que o fizesse, teria que sair no minuto seguinte. Pinto da Costa não pode repetir o ridículo de 2013-14, que é negar a saída a um treinador que sente que já não tem condições para lutar por títulos no FC Porto. Lopetegui acha que tem. Pinto da Costa acha que Lopetegui tem. São as duas peças-chave em tudo isto, por maior ou menor que seja a contestação dos adeptos.
Se o FC Porto não ganhar na Choupana, obviamente que as coisas começam a arrastar-se para algo insustentável. De qualquer forma, não vale a pena trocar de treinador só por trocar, que é o que muitos sugerem, com escolhas de nomes que não lembram ao Espírito Santo (pun intended).
No dia em que o FC Porto quiser escolher um novo treinador, terá que mudar de perfil. Chega de projetos de apostas de risco. Será necessário um treinador experiente. Habituado a lutar por títulos e a ter vedetas no balneário. Um treinador que saiba que tem que jogar quase sempre contra equipas fechadas, em maus relvados e a deparar-se contra o anti-jogo. Um treinador que saiba potenciar e evoluir jovens e ter que reconstruir a equipa ano após ano. E por fim, um treinador que saiba que vai ser mais criticado por uma derrota do que elogiado por 10 vitórias, um treinador que saiba que vai ter muita gente a não gostar dele - e não só clubes rivais. Quem achar que há alguém deste perfil livre, por aí, telefone ao presidente. A não ser que aproveitem a época festiva para pedir o Ancelotti.
PS: O Tribunal do Dragão assume-se, desde o primeiro dia, como um espaço de «defesa, crítica e análise ao FC Porto». Tudo é passível de ser defendido, tudo é passível de ser criticado, tudo é analisado. Lopetegui é defendido, criticado e analisado. Depois do jogo da Madeira, cá estaremos para realçar o positivo e o negativo. Como sempre.

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