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terça-feira, 26 de junho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (1)

Contrato até 2020
Jesús Corona - Muitos esperavam que 2017-18 fosse a época da afirmação, mas a última temporada acabou por ser a pior do extremo mexicano ao serviço do FC Porto. A sua concorrência para a posição eram, basicamente, jogadores que o FC Porto havia dispensado no passado recente, mas a inconsistência acompanhou toda a temporada de Corona, que terminou a época com apenas 3 golos e 4 assistências. Sérgio Conceição bem puxou por Corona, fazendo dele titular no início da época, mas, com exceção ao grande golo em Braga, foi um ano de pouquíssima produtividade para Corona, por certo também afetado por problemas do foro familiar que devem ser tidos em conta. Ainda assim, contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que Corona fez a diferença, e muitas as em que mal se fez notar em campo. O jogador de 25 anos custou 10,5 milhões por 70% do passe e tem apenas mais dois anos de contrato. Ou seja, aproxima-se o momento em que há que decidir se vamos renovar a aposta em Corona ou se o melhor será tentar encontrar uma saída. Tem tudo para ser, a par de Brahimi, o principal desequilibrador no plantel, mas três anos depois continuamos à espera do mesmo: que o potencial se traduza em eficiência. Ter que esperar quatro épocas até ver um match-winner se afirmar não costuma ser bom sinal.  

Contrato até 2019
Yacine Brahimi - O mais virtuoso jogador do plantel e o rei do drible. Com 12 golos e 10 assistências (ficou a uma contribuição da melhor época da carreira), Brahimi foi muitas vezes um oásis de criatividade e imprevisibilidade num futebol limitado, em grande parte da época, a jogo direto e bola na frente. Brahimi acabou a época com o maior número de dribles eficazes da Liga (167 - mais do dobro do segundo melhor da I Liga, Gelson Martins, e apenas superado por Messi nas Ligas europeias) e foi o jogador com mais duelos ganhos no Campeonato, num total de 306. Foi o jogador mais castigado dos três grandes, com 95 faltas sofridas, e teve apenas um factor particularmente negativo no seu rendimento: a ineficácia nos cruzamentos (embora a sua função fosse sempre mais o movimento interior), pois em toda a época teve apenas um cruzamento eficaz no Campeonato. 

E agora? Brahimi está a um ano do final de contrato, por isso ou renova ou sai. A questão é que Brahimi nunca será um jogador que garantirá uma grande venda ao FC Porto, pois a SAD detém apenas 50% do passe, e as opções de compra e revenda estabelecidas com a Doyen expiraram em 2017. E tendo em conta que Brahimi poderá assinar livremente por outro clube a partir de janeiro, é natural que, com o aproximar do próximo ano, fique cada vez mais difícil renovar com o argelino, pois as exigências dos jogadores e dos respetivos representantes sobem sempre a partir do momento em que começam a surgir outros clubes em carteira. Um caso para definir o quanto antes, pois Brahimi na próxima época dificilmente valerá mais do que agora, e desportivamente o FC Porto dificilmente arranja um extremo da sua qualidade pela verba que o argelino eventualmente render. Renovar será caro, muito caro, e difícil, mas desportivamente perder Brahimi seria um golpe rude para Conceição. 

Contrato até 2019
Hernâni - Ficou no plantel meramente perante a falta de alternativas e nada mudou desde que assinou pelo FC Porto: não tem qualidade para jogar a este nível. Foi apenas uma vez titular no Campeonato e foi jogando alguns minutos residuais ao longo da época, tendo contribuído com apenas um golo e uma assistência. A sua grande velocidade é uma caraterística que não é acompanhada por capacidade de decisão, eficácia no 1x1 ou perigo para as balizas adversárias. Tem apenas mais um ano de contrato, logicamente não justifica a renovação e o FC Porto deve procurar uma saída que permita o melhor encaixe financeiro possível - por outras palavras, não vale a pena renovar para andar a emprestar. O que Hernâni produziu na equipa A nesta época um extremo da equipa B não faria pior. 

Compra obrigatória
Majeed Waris - Foi o único jogador escolhido a dedo por Sérgio Conceição como reforço para o FC Porto em 2017-18, mas o ganês não conseguiu ter qualquer impacto na equipa. Além de ter chegado a um clube, país e realidade muito diferentes, Waris não trazia qualquer tipo de ritmo competitivo de França, algo que se refletiu no seu rendimento - ou falta dele. Não voltou a jogar desde que foi lançado na «piscina» de Paços de Ferreira, num jogo totalmente impróprio para as suas caraterísticas (e o treinador seria, certamente, o primeiro a saber isso), e pelo que foi o seu rendimento em 2017-18 não justificaria a continuidade. No entanto, a SAD está obrigada a ficar com Waris a título definitivo, e tudo aponta para que o avançado seja um jogador particularmente explorado por Sérgio Conceição na próxima época. Waris terá a possibilidade de começar a época de raiz, de fazer a pré-época, de trabalhar a vertente física e ser integrado nas ideias do treinador. Se Waris foi o único escolhido a dedo por Sérgio Conceição na última época, seria uma surpresa e até mau sinal se o treinador desistisse da sua aposta tão cedo. Por isso, Waris pode muito bem tornar-se um dos reforços para 2018-19.  Deve.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Um municiador e uma seta

Depois de uma importante e difícil vitória frente ao Tondela, com um golo que caiu do céu, e da atípica visita ao Estoril, num jogo em que o FC Porto entra em campo com 4 laterais e vê-se forçado a deixar o resultado em suspenso durante cinco semanas, eis que Sérgio Conceição conta finalmente com duas novas unidades no Olival. 

Waris e Paulinho são contratações que despertam diferentes expetativas. Se o médio brasileiro já não é uma novidade - já interessava em maio, bem antes da chegada de Sérgio Conceição, e já era expectável que a SAD recrutasse pelo menos um jogador ao Portimonense -, o avançado ganês é uma surpresa absoluta e que foge por completo ao tipo de contratações levadas a cabo pelo FC Porto nos últimos anos.

Antes de uma breve apreciação aos dois jogadores, uma retrospetiva sobre as contratações de inverno do FC Porto nos últimos anos:

2017 - Soares
2016 - Suk, Marega, José Sá
2015 - Hernâni
2014 - Quaresma
2013 - Liedson e Izmaylov
2012 - Lucho, Janko e Danilo (já previamente contratado)
2011 - 0
2010 - Rúben Micael e David Addy
2009 - Cissokho e Andrés Madrid
2008 - 0
2007 - Lucas Mareque e Rentería.
2006 - Anderson e Adriano.
2005 - Leandro, Léo Lima, Ibson, Leandro Bonfim, Pitbull.
2004 - Sérgio Conceição, Carlos Alberto e Maciel. 

O padrão é claro: em janeiro, o FC Porto tem por hábito contratar apenas jogadores já totalmente familiarizados com o futebol português. Nos últimos 10 anos, excetuando o caso específico de Danilo (que já tinha sido contratado ao Santos, mas a sua chegada ao Dragão foi adiada para janeiro), apenas dois jogadores não tinham experiência de I Liga - Janko, ponta-de-lança que correspondia a um perfil desejado por Vítor Pereira para o ataque, e David Addy, uma contratação que não teve base desportiva. 

Outro pormenor que se destaca é que o FC Porto não tem sido, de facto, feliz nas suas compras de inverno. Nos últimos 5 anos, apenas Quaresma e Soares conseguiram ter impacto como verdadeiros reforços de inverno. José Sá e Marega estão atualmente a ser titulares, mas em 2015-16 não acrescentaram nada ao plantel. 

Porque um reforço de inverno implica isso mesmo: ser capaz de dispensar o período de adaptação e encaixar logo na equipa. Nesse âmbito, Paulinho é uma boa adição ao plantel. Chega ao FC Porto já adaptado à I Liga e com muita rodagem competitiva, restando saber que lugar Sérgio Conceição terá para ele no plantel.


Os melhores jogos de Paulinho no Portimonense foram feitos no miolo, mas o brasileiro pode jogar descaído para os flancos - e deverá ser precisamente por aí, como alternativa a Corona, que Sérgio Conceição pensará no brasileiro, pelo menos para o 4x4x2. É sabido que Sérgio Conceição não dispensa a dimensão física no meio-campo, por isso Paulinho poderá ter dificuldades em fazer o papel de Herrera, mas pode entrar no 4x3x3. 

Paulinho, na apresentação, disse que espera acrescentar algo ao FC Porto no capítulo do último passe. E é precisamente esse o cartão de visita do brasileiro: a capacidade de meter a bola em zonas de finalização. O atleta de 23 anos é o médio que mais ocasiões de golo cria em todo o Campeonato, com 2,3 passes para finalização por jogo e um total de 44 ocasiões criadas. Em toda a Liga, melhor só Alex Telles, com 56.

No entanto, Alex Telles destaca-se sobretudo nas bolas paradas, daí que crie tantas ocasiões de golo. Excluindo as bolas paradas e pensado apenas nos passes curtos no último terço, Paulinho é jogador da Liga que mais ocasiões de golo já criou: 37, à frente de Bruno Fernandes (29), Alex Telles e Brahimi (28). 

Paulinho é, por isso, um jogador que vai «alimentar» os avançados do FC Porto e ajudar a colocar muitas vezes a bola em zonas de perigo. Mas embora não seja um jogador veloz, Paulinho também acrescenta qualidade individual - é o 2º jogador com mais dribles completos na Liga, com 43, só atrás de Brahimi, que já leva 101. Gelson Martins também tem 43 dribles eficazes, mas já falhou 33 tentativas, enquanto Paulinho falhou apenas 16. 

É este o cartão de visita de Paulinho, restando saber quanto custará a sua eventual inclusão a título definitivo no plantel. Tendo em conta que a SAD do Portimonense é controlada por Teodoro Fonseca, e que o clube de Portimão não iria simplesmente emprestar um jogador-chave ao FC Porto sem garantias de nada, resta saber quanto terá o FC Porto, no futuro, que desembolsar por esta operação - e se será (apenas) efetivamente Paulinho a ser contratado. 

Convém recordar que o Portimonense nunca vendeu um jogador por mais de 1 milhão de euros, logo, ouvir falar em valores de 6 a 10 milhões de euros por jogadores como Paulinho ou Nakajima, que têm 20 jogos de I Liga na carreira num clube que está 4 pontos acima da linha de água... Não combina. Contratar qualidade sim, sobrevalorizar na hora da compra não. 

Paulinho é, assim, uma boa adição ao plantel. Já Waris... é uma incógnita, uma surpresa total, um tipo de contratação que não é habitual ver o FC Porto fazer. Waris estava na II liga francesa e praticamente não joga desde o início de novembro - fez apenas 26 minutos desde então. Não é um jogador com o ritmo competitivo recomendável para encaixar já na equipa. 

Waris começou no futebol sueco e estreou-se em 2012 na Europa. Não se adaptou minimamente ao Spartak Moscovo e também teve uma experiência pouco produtiva no Trabzonspor, da Turquia. Só na Liga francesa deu algum ar da sua graça, com 29 golos em 72 partidas. Pode não parecer muito, mas é, por exemplo, uma média de golos muito superior à que Aboubakar trouxe de França (26 golos em 108 partidas). Logo, o registo passado pode significar muito pouco: Waris pode perfeitamente marcar muito mais pelo FC Porto do que marcava pelo Lorient.


Na pré-época, Waris esteve perto de ir para a Premier League, para o Burnley, mas a transferência gorou-se e isso contribuiu para que a sua permanência no Lorient não fosse pacífica, até porque era o jogador mais bem pago do plantel. E como é claro, um jogador que passa da hipótese de ir para a Inglaterra à Segunda Liga francesa não fica particularmente satisfeito. 

Waris faz todas as posições do ataque, polivalência que não existia no plantel do FC Porto, embora em França tenha jogado quase sempre no eixo central. Não tem a dimensão física de Aboubakar e Marega, mas é um avançado bastante veloz, forte nas diagonais e bom a explorar o espaço nas costas da defesa, caraterísticas que são do agrado de Sérgio Conceição. No entanto, taticamente não é um jogador particularmente evoluído e sempre apresentou algumas dificuldades no 1x1, fazendo sobretudo da velocidade a sua principal arma, não tendo a capacidade de Aboubakar ou Marega para segurar a bola. Enquanto Aboubakar e Marega conseguem ganhar metros no choque com os defesas, Waris procurará fugir dos defesas e atacar o espaço. 

É portanto um avançado com caraterísticas diferentes. Neste momento é essencial perceber se Waris está bem fisicamente e com ritmo competitivo para entrar na equipa, além de ter que se adaptar a uma nova realidade - em França, no Lorient, jogava para o pontinho e em contra-ataque; aqui terá que se encaixar numa equipa dominadora, que nem sempre terá o espaço que Waris procura nas costas da defesa adversária. 

Sérgio Conceição diz que conhece Waris da Liga francesa. Posto isto, só podemos mesmo esperar que Conceição conheça e deseje Waris mais do que Nuno Espírito Santo conhecia ou desejava Depoitre.