O FC Porto divulgou hoje a sinopse do R&C da época passada. Passemos à análise, começando por comparar aquilo que foi projetado no orçamento, há um ano, e aqueles que foram os resultados.
O FC Porto perspetivava ter proveitos operacionais de 89,22 milhões de euros, sendo que a maior parte viria da sua participação na Liga dos Campeões, entre 8 rúbricas:
Ora as expetativas foram superadas, com 93,589 milhões, graças à grande participação de Lopetegui e dos jogadores na Liga dos Campeões. A participação na UEFA rendeu quase mais 8M€ do que o expectável, uma vez que não estava orçamentada uma fase de grupos tão boa e a ida aos 1/4 da Champions. Esperemos que a SAD não caia no erro de passar a orçamentar os 1/4 como objetivo mínimo - Casillas, por exemplo, disse esta semana que o objetivo do FC Porto é ir pelo menos aos 1/4, e os objetivos do FC Porto deveriam estar todos em sintonia. Os 1/8 já são mais dos que razoáveis e já obrigam a equipa a grande competitividade. Além disso, os prémios da UEFA aumentaram imenso. Não é necessário sobrecarregar a equipa de pressão. Se for aos 1/8, o FC Porto já ganhará pelo menos mais 6M€ do que o faria em 2014-15.
O FC Porto ganhou quase mais 1M€ em bilheteira do que o esperado, mais 1,2M€ em receitas televisivas (também o fator Champions a influenciar), mais cerca de 700 mil euros em publicidade e mais de meio milhão em Publicidade/Merchandising. O FC Porto destacou-se e superou as expetativas em quase toda a linha, mas na rúbrica de Corporate Hospitality, que estava prevista acima de 14M€, ficou-se pelos 8,2M€. Ainda assim, avaliando o quadro abaixo e o que estava inicialmente definido, o FC Porto superou as expetativas e cumpriu o que estava orçado.
Em relação às despesas, isto era o que estava previsto...
... e isto foi o que o FC Porto acabou por gastar:
O FC Porto gastou quase 4M€ a menos do que esperava fazer. Desde logo o maior destaque vai para a redução nos FSE, quase 6M€ a menos do que o previsto, o que é uma excelente notícia, ainda que tudo se resuma ao Corporate Hospitality. Para atingir a sustentabilidade, o FC Porto tem que apostar na redução dos FSE, que tirando a folha salarial é o que dá maior prejuízo à SAD.
Nos custos com pessoal, o FC Porto gastou quase 1M€ a menos do que o previsto, atingindo praticamente os 70M€ em salários. Não se pode dizer, ainda assim, que tenha havido poupança - é simplesmente a ausência do pagamento dos prémios em caso de conquista do título. Se o FC Porto tivesse sido campeão nacional, os custos iriam certamente disparar bem acima dos quase 71M€ que estavam definidos.
Feita a comparação entre o esperado e o conseguido, vamos à análise dos resultados. Lucro de 19,35M€ no exercício. Ou seja, o FC Porto esteve a 53 minutos de fechar 2014-15 com prejuízo, como já se sabia, mas a venda de Jackson Martínez colocou as contas no positivo.
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| A 14M€ de estar pago |
O primeiro destaque é desde logo a importância que teremos que dar ao
fair-play financeiro. O FC Porto teve um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Face aos resultados em 2014-15, isto significa que o FC Porto não poderá terminar a temporada 2015-16 com mais de 8,65 milhões de euros de prejuízo, caso contrário falha o fair-play financeiro. Tendo em conta que a venda de Alex Sandro já está à espera para entrar, o fair-play financeiro aparenta estar controlado. De qualquer forma, o ponto de referência deve ser o lucro e não o prejuízo nunca superior a 8,65M€. Além disso, mesmo com o aumento dos prémios da Champions, em 2015-16 só entra um prémio de participação e não vamos andar a fazer 80 milhões de mais-valias em todos os exercícios.
Do passivo, dizer que aumentou 42M€ é manifestamente faccioso. Com a integração da Euroantas na SAD, o FC Porto (SAD) assumiu a dívida do que falta pagar do Estádio do Dragão, que são 14 milhões de euros. A Euroantas nunca falhou um pagamento, foi a única a não renegociar ou alargar prazos (ao contrário de Benfica e Sporting) e vai acabar de pagar o estádio em 2018.
Além disso, podemos sempre comparar o que era o passivo antes da operação Euroantas e aquele com que fechámos 2014-15. Antes da integração da Euroantas, o passivo era de 269M€. A 30 de junho era de 276,13M€. Em relação ao ativo: mais de 150 milhões de euros em relação há um ano, mais de 110 milhões em relação ao último R&C antes da operação Euroantas. Neste momento o FC Porto tem um ativo de 359,235M€, e não esquecendo que não foi absorvida a totalidade da Euroantas, caso contrário o ativo poderia muito bem estar em vias de ser o maior do futebol português.
De destacar igualmente o capital próprio: 83,104M€. Tendo em conta que o Benfica, que tanto aclama o seu ativo, tem um capital próprio de pouco mais de meio milhão de euros e o que Sporting teve que converter mais de 100 milhões de dívida bancária em valores mobiliários para chegar a valores positivos, facilmente se conclui que o FC Porto tem de longe, neste momento, a melhor situação financeira em Portugal. O que é diferente de estar numa boa situação financeira.
No passivo corrente, regista-se a boa notícia de os empréstimos bancários para esta época terem baixado 13,5%, para uma dívida de 61,455 milhões. E ao contrário da época passada, não há empréstimos obrigacionistas correntes. Em contrapartida, haverá mais de 10M€ a mais a pagar a fornecedores.
Feita a análise, há que destacar algumas intervenções de
Fernando Gomes. Na questão do patrocinador, uma das que mais se inquieta os adeptos, o tema já tinha sido abordado de diversas formas, desde o
impacto do fim da ligação à PT,
o efeito Iker Casillas, e o facto de já com a época em andamento
ainda não haver patrocinador. Não era nada de fazer perder o sono, pois estamos a falar de uma questão que está longe se ser a mais significativa nas receitas da SAD. Tem importância? Claro, todo o euro tem. Mas nada que fizesse perder a cabeça, nem aceitar negócios precipitados, nem muito menos
vender-se à Qatar Airways por menos do que pagava a PT.
Por outro lado, foi o próprio Fernando Gomes, em maio, que disse que o patrocinador estava «para breve». Agora mudou completamente o discurso: «O main sponsor (patrocinador principal) deixou de ser imperioso . Ou arranjamos um bom patrocinador ou não vale a pena. Não vale a pena fazer cedências por pouco», disse, segundo o MaisFutebol. Quem anunciou que o patrocinador estava «para breve» devia, no mínimo, explicar o que correu mal. Poderia ser algo tão simples como «o colapso de Xangai» e estava resolvido. Negociar um patrocínio envolve várias vontades, não se tem só porque se quer. Qualquer adepto perceberia isso. Mas se o patrocinador estava «para breve», é porque o FC Porto já tinha em vista uma proposta do seu agrado. O que mudou para passar a não ser agradável?
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| As explicações de F. Gomes |
O próprio Fernando Gomes reconhece que a venda de camisolas de Casillas superou as suas expetativas. Cabe a quem gere as finanças de um clube com a projeção do FC Porto aproveitar esse fenómeno. É inadmissível que o FC Porto feche a época 2015-16 com menos de 13 milhões de euros na rúbrica dos patrocínios, e com a projeção que alguns jogadores têm deveria tentar chegar perto dos 15M€. Agora, coisas como isto: «
Alguns de nós até acham a camisola muito mais pura, mais bonita, sem patrocinador», é impossível de dizer com cara séria, sem se rir ou sem corar. Para isso, como já muitos adeptos o defenderam, mas valeria premiar a parceria histórica com a Revigres, que foi o primeiro patrocinador nas camisolas de um clube português. Seria uma bonita homenagem ao que um grande portista como Adolfo Roque fez pelo FC Porto.
Outra frase citada na imprensa muito curiosa foi esta: «O FC Porto estava numa situação económica debilitadíssima, muito por culpa da deficiência na estruturação da empresa. A integração da EuroAntas na SAD tornou essa situação sólida e reforçou muito a sua condição.» Ou seja, na visão de Fernando Gomes, o FC Porto não esteve em risco de falhar o fair-play financeiro e não apresentou o pior resultado de sempre em 2013-14 por culpa do crónico défice orçamental e da grande dependência de mais-valias com jogadores: foi por culpa do Estádio do Dragão estar no clube e não na SAD. Desde a criação da Euroantas que esta sociedade esteve sempre no clube. Nunca ninguém questionou em contrário, até ao momento em que o FC Porto teve que responder ao maior prejuízo de sempre e teve que recorrer ao estádio. Além disso, a operação Euroantas não se traduz em dinheiro líquido, mas sim numa operação que reforça os capitais próprios sem que isso implique maior liquidez. É surreal uma afirmação destas, que diz o contrário de tudo o vinha sendo a gestão de risco do FC Porto na última década. A culpa, afinal, era do estádio. Contado ninguém acreditava.
A fechar a análise à intervenção de Fernado Gomes, de destacar também este trecho do MaisFutebol. «O nosso volume de financiamento é superior em bancos de outros países. Muito mais do que em bancos nacionais. Encontrámos outros mercados. Não temos encontrado dificuldade em encontrar financiamento no exterior». Muito bem, mas a oferecer taxas como o foi feito à For Gool (que não se trata de um banco, diga-se) com Héctor Herrera, de 5% (para negociar 5,5M€ com o Internationales Bankhaus Bodensee, em novembro, o FC Porto conseguiu 4%) ao fim de seis meses, mais reembolso, e com possibilidade de lucro de 10% da receita (algo que torna as restrições da FIFA a comissões inúteis, ao autorizar empresários a procurar comprador para os jogadores do FC Porto), além do reembolso do empréstimo, em caso de venda por 30M€, não é muito difícil conseguir financiamento.
A análise será aprofundada quando o R&C completo for publicado.