segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A dupla Carlos Eduardo e Célestin Djim

O FC Porto publicou hoje o Relatório e Contas Individual e Consolidado completo, o que já vai permitir avaliar e constatar diversas ações que foram tomadas entre 1 de julho de 2014 e 30 de junho de 2015. Há muito para explorar ao longo dos próximos dias. Para já falemos da transferência de Carlos Eduardo para as Arábias.

Como é lógico, jamais Carlos Eduardo teria saído por 7M€ ou por 10M€ sem que o FC Porto tivesse interesse em comunicá-lo à CMVM. A sua saída para as Arábias, quando se perspetivava que ou poderia fazer a pré-época com Lopetegui ou render um valor razoável numa transferência para um clube europeu, pareceu sempre um pouco precipitada, repentina ou até surpreendente, mas o negócio pode agora ser (meio) explicado.

Chegou, viu e saiu
O FC Porto vendeu ao Al Hilal Carlos Eduardo... e Céléstin Djim. Chegou ao FC Porto há um ano, pelas mãos de Luciano D'Onofrio (que também trouxe o irmão Tony Djim, agora a jogar com regularidade nos sub-19), fez três jogos na equipa B e foi emprestado ao Freamunde em janeiro. Fez sete golos na segunda liga e a 18 de julho o Metz, de Carlos Freitas, anunciou a contratação de Célestin Djim, por empréstimo do FC Porto. Nessa altura, na verdade já o FC Porto tinha vendido Djim ao Al Hilal. O porquê de o Metz o ter anunciado dessa forma (o FC Porto nada comunicou, nem sequer a venda de Carlos Eduardo, algo questionável após a sua reintegração ter sido anunciada pelo próprio presidente), lá eles saberão.

O Al Hilal contratou então Carlos Eduardo e Célestin Djim num pacote de 5,5 milhões de euros. O FC Porto não detalha mais nada sobre o assunto, apenas que esta verba vai ser recebida durante a época 2015-16. O FC Porto nem sequer explica concretamente, no R&C, a quem Carlos Eduardo e Djim foram vendidos: limita-se a dizer que os seus direitos foram alienados e que o Al Hilal está a dever os 5,5M€. A SAD também não confirma a repartição de valores (O Tribunal do Dragão ouviu que Carlos Eduardo é avaliado em 2M€. muito abaixo de Djim). Curiosamente, inicialmente chegou a ser Kayembe o nome discutido para entrar no negócio, o que talvez diga muito dos planos futuros para o belga no clube.
O FC Porto contornou o acordo que tinha com o Nice, quiçá por considerar que o pack proposto por D'Onofrio seria mais vantajoso do que esperar por outras propostas ou reintegrar Carlos Eduardo no plantel, mas os clubes lá se entenderam, com Ricardo Pereira a seguir por empréstimo de dois anos. Além disso, o Nice tinha direito a receber 10% da transferência de Carlos Eduardo. Isso significa que vai receber o valor da avaliação de Carlos Eduardo, e não do negócio total com o Al Hilal. É normal que não tenham gostado do valor em que Carlos Eduardo foi avaliado, mas parece que sem querer arranjaram um belo lateral-esquerdo, de seu nome Ricardo Pereira.

Por fim um pormenor importante: o FC Porto mantém direito a 50% de uma possível venda de Carlos Eduardo. A SAD não confirma a existência de uma cláusula anti-rivais, mas esta situação terá sido salvaguardada, até porque não falta quem o queira em Portugal, com Jorge Jesus à cabeça.

Link para o Relatório e Contas completo.

PS: Na página 8, o FC Porto anuncia que Brahimi abandonou o clube. «No final da época o FC Porto, como é habitual nesta actividade, fez acertos no plantel. Andrés Fernández, Ricardo Nunes, Opare, Casemiro, Campaña, Óliver Torres, Otávio, Brahimi, Adrían López, Danilo, Jackson Martínez e Quaresma abandonaram o clube». Uma mera e lamentável gralha. Tenham calma, não é preciso tanta pressa em vendê-lo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Impressões gerais do Relatório e Contas 2014-15

O FC Porto divulgou hoje a sinopse do R&C da época passada. Passemos à análise, começando por comparar aquilo que foi projetado no orçamento, há um ano, e aqueles que foram os resultados.

O FC Porto perspetivava ter proveitos operacionais de 89,22 milhões de euros, sendo que a maior parte viria da sua participação na Liga dos Campeões, entre 8 rúbricas:


Ora as expetativas foram superadas, com 93,589 milhões, graças à grande participação de Lopetegui e dos jogadores na Liga dos Campeões. A participação na UEFA rendeu quase mais 8M€ do que o expectável, uma vez que não estava orçamentada uma fase de grupos tão boa e a ida aos 1/4 da Champions. Esperemos que a SAD não caia no erro de passar a orçamentar os 1/4 como objetivo mínimo - Casillas, por exemplo, disse esta semana que o objetivo do FC Porto é ir pelo menos aos 1/4, e os objetivos do FC Porto deveriam estar todos em sintonia. Os 1/8 já são mais dos que razoáveis e já obrigam a equipa a grande competitividade. Além disso, os prémios da UEFA aumentaram imenso. Não é necessário sobrecarregar a equipa de pressão. Se for aos 1/8, o FC Porto já ganhará pelo menos mais 6M€ do que o faria em 2014-15.

O FC Porto ganhou quase mais 1M€ em bilheteira do que o esperado, mais 1,2M€ em receitas televisivas (também o fator Champions a influenciar), mais cerca de 700 mil euros em publicidade e mais de meio milhão em Publicidade/Merchandising. O FC Porto destacou-se e superou as expetativas em quase toda a linha, mas na rúbrica de Corporate Hospitality, que estava prevista acima de 14M€, ficou-se pelos 8,2M€. Ainda assim, avaliando o quadro abaixo e o que estava inicialmente definido, o FC Porto superou as expetativas e cumpriu o que estava orçado.


Em relação às despesas, isto era o que estava previsto...



... e isto foi o que o FC Porto acabou por gastar:

O FC Porto gastou quase 4M€ a menos do que esperava fazer. Desde logo o maior destaque vai para a redução nos FSE, quase 6M€ a menos do que o previsto, o que é uma excelente notícia, ainda que tudo se resuma ao Corporate Hospitality. Para atingir a sustentabilidade, o FC Porto tem que apostar na redução dos FSE, que tirando a folha salarial é o que dá maior prejuízo à SAD.

Nos custos com pessoal, o FC Porto gastou quase 1M€ a menos do que o previsto, atingindo praticamente os 70M€ em salários. Não se pode dizer, ainda assim, que tenha havido poupança - é simplesmente a ausência do pagamento dos prémios em caso de conquista do título. Se o FC Porto tivesse sido campeão nacional, os custos iriam certamente disparar bem acima dos quase 71M€ que estavam definidos.

Feita a comparação entre o esperado e o conseguido, vamos à análise dos resultados. Lucro de 19,35M€ no exercício. Ou seja, o FC Porto esteve a 53 minutos de fechar 2014-15 com prejuízo, como já se sabia, mas a venda de Jackson Martínez colocou as contas no positivo.

A 14M€ de estar pago
O primeiro destaque é desde logo a importância que teremos que dar ao fair-play financeiro. O FC Porto teve um prejuízo de 40,7M€ em 2013-14. Face aos resultados em 2014-15, isto significa que o FC Porto não poderá terminar a temporada 2015-16 com mais de 8,65 milhões de euros de prejuízo, caso contrário falha o fair-play financeiro. Tendo em conta que a venda de Alex Sandro já está à espera para entrar, o fair-play financeiro aparenta estar controlado. De qualquer forma, o ponto de referência deve ser o lucro e não o prejuízo nunca superior a 8,65M€. Além disso, mesmo com o aumento dos prémios da Champions, em 2015-16 só entra um prémio de participação e não vamos andar a fazer 80 milhões de mais-valias em todos os exercícios. 

Do passivo, dizer que aumentou 42M€ é manifestamente faccioso. Com a integração da Euroantas na SAD, o FC Porto (SAD) assumiu a dívida do que falta pagar do Estádio do Dragão, que são 14 milhões de euros. A Euroantas nunca falhou um pagamento, foi a única a não renegociar ou alargar prazos (ao contrário de Benfica e Sporting) e vai acabar de pagar o estádio em 2018. 

Além disso, podemos sempre comparar o que era o passivo antes da operação Euroantas e aquele com que fechámos 2014-15. Antes da integração da Euroantas, o passivo era de 269M€. A 30 de junho era de 276,13M€. Em relação ao ativo: mais de 150 milhões de euros em relação há um ano, mais de 110 milhões em relação ao último R&C antes da operação Euroantas. Neste momento o FC Porto tem um ativo de 359,235M€, e não esquecendo que não foi absorvida a totalidade da Euroantas, caso contrário o ativo poderia muito bem estar em vias de ser o maior do futebol português.

De destacar igualmente o capital próprio: 83,104M€. Tendo em conta que o Benfica, que tanto aclama o seu ativo, tem um capital próprio de pouco mais de meio milhão de euros e o que Sporting teve que converter mais de 100 milhões de dívida bancária em valores mobiliários para chegar a valores positivos, facilmente se conclui que o FC Porto tem de longe, neste momento, a melhor situação financeira em Portugal. O que é diferente de estar numa boa situação financeira.

No passivo corrente, regista-se a boa notícia de os empréstimos bancários para esta época terem baixado 13,5%, para uma dívida de 61,455 milhões. E ao contrário da época passada, não há empréstimos obrigacionistas correntes. Em contrapartida, haverá mais de 10M€ a mais a pagar a fornecedores.

Feita a análise, há que destacar algumas intervenções de Fernando Gomes. Na questão do patrocinador, uma das que mais se inquieta os adeptos, o tema já tinha sido abordado de diversas formas, desde o impacto do fim da ligação à PT, o efeito Iker Casillas, e o facto de já com a época em andamento ainda não haver patrocinador. Não era nada de fazer perder o sono, pois estamos a falar de uma questão que está longe se ser a mais significativa nas receitas da SAD. Tem importância? Claro, todo o euro tem. Mas nada que fizesse perder a cabeça, nem aceitar negócios precipitados, nem muito menos vender-se à Qatar Airways por menos do que pagava a PT.

Por outro lado, foi o próprio Fernando Gomes, em maio, que disse que o patrocinador estava «para breve». Agora mudou completamente o discurso: «O main sponsor (patrocinador principal) deixou de ser imperioso . Ou arranjamos um bom patrocinador ou não vale a pena. Não vale a pena fazer cedências por pouco», disse, segundo o MaisFutebol. Quem anunciou que o patrocinador estava «para breve» devia, no mínimo, explicar o que correu mal. Poderia ser algo tão simples como «o colapso de Xangai» e estava resolvido. Negociar um patrocínio envolve várias vontades, não se tem só porque se quer. Qualquer adepto perceberia isso. Mas se o patrocinador estava «para breve», é porque o FC Porto já tinha em vista uma proposta do seu agrado. O que mudou para passar a não ser agradável?

As explicações de F. Gomes
O próprio Fernando Gomes reconhece que a venda de camisolas de Casillas superou as suas expetativas. Cabe a quem gere as finanças de um clube com a projeção do FC Porto aproveitar esse fenómeno. É inadmissível que o FC Porto feche a época 2015-16 com menos de 13 milhões de euros na rúbrica dos patrocínios, e com a projeção que alguns jogadores têm deveria tentar chegar perto dos 15M€. Agora, coisas como isto: «Alguns de nós até acham a camisola muito mais pura, mais bonita, sem patrocinador», é impossível de dizer com cara séria, sem se rir ou sem corar. Para isso, como já muitos adeptos o defenderam, mas valeria premiar a parceria histórica com a Revigres, que foi o primeiro patrocinador nas camisolas de um clube português. Seria uma bonita homenagem ao que um grande portista como Adolfo Roque fez pelo FC Porto.

Outra frase citada na imprensa muito curiosa foi esta: «O FC Porto estava numa situação económica debilitadíssima, muito por culpa da deficiência na estruturação da empresa. A integração da EuroAntas na SAD tornou essa situação sólida e reforçou muito a sua condição.» Ou seja, na visão de Fernando Gomes, o FC Porto não esteve em risco de falhar o fair-play financeiro e não apresentou o pior resultado de sempre em 2013-14 por culpa do crónico défice orçamental e da grande dependência de mais-valias com jogadores: foi por culpa do Estádio do Dragão estar no clube e não na SAD. Desde a criação da Euroantas que esta sociedade esteve sempre no clube. Nunca ninguém questionou em contrário, até ao momento em que o FC Porto teve que responder ao maior prejuízo de sempre e teve que recorrer ao estádio. Além disso, a operação Euroantas não se traduz em dinheiro líquido, mas sim numa operação que reforça os capitais próprios sem que isso implique maior liquidez. É surreal uma afirmação destas, que diz o contrário de tudo o vinha sendo a gestão de risco do FC Porto na última década. A culpa, afinal, era do estádio. Contado ninguém acreditava. 

A fechar a análise à intervenção de Fernado Gomes, de destacar também este trecho do MaisFutebol. «O nosso volume de financiamento é superior em bancos de outros países. Muito mais do que em bancos nacionais. Encontrámos outros mercados. Não temos encontrado dificuldade em encontrar financiamento no exterior». Muito bem, mas a oferecer taxas como o foi feito à For Gool (que não se trata de um banco, diga-se) com Héctor Herrera, de 5% (para negociar 5,5M€ com o Internationales Bankhaus Bodensee, em novembro, o FC Porto conseguiu 4%) ao fim de seis meses, mais reembolso, e com possibilidade de lucro de 10% da receita (algo que torna as restrições da FIFA a comissões inúteis, ao autorizar empresários a procurar comprador para os jogadores do FC Porto), além do reembolso do empréstimo, em caso de venda por 30M€, não é muito difícil conseguir financiamento.

A análise será aprofundada quando o R&C completo for publicado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Nem na UEFA nem na FPF: prática do Benfica não tem defesa

Serve isto como informação complementar ao último post. A Federação Portuguesa de Futebol já terá entregue o caso das ofertas do Benfica a árbitros ao Ministério Público, que agora se deverá encarregar da investigação. Para começar, mais um dado que dá razão ao FC Porto (e a grande parte dos clubes) na vontade e legitimidade de afastar Vítor Pereira do Conselho de Arbitragem: o presidente do CA, que pertence à FPF, sabia das prendas do Benfica. E nada disse.

Ora se a FPF, após a denúncia de Bruno de Carvalho, decidiu comunicar o sucedido ao Ministério Público, como pode Vítor Pereira manter-se em funções se ele pertence, por inerência, aos quadros da Federação? Vítor Pereira sabia das informações que a FPF considerou merecedoras de investigação. Como é possível manter no controlo da arbitragem um cúmplice silencioso do Benfica nesta prática potencialmente ilícita?

Mais, José Gomes, da APAF, também sabia das práticas. E este terá dito a Pedro Henriques, segundo é escrito hoje n'O Jogo, que nenhum árbitro optou por usufruir das ofertas do Benfica, apesar de as ter recebido. Mau: então se está tudo dentro dos limites, dentro da legalidade, porque é que ninguém quer ir jantar à pala?

Entretanto, continuam a insistir nos regulamentos da UEFA que preveem a possibilidade de lembranças até 200 francos. E convenientemente, omitem a parte em que os regulamentos da FPF reprovam as ofertas do Benfica. Passando a citar:



Ora, o Benfica só pode oferecer presentes sem «valor comercial». Mas verifica-se o contrário: a oferta do Benfica tem valor comercial, e prova disso é que está à venda na loja online do clube a camisola de Eusébio.



Mais. Partindo do princípio de que a camisola de Eusébio custa 59,9€ e que um conjunto de 4 bilhetes para o Armazém de Taças Cosme Damião custa 40€, boa sorte para tentar conseguir uma refeição completa no Museu da Cerveja, para quatro pessoas (Bruno de Carvalho até falava em muitos mais jantares), por 80€, conforme podem avaliar pelos preços no menu. O preço unitário, por refeição completa, nunca é menos de 30/35 euros. Logo os supostos 200 francos de limite, ou valor equivalente em euros, são mais do que ultrapassados.

Por outro lado, as próprias diretrizes da UEFA chegam a uma discórdia semântica. Reparem que a UEFA, no ponto 6 do artigo 4 dos Termos Gerais e Condições para a Arbitragem, definidos em 2003, dizem que os árbitros podem aceitar «recordações do jogo como bandeiras ou réplicas das camisolas das equipas».

Pode ser uma mera discórdia semântica, mas a camisola de Eusébio não é uma recordação do jogo que o árbitro arbitrou. É uma recordação de Eusébio, da história do Benfica. Não é uma camisola que tenha sido usada no jogo (ou uma réplica) que o árbitro arbitrou. Por exemplo, o Nacional da Madeira admitiu que às vezes dá camisolas aos árbitros, tal como o Marítimo. Mas dá camisolas do dia do jogo, de modo a que os árbitros possam recordar aquele dia, aquele jogo, onde foi utilizada aquela camisola. Não oferece uma réplica de uma camisola com 50 anos, que ainda por cima está à venda pelo clube por quase 60 euros.

O Ministério Público só tem a fazer uma coisa: encontrar provas de que o Benfica oferece, de facto, este kit aos árbitros. Como já várias personalidades ligadas ao clube, ou com conhecimento de causa, admitem que sim, então caso encerrado, pois nem os Termos Gerais e Condições para a Arbitragem da UEFA, nem as Normas e Instruções para Árbitros da FPF defendem a prática do Benfica. Pelo contrário, é ilegal.

PS: Conforme era previsto aqui, o Benfica vai ficar caladinho, à espera que a chuva passe, pois sabe que não tem como se defender e a única esperança é ver Bruno de Carvalho dar mais um tiro no pé. Mas a versão oficial passada ao jornal A Bola é simplesmente hilariante e capaz de fazer corar qualquer benfiquista: «Demasiado baixo para ter resposta». Diria, isso sim, «demasiado apertado para se atrever a abrir a boca».

PS2: Notem o pânico da TVI/PRISA/Media Capital a tentar apagar todos os vídeos do Youtube do último programa. Tem piada, as palhaçadas virais de Manuel Serrão, inclusive críticas com tom algo inapropriado a Lopetegui, continuam todas online e nunca ninguém se importou de reclamar direitos de autoria. Com as denúncias de Bruno de Carvalho ao Benfica, por incrível coincidência, os vídeos não duraram muito tempo online. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Estratégia, jantares e a honra do visado

A SportingLeaks começou a publicar documentos a 29 de setembro. Se há algo que Bruno de Carvalho faz bem é chamar a si as atenções e arranjar centros mediáticos alternativos. Então, era necessário algo forte para abafar um pouco o boom da SportingLeaks. Que fez ele? Foi ao prolongamento, da TVI24, para uma peixeirada com Fernando Santos e para entreter o povo. E já não se fala de outra coisa.

«Diz que disse»
É, infelizmente, mais uma injeção de populismo barato e inconsequente. A palavra de Bruno de Carvalho no futebol português já não tem valor, nem credibilidade, sobretudo após a forma como a CII da Liga geriu o desfecho do dossiê Liga Aliança. Bruno de Carvalho fez acusações, o Benfica manteve-se em silêncio, as instâncias disciplinares convidaram Bruno de Carvalho a apresentar provas... E o presidente do Sporting disse que não as tinha. Tiro no pé.

Ora o mais provável é que aconteça exatamente o mesmo nesta história dos 250 mil euros em jantares/prendas/incentivos para árbitros. Reparem na subtileza de Bruno de Carvalho: diz que foi uma história que lhe transmitiram «de forma anónima». Hilariante. O dirigente da verdade desportiva e transparência, que preza pelo rigor, num tema em que poderia estar patente o aliciamento a equipas de arbitragem, resume tudo isto a um diz que disse. E nem sabe quem disse, foi anónimo. E logo num programa onde qualquer comentador pode dizer qualquer baboseira ileso de consequências.

E agora, Bruno de Carvalho terá provas dos jantares de 500 ou 600 euros [se calhar é por isto que o Carrillo não quis renovar, porque ninguém lhe oferecia um manjar deste valor]? Claro que não. E quando, ou se, as instâncias de inquérito lhe convidarem a apresentar provas, vai dizer que não as tem, que foi simplesmente o que lhe transmitiram. Absurdo.

Que faz o Benfica? Vai ficar calado, certamente. Bruno de Carvalho não iria fazer uma afirmação daquelas sem ter o mínimo de conhecimento, o que é um facto, mas falta provar os valores em causa e as ofertas que transcendam os limites dos estatutos de anti-corrupção da UEFA. O Benfica não vai apresentar queixa nenhuma na PJ porque sabe que se ficar calado ninguém lhe tocará. Mais, se por acaso a CII abrir um inquérito, o que vão fazer não é questionar o Benfica: vão é pedir a Bruno de Carvalho para fundamentar as suas acusações. Como Bruno de Carvalho não o conseguirá fazer, colocam um segundo ponto: o da honra do visado. Perguntará ao Benfica se se sentem ofendidos com as acusações e se querem reagir judicialmente. O Benfica, que já aprendeu com o caso Liga Aliança, já sabe que só tem que ficar caladinho e deixar Bruno de Carvalho enterrar-se mais uma vez. Não deveria ser assim, mas é assim que provavelmente será.

Independentemente do mais que esperado desenrolar o caso, só é admissível que as instâncias oficiais peçam e apurem todas as responsabilidades. Alguém tem que ser punido desta vez. Ou o Benfica por práticas potencialmente ilícitas, ou Bruno de Carvalho por difamação e afirmações infundamentadas que colocam em causa a verdade desportiva. Não há que ser ingénuos, presentes a árbitros é uma prática com vários anos, possivelmente tocável a todos os clubes. O Sporting até homenageou Pedro Proença, já depois do fim da sua carreira, coisa nunca vista em Portugal: homenagem declarada de um clube a um árbitro, com direito lembrança e tudo.

Mas o que está em causa é a questão do valor máximo admissível. Já todos estão a propagar as recomendações da UEFA, os tais 183 euros (que eram sensivelmente 120 euros quando o estatuto foi criado, mas o câmbio fez o valor disparar). Mas cá vai uma lembrançinha: o Conselho de Arbitragem pertence à FPF. E a posição da FPF face a este tema difere da da UEFA.

A FPF enviou em 2008 um comunicado a explicar aos árbitros que ofertas podem ou não aceitar. A FPF esclareceu que os árbitros só podiam aceitar recordações dos clubes «sem valor comercial». Ou seja, não se referiu a nenhum limite de 200 francos ou equivalente. Aliás, nem sequer fala na possibilidade de jantares. A FPF fala em «emblemas, galhardetes, miniaturas de camisolas, medalhas comemorativas ou lembranças regionais», e avisou que todas deveriam ser declaradas à FPF.

E não está?
Ora, os árbitros declararam as ofertas que receberam do Benfica? Mais importante: o Benfica fez alguma oferta antes do jogo (os regulamentos só o permitem após as partidas)? E os valores dos presentes praticados, quais foram? Houve valor comercial nas ofertas envolvidas? Este é o tipo de questões cujas respostas deveriam ser apuradas num futebol sério.

Por outro lado, o historial dos presentes a árbitos a envolver o Benfica é de impunidade. Todos gostam de falar do Apito Dourado, mas por uma ou outra razão esquecem-se convenientemente da parte que lhes toca. Recordemos o caso do cristal. Em 2008, Rui Silva foi inquirido a propósito de ofertas que terá recebido antes de jogos a envolver o Gondomar... e o Benfica. E disse o seguinte: «As mais valiosas foram um fio de ouro e um cristal que me deram no Estádio da Luz, uma vez que foi a primeira vez que apitei um grande.» Aprígio Santos, na altura presidente da Naval, disse que «no melhor pano cai a nódoa» e que «há muita gente que fala, mas devia estar calada». O alvo era Luís Filipe Vieira e o Benfica, que davam tudo para o Apito Dourado acabar em Leiria e afundar o FC Porto. A CD ficou de apurar o caso. Vale a pena dizer o resultado da investigação?

Mas o caso mais célebre foi quando António Ribeiro, o ourives que passou a fabricar as peças em ouro para oferecer aos clubes, explicou que a relação comercial que mantinha começou num Benfica x Gondomar, em 2002, e que entre as peças solicitadas pediram-lhe para gravar dois nomes (ambos negaram-lo): António Taia, árbitro que foi afastado da primeira liga logo na época de estreia, em 2002-03, após ter estado no Benfica x Gondomar, e Nuno Almeida, o curioso árbitro que só era chamado para arbitrar no Estádio da Luz. Os seus 10 primeiros jogos a envolver o Benfica foram todos na Luz. Ao 11º... foi para campo neutro, o Arouca x Benfica, em Aveiro. Quando comparamos com o historial de João Capela (nos últimos 12 jogos com o FC Porto, 11 foram fora do Dragão), dá que pensar.

Agora o mais importante para as instâncias do futebol português será certamente ter a certeza de que a honra do visado não foi atingida. Em 2011, pelo jantar de Pinto da Costa com o árbitro do Villarreal x FC Porto negado pelo presidente, até a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação para apurar o sucedido, mesmo sendo uma prova da UEFA (pois, não seria muito moralizador para o Benfica, caso eliminasse o SC Braga, encontrar o FC Porto dos 5x0, da festa às escuras na Luz e da reviravolta na Taça - havia que tentar). Isto por causa de um alegado jantar que o próprio Pinto da Costa desmentiu prontamente. 

E agora, a propósito de «28 jantares por jogo», «40 jantares por época», com «quatro árbitros, dois  delegados e observador», a envolver custos de «500 a 600 euros», na maior competição nacional e com o Benfica em silêncio e quietinho à espera que a chuva passe? Alô, PGR?

PS: A conta @imbulagiannelli no Twitter é falsa e não pertence a Imbula. Se possível ajudem a denunciar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Goleada sob controlo

O melhor Brahimi
A forma como o FC Porto se apresentou e jogou frente ao Belenenses deixou uma ideia muito clara: Lopetegui e os jogadores sabiam que iam ganhar o jogo, e sabiam que o desequilíbrio iria sair dos pés de Brahimi ou Corona. Assim foi. 19 vitórias consecutivas no Dragão e sem sofrer golos em casa, na liga, desde dezembro de 2014. Nenhuma outra equipa profissional a nível mundial tem este registo. O que interessa é o título, claro, mas quanto mais tempo mantivermos esta sequência mais próximos estaremos do objetivo.

Será sempre discutível apostar num meio-campo mais de controlo do que de ruptura (que deveria ser dada pelo tal 3.º médio que André André, por mais disponível e empenhado que seja, não o é) nestes jogos, pois isso é confiar em demasia que Brahimi e Corona são capazes de arrombar quase sozinhos, ou com mero apoio dos laterais, os autocarros que jogam no Dragão. Ontem correu bem, mas sobretudo na primeira parte sentiu-se o tal défice de criatividade, a meias com um pouco de dependência de Brahimi.

Por outro lado, Lopetegui parece querer espremer ao máximo o rendimento dos jogadores que estão em boa forma e aprendeu definitivamente com os riscos de rotação em 2014-15. André André é o maior caso disso mesmo: está em excelente forma, fez dois golos decisivos, e mesmo não sendo o 3.º médio idealizado para jogar em casa contra equipas pequenas - funcionava melhor como 2.ª unidade, mas aí Imbula teria que juntar-se a Herrera e seriam dois jogadores avaliados em 30M€ fora da equipa -, Lopetegui não prescindiu dele. Não se pode nunca criticar o treinador por meter a jogar quem está melhor, sobretudo após a excelente segunda parte de ontem, desde que o que um jogador dá a menos o outro possa dar a mais.





Brahimi (+) - Às vezes parecia que nem ele sabia o que ia fazer perante João Amorim, o que o levou a errar alguns cruzamentos e falhar diversas vezes o timing para o melhor passe (há que soltar melhor e mais vezes a bola). Mas tanto insistiu que lá conseguiu resolver. Uma assistência, um excelente golo (e o festejo desmente quem acha que ele só está interessado na Champions), defesa do Belenenses completamente descomposta e uma excelente exibição. Foi o match-winner de que o FC Porto precisa - e ontem bem precisou -, mas precisa de aprender a definir melhor. No primeiro lance em que decidiu cruzar em vez de enrolar-se, hesitar ou tentar rematar... Corona marcou.

Maxi regressa na Madeira
Laterais (+) - Com pouco a fazer defensivamente, Maxi e Layún fartam-se de apoiar o ataque, sempre com subidas pertinentes e inteligentes, e contribuíram com duas assistências. Uma nota: ainda bem que Maxi Pereira não viu o cartão amarelo. Porquê? Porque provocar a expulsão para poder jogar contra o Sp. Braga, além de ser contra os regulamentos, seria dizer à sua alternativa «tu não serves e sem o Maxi estamos tramados». Além disso, depois de receber o Braga o FC Porto vai à Madeira, e aí Maxi também dará bastante jeito. Infelizmente, Maxi é logo suspenso à 7ª jornada. Não discutindo se é justo ou não, é curioso que tenha sido a suspensão mais precoce da sua carreira em Portugal e que, no Benfica, tenha visto em média o 5º cartão entre a 17ª e a 18ª jornada. Quase arriscamos a prever que por essa altura já estará a cumprir a segunda suspensão no FC Porto.

Comandante (+) - Marcano já merecia o seu primeiro golo do FC Porto. Mas mais do que isso, teve que assumir a voz de comando da defesa depois da infeliz lesão de Maicon e entender-se com Danilo Pereira (entrada bastante pertinente para soltar mais Rúben Neves). Não perdeu um lance, soube ser uma referência para a circulação mais atrás e deu-nos o segundo golo de canto em dois jogos - entre janeiro e setembro de 2015 não tinha havido nenhum.

Outros destaques (+) - Casillas defendeu o que houve para defender, Corona teve o mérito de voltar a ser eficaz e oportuno mesmo estando ainda um pouco à margem dos processos da equipa, Tello voltou à Fórmula 1 para fazer uma boa assistência e dar a Osvaldo a oportunidade de se estrear a marcar. Bonito festejo com o sr. Fernando. Moreno para os amigos, que já vai para 45 anos de casa e é possivelmente a primeira vez que vemos um jogador, ainda por cima estrangeiro e recém-contratado, festejar de forma tão colorosa com ele após marcar na estreia. Bonito de se ver.





Desligados (-) - Indo ao encontro do segundo parágrafo. Na primeira parte, só nos lembramos de ver Ventura fazer uma defesa (remate de André André). A melhor defesa da primeira parte nem foi dele, mas sim de Casillas. Duas bolas nos ferros, uma para cada equipa, e de resto muito pouco no ataque. O FC Porto acusou o défice de criatividade no meio-campo. Imbula esteve perro na progressão, Rúben Neves esteve uns furos abaixo na primeira parte (melhorou muito na segunda parte) e André André é muito melhor a aparecer nos espaços do que a criá-los. Pedimos demasiado a Brahimi e Corona que resolvessem. Mas dois lances ficaram na retina: um em que Maxi Pereira, junto à linha, pára de correr e estende os braços para Corona, que não estava a fazer o movimento certo; e Imbula, a abrir pelo lado esquerdo, encontra Brahimi e Layún colados à linha, separados por um metro, sem nenhum fazer o apoio interior. Há que afinar as rotinas.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

James Rodríguez, formado no FC Porto

O que é uma boa formação? Velha questão, mas que essencialmente assenta em três pilares. Se um ou mais destes pontos não estiver a ser cumprido, jamais se poderá falar de uma boa formação:

a) Desenvolver jovens que chegam posteriormente à equipa principal e ajudam o clube nos seus objetivos desportivos (conquistar títulos);
b) Desenvolver jovens a ponto de conseguir gerar transferências milionárias que permitam manter a «máquina» a funcionar;
c) Conquistar os títulos nos respetivos escalões.

Avaliando estes três pilares, não é difícil perceber que o FC Porto tem a melhor formação do futebol português (que é diferente de ter a mais bem aproveitada). Começando pela alínea a), muitas vezes associa-se o Sporting ao cartaz de melhor formação em Portugal. Não se sabe como, pois desde que a Academia de Alcochete foi inaugurada o Sporting não foi uma única vez campeão nacional. Desde então, o FC Porto ganhou 9 campeonatos. Os nossos melhores jogadores durante esse período não saíram da formação, mas sim sobretudo do mercado sul-americano, mas basta dizer que Postiga, Bruno Alves ou Castro, basta um deles, fizeram várias vezes o que o Sporting em 13 anos não conseguiu: ter um jogador da formação campeão no seu clube. Aliás, perdão, o Sporting até produziu campeões nacionais. João Moutinho é um bom exemplo.

Toque de Mendes
No que toca à alínea b, o FC Porto obviamente também sai a ganhar. Nani, um extremo match-winner, é o único jogador da história do Sporting a sair por um valor acima dos 20M€. O FC Porto fez isso com um central de quase 29 anos, no caso Bruno Alves. Já o Benfica tem a fama dos 15M€, mas não o proveito. Jorge Mendes interessou-se na formação do Benfica como nunca o fez no FC Porto, na medida em que já se previa que a torneira fecharia primeiro na Luz e que o FC Porto ainda iria continuar a preferir os ataques ao mercado durante mais tempo. Foi noticiado atempadamente que comprou André Gomes por 15M€ e três jogadores da equipa B por 30M€. Depois confirmou-se a saída dos jogadores por preços altamente inflacionados, para boas equipas europeias (e já nem deu para recuar e segurar o único que era verdadeiramente promissor, Bernardo Silva), e uma SAD que declara a venda de Lima à CMVM (7M€) não o faz por dois jovens que dizem ter custado 15M€. Não é preciso mais do que um mindinho de testa, resta saber com que ginástica se explica isso. Não devia ser um «caso de estudo», devia ser um caso de investigação. Mas se Amadeo Salvo não se deixar ser silenciado, os valores serão devidamente aferidos.

De volta ao tema principal, sobra a alínea c). Entre os três principais escalões (iniciados, juvenis e juniores), o FC Porto é o que tem mais títulos. O FC Porto tem 55 (detém atualmente o de sub-19), o Benfica 48 (sub-17) e o Sporting 39 (sub-15). O FC Porto não fica a dever nada a ninguém nestes três pilares. De qualquer forma, o interesse não está na fama de uma boa formação, mas no devido proveito. Rúben Neves é um caso único na sua afirmação, mas não é o único caso possível de afirmação.

Ainda assim, tem sido curioso o tempo de antena que têm dado ao jovem Nelson Semedo, a fazer lembrar o homónimo de há 10 anos. Têm-se multiplicado os elogios ao lateral «formado no Benfica». Oi? Pode repetir?

Afinal, James foi formado cá
Nelson Semedo fez o último ano de sub-19 no Sintrense. Se tomarem por formação o percurso que é feito desde as escolinhas até ao primeiro ano de sénior, Nelson Semedo não fez um único ano na formação do Benfica. Chegou ao clube em 2012 e foi logo emprestado ao Fátima. Só aos 19 anos, já perto dos 20, começou a jogar na equipa B. E estreia-se na equipa principal aos 21.

Com isto ficámos a saber, seguindo o mesmo critério, que James Rodríguez foi formado no FC Porto. E é também o jogador mais caro da história da formação do futebol português, vendido por 45M€. Isto porque James assinou pelo FC Porto com 18 anos e começou logo a jogar, bem mais cedo do que Nelson Semedo. Quando o jovem Nelson começou a jogar pela equipa B do Benfica, já James Rodríguez tinha conquistado uma Liga Europa. Fica o desejo de que se siga então o mesmo critério: Nelson é tão formado no Benfica como James no FC Porto. E saiu com uma Liga Europa, um tricampeonato conquistado e por 45 milhões de euros. Milhões de euros, não da treta.

PS: Muitos pedidos para que se fale sobre os leaks. Certamente que o será feito, mas somente assim que revelem ou comprovem algo de novo afeto ao FC Porto, coisa que até ao momento não aconteceu. Só quem não conhece os meandros do futebol português e da política de gestão levada a cabo sobretudo na última década pode ficar surpreendido com o quer que seja. Não surgiu nada de novo, nada de revelador, o FC Porto reagiu à única coisa a que devia reagir, logo não merece antena para já. A parte mais interessante será averiguar em que medida é que o FC Porto, nos seus próprios R&C, (não) explicará as ramificações de negócios como o de Imbula. Aí sim, haverá interesse em ver o quão aprofundadas serão as informações cedidas pelo FC Porto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

É o que dá «inventar»

Três pontos, 1,5 milhões de euros, 18ª vitória consecutiva no Dragão e liderança do Grupo na Champions, à frente do favorito Chelsea, com boas perspetivas de apuramento para os oitavos-de-final. Tudo isto com uma vitória daquelas que enchem os adeptos de orgulho e contentamento, mesmo aqueles que ao conhecer o 11 inicial já acusavam Lopetegui de estar a «inventar» e que ao próximo mau resultado já se vão esquecer da noite de ontem e vão voltar a cair em cima do treinador e dos ódios de estimação do clube. Porque o problema, aos olhos desses adeptos, na verdade não é o treinador, nem os jogadores. É não ganhar. 

André de pé quente
O Chelsea tem um plantel de elite, um treinador que ninguém ousará dizer que não é dos melhores e mais marcantes da história, e ainda assim está em péssima posição na Premier League e ontem foi apertado no pescoço no Dragão. O FC Porto lidera o campeonato nacional e está em boa posição para ir aos 1/8 da Champions - o apuramento decide-se na dupla jornada com o Maccabi e na receção ao Dínamo Kyev, pois não é nada boa ideia ter que ir a Stamford Bridge para garantir o apuramento. Nos próximos três jogos, dois deles no Dragão e um em Israel, estarão em jogo 4,5 milhões de euros e 9 pontos. O FC Porto sério, combativo e empenhado de ontem vai cumprir esse objetivo.

Uma palavra para Lopetegui. Sim, ele gosta de inventar. É um risco. Mas também tem uma coisa boa: não tem medo de inventar. Lopetegui não se preocupa com o que possam dizer das suas opções, antes e depois do jogo. Ele traça as suas opções mediante aquilo que acha que é o melhor para a equipa, que deixa o FC Porto mais perto de vencer. Não se preocupa com mais nada.  Quem olhasse para o 11 diria que foi um FC Porto montado para defender e jogar para o pontinho. Nada mais errado.

Mesmo desta vez tendo menos pose de bola (43%), o FC Porto criou mais situações de perigo do que o Chelsea, e mesmo depois de fazer o 2x1 continuou em cima do adversário e só por alguma falta de felicidade não chegou ao 3x1. Provavelmente, outro treinador recuaria logo e meteria a equipa à defesa. Lopetegui não. Seguiu o plano que estava traçado desde o início do jogo. Insistiu nele e o Chelsea não teve como dar a volta. 

Depois das derrotas marcantes contra Sporting (na Taça) e Benfica (no último clássico de 2014), o FC Porto não mais perdeu pontos em casa. 19 jogos, 19 vitórias. Em todos os jogos, Lopetegui apresentou perante os adeptos do FC Porto uma equipa autoritária, dominadora, que foi sempre mais forte do que os adversários e que nunca deixou de jogar para ganhar. Dirão, e bem, que também é preciso ganhar fora de casa. Nada mais verdadeiro. Fora de casa, o FC Porto de Lopetegui, em 29 jogos, ganhou 15 e empatou 11. O que faz acreditar que fora de casa as coisas correrão melhor? Vitórias como a de ontem.





Rúben Neves (+) - Qual é a cláusula de rescisão, mesmo? Se são os 40M€, já são demasiado curtos. Podemos invocar a crise e a contenção do fair-play financeiro, mas depois de termos visto no verão Sterling valer 62M€, Martial 50M€, Benteke 46M€ ou Firmino 41M€, quanto valerá este protótipo perfeito de Pirlo!? É simplesmente impossível que no verão não apareçam propostas dessa ordem por Rúben Neves. Está mais forte fisicamente, continua a fluir o jogo como poucos, já se liberta mais em progressão e tenta mais o remate, mas ainda assim continua exímio no passe e na distribuição de jogo. É provavelmente o melhor jogador da atualidade de 18 anos. 

Obrigado a Lopetegui, por ter tido a coragem de fazer o que ninguém no departamento de formação do FC Porto idealizou antes: meter Rúben Neves num patamar acima. Dito isto, e sabendo o quão difícil será manter Rúben Neves para lá de 2016, há que tentar. Nas 30 maiores vendas da história do FC Porto, Anderson foi o mais novo a sair (19 anos), de resto foram James Rodríguez e Cissokho, ambos com 21 anos. Rúben Neves, até aos 21 anos, pode e dever ficar no FC Porto. Quanto mais tempo ficar, mais qualidade acrescentará à equipa e mais perto estaremos dos títulos. E quanto mais tempo ficar, mais valorizado ficará. Há que fazer todos os esforços para manter Rúben Neves durante muito tempo. Quem joga como gente grande também deve ser valorizado, do ponto de vista financeiro, como gente grande. Mas o portismo não tem preço, e Rúben Neves é um símbolo disso mesmo.


Aboubakar (+) - Dá gosto ver a elasticidade nos seus pés no domínio, controlo e progressão. É um poço de força e empenho, inteligentíssimo a vir buscar o jogo atrás e a dar linhas de apoio, e tão depressa parece um bom rapaz que não se quer chatear com ninguém como a seguir pega na bola e começa a comer metros e a deixar adversários para trás de forma destemida. Não marcou, mas ontem, em plena Champions e contra uma boa dupla de centrais, mostrou que é o ponta-de-lança de grande categoria que temiam que o FC Porto não tivesse para 2015-16. Antes de o FC Porto pensar em comprar quem quer que seja para 2016-17, os 30% do passe que a SAD tem de Aboubakar têm que engordar. 

Brahimi (+) - O melhor jogo da época. Com André André do lado direito e um meio-campo sem um criativo para zonas adiantadas, toda a criatividade e capacidade de sair no drible teriam que advir dos seus pés. Mais, com Martins Indi no lado esquerdo da defesa, Brahimi ia estar muitas vezes desapoiado e teria que assumir sozinho os lances. Fê-lo na perfeição. Ivanovic parecia um perdido atrás dele. Guardou sempre bem a bola, descoordenou a defesa do Chelsea a partir do seu flanco, e foi mais objetivo do que nunca, não perdendo tempo com voltas de 360º que acabam e começam - logicamente - no mesmo sítio. Que seja para manter, pois massacrar Ivanovic não devia ser mais fácil do que fazê-lo contra o lateral do Moreirense.

Miolo (+) - Com o meio-campo que Lopetegui montou, sabia-se que o FC Porto não teria tanta facilidade em criar lances de perigo. André André é um apoio para jogar no lado direito, não um jogador para fazer sozinho a diferença no meio-campo adversário; jogar com Indi em vez de Layún retira a profundidade no flanco; sobrava Brahimi (e Aboubakar) para desequilibrar. Na primeira parte essas dificuldades estiveram claras (aqui um pouco de Machado), mas a verdade é que os jogadores souberam complementar-se, progredir em linhas e passes curtos, e evidenciar no coletivo o que faltaria em individualidades. Para isso muito contribuíram Danilo e Imbula. O primeiro funcionou muito bem como referência à frente da defesa, embora por vezes ainda se atrapalhe com Rúben Neves no que toca ao posicionamento; Imbula fez o melhor jogo pelo FC Porto: teve a melhor eficácia de passe do meio-campo (91%), transportou jogo e foi essencial ao dar força e músculo ao meio-campo. 

Reação de Lopetegui (+) - Sendo Evandro o único médio no banco, a entrada para o lugar de Rúben Neves foi lógica. Depois houve dedo de Lopetegui: a entrada de Layún, em detrimento de Tello ou Corona, foi uma boa solução, na medida em que é o que melhor defende, mas sem retirar profundidade e agressividade ao ataque; depois entra Osvaldo, desviando Aboubakar para a ala. Com isso garantiu-se um 9 fresquinho, para pressionar os defesas e ajudar a defender no jogo aéreo; e Aboubakar, na ala, serviu perfeitamente para guardar a bola e manter uma referência na saída para o ataque. Provavelmente todos estariam a criticar estas opções se o Chelsea chegasse ao empate nos descontos, mas é assim mesmo o futebol. Bem jogado.

Um golo de canto! (+) - Desde o calcanhar de Jackson à Académica que não se via esta coisa tão simples e tão difícil: cruzamento, desvio de primeira e golo. Muito mérito para Maicon no golo, na antecipação e no golpe de cabeça, e fica desde já aqui o destaque para o bom trabalho de todo o quarteto defensivo, que se bateu contra alguns dos melhores avançados do mundo - embora Maicon, em dois lances, tenha estado à espera que Diego Costa lhe caísse em cima para reagir. Casillas também brilhou com duas defesas, de resto tirando o remate de Diego Costa à trave o Chelsea nada mais fez. Ingrato que o braçinho de Marcano quase pudesse ter borrado a pintura no final. Levanta-se apenas uma preocupação: com Martins Indi na esquerda (solução bem interessante), ficamos sem centrais de equipa A no banco para a Champions.





Falha de comunicação (-) - Foi bom ver Casillas assumir o erro no livre do Chelsea. Mas aquele lance nem nos distritais pode acontecer: se Casillas não está a ver a bola, tem que corrigir a barreira. O árbitro espera. Que grite, que chame um jogador, mas não se pode deixar bater o livre naquelas condições. Além disso, a bola entra pelo lado que o guarda-redes tem que cobrir. Um erro a não repetir. Houve certamente outros aspetos que necessitam de correção, mas isto é a Champions e do outro lado estavam o Chelsea e Mourinho. Teria que haver erros, mas nenhum deles afastou o FC Porto da vitória. É isso que fica deste jogo.

Domingo, em dia de legislativas, vamos à 19ª no Dragão.