Nada é mais volátil do que o mundo do futebol. Há menos de duas semanas, após a primeira vez em que foste líder isolado em Portugal, Pinto da Costa não hesitou em vir a público afirmar que os assobios te davam sorte. Dar a cara nas vitórias é fácil, nas derrotas nem tanto. Passadas duas jornadas que se traduziram numa perda de 5 pontos, era necessário tomar uma decisão. A SAD, na palavra do seu presidente, o único que ainda te segurava, optou pelo mais fácil.
A situação tornou-se insustentável. Não eras o maior dos problemas do FC Porto, mas também não estavas a conseguir ser solução. Era necessário mudar alguma coisa. A equipa estava numa espiral regressiva da qual não dava sinais de conseguir sair. Numa jornada prometes que vamos ser campeões, na outra empatas com o Rio Ave e és convidado a sair. Num jogo tudo muda.
Os treinadores espanhóis estão destinados a não serem os mais felizes no futebol português. Sais estando a 4 pontos da liderança. O teu compatriota Víctor Fernández saiu quando estava empatado com o Sporting no 1º lugar, e já tinha no bolso uma Supertaça, uma Taça Intercontinental e o apuramento para os 1/8 da Champions.
Pinto da Costa tinha que assumir uma decisão, pois as paredes começavam a ficar curtas. De rajada, vemos de um lado Vítor Baía lançar a cana sobre a candidatura à presidência do FC Porto; e António Oliveira, sem que ninguém lhe tivesse perguntado nada (é que nem um jornal falou nessa possibilidade), decide mandar um comunicado a todas as redações, só mesmo para lembrar «olá, estou aqui».
Os adeptos, na sua generalidade, já não te queriam. Os jogadores, salvo algumas exceções de peso, também não te queriam. O staff técnico do Olival não te queria. O Conselho de Administração não te queria. E Pinto da Costa deixou de te querer. Não havia como continuar, Julen. Mas há coisas que a história de uma passagem pelo FC Porto sem títulos (desde Couceiro que não acontecia - Luís Castro é um caso à parte, que nunca na vida pode ser repetido!) não podem apagar.
Para começar, o FC Porto isola-te como responsável único do mau momento da equipa. Ninguém veio a público falar, ninguém deu a cara. A SAD demite-te ainda antes de saber sequer quem poderá ser o teu sucessor. Se um treinador português, se uma velha raposa mais experimentada, se alguém que conheça a casa. Isso significa que o FC Porto acha que o melhor é saíres já, e depois logo se vê. Vamos ao Bessa com o nosso Rui Barros, um grande portista mas sem a fibra de treinador principal. Pelo menos, vamos ao Bessa com um capital de apoio dos adeptos do FC Porto, coisa que contigo não seria possível.
Não é nada contra ti, Julen, pois o próximo treinador, ao fim de três ou quatro maus resultados, também fica com o pescoço na guilhotina. O FC Porto tem-se habituado a dar mais valor a treinadores depois de eles saírem do que enquanto cá estavam, como são exemplos Jesualdo Ferreira, Vítor Pereira ou até Paulo Fonseca. Não sei se será o teu caso, mas há méritos que ninguém te retira.
Começando pelo princípio. Chegaste e ajudaste a reabilitar competitivamente um clube que vinha de uma época miserável e uma SAD que apresentou o maior prejuízo da sua história. Algo ninguém pode negar: és um excelente manager, telefonista, diretor desportivo. Soubeste convencer a vir para o FC Porto quem, sem a tua intervenção, não viria. E até convencerias a vir quem o FC Porto não conseguiria pagar.
A tua primeira vitória no FC Porto é desconhecida à maioria dos adeptos, mas merece realce: o bate pé às contratações comissionistas, cuja lógica ia muito além do campo desportivo - ou não chegava sequer ao campo desportivo. Podemos falar claramente de Sami. Perguntaste, e bem, por que é que a SAD tinha dinheiro para contratar quem tu não precisavas e não para contratar quem te daria jeito. Podias ter feito o mais fácil: aceitavas o Sami e deixavas muitas famílias felizes, até o ex-cunhado. Mas não. Deixaste claro que tu é que escolhias quem jogava e quem faria o plantel. E muito bem.
Confesso que não percebi algumas contratações tuas. Porquê o Campaña ou o Andrés, por exemplo? Ainda assim, os nomes em quem falhaste saíram bem mais em conta do que todos aqueles em que a SAD tem falhado nos últimos anos.
Dizem que não sabes aproveitar o plantel que o FC Porto tem à disposição. Não concordo. É verdade que tinhas, e tens, obrigação de fazer muito melhor com o que tens. Mas estás longe de ter o melhor plantel em mãos. E se no ano passado o FC Porto tinha um plantel muito melhor, é também teu mérito.
Jackson, Danilo e Alex Sandro já eram matéria-prima de elite, mas foi após uma época contigo que saíram deixando 92,5M€ na Invicta. Com um guarda-redes sempre contestado (Fabiano) e sem ter uma grande dupla de centrais, conseguiste ter a melhor defesa de toda a Europa na época 2014-15. Ganhaste 20 jogos consecutivos no Estádio do Dragão, coisa que não voltaremos a ver nos próximos anos.
Lançaste o Rúben Neves, que se não fosses tu iria iniciar a época nos sub-19, e sabe lá Deus onde estaria a (não) ser manifestado o seu talento por esta altura. Pegaste num miúdo, Óliver, e num sarrafeiro, Casemiro, e tornaste-os jogadores de equipa grande na liga espanhola. Meteste Herrera e Brahimi a brilharem ao mais alto nível na Champions. Meteste o Tello a marcar e a assistir como nunca em 2014-15. E até fizeste do Quaresma o jogador que nunca foi coletivamente.
Optaste por deixar sair o Quaresma, e bem, pois os adeptos não imaginam o que é ter um balneário com vedetas. Depois seguiu-se uma série de saídas importantíssimas. É verdade que o FC Porto vende 2 ou 3 titulares por época - e foi isso que aconteceu. Saíram Alex, Danilo e Jackson. Óliver e Casemiro não eram nossos e nunca haveria dinheiro para os ter. Logo, acabou por acontecer o normal, que é perder os tais dois ou três jogadores do clube em vendas milionárias. Mas aconteceu o que é normal na gestão da SAD: venda de dois ou três ativos; não aconteceu o que é normal na gestão de um treinador: perda de cinco ou seis titulares.
Uma coisa chocante é a tua revelação de que achavas que a SAD ia aplicar o dinheiro em novas contratações. Das duas, uma: ou ninguém te explicou como funciona a SAD do FC Porto, ou estavas com muita, mesmo muita ilusión. Qualquer uma é grave, mas não pá para acreditar que a SAD não te tenha explicado que não havia tusto para reforços, exceção feita a parcerias com fundos. Por outro lado, sempre questionaste, e bem, como é que havia dinheiro para tantas coisas e não para a maior prioridade: reforçar o plantel. O plantel principal deixou de ser a porta de entrada de contratações que não serviam propósitos desportivos - em compensação, na equipa B e nas camadas jovens dispararam.
O que foi a época 2014-15 desportivamente? Fizeste uma brilhante Champions. Ajudaste a apurar o FC Porto a frio e fizeste 11 jogos consecutivos sem perder na Liga dos Campeões - hão-de passar muitos anos até um treinador de um clube português voltar a fazê-lo. O desastre de Munique foi próprio de quem não tinha laterais suplentes inscritos na UEFA. Aos 75 minutos ainda estávamos a discutir o apuramento para as meias-finais com uma equipa muitíssimo superior a nós.
É verdade, inventaste na Taça de Portugal. Subestimaste o Sporting, e partir daí muitos adeptos ficaram com o pé atrás - e nunca mais o tiraram do sítio. Mas também foi um dos muitos jogos em que foste pé frio. Penaltys falhados, ineficácia a atacar, erros individuais a defender. Detalhes, detalhes e mais detalhes. Mas o detalhes foram-se acumulando e deixaram de ser detalhes para passarem a ter tendência. Foram demasiados jogos em que o FC Porto foi incapaz de dar a volta a uma desvantagem no marcador - apenas uma reviravolta em ano e meio.
No campeonato, ainda assim, fizeste 82 pontos. Tantos como o Mourinho em 2004, mais do que o Co Adriaanse e em três épocas do ciclo do penta. Para aquilo que eras - um treinador sem experiência a nível de clubes na luta por títulos, coisa que muitos pareciam esquecer que eras: inexperiente -, foi bem razoável. Tiveste, aliás, a segunda melhor defesa de sempre num campeonato a 34 jornadas. Podias, e devias, ter sido campeão. Mas os adeptos deixaram-se iludir pela máquina de propaganda que visava lavar o roubo que foi a forma como o Benfica tirou o campeonato ao FC Porto.
Só tu, sozinho, te insurgiste contra isso. Contra-atacaste sozinho, perante tudo e todos. O Jesus, o Manuel José e o Gomes da Silva. Atacaste as arbitragens tendenciosas, as nomeações e a comunicação social que desprezava tudo o que de bom o FC Porto conseguisse. Não é um problema, é tradição. Mas os adeptos deixaram-se levar pela própria propaganda encarnada - e o problema foi esse.
Pinto da Costa elogiou mais vezes publicamente um treinador que só era líder do campeonato devido ao colinho do que defendeu o FC Porto. Tudo calado, tudo no canto. O Benfica ganhou um campeonato da forma mais ilícita de que há memória e ninguém na SAD do FC Porto protestou. Porquê? Por indiferença? Por não ter moral para o fazer? Por outras razões? Não sabemos qual, e também não sabemos qual será a mais grave.
Temos uma SAD paga a peso de ouro. Reinaldo Teles, Adelino Caldeira e Fernando Gomes têm remuneração fixa anual de 287 mil euros, mas nunca saíram a público para defender o FC Porto. Podem alegar que é o presidente que o tem que fazer, mas não há mais ninguém na SAD? Não podem dar a cara pelo FC Porto? É verdade que por vezes, nomeadamente nas intervenções de Fernando Gomes, sai uma mescla que torna o silêncio ouro. E Antero Henrique, o «homem forte do futebol», porque é que só dá entrevistas a jornais estrangeiros a falar sobre o «modelo» e «a estrutura»?
O FC Porto foi atacado por inúmeras frentes em 2014-15, numa época em que muitos queriam que fosse o funeral do clube, depois do desastre que foi 2013-14. Lopetegui defendeu o clube sozinho. Ajudou a manter a SAD de pé. Depois de Lopetegui tanto ter defendido o FC Porto, seria altura de defender Lopetegui. A SAD nunca o fez.
Tu querias ganhar no FC Porto, sei que sim. Em condições normais, já terias ganhado em 2014-15. Esta época não conseguiste segurar o leme, reconheço. Há jogadores que não ajudam, mas não há treinador que passe pelo FC Porto sem ter problemas no balneário - muitos estão de passagem e não pensam na próxima vitória, só pensam no próximo milhão. Há quem diga que és convicto, como um treinador do FC Porto tem que ser. Mas muitas vezes foste casmurro e inflexível, que é algo que dificilmente serás no teu próximo clube.
Os próprios jogadores sabem jogar com a instabilidade do treinador. Um jogador que sabe que o treinador não é apreciado pelos adeptos, e nem sequer pela própria SAD, é um jogador que sabe que o treinador já não é a voz autoritária inquestionável. Perdeste o balneário também por isso. Quiseste ser punho de ferro quando muitos jogadores sabiam que estavas a prazo. Um treinador só consegue triunfar no FC Porto enquanto tem apoio. Quando deixa de o ter, perde tudo.
Chega a hora de seguir caminhos separados. O FC Porto vai voltar a vencer sem ti. E tu hás-de vencer sem o FC Porto. Como tem sido apanágio nos últimos anos, o tempo confirmará se as culpas se podiam, ou não, resumir ao treinador.
Boa sorte, Julen. E força, FC Porto.





















