domingo, 31 de janeiro de 2016

Controlo em alta rotação

Ao 15º jogo, o FC Porto voltou finalmente a ganhar em Lisboa e arredores. E conseguiu-o com uma reviravolta, coisa tão difícil de completar nos últimos tempos. Ainda com pouco tempo de preparação, José Peseiro já introduziu parte substancial daquilo que pretende para o FC Porto: uma equipa com menos posse de bola, que consiga chegar à baliza adversária com menos passes e que faça uso dos três corredores para o fazer.
Liberdade e influência

A estrutura está clara: um duplo pivô no meio-campo, André André com liberdade para pisar os flancos, extremos muito solicitados na zona central e laterais sempre projetados. O FC Porto tenta ser mais rápido nas transições, o que fez com que acabasse o jogo com menos posse de bola do que o Estoril (apenas 47%) e que até falhasse mais passes do que os adversários, mas a eficácia em momentos chave (contra-ataque, bola parada e recarga) premiou um justo triunfo.

A ditadura da posse de bola e circulação curta e lenta foi posta de parte, mas resta ver como é que o FC Porto se adaptará contra equipas mais fortes no contra-ataque, que aproveitem as dificuldades acrescidas que o FC Porto vai passar a ter no momento de transição defensiva. Por outro lado, a filosofia de José Peseiro assenta muito nisto: o problema não é sofrer dois golos, é não marcar três. E assim foi. O FC Porto sofreu, mas o caudal ofensivo garantiu a reviravolta. Boa vitória.







André André (+) - Ponto prévio: o plantel continua a carecer de um médio criativo. É bom lembrar isto, pois a exibição de ontem de André André pode dizer o contrário. Excelente jogo, a lembrar a boa forma do início de época. Teve liberdade para cair nos flancos (a maior parte das vezes na direita) e chegar a zonas de finalização, sem com isso deixar de baixar no terreno para reforçar o meio-campo - muito bem na disputa e na recuperação. Soube ser o motor da equipa ao longo de todo o jogo, lembrando que muitas vezes a melhor finta é um bom passe. 

Laterais, outra vez (+) - Layún já leva 15 assistências, 12 no campeonato. Arrancou decidido para o 1x1 e bateu o canto que permitiu a Danilo dar a volta ao resultado. Fez uma primeira parte de elevadíssimo nível, inclusive colmatando o apagão dos extremos no ataque. Maxi Pereira entendeu-se muito bem com André André sob a meia direita e soube controlar todas as investidas do Estoril pelo seu flanco, além de ter ganhado 17 disputas de bola (o recorde desta época). E viu o cartão que, à partida, lhe vai permitir defrontar o Benfica na Luz. Será essencial ter o melhor Maxi - este - nesse jogo.


Herrera (+) - Sempre a subir de rendimento ao longo do jogo, até chegar a uma segunda parte em que mostrou o seu melhor futebol. Por norma mais forte no transporte, Herrera foi excelente na circulação de bola, tendo arriscado mais em passes adiantados sem com isso os errar. Continua a ser muito forte na recuperação de bola e na pressão ao adversário, desta vez jogando com maior tranquilidade e confiança. Agora falta aquilo que muitas vezes lhe tem faltado: consistência e continuidade.

Outros destaques (+) - Quem já jogou futebol, sobretudo como ponta-de-lança, percebe o falhanço de Aboubakar. Foi um enorme falhanço, sem dúvida, mas a partir do momento em que a bola ressalta o golo mais simples de fazer pode tornar-se difícil de fazer. Tirando esse momento, voltou às boas exibições. Fez um golo, segurou melhor a bola e desta vez soube ir ao encontro dela quando o contrário não acontecia. Uma palavra para o belo jogo de Marcano na defesa e para Varela - dois minutos após ter entrado em campo, pois quando entrou pareceu estar a dormir, mas depois foi inteligente e útil na circulação e manutenção da bola no meio-campo do Estoril. Danilo falha no golo do Estoril, mas foi ao ataque redimir-se e ofereceu sempre simplicidade e capacidade física ao meio-campo.







Apagão dos extremos (-) - A ação de André André e dos laterais coincidiu com algo poucas vezes visto no FC Porto desde o início da época: o apagão de Corona e Brahimi em simultâneo. Curiosamente, os dois jogadores mais virtuosos da equipa foram aqueles que menos se destacaram. Não é que tenham jogado mal, mas os principais lances de perigo do FC Porto não passaram por eles. Numa visão optimista, só uma equipa com um coletivo e dinâmica fortes consegue fazer três golos e uma reviravolta sem intervenção direta dos seus criativos. Ou houve sorte e eficácia, ou vimos um coletivo que dispensou as individualidades.

Dia 1 de fevereiro fecha o mercado. Depois será feita a análise às entradas e saídas que se consumarão no último dia de inscrições. Segue-se o primeiro de três jogos para o ponto de honra chamado Taça de Portugal. Não há espaço para rotação, nem para experiências: há que tentar matar as esperanças do Gil Vicente já no primeiro jogo.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Experiências e limitações

Onde acaba a desvalorização que o FC Porto atribui à Taça da Liga e onde começa a incapacidade crónica de ganhar esta competição? Foi uma época caricata. Em três jogos, três derrotas com três treinadores diferentes. O FC Porto começa por perder em casa com o Marítimo, ainda com Lopetegui, e já aí entregou o apuramento. A derrota em Famalicão, ainda com Rui Barros no período de transição, confirmou o adeus. E a derrota de ontem contra o Feirense não foi mais do que um jogo-treino para José Peseiro, que aproveitou para testar segundas linhas e o já muito comentado 4x4x2 losango.

Ainda assim, todo o percurso na Taça da Liga só pode ter um balanço extremamente negativo. Não foram os adeptos a dizer que ganhar a Taça da Liga era um objetivo. Foram os máximos responsáveis do FC Porto, desde o presidente ao treinador (neste caso Lopetegui, pois Rui Barros e Peseiro não podem ser responsabilizados por nada nesta competição). Se o FC Porto nem um ponto consegue fazer num grupo que era acessível em toda a linha, isto foi um grande descalabro.

Experiências e limitações
De qualquer forma, o FC Porto já estava eliminado. Ontem foi dia de José Peseiro fazer experiências e proferir palavras extremamente curiosas. A saber: «Se os jogadores não se sentiram confortáveis não há prolema nenhum. Gosto deste modelo, mas não quer dizer que seja prioritário. Prioritário é aquele com que defrontámos o Marítimo».

Ou seja, Peseiro admite que o tal 4x4x2 pode não seguir para a frente e que a sua principal base continuará a ser o 4x2x3x1 (ou 4x3x3 com triângulo invertido, ou duplo pivô, é como quiserem). A esmagadora maioria dos atletas que jogaram ontem estão longe do onze base de Peseiro. Logo, podemos quase dar por garantido que o 4x4x2 vai ficar na gaveta: se os suplentes não se adaptam ao modelo e não vai haver jogos sem pressão para testar o modelo entre os titulares (não vai haver nenhum jogo de cumprir calendário ou em que se possa declaradamente rodar a equipa até ao fim da época), então podemos contar com a base que foi lançada contra o Marítimo.

Pinto da Costa assumiu que Peseiro foi contratado para continuar a lutar pelos objetivos assumidos no início da época. Se há planos de implementar não só uma nova dinâmica como um novo esquema tático, podem esquecer o título. É uma missão impossível mudar completamente a equipa e assimilar processos ao mesmo tempo em que não há margem para perder pontos. Não estamos apenas a 5 pontos da liderança: estamos no 3º lugar. A SAD não quis dar nada por perdido e chutou toda a pressão para cima de Peseiro. Passámos de um treinador que exigia jogadores do Real Madrid, do Atlético ou do Barcelona para outro que aceita, com humildade e simpatia, os jogadores de Setúbal e Marítimo - o mercado ainda está aberto e ainda se esperam entradas (o FC Porto já fez três contratações, mas não é preciso contratações: é preciso reforços), mas a mudança de abordagem ao mercado já começa a ficar clara.

Os portistas não sabem o que é desistir enquanto ainda é possível. Todos continuam a acreditar no título, mas não há margem para errar. Vamos testemunhar jogos com o mesmo aperto de 2013-14: sabendo que cada jogo é uma final, e que muitas vezes haverá mais sofrimento do que espetacularidade. Sábado já há uma grande final, no Estoril, e os resultados do FC Porto em Lisboa e arredores têm sido péssimos. 

Ainda sobre o jogo de ontem, e com vista a «Bonés» e «Machados», Chidozie foi o único que não deu nas vistas pela negativa. A esmagadora maioria dos futebolistas africanos que ingressam nas camadas jovens do FC Porto saem sempre pela porta pequena, muitos sem nunca revelar qualidades para sequer tendo vindo para a formação do clube, quanto mais para chegar à equipa A. Mas Chidozie tem tido uma grande evolução este ano. É bom lembrar que ainda é sub-19 de segundo ano. Apontamentos positivos, mas não, não é nem pode ser o 4º central do plantel - aliás, na opinião mais consensual, o FC Porto não precisa de um quarto central, precisa de um patrão.


Sobre Silvestre Varela. José Peseiro não vê nele o 10 ideal: simplesmente não tem melhor no plantel. Com Bueno de fora por problemas físicos, Peseiro improvisou com o que tinha. É um recado, mesmo de forma indireta, muito claro à SAD: o treinador precisa de um médio-ofensivo com urgência. Curiosamente, desde o início da época que se falava dessa lacuna no plantel, mas entretanto isso ficou algo esquecido, sobretudo pelo arranque de época de Aboubakar e pela forma como Corona entrou na equipa. Mais cedo ou mais tarde, as fragilidades ficam expostas. Faz lembrar quando Licá era o extremo para Paulo Fonseca. O furor durou um mês.

André Silva está a ser um pé frio sem igual no FC Porto. Em sete jogos com ele em campo, o FC Porto só ganhou um (o do Bessa, no qual Helton defendeu o penálti no último segundo), empatou outro e perdeu cinco. Nesse período o FC Porto marcou três míseros golos e sofreu 10! O importante aqui é não deixar que o potencial de André Silva seja já queimado. O FC Porto não está mal por André Silva estar em campo: André Silva é que está a ser lançado numa fase em que tudo corre mal ao FC Porto. Ele próprio tem responsabilidades, pois tem estado nervoso e ansioso, mas não é fácil entrar na equipa nestas circunstâncias.

Rúben Neves não está na melhor forma. E se há coisa que não faz sentido é associarem a sua quebra de rendimento ao futebol de Lopetegui. Porquê? Porque nunca se viu Rúben Neves com outro treinador e com outro futebol que não o de Lopetegui. Com José Peseiro terá que se adaptar a novos conceitos. E nenhum jogador aprende isso da noite para o dia, muito menos quem tem 18 anos (às vezes esquecem-se disto).

Ángel e Víctor Garcia estiveram mal, Maicon está num pântano de más exibições e Sérgio Oliveira tem que ser urgentemente emprestado a um clube onde possa jogar (no FC Porto não o vai fazer e jamais chegará a ser opção válida assim). Suk, ao terceiro jogo, mostra o que vai sempre mostrar: muito trabalho e empenho. E de Imbula, aos poucos quiçá vão percebendo que só há um culpado para a sua falta de produtividade no FC Porto: ele próprio. E mandar uns berros a este rapaz, a ver se ele acorda? Que se lixe o ativo da Doyen: como futebolista do FC Porto, que é quem lhe paga o salário todos os meses, está a ser sofrível. De nada vale ter todo o potencial do mundo se no curto prazo não se esforça por nada.

José Peseiro não fez substituições, o que significa que estava mais interessados em ver as suas segundas linhas do que em lançar jovens da equipa B que, provavelmente, não voltariam a jogar até ao final da época. Opção do treinador, compreende-se.

Enquanto o mercado ainda está aberto, fica este desabafo: alguns dos melhores reforços que o FC Porto poderia ter, neste momento, seria mandar embora alguns dos que cá estão. A passo, sem empenho, sem sentir vergonha por maus resultados ou exibições, com indiferença pela camisola que vestem e a não pensar em muito mais do que numa transferência no fim da época. Limpeza, precisa-se.


PS: A reação ao desfecho dos vouchers fica para depois. Mas será publicada muito antes do FC Porto reagir, certamente. E o post poderia apenas sair lá para 2020, que ainda assim seria publicado muito antes do FC Porto falar sobre o colinho. O FC Porto foi comido, em toda a linha, neste processo. Mas o mais grave não foi isso: foi ter-se deixado comer sem um único esbracejar. O plantel merecia ter conquistado o título 2014-15; a administração da SAD, por todo o seu comportamento na defesa ao FC Porto neste caso, nada merecia. É a única justiça neste processo, mas quem paga a fatura é o FC Porto.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Contratações ou reforços

Desviar jogadores de outros clubes não me dá prazer nenhum. Isso só são boas notícias se as contratações acabarem por render no FC Porto, e se em sentido inverso as alternativas encontradas pelo clube que foi ultrapassado não se revelarem melhores (o Sporting falhou Ghilas, em 2013, e foi buscar Slimani por um décimo do preço). O facto de Marega e José Sá terem sido cobiçados pelo Sporting não lhes retira nem acrescenta qualidade. O importante é o que o FC Porto ganha, não é o que o Sporting perde. Jorge Jesus também prometia fazer de Derley, contratado ao Marítimo em 2014, um grande matador no Benfica. Ser alvo de JJ não é sinónimo de qualidade.

Dito isto, a reação às contratações de José Sá e Marega para o FC Porto. São contratações que, neste momento, não deixam o FC Porto mais perto do título 2015-16, e que levantam dúvidas sobre se terão sequer espaço no plantel da próxima época.

O FC Porto ainda não revelou detalhes sobre o negócio, sobre o qual se levantam várias questões. O Marítimo pediu 5M€ pelos dois ao Sporting - o FC Porto aceitou pagar esses 5M€, ou será que foi ainda mais além? À imagem de Danilo Pereira, algum deles também foi dar primeiro um giro a Portimão? É isso que implica que Maurício, que estava emprestado pelo Portimonense ao FC Porto B (e que não revelou qualidades para ficar no FC Porto, diga-se), possa seguir para o Marítimo?

Começando por José Sá. É um guarda-redes que faz lembrar... Mika. Como assim? José Sá começou a ganhar popularidade por causa das suas exibições no Europeu de sub-21. Um pouco à imagem de Mika, que apareceu no futebol português pelo seu Mundial de sub-20. 

José Sá é o habitual suplente de Salin no Marítimo. Na última época jogou quase sempre na equipa B. Tem 23 anos e ainda não fez nenhuma época completa como titular numa equipa de primeira liga. É inexperiente e, apesar de os guarda-redes evoluírem sempre mais tarde, até ao momento não mostrou nenhum potencial acima da média na carreira - também porque ainda não foi aposta em nenhum lado com continuidade. Faz lembrar quando o FC Porto foi buscar Paulo Ribeiro a Setúbal.


O que pode José Sá dar, neste momento, que Gudiño não pode? É bom não esquecer que Gudiño é o guarda-redes mais caro da história do FC Porto, e também ele um jovem de tremendo potencial. Além disso, na equipa B o FC Porto tem Andorinha, que joga regularmente na seleção desde os sub-16 (José Sá só começou nos sub-20) e não joga mais por estar tapado por Gudiño. E é bom lembrar a afirmação de Diogo Costa, que é juvenil mas já é guarda-redes titularíssimo dos juniores.

Poderão lembrar, e bem, a idade de Helton e Casillas. Mas quem diz que com José Sá e Gudiño o FC Porto assegura o futuro esquece-se de um pormenor: o presente. José Sá não poderá nunca fazer parte do plantel do FC Porto, como opção válida para a titularidade, antes de fazer uma época completa como guarda-redes de primeira liga. O mesmo vale para Gudiño, mas Gudiño é quatro anos mais novo. Um deles estará muito provavelmente emprestado a outro clube em 2016-17, se não mesmo ambos. E já agora, o FC Porto tem emprestados Ricardo Nunes, Kadú, Andrés Fernández, Bolat e Fabiano a outros clubes - foi-se contratar mais um guarda-redes sem antes saber o que fazer ao excesso de guarda-redes nos quadros do clube.

Outra grande questão é perceber que tipo de evolução podem ter os nossos guarda-redes trabalhando com Daniel Correia. Não é Peseiro, nem sequer outro treinador principal quem vai ajudá-los a evoluir: o trabalho do treinador de guarda-redes é muito mais importante. Daniel Correia praticamente só trabalhou na equipa B do FC Porto, e nunca foi profissional. Levantam-se questões sobre se esta será a melhor solução para trabalhar os nossos jovens. Por outro lado, estando Helton perto do fim de carreira, por que não abordá-lo nesse sentido? É certo que Helton sente-se capaz de continuar a ser titular numa grande equipa, mas teria todas as valias profissionais, técnicas e pessoais para continuar ligado ao FC Porto.

Nem será de descartar a hipótese de José Sá ser já emprestado a outro clube, caso contrário vai estar ou meio ano sem jogar, ou a aparecer apenas esporadicamente na equipa B, onde já temos quatro guarda-redes (além de Gudiño, que é quem mais joga, há Andorinha, Caio e Filipe Ferreira). O melhor seria José Sá ser já cedido. 

Quanto a Marega... Há coisas que não se percebem. É forte fisicamente, é rápido. E está descrito Marega. Trata-se de um jogador sem escola, que há dois anos estava na terceira divisão francesa. Não é raro vermos jogadores que se afirmam um pouco mais tarde no futebol profissional (vejam o exemplo de Vardy em Inglaterra), mas a contratação de Marega parece estar muito longe daquilo que o FC Porto necessita.

Marega é um jogador muito limitado tecnicamente, o tipo de ponta-de-lança que funciona como referência para a bola longa, para as costas da defesa, e para o jogo aéreo. O FC Porto não costuma ser bem sucedido tendo pontas-de-lança deste perfil. Sem espaço, tal como Suk, tem muitas dificuldades. É certo que Marega pode jogar a partir de uma ala, mas também não tem a qualidade técnica que se possa pedir a um extremo do FC Porto. O FC Porto já contratou 3 jogadores no mercado de inverno e nenhum deles capacitado para pegar de estaca na equipa.

De facto, José Peseiro quer apostar num modelo de transição mais rápida, que é mais adequado a Marega do que o seria, por exemplo, o modelo de posse de Lopetegui. Por esse prisma, faz sentido. Por outro lado, Suk já é uma contratação dentro do mesmo perfil: bom a jogar em profundidade e com 40 metros à frente. Mas Suk ainda teve escola, ao contrário de Marega. Marega tem a valia física, é forte no jogo aéreo, o que poderia ser interessante se o FC Porto procurasse muitas vezes o ponta-de-lança na grande área. Mas custa a acreditar que possa ser essa a estratégia para o que resta da época. Uma coisa é transição rápida, outra é chuveirinho para o ponta-de-lança.

Se custasse um milhão de euros, o risco aceitava-se - mesmo sem o subscrever. Se Marega custa o triplo ou o quádruplo disto, parece ser um mau investimento, inoportuno e que levanta dúvidas sobre se conseguirá ter retorno desportivo a esse nível - ou sequer recuperar o dinheiro numa futura transferência. Dias felizes para Carlos Pereira, que faz o melhor negócio da história do Marítimo e que já deve ter estado mais longe de receber um Dragão de Ouro. Em menos de um ano já leva cerca de 8M€ de negócios com o FC Porto. Mais um bocado e têm o estádio pago.


A partir do momento em que começarem a treinar/jogar, estão sujeitos ao mesmo que qualquer outro futebolista do FC Porto: têm a obrigação de trabalhar ao máximo para evoluir, ter espaço nas opções de José Peseiro e ajudarem o clube a cumprir os seus objetivos. Falando especificamente de Marega, temos vários jogadores muito mais talentosos nos quadros do clube, mas a falta de humildade, de empenho e de disponibilidade para aprender impedem que sejam titulares no FC Porto. Se Marega vier com a atitude correta, já terá algo com que combater e colmatar as suas debilidades técnicas.

As expetativas sobre os jogadores, confesso, estão longe de ser as maiores, ou sequer positivas na relação qualidade/investimento. São contratações caras. Esperemos que cheguem a ser reforços. Que daí saiam boas surpresas. Até porque só podem surpreender pela positiva.

Boa sorte, Sá e Marega.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Pré-época em fins de janeiro

Mudar de treinador não é uma solução milagrosa para passar a jogar bem. Não é por acaso que são raras as equipas que ganham alguma coisa quando mudam de treinador a meio da época. Porquê? Porque se há uma mudança de treinador, é porque o modelo de jogo não está a funcionar; assim sendo, há que mudar. Mas quando se pega numa equipa a meio da época, quase sem tempo para treinar, é extremamente difícil apresentar mudanças. 

Ao fim de três treinos, José Peseiro já quis introduzir coisas novas na equipa. Manteve as peças, mas tentou mudar a matriz e a dinâmica. Mas esta tentativa de aproximar a equipa do 4x2x3x1 correu mal e resultou numa má exibição do FC Porto. Felizmente, a nossa bola na trave bateu nas costas de Salin e entrou, ao contrário do remate à trave por parte do Marítimo.

Sem dúvida que o importante era ganhar. E assim será em cada jogo até ao fim da época. Para já, a primeira conclusão: José Peseiro precisa de um médio-ofensivo até ao fim do mês. Tentou colocar André André nessa posição, mais perto de Aboubakar, mas André André não pode jogar com 3.º médio neste esquema. Ficou claro que a SAD precisa de dar um médio criativo a Peseiro até ao fim do mercado. 

Notou-se alguma intenção de acelerar a transição da equipa. O problema é que isso resultou numa avalanche de erros. Passes falhados, muita precipitação no início de construção, passes absurdos de 40 metros quando tinham linhas de apoio por perto. Além disso, o FC Porto tentou atacar mais pela zona central e menos pelos corredores: a antítese do que fazia Lopetegui. Era simplesmente impossível, ao fim de três treinos, mudar processos que foram trabalhados durante ano e meio.

O FC Porto estava tão ocupado com a tentativa de assimilar os novos processos que não aproveitou a forma como o Marítimo jogou: foi a equipa que jogou com a linha defensiva mais subida no Dragão nos últimos tempos. Mas a equipa quase nunca foi capaz de meter bolas nas costas da defesa. Por outro lado, a arbitragem foi simplesmente escandalosa, desde os bandeirinhas ao árbitro Jorge Ferreira.

Benfica x Arouca, 23-01-2016
Jorge Ferreira já o conhecem: é o árbitro sobre o qual Jorge Jesus sabe «muita coisa do ano passado». Um dos lances com Maxi Pereira é simulação. Old habits die hard, não é Maxi? Nos dois outros lances o defesa atira Maxi ao chão, sem jogar a bola. Isto surge no dia seguinte a mais uma vassalagem de Vítor Pereira ao Benfica. Sorte bem diferente teve o Benfica no seu jogo frente ao Arouca.

Os árbitros assistentes também foram uma nódoa, em particular Inácio Pereira. Quem é Inácio Pereira? Um árbitro que em 2013 foi de internacional às... distritais. Acabou por se manter na categoria AAC1, após a controvérsia sobre o sistema de classificações. O outro auxiliar era Paulo Vieira. Um árbitro tão bom que, em 2014/15, acabou a época a apitar no  campeonato distrital da 1ª Divisão da Associação de Futebol de Viana do Castelo. E acabou o jogo a levar no nariz, pois aos 90'+3 minutos ele, enquanto árbitro auxiliar, decidiu assinalar um penalty que mais ninguém em todo o estádio viu. Ontem também via foras de jogo que mais ninguém via.

O FC Porto jogou mal, muito mal, mas voltaram a estar servidos todos os ingredientes para o FC Porto tropeçar na estreia de José Peseiro. Que faz o FC Porto e a sua SAD? Nada. Silêncio total. Não há portista que se identifique com isto, mas esta parece ser a postura oficial do FC Porto para este tema. Voltámos a ser bons rapazes, um clube adorado por tudo e por todos, até mesmo por Carlos Pereira, o presidente do Marítimo (análise às mais recentes contratações fica para depois).





Maxi Pereira (+) - O mais consistente em toda a partida. Ia a cada lance na raça, sofreu duas faltas merecedoras de penalty, cruzou, esteve sempre no apoio ao ataque e não perdeu nenhum lance pelo seu flanco.

Meio extremo (+/-) - Na primeira parte, só Brahimi criou lances de perigo por parte do FC Porto. Na segunda, foi a vez de Corona ser o único a dar algum virtuosismo ao ataque. Quando o coletivo não funciona, pouco mais resta que esperar que as individualidades se destaquem. Corona e Brahimi fizeram o que puderam, quando puderam. Pouco, mas grande parte do que o FC Porto fez.





É permitido rematar? (-) - Nos primeiros parágrafos já foram enumeradas as dificuldades do FC Porto, próprias de quem muda de treinador e dinâmica. Por outro lado, ver o FC Porto fazer apenas cinco rematas em casa é algo inédito, pela negativa. Equipa muito débil a atacar, e para isso muito contribuiu o facto de Aboubakar ter passado todo o jogo escondido, sem sequer um remate para amostra. Está difícil, Aboubakar. Nenhum ponta-de-lança aguenta muito tempo assim como titular do FC Porto, a não ser que as alternativas também não estejam em melhor momento.

Displicência (-) - A tentativa de acelerar o jogo do FC Porto só resultou em precipitação, passes falhados, bolas perdidas. Herrera foi o jogador do FC Porto que mais bolas recuperou, mas nunca percebeu que espaços ocupar no meio-campo e como levar a bola ao ataque. Danilo também esteve bem defensivamente, mas errou várias vezes na saída de bola. Os primeiros 20 minutos, com muita gente a passo, sem meter o pé e sem pressionar, mostram mais do mesmo da era Lopetegui: jogadores com muitas responsabilidades pelos maus resultados, essencialmente por falta de atitude. E uma vez mais, cumpre-se o paradoxo de o FC Porto ter a melhor defesa do campeonato, mesmo sem ter uma dupla de centrais que dê grande segurança.

José Peseiro prometeu que a equipa vai jogar muito mais do que isto. Todos acreditamos, pois não é possível jogar pior do que isto. O treinador agora terá mais tempo para trabalhar as suas ideias - e ficou claro que as suas ideias necessitam de jogadores que o plantel do FC Porto não tem. Quem decidiu trocar de treinador em janeiro, mantendo os mesmos objetivos do início da época, tem agora que assegurar que Peseiro tem o necessário para continuar na luta pelo título.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Alô, FC Porto? Está aí alguém?

Foi há quase um ano que O Tribunal do Dragão escreveu que o jornal Record era uma espécie de pronto-socorro para Vítor Pereira. Sem surpresa, continua a sê-lo. Bastou saber que Bruno de Carvalho ia falar n'A Bola para chapar logo Vítor Pereira em grande destaque no Record. A fazer o quê? As únicas três coisas que sabe: mentir, sacudir culpas e proteger quem o protege (o Benfica).

Vítor Pereira, o presidente do Conselho de Arbitragem da FPF, começa com esta pérola: «Nem eu nem os quatro membros da secção profissional temos conhecimento das notas dos árbitros».

O pobre presidente do CA diz que não sabe as notas dos árbitros. Se usar o telemóvel para outra coisa que não seja telefonemas a elementos do Benfica, de certeza que encontra por lá as notas todas dos árbitros:


Assim que um jogo acaba, o observador tem 90 minutos para enviar a nota que atribui ao árbitro ao Conselho de Arbitragem. Os árbitros, para quem já se esqueceu, estão profissionalizados. Então, cabe à secção profissional avaliar/acompanhar o desempenho dos seus árbitros.

Sem vergonha na cara
Os elementos são: Vítor Pereira, Antonino da Silva, Domingos Gomes, Luís Guilherme e Lucílio Baptista (não, não é uma piada). O ponto 6 do I Capítulo - as Normas Genéricas - das diretivas para observadores é bastante claro: as notas são enviadas por SMS para o Conselho de Arbitragem. E diz o responsável pela arbitragem em Portugal que não sabe as notas dos árbitros!?

Além disso, Vítor Pereira, em março de 2015, explicava que as nomeações têm em consideração a «graduação de Normal, Médio e Difícil» quanto à dificuldade de cada jogo, tendo sempre em conta «a classificação, a rivalidade e factores recentemente ocorridos». E dizia que para os jogos de «dificuldade acrescida» devem ser nomeados «árbitros internacionais ou classificados até ao 12º lugar da época anterior».

E agora sai-se com isto: «Do grau de dificuldade, da nota ou da classificação, continuamos a não ter conhecimento». Se Vítor Pereira é responsável por todas as nomeações de árbitros, como é que ele diz que não tem conhecimento do grau de dificuldade de cada jogo, se ele supostamente tem que nomear os árbitros considerando o grau de dificuldade de cada jogo!?

Calma, isto piora. Vítor Pereira sai-se ainda com esta: «Vouchers? É ou não normal os árbitros receberem determinadas ofertas? Se é normal, isso não é reportado. E nunca foi reportado».

Para começar, é normal receberem «determinadas ofertas». Só não é normal receberem jantares pagos e ofertas com valor comercial. O máximo responsável pela arbitragem em Portugal continua a defender o indefensável, continua a defender o ilícito. Nem na UEFA, nem na FPF: a prática do Benfica é ilegal e não tem defesa. Quem continua a defender isto, mesmo perante os factos e os regulamentos, defende a mentira e o ilícito só para proteger o Benfica.

But wait, there's more! Vítor Pereira diz que as ofertas aos árbitros «nunca são reportadas». Ora vamos lá recordar o que deliberou a FPF. E vamos fazê-lo com recurso ao jornal favorito de Vítor Pereira, o Record.

Só que voltou a acontecer o mesmo fenómeno que na Robertada: apagou-se a notícia que mostrava o próprio Record a afirmar que os árbitros são obrigados a declarar todas as lembranças. O link original era este, mas cá vai o texto que foi publicado e apagado pelo Record (neste caso, admitindo-se que a notícia pode ter sido eliminada quando criaram o novo site):

«Tem duas leituras o comunicado que a direcção da FPF divulgou e que tem como destinatários os árbitros. Ali se lê que estes podem aceitar recordações dos clubes mas apenas "sem valor comercial", não se especificando este valor, ao contrário do que aconteceu com a UEFA, quando, há uns anos, estipulou como máximo para este tipo de situações 120 euros. Diz ainda a direção da FPF que estas lembranças só deverão ser aceites no final dos jogos e dá alguns exemplos de prendas admissíveis: emblemas, galhardetes, miniaturas de camisolas, medalhas comemorativas ou lembranças regionais. Frisando que estas lembranças devem ser sempre declaradas (...) Com o Conselho de Disciplina da FPF prestes a pronunciar-se sobre as mais de 50 notas de culpas que envolvem árbitros "apanhados" neste tipo de situações e o Gondomar SC (que corre o risco de despromoção), este comunicado tem duas leituras: ou é a FPF a antecipar decisões favoráveis aos arguidos e deixando já um aviso para o futuro; ou é a FPF a pré-anunciar condenações, devido ao facto de o CD ter considerado que os árbitros em causa terem aceite prendas não as declarando no relatório do jogo. Em breve, o Conselho de Disciplina da FPF irá desfazer esta dúvida.»

Só para recordar: Rui Silva foi suspenso por 20 meses por ter aceitado uma oferta que, à imagem dos kits que o Benfica distribui, não estava entre as possibilidades admitidas nos regulamentos. E desde então, a FPF deixou o aviso: todas as ofertas têm sempre que ser declaradas. Que diz Vítor Pereira? Que as ofertas nunca são reportadas.

É o amor sobre o qual Shakespeare nunca escreveu, uma palhaçada provocada pela diarreia e que não há imodium que consiga parar. E perante estes factos e evidências, em mais um dia em que Vítor Pereira volta a ir contra os próprios regulamentos para defender o Benfica, que faz o FC Porto? Nada. Quem não defende os seus interesses não pode lamentar o incumprimento de objetivos. Mas a vítima e os que sofrem são sempre os mesmos: o FC Porto e os seus adeptos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Rescaldo da entrevista

Começando por uma curta nota para José Peseiro. Apresentação normal, discreta, com duas coisas a destacar: o assumir de que o objetivo é ganhar as três competições em que o FC Porto ainda está envolvido e a mensagem de apelo a que «os portistas não sejam os adversários». Repetiu umas dez vezes a palavra «ideias», a expressão-chave no post de reação à sua contratação, e agora resta dar tempo e tranquilidade ao treinador para trabalhar com o plantel. 

A entrevista de Pinto da Costa abre com as declarações de Vítor Baía. Fernanda Miranda falou pela primeira vez para atacar o ex-guarda-redes, Fernando Cerqueira emitiu um lençol de texto a reagir e o primeiro quarto de hora da entrevista foi dedicado a esse tema. As declarações de Vítor Baía causaram desconforto, disso ninguém duvida. Mas foi inteligente convidarem Vítor Baía a avançar para a presidência do FC Porto - isto porque sabem que provavelmente nunca será o rosto de uma candidatura, mas pode lançar a passadeira para que outro(s) o faça(m). O primeiro passo foi colocar tudo no mesmo saco da atual estrutura, dizendo que «varria tudo». Um extremismo que incomodou muita gente, mas foi o mais próximo de uma oposição declarada publicamente que o FC Porto teve desde Martins Soares.

14º mandato avança
De qualquer forma, o primeiro grande destaque de Pinto da Costa, e que é uma boa notícia, foi dizer que gostava que o seu sucessor não fosse «ninguém apoiado pelo Correio da Manhã» e que fosse «portista desde pequenino». De uma assentada, podemos então concluir que Alexandre Pinto da Costa e Fernando Gomes estão fora da corrida face ao que o presidente gostaria de ver? 

Juca, dentro dos limites óbvios do contexto, fez algumas perguntas que já cruzavam o limite, mas Pinto da Costa reagiu a todas à Neo. Sobretudo porque Júlio Magalhães não iria insistir num tema ao qual já teve uma primeira resposta.

O caso mais flagrante foi precisamente a questão da existência de conflitos internos. Como é óbvio, jamais o presidente do FC Porto iria admitir qualquer tipo de conflito existente na estrutura. Não é uma pergunta incómoda, pois é uma pergunta facilmente desmentível.

Só que depois Pinto da Costa desvia atenções, e como é óbvio Juca não iria insistir. O presidente diz que Alexandre Pinto da Costa só é empresário de «um rapaz dos juniores», de seu nome Rui Pedro, já agora. Pois, mas ninguém disse que Alexandre Pinto da Costa era empresário de nenhum jogador do FC Porto, porque não é. E o que levanta questões é isso: porque é que Alexandre, não sendo empresário de jogadores como Atsu, Rolando ou Carlos Eduardo, surgiu como intermediário em todos eles?

Assim é fácil. Alexandre Pinto da Costa não representa jogadores de relevo, daí que a Energy Soccer seja a única empresa de agenciamento de jogadores que apresenta esta bem disposta introdução no seu site:


Além disso, por exemplo, em 2013 o Estoril pagou-lhe 123 mil euros de comissão por Carlos Eduardo e o Inter 60 mil por Rolando. Ainda assim, o FC Porto também lhe pagou comissões sobre estes jogadores, entre um total de 430 mil euros de comissões por intermediações entre 2012 e 2013. Esta sim, é a grande questão. E nota-se o padrão: todos os jogadores que ele intermediou saíram do FC Porto ora a mal, ora em transferências pouco esclarecedoras.

Pinto da Costa acaba por não confirmar se foi Alexandre Pinto da Costa a intermediar Suk. Ainda assim, o presidente diz que tratou tudo diretamente com Fernando Oliveira, a pedido de Lopetegui, enquanto Fernando Oliveira disse o contrário, disse que quem tratou as coisas com o FC Porto foi «o empresário». Em que ficamos?

Segundo Pinto da Costa, Suk foi contratado a pedido de Lopetegui. E ainda bem que José Peseiro, aparentemente, gosta dele, caso contrário o pobre do Suk ficava «ali caído nos braços» sem que o FC Porto soubesse o que fazer com ele. E aqui surge outro dos destaques da entrevista: a passagem de responsabilidades a Lopetegui.

A história do Ferrari foi engraçada, sem dúvida. Mas se Lopetegui não fosse treinador do FC Porto, Imbula poderia na mesma ter vindo; mas se Imbula não tivesse ligação à Doyen, não viria de certeza, nem que Lopetegui fosse a Maranello pedir de joelhos. Se Imbula não jogava mais é porque não trabalhava o suficiente para isso. Contam-se pelos dedos os jogadores que diziam ser «mal aproveitados» no FC Porto que acabaram por ter grande sucesso noutros clubes. Porquê? Porque, regra geral, os treinadores do FC Porto têm sempre tido razão sobre a quem dar ou não oportunidades.

Quando Imbula desiste logo na primeira semana de aprender português, não revela grande interesse em adaptar-se ao clube e à cidade. É verdade que Lopetegui disse a Imbula que as suas caraterísticas encaixavam na equipa, o que não parecia ser de todo o caso. De qualquer forma, se Imbula trabalhasse mais, de certeza que jogaria mais.  As caraterísticas de Herrera também não são o protótipo num modelo de posse. Porque é que joga? Porque trabalha mais do que os concorrentes. Se  Imbula trabalhar mais com Peseiro, de certeza que joga mais. 

Curioso é Pinto da Costa ter dito que negócios como o de Adrián López nunca mais, mas o de Imbula não é assim tão diferente. E podemos então falar de Adrián López.

Para começar, a história de que foi Lopetegui a pedir a transferência de Adrián López. Isto sim, teria sido interessante perguntar na entrevista, a propósito de novos leaks.

9 de julho de 2013. É esta a data em que está celebrada a transferência de Adrián para o FC Porto, ainda Paulo Fonseca estava a começar a pré-época e Lopetegui era um desconhecido para 99,99% dos portistas. O documento é assinado por Pinto da Costa e Adelino Caldeira (que, ao contrário de Antero Henrique e Reinaldo Teles, não foi mencionado por Pinto da Costa entre a cúpula de decisões da SAD).



Hipóteses: o documento é falso. Assim sendo, o FC Porto só teria que avançar para instâncias judiciais, pois seria sinal de que o Football Leaks estava a usar a assinatura do presidente do FC Porto para fasificar documentos. É verdade que num canto discreto do documento está a data de 14/07/2014, mas deduz-se que esta tenha sido a data em que o fax foi enviado (dois dias depois de assinar pelo FC Porto). Mas como ninguém pode acreditar que o FC Porto assinaria, por dois máximos responsáveis, um documento de 11M€ em que tem um erro na primeira página, das duas uma: ou o documento é falso; ou Adrián López já tinha sido de facto contratado em 2013, para chegar um ano depois. 

Pinto da Costa critica publicamente Jorge Mendes, confirmando o que O Tribunal do Dragão escreveu muito antes sobre o carro, o stand e a gasolina. O problema é que ninguém imaginaria que Adrián fizesse uma época tão má a ponto de parecer que nem correr sabia. Assim, foi impossível encontrar quem o avaliasse em 11M€. E então vamos ver se também será fácil encontrar alguém que continue a avaliar Imbula acima de 20M€.

Adrián López não custou nada na época 2014-15, mas como O Tribunal do Dragão escreveu não havendo acordo para recolocar o jogador Adrián começaria a dar prejuízo a partir do 1º trimestre de 2015-16. Pinto da Costa confirmou isso mesmo. Agora, delegar a responsabilidade disso mesmo a Lopetegui não parece o mais correto, a não ser que o FC Porto decida desmentir que o mesmo tinha sido contratado já em 2013. Agora, com estas críticas a Jorge Mendes, de quem se dizia que as relações já não andavam a ser as melhores, que vai acontecer? Ainda mais negócios com a Doyen?

Pinto da Costa também responsabilizou Lopetegui pela ausência de títulos, ele que não costuma criticar ex-treinadores. Em vez de realçar que Lopetegui não foi campeão, talvez fosse interesse comentar por que é que o FC Porto, fazendo 82 pontos no campeonato, não foi campeão; podia explicar por que é que só Lopetegui fazia a defesa pública do FC Porto, enquanto a SAD ficava calada enquanto assistia à forma como o Benfica se aguentava no primeiro lugar. Enfim, estamos em plena época 2015-16 e não faz sentido continuar a lamentar o que aconteceu em 2014-15. Mas não queiram que Lopetegui seja o máximo responsável pela época passada, porque nunca o será, não isoladamente.

Outra justificação que não pareceu fazer sentido foi dizer que «Lopetegui não se adaptou». Foi preciso 18 meses para descobrir isso? Se o FC Porto tivesse espetado 3 ou 4 ao Rio Ave, de certeza que Lopetegui continuaria. Não foi um jogo a definir se Lopetegui estava ou não adaptado.

Todos sabem que Peseiro não foi a primeira opção. E não, Peseiro não contradisse a SAD do FC Porto. Como é óbvio, a SAD sondou várias possibilidades depois de despedir Lopetegui. Sondar não é negociar. Que não foi primeira ou segunda opção, todos sabem que não. E pelo currículo dos últimos 10 anos - ou seja, Pinto da Costa não está a apostar no percurso de Peseiro, está a apostar (lá está) nas suas ideias -, ser a 10.ª opção para treinar um clube como o FC Porto já era uma honra.

Interessante quando Juca tentou realçar que a boa época da equipa B se deveria à chegada de vários jogadores estrangeiros. Pinto da Costa impôs-se, ao dizer que isto eram os «frutos» de muito trabalho, e deu o exemplo de... Rúben Neves. Um rapaz que nunca sequer foi chamado para treinar com os juniores, nem sequer na equipa B. A bem da verdade, só Paulo Fonseca o chamou para fazer dois treinos com a equipa A.

Quanto à arbitragem, Pinto da Costa disse que Duarte Gomes é o novo Marco Ferreira. Não é: é o novo Artur Soares Dias. Porquê? Porque há dois anos o presidente dizia que Soares Dias não servia, mas entretanto considerou-o árbitro de top europeu. Já Duarte Gomes, tantas vezes criticado, agora até parecia uma grande perda para a arbitragem. Não se percebe.




Nada de revelador da MEO, a não ser o desmentir de a que a proposta da NOS era melhor (era importante afirmá-lo, mas o que gostávamos mesmo de saber é quem, ou se, foi intermediário do negócio...).

Pinto da Costa assume a recandidatura, e vai obviamente ser reeleito, pois terá eternamente um capital de votos para ser presidente do FC Porto enquanto quiser. Assume pela primeira vez que quer construir um centro de formação no 14º mandato. Quando soubermos mais do projeto poderemos comentar. Mas foi curioso Pinto da Costa revelar que tinha o sonho «há muitos anos» de ter uma equipa de ciclismo. Curioso, desconhecíamos o presidente como fã de ciclismo, tendo em conta que a modalidade foi fechada no FC Porto pouco depois de Pinto da Costa suceder a América de Sá e o regresso só se consumou após «desviarem» o parceiro que tinha tudo acertado com o Sporting.

Notas curtas. Lichnovsky, o quarto central do plantel, vai rodar no Sporting de Gijón, o que convida à entrada de um novo central antes do fim do mercado. Tello está a negociar com a Fiorentina, e não será uma surpresa se Peseiro pedir um extremo, pois Corona, Brahimi e Varela é curto para ganhar 3 competições. Há quem discuta a hipótese do 4x4x2, mas isso só Peseiro saberá. 

Uma entrevista que não acrescentou muito, pouco reveladora, mas que serve para procurar unificar adeptos, plantel e José Peseiro, tentando passar as responsabilidades pelo que se passou nos últimos 18 meses a Lopetegui (um dia há-de responder, como é claro, mas a sua imagem foi tão desgastada que 99% dos portistas reagirão com indiferença ou desprezo). Pela generalidade das reações dos adeptos do FC Porto, que adoraram a entrevista mesmo sem esta ter muito de revelador, assim se percebe que Pinto da Costa consegue, como ninguém, transformar a depressão em euforia: basta falar durante alguns minutos. É por isso que vai ser presidente do FC Porto enquanto quiser. E é por isso que tem que vir a público mais vezes.

PS: O site oficial do FC Porto fez um resumo, tópico a tópico, da entrevista de Pinto da Costa. Fala de todos os temas, exceto um, que omite por completo. Adivinhem lá qual é: precisamente tudo relacionado com Alexandre Pinto da Costa (sendo que também não fala de Antero Henrique, embora este tenha sido pouco focado no discurso). Ou não interessa, ou não querem que interesse.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Limpeza, precisa-se

Não é assim tão consensual que o momento mais importante do título do FC Porto em 2011-12 tenha sido o golo de Maicon na Luz. Antes disso, houve um momento absolutamente decisivo: a limpeza do balneário em janeiro. A SAD resistiu à tentação de despedir Vítor Pereira e, ao invés disso, segurou o treinador e afastou jogadores que, numa expressão muito bem conhecida, queriam «fazer-lhe a folha».

Que aconteceu depois disso? O FC Porto não perdeu mais nenhum jogo no campeonato com Vítor Pereira e arrancou para o bicampeonato. Neste momento, o FC Porto volta a necessitar dessa limpeza.

O que se passa no dia a dia nos treinos, no Olival, não está à vista do comum adepto, mas o que se passa dentro de campo sim. Não há empenho, não há inconformismo, não há esforço, não há sentimento da responsabilidade de envergar o símbolo do FC Porto, mesmo numa competição de importância reduzida e que à partida já estava perdida.

Mas seja na final da Liga dos Campeões ou a cumprir calendário na Taça da Liga, o símbolo do FC Porto é sempre o mesmo. Os jogadores são pagos todos os meses para defenderem esse símbolo, joguem bem ou mal. E parece não haver consciência disso em vários dos jogadores do atual plantel.

José Peseiro estava na bancada a ver o seu futuro plantel. Não se viu, dentro de campo, grandes manifestações de vontade em mostrar serviço perante o novo treinador e começar já a tentar agarrar o lugar. Nem sequer se viram manifestações de orgulho pessoal de vários jogadores, depois de a equipa B ter passado em Famalicão e vencido por 4-2.

Tempos houve em que quando Pinto da Costa entrava no balneário os jogadores borravam-se todos. Segundo o que contou o jornal O Jogo, a última visita de Pinto da Costa ao balneário foi para dizer que despediu Lopetegui porque «acredita nos jogadores e que ainda é possível ser campeão». Muito bem, mas falta dizer duas coisas: também é culpa de vários jogadores que Lopetegui tenha sido demitido e que o FC Porto esteja, neste momento, fora da Taça da Liga, da Champions e no 3º lugar do campeonato, sem depender de si próprio para ser campeão.

Quem não quer cá estar, rua. E quem quer cá estar, tem que provar a cada dia que merece a honra de ser futebolista do FC Porto.





Positivo (+/-) - Víctor García foi o melhor do FC Porto. Sempre disponível a atacar, acutilante a defender, cruza bastante bem e acabou por ser dos mais perigosos da equipa. Foi o único que já estava no plantel a mostrar a Peseiro que está aqui. Suk fez a estreia e mostrou-se empenhado em ganhar o lugar rapidamente. Não esteve bem na finalização, mas mostra prontidão e versatilidade a rematar, que é algo que tem faltado ao ataque do FC Porto.





Demasiado mau (-) - A solidariedade de Helton para com Casillas foi longe de mais, com o capitão a ter responsabilidades no lance do golo. Mas uma vez mais, uma equipa que em 90 minutos não mete uma bola na baliza não se pode queixar de nada. José Ángel fez o seu pior jogo da época. Rúben Neves esteve uma sombra de si próprio, a insistir sempre no futebol lateralizado e sem arriscar tanto no passe longo (poderão dizer que ainda são as réstias do modelo de Lopetegui, mas a verdade é que nunca se viu Rúben Neves jogar com outro treinador ou em outro modelo...). André Silva está demasiado ansioso, precisa de ter calma, o golo vai aparecer. Mas com ele em campo o FC Porto ainda não fez um único bom jogo, e em 6 jogos só ganhou 1. Aqui entrariam as críticas ao treinador, mas como foi dito, não se vai criticar Rui Barros, por não ser treinador principal - até o treinador mais calmo teria perdido a cabeça e mandado três berros lá para dentro face ao que se estava a passar.

A postura de Imbula em campo - e fosse só em campo - continua a ser vergonhosa. Não mete o pé, não pressiona, não arraca, é extremamente lento e os seus passes são sempre inconsequentes. Aqui não há volta a dar: é culpa do jogador, que não se está a empenhar o suficiente. De nada vale pensar num treinador que possa aproveitar as suas caraterísticas se o próprio Imbula não se dá ao trabalho de oferecer o princípio básico do empenho e vontade de aprender.

Sérgio Oliveira é outro exemplo em que era fácil atacar Lopetegui por não o meter a jogar, mas se trabalhasse mais se calhar jogava mais. Ontem esteve mal nas bolas paradas e não conseguiu oferecer nada ao meio-campo. Varela também esteve sofrível no ataque, praticamente sem lances dignos de registo. Para quem ganha mais num mês do que o plantel todo do Famalicão, não é admissível.  Do banco, em dia de estreia de Chico e Ismael, nada se acrescentou. Os jogadores podiam ter mostrado, nos últimos jogos, que a culpa era de Lopetegui. Já sabíamos que não era na sua totalidade, mas os últimos três jogos só dão provas que há uma quota-parte bem significativa de responsabilidade dos jogadores. 

Não é a Taça da Liga que belisca os portistas: é ver jogadores envergar esta camisola sem terem o mínimo de consideração pela SAD que lhes paga o ordenado todos os meses e para os adeptos que, mesmo numa Taça de pouco valor, não deixam de acompanhar a equipa e sofrer por ela. Falta pouco mais de uma semana para o fecho do mercado. Ou se limpa agora ou lida-se com a sujidade, e respetivas consequências, até ao fim da época. Um peso demasiado grande para ser José Peseiro a suportá-lo sozinho.