segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Colheita 2018-19

Perder depois de chegar ao intervalo a vencer por 2x0 é atípico. Há poucas coisas mais invulgares do que um desfecho destes na história do FC Porto. Tanto que, até à noite de sábado, só tinha acontecido duas vezes na I Liga: uma em 1943, contra o Fabril Barreiro, e a outra em 1970, contra a Académica. A juntar a estes dois casos, houve o desaire europeu contra o Artmedia, em 2005. De resto, nunca o FC Porto tinha acabado batido após ir para o intervalo a vencer por 2x0.

Este resultado, por si só, já era uma raridade, mas as circunstâncias que antecederam os golos do Vitória de Guimarães tornam-lo ainda mais incomum. Uma entrada absolutamente desmiolada de Sérgio Oliveira na grande área, Maxi Pereira a não ter pernas para fechar o corredor no 2x2 (num lance em que o FC Porto tem 8 jogadores na grande área no momento do remate de Tozé), e um lance que começa num lançamento de linha lateral e no qual voltam a ser suficientes dois jogadores do Vitória para fazer frente a uma grande área povoada pelo FC Porto. Os sucessivos desperdícios em tempo de compensação acabaram por confirmar o que se testemunhava: era uma noite atípica a todos os níveis.

Brahimi e mais 10... com poucas ideias sem o argelino
Mas o problema não é apenas este jogo. Estamos à 3ª jornada, a um ponto da liderança. Sporting e Benfica vão perder mais pontos, o próprio FC Porto vai perder mais pontos. O drama não está aqui. Está naquilo que já todos (???) estão fartinhos de saber desde a temporada passada: que este plantel é curto e que lhe faltam soluções de maior qualidade. E isso não iliba o facto de o modelo de jogo do FC Porto estar distante daquilo que entendemos ser um futebol de qualidade e que a equipa tão bem chegou a mostrar na jornada inaugural da Liga.

«Pois, já diziam isso na época passada, que o plantel não chegava, e fomos campeões!». Este argumento não faltará ao longo da época. E podem usá-lo até maio, estejam à vontade. É verdade que o FC Porto chegou ao título, com um plantel ao qual eram reconhecidas várias limitações. Mas não nos podemos esquecer que o primeiro a acreditar na época passada - Sérgio Conceição - foi o primeiro a desacreditar após um simples jogo de pré-época com o Portimonense e a reivindicar a necessidade de reforços. É o próprio milagreiro que não quer estar sujeito a um segundo milagre.

O FC Porto teve um ataque bastante produtivo na época passada. E não é justo dizê-lo que tenha deixado de ter, pois a verdade é que fez 10 golos em 3 jornadas - desde 1975 que não arrancava com uma dezena de golos. Mas também sofreu 5 em 3, algo que não sucedia desde 1969. Isto é muito mais do que uma questão golos marcados vs. sofridos. Tem a ver com a qualidade de jogo e com as próprias soluções do plantel.

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Muita luta, poucas pernas
Começando com a defesa, é lógico que vai ser uma época difícil. O FC Porto perdeu o seu melhor central e o lateral-direito, e Maxi Pereira passou da saída à permanência por culpa da transferência de Diogo Dalot. O uruguaio luta muito, apoia bem o ataque e até começou a época com um par de boas exibições, mas aos 60 minutos da 3ª jornada já não conseguia correr. Já não é uma questão de saber se Maxi Pereira aguenta uma época: é saber se aguenta um jogo completo no qual vai ter que correr para defender e não apenas subir para combinar com o extremo no ataque. Maxi é inteligente no relvado, posiciona-se bem, mas quando tem que correr para trás os 34 anos já pesam. E estamos, neste momento, a falar de Chaves, Belenenses ou Vitória. Não estamos a falar de clássicos ou de Champions, com dois jogos por semana. 

Diogo Leite, jovem promissor, entrou na equipa e fê-lo bem. Mas não é por acaso que estamos a falar de um jogador de 19 anos que está a cumprir a primeira época de sénior. O que faz um miúdo dessa idade? Comete erros. De posicionamento, de marcação, de antecipação. Há 30 anos que o FC Porto não tinha um central tão jovem na equipa - o último tinha sido Fernando Couto. E para quem não estiver recordado, Fernando Couto estreou-se mas foi logo depois emprestado por duas vezes. Só depois voltou para se afirmar. 

Diogo Leite foi lançado às feras (ou não, pois ainda não chegámos aos clássicos e à Champions) e ganhou o lugar com mérito. Mas tudo isto começa na lentidão da SAD em assegurar atempadamente e prontamente o sucessor para o eixo da defesa. Já sabiam que Marcano iria sair e que Diego Reyes não ficava. Isto era uma situação que poderia, deveria estar a ser preparada há meses. As negociações por Mbemba (cujo perfil faz lembrar Bruno Martins Indi) demoraram bem mais de um mês, e quando chegou, aí sim, houve o azar inesperado de o central congolês se ter lesionado. Isso pode acontecer, foi um azar. Mas que teve que fazer Sérgio Conceição desde então? Preparar o miúdo para o 11. Foi isso que fez, e manteve logicamente a sua aposta. 

«Poderia ter jogado o Chidozie», dirão. Aqui entramos no campo da opinião, logicamente, mas Chidozie esteve emprestado ao Nantes, equipa onde o melhor central era Diego Carlos, brasileiro que no FC Porto revelou pouco mais do que qualidades medianas. E aqui temos um possível exemplo da saúde financeira que a SAD portista respira neste momento: 

Recorte do jornal O Jogo
Um clube que rejeita 13 milhões de euros por Chidozie é um clube sem urgência em vendas e sem dificuldades financeiras. Só pode, embora esta proposta deva ter estado na mesma mesa onde o West Ham colocou 40 milhões de euros por Marega, com mandatários de Emerald City, Tardis e Valhalla.

Entretanto chegou o também jovem Éder Militão, proveniente do São Paulo, que apesar de rotulado de polivalente vem como opção para o eixo da defesa. E qualquer jovem brasileiro que chega à Europa precisa de tempo até entrar na equipa, muitas vezes só se conseguindo afirmar a partir da segunda época. Basta recordar os casos recentes de Fernando, Danilo ou Alex Sandro. Ainda assim, nota também para o facto de Éder Militão implicar um investimento de cerca de 7 milhões de euros - grande parte para empresários -, apesar de só ter contrato com o São Paulo até 11 de janeiro de 2019. Com tanto dinheiro investido para «antecipar» a transferência alguns meses, só podemos esperar que Éder Militão possa emergir como opção mais depressa do que o previsto, até porque não havia assim tanta concorrência pelo jogador, pelo menos ao nível da imprensa brasileira (que chegou a sugerir que o PSG poderia comprá-lo para emprestá-lo de imediato ao... Vitória de Guimarães).

Falando ainda do setor defensivo, a iminente chegada de Zakarya, do Belenenses, ao FC Porto sugere meramente uma coisa: desnorte completo na construção do plantel. O lateral-esquerdo, que cumpre 30 anos em janeiro, jogou sempre em clubes medianos ao longo da sua carreira e estava no Sochaux, da II Liga francesa. Assinou pelo Belenenses em julho e, segundo o jornal O Jogo, convenceu o FC Porto a avançar para a sua contratação depois do jogo no Jamor.

Portanto. Temos um lateral de 29 anos que estava livre, em julho, e que não seria nem primeira, nem segunda, nem terceira opção para as laterais do FC Porto. E de repente, por causa de um jogo, passa a ser prioridade e alternativa a Alex Telles, um dos jogadores mais importantes na manobra coletiva do FC Porto. Alguém acredita que no relatório de pré-época de Sérgio Conceição, que identificava seis pontos a reforçar no plantel, o nome de Zakarya aparecia por lá?

Tivemos meses e meses para preparar a época. Uma pré-época inteira. Temos um enorme departamento de scouting e prospeção, camadas jovens, equipa B. E no meio de tudo isto, porque fez um bom jogo contra o FC Porto, de repente Zakarya passa a ser a solução. Rúben Lima deve estar a lamentar que o jogo do Moreirense com o FC Porto não seja disputado antes de sexta-feira, caso contrário ainda se habilitava a uma transferência. 

Não é um problema com Zakarya, o jogador: é um problema com o modelo, com a preparação da época, e com uma gestão que nos faz lembrar os tempos em que se descobriam laterais-esquerdos do calibre de Ezequias, Lucas Mareque, Nelson Benítez ou Lino. Todos eles com motivações muito semelhantes. E todos eles campeões pelo FC Porto, mesmo pouco ou nada jogando. Tomara que com Zakarya também seja assim. 

Não há moral/justificação para alegar contingências financeiras (que, diga-se, a SAD nunca assumiu publicamente na construção ou preparação desta época - o máximo que tivemos foi a história da carochinha de que é possível gastar tanto quanto o FC Porto encaixar em transferências) quando já se celebraram os magníficos negócios da compra e consequente dispensa de Janko ou Ewerton. Seria interessantíssimo ouvir a explicação do FC Porto para a motivação por trás destes negócios. E perceber em que universo é que constrangimentos financeiros podem coexistir com negócios com notáveis empresários e homens do futebol como Alexandre Pinto da Costa, Teodoro Fonseca ou Luciano D'Onofrio. 

Do meio-campo para a frente, praticamente não houve alterações no plantel. Jogadores como Bruno Costa, Hernâni ou Adrián só estão no grupo de trabalho por não haver mais ninguém, e os dois últimos porque não têm propostas de compra no mercado. André Pereira acaba por ser um caso também muito ilustrativo: está a jogar porque não há mais soluções. Está certamente a trabalhar para isso, esteve nos dois golos frente ao Vitória de Guimarães (um deles irregular, é certo, mas já houve precedentes de falhas no VAR, nomeadamente num Aves x Benfica), mas certamente que Sérgio Conceição gostaria de ter outras soluções para o seu 4x4x2.

4x4x2 ou 4x3x3?
Embora, aqui, Sérgio Conceição também tenha que dar o braço a torcer e perceber que tem que haver um limite. Porque não dar uma oportunidade ao 4x3x3? Que mais tem Óliver Torres que fazer para entrar no 11? Quantos créditos tem Sérgio Oliveira para se aguentar no 11? Há assim tão pouca confiança em limitar o eixo do ataque a Aboubakar ou outro ponta-de-lança?

Mas aqui entramos naquilo que é a relação direta entre Sérgio Conceição e a administração. Quando renovou, Sérgio Conceição deixou claro que ia trabalhar a época em 4x4x2? A SAD garantiu que iria ter opções para isso? Uma coisa é a flexibilidade do treinador, que terá sempre que ter, por mais fiel que queira ser às suas ideias. Outra é o próprio investimento da SAD no treinador. 

Como tantas vezes foi comentado, o FC Porto da época passada nem sempre se distinguiu por ser uma equipa que jogava um grande futebol. Era uma equipa de guerreiros, lutadores, que teve sem dúvida semanas de bom futebol ao longo da época, mas muitas vezes esteve limitada a duas coisas: bolas diretas na frente, à procura da profundidade dos avançados, e as bolas paradas. Isto além do principal fator de desequilíbrio neste arranque de época: Brahimi, sempre ele. E reparem que não estamos há dois ou três meses a suspirar por uma solução match-winner para as alas, mas sim até antes da chegada de Sérgio Conceição. Mantêm-se Hernâni, pouco mais do que para fazer número, e esperanças de um ano de afirmação para Corona ou Otávio. Muito curto.

Quanto vale Marega?
E Marega? É de facto um dos mistérios deste defeso. Primeiro, há que separar aquilo que é a especulação típica de pré-época na imprensa, sobretudo quando envolve clubes ingleses, e aquilo que chegou realmente à mesa da SAD. Pinto da Costa diz que nunca teve uma proposta concreta e voltou à conversa para boi dormir da cláusula - estamos em 2018, o FC Porto nunca vendeu um jogador pela cláusula de rescisão (não esquecer, para uma cláusula ser ativada, tem que ser uma das partes, entre clube e jogador, a invocar esse direito - tal como o fez André Villas-Boas, por exemplo), e de certeza que Marega não seria o primeiro. 

Não é do domínio público quanto foi ao certo a eventual proposta do West Ham, mas que era intenção de Sérgio Conceição manter Marega. Mas porquê? Por considerar que o maliano era assim tão fulcral na equipa? Ou porque não tinha garantia nenhuma de que, caso Marega saísse, não viria ninguém melhor? Tudo o que fosse acima de 20 milhões de euros - assumindo que alguém chegaria a esses valores - por Marega seria uma das melhores vendas da história do FC Porto. A verdade é que Marega é um jogador tão fulcral que esteve encostado 19 dias a treinar sozinho. Não há memória de isto ter acontecido no FC Porto. Jogadores a pedir para sair ou a forçar transferências é ementa diária no futebol, sobretudo em clubes vendedores como os portugueses. Sérgio Conceição tem que ter tido motivos muitos fortes para encostar Marega desta forma, embora as suas passagens por Marítimo e Guimarães já tenham revelado histórias de mau profissionalismo. 

Marega acabou por ser reintegrado, restando saber agora se vai renovar ou não (antes de ser afastado do grupo, tinha a proposta de renovação nas mãos) e que jogador será em 2018-19. Porque na época passada, Marega era o ex-dispensado. Cada golo que marcava surpreendia, era colocá-lo acima das expetativas. Foi um jogador a garantir duas dezenas de golos em contexto de I Liga. Mas entre um ex-dispensado que só fica no plantel por não haver mais ninguém e um jogador pelo qual se rejeita a saída por números alegadamente muito mais do que generosos... Há uma enorme diferença. 

Quando o FC Porto assume todas as recusas por Marega, só pode esperar que o seu rendimento seja muito superior esta época. Na temporada passada, apesar de sofrível nos clássicos e na Champions, conseguiu garantir a média de um golo por jornada na Liga - falhava mais do que acertava, mas entre os pontas-de-lança do plantel também ninguém acertava mais do que ele. Ou esperamos um Marega a elevar a fasquia esta época, ou passámos ao lado da possibilidade de um grande negócio. Certo é que não podemos contar com mais uma época a tentar ganhar jogos com bolas que dependem da dimensão física de Marega. 

Sérgio Conceição fez milagres na época passada. Não lhe peçam a mesma receita. O treinador não teve sucesso nem ficou por ser um treinador muito evoluído taticamente, pois não foi essa a força do FC Porto na época passada. Foi a união, a superação, o pragmatismo e a sempre essencial sorte (outra vez, bastava não haver o pontapé do Herrera na Luz e poderia ser mais um ano a seco - ou bastava que tivessem validado o golo limpo a Herrera no jogo do Dragão, e aí talvez já não fosse necessário vencer na Luz).

E conforme foi comentado no post da vitória sobre o Belenenses: sempre que o FC Porto vencer, os adeptos vão ver um plantel bem aproveitado; quando os maus resultados aparecerem, afinal é um plantel curto e ao qual falta qualidade. Neste momento, este plantel não foi reforçado, no sentido em que não está mais forte. Sejamos francos, antes dos resultados, pois totobola à segunda-feira nunca deu nada a ninguém: este plantel é curto para uma equipa que ambiciona o bicampeonato e que tem que lutar por um lugar nos 1/8 da Liga dos Campeões. Na pré-época, Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Neste momento, numa altura em que Danilo e Soares ainda recuperam de lesões, o que apetece mesmo dizer é que falta mais meia dúzia de jogadores com capacidade para jogar no FC Porto. Porque em algo teremos que concordar: seja em 4x3x3 ou 4x4x2, o treinador campeão merece e precisa de melhores soluções. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Vinho de tasca

Sérgio Conceição falou numa exibição de «vinho de tasca». E assim foi, com as uvinhas uma vez mais espremidas ao máximo. É a antecâmara de uma época na qual a maioria verá sempre qualidade e opções de sobra sempre que o FC Porto vencer, mas ao primeiro mau resultado (re)surgirão de pronto os alertas do óbvio: de que faltam soluções, sobretudo no ataque, num plantel que praticamente não foi reforçado com idas ao mercado.


Saíram Ricardo, Marcano e Reyes (além de Diogo Dalot), entraram João Pedro, Mbemba e Militão. E tendo em conta que nenhum deles, por diferentes razões, entrou ainda na equipa titular, não podemos afirmar que este elenco seja mais forte do que o da temporada passada.

E é agora que é importante repetir e reafirmar isto, pois no final da próxima semana, com o mercado fechado, já será inútil dizê-lo. No Jamor tivemos a felicidade que faltou na época passada nos jogos contra Aves ou Moreirense, por exemplo, e valeu a raridade que é ver uma equipa de arbitragem manter o critério nas suas decisões. Mas que vai ser preciso muito mais nas próximas deslocações, vai, embora este Belenenses tenha mostrado no passado recente ser uma das equipas que melhor se organiza frente aos grandes.




Alex Telles (+) - Ganhou e bateu o livre do 1x0 e decidiu, ele próprio, o jogo com a marcação irrepreensível de um penálti capaz de fazer tremer qualquer sangue frio. O lateral brasileiro acabou por se destacar nos cruzamentos (acertou 5 em 8) e nos duelos disputados (4/5), além de ter criado três situações de finalização. Num jogo em que o FC Porto teve muitas dificuldades na bola corrida, a fórmula Alex/bolas paradas voltou a fazer a diferença.

Héctor Herrera (+) - O Belenenses tomou conta do meio-campo durante parte significativa do jogo, mas o mexicano sempre remou contra a maré. Foi o elemento com mais ações com bola (63), ganhou 11 dos 14 duelos que disputou e criou duas situações de golo, tendo ainda atirado uma bola ao ferro. Fartou-se de fazer quilómetros e tentou redobrar-se em todo o campo, tentando muitas vezes lançar ataques aos quais as unidades da frente não deram sequência.


Iker Casillas (+) - Um calafrio com um atraso de Felipe, mas acabou por somar um par de defesas importantíssimas na segunda parte, que evitaram (melhor, adiaram) o empate do Belenenses.




Falta de controlo (-) - O Belenenses terminou o jogo com mais posse de bola, mais passes e nunca perdeu o controlo do meio-campo em toda a partida. Há que reconhecer que se tratou de um adversário com boa organização, cujas marcações nunca foram baralhadas pelos avançados do FC Porto e que raramente cedeu espaço nos últimos 25 metros. O FC Porto não conseguiu construir jogo e os golos acabam por nascer em lances à margem das dinâmicas da equipa - duas bolas paradas e um erro de um adversário. Comparando o caudal ofensivo e a qualidade demonstrada pelo FC Porto na 1ª jornada, foi do 80 ao 8 - o primeiro remate da equipa à baliza surgiu já a meio da primeira parte, e Muriel fez tantas defesas como Casillas.

Minuto 58 (-) - Como diriam os treinadores da velha guarda, «esta nem nos infantis». Uma bola batida diretamente pelo guarda-redes do Belenenses, Muriel, é dominada por Fredy (Sérgio Oliveira a dormir neste lance) à entrada da grande área do FC Porto. Isto não existe a este nível: com um simples passe de 80 metros, o adversário fica na cara do golo. O avançado do Belenenses (que tantas dores de cabeça deu a Felipe) tocou para Licá e Casillas acabou por evitar o golo, mas este é o tipo de jogada capaz de fazer qualquer treinador arrancar cabelos. 

Não esperemos o mau resultado (-) - Sérgio Conceição valoriza muito o trabalho nos treinos. É certamente por isso que André Pereira ganhou o lugar neste arranque de época - por isso e pela falta de uma solução/reforço de maior qualidade. É um jovem avançado fisicamente interessante, que tenta trabalhar para a equipa, mas cuja aposta neste momento não está a funcionar da melhor forma. Volta a ser o primeiro a ser substituído e pouco conseguiu produzir em campo - apenas 8 passes completos, falhou os 2 dribles que tentou, tentou o remate apenas uma vez e perdeu 10 dos 17 duelos que tentou. É certo que o companheiro de ataque, Aboubakar, esteve em modo amorfo, mas André Pereira não terá ainda a estaleca que possa fazer dele uma solução de 11 inicial para o curto prazo. 

Mas dirão: e soluções? Adrián? Marius? Marega? Com Soares lesionado e sem mais soluções para o ataque, a verdade é que provavelmente André Pereira não deixa de ser aquele que mais tem lutado e feito por merecer um lugar no ataque do FC Porto aos olhos de Sérgio Conceição. E assim sendo não é possível censurar as opções do treinador, que dificilmente terá intenções de abdicar do esquema de dois avançados neste arranque de época. Sérgio Conceição tem que «rentabilizar os que tem», dizem, mas não se queixem se o que tem se revelar insuficiente a breve trecho. Vinho de tasca pode desenrascar numa refeição mas não vai matar a sede nos dias de maior calor. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A ideia ao serviço do plantel

Sem nenhuma das contratações para a nova época no 11 inicial. Sem Danilo, Marega ou Soares. E sem bicadas para a frente. Foi com uma exibição de enormíssima qualidade que o FC Porto despachou o Desportivo de Chaves e conseguiu os três primeiros pontos da época. Foram 5-0, poderiam ter sido bem mais, tamanha a qualidade de jogo que o FC Porto conseguiu apresentar e a capacidade de criar ocasiões de finalização. 


Exibições de grande qualidade a nível individual e coletivo, futebol que empolgou os adeptos e deu para terminar com a inimaginável dupla de ataque Adrián López-Marius Mouandilmadji a ser aplaudida pelo Dragão. Com esta amostra, dizer que Sérgio Conceição tem que continuar a «rentabilizar» os ativos que tem é o equivalente a dizer a um tipo no topo do Evereste que tem que continuar a escalar. E esse tipo, se se chamasse Sérgio, era capaz de esticar os braços e meter-se em bicos de pés.




Sem bicada, sem balão (+) - Pode ser «birra» cá do burgo, mas há mesmo que começar por aqui: cinco golos, cinco jogadas que dispensam a bola despejada diretamente pelos defesas na linha da frente. E o lance do 2x0 é um exemplo de que não é preciso muito espaço para colocar um jogador nas costas da defesa adversária: basta fazê-lo na altura correta, quando as circunstâncias do jogo a isso o convidam e não como jogada padrão. Num curto passe, Sérgio Oliveira rasga uma linha de 6 jogadores do Chaves e Otávio fica em posição livre para cruzar para três jogadores em zona de finalização. É refrescante e importantíssimo ver o FC Porto e Sérgio Conceição apostarem nestas bases, e é notoriamente mais vantajoso colocar esta matriz de jogo ao serviço do plantel em vez de uma matriz de jogo ao serviço de um único jogador. Depender de uma equipa para desbloquear jogos é sempre melhor do que depender de um jogador. 

Tudo na defesa (+) - Iker Casillas não deve ter sujado as luvas, tamanha que foi a eficácia defensiva da equipa, em especial para Diogo Leite e Felipe no jogo aéreo. O jovem português, no lugar de Marcano, ganhou 7 das 8 bolas disputadas pelo ar no setor defensivo e Felipe só perdeu 2 duelos em todo o jogo, não tendo cometido uma única falta, além de ter criado uma ocasião de golo. Alex Telles esteve muito acima do nível demonstrado na Supertaça, mas Maxi Pereira esteve novamente uns furos acima, ao criar quatro ocasiões de golo num jogo em que quase só teve preocupações ofensivas. 

Sérgio Oliveira (+) - Muito abaixo do nível exigível na Supertaça, Sérgio Oliveira afirmou-se agora como um dos melhores em campo e um dos principais dinamizadores da grande exibição do FC Porto. Descobriu Otávio no lance do 2x0 e esteve no golo de Marius, tendo criado 6 ocasiões de finalização, duas delas flagrantes, entre uma exibição com 93% de eficácia no passe e oito ações defensivas. Curiosamente, desta vez não arriscou no remate e só por uma vez tentou o passe longo. Reduziu a sua amplitude de jogo e jogou mais curto, mas isso não o impediu de estar em todo o lado. Curiosamente, desta vez foi Herrera quem teve a missão de abrir mais o jogo, e acabou por ter sucesso, com 7 de 9 passes longos eficazes e 92% de eficácia no passe, mas desta feita o mexicano não esteve tão forte nas bolas divididas e esteve longe das zonas de finalização, apesar de ter sido o elemento com mais ações com bola (98).

Desequilíbrio (+) - Otávio na assistência para os dois primeiros golos (o 1x0 com uma boa simulação de André Pereira - apesar da inteligência em algumas movimentações e de muita vontade, é porventura o principal candidato a 'cair' do 11 em breve), Brahimi novamente a faturar em lance individual, Corona a entrar e a marcar, Aboubakar a bisar (e a ficar a dever a si próprio bem mais noutras ocasiões), Adrián e Marius a entrarem e a terem ocasiões para marcar. Todas as unidades do setor ofensivo do FC Porto marcaram, deram a marcar ou tiveram oportunidades para o fazer, fosse em jogadas pelo corredor, no espaço interior ou através de lances individuais. 

Quando é criado um volume tão grande de ocasiões, com nove situações em que não havia opositor entre o jogador do FC Porto e o guarda-redes adversário (e falharam sete delas), não há forma de vacilar: mesmo com um punhado de grandes ocasiões desperdiçadas, o FC Porto não deixou de golear. Procurou sempre mais, praticamente dispensou a meia distância (16 dos 19 remates foram obtidos dentro da grande área) e rapidamente assimilou um futebol que resumia tudo a uma questão: a vitória é certa, falta saber por quantos. 

Tópico para reflexão, a entrada de Adrián López. Se tivesse sido Lopetegui a lançar Adrián, talvez fosse a «espanholização». Se fosse Nuno Espírito Santo, talvez fosse «um frete ao amigo Mendes». Mas como foi Sérgio Conceição a lançá-lo, então é porque o treinador se calhar pode recuperar o jogador. Isto diz tudo sobre o crédito que Sérgio Conceição ganhou no clube. E que continua a fazer por merecer. E praticamente com o mesmo plantel do meio-campo para a frente da época passada, tem um exemplo de que afinal é possível jogar bom futebol, com circulação, apoio e momentos de desequilíbrio individual e coletivo, sem que isso implique ter como jogada padrão jogadores a correr e a caírem nas costas da defesa com passes de 40 metros. Sem imprescindíveis, com uma ideia que se sobrepõe à individualidade. Não é um recado para Marega: é para todo o plantel.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Envolvência

A Supertaça voltou a casa, e já deixava saudades. Este é, por razões óbvias, um troféu especial para o FC Porto, não só por ter mais troféus do que todos os outros clubes juntos e ter estado em 30 das 40 finais, mas também porque conquistar a Supertaça significa, muitas vezes, ter uma injeção anímica e de confiança para a longa época que se segue. 


O jogo frente ao Desp. Aves foi um exemplo dos calafrios que o FC Porto vai certamente encontrar muitas vezes no Campeonato, numa altura em que o plantel às ordens de Sérgio Conceição não é, continua a não ser, mais forte do que o da última época. Um jogo no arranque da época não dá atestados de garantias ou insuficiências, mas todos saíram de Aveiro com sentimento de dever cumprido e com a 21ª Supertaça. 





Envolvência (+) - A palavra que define a vitória do FC Porto. Na fase inicial da partida, regressámos às inconsequentes bicadas para a frente (já lá vamos). O golo do Aves obrigou a equipa a acordar e a organizar as suas ideias e os três golos são exemplos perfeitos daquilo que deve ser o futebol da equipa para esta época: envolvência do setor intermédio no processo ofensivo, jogo interior, circulação a toques curtos e transporte.

Primeiro, com Alex Telles no apoio, Brahimi leva a bola até à tabela com Aboubakar, explora o espaço interior e faz golo; no 2-1, é Maxi Pereira, em combinação com Otávio (também a desequilibrar por dentro), a fazer a diferença numa jogada a toque curto; e o lance que mata o jogo nasce do mesmo princípio, com Óliver a ir buscar jogo à linha, apoiando Maxi, e Corona a situar-se na zona central.

Semelhanças? Três golos em que não foi preciso uma bicada para a frente, à espera que alguém apanhasse a bola num espaço que não existia nas costas da defesa do Desportivo das Aves. A velocidade e o jogo direto terão a sua importância e espaço ao longo da época, mas contra os Aves deste Campeonato recomenda-se esta forma de jogar.

Maxi Pereira (+) - Uma boa forma de corresponder à renovação de contrato que, diga-se, esteve longe de ser unânime no universo portista e que talvez nem teria acontecido se Diogo Dalot não tivesse saído. Mas a experiência, inteligência e o espírito competitivo de Maxi Pereira são mais-valias importantes no plantel. Equilibrado a atacar e a defender, procurou sempre apoios curtos com Otávio e foi dessa forma que chegou ao golo da reviravolta. As pernas pesam, e Maxi provavelmente alternará várias vezes a titularidade ao longo da época, mas enquanto estiver em campo é uma garantia de empenho. Não há portista que não goste.

Jesús Corona (+) - Quando Brahimi dava sinais de ter que sair por lesão, Sérgio Conceição começa por mandar Soares aquecer. Era um péssimo sinal para Corona - ver o treinado preferir um ponta-de-lança a um extremo perante a ausência do argelino. Mas Sérgio Conceição mudou de ideias e em boa hora, com Corona a fazer uma segunda parte de grande qualidade. Bom enquadramento com a baliza e a grande área, bem a proteger a bola e a definir os lances e a conseguir fazer um bom golo. Não será um exagero afirmar que a segunda parte em Aveiro foi melhor que qualquer jogo que tenha feito este ano até à data. Agora a eterna questão: conseguirá Corona fazer dois bons jogos seguidos? O mexicano bem precisa, e o FC Porto também. 

Outros destaques (+) - Herrera voltou a ter que trabalhar por dois no meio-campo e fê-lo com distinção. Teve ordens para não avançar muito para zonas de finalização e proteger a retaguarda da equipa, funcionando como pêndulo e referência no eixo do meio-campo. Brahimi, apesar da lesão, foi a tempo de ajudar a desbloquear o jogo e a entrada de Óliver em campo voltou a ser sinónimo do período de melhor qualidade e controlo no jogo. Palavra para a estreia de Diogo Leite, que ganhou o lugar nesta pré-época e vai obrigar Mbemba e Militão a terem que correr atrás do lugar. 





Os eternos balões (-) - Não havia Marega no ataque, o que poderia desde logo significar que o FC Porto procuraria outras soluções na sua construção. Mas não foi isso que a fase inicial da partida demonstrou. A equipa voltou à fórmula tantas vezes usada na última época e não raras vezes vimos a bola ir desde o defesa à linha de fundo. Não funciona, por duas razões: Brahimi, Otávio ou até André Pereira não são jogadores para irem ganhar metros nas costas da defesa; e o Aves, como tantas equipas no Campeonato, não vai conceder espaço suficiente para que o FC Porto possa jogar desta forma. Na Champions é uma coisa, no Campeonato outra.

Cada bola longa para as costas da defesa do Aves foi sinónimo de perda de posse e, conforme já foi defendido, os três golos do FC Porto nascem de momentos em que a equipa preocupa-se mais em transportar a bola, com tabelas e circulação, e menos em tentar ganhar em velocidade e passes longos. Sobretudo num contexto de Campeonato português, é importante ter a paciência e a capacidade para jogar desta forma.

O primeiro objetivo da época está cumprido. Mas porque a partir de setembro será inútil dizê-lo, não custa repetir: as vitórias no arranque de época devem ser celebradas, mas não podem servir de maquilhagem face às necessidades do plantel. Não custa lembrar aquela que havia sido a última Supertaça do FC Porto, ganha em 2013, e da qual muitos saíram a pensar que ia ser Licá e mais 10. Não basta pensar no Aves, no Chaves ou no Belenenses: há que pensar nos clássicos, na Champions, nas pausas internacionais, nas lesões, nos castigos, na óbvia sobrecarga de jogos. Sérgio Conceição precisa de mais soluções e o pior que poderia acontecer seria chegar ao início de setembro e ouvi-lo dizer «reforços são os que cá estão». 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Não há milagres (duas vezes)

Como futebolista ou treinador, Sérgio Conceição sempre privilegiou o contacto direto com Pinto da Costa. Não raras vezes ao longo da última época ouviram-lo dizer: «Isso é entre mim e o presidente». Gestão do grupo de trabalho, questões diárias, construção do plantel: foi sempre entre treinador e presidente.

Posto isto, só podemos questionar o quão Sérgio Conceição terá chegado ao limite para, após um simples jogo de pré-época e com 15 dias de trabalho, ter colocado o dedo na ferida e falado abertamente dos constrangimentos que existem neste momento no plantel do FC Porto. 

Estamos a falar de um treinador que, ao longo de toda a época 2017-18, sempre comeu e calou - aliás, comeu e trabalhou. Não havia reforços? Pegou na lista de dispensas. Danilo lesionou-se? Muda-se a matriz de jogo. Troca aqui, adapta acolá e a época terminou com o título ganho, com recorde de pontos no Campeonato e objetivos cumpridos na Champions. Sérgio Conceição nunca se queixou. Não fez omeletes sem ovos: fez um banquete. 

E agora, em plena pré-época, não precisou de mais de duas semanas para dar um murro na mesa. E como é óbvio, jamais Sérgio Conceição sentiria necessidade de vir a público falar abertamente desse problema se tivesse garantias de que os reforços chegariam muito bem breve. Que ganharia Sérgio Conceição em vir agora queixar-se se soubesse que, dentro de um par de dias, já teria caras novas e poderia dispensar algumas unidades do grupo de trabalho?

Sérgio Conceição renovou contrato a 24 de maio, há quase dois meses. Desde então, o FC Porto contratou três jogadores: João Pedro, Saidy Janko e Ewerton. Só o brasileiro chegou ao Dragão com a concordância do treinador. 

Por isso, desde logo, questiona-se como é que, desde que o treinador campeão nacional renovou contrato, já chegaram mais jogadores de que ele não precisava do que aqueles de que necessita. 

A saga do pensamento da massa adepta em relação à contratação de Janko foi uma autêntica montanha russa. Primeiro fazia sentido, pois Sérgio Conceição treinou cinco meses em França e por isso passou a conhecer todos os jogadores da Liga francesa - até aqueles que, como Saidy, não tinham mostrado mais do que medianas qualidades. Primeiro era para jogar a lateral-direito, no lugar de Ricardo Pereira. Depois afinal poderia ser para lateral-esquerdo. Mas pouco depois já era solução para jogar mais à frente, no meio-campo. Voltas e mais voltas a tentar compreender o porquê desta contratação. A conclusão parece iminente: afinal não era um desejo do treinador e vai muito provavelmente seguir por empréstimo.

Poderão dizer que dois milhões de euros não constituem uma compra muito extravagante. Mas são. São para um clube que continua sob restrições da UEFA para o cumprimento do fair-play financeiro e que não investe no treinador que fez do FC Porto campeão em 2017-18. Como se sente um treinador que vê que não há dinheiro para umas coisas mas aparenta haver para outras? 

Ewerton, tal como Saidy, não foi um pedido de Sérgio Conceição. E francamente, se não fosse um jogador do Portimonense, ou mais concretamente do clube cuja SAD tem como accionista maioritário Teodoro Fonseca, provavelmente nunca teria assinado pelo FC Porto. 

Isto não pode ser confundido com desprimor pelo jogador. Se calhar não deve haver jogador mais feliz do que Ewerton por, neste momento, estar a trabalhar no FC Porto. Mas estamos a falar de um jogador que se exibiu a um nível não mais do que mediano na última época e que não é melhor do que os que já cá estavam. «É para o lugar de André André», dirão. Claro. André André foi titular três vezes no último Campeonato, teve uma utilização residual e o FC Porto tem uma equipa B cara e sob constante investimento (em agosto entraremos com maior profundidade neste assunto e aproveitaremos para analisar alguns negócios que têm envolvido a equipa B...). A sério que o papel que André André desempenhou em 2017-18 necessitava de uma ida ao mercado? Por certo que não. 


Sérgio Conceição falou em «meia dúzia de jogadores sem capacidade» para jogar no FC Porto. Depois enumerou sete nomes (Oleg, Mikel, Diogo Leite, Saidy Janko, Ewerton, Bruno Costa e André Pereira - todos lançados na segunda parte) e concluiu que eram necessárias condições. Entre estas 7 unidades, nenhuma delas tem em vista a titularidade ou um papel minimamente ativo na equipa base. A estes nomes poderíamos juntar Chidozie, Hernâni, Paulinho, Adrián ou até Waris.

Olhando ao plantel, neste momento o FC Porto está mais fraco do que a época passada. João Pedro, naturalmente, não tem ainda nem de perto nem de longe o nível de Ricardo Pereira. Iván Marcano, o melhor central do FC Porto, saiu e ainda não tem substituto. E isto não implica mudar apenas um jogador, mas sim uma dupla de centrais. Basicamente Sérgio Conceição perdeu apenas dois jogadores. Não é o fim do mundo: é natural isso acontecer no FC Porto. Não deve haver treinador que não tenha perdido pelo menos 2 titulares de uma época para a outra no FC Porto. O problema é que saíram dois jogadores que não têm, ainda, alternativas do mesmo nível num plantel que por si só já era curto.

Sérgio Conceição quer soluções porque sabe que necessita de outra forma de jogar em 2018-19. Não podemos estar novamente dependentes das bolas paradas de Alex Telles, dos lances individuais de Brahimi e de bolas despejadas para Marega ganhar na dimensão física. A determinada altura o futebol praticado pelo FC Porto na época passada foi previsível e limitado, mas de facto não havia muitas mais soluções. Sérgio Conceição quer evoluir, quer novas formas de jogar, quer mais qualidade. Merece essas condições. 

Poderíamos discutir a questão financeira, recordar que é difícil comprar antes de vender... Mas isso deixa de fazer sentido quando vemos que, das 3 contratações já efetuadas em 2018-19, duas delas não serviram pedidos do treinador para fazer face às necessidades do futuro próximo.

Além disso, poucos dias após Sérgio Conceição ter renovado contrato, ouvimos o diretor de comunicação do FC Porto afirmar isto: «Neste preciso momento em que estou a falar o FC Porto já pode gastar 34 milhões de euros. O FC Porto já tem 22 milhões de euros garantidos de Ricardo Pereira, dado que vendeu por 20 mas dois já estão garantidos. Mais os 12 milhões de euros de Boly. Não quer dizer que vá gastar, mas já pode. Querem sempre passar a ideia de que o FC Porto está refém do 'fair-play financeiro'. Não é verdade. Teve um aperto, mas está a sair dele graças às medidas da administração que resultaram muito bem».

É de recordar que esta afirmação foi feita ainda antes da saída de Diogo Dalot para o Manchester United. E foi feita no mesmo dia em que ouvimos isto: «Na época passada [a SAD] fez 63 milhões de euros e podia ter gasto o mesmo valor. Não o fez por uma decisão da administração». Ok. Podia ter gastado 63 milhões de euros, mas vá, ficaram-se pelo Vaná, segundo algumas teorias para evitar que fosse para o Benfica - boa lógica, de todos os jogadores que poderiam desviar do Benfica, desvia-se um terceiro guarda-redes. 

Francisco J. Marques não faz parte do Conselho de Administração da SAD, não é a pessoa indicada para falar ou responder a estas questões, mas também não ouvimos Pinto da Costa ou Fernando Gomes falar da realidade financeira e das expetativas para 2018-19. Então afinal há dinheiro? Há condições para dar condições a Sérgio Conceição? 

É imperativo. O plantel necessita de reforços - reforços, não contratações! - em todos os setores. Não é preciso imaginar quais: Sérgio Conceição sabe e já os pediu. Os mais otimistas não tardarão em dizer: «Na época passada também diziam que o plantel não servia e fomos campeões com recorde de pontos!» É verdade, sim senhor. Mas Sérgio Conceição, o primeiro a acreditar na época passada, não hesitou em ser o primeiro a desacreditar face às condições que tem agora em mãos. Não pode haver maior alerta do que este. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (2)

Contrato até 2021
Vincent Aboubakar - No início da época, perspetivava-se que Aboubakar, sendo titular, conseguiria sem problemas superar as contribuições em golos de André Silva na última época. E assim foi, com o camaronês a conseguir 26 golos e 7 assistências. Mas o mais notório é que Aboubakar praticamente fez isso em meia época, o que diz muito do elevado rendimento que teve até janeiro e da grande quebra que sofreu desde então. 

Entre problemas físicos e quebra de rendimento, Aboubakar fez apenas um golo e uma assistência nos últimos quatro meses da época. Até então, os seus golos foram sendo sempre sinónimo de vitórias - o FC Porto venceu 18 dos 19 jogos em que Aboubakar marcou. O camaronês, além dos golos que marcou, criou tantas ocasiões de golo flagrantes como Soares e Marega juntos (13), mas dos três foi aquele que teve menor eficácia em duelos ganhos (41%) e dribles eficazes (53%). Embora grande parte dos golos de Aboubakar pareçam quase sempre obtidos em esforço (há quase sempre um ressalto ou um desvio ao barulho), terminou a época como melhor marcador da equipa, mas a sua época teve claramente um «antes» e «depois». O mesmo é dizer que o Aboubakar da primeira parte da época tem tudo para se manter como referência goleadora da equipa, mas o Aboubakar pós-janeiro não pode carregar as dependências ofensivas da equipa. 

É de recordar que a SAD comprou a totalidade do passe de Aboubakar no decorrer da época, elevando o seu custo total a 11,5 milhões de euros, além da operação de renovação de contrato ter custado 5,1 milhões de euros (verba que inclui prémio de assinatura e comissões, tendo sido uma das renovações contratuais mais caras da história da SAD). É um ativo que tem que continuar a ser rentabilizado, até porque não aparenta haver compradores (pelo menos que agradem a todas as partes) que cubram o investimento em Aboubakar, mas o avançado tem que ser mais do que um jogador de meia época, embora ter tido interferência direta em 33 golos sejam números que muitos avançados não conseguem numa temporada inteira. 

Contrato até 2019
Gonçalo Paciência - Repescado no mercado de inverno, na altura quando a saída de Soares estava a ser negociada, o avançado português acabou por ser remetido a um papel secundário no FC Porto, até porque o brasileiro acabou por ficar no plantel. Foi apenas duas vezes titular, uma contra o Sporting (o único jogo em que conseguiu ter interferência decisiva, no passe para Brahimi), e de resto foi suplente utilizado de forma residual. A segunda metade da época acabou por quebrar o rendimento que estava a ter em Setúbal e, neste momento, parte no último lugar da hierarquia de opções para o ataque e dificilmente o FC Porto terá interesse em ir ao mercado pescar um jogador para ser suplente de Gonçalo Paciência. Ainda assim, face às caraterísticas e talento reconhecido por todos os que já trabalharam com o avançado, a um ano do final de contrato justificar-se-ia a renovação, pois o avançado, mesmo não ficando no plantel, pode perfeitamente ser titular na grande maioria das equipas da I Liga. Tudo dependerá do aval do Sérgio Conceição, sendo certo que ou joga com regularidade em 2018-19, ou arriscar-se-á a carregar o rótulo de eterna promessa. 

Contrato até 2020
Moussa Marega - O inesperado melhor marcador da equipa no Campeonato. Semana após semana, Marega conseguia combinar os mais sofríveis números no contacto com bola com a garantia de que ia fazendo um golo por jornada. Sérgio Conceição encontrou uma forma de encaixar a dimensão física de Marega na equipa e fazer com que o maliano, embora poucas vezes conseguisse acertar uma diagonal ou um cruzamento, tivesse sempre presença no ataque, ajudasse a esticar o jogo e a pressionar a linha defensiva adversária. Não é assim tão comum conseguir 22 golos no Campeonato - o último a fazê-lo foi Jackson, em 2013 -, por isso Marega distingue-se pela média de golos que conseguiu na Liga, uma surpresa que talvez não encontra paralelo desde os tempos de Pena. 

E agora? Agora seria a oportunidade perfeita para conseguir uma grande venda com Marega. Um jogador pelo qual ninguém dava dois tostões (daí que a SAD tenha dado 30% do passe de Marega ao Vitória de Guimarães aquando da contratação de Soares), que só não foi dispensado no início da época porque não sobravam mais opções e que foi reabalitado. O próprio jogador, mesmo sendo aclamado pela massa adepta, não se inibiu de afirmar que gostaria de ir para Inglaterra, mesmo sem saber se haveria propostas: Marega sabe que esta época foi única. Tem 27 anos, dois anos de contrato para cumprir e há que ter em conta o desempenho nos jogos grandes.

Entre Champions, clássicos e até os jogos com o SC Braga, foram 15 partidas em que Marega não só ficou em branco como foi sendo invariavelmente a unidade de menor rendimento na equipa - exceção à exibição no Mónaco, onde fez duas assistências. É certo que a I Liga não tem apenas quatro equipas, por isso Marega pode continuar a ter golo contra a maioria dos adversários, mas é altamente improvável ultrapassar este pico de valorização. O jornal O Jogo já deu conta de uma alegada recusa de 25 milhões de euros por Marega e, sendo verdade, seria apenas e só uma das três melhores (não confundir com maiores) vendas da história do FC Porto. A média de golos é um mérito intocável, mas Marega desperdiçou tantas ocasiões de golo flagrante como Soares e Aboubakar juntos (21 - 9 delas em clássicos), embora dos três o maliano tenha sido o jogador que melhor eficácia de dribles (65%) e duelos ganhos (48%) teve, tendo sido também o mais rematador (96 disparos na Liga, contra 77 de Aboubakar e 53 de Soares). Ainda assim, e apesar da evolução desde o início da época, foi o pior passador do plantel (67%) e o jogador com maior percentagem de perdas de posse nas provas da UEFA. Continuar a apostar num esquema de jogo tão dependente da dimensão física de Marega é uma fórmula que pode não surtir o mesmo sucesso na próxima época. Por isso, sim, se houver propostas, poderá ser a altura ideal para Marega sair... Restando saber se Sérgio Conceição planeia, ou não, continuar a apostar num esquema que privilegie - ou que faça mesmo depender - a presença de Marega.

Contrato até 2021
Tiquinho Soares - Se Aboubakar só durou até janeiro, Soares só durou em fevereiro. Esteve à beira de sair no mercado de inverno, mas o negócio falhou e Soares acabou por permanecer no plantel, tendo de imediato sido puxado para a titularidade por Sérgio Conceição, que recuperou bem o avançado. Soares entrou a matar, com 10 golos em fevereiro, mas desde então não mais voltou a marcar, vítima de uma lesão que lhe tirou um mês de competição numa altura em que estava em excelente forma. O brasileiro já tinha tido o azar de perder a titularidade logo no arranque da época, fruto de nova lesão, e a sua produtividade ofensiva acabou por se revelar curta nas últimas semanas da temporada. Dificilmente terá mercado para sair e tudo aponta para a sua continuidade no FC Porto, com o desafio de ter que melhorar a sua média de golos na Liga (um a cada duas jornadas).

terça-feira, 26 de junho de 2018

Análise 2017-18: os atacantes (1)

Contrato até 2020
Jesús Corona - Muitos esperavam que 2017-18 fosse a época da afirmação, mas a última temporada acabou por ser a pior do extremo mexicano ao serviço do FC Porto. A sua concorrência para a posição eram, basicamente, jogadores que o FC Porto havia dispensado no passado recente, mas a inconsistência acompanhou toda a temporada de Corona, que terminou a época com apenas 3 golos e 4 assistências. Sérgio Conceição bem puxou por Corona, fazendo dele titular no início da época, mas, com exceção ao grande golo em Braga, foi um ano de pouquíssima produtividade para Corona, por certo também afetado por problemas do foro familiar que devem ser tidos em conta. Ainda assim, contam-se pelos dedos das mãos as vezes em que Corona fez a diferença, e muitas as em que mal se fez notar em campo. O jogador de 25 anos custou 10,5 milhões por 70% do passe e tem apenas mais dois anos de contrato. Ou seja, aproxima-se o momento em que há que decidir se vamos renovar a aposta em Corona ou se o melhor será tentar encontrar uma saída. Tem tudo para ser, a par de Brahimi, o principal desequilibrador no plantel, mas três anos depois continuamos à espera do mesmo: que o potencial se traduza em eficiência. Ter que esperar quatro épocas até ver um match-winner se afirmar não costuma ser bom sinal.  

Contrato até 2019
Yacine Brahimi - O mais virtuoso jogador do plantel e o rei do drible. Com 12 golos e 10 assistências (ficou a uma contribuição da melhor época da carreira), Brahimi foi muitas vezes um oásis de criatividade e imprevisibilidade num futebol limitado, em grande parte da época, a jogo direto e bola na frente. Brahimi acabou a época com o maior número de dribles eficazes da Liga (167 - mais do dobro do segundo melhor da I Liga, Gelson Martins, e apenas superado por Messi nas Ligas europeias) e foi o jogador com mais duelos ganhos no Campeonato, num total de 306. Foi o jogador mais castigado dos três grandes, com 95 faltas sofridas, e teve apenas um factor particularmente negativo no seu rendimento: a ineficácia nos cruzamentos (embora a sua função fosse sempre mais o movimento interior), pois em toda a época teve apenas um cruzamento eficaz no Campeonato. 

E agora? Brahimi está a um ano do final de contrato, por isso ou renova ou sai. A questão é que Brahimi nunca será um jogador que garantirá uma grande venda ao FC Porto, pois a SAD detém apenas 50% do passe, e as opções de compra e revenda estabelecidas com a Doyen expiraram em 2017. E tendo em conta que Brahimi poderá assinar livremente por outro clube a partir de janeiro, é natural que, com o aproximar do próximo ano, fique cada vez mais difícil renovar com o argelino, pois as exigências dos jogadores e dos respetivos representantes sobem sempre a partir do momento em que começam a surgir outros clubes em carteira. Um caso para definir o quanto antes, pois Brahimi na próxima época dificilmente valerá mais do que agora, e desportivamente o FC Porto dificilmente arranja um extremo da sua qualidade pela verba que o argelino eventualmente render. Renovar será caro, muito caro, e difícil, mas desportivamente perder Brahimi seria um golpe rude para Conceição. 

Contrato até 2019
Hernâni - Ficou no plantel meramente perante a falta de alternativas e nada mudou desde que assinou pelo FC Porto: não tem qualidade para jogar a este nível. Foi apenas uma vez titular no Campeonato e foi jogando alguns minutos residuais ao longo da época, tendo contribuído com apenas um golo e uma assistência. A sua grande velocidade é uma caraterística que não é acompanhada por capacidade de decisão, eficácia no 1x1 ou perigo para as balizas adversárias. Tem apenas mais um ano de contrato, logicamente não justifica a renovação e o FC Porto deve procurar uma saída que permita o melhor encaixe financeiro possível - por outras palavras, não vale a pena renovar para andar a emprestar. O que Hernâni produziu na equipa A nesta época um extremo da equipa B não faria pior. 

Compra obrigatória
Majeed Waris - Foi o único jogador escolhido a dedo por Sérgio Conceição como reforço para o FC Porto em 2017-18, mas o ganês não conseguiu ter qualquer impacto na equipa. Além de ter chegado a um clube, país e realidade muito diferentes, Waris não trazia qualquer tipo de ritmo competitivo de França, algo que se refletiu no seu rendimento - ou falta dele. Não voltou a jogar desde que foi lançado na «piscina» de Paços de Ferreira, num jogo totalmente impróprio para as suas caraterísticas (e o treinador seria, certamente, o primeiro a saber isso), e pelo que foi o seu rendimento em 2017-18 não justificaria a continuidade. No entanto, a SAD está obrigada a ficar com Waris a título definitivo, e tudo aponta para que o avançado seja um jogador particularmente explorado por Sérgio Conceição na próxima época. Waris terá a possibilidade de começar a época de raiz, de fazer a pré-época, de trabalhar a vertente física e ser integrado nas ideias do treinador. Se Waris foi o único escolhido a dedo por Sérgio Conceição na última época, seria uma surpresa e até mau sinal se o treinador desistisse da sua aposta tão cedo. Por isso, Waris pode muito bem tornar-se um dos reforços para 2018-19.  Deve.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Análise 2017-18: os médios

Contrato até 2022
Danilo Pereira - Um dos maiores elogios à época do FC Porto é recordar que a equipa esteve privada durante quase meia época do médio-defensivo, possivelmente o mais importante e valioso jogador no arranque da pré-época. Adaptou-se ao esquema de dois médios de Sérgio Conceição, sem nunca perder a sua preponderância defensiva: nas 19 jornadas em que alinhou na Liga, apenas foi driblado em 5 ocasiões por adversários. Danilo foi também o médio de toda a competição com maior percentagem de duelos ganhos (63%) e de duelos aéreos ganhos (72%). Marcou apenas uma vez na Liga, mas esteve em quatro dos golos do FC Porto na Champions. Estava na calha para a saída no fim da época, mas a lesão obrigou a SAD a rever os seus planos para o médio - e ainda bem para a equipa, que conserva um dos melhores jogadores, profissionais e candidato a integrar o grupo de capitães.

Contrato até 2020
Sérgio Oliveira - A surpreendente escolha de Sérgio Conceição para os jogos grandes estava longe de correr bem, pois entre seis jogos de Champions e clássicos, o FC Porto venceu apenas um com o médio no 11. Mas Sérgio Oliveira acabou por aproveitar o espaço com a lesão de Danilo Pereira para entrar no 11, e por lá se manteve até ao final da época. Esteve a um nível muito elevado em fevereiro, com 3 golos e 2 assistências na Liga, mas apesar da notória evolução esta época continua a faltar a consistência que possa fazer dele um jogador «de época». Ganhou intensidade e já não é apenas o médio que chutava e batia livres, tendo sido o 5º maior criador de ocasiões de golo do FC Porto, mas muitas vezes «desliga-se» do jogo. A continuidade de Danilo e Herrera deve remetê-lo ao papel de alternativa válida para a próxima época, sendo que a sua situação contratual terá que ser revista muito em breve. 

Contrato até 2019
André André - Cumprida a terceira época no FC Porto, é tempo de dizer adeus a André André. Os dois bons meses que realizou com Lopetegui já vão longe e, a caminho dos 29 anos e a uma época do final de contrato, o médio português não apresenta o nível desejado para jogar num FC Porto campeão. Jogou apenas 331 minutos no Campeonato, apenas três vezes como titular, e apesar do apreço mantido pela massa adepta por jogadores portugueses e portistas - sobretudo os não saem nem são vendidos à primeira oportunidade - não faz sentido manter André André no plantel para mais uma época a alternar entre banco, bancada e minutos residuais de jogo. O seu regresso a Guimarães está a ser negociado e resta desejar boa sorte a André André e felicidades futuras, menos nos jogos contra o FC Porto. 

Contrato até 2019
Héctor Herrera - Porquê sempre ele? Foi, por razões óbvias, um dos rostos da conquista do título. Mais do que o golo na Luz, que mudou a história do Campeonato, Herrera distinguiu-se pela forma incansável com que se apresentou jogo após jogo, encaixando na perfeição no papel idealizado por Sérgio Conceição para o meio-campo. No FC Porto, Herrera foi o médio com mais desarmes (83), o 3º principal criador de oportunidades de golo (50) e o médio que mais duelos ganhou (221). Numa época de grande exigência para o mexicano, muitas vezes a ter que trabalhar por dois no meio-campo, destaca-se o facto de ter sido desarmado apenas 22 vezes em 29 jornadas, estatística que contraria a imagem de displicência que tantas vezes lhe foi associada, bem como o facto de ter sido o 3º jogador com mais passes para o meio-campo adversário e o 5º com mais passes no último terço. 

A defender ou a atacar, foi uma época completa e de bom nível de Herrera, que agora levanta questões para o futuro. Aos 28 anos, está a uma época do final de contrato; já atingiu o seu pico de valorização, mas Sérgio Conceição não pode perder meia equipa. Logo, está entre a saída e a possibilidade de passar a ser «mobília», pois dificilmente haverá contexto mais favorável para uma transferência e tão grande estado de graça entre os adeptos. Com Sérgio Conceição, e esta forma de jogar, é essencial que permaneça, mas a grande oportunidade de uma venda pode não voltar a aparecer. 

Contrato até 2021
Óliver Torres - Foi o principal dinamizador do bom futebol praticado pelo FC Porto no início da época, mas deixou de ser opção para Sérgio Conceição, sobretudo quando a aposta em dois médios passou a ser mais declarada. Chegou a ser expectável que pudesse sair em janeiro, a tempo de encontrar uma solução que contornasse a avultada verba que teria que começar a ser paga ao Atlético (a SAD pagou 5 dos 20 milhões de euros no primeiro semestre), mas o espanhol permaneceu na Invicta. Que Óliver tem nos pés futebol e ideias de jogo que não existem em mais nenhum jogador do FC Porto, ninguém pode duvidar; mas que as suas caraterísticas não eram as mais ideais para o meio-campo de Sérgio Conceição, também não. Agora, ou Sérgio Conceição tem um papel ativo para Óliver em 2018-19, ou o seu posicionamento no clube terá que ser revisto. Óliver não pode ser uma mera alternativa, um jogador que vai para o banco ou entra para os 20 minutos finais e que só joga perante a indisponibilidade de um ou dois colegas. Não é um estatuto condizente com o seu custo. Óliver tem que jogar na próxima época, pois um dos maiores investimentos da história do FC Porto não pode estar «parado». As escolhas de Sérgio Conceição não têm que obedecer a durações de contrato ou dinheiro investido, mas o caso de Óliver não pode ser tratado como apenas mais um - de recordar que na informação prestada à CMVM o FC Porto referiu-se à cláusula de compra como sendo opcional, não obrigatória. Óliver tem que jogar na próxima época, seja aqui ou noutro clube, ou pelo menos ser um jogador para o qual Sérgio Conceição terá planos mais ativos, mesmo que isso demore mais alguns meses de trabalho. 

Compra obrigatória
Paulinho - Não conseguiu entrar no «comboio» da equipa e acabou por ter um papel irrelevante na segunda metade da época. Não foi um pedido expresso de Sérgio Conceição, mas tinha caraterísticas que poderiam ter sido úteis ao FC Porto (nomeadamente a forma como coloca bolas em zonas de finalização), sobretudo quando pensamos o quão inconsistentes jogadores como Hernâni, Otávio ou Corona foram sendo. Os três jogadores que chegaram ao FC Porto por empréstimo em janeiro fizeram-lo meramente por contingências no fair-play financeiro, por isso à partida Paulinho fica no FC Porto a título definitivo - a que preço, é a questão, pois é um jogador que tem várias limitações na dimensão física. É demasiado frágil para jogar no miolo do meio-campo, mas não é rápido e explosivo o suficiente para pressionar na frente e dar largura ao jogo do FC Porto. O pior que poderia acontecer é Paulinho ficar no FC Porto não por aquilo que Sérgio Conceição viu nos últimos meses, mas pelo que ficou acordado com o Portimonense em janeiro. Mas tendo em conta que vimos, com Sérgio Oliveira, a grande diferença que pode ser para Sérgio Conceição ter um jogador em janeiro e tê-lo numa pré-época, esperemos que Paulinho se revele reforço e não um fardo

Contrato até 2021
Otávio - Esteve longe da desejada época de afirmação - acabou por ter apenas pouco mais de metade do tempo de utilização da temporada 2016-17. Numa época em que a SAD decidiu reforçar a aposta em Otávio (comprou 15% do seu passe à GE Assessoria, em novembro, por 2,1 milhões de euros - uma verba que se calhar poderia ter desbloqueado uma renovação de contrato bem mais pertinente no plantel...), o brasileiro nunca conseguiu encher as medidas aos olhos do treinador, apesar de ter sido titular na reta final da temporada. Embora não duvidem que Otávio é um jogador de potencial e talento, andou muitas vezes perdido entre a meia direita e a zona central, e acabou por ter mais cartões (5) do que intervenção em golos (3) na Liga. Foi sendo alternativa, curta, num plantel em que a concorrência não deveria ser a mais feroz para o brasileiro. Acabou por fazer melhores jogos em 2016-17 do que nesta temporada. 

É de recordar que Otávio custou inicialmente 2,5 milhões por 33% do passe (a SAD entretanto passou a declarar ter apenas 32,5%). Em outubro de 2016, a SAD comprou mais 20% de Otávio, por 2,9 milhões de euros. E no primeiro semestre comunicou a compra de mais 15%, a troco de 2,1 milhões de euros - e é deveras curioso que a GE Assessoria, uma empresa que tinha apenas 20% do passe de Otávio quando o brasileiro foi negociado para o FC Porto, já conseguiu vender 35% à SAD. Contas feitas, são já 7,5 milhões de euros investidos em Otávio, de quem o FC Porto tem 67,5% do passe, proporção que faz dele um dos ativos mais caros do clube. A aposta em Otávio foi reforçada em época de contenção financeira e de incumprimento do fair-play financeiro, algo que terá que dizer muito da aposta no brasileiro no médio prazo. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Análise 2017-18: os centrais

Saiu a custo zero
Iván Marcano - Um exemplo de sobriedade e maturidade em toda a sua estadia no FC Porto. Chegou com low profile, rapidamente agarrou e justificou o lugar no 11, chegou ao grupo de capitães e despediu-se como campeão, marcando inclusive o último golo da época 2017-18 (na qual fez sete golos e uma assistência). O FC Porto não conseguiu renovar com o espanhol atempadamente e, naturalmente, Marcano tornou-se um alvo cada vez mais apetecível no mercado, a ponto de ter ofertas muito superiores às do FC Porto para prosseguir a carreira. Perto dos 31 anos, seguiu o caminho lógico, mudando-se para Itália e deixando o FC Porto órfão daquele que foi o melhor central da I Liga na última época. Com o aproximar do final do contrato, logicamente que passou a ser cada vez mais «caro» renovar com Marcano. O tempo dirá se a compra de novos centrais para 2018-19 se revelará mais ou menos dispendiosa do que teria sido renovar com Marcano, que faria perfeitamente mais duas épocas de bom nível. Para já despedimo-nos de um profissional exemplar e de um dos bons jogadores do FC Porto da última década.

Contrato até 2021
Felipe - Abençoada a hora em que Sérgio Conceição decidiu mandar o brasileiro para o banco durante uns jogos. Na primeira parte da época, chegou a ser sofrível ver Felipe em alguns momentos. Desconcentrado, desleixado, ultrapassando muitas vezes os limites da agressividade e cometendo uma enxurrada de faltas desnecessárias e em posições comprometedoras. Quando voltou à equipa, em janeiro, surgiu renovado, apesar da comprometedora exibição no Restelo, e partiu para uma série de boas exibições, tendo ainda conseguido tornar-se o 2º central com mais interceções na Liga (80) e o 2º defesa com mais duelos aéreos ganhos (134) - dois dados notáveis quando temos em consideração que o FC Porto foi a equipa que menos teve que defender na Liga. Na próxima época, sem Marcano, Felipe terá que assumir o papel de «patrão» da defesa e a sua responsabilidade será redobrada, tendo em conta que o setor defensivo será o que terá mais alterações na equipa. O Felipe da segunda metade da época tem tudo para dar conta do recado. 

Final de contrato
Diego Reyes - O central mexicano foi comprado ainda em 2012. Nas duas primeiras épocas jogou mais pela equipa B do que pela A, seguiram-se dois empréstimos para Espanha e regressou ao Dragão para ter a sua época de maior utilização, mas ainda assim insuficiente para agarrar-se ao 11. Reyes entrou bem na equipa quando Felipe saiu do 11, teve uma sequência de boas exibições que justificavam a continuidade, mas depois da eliminatória com o Liverpool o central deixou de ser aposta. Reyes chegou ao final de contrato e o seu futuro passa pela saída do FC Porto, numa operação que pode revelar-se particularmente complexa - não esquecer que o passe de Reyes, ainda antes do jogador chegar ao Dragão, foi alienado ao fundo Gol Football Luxembourg, uma offshore de Pini Zahavi, e neste tipo de acordos os fundos nunca perdem dinheiro. Embora tenha conseguido algumas boas exibições na última época, Reyes teve diferentes treinadores, diferentes (pré-)épocas no FC Porto e, ainda assim, nunca conseguiu ter o estofo necessário para se fixar na equipa. Foi um investimento caro da SAD, mas apesar de ter feito a sua melhor época pelo FC Porto, mesmo com a saída de Marcano o clube prefere recrutar novos centrais no mercado do que tentar a renovação com Reyes. Ficará sempre a impressão de que Reyes poderia ter dado mais, mas foram cinco épocas à espera que se afirmasse - e como dar-lhe a sexta oportunidade implicaria um contrato prolongado, percebe-se que os seus agentes estejam a procurar uma solução longe do Dragão e que a SAD já prepare o futuro nesse sentido.

Contrato até 2022
Osorio - Fez apenas um jogo pelo FC Porto - derrota no Restelo. Não mais voltou a jogar... e foi campeão. Apesar de a contratação de Osorio não ter trazido quaisquer benefícios para 2017-18, no momento do seu empréstimo por parte do Tondela já estava prevista a sua permanência a título definitivo no Dragão. Osorio tem caraterísticas físicas e atléticas muito interessantes, mas no Tondela não mostrou nenhum potencial fora do comum - revelou até muitas dificuldades no jogo aéreo e em aspetos básicos de um central. Fica a dúvida se fica no clube por causa da cláusula de compra obrigatória, ou se Sérgio Conceição acredita de facto no seu valor. Osorio tem tudo o que se pode desejar a nível físico e atlético num central, mas tem basicamente que evoluir em todos os aspectos - marcação, posicionamento, timing de entrada sobre a bola, jogo aéreo. Para já ganhou uma pré-época para mostrar serviço, sabendo que, com as saídas de Marcano e Reyes, é a par de Felipe o único central a transitar de uma época para a outra. Será preciso muito, muito trabalho por parte do venezuelano. 

terça-feira, 12 de junho de 2018

Análise 2017-18: os laterais

Já transferido
Ricardo Pereira - Talvez o melhor/mais consistente jogador português da I Liga 2017-18. Semana após semana, estivesse o FC Porto num momento mais ou menos positivo, Ricardo manteve uma regularidade e disponibilidade física notáveis ao longo da época. O saldo de golos (2 na Liga) e assistências (5 na Liga, duas na Champions) acaba por ser modesto face à sua influência no ataque. Foi o defesa com mais dribles eficazes da Liga (48 - mais do que qualquer jogador, inclusive os avançados, do Benfica), o 3º jogador com mais desarmes da época (99) e criou 35 ocasiões de golo na Liga, com destaque para o facto de 14 delas terem sido flagrantes (o 2º mais influente no FC Porto). Além disso, foi o jogador do FC Porto com mais ações em campo ao longo da época, com uma média de 79 por partida. Vai deixar saudades, sobretudo tendo em conta que só tivemos Ricardo como lateral-direito praticamente uma época. Mais sobre a saída de Ricardo para o Leicester.

Em final de contrato
Maxi Pereira - Aos 34 anos, o lateral uruguaio conviveu mais do que nunca com o banco na sua carreira e entrou, naturalmente, na parte terminal da mesma. 11 titularidades no Campeonato e duas na Champions representam uma contribuição curta para um jogador com o seu peso salarial. A experiência de Maxi continua a ser apreciada e útil no balneário, e Sérgio Conceição confiou nela em alguns momentos importantes da época, mas numa equipa que depende tanto da profundidade e dos quilómetros dos laterais, o uruguaio, em final de contrato, não parece oferecer condições para «dar» mais uma época inteira como titular. A renovação está a ser discutida como hipótese perante uma baixa no salário, e Maxi tem a seu favor o facto de, com 34 anos, nunca ter tido uma lesão grave e continuar a treinar bem. Mas condições para aguentar uma época do mais alto nível? Dificilmente.

Contrato até 2021
Alex Telles - Quatro golos e 20 assistências para um dos jogadores mais aplaudidos do último ano. Alex Telles teve tudo: evolução, dedicação, capacidade de superação e regularidade, tendo ainda recuperado de uma lesão dura num momento crucial da época. Defensivamente Alex Telles, embora com contribuições mais modestas do que Ricardo, soube sempre cumprir, mas todos sabem que foi no ataque que mais se destacou: foi o recordista de ocasiões de golo criadas na Liga, com 95, que se traduziram em 13 assistências, embora a maior fatia tenha sido em bolas paradas. Foi o jogador com mais cruzamentos eficazes na Liga (41) e disciplinarmente esteve irrepreensível - apenas dois cartões em 30 jornadas. Tem mercado, é o jogador que pode valer mais dinheiro no plantel, mas é intenção do FC Porto segurá-lo. E bem. 

Já transferido
Diogo Dalot - Começou a época na II Liga, foi jogando na Premier League Internacional Cup e na Youth League e em outubro já se tinha estreado na Taça de Portugal, com uma assistência. Curiosamente, foi como lateral-esquerdo que acabou por ter mais espaço, devido à indisponibilidade de Alex Telles, e nunca destoou: assinou duas assistências em seis jornadas da I Liga e esteve à altura no decisivo clássico frente ao Sporting, apesar dos 18 anos. Jogou sempre com uma maturidade acima da média e foi dando provas de que o futuro do FC Porto poderia passar por ele. Entretanto, e como já sabem, Diogo Dalot já fez as malas e foi vendido ao Manchester United, após uma década ao serviço do FC Porto. A sua estadia no plantel principal acabou por saber a pouco, pois havia condições para muito mais. Em tempo e qualidade. Mais sobre a saída de Dalot para o Man. United.