«FIFA proíbe fundos de investimento.» Fomos bombardeados com esta frase nas últimas semanas. Rapidamente surgiram vozes que davam conta do fim da competitividade dos clubes nacionais. Os melhores clubes portugueses passariam a estar, diziam, ao nível dos melhores na Bélgica, Holanda e noutros países europeus de PIB superior ao de Portugal. Resumidamente, o nível de competitividade do futebol estaria adaptado à realidade económica e financeira do país em que está inserido. Uma valente treta.
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Acabar com um negócio de 1107 milhões? Rir. |
Para começar, um pormenor que muda tudo:
a FIFA não vai proibir os fundos de investimento. Vai proibir a partilha de passes com fundos de investimento, com terceiros, o tal
third-party ownership (TPO) que não se pratica em Inglaterra. Como muitos não sabem sequer a diferença, é normal que se leiam barbaridades como «FIFA proíbe fundos de investimento».
FC Porto, Benfica e Sporting praticam, já há alguns anos, aquela que vai ser a realidade alternativa ao fim da partilha de passes. Exemplificando: quantas vezes já ouviram que nos clubes ingleses «é proibido partilhar os passes com terceiros»? É verdade. Mas não deixam de manter negócios com fundos de investimento para contratar jogadores.
Estamos todos habituados à modalidade tradicional: o clube oferece uma parte do passe de um activo (jogador) a um fundo, a troco de determinado valor, e no momento da transferência desse activo entrega ao fundo a percentagem da receita a que tinha direito - sendo que os fundos nunca têm prejuízo, pois caso haja uma desvalorização os clubes têm que proceder à indemnização. Logo, a partilha de risco é um conceito utópico.
Os fundos de investimento vão continuar a existir. A FIFA não pode proibir este tipo de actividades. O que vai deixar de existir é a partilha de passes. E então entra em cena a alternativa: o financiamento. Um exemplo com um caso recente no FC Porto, nomeadamente a contratação de Walter.
«Na sequência da aquisição dos direitos desportivos e económicos do jogador Walter, realizada em Julho de 2011, a Sociedade celebrou um contrato com a For Gool Co. Ltd., no âmbito do qual esta entidade adianta o pagamento de parte do valor em dívida para com o clube vendedor, no montante de 2.000.000 Euros, a ser reembolsado pela Sociedade em Julho de 2012. Como remuneração deste acordo, aquela entidade auferirá 10% de uma eventual mais-valia numa futura transacção do jogador»
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Walter, um exemplo de negócio alternativo |
Na prática, o que acontece é que os fundos vão passar a operar como se fossem uma instituição bancária: avançam com o financiamento da contratação e depois são reembolsados, ou com taxa de juro previamente definida, ou a troco de uma percentagem de uma futura transferência. Na prática, os fundos de investimento nunca ficam com direitos económicos dos jogadores; depois, no momento da venda, recebem uma percentagem, além do reembolso do empréstimo. É algo que já se faz por toda a Europa, inclusive na sempre elogiada Inglaterra, e que tanto Benfica como Sporting já praticaram - curiosamente, em ambos os casos com a Doyen Sports. A única coisa que os fundos têm que fazer é declarar anualmente, às Federações de cada país, que não têm direitos económicos dos jogadores. De facto não têm: têm sim direito a uma percentagem de venda futura.
E damos o exemplo da Doyen Sports por causa da sua reacção ao fim da partilha de passes: «Não estamos nada preocupados, já que o nosso modus-operandi não é o TPO (third party ownership). Estamos preparados para isso e por isso é que nosso modelo é tão diferente dos outros». Ora aqui está. A FIFA quer proibir o TPO, mas não pode proibir os fundos. Por isso, a Doyen e outros fundos vão passar a ser financiadores de transferências e não detentores de partes de passes.
As vantagens? Possivelmente nenhuma. A FIFA não vai proibir o TPO com vista a maior transparência. Pelo contrário. Há muito que defendia a regulação e transparência dos fundos de investimento, mas o que vai acontecer é precisamente o contrário: menor transparência em todos os negócios.
Com o TPO, a FIFA tinha um sistema de monotorização que registava qualquer alienação de passes significativa nos clubes cotados em bolsa. Isso vai deixar de existir. Os clubes vão manter os negócios com os parceiros financeiros, mas as suas contrapartidas nem sempre vão ser esclarecidas. Um exemplo.
«A 9 de Março de 2012, a Sociedade celebrou com a For Gool Co. Ltd. um contrato de financiamento no montante total de 4.500.000 Euros. O valor financiado foi entregue em duas tranches (2.500.000 Euros em Março de 2012 e 2.000.000 Euros em Abril de 2012) e será reembolsado de uma só vez em 30 de Setembro de 2012. Este empréstimo vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências até 31 de Agosto de 2012 e dos montantes envolvidos nessas transacções.»
Um empréstimo que «vence juros variáveis em função da efectivação, ou não, de alienações dos direitos económicos de determinados jogadores no mercado de transferências e dos montantes envolvidos nessas transacções» é demasiado ambíguo. O comum adepto não terá acesso detalhado a este tipo de informação. A FIFA ainda poderá intervir nestes mecanismos, mas até ao momento não há informação nesse sentido. Sabe-se apenas que o TPO vai acabar. A Doyen Sports, por exemplo, chegou a pagar salários do Sporting («dificuldades de tesouraria» é mais soft), conforme disseram em comunicado. Que valores? Que contrapartidas? Boas perguntas.
Em relação ao TPO, vai haver um período de transição, à partida de três anos. Todas as alienações já registadas até ao início da época 2014-15 não sofrerão quaisquer alterações, mas a partir daqui haverá um limite. Resta saber se esse limite será aplicado em relação ao valor das alienações, ou ao número de alienações, ou a ambas. Certo é que a partilha de passes vai acabar, mas a relação entre clubes e fundos não. Porque razão iria a FIFA acabar com um negócio paralelo que move 1.107 mil milhões de euros (número da KPMG)?
A novidade sobre este novo mecanismo de financiamento é que os fundos vão ser bem mais selectivos nas escolhas dos clubes. Clubes em falência técnica, sob reestruturação, fora das competições europeias ou que não valorizem jogadores no mercado vão deixar de ser apetecíveis. Daí que o presidente do rival Sporting, Bruno de Carvalho, esteja tão empenhado em tentar acabar com quaisquer ligações entre clubes e fundos.
Bruno de Carvalho está a tentar salvar o clube da sua própria, chamemos-lhe, «auto-destruição».
Enquanto Benfica e FC Porto tiverem acesso ao financiamento com terceiros, o Sporting não conseguirá igualá-los em termos de competitividade. O facto de terem um bom punhado de jogadores da formação está a disfarçar esse grande abismo que há entre um clube e os dois rivais. Mas a longo prazo vão perceber que, em Portugal, são raros os casos
em que quem ganha é quem gasta menos. O Sporting está a tentar ser essa raridade. Resultado: em 9 jogos com Marco Silva, ganhou 3, e está já a 6 pontos do primeiro lugar.
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| Ele sabe porque não se cala |
Bruno de Carvalho é esperto, não digo o contrário. Enquanto ele fala, fala, fala e fala, os jornais têm que lhe dedicar tempo de antena, os comentadores têm muito que discutir e os adeptos também. Enquanto se fala sobre Bruno de Carvalho, esquece-se um pouco a pressão sobre o plantel e sobre o treinador. É uma estratégia que não é uma novidade, e que é bem aplicada - mas que só oculta os problemas, não os resolve.
A insistência de Bruno de Carvalho em tentar acabar com a ligação fundos-clubes é precisamente por já ter percebido que, enquanto Benfica e FC Porto tiverem apoios, não vão chegar-se à frente na luta pelo título. Ao rasgar unilateralmente o acordo com a Doyen Sports, Bruno de Carvalho fez com que mais nenhum fundo, em parte alguma do planeta, queira investir ou negociar com o Sporting. Então que faz ele? Tenta retirar a Benfica e FC Porto o que ele próprio já tirou ao Sporting.
Além disso: lembram-se dos 29 milhões de euros que o Benfica teve que pagar em Setembro para poder fechar o fundo do clube? O Sporting terá que fazer uma operação idêntica quando fechar o Sporting Portugal Fund. Não de valores tão superiores, mas as receitas operacionais e a capacidade orçamental do Sporting, sob reestruturação, são muito inferiores às do Benfica. Se a competitividade não cresce, há que tentar retirá-la aos rivais, pois haverá um grande problema para resolver em Alvalade.
Portanto, podemos contar com muito Bruno de Carvalho nos próximos meses, mais fora do que dentro do relvado. Para sua infelicidade, o FC Porto continuará a ser um clube extremamente apetecível para investidores. Mas como é claro, a SAD deve adaptar-se às restrições da FIFA nos próximos três anos e combater o facto do fim da TPO retirar transparência às alienações de passes. Resumindo, o nosso faro terá que ser mais apurado do que nunca na procura de Mangalas e Brahimis e em saber separá-los dos Walters (com o devido respeito ao jogador).